{"id":89523,"date":"2026-05-29T17:06:25","date_gmt":"2026-05-29T20:06:25","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/futuro-sua-filosofia-e-disputa\/"},"modified":"2026-05-29T17:06:25","modified_gmt":"2026-05-29T20:06:25","slug":"futuro-sua-filosofia-e-disputa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/futuro-sua-filosofia-e-disputa\/","title":{"rendered":"Futuro, sua filosofia e disputa"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"950\" height=\"755\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/antonio-berni-argentinaweb-c6855779.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/antonio-berni-argentinaweb-c6855779.jpg 950w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/antonio-berni-argentinaweb-c6855779-300x238.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/antonio-berni-argentinaweb-c6855779-768x610.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 950px) 100vw, 950px\"><figcaption>A obra retrata a inf\u00e2ncia marginalizada no contexto da r\u00e1pida e desigual industrializa\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica Latina no s\u00e9culo XX. Antonio Berni (Argentina). Juanito Laguna (tr\u00edptico), s.d. Madeira pintada e colagem de metal. 220 \u00d7 300 cm. | Cr\u00e9dito: Casa de las Am\u00e9ricas (Cuba)<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<p><imgsrc=\"\" width=\"1\" height=\"1\" alt=\".\" border=\"0\">\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Todos os meses, nos \u00faltimos 10 anos, nossa equipe do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social realizou uma pesquisa, redigiu e elaborou um dossi\u00ea. Esses dossi\u00eas \u2014 que abrangem desde hist\u00f3rias do imperialismo e da liberta\u00e7\u00e3o nacional at\u00e9 an\u00e1lises de pol\u00edtica econ\u00f4mica, soberania, guerra e a ordem mundial em transforma\u00e7\u00e3o \u2014 t\u00eam circulado pelo mundo em diversas l\u00ednguas, como ingl\u00eas, hindi e portugu\u00eas, passando pelo \u00e1rabe, tailand\u00eas e espanhol. Este \u00e9 o nosso dossi\u00ea n. 100, e por isso decidimos fazer uma pausa para apresentar uma an\u00e1lise hist\u00f3rico-materialista de um conceito fundamental em nosso instituto: o futuro.<\/p>\n<p>Quando nosso instituto foi concebido em 2015, t\u00ednhamos tr\u00eas linhas principais de investiga\u00e7\u00e3o em vista:<\/p>\n<ol>\n<li>Compreender melhor o capitalismo contempor\u00e2neo e a natureza da luta de classes que o molda.<\/li>\n<li>Compreender melhor a ascens\u00e3o do que chamamos de extrema direita de um tipo especial (Instituto Tricontinental, 2024a).<\/li>\n<li>Compreender melhor o futuro \u2014 ou o que vem a seguir.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Essa terceira linha de investiga\u00e7\u00e3o surgiu de uma compreens\u00e3o materialista do processo hist\u00f3rico, que v\u00ea o presente n\u00e3o como uma realidade eterna, mas como algo aberto \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o. Em outras palavras, o presente pode ser moldado para se tornar um futuro de natureza diferente. O sistema capitalista em que vivemos n\u00e3o \u00e9 permanente: ele pode ser transformado em um sistema socialista por meio da luta de classes e do desenvolvimento das for\u00e7as produtivas.<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/1-46.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/1-46.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/15-300x110.png 300w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Julio Le Parc (Argentina), <em>Modulaci\u00f3n 455<\/em> (Modula\u00e7\u00e3o 455), 1981. Acr\u00edlico sobre tela, 200 x 200 cm.<\/p>\n<figure><\/figure>\n<p>Jos\u00e9 Venturelli (Chile), <em>Serigraf\u00eda<\/em> (Serigrafia), 1970, ed. 15\/90. 260 x 430 mm.<\/p>\n<p>Aqui, pela primeira vez, apresentamos uma an\u00e1lise filos\u00f3fica e pol\u00edtica do futuro. Inspirando-nos na tradi\u00e7\u00e3o do marxismo de liberta\u00e7\u00e3o nacional, defendemos que esse futuro deve ser chamado n\u00e3o apenas de <em>socialismo<\/em>, o objetivo, mas tamb\u00e9m de <em>esperan\u00e7a<\/em>, a sensibilidade para tal futuro (Instituto Tricontinental, 2021a).<\/p>\n<p>Esperamos que leiam este dossi\u00ea da mesma forma que leram os 99 anteriores e que o compartilhem, debatam e discutam coletivamente em c\u00edrculos de leitura e outros espa\u00e7os de forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Estamos sempre abertos \u00e0s suas contribui\u00e7\u00f5es e coment\u00e1rios.<\/p>\n<hr>\n<p>Todas as l\u00ednguas do mundo t\u00eam uma palavra para \u201cfuturo\u201d, o tempo que vem depois do presente. Por exemplo, nas l\u00ednguas mais faladas do mundo, estas s\u00e3o algumas das palavras para o futuro:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Ingl\u00eas: <em>future<\/em>, o tempo que ainda n\u00e3o aconteceu.<\/p>\n<p>Chin\u00eas mandarim: <em>w\u00e8il\u00e1i<\/em> (\u672a\u6765), o que ainda n\u00e3o chegou.<\/p>\n<p>Hindi: <em>bhavishya<\/em> (\u092d\u0935\u093f\u0937\u094d\u092f), aquilo que est\u00e1 por vir ou que se tornar\u00e1.<\/p>\n<p>Espanhol: <em>futuro<\/em>, o tempo que ainda est\u00e1 por vir.<\/p>\n<p>Franc\u00eas: <em>avenir<\/em>, o que est\u00e1 por vir.<\/p>\n<p>\u00c1rabe: <em>mustaqbal<\/em> (\u0645\u0633\u062a\u0642\u0628\u0644), aquilo que est\u00e1 por vir.<\/p>\n<p>Bengali: <em>bhobishyot<\/em> (\u09adekomst), aquilo que ainda est\u00e1 por vir ou por se tornar.<\/p>\n<p>Portugu\u00eas:<em> futuro<\/em>, o tempo que ainda est\u00e1 por vir.<\/p>\n<p>Russo: <em>budushchee<\/em> (\u0431\u0443\u0434\u0443\u0449\u0435\u0435), o que est\u00e1 por vir.<\/p>\n<p>Urdu: <em>mustaqbil<\/em> (\u0645\u0633\u062a\u0642\u0628\u0644), aquilo que est\u00e1 por vir ou que deve ser enfrentado.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Essas palavras n\u00e3o t\u00eam todas o mesmo significado; elas refletem diferentes abordagens culturais em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mudan\u00e7a. Algumas delas tratam do calend\u00e1rio vazio, da ideia de que existe um amanh\u00e3 assim como existe um hoje, enquanto outras tratam dos encontros que ocorrer\u00e3o e que devem ser enfrentados. \u00c9 importante reconhecer que, mesmo ao ler um texto como este \u2014 escrito em uma l\u00edngua e traduzido para v\u00e1rias outras \u2014, a palavra \u201cfuturo\u201d carrega uma variedade de significados que n\u00e3o podem ser totalmente transmitidos de uma l\u00edngua para outra. Embora essas palavras tenham diferentes perspectivas em rela\u00e7\u00e3o ao que est\u00e1 por vir, h\u00e1 perguntas que podemos fazer em todas as l\u00ednguas faladas na civiliza\u00e7\u00e3o capitalista: o futuro existe, ou estamos vivendo no que o realismo capitalista nos garante ser um presente permanente? (Fischer, 2009). Ser\u00e1 que existe mesmo um amanh\u00e3 que possa ser diferente de hoje?<\/p>\n<p>Essas quest\u00f5es s\u00e3o essenciais para o momento que vivemos, enquanto lutamos para compreender a cat\u00e1strofe e o <em>apartheid <\/em>clim\u00e1tico, a guerra permanente e o genoc\u00eddio sem fim, bem como a ditadura do capital financeiro e a normaliza\u00e7\u00e3o da austeridade. D\u00e9cadas de realismo capitalista obscureceram nossa consci\u00eancia, impedindo-nos de imaginar qualquer coisa al\u00e9m de uma cat\u00e1strofe global.<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"\" alt=\"\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Existe um futuro? Claro que sim. Estamos lutando para constru\u00ed-lo e estamos construindo-o agora.<\/p>\n<hr>\n<div>\n<figure><\/figure>\n<\/div>\n<p>Emilio Pettoruti (Argentina), <em>P\u00e1jaro rojo<\/em> (P\u00e1ssaro vermelho), 1959. \u00d3leo sobre tela, 116 x 63 cm.Acima<\/p>\n<h3><strong>Parte 1: Ruptura<\/strong><\/h3>\n<p>Na linguagem dominante do poder, o futuro \u00e9 apresentado como uma extens\u00e3o neutra do presente. \u00c9 medido em calend\u00e1rios, projetado em curvas de crescimento e gerenciado por meio de previs\u00f5es. Nessa perspectiva, o futuro n\u00e3o \u00e9 algo pelo qual se deva lutar, mas algo <em>pelo qual<\/em> se deve <em>esperar<\/em>. Chega automaticamente, como a p\u00e1gina seguinte de um livro cont\u00e1bil. Essa vis\u00e3o do futuro \u00e9 profundamente conservadora. Isso pressup\u00f5e que as estruturas de explora\u00e7\u00e3o, hierarquia e domina\u00e7\u00e3o que definem o presente ser\u00e3o simplesmente otimizadas, em vez de derrubadas. Essa vis\u00e3o do futuro \u00e9 reproduzida por todas as principais institui\u00e7\u00f5es da sociedade capitalista \u2014 como a m\u00eddia, as escolas, as universidades, <em>think tanks<\/em> e as funda\u00e7\u00f5es filantr\u00f3picas \u2014, que insistem em <em>slogans<\/em> vazios sobre mudan\u00e7a, mas, na verdade, pregam o evangelho de que \u201cn\u00e3o h\u00e1 alternativa\u201d ao sistema capitalista que nos sufoca.