{"id":89526,"date":"2026-05-29T17:23:12","date_gmt":"2026-05-29T20:23:12","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/vlt-na-paraiba-resistencia-popular-aos-trilhos-da-remocao\/"},"modified":"2026-05-29T17:23:12","modified_gmt":"2026-05-29T20:23:12","slug":"vlt-na-paraiba-resistencia-popular-aos-trilhos-da-remocao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/vlt-na-paraiba-resistencia-popular-aos-trilhos-da-remocao\/","title":{"rendered":"VLT na Para\u00edba: Resist\u00eancia popular aos trilhos da remo\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"1000\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/photo_4958644622498401257_w.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/photo_4958644622498401257_w-1500x1000.jpg 1500w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/photo_4958644622498401257_w-300x200.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/photo_4958644622498401257_w-768x512.jpg 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/photo_4958644622498401257_w-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/photo_4958644622498401257_w-272x182.jpg 272w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/photo_4958644622498401257_w.jpg 1620w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\"><figcaption>Foto: Julio Cezar Peres<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<p><imgsrc=\"\" width=\"1\" height=\"1\" alt=\".\" border=\"0\">\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Este texto \u00e9 fruto de uma parceria entre o Outras Cidades e oBrCidades.<\/p>\n<p>O projeto de implanta\u00e7\u00e3o do Ve\u00edculo Leve sobre Trilhos (VLT), anunciado em julho de 2025 pelo governo municipal de Campina Grande, Para\u00edba, tem gerado apreens\u00e3o de centenas de fam\u00edlias que vivem h\u00e1 d\u00e9cadas nas margens da linha f\u00e9rrea. Frente \u00e0 amea\u00e7a de perderem suas moradias, as fam\u00edlias t\u00eam organizado formas de resist\u00eancia para garantir o direito \u00e0 moradia.<\/p>\n<h3><strong>Obras e valoriza\u00e7\u00e3o que excluem<\/strong><\/h3>\n<p>Historicamente, o processo de urbaniza\u00e7\u00e3o das cidades brasileiras expressa espacialmente as desigualdades estruturais e injusti\u00e7as sociais que marcam o pa\u00eds a partir, principalmente, da restri\u00e7\u00e3o do acesso das popula\u00e7\u00f5es subalternizadas \u00e0 terra e \u00e0 moradia.<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Prancheta--45.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Prancheta--45.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Prancheta-4-300x110.png 300w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Obras p\u00fablicas, frutos de interven\u00e7\u00f5es estatais, contribuem para a provis\u00e3o de infraestruturas, servi\u00e7os, espa\u00e7os, equipamentos necess\u00e1rios \u00e0 produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o social, nas cidades brasileiras, incluindo Campina Grande. Por\u00e9m, sua implanta\u00e7\u00e3o \u00e9 desigual: os impactos positivos beneficiam agentes econ\u00f4micos e rendas das camadas superiores, enquanto os negativos atingem mais os vulnerabilizados. Al\u00e9m disso, as obras tamb\u00e9m valorizam diferenciadamente os espa\u00e7os urbanos, gerando acesso desigual; e, no contexto neoliberal de financeiriza\u00e7\u00e3o, acentuam a mercantiliza\u00e7\u00e3o e privatiza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o atrav\u00e9s do est\u00edmulo \u00e0 especula\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria e imobili\u00e1ria.<\/p>\n<p>Tanto a implanta\u00e7\u00e3o de obras diretamente, quanto as consequentes din\u00e2micas de valoriza\u00e7\u00e3o espacial, resultam, frequentemente, em deslocamentos, remo\u00e7\u00f5es e despejos for\u00e7ados dos mais pobres, obrigando-os a recorrer, continuamente, a ocupa\u00e7\u00f5es e ao mercado informal, muitas vezes em \u00e1reas n\u00e3o consolid\u00e1veis e, frequentemente, de risco. Os impactos negativos desses processos, portanto, s\u00e3o mais acentuados para os grupos espoliados nas cidades brasileiras, incluindo aqueles que vivem em cidades m\u00e9dias, como Campina Grande, segundo maior munic\u00edpio do estado da Para\u00edba.