<\/p>\n<p>Na nossa opini\u00e3o, o futuro n\u00e3o \u00e9 uma data no calend\u00e1rio. \u00c9 um rompimento. Uma ruptura com a ordem existente, uma transforma\u00e7\u00e3o estrutural das rela\u00e7\u00f5es sociais, do poder pol\u00edtico e das possibilidades humanas. Falar do futuro dessa maneira n\u00e3o \u00e9 entregar-se \u00e0 fantasia, mas recuperar uma dimens\u00e3o da pol\u00edtica que foi deliberadamente suprimida: a capacidade de imaginar e construir um mundo fundamentalmente diferente daquele em que vivemos, um mundo que os projetos socialistas e de liberta\u00e7\u00e3o nacional dos s\u00e9culos XX e XXI buscaram construir e, mesmo com seus limites, come\u00e7aram a concretizar. Essa vis\u00e3o rejeita as ideias de continuidade controlada (reformismo) e colapso n\u00e3o planejado (catastrofismo). A classe dominante cria uma s\u00e9rie de futuros falsos: mitos do empreendedorismo, do capitalismo verde e da seguran\u00e7a militarizada \u2014 mas nada que tenha qualquer conte\u00fado emancipat\u00f3rio.<\/p>\n<p>As bases para essa vis\u00e3o do futuro foram desenvolvidas pelo fil\u00f3sofo marxista Ernst Bloch (2000) com sua no\u00e7\u00e3o do \u201cAinda N\u00e3o\u201d (<em>Noch-Nicht<\/em>). Para Bloch, inspirando-se diretamente nos escritos de Marx, o futuro n\u00e3o \u00e9 uma abstra\u00e7\u00e3o adiada para o amanh\u00e3, mas uma for\u00e7a ativa que est\u00e1 imersa no presente, lutando para emergir de suas limita\u00e7\u00f5es. A realidade \u00e9 inacabada, afirma Bloch, o que o colocou em desacordo com as correntes filos\u00f3ficas que tratam o mundo como algo fechado, conclu\u00eddo ou j\u00e1 totalmente explicado. Ele insistiu que o presente est\u00e1 impregnado de tend\u00eancias, desejos e contradi\u00e7\u00f5es que apontam para al\u00e9m. O \u201cAinda N\u00e3o\u201d n\u00e3o \u00e9 uma utopia que paira acima da hist\u00f3ria, mas um potencial latente contido nas condi\u00e7\u00f5es materiais e na luta coletiva. Esse \u201cAinda N\u00e3o\u201d pode ser percebido nos sonhos das lutas anticoloniais que encontraram express\u00e3o program\u00e1tica no comunicado final da Confer\u00eancia de Bandung (1955), na declara\u00e7\u00e3o de Belgrado da C\u00fapula do Movimento dos Pa\u00edses N\u00e3o Alinhados (1961), nas resolu\u00e7\u00f5es da Confer\u00eancia Tricontinental (1966) e na declara\u00e7\u00e3o sobre a Nova Ordem Econ\u00f4mica Internacional adotada pela Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas (1974). Isso tamb\u00e9m pode ser observado nos processos revolucion\u00e1rios desencadeados pela Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro (1917), pela Revolu\u00e7\u00e3o Vietnamita (1945), pela Revolu\u00e7\u00e3o Chinesa (1949) e pela Revolu\u00e7\u00e3o Cubana (1959) (Instituto Tricontinental, 2025a, 2025b).<\/p>\n<p>Nessa tradi\u00e7\u00e3o marxista, o futuro n\u00e3o \u00e9 inevit\u00e1vel. Essa vis\u00e3o baseia-se em duas proposi\u00e7\u00f5es materialistas que decorrem das contradi\u00e7\u00f5es do sistema capitalista.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, o pr\u00f3prio curso da hist\u00f3ria desenvolve as for\u00e7as produtivas e amplia o excedente social. Mas, como esses avan\u00e7os continuam limitados pela propriedade privada, eles tamb\u00e9m agravam a desigualdade e o sofrimento social da grande maioria. \u00c9 importante reconhecer que, hoje em dia, as for\u00e7as produtivas n\u00e3o se limitam \u00e0s f\u00e1bricas e \u00e0s m\u00e1quinas. Isso inclui tamb\u00e9m, por exemplo, o trabalho de cuidados, as infraestruturas digitais e as cadeias de abastecimento globais, todos organizados por meio de uma for\u00e7a de trabalho cada vez mais socializada. \u00c9 tamb\u00e9m fundamental observar que o capitalismo, simultaneamente, desenvolve essas for\u00e7as e sabota seu potencial, mantendo-as sob controle por meio da propriedade privada, dos monop\u00f3lios de plataformas uberizadas, da repress\u00e3o sindical, da austeridade, da militariza\u00e7\u00e3o e outras formas de controle capitalista.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, o sofrimento social inerente ao capitalismo gera indigna\u00e7\u00e3o e raiva, que podem se transformar espontaneamente em revolta. Mas essas lutas n\u00e3o avan\u00e7am automaticamente em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 emancipa\u00e7\u00e3o: elas s\u00e3o moldadas por for\u00e7as pol\u00edticas, seja em dire\u00e7\u00e3o ao socialismo \u2014 promovendo as demandas concretas do povo \u2014, seja contra ele \u2014 distorcendo essas demandas e colocando as pessoas umas contra as outras por meio de uma agenda t\u00f3xica e antissocial (Instituto Tricontinental, 2024d). O futuro, portanto, n\u00e3o \u00e9 algo que simplesmente <em>acontece<\/em>, mas algo que devemos <em>construir<\/em>, e s\u00f3 poderemos constru\u00ed-lo rompendo com as estruturas que geram e perpetuam o sofrimento. Essa vis\u00e3o rompe com o fatalismo e a inevitabilidade e nos lembra que a hist\u00f3ria \u00e9 aberta e que o presente cont\u00e9m possibilidades ainda n\u00e3o concretizadas que podem ser ativadas por meio da luta.<\/p>\n<p>A esperan\u00e7a, nessa tradi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 otimismo nem uma expectativa passiva, mas uma <em>orienta\u00e7\u00e3o militante<\/em> em rela\u00e7\u00e3o ao car\u00e1ter inacabado do mundo. Ela surge da mis\u00e9ria, da opress\u00e3o e da despossess\u00e3o, e da recusa em aceitar a mis\u00e9ria como destino. Para os movimentos do Sul Global que orientam o trabalho do nosso instituto, a esperan\u00e7a nunca foi um luxo. Isso se concretizou em diversos movimentos e organiza\u00e7\u00f5es liderados por camponeses, trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade, que representam esfor\u00e7os coletivos para promover a causa da dignidade (Instituto Tricontinental, 2025a, 2024b). Esses movimentos n\u00e3o lutam por uma vers\u00e3o melhor do presente, mas por uma ordem social totalmente diferente. O futuro deles n\u00e3o est\u00e1 ligado a um calend\u00e1rio, mas sim a uma transforma\u00e7\u00e3o estrutural. Esperan\u00e7ar \u00e9 reconhecer que o presente \u00e9 insuport\u00e1vel e passageiro e que as condi\u00e7\u00f5es de explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o nem naturais nem definitivas. Essa esperan\u00e7a \u00e9 perigosa para a classe dominante porque \u00e9 uma for\u00e7a concreta que transforma a consci\u00eancia, levando as pessoas a deixar de simplesmente suportar o presente para passar a agir em prol do futuro.<\/p>\n<p>Nessa tradi\u00e7\u00e3o de ruptura, o futuro n\u00e3o \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o individual: ele tem um car\u00e1ter coletivo. A cultura capitalista nos incentiva a imaginar um futuro particular \u2014 uma carreira, uma casa, seguran\u00e7a pessoal e o projeto intermin\u00e1vel de \u201cautoaperfei\u00e7oamento\u201d \u2014 ao mesmo tempo que nos priva de horizontes coletivos. Essa cultura \u00e9 marcada pela ansiedade individual, em vez de responsabilidade coletiva ou transforma\u00e7\u00e3o social. No capitalismo, o futuro do calend\u00e1rio \u00e9 tratado como algo administr\u00e1vel \u2014 como algo a ser previsto, programado, avaliado, garantido e gerenciado por institui\u00e7\u00f5es que se apresentam como neutras. Suas decis\u00f5es s\u00e3o apresentadas como necessidades t\u00e9cnicas, e n\u00e3o como escolhas pol\u00edticas, como quest\u00f5es a serem reguladas em nosso nome por especialistas, mercados, Estados e aparelhos de seguran\u00e7a. Essas institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o oferecem um horizonte de emancipa\u00e7\u00e3o, mas apenas a continua\u00e7\u00e3o controlada da cat\u00e1strofe. Nesse contexto, surge uma extrema direita de um tipo especial para propor um futuro <em>m\u00edtico<\/em> baseado na exclus\u00e3o, na hierarquia e na viol\u00eancia; trata-se de um sintoma da incapacidade do capitalismo de gerar um futuro positivo (Instituto Tricontinental, 2024a). O futuro n\u00e3o pode ser constru\u00eddo por essa extrema direita; ele deve ser reconquistado como um espa\u00e7o de soberania popular. Nem a cat\u00e1strofe nem a emancipa\u00e7\u00e3o s\u00e3o inevit\u00e1veis. \u00c9 preciso lutar contra o primeiro e lutar pelo segundo. Do ponto de vista da ruptura, ou da transforma\u00e7\u00e3o estrutural, o instrumento n\u00e3o \u00e9 o avan\u00e7o individual, mas sim for\u00e7as organizadas capazes de enfrentar o poder estabelecido, tais como partidos pol\u00edticos, sindicatos e movimentos sociais. Sem essas for\u00e7as, o \u201cAinda N\u00e3o\u201d continuar\u00e1 sendo um sonho sem caminho. A esperan\u00e7a requer estrutura, disciplina e persist\u00eancia.<\/p>\n<p>O futuro n\u00e3o \u00e9 algo que se situa fora da hist\u00f3ria da humanidade. J\u00e1 est\u00e1 presente em fragmentos, gestos e lutas que prenunciam outro mundo. Entre elas est\u00e3o as formas cooperativas de trabalho, as pr\u00e1ticas de cuidado, as experi\u00eancias de democracia popular e os processos inacabados e contestados de constru\u00e7\u00e3o socialista em pa\u00edses como China e Cuba (Instituto Tricontinental, 2021a, 2019a). N\u00e3o se trata de curiosidades marginais; s\u00e3o antecipa\u00e7\u00f5es de uma l\u00f3gica social diferente. Descrev\u00ea-los n\u00e3o significa romantiz\u00e1-los, mas compreender seu significado e seu potencial latente. Eles nos lembram que o mundo que buscamos construir n\u00e3o \u00e9 um horizonte abstrato, mas uma possibilidade concreta. A tarefa de um marxista n\u00e3o \u00e9 prever o futuro, mas sim se organizar para ele. Para romper com o presente, \u00e9 preciso clareza, coragem e disciplina coletiva. O futuro s\u00f3 poder\u00e1 chegar se provocarmos uma ruptura. O futuro \u00e9, portanto, um campo de batalha. Para lutar por isso, precisamos identificar as for\u00e7as que tentam impedir que isso aconte\u00e7a.