<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"844\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-1500x844.jpeg 1500w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-300x169.jpeg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-768x432.jpeg 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-1536x864.jpeg 1536w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image.jpeg 1600w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\"><\/figure>\n<p><em>Ocupa\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas \u00e0 linha f\u00e9rrea no bairro do Tambor, em Campina Grande \u2014 PB (B\u00e1rbara Martins, 2026)<\/em><\/p>\n<h3><strong>Contextualizando a quest\u00e3o<\/strong><\/h3>\n<p>Campina Grande \u00e9 difundida como a cidade do trabalho e, ainda, \u00e9 comum a vinda de muitas fam\u00edlias das cidades circunvizinhas em busca de melhores oportunidades econ\u00f4micas na \u201cRainha da Borborema\u201d, mesmo que a inser\u00e7\u00e3o da maioria se d\u00ea de maneira inst\u00e1vel e prec\u00e1ria no mundo do trabalho. Tais condi\u00e7\u00f5es, associadas \u00e0s escassas oportunidades habitacionais p\u00fablicas e sem ter acesso ao mercado formal, resultaram nas diversas favelas e loteamentos irregulares da cidade \u2014 entre estes, assentamentos resultantes das primeiras ocupa\u00e7\u00f5es urbanas \u00e0s margens dos trilhos da ferrovia que corta a cidade de norte a sul com seus 15 quil\u00f4metros de extens\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>O bairro Tambor \u00e9 resultado desse processo. Localizado a cerca de 6 km do centro, na zona sul da cidade, ele foi um dos primeiros a se expandir para a faixa de dom\u00ednio da ferrovia a partir de ocupa\u00e7\u00f5es realizadas entre o fim da d\u00e9cada de 1960 e o in\u00edcio da d\u00e9cada de 1970. Eram barracos de taipa, constru\u00eddos com os meios dispon\u00edveis e sob condi\u00e7\u00f5es adversas ao longo de uma \u00e1rea alag\u00e1vel. Formaram um conjunto de casas pequenas, sem banheiro, com ilumina\u00e7\u00e3o \u00e0 base de candeeiro e sem acesso \u00e0 \u00e1gua.\u00a0<\/p>\n<p>Os ocupantes tamb\u00e9m sofriam diante dos conflitos com a Rede Ferrovi\u00e1ria Federal S.A., empresa respons\u00e1vel pelo trecho ferrovi\u00e1rio que promovia a derrubada das casas e amea\u00e7ava as fam\u00edlias que permaneceram na \u00e1rea. Sem acesso a outras oportunidades para atendimento \u00e0s suas necessidades habitacionais, a amea\u00e7a de despejo acompanhou a hist\u00f3ria e o desenvolvimento dessas ocupa\u00e7\u00f5es, que assistiram \u00e0 expans\u00e3o da cidade e ao fornecimento de servi\u00e7os em seu entorno.\u00a0<\/p>\n<p>No Tambor, a ocupa\u00e7\u00e3o dos anos 1970 se consolidou em um dos lados da linha do trem e, em\u00a0 2008, iniciou-se a ocupa\u00e7\u00e3o do lado oposto \u2014 entre a linha f\u00e9rrea e muros de empreendimentos fabris, com\u00e9rcios e servi\u00e7os \u2014 pelas novas gera\u00e7\u00f5es das fam\u00edlias que moram no bairro. A insuficiente oferta de moradia n\u00e3o ficou restrita assim aos que formaram o Tambor, mas continua marcando seus filhos e netos.\u00a0\u00a0<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/HUCITEC-basaglia1-4.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/HUCITEC-basaglia1-4.png 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/HUCITEC-basaglia1-300x37.png 300w\" sizes=\"(max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<h3><strong>A ferrovia, as ocupa\u00e7\u00f5es e os conflitos: uma hist\u00f3ria antiga<\/strong><\/h3>\n<p>A ferrovia que atravessa Campina Grande e que era patrim\u00f4nio p\u00fablico da Uni\u00e3o, sob a gest\u00e3o da Rede Ferrovi\u00e1ria Federal SA (RFFSA), passou por um processo de privatiza\u00e7\u00e3o nos anos 90. A Ferrovia Transnordestina Log\u00edstica S\/A (FTL), empresa privada, obteve a concess\u00e3o da Malha Nordeste, incluindo o trecho que atravessa Campina Grande.