<\/p>\n<div>\n<figure><\/figure>\n<\/div>\n<p>Silvano Lora (Rep\u00fablica Dominicana), <em>Serigraf\u00eda<\/em> (Serigrafia), 1976, ed. 18\/60. 640 x 570 mm.Acima<\/p>\n<h3><strong>Os inimigos do futuro<\/strong><\/h3>\n<p>O futuro n\u00e3o \u00e9 um horizonte vazio que aguarda para ser preenchido pelas aspira\u00e7\u00f5es humanas. \u00c9 ativamente planejado, estruturado e condicionado por for\u00e7as poderosas que buscam reproduzir as rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o existentes. Os inimigos do futuro n\u00e3o s\u00e3o tend\u00eancias abstratas: s\u00e3o for\u00e7as concretas determinadas a prolongar a ordem atual no futuro (Instituto Tricontinental, 2024a). A seguir, analisamos quatro grandes inimigos do futuro: o capital financeiro, o capital de plataforma, o extrativismo e o militarismo. Essas for\u00e7as n\u00e3o se limitam a defender as rela\u00e7\u00f5es sociais do presente \u2014 elas procuram colonizar o futuro antecipadamente.<\/p>\n<p><strong>O capital financeiro.<\/strong> ocupa o centro dessa constela\u00e7\u00e3o. Por meio do controle sobre os rendimentos do colonialismo e do neocolonialismo, dos fluxos de investimento, da magia da especula\u00e7\u00e3o e do poder da d\u00edvida, o capital financeiro disciplina os Estados e as sociedades, restringindo o leque de seus futuros poss\u00edveis (Instituto Tricontinental, 2024c). As ag\u00eancias de classifica\u00e7\u00e3o de risco, os credores multilaterais e as institui\u00e7\u00f5es financeiras privadas \u2014 em sua maioria localizadas no Norte Global \u2014 atuam como planejadores do futuro para a classe dominante do Norte, garantindo que o amanh\u00e3 continue favor\u00e1vel \u00e0 acumula\u00e7\u00e3o de capital, e n\u00e3o ao florescimento humano. Os ditames do Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI), do Banco Mundial, da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio e de in\u00fameras outras institui\u00e7\u00f5es tornam-se uma realidade concreta para muitas ex-col\u00f4nias, hoje pa\u00edses sobrecarregados por d\u00edvidas (Instituto Tricontinental, 2023).<\/p>\n<p><strong>Capital de plataforma.<\/strong> Os monop\u00f3lios tecnol\u00f3gicos capitalistas canalizam a inova\u00e7\u00e3o e a efici\u00eancia para a extra\u00e7\u00e3o de dados, a reorganiza\u00e7\u00e3o do trabalho e a fragmenta\u00e7\u00e3o da vida social. Os algoritmos controlam o tempo, a aten\u00e7\u00e3o e o desejo, enquanto o trabalho plataformizado priva os trabalhadores de estabilidade e poder coletivo (Instituto Tricontinental, 2021b).<\/p>\n<p><strong>Extrativismo.<\/strong> Apesar das evid\u00eancias cient\u00edficas contundentes de uma cat\u00e1strofe ecol\u00f3gica, os conglomerados dos setores de petr\u00f3leo, g\u00e1s, carv\u00e3o, minera\u00e7\u00e3o e agroneg\u00f3cio continuam moldando os sistemas energ\u00e9ticos, os mercados de trabalho e as pol\u00edticas p\u00fablicas. O horizonte de planejamento deles \u00e9 extremamente curto: <em>extrair<\/em>, <em>lucrar<\/em>, <em>abandonar<\/em>. A crise clim\u00e1tica, por exemplo, n\u00e3o \u00e9 uma falha de previs\u00e3o, mas o resultado de decis\u00f5es deliberadas por parte de corpora\u00e7\u00f5es capitalistas que aceitam a destrui\u00e7\u00e3o do planeta como um custo aceit\u00e1vel da acumula\u00e7\u00e3o (Instituto Tricontinental, 2024e, 2025g).<\/p>\n<p><strong>Militarismo.<\/strong> As crises geradas e agravadas pelo sistema capitalista \u2014 guerra, deslocamento e cat\u00e1strofe clim\u00e1tica \u2014 n\u00e3o s\u00e3o enfrentadas com solu\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas, mas com uma economia de guerra permanente que imp\u00f5e solu\u00e7\u00f5es militares para problemas pol\u00edticos. Nos centros imperiais, o militarismo se manifesta na forma de acumula\u00e7\u00e3o de armas, regimes fronteiri\u00e7os, vigil\u00e2ncia e normaliza\u00e7\u00e3o do estado de emerg\u00eancia. No Sul Global, isso se manifesta como agress\u00e3o imperialista, guerras por procura\u00e7\u00e3o, ocupa\u00e7\u00e3o e o desvio for\u00e7ado de recursos p\u00fablicos escassos para os ex\u00e9rcitos e as infraestruturas de seguran\u00e7a, sempre em benef\u00edcio da ind\u00fastria de armas. O militarismo estreita os horizontes pol\u00edticos: as situa\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia justificam medidas autorit\u00e1rias, reprimem a dissid\u00eancia e normalizam o medo. Para grande parte da humanidade, especialmente no Sul Global, o futuro n\u00e3o se apresenta como uma promessa, mas como instabilidade permanente, deslocamento e morte. A guerra torna-se um mecanismo para gerenciar as crises geradas pelo pr\u00f3prio capitalismo (Instituto Tricontinental, 2025e, 2024g).<\/p>\n<p>Esses inimigos do futuro n\u00e3o se limitam a impedir a transforma\u00e7\u00e3o social: eles criam ativamente um futuro que garante privil\u00e9gios para poucos, enquanto condena a maioria ao esgotamento, \u00e0 inseguran\u00e7a e ao desespero. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel recuperar o futuro sem um desafio frontal ao poder deles.Acima<\/p>\n<h3><strong>As for\u00e7as sociais prestes a provocar a ruptura<\/strong><\/h3>\n<p>Como as classes propriet\u00e1rias insistem no presente permanente, o futuro s\u00f3 pode ser reconquistado por meio da luta coletiva em massa. As for\u00e7as sociais capazes de provocar uma ruptura com a ordem atual j\u00e1 est\u00e3o aqui, embora estejam fragmentadas, desiguais e, muitas vezes, invisibilizadas. Entre elas est\u00e3o os trabalhadores tanto da economia formal quanto da informal, camponeses e trabalhadores agr\u00edcolas sem terra, mulheres, jovens, comunidades oprimidas e o que Marx chamou de \u201cpopula\u00e7\u00e3o excedente\u201d \u2014 aqueles exclu\u00eddos ou marginalizados pelos ciclos da acumula\u00e7\u00e3o capitalista, mas ainda assim indispens\u00e1veis como ex\u00e9rcito de reserva de m\u00e3o de obra e como parte das for\u00e7as de reprodu\u00e7\u00e3o social (Marx, 1976).<\/p>\n<p>Apesar de todo o debate sobre o \u201cp\u00f3s-marxismo\u201d e as novas teorias sobre a fragmenta\u00e7\u00e3o dos sujeitos pol\u00edticos, a classe trabalhadora \u2014 tanto urbana quanto rural \u2014 continua sendo fundamental, embora sua composi\u00e7\u00e3o tenha, sem d\u00favida, mudado. V\u00e1rios relat\u00f3rios da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho e do Banco Mundial sugerem que a for\u00e7a de trabalho global totaliza quase 4 bilh\u00f5es de pessoas (incluindo aqueles que est\u00e3o empregados e aqueles que procuram emprego ativamente). A seguir, apresentamos uma divis\u00e3o aproximada do emprego global por setor:<\/p>\n<ol>\n<li>Agricultura <em>\/<\/em> 923 milh\u00f5es.<\/li>\n<li>Ind\u00fastria <em>\/<\/em> 800 milh\u00f5es.<\/li>\n<li>Servi\u00e7os <em>\/<\/em> 1,8 bilh\u00e3o<\/li>\n<li>Transporte\/Log\u00edstica <em>\/<\/em> 230 milh\u00f5es.<\/li>\n<li>Trabalhadores de plataformas <em>\/<\/em> 154 milh\u00f5es.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Os trabalhadores da ind\u00fastria convivem com os trabalhadores dos setores de servi\u00e7os, transporte, armazenagem, assist\u00eancia, entregas e plataformas (ou \u201cuberizados\u201d). Na maior parte do Sul Global, o trabalho informal n\u00e3o \u00e9 uma exce\u00e7\u00e3o, mas sim a regra. Esses trabalhadores \u2014 seja na f\u00e1brica, no campo ou no armaz\u00e9m \u2014 enfrentam extrema precariedade, prote\u00e7\u00f5es legais fracas ou inexistentes e amea\u00e7a constante de desemprego. No entanto, apesar da queda na taxa de sindicaliza\u00e7\u00e3o, esses trabalhadores det\u00eam um poder estrat\u00e9gico: eles produzem e transportam mercadorias, cultivam a terra, extraem recursos minerais, prestam cuidados, constroem cidades e sustentam a vida cotidiana. Suas lutas \u2014 desde greves em centros log\u00edsticos at\u00e9 rebeli\u00f5es em massa de trabalhadores sem terra e paralisa\u00e7\u00f5es de empregadas dom\u00e9sticas \u2014 revelam o antagonismo cont\u00ednuo entre capital e trabalho.<\/p>\n<p>As lutas nem sempre se manifestam de forma direta, por meio de uma organiza\u00e7\u00e3o consciente da for\u00e7a de trabalho contra o capital. Frequentemente, se manifestam por meio de outras estruturas de opress\u00e3o, como o patriarcado e a hierarquia social (casta, ra\u00e7a), ou s\u00e3o impulsionadas pela experi\u00eancia geracional e por outras forma\u00e7\u00f5es sociais. Por exemplo, os movimentos feministas t\u00eam revelado como os sistemas econ\u00f4micos dependem da explora\u00e7\u00e3o dos corpos e do tempo, especialmente dos corpos das mulheres em geral e, em particular, das mulheres negras, migrantes e da classe trabalhadora racializada. Da mesma forma, as lutas pela dignidade social se refletem em identidades que, embora n\u00e3o sejam em si mesmas de natureza de classe, revelam a maneira complexa como o capitalismo reativa antigas hierarquias para as suas pr\u00f3prias estrat\u00e9gias de acumula\u00e7\u00e3o: a casta e a ra\u00e7a, por exemplo, s\u00e3o mobilizadas pelo sistema capitalista a servi\u00e7o da acumula\u00e7\u00e3o e, assim, os protestos pela dignidade tamb\u00e9m criam bases para a luta socialista. A popula\u00e7\u00e3o excedente \u2014 migrantes, desempregados, camponeses sem terra e pobres urbanos \u2014 \u00e9 frequentemente tratada como politicamente marginalizada, mas vive o sistema capitalista em sua forma mais crua. As lutas dessas pessoas por moradia, servi\u00e7os e dignidade s\u00e3o lutas pela reprodu\u00e7\u00e3o da vida. Essas in\u00fameras lutas demonstram a energia existente na classe trabalhadora para formar um bloco hist\u00f3rico contra o capitalismo e lutar pelo futuro.<\/p>\n<p>No entanto, muitos dos protestos que agitam nossas cidades e o interior do pa\u00eds assumem a forma de grandes mobiliza\u00e7\u00f5es, muitas vezes organizadas por pequenas organiza\u00e7\u00f5es ou impulsionadas por convocat\u00f3rias nas redes sociais dirigidas a indiv\u00edduos. O capital prospera com a divis\u00e3o: formal <em>versus<\/em> informal, urbano <em>versus<\/em> rural, homens <em>versus<\/em> mulheres e pessoas de g\u00eaneros dissidentes, cidad\u00e3o <em>versus<\/em> migrante (Instituto Tricontinental, 2026). Hoje, a estrutura de classes fragmentada e a organiza\u00e7\u00e3o social representam grandes desafios para a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e a unidade de a\u00e7\u00e3o baseada em princ\u00edpios. H\u00e1 muitos exemplos dessa raiva mobilizada sendo aproveitada por for\u00e7as reacion\u00e1rias ou se dissipando na forma de desespero. Uma ruptura exige a constru\u00e7\u00e3o da unidade sem apagar as diferen\u00e7as, forjando projetos pol\u00edticos capazes de articular interesses compartilhados e horizontes comuns. Sem essa organiza\u00e7\u00e3o, as for\u00e7as sociais continuam a agir de forma reativa. Com isso, tornam-se agentes hist\u00f3ricos capazes de construir o pr\u00f3prio futuro. A verdadeira quest\u00e3o organizacional para a esquerda em todo o mundo \u00e9 como construir as bases subjetivas da luta a partir das condi\u00e7\u00f5es objetivas de sofrimento e sobreviv\u00eancia enfrentadas pelo povo.<\/p>\n<h3><strong><em>Tempo<\/em><\/strong><\/h3>\n<p>O capitalismo imp\u00f5e sua concep\u00e7\u00e3o de tempo \u00e0s sociedades \u2014 uma concep\u00e7\u00e3o que reflete urg\u00eancia sem rumo, velocidade sem prop\u00f3sito, crise sem solu\u00e7\u00e3o. H\u00e1 uma sensa\u00e7\u00e3o de frenesi que toma conta da vida social, prejudicando a nossa capacidade de controlar o nosso dia e criando uma desordem que consome o nosso tempo de lazer. Sem tempo livre, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil encontrar tempo para construir uma comunidade (embora o enfraquecimento das pol\u00edticas sociais em \u00e2mbito estatal tenha for\u00e7ado as mulheres da classe trabalhadora a criarem estruturas de reprodu\u00e7\u00e3o social que t\u00eam sido vitais para o seu papel em tantos movimentos de protesto da classe trabalhadora em nossa \u00e9poca). Sem tempo, \u00e9 imposs\u00edvel construir poder organizacional nos locais de trabalho, bairros e comunidades.<\/p>\n<p>As contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo geram lutas espont\u00e2neas, muitas vezes desencadeadas por baixos sal\u00e1rios e m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es de trabalho, mas tamb\u00e9m pelas condi\u00e7\u00f5es de reprodu\u00e7\u00e3o social, como o acesso \u00e0 \u00e1gua, ao espa\u00e7o p\u00fablico e a alimentos e combust\u00edvel a pre\u00e7os acess\u00edveis. Essas lutas baseiam-se, por vezes, em redes sociais e rela\u00e7\u00f5es constru\u00eddas ao longo do tempo, mas tamb\u00e9m podem surgir de uma r\u00e1pida deteriora\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de trabalho e de vida, que geram um sentimento compartilhado com muitas outras pessoas.\u00a0 Essas revoltas espont\u00e2neas \u2014 embora muitas vezes heroicas \u2014 s\u00e3o insuficientes; elas podem perturbar o presente sem uma organiza\u00e7\u00e3o disciplinada, mas raramente remodelam o futuro. Os exemplos das grandes revolu\u00e7\u00f5es s\u00e3o, todos, hist\u00f3rias de uma atividade revolucion\u00e1ria resiliente ao longo de per\u00edodos extensos, que preparou as comunidades, por meio da luta, para os grandes surtos que viraram o mundo de cabe\u00e7a para baixo. As lutas espont\u00e2neas refletem raiva e injusti\u00e7as genu\u00ednas. Elas podem ocupar as ruas e inspirar esperan\u00e7a, e tamb\u00e9m podem derrubar governos. No entanto, os registros hist\u00f3ricos (como o caso do Egito em 2011) mostram que, sem continuidade e solidez organizacionais, esses momentos ficam vulner\u00e1veis \u00e0 repress\u00e3o, \u00e0 coopta\u00e7\u00e3o e ao esgotamento. As classes propriet\u00e1rias t\u00eam uma vis\u00e3o estrat\u00e9gica do tempo. Eles planejam, muitas vezes com d\u00e9cadas de anteced\u00eancia. Os movimentos que atuam apenas no calor do momento do protesto acabam cedendo o terreno a longo prazo aos seus inimigos.<\/p>\n<h3><em><strong>Organiza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/em><\/h3>\n<p>Ir al\u00e9m da imediatez requer organiza\u00e7\u00e3o, que pode assumir diversas formas \u2014 desde movimentos sociais mais difusos at\u00e9 partidos leninistas que adotam o centralismo democr\u00e1tico. O debate entre essas duas formas n\u00e3o \u00e9 o tema central deste dossi\u00ea. O que queremos destacar aqui \u00e9 a import\u00e2ncia de como a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u2014 em suas diversas formas \u2014 constitui um ve\u00edculo por meio do qual o tempo \u00e9 estruturado com fins emancipat\u00f3rios. Partidos, frentes, sindicatos, organiza\u00e7\u00f5es camponesas, associa\u00e7\u00f5es de mulheres e movimentos de juventude desempenham pap\u00e9is distintos, mas interligados. Os partidos de tipo leninista s\u00e3o capazes de elaborar programas de longo prazo e disputar o poder estatal. As organiza\u00e7\u00f5es de massas podem integrar as lutas ao cotidiano e proporcionar continuidade \u00e0s comunidades. As frentes podem promover a unidade entre for\u00e7as diversas sem exigir uniformidade ideol\u00f3gica. A organiza\u00e7\u00e3o permite que a classe trabalhadora, fragmentada e oprimida, socialize o tempo de que disp\u00f5e e construa uma sociedade que, de outra forma, lhes teria sido roubada.<\/p>\n<h3><em><strong>Disciplina<\/strong><\/em><\/h3>\n<p>A vantagem de um partido leninista reside na import\u00e2ncia central que essa tradi\u00e7\u00e3o atribui \u00e0 disciplina. Disciplina n\u00e3o significa obedi\u00eancia nem rigidez burocr\u00e1tica, embora muitas vezes possa degenerar, aos poucos, nessas formas. Isso significa formar quadros politicamente instru\u00eddos e que compreendam a necessidade da forma partid\u00e1ria, os procedimentos coletivos necess\u00e1rios para construir um entendimento pol\u00edtico comum ou um programa, as estruturas essenciais da lideran\u00e7a representativa dentro do partido e um compromisso absoluto com objetivos, estrat\u00e9gias e formas de presta\u00e7\u00e3o de contas em comum. A disciplina permite que as organiza\u00e7\u00f5es economizem energia, aprendam com a experi\u00eancia e resistam aos momentos de crise. Isso transforma a revolta em um projeto.<\/p>\n<p>No centro de toda essa opera\u00e7\u00e3o est\u00e3o aqueles a quem chamamos de novos intelectuais, os defensores incans\u00e1veis de um projeto pol\u00edtico oriundo da classe trabalhadora, do campesinato e dos movimentos populares (Instituto Tricontinental, 2019b). A tarefa deles \u00e9 esclarecer, sintetizar e comunicar \u2014 traduzir a experi\u00eancia vivida em estrat\u00e9gia pol\u00edtica. Eles ajudam os movimentos a compreender n\u00e3o apenas contra o que est\u00e3o lutando, mas tamb\u00e9m o que o futuro deve trazer.<\/p>\n<h3><em><strong>Internacionalismo<\/strong><\/em><\/h3>\n<p>Nenhuma ruptura com o capitalismo pode ser sustentada apenas dentro das fronteiras nacionais. O capital se organiza internacionalmente por meio das finan\u00e7as, do com\u00e9rcio, dos blocos militares, das cadeias de abastecimento e das institui\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas. As for\u00e7as que buscam construir o futuro devem fazer o mesmo. O internacionalismo n\u00e3o \u00e9 um complemento moral nem um gesto sentimental, mas uma necessidade pr\u00e1tica enraizada na estrutura da economia mundial e na condi\u00e7\u00e3o comum dos oprimidos. Isso significa estabelecer la\u00e7os entre pa\u00edses e lutas, aprender com os processos revolucion\u00e1rios, defender a soberania contra o imperialismo e coordenar a educa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, as campanhas e as formas de solidariedade material. Sem o internacionalismo, as vit\u00f3rias permanecem isoladas e vulner\u00e1veis. Com isso, as lutas nos \u00e2mbitos local, nacional e regional come\u00e7am a adquirir a dimens\u00e3o necess\u00e1ria para enfrentar um sistema global.