\u00a0No entanto, as obras previstas a partir da concess\u00e3o n\u00e3o foram implementadas. O transporte de cargas, j\u00e1 exclusivo desde os anos 80, foi desativado em 2010, restando apenas o uso sazonal durante as festas juninas (Trem do Forr\u00f3). Com a pandemia, houve a desativa\u00e7\u00e3o definitiva do trecho ferrovi\u00e1rio que atravessa a cidade, deixando a faixa de dom\u00ednio esvaziada de sua fun\u00e7\u00e3o original.<\/p>\n<p>A associa\u00e7\u00e3o entre a omiss\u00e3o p\u00fablica quanto \u00e0 ferrovia e sua faixa de dom\u00ednio, mas tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica habitacional frente \u00e0 demanda elevada por moradia, resultou na intensifica\u00e7\u00e3o das ocupa\u00e7\u00f5es \u00e0s margens da linha f\u00e9rrea, principalmente no entorno das comunidades, uma vez que o d\u00e9ficit habitacional na cidade, em 2010, atingia o n\u00famero de 14.620 pessoas (IBGE, 2010). Diante desse contexto, muitas fam\u00edlias que viviam em condi\u00e7\u00f5es inadequadas tiveram a faixa de dom\u00ednio como alternativa para construir suas moradias, mesmo que de forma prec\u00e1ria. Algumas destas \u00e1reas se evidenciavam como desfavor\u00e1veis \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o apenas pela quest\u00e3o da faixa de\u00a0 dom\u00ednio, mas tamb\u00e9m em decorr\u00eancia do crescimento do matagal, ac\u00famulo de lixo, descarte de restos de ve\u00edculos roubados e at\u00e9 mesmo de corpos em seu entorno.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria do Tambor est\u00e1 relacionada a esse processo de abandono progressivo da linha f\u00e9rrea. Amea\u00e7as, coa\u00e7\u00f5es e despejos tamb\u00e9m ocorreram em outras comunidades de Campina Grande pr\u00f3ximas \u00e0 linha f\u00e9rrea. Todavia, com a inatividade da ferrovia e a amplia\u00e7\u00e3o das infraestruturas e servi\u00e7os nos bairros, as ocupa\u00e7\u00f5es se consolidaram.<\/p>\n<h3><strong>O VLT reacende o conflito<\/strong><\/h3>\n<p>A partir de 2011, o conflito fundi\u00e1rio referente ao trecho ferrovi\u00e1rio ocupado \u00e9 retomado em fun\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es de reintegra\u00e7\u00e3o de posse movidas pela FLT contra as fam\u00edlias ocupantes, que desde ent\u00e3o vivem num estado de alerta ainda mais cr\u00edtico. V\u00e1rias audi\u00eancias foram realizadas com a participa\u00e7\u00e3o dos moradores amea\u00e7ados, mas, como os processos judiciais s\u00e3o demorados e n\u00e3o afetaram diretamente a maioria das fam\u00edlias, houve a impress\u00e3o de que os despejos n\u00e3o seriam realizados.\u00a0<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio foi alterado em 2025, quando foi anunciada pelo governo municipal de Bruno Cunha Lima (Uni\u00e3o Brasil) a implanta\u00e7\u00e3o de um Ve\u00edculo Leve sobre Trilhos (VLT) na cidade, com um investimento federal de mais de 100 milh\u00f5es de reais. A proposta do VLT era aventada desde 2011, gerando uma disputa em torno do projeto de diferentes grupos pol\u00edticos que se alternaram nas gest\u00f5es municipais. Mais recentemente, a alian\u00e7a entre estes grupos de opositores contribuiu com\u00a0 o processo de articula\u00e7\u00f5es pol\u00edticas para viabilizar os recursos para o projeto e as obras do VLT com o governo federal.<\/p>\n<p>O projeto reacendeu o conflito em torno do trecho ferrovi\u00e1rio. O VLT, anunciado como sin\u00f4nimo de modernidade e progresso, oculta os custos sociais e humanos para sua realiza\u00e7\u00e3o. Os moradores das comunidades que ocupam as faixas de dom\u00ednio tomaram conhecimento, pela m\u00eddia local, da previs\u00e3o de que o VLT entraria em funcionamento j\u00e1 em 2026, uma data propagada por pol\u00edticos para promover o projeto sem garantias reais de concretiza\u00e7\u00e3o. Sem qualquer participa\u00e7\u00e3o social ou transpar\u00eancia sobre as etapas do projeto, vivem aflitos diante da imin\u00eancia de despejos e da falta de garantias habitacionais.