<\/p>\n<p>O futuro n\u00e3o pode ser capturado em um \u00fanico instante. Isso deve ser constru\u00eddo com paci\u00eancia, de forma coletiva e consciente. O tempo cria o espa\u00e7o para a luta, a organiza\u00e7\u00e3o lhe d\u00e1 forma, a disciplina lhe d\u00e1 resist\u00eancia e o internacionalismo lhe d\u00e1 amplitude. Contra o futuro de explora\u00e7\u00e3o e exclus\u00e3o planejado pela classe dominante, essas ferramentas permitem que os oprimidos planejem o seu pr\u00f3prio futuro \u2014 um futuro baseado na dignidade, na igualdade e na pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<figure><\/figure>\n<p>Alfredo Plank, Ignacio Colombres, Carlos Sessano, Juan Manuel S\u00e1nchez, e Nani Capurro (Argentina), <em>Che<\/em> (s\u00e9ries coletivas), 1968. \u00d3leo sobre tela, 195 x 150 cm cada.Acima<\/p>\n<h3><strong>Parte 2: Construindo o futuro<\/strong><\/h3>\n<p>O que deve ser constru\u00eddo para substituir o que existe atualmente? O futuro n\u00e3o pode limitar-se apenas \u00e0 luta, \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o e \u00e0 disciplina; ele tamb\u00e9m deve assumir uma forma concreta, institucional e internacional. Isso significa abordar quest\u00f5es como propriedade, planejamento, soberania e as formas de coordena\u00e7\u00e3o por meio das quais uma ordem social diferente pode ser sustentada.<\/p>\n<h3><strong>Propriedade p\u00fablica e planejamento<\/strong><\/h3>\n<p>A quest\u00e3o do futuro \u00e9 indissoci\u00e1vel da quest\u00e3o da propriedade e da coordena\u00e7\u00e3o. No capitalismo, a propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o confere a uma pequena classe o poder de determinar o que \u00e9 produzido, como \u00e9 produzido e para quem \u00e9 produzido. Esse poder n\u00e3o \u00e9 exercido em benef\u00edcio da sociedade como um todo, mas de acordo com os imperativos do lucro, da concorr\u00eancia e da acumula\u00e7\u00e3o a curto prazo. O resultado \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o profunda: as for\u00e7as produtivas tornaram-se profundamente socializadas, enquanto o controle sobre elas continua sendo estritamente privado. O trabalho hoje j\u00e1 \u00e9 coletivo e internacional, mas a base tecnol\u00f3gica e os excedentes econ\u00f4micos desse esfor\u00e7o coletivo s\u00e3o apropriados por uma minoria. Qualquer discuss\u00e3o s\u00e9ria sobre um futuro socialista deve, portanto, enfrentar essa contradi\u00e7\u00e3o por meio da transforma\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de propriedade.<\/p>\n<p>A propriedade p\u00fablica n\u00e3o \u00e9 simplesmente uma reorganiza\u00e7\u00e3o jur\u00eddica dos ativos, transferindo-os das m\u00e3os privadas para o Estado. O pr\u00f3prio Estado \u00e9 um campo de luta de classes e deve ser reivindicado como uma ferramenta para orientar o rumo do desenvolvimento. Quando setores estrat\u00e9gicos como energia, transporte, finan\u00e7as, terra, comunica\u00e7\u00f5es e ind\u00fastria pesada s\u00e3o de propriedade p\u00fablica, a sociedade ganha a capacidade de orientar a produ\u00e7\u00e3o e a inova\u00e7\u00e3o para as necessidades coletivas, em vez de para a acumula\u00e7\u00e3o privada. O capitalismo distribui os recursos de forma sistematicamente inadequada, produzindo em excesso bens de luxo e ind\u00fastrias destrutivas, enquanto se retira de servi\u00e7os de assist\u00eancia social, educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e habita\u00e7\u00e3o popular. A propriedade p\u00fablica cria a base material para reorientar a produ\u00e7\u00e3o para a reprodu\u00e7\u00e3o social, o investimento de longo prazo e a prosperidade compartilhada.<\/p>\n<p>O argumento a favor da propriedade p\u00fablica tamb\u00e9m est\u00e1 relacionado \u00e0 tecnologia. Sob a propriedade privada, o desenvolvimento tecnol\u00f3gico est\u00e1 subordinado \u00e0 rentabilidade, aos monop\u00f3lios de propriedade intelectual e \u00e0 disciplina no trabalho. A inova\u00e7\u00e3o est\u00e1 voltada para reduzir custos, promover vigil\u00e2ncia, militariza\u00e7\u00e3o e apropria\u00e7\u00e3o do conhecimento, em vez de se concentrar na redu\u00e7\u00e3o do tempo de trabalho socialmente necess\u00e1rio ou na melhoria do bem-estar coletivo. O controle democr\u00e1tico sobre as for\u00e7as de produ\u00e7\u00e3o permite que a tecnologia seja utilizada em prol do bem-estar social: para reduzir a jornada de trabalho, gerar empregos, ampliar os servi\u00e7os p\u00fablicos, aprimorar as compet\u00eancias humanas e diminuir os danos ecol\u00f3gicos. Os mesmos sistemas digitais e log\u00edsticos que o capitalismo utiliza para intensificar a explora\u00e7\u00e3o cont\u00eam em si o potencial para uma produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o racionais e humanas.<\/p>\n<p>A ideologia capitalista apresenta o planejamento como algo inerentemente autorit\u00e1rio e ineficiente, ao mesmo tempo que exalta o mercado como um mecanismo neutro e democr\u00e1tico de coordena\u00e7\u00e3o. O capitalismo j\u00e1 \u00e9 altamente planejado \u2013 mas \u00e9 planejado para o interesse dos capitalistas. As empresas multinacionais, as institui\u00e7\u00f5es financeiras e as alian\u00e7as militares realizam um extenso trabalho de planejamento interno, previs\u00f5es de longo prazo e coordena\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica. O mercado n\u00e3o substitui o planejamento: ele fragmenta a tomada de decis\u00f5es sociais, obscurece a responsabilidade e submete a vida coletiva \u00e0 l\u00f3gica estreita da acumula\u00e7\u00e3o. Os pre\u00e7os s\u00f3 transmitem sinais depois que os danos sociais e ecol\u00f3gicos j\u00e1 ocorreram. Os mercados recompensam a rentabilidade a curto prazo, e n\u00e3o a racionalidade social a longo prazo.<\/p>\n<p>O planejamento socialista n\u00e3o se resume a uma imposi\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica alheia \u00e0 vida popular: trata-se de uma coordena\u00e7\u00e3o consciente e democr\u00e1tica do trabalho social ao longo do tempo. O planejamento \u00e9 uma arma temporal contra o curto-prazismo capitalista. Isso permite que a sociedade estabele\u00e7a prioridades coletivas \u2014 como a descarboniza\u00e7\u00e3o, a diversifica\u00e7\u00e3o industrial, a soberania alimentar e a assist\u00eancia universal \u2014 e mobilize recursos de acordo com elas. Isso permite equilibrar as regi\u00f5es, os setores e as necessidades sociais, em vez de deixar o desenvolvimento \u00e0 merc\u00ea dos resultados desiguais e destrutivos da concorr\u00eancia de mercado. O planejamento \u00e9 o meio pelo qual a sociedade pode agir com base no entendimento de que o futuro n\u00e3o \u00e9 autom\u00e1tico, mas deve ser constru\u00eddo de forma consciente.<\/p>\n<p>\u00c9 fundamental ressaltar que o planejamento n\u00e3o nega a democracia; ao contr\u00e1rio, exige a sua amplia\u00e7\u00e3o. Para que o planejamento seja emancipat\u00f3rio, ele deve estar enraizado na participa\u00e7\u00e3o popular, sob o controle dos trabalhadores e em organiza\u00e7\u00f5es de massa capazes de articular as necessidades sociais. A socializa\u00e7\u00e3o do trabalho no capitalismo j\u00e1 exige coordena\u00e7\u00e3o em vastas redes; o socialismo busca tornar essa coordena\u00e7\u00e3o transparente, respons\u00e1vel e voltada para o desenvolvimento humano. Quando os trabalhadores, as comunidades e as institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas participam da defini\u00e7\u00e3o de metas e do acompanhamento dos resultados, o planejamento torna-se um processo de aprendizagem coletiva, em vez de uma imposi\u00e7\u00e3o tecnocr\u00e1tica. \u00c9 por meio desses processos que o excedente social pode ser conscientemente direcionado para a educa\u00e7\u00e3o, a sa\u00fade, a habita\u00e7\u00e3o, a cultura e a restaura\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica (Instituto Tricontinental, 2025c). Acima<\/p>\n<h3><strong>Rumo a um novo internacionalismo<\/strong><\/h3>\n<p>Ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, a ascens\u00e3o de um poderoso bloco socialista e as sucessivas ondas de descoloniza\u00e7\u00e3o prepararam o terreno para um internacionalismo enraizado na rejei\u00e7\u00e3o do imperialismo e do neocolonialismo. Foi marcado por uma tentativa de construir novos modelos econ\u00f4micos e sociais, bem como uma nova arquitetura global (Instituto Tricontinental, 2025d, 2025h).<\/p>\n<p>Esse internacionalismo entrou em colapso devido \u00e0 crise da d\u00edvida, ao avan\u00e7o do neoliberalismo e \u00e0 queda da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e do bloco socialista. Em seu lugar, surgiu a falsa globaliza\u00e7\u00e3o imposta pelo FMI \u2014 a abertura dos mercados, a retirada do Estado dos setores produtivos, a elimina\u00e7\u00e3o dos controles de c\u00e2mbio, a entrega de recursos e a subordina\u00e7\u00e3o acad\u00eamica e cultural \u2014, uma eros\u00e3o generalizada da soberania.<\/p>\n<p>D\u00e9cadas ap\u00f3s a queda da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, est\u00e3o surgindo as condi\u00e7\u00f5es objetivas para o surgimento de um novo internacionalismo. O Norte Global est\u00e1 passando por uma crise profunda, marcada pela desindustrializa\u00e7\u00e3o e pela eros\u00e3o da capacidade produtiva, ao mesmo tempo que a China e outros pa\u00edses do Sul Global emergem como os motores da economia global. A ascens\u00e3o do BRICS, da Organiza\u00e7\u00e3o de Coopera\u00e7\u00e3o de Xangai e de outros f\u00f3runs bilaterais reflete essas mudan\u00e7as nas condi\u00e7\u00f5es objetivas.<\/p>\n<p>No entanto, o Norte Global mant\u00e9m o controle sobre a arquitetura global. A ONU e suas ag\u00eancias foram neutralizadas pelos EUA e seus aliados, como demonstrado pela escalada de ataques por todo o mundo, desde Gaza, Venezuela e Cuba at\u00e9 a Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo e o Ir\u00e3. O FMI e o Banco Mundial continuam com a tirania do ajuste estrutural. As propostas clim\u00e1ticas deixaram a popula\u00e7\u00e3o na m\u00e3o. A pandemia trouxe consigo o \u201c<em>apartheid<\/em> vacinal\u201d. Para piorar, muitas organiza\u00e7\u00f5es multilaterais do Sul Global est\u00e3o inertes ou contaminadas pela l\u00f3gica neoliberal.<\/p>\n<p>Os debates em torno de uma nova arquitetura global t\u00eam-se centrado na multipolaridade, que \u00e9 limitada e limitante, pois reproduz o esp\u00edrito da rivalidade da Guerra Fria. Em vez disso, o novo internacionalismo deve caracterizar-se pelo multilateralismo. Recuperar as Na\u00e7\u00f5es Unidas e defender a Carta das Na\u00e7\u00f5es Unidas como patrim\u00f4nio comum dos povos do mundo s\u00e3o pontos fundamentais nessa quest\u00e3o. Tanto o Conselho de Seguran\u00e7a quanto a Assembleia Geral precisam de reformas, e os pa\u00edses do Sul Global devem trabalhar em prol de uma agenda comum para uma s\u00e9rie de ag\u00eancias da ONU, desde a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade e a Conven\u00e7\u00e3o-Quadro das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas at\u00e9 a Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Com\u00e9rcio e Desenvolvimento. H\u00e1 uma necessidade urgente de renovar a luta intelectual e pol\u00edtica para definir e defender um programa popular para cada uma dessas organiza\u00e7\u00f5es que reflita as aspira\u00e7\u00f5es do Sul Global.<\/p>\n<p>A par de um multilateralismo renovado, as for\u00e7as de esquerda e patri\u00f3ticas devem apoiar e fortalecer as organiza\u00e7\u00f5es regionais que perderam o rumo nos \u00faltimos 30 anos e, nos casos em que isso n\u00e3o for poss\u00edvel, defender a cria\u00e7\u00e3o de novas organiza\u00e7\u00f5es. As alian\u00e7as econ\u00f4micas, sociais e pol\u00edticas que se formaram na Am\u00e9rica Latina durante a Onda Rosa da d\u00e9cada de 2000 e in\u00edcio da d\u00e9cada de 2010 continuam sendo um modelo do que \u00e9 poss\u00edvel alcan\u00e7ar. Nos dias de hoje, a Alian\u00e7a dos Estados do Sahel tem refletido um forte anseio em toda a \u00c1frica por uma integra\u00e7\u00e3o mais s\u00f3lida, ao mesmo tempo que resiste \u00e0 l\u00f3gica neocolonial da Comunidade Econ\u00f4mica dos Estados da \u00c1frica Ocidental (Cedeao) (Instituto Tricontinental, 2025f). Os processos lan\u00e7ados pelo BRICS em diversas \u00e1reas \u2014 desde finan\u00e7as, com\u00e9rcio e infraestrutura at\u00e9 ci\u00eancia, tecnologia, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, agricultura, coopera\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica e pesquisa \u2014 oferecem outro modelo para essas organiza\u00e7\u00f5es regionais.<\/p>\n<p>O novo internacionalismo come\u00e7a com a defesa da soberania, mas n\u00e3o se limita a isso. Deve tamb\u00e9m incorporar uma vis\u00e3o internacionalista de um futuro baseado em rela\u00e7\u00f5es sociais transformadas. Essa vis\u00e3o n\u00e3o pode ser concretizada por um \u00fanico pa\u00eds \u2013 nem pode ser defendida apenas pelos Estados. \u00c9 necess\u00e1ria a mobiliza\u00e7\u00e3o de movimentos em todo o mundo para transcender o capitalismo. Os socialistas devem construir pontes para o futuro, valorizando, aprendendo com e aproveitando projetos que tenham o potencial de alterar o equil\u00edbrio de for\u00e7as.<\/p>\n<p>No entanto, nenhum programa, por mais necess\u00e1rio que seja, pode se sustentar sem uma for\u00e7a social capaz de lev\u00e1-lo adiante e sem um horizonte capaz de animar a luta. Se o futuro deve ser constru\u00eddo por meio de institui\u00e7\u00f5es, senso de pertencimento, planejamento e coordena\u00e7\u00e3o internacional, ele tamb\u00e9m deve ser vivido como uma sensibilidade pol\u00edtica. Essa sensibilidade \u00e9 a esperan\u00e7a.<\/p>\n<figure><\/figure>\n<p>Luis Gonz\u00e1lez Palma (Guatemala), <em>La Rosa<\/em> (A rosa), 1991. Impress\u00e3o em gelatina de prata com tonaliza\u00e7\u00e3o e aplica\u00e7\u00e3o de cor, 47 x 48.5 cm.Acima<\/p>\n<h3><strong>Parte 3: Esperan\u00e7a<\/strong><\/h3>\n<p>Hoje, o capitalismo atravessa uma crise de legitimidade, uma vez que as suas ideias e os seus valores \u2014 individualismo, empreendedorismo, consumismo \u2014 j\u00e1 n\u00e3o proporcionam a mobilidade social e a prosperidade material h\u00e1 muito prometidas pelo neoliberalismo. Ao mesmo tempo, \u00e0 medida que o bloco imperialista liderado pelos EUA v\u00ea o seu poder declinar \u2013 tanto econ\u00f4mica quanto politicamente \u2014, ele redobra os seus esfor\u00e7os nas duas \u00e1reas em que esse poder permanece praticamente incontestado: a produ\u00e7\u00e3o cultural e o poder militar. Embora sejam muito diferentes em suas formas de express\u00e3o, ambas t\u00eam o mesmo objetivo: preservar o presente e barrar o futuro. Por meio da agress\u00e3o militar, o bloco liderado pelos EUA busca disciplinar qualquer pa\u00eds que se recuse a se submeter ao Consenso de Washington e aos interesses do capital privado, fechando qualquer horizonte pol\u00edtico que rejeite a subordina\u00e7\u00e3o. Por meio de seu monop\u00f3lio sobre os meios de produ\u00e7\u00e3o cultural, ela busca n\u00e3o apenas controlar a informa\u00e7\u00e3o \u2014 o que \u00e9 aceito como verdade \u2014, mas tamb\u00e9m moldar a cultura e os valores das massas dominadas. Ao fazer isso, limita o horizonte do que ousamos imaginar e, em \u00faltima an\u00e1lise, do que ousamos esperar. Na aus\u00eancia de esperan\u00e7a, a classe trabalhadora \u00e9 assim empurrada para uma de duas posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas: ou \u00e9 levada ao pessimismo implac\u00e1vel da extrema direita e condicionada a encarar com esc\u00e1rnio a pr\u00f3pria ideia de um futuro diferente, ou \u00e9 dominada por um derrotismo escapista que acredita que o futuro j\u00e1 est\u00e1 perdido.<\/p>\n<p>Dois conceitos chineses de \u201cfuturo\u201d ajudam a esclarecer o que est\u00e1 em jogo aqui. \u201c\u672a\u6765\u201d (w\u00e8il\u00e1i), a palavra para futuro ou, literalmente, \u201co que ainda n\u00e3o chegou\u201d, \u00e9 composta por duas palavras: \u201c\u672a\u201d (w\u00e8i) significa \u201cainda n\u00e3o\u201d ou \u201cn\u00e3o tem\u201d e \u201c\u6765\u201d (l\u00e1i) significa \u201cvir\u201d ou \u201cchegar\u201d. Juntos, eles destacam a caracter\u00edstica essencial do futuro, que \u00e9 a incompletude, e o pessimismo e a esperan\u00e7a giram em torno dessa diferen\u00e7a: o futuro n\u00e3o est\u00e1 predeterminado. \u00c9 uma possibilidade, e \u00e9 a\u00ed que entra a a\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>Nesse contexto, a esperan\u00e7a torna-se um campo de batalha na luta entre ideias e emo\u00e7\u00f5es. \u00c9 por isso que a esperan\u00e7a deve ser mais do que um sentimento, mas sim uma pr\u00e1tica \u2014 uma pr\u00e1tica constru\u00edda por meio da educa\u00e7\u00e3o popular e da cultura, enraizada na hist\u00f3ria e vivida ativamente em nosso dia a dia. Acima<\/p>\n<h3><strong>\u00a0A batalha de ideias<\/strong><\/h3>\n<p>A classe dominante se empenha em obscurecer as rela\u00e7\u00f5es de classe e os interesses comuns das classes por meio da promo\u00e7\u00e3o de seus valores (individualismo, impiedade e conservadorismo). Essa l\u00f3gica leva as classes dominadas a rejeitar, por reflexo, formas de atividade pol\u00edtica, consideradas perda de tempo, irrealistas ou ut\u00f3picas, e a considerar a a\u00e7\u00e3o coletiva como algo ing\u00eanuo ou perigoso. Nessas condi\u00e7\u00f5es, n\u00e3o se pode esperar que a esperan\u00e7a surja de forma individual. Deve ser constru\u00edda como uma pr\u00e1tica que reabra o horizonte das possibilidades e conteste o \u201csenso comum\u201d cotidiano do presente capitalista.<\/p>\n<p>A esperan\u00e7a deve, portanto, ser constru\u00edda por meio de pr\u00e1ticas pol\u00edticas concretas que reabram o horizonte de possibilidades. Isso exige de n\u00f3s:<\/p>\n<p><strong>Estimular a imagina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/strong> As for\u00e7as de esquerda devem tornar o futuro tang\u00edvel, construindo formas alternativas de organiza\u00e7\u00e3o do trabalho e de rela\u00e7\u00f5es sociais. A esperan\u00e7a no futuro pode ser mobilizada quando est\u00e1 ligada a a\u00e7\u00f5es concretas que transformam as condi\u00e7\u00f5es materiais das pessoas no presente e quando a classe trabalhadora consegue se reconhecer como protagonista da hist\u00f3ria, em vez de espectadora das crises capitalistas.<\/p>\n<p><strong>Ler para aprender, aprender para fazer.