<\/p>\n<p>As obras tiveram in\u00edcio antes mesmo da elabora\u00e7\u00e3o dos estudos e projetos. Inicialmente, concentraram-se em trechos n\u00e3o ocupados, mas j\u00e1 chegaram \u00e0s comunidades. Ainda sem a demoli\u00e7\u00e3o de casas, mas com movimenta\u00e7\u00e3o de terras que resultou em alagamentos de v\u00e1rias moradias. Mais recentemente, a prefeitura deu in\u00edcio ao cadastramento das fam\u00edlias, processo iniciado sem qualquer repasse de informa\u00e7\u00f5es ou realiza\u00e7\u00e3o de reuni\u00f5es com os moradores para inform\u00e1-los sobre o projeto. Alguns servidores da prefeitura que tiveram contato com as fam\u00edlias, inclusive, forneceram informa\u00e7\u00f5es contradit\u00f3rias quanto \u00e0s alternativas habitacionais direcionadas para elas.<\/p>\n<p>Para o povo que ocupa as margens da linha do trem h\u00e1 d\u00e9cadas, o que fica \u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para que suas vozes sejam ouvidas, diante de uma total indiferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s suas condi\u00e7\u00f5es e necessidades. Pela falta de transpar\u00eancia e canais de di\u00e1logo, os principais impactados pela implanta\u00e7\u00e3o do VLT n\u00e3o t\u00eam acesso a informa\u00e7\u00f5es nem a oportunidades para que suas vozes sejam ouvidas. N\u00e3o s\u00e3o, assim, reconhecidos como sujeitos de direito pelo governo municipal. Tal falta de reconhecimento se estende \u00e0s formas como a grande m\u00eddia e os ve\u00edculos tradicionais de comunica\u00e7\u00e3o reportam o processo. Quando citam o VLT, destacam-no como um importante sistema de transporte p\u00fablico urbano e real\u00e7am os impactos positivos da mobilidade, sem mencionar seus impactos sociais concretos, uma vez que n\u00e3o h\u00e1 nenhuma solu\u00e7\u00e3o habitacional no horizonte para os moradores.<\/p>\n<p>A partir do apoio de integrantes do BrCidades Campina Grande, da Frente pelo Direito \u00e0 Cidade e do N\u00facleo Para\u00edba do Observat\u00f3rio das Metr\u00f3poles, os moradores passaram a ter acesso a algumas informa\u00e7\u00f5es, como: o acesso do governo municipal a recursos federais a partir do Minist\u00e9rio das Cidades para a elabora\u00e7\u00e3o de estudos e projetos para a implanta\u00e7\u00e3o do VLT e as a\u00e7\u00f5es de reintegra\u00e7\u00e3o de posse movidas pela FLT, que passaram a ser discutidas pela Comiss\u00e3o de Solu\u00e7\u00f5es Fundi\u00e1rias (CSF) no Tribunal Regional Federal da 5\u00aa Regi\u00e3o, em Recife.\u00a0<\/p>\n<h3><strong>Resist\u00eancia e luta pelo direito \u00e0 moradia<\/strong>\u00a0<\/h3>\n<p>Sob condi\u00e7\u00f5es adversas e numa situa\u00e7\u00e3o desfavor\u00e1vel, os moradores deram in\u00edcio \u00e0s primeiras movimenta\u00e7\u00f5es em busca de respostas dos \u00f3rg\u00e3os competentes, com a assessoria da Rede BrCidades Campina Grande e do Observat\u00f3rio das Metr\u00f3poles. Alguns dos \u00f3rg\u00e3os acionados foram MPF, DPE, Servi\u00e7o de Informa\u00e7\u00e3o ao Cidad\u00e3o do Minist\u00e9rio das Cidades, Secretaria-Geral da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, Conselho Nacional de Direitos Humanos, Casa Civil, Minist\u00e9rio dos Transportes, DPU, Procuradoria Federal do Direito do Cidad\u00e3o do MPF, Defensoria Estadual e Comiss\u00e3o de Direitos Humanos da OAB, al\u00e9m de contatos com representantes dos poderes Executivo e Legislativo municipais. A vereadora J\u00f4 Oliveira (PCdoB) promoveu uma audi\u00eancia p\u00fablica para discutir o VLT, com o apoio de vereadores da oposi\u00e7\u00e3o, entre eles Anderson Pila (PSB), viabilizando a primeira oportunidade p\u00fablica de interlocu\u00e7\u00e3o entre os moradores e os representantes dos poderes institu\u00eddos em suas diversas esferas.