<\/strong> Ho Chi Minh disse: \u201cVoc\u00ea pode ler mil livros, mas se n\u00e3o colocar em pr\u00e1tica o que leu, n\u00e3o passa de uma estante de livros\u201d (Minh, 1961, p. 496). A leitura torna-se uma pr\u00e1tica de esperan\u00e7a quando est\u00e1 ligada \u00e0 a\u00e7\u00e3o. O estudo deve ser coletivo e voltado para os problemas que as pessoas enfrentam em seus locais de trabalho, bairros e organiza\u00e7\u00f5es. O importante n\u00e3o \u00e9 a acumula\u00e7\u00e3o de conhecimento, mas o desenvolvimento de uma linguagem comum, de uma capacidade de an\u00e1lise e de uma confian\u00e7a que possam ser postas \u00e0 prova na pr\u00e1tica.<\/p>\n<p><strong>Desenvolver uma contracultura popular.<\/strong> N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel construir uma contraideologia sem uma contracultura. Isso significa criar formas de express\u00e3o cultural populares que quebrem o feiti\u00e7o do individualismo e do pessimismo, que promovam a dignidade e tornem a solidariedade atraente, ao mesmo tempo que valorizam a cultura da classe trabalhadora.<\/p>\n<p><strong>Comunicar o futuro.<\/strong> A esquerda deve traduzir seu programa para que possa ser transmitido de maneira did\u00e1tica. Did\u00e1tico n\u00e3o significa falar com superioridade; significa ser estrat\u00e9gico e comunicar com clareza propostas que estejam ligadas \u00e0s experi\u00eancias das pessoas e sejam transmitidas por meio de exemplos pr\u00e1ticos. O objetivo \u00e9 passar da abstra\u00e7\u00e3o para a orienta\u00e7\u00e3o, para que as pessoas possam compreender o que pode ser feito, por quem e com quais recursos (Instituto Tricontinental, 2025c).<\/p>\n<p><strong>Voltar \u00e0 origem.<\/strong> Resgatar a hist\u00f3ria e a cultura revolucion\u00e1rias, bem como a hist\u00f3ria e a cultura em geral. A hist\u00f3ria \u00e9 uma pr\u00e1tica de esperan\u00e7a, pois rompe com a ideia de que o presente \u00e9 eterno. Ao relembrar momentos de ruptura, de luta coletiva e de transforma\u00e7\u00e3o, as pessoas recuperam a certeza de que a mudan\u00e7a \u00e9 poss\u00edvel e aprendem como ela foi alcan\u00e7ada. A hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 nostalgia \u2014 \u00e9 uma escola de estrat\u00e9gia, sacrif\u00edcio e confian\u00e7a (Instituto Tricontinental, 2024f).<\/p>\n<p><strong>Tornar-se persuasores permanentes.<\/strong> A esquerda deve disputar todos os espa\u00e7os coletivos para divulgar as ideias da classe trabalhadora. Deve estar presente onde quer que as pessoas se re\u00fanam, n\u00e3o como um palestrante convidado, mas como uma for\u00e7a organizadora. O \u201cnovo intelectual\u201d de Gramsci \u00e9 um \u201cconstrutor\u201d e um \u201corganizador\u201d, um \u201cpersuasor permanente\u201d enraizado na vida pr\u00e1tica, e n\u00e3o na eloqu\u00eancia ocasional.Acima<\/p>\n<h3><strong>A Batalha das Emo\u00e7\u00f5es<\/strong><\/h3>\n<p>A classe dominante precisa trabalhar continuamente para canalizar o descontentamento generalizado que constitui a resposta racional \u00e0 explora\u00e7\u00e3o e \u00e0s priva\u00e7\u00f5es inerentes \u00e0 sociedade capitalista. O descontentamento \u00e9 perigoso quando passa a ser organizado, quando conhece seu inimigo e quando responde com solidariedade. Por isso, \u00e9 constantemente desviado da luta coletiva e direcionado para o medo, o ressentimento, o cinismo e a resigna\u00e7\u00e3o. Hoje, essa luta \u00e9 intensificada por um panorama de comunica\u00e7\u00e3o no qual a juventude da classe trabalhadora \u00e9 atra\u00edda para espa\u00e7os virtuais que promovem o individualismo, s\u00e3o projetados para capturar e monetizar sua aten\u00e7\u00e3o e esgotar sua capacidade cognitiva, e s\u00e3o controlados por for\u00e7as da extrema direita (Assange, 2014; Foer, 2017). Nesses espa\u00e7os, o descontentamento \u00e9 captado e encontra um al\u00edvio tempor\u00e1rio por meio de uma participa\u00e7\u00e3o afetiva ef\u00eamera. O resultado n\u00e3o \u00e9 o desaparecimento do descontentamento, mas sim sua gest\u00e3o (lucrativa), fragmentando a classe trabalhadora em espectadores isolados e ensinando-os a confundir rea\u00e7\u00e3o com pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Neste contexto, precisamos transformar a raiva e a confus\u00e3o em clareza, a clareza em esperan\u00e7a e a esperan\u00e7a em a\u00e7\u00e3o coletiva. Para isso, \u00e9 necess\u00e1rio:<\/p>\n<p><strong>Alfabetiza\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica.<\/strong> A esquerda deve esclarecer a classe trabalhadora sobre a infraestrutura, os objetivos (intencionais e n\u00e3o intencionais) e a economia pol\u00edtica dos espa\u00e7os virtuais e das tecnologias. Isso significa tornar vis\u00edvel a diferen\u00e7a entre a participa\u00e7\u00e3o controlada e o poder \u2014 entre publicar e organizar \u2014 e ensinar a classe trabalhadora a reconhecer como a classe dominante usa o seu monop\u00f3lio sobre os espa\u00e7os virtuais para controlar a informa\u00e7\u00e3o, amplificar a indigna\u00e7\u00e3o e normalizar o isolamento. O objetivo n\u00e3o \u00e9 se afastar dos espa\u00e7os virtuais, mas sim proporcionar \u00e0s pessoas as ferramentas necess\u00e1rias para interpret\u00e1-los, utiliz\u00e1-los e reconhecer seus limites.<\/p>\n<p><strong>A pol\u00edtica tal como ela \u00e9.<\/strong> Ao mesmo tempo que aproveita os espa\u00e7os virtuais para a educa\u00e7\u00e3o e a mobiliza\u00e7\u00e3o, a esquerda deve criar canais de participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em que as pessoas possam perceber a possibilidade real de transformar o presente para construir um futuro melhor. Isso requer momentos organizados de intera\u00e7\u00e3o sem a media\u00e7\u00e3o de algoritmos, nos quais as pessoas possam se encontrar, trocar ideias, organizar-se, tomar decis\u00f5es, realizar tarefas coletivas e ver os resultados. O objetivo \u00e9 passar de intera\u00e7\u00f5es ef\u00eameras baseadas em interesses limitados para uma organiza\u00e7\u00e3o de longo prazo baseada em interesses de classe comuns.<\/p>\n<p><strong>Contravalores.<\/strong> A esquerda deve desenvolver valores socialistas e concretiz\u00e1-los por meio da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Isso significa transformar a solidariedade, o cuidado, a disciplina e o companheirismo em realidades no mundo, em vez de apenas palavras de ordem. Os valores ganham credibilidade quando se refletem na forma como nos organizamos: na maneira como tratamos uns aos outros, como trabalhamos juntos, como resolvemos diverg\u00eancias e como nos relacionamos com as comunidades que afirmamos servir. Em uma cultura que promove o individualismo impiedoso e o pessimismo, a promo\u00e7\u00e3o dos valores socialistas constitui, por si s\u00f3, uma estrat\u00e9gia na batalha das emo\u00e7\u00f5es: ela oferece um vislumbre de uma forma diferente de conv\u00edvio social e, portanto, uma no\u00e7\u00e3o clara de como ser\u00e1 uma sociedade futura organizada em torno de valores distintos.Acima<\/p>\n<h3><strong>A esperan\u00e7a como pr\u00e1tica<\/strong><\/h3>\n<p>Se o futuro \u00e9 \u672a\u6765(<em>w\u00e8il\u00e1i<\/em>) \u2014 o \u201cainda n\u00e3o\u201d que est\u00e1 \u201cpor vir\u201d \u2014, ent\u00e3o a esperan\u00e7a \u00e9 a sensibilidade que mant\u00e9m esse \u201cainda n\u00e3o\u201d aberto e a pr\u00e1tica que impede que ele seja selado pelo pessimismo, pelo espet\u00e1culo e pela resigna\u00e7\u00e3o. A classe dominante trabalha para transformar <em>o futuro<\/em> em uma pris\u00e3o, para eternizar o presente e para transformar o descontentamento capitalista em cinismo ou crueldade. Em contrapartida, nossa tradi\u00e7\u00e3o insiste que a esperan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 um otimismo passivo ou uma mera expectativa, mas uma orienta\u00e7\u00e3o militante em rela\u00e7\u00e3o ao car\u00e1ter inacabado do mundo, forjada nas lutas pela dignidade em todo o Sul Global. \u00c9 perigoso precisamente por sua materialidade: desperta a consci\u00eancia e leva as pessoas da mera resist\u00eancia \u00e0 a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que a esperan\u00e7a exige estrutura, disciplina e organiza\u00e7\u00e3o. Quando a cultura e as ideias de um povo em movimento impedem a reprodu\u00e7\u00e3o do senso comum capitalista, elas podem se tornar fundamentais e decisivas, n\u00e3o como uma nega\u00e7\u00e3o do materialismo, mas como a sua realiza\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica. Nesse sentido, \u5927\u540c (d\u00e0t\u00f3ng) \u2013 o estado ut\u00f3pico caracterizado pela \u201charmonia universal\u201d \u2013 n\u00e3o \u00e9 um ideal meramente simb\u00f3lico, mas um horizonte que orienta a estrat\u00e9gia, enquanto \u5c0f\u5eb7 (<em>xi\u01ceok\u0101ng<\/em>, \u201csociedade moderadamente pr\u00f3spera\u201d) designa as medidas concretas que permitem \u00e0s pessoas se desenvolverem com recursos limitados, mas em condi\u00e7\u00f5es de dignidade. A esperan\u00e7a se torna realidade quando transforma o \u5c06\u6765 (<em>ji\u0101ngl\u00e1i<\/em>, \u201co futuro\u201d), o \u201cque est\u00e1 por vir\u201d, de uma promessa em um plano. A tarefa n\u00e3o \u00e9 sonhar de forma abstrata, mas construir uma utopia concreta, enraizada em tend\u00eancias reais e fortalecida pela pr\u00e1tica, at\u00e9 que o \u201cAinda N\u00e3o\u201d se torne um futuro tang\u00edvel que est\u00e1 sendo constru\u00eddo no presente.