<\/p>\n<p>Foram realizadas, tamb\u00e9m, duas Audi\u00eancias P\u00fablicas no \u00e2mbito da Comiss\u00e3o de Solu\u00e7\u00f5es Fundi\u00e1rias do TRF5, tendo como principal encaminhamento a cria\u00e7\u00e3o de uma comiss\u00e3o com representantes de \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos e das comunidades. Foi estabelecido ainda, no \u00e2mbito destas audi\u00eancias, o compromisso da Prefeitura Municipal de Campina Grande em assegurar os direitos das fam\u00edlias afetadas pela implanta\u00e7\u00e3o do VLT a informa\u00e7\u00f5es e \u00e0 moradia. Nas audi\u00eancias, representantes da prefeitura mencionaram como possibilidades para as fam\u00edlias impactadas indeniza\u00e7\u00f5es por benfeitorias e novas unidades habitacionais referentes a empreendimentos com recursos federais do Programa Minha Casa Minha Vida (MCMV).\u00a0<\/p>\n<p>A primeira alternativa n\u00e3o garante o direito \u00e0 moradia, considerando que os valores pagos em indeniza\u00e7\u00f5es n\u00e3o permitem a aquisi\u00e7\u00e3o de casas com condi\u00e7\u00f5es adequadas. Os empreendimentos do MCMV mencionados est\u00e3o sendo constru\u00eddos em \u00e1reas perif\u00e9ricas da cidade, distantes dos locais de origem, ignorando as rela\u00e7\u00f5es de vizinhan\u00e7a, as redes de apoio, as identidades territoriais e, ainda, dever\u00e3o impactar negativamente o acesso das fam\u00edlias a oportunidades sociais, econ\u00f4micas e culturais.\u00a0<\/p>\n<p>Al\u00e9m das articula\u00e7\u00f5es institucionais, os moradores v\u00eam se organizando politicamente em busca de informa\u00e7\u00f5es e de solu\u00e7\u00f5es habitacionais concretas que assegurem o seu direito humano e constitucional \u00e0 moradia, exigindo respostas dos \u00f3rg\u00e3os competentes. A mobiliza\u00e7\u00e3o tem se dado por meio de reuni\u00f5es de bairro, encontros com agentes, \u00f3rg\u00e3os e institui\u00e7\u00f5es, manifesta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e den\u00fancias nas redes sociais. Criou-se, inclusive, uma comiss\u00e3o de moradores com representantes das comunidades que, potencialmente, ser\u00e3o as mais atingidas pelas obras do VLT, com o objetivo de encabe\u00e7ar a luta e que, al\u00e9m de atuar ativamente sobre a situa\u00e7\u00e3o, re\u00fane-se para refletir e problematizar o processo de luta e politizar-se sobre seu contexto hist\u00f3rico.\u00a0<\/p>\n<p>A assessoria do BrCidades Campina Grande e do Observat\u00f3rio das Metr\u00f3poles (UFCG) tem sido fundamental nessa luta, fornecendo suporte t\u00e9cnico, humano e material. Esse apoio permitiu expandir as reuni\u00f5es para as comunidades da Esta\u00e7\u00e3o Velha e do Arax\u00e1, que, junto ao Tambor, concentram o maior n\u00famero de ocupa\u00e7\u00f5es no entorno do trecho ferrovi\u00e1rio. Os mapeamentos participativos realizados nas comunidades t\u00eam se mostrado importantes instrumentos para identificar necessidades de urbaniza\u00e7\u00e3o, como ilumina\u00e7\u00e3o, \u00e1gua, esgoto, drenagem, coleta de lixo e equipamentos sociais (UBS, escolas, hospitais). Al\u00e9m da luta pela garantia do direito \u00e0 moradia \u00e0s fam\u00edlias amea\u00e7adas de despejo, as lutas pela urbaniza\u00e7\u00e3o, regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria e acesso a servi\u00e7os e equipamentos p\u00fablicos s\u00e3o igualmente fundamentais para as comunidades.<\/p>\n<h3><strong>A luta continua: entender para transformar\u00a0<\/strong><\/h3>\n<p>A experi\u00eancia de luta por moradia em Campina Grande, protagonizada pelos moradores potencialmente atingidos pelo VLT, tem sido um laborat\u00f3rio vivo em que, embora nos limites da luta por direitos, florescem iniciativas org\u00e2nicas que est\u00e3o para al\u00e9m de reivindicar algo: envolve a luta para transformar a realidade. Cada a\u00e7\u00e3o \u00e9 constru\u00edda atrav\u00e9s do esfor\u00e7o coletivo de pessoas em extremo estado de vulnerabilidade social, trabalhadoras e trabalhadores precarizados, que precisam dar duro no dia a dia para conseguir o p\u00e3o de cada manh\u00e3 e, mesmo diante de toda informalidade e inseguran\u00e7a, encontram for\u00e7as para se unir em torno dessa transforma\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p>Os moradores s\u00e3o, em grande parte, fam\u00edlias chefiadas por mulheres negras, muitas vezes m\u00e3es solo de crian\u00e7as at\u00edpicas, que sofrem com a extrema vulnerabilidade social imposta a um territ\u00f3rio marcado pela aus\u00eancia do Estado. S\u00e3o elas que det\u00eam, de fato, o protagonismo dessa luta: enfrentam duplas e at\u00e9 triplas jornadas de trabalho, dentro e fora de casa, mas se unem em coletivo para idealizar, organizar e executar a\u00e7\u00f5es nas comunidades voltadas \u00e0 luta por moradia, ao apoio \u00e0s mulheres, \u00e0s crian\u00e7as e aos jovens da periferia, grupos t\u00e3o negligenciados pelos poderes p\u00fablicos que os privam do direito ao lazer e \u00e0 cultura.<\/p>\n<p>A comiss\u00e3o de moradores \u00e9 o eixo dessa organiza\u00e7\u00e3o. Por meio dela, a luta n\u00e3o apenas se d\u00e1 no cotidiano, mas adquire um car\u00e1ter formativo, ao ser canalizada para um processo pedag\u00f3gico de politiza\u00e7\u00e3o que ultrapassa a quest\u00e3o do VLT, da luta por moradia e por direitos. Busca-se compreender suas conex\u00f5es com a aus\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas de habita\u00e7\u00e3o de interesse social por parte da atual gest\u00e3o municipal, no poder desde 2021, os interesses da especula\u00e7\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o capitalista do espa\u00e7o urbano e a l\u00f3gica de reprodu\u00e7\u00e3o do capital. Assim, a comiss\u00e3o atua enquanto reflete criticamente sobre o mundo em que vivemos, para adquirir qualidade de atua\u00e7\u00e3o sobre ele.<\/p>\n<p>O contexto de amea\u00e7as e de precariedade nas condi\u00e7\u00f5es de reprodu\u00e7\u00e3o social tem permitido construir, n\u00e3o apenas um processo de mobiliza\u00e7\u00e3o sociopol\u00edtica e de problematiza\u00e7\u00e3o cr\u00edtica dessas condi\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m a amplia\u00e7\u00e3o da vontade coletiva de participar da reconstru\u00e7\u00e3o das comunidades de forma mais justa e transformadora.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Sem di\u00e1logo, prefeitura n\u00e3o d\u00e1 garantias habitacionais. Comunidade se articula. Caso mostra: Estado abandona terras; depois as toma em nome do \u201cprogresso\u201d<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/outras-cidades\/vlt-na-paraiba-resistencia-popular-aos-trilhos-da-remocao\/\">VLT na Para\u00edba: Resist\u00eancia popular aos trilhos da remo\u00e7\u00e3o<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":89527,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[966,35304,47151,62935,62936,62,9535,14217,13978,62937,228,3592,4297,30105,968,62938,58471,62939,60395,62940,2387,62941,26652],"tags":[],"class_list":["post-89526","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-campina-grande","category-cidades-brasileiras","category-desigualdades-estruturais","category-espacos-urbanos","category-especulacao-fundiaria","category-especulacao-imobiliaria","category-ferrovia","category-financeirizacao","category-mercantilizacao","category-moradias-precarias","category-nordeste","category-obras","category-ocupacoes","category-outras-cidades","category-paraiba","category-populacoes-subalternizadas","category-tambor","category-trabalhadores-precarizados","category-trilhos","category-unidades-habitacionais","category-urbanizacao","category-veiculo-leve-sobre-trilhos","category-vulnerabilidade-social"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/89526","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=89526"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/89526\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/89527"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=89526"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=89526"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=89526"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}