<\/p>\n<hr>\n<div>\n<figure><\/figure>\n<\/div>\n<p>Alfonso Soteno Fern\u00e1ndez (Metepec, Estado de M\u00e9xico, M\u00e9xico), <em>\u00c1rbol de la vida<\/em> (\u00c1rvore da Vida), 1975. Barro cozido em forno aberto, pintado com tinta vin\u00edlica envernizada, 6 m. Acima<\/p>\n<p><em>A arte deste dossi\u00ea pertence \u00e0 cole\u00e7\u00e3o Arte de Nuestra Am\u00e9rica Hayd\u00e9e Santamar\u00eda (Arte de Nossa Am\u00e9rica Hayd\u00e9e Santamar\u00eda) da Casa de las Am\u00e9ricas. Desde sua funda\u00e7\u00e3o em 1959, ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, essa institui\u00e7\u00e3o tem servido como uma plataforma fundamental para o internacionalismo cultural anti-imperialista, construindo la\u00e7os estreitos com artistas, escritores, intelectuais e ativistas pol\u00edticos renomados. As galerias da Casa acolheram exposi\u00e7\u00f5es de diversos g\u00eaneros, disciplinas e t\u00e9cnicas, realizadas por gera\u00e7\u00f5es de artistas, principalmente latino-americanos e caribenhos. Muitas dessas obras foram exibidas pela primeira vez nas galerias da Casa, premiadas em seus concursos ou doadas pelos artistas. Desde ent\u00e3o, passaram a integrar o acervo, formando um patrim\u00f4nio art\u00edstico excepcional.<\/em><\/p>\n<hr>\n<h3>Refer\u00eancias<\/h3>\n<p>Assange, Julian. <em>When Google Met Wikileaks.<\/em> New York: OR Books, 2014.<\/p>\n<p>Bloch, Ernst. <em>The Principle of Hope.<\/em> v. 1. Cambridge: MIT Press, 1986.<\/p>\n<p>Bloch, Ernst. <em>The Spirit of Utopia.<\/em> Palo Alto: Stanford University Press, 2000.<\/p>\n<p>Fischer, Mark. <em>Capitalist Realism: Is There No Alternative? <\/em>Winchester: Zero Books, 2009.<\/p>\n<p>Foer, Franklin. <em>\u201cWorld Without Mind\u201d:<\/em> The Existential Threat of Big Tech. New York: Penguin Press, 2017.<\/p>\n<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, \u201cA Arte da Revolu\u00e7\u00e3o ser\u00e1 Internacionalista\u201d, dossi\u00ea n. 15, 8 abr. 2019a. Dispon\u00edvel em: https:\/\/thetricontinental.org\/the-art-of-the-revolution-will-be-internationalist\/.<\/p>\n<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. \u201cO novo intelectual\u201d, dossi\u00ea n. 12, 11 fev. 2019b. Dispon\u00edvel em: https:\/\/thetricontinental.org\/the-new-intellectual\/.<\/p>\n<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. \u201cA servi\u00e7o do povo: a erradica\u00e7\u00e3o da pobreza extrema na China\u201d. <em>Estudos sobre a Constru\u00e7\u00e3o Socialista n. 1<\/em>, 23 jul. 2021a. Dispon\u00edvel em: https:\/\/thetricontinental.org\/studies-1-socialist-construction\/.<\/p>\n<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. \u201cBig Techs e os desafios atuais para a luta de classes\u201d, dossi\u00ea n. 46, 1 nov. 2021b. Dispon\u00edvel em: https:\/\/thetricontinental.org\/dossier-46-big-tech\/.<\/p>\n<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. \u201cAmanhecer: marxismo e liberta\u00e7\u00e3o nacional\u201d, dossi\u00ea n. 37, 8 fev. 2021c. Dispon\u00edvel em: https:\/\/thetricontinental.org\/dossier-37-marxism-and-national-liberation\/.<\/p>\n<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. \u201cVida ou d\u00edvida: o limiar estrangulador do neocolonialismo e a busca por alternativas na \u00c1frica\u201d, dossi\u00ea n. 63, 9 jun. 2023. Dispon\u00edvel em: https:\/\/thetricontinental.org\/pt-pt\/dossie-63-crise-da-divida-africana\/.<\/p>\n<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. \u201cDez teses sobre uma extrema direita de um tipo especial\u201d. Carta semanal 33 (2024), 15 ago. 2024a. Dispon\u00edvel em: https:\/\/thetricontinental.org\/newsletterissue\/ten-theses-on-the-far-right-of-a-special-type\/.<\/p>\n<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. \u201cA organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)\u201d, dossi\u00ea n. 75, 16 abr. 2024b. Dispon\u00edvel em: https:\/\/thetricontinental.org\/pt-pt\/dossie-75-movimento-dos-trabalhadores-rurais-sem-terra-brasil\/.<\/p>\n<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. \u201cComo o neoliberalismo usou a \u2018corrup\u00e7\u00e3o\u2019 para privatizar a vida na \u00c1frica\u201d, dossi\u00ea n. 82, 24 nov. 2024c. Dispon\u00edvel em: https:\/\/thetricontinental.org\/pt-pt\/dossie-como-o-neoliberalismo-usou-a-corrupcao-para-privatizar-a-africa\/.<\/p>\n<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. \u201cO falso conceito de populismo e os desafios para a esquerda: Uma an\u00e1lise conjuntural da pol\u00edtica no Atl\u00e2ntico Norte\u201d, dossi\u00ea n. 83, 17 dez. 2024d. Dispon\u00edvel em:https:\/\/thetricontinental.org\/pt-pt\/dossie-falso-conceito-de-populismo\/.<\/p>\n<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. \u201cOs congoleses lutam pela sua pr\u00f3pria riqueza\u201d, dossi\u00ea n. 77, 25 jun. 2024e. Dispon\u00edvel em: https:\/\/thetricontinental.org\/dossier-77-the-congolese-fight-for-their-own-wealth\/.<\/p>\n<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. \u201cCabral: A Revolutionary of Double Belonging: The Ninth Pan-Africa Newsletter (2024)\u201d. 27 set. 2024f. Dispon\u00edvel em: https:\/\/thetricontinental.org\/pan-africa\/newsletterissue-cabral-centenary\/.<\/p>\n<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. \u201cHiperimperialismo: um novo est\u00e1gio decadente e perigoso\u201d. <em>Estudos sobre dilemas contempor\u00e2neos n. 4<\/em>, 23 jan. 2024g. Dispon\u00edvel em: https:\/\/thetricontinental.org\/pt-pt\/estudos-sobre-dilemas-contemporaneos-4-hiper-imperialismo\/.<\/p>\n<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. \u201cGuerra imperialista e resist\u00eancia feminista no Sul Global\u201d, dossi\u00ea n. 86, 5 mar. 2025a, https:\/\/thetricontinental.org\/dossier-imperialist-war-and-feminist-resistance-in-the-global-south\/.<\/p>\n<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. \u201cO 80\u00ba Anivers\u00e1rio da vit\u00f3ria na Guerra Mundial Antifascista, compreendendo quem salvou a humanidade: Uma hist\u00f3ria Restauracionista\u201d. <em>Dilemas Contempor\u00e2neos n. 5<\/em>, 12 nov. 2025b. Dispon\u00edvel em: https:\/\/thetricontinental.org\/the-80th-anniversary-of-the-victory-in-the-world-anti-fascist-war\/.<\/p>\n<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. \u201cRumo a uma nova teoria do desenvolvimento para o Sul Global\u201d, dossi\u00ea n. 84, 14 jan. 2025c. Dispon\u00edvel em: https:\/\/thetricontinental.org\/towards-a-new-development-theory-for-the-global-south\/.<\/p>\n<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. \u201cO esp\u00edrito de Bandung\u201d. Dossi\u00ea n. 87, 8 abr. 2025d. Dispon\u00edvel em: https:\/\/thetricontinental.org\/dossier-the-bandung-spirit\/.<\/p>\n<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.\u00a0 \u201cOtan: A Organiza\u00e7\u00e3o Mais Perigosa do Mundo\u201d. Dossi\u00ea n. 89, 10 jun. 2025e. Dispon\u00edvel em: https:\/\/thetricontinental.org\/dossier-nato-the-most-dangerous-organisation\/.<\/p>\n<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. \u201cO Sahel em busca de soberania\u201d. Dossi\u00ea n. 91, 12 ago. 2025f. Dispon\u00edvel em: https:\/\/thetricontinental.org\/dossier-sahel-alliance-sovereignty\/.<\/p>\n<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. \u201cA crise ambiental como parte da crise do capital\u201d. Dossi\u00ea n. 93, 14 out. 2025g. Dispon\u00edvel em: https:\/\/thetricontinental.org\/pt-pt\/dossie-crise-ambiental\/.<\/p>\n<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. \u201cO imperialismo ser\u00e1 inevitavelmente derrotado: o ressurgimento do Esp\u00edrito Tricontinental\u201d. Dossi\u00ea n. 95, 9 dez. 2025h. Dispon\u00edvel em: https:\/\/thetricontinental.org\/pt-pt\/dossie-tricontinental-conferencia-60\/.<\/p>\n<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. \u201cA agenda antifeminista da extrema direita latino-americana\u201d. Dossi\u00ea n. 98, 3 mar. 2026. Dispon\u00edvel em: https:\/\/thetricontinental.org\/pt-pt\/dossie-agenda-direita-contra-mulheres\/.<\/p>\n<p>Marx, Karl. <em>O capital. Cr\u00edtica da Economia Pol\u00edtica<\/em>, v. 1, trad. Ben Fowkes. Londres: Penguin Books, 1976.<\/p>\n<p>Minh, Ho Chi. \u201cModifying Working Methods\u201d. <em>Selected Works<\/em>, v. 2. Hanoi: Foreign Languages Publishing House, 1961.<\/p>\n<p>Attribution-NonCommercial 4.0<br \/>International (CC BY-NC 4.0)<\/p>\n<p>This publication is issued under a Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International (CC BY-NC 4.0) license. The human-readable summary of the license is available at https:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-nc\/4.0\/.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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N\u00e3o acontece, \u00e9 constru\u00eddo  \u2013 coletivamente. Financismo, big techs, extrativistas e militarismo tentam coloniz\u00e1-lo. E a emancipa\u00e7\u00e3o passa pela batalha de ideias e esperan\u00e7a como pr\u00e1tica. 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