{"id":89664,"date":"2026-06-01T04:00:00","date_gmt":"2026-06-01T07:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/precisamos-falar-sobre-lulu\/"},"modified":"2026-06-01T04:00:00","modified_gmt":"2026-06-01T07:00:00","slug":"precisamos-falar-sobre-lulu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/precisamos-falar-sobre-lulu\/","title":{"rendered":"Precisamos falar sobre Lulu"},"content":{"rendered":"<p>Talvez a melhor descri\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as na vida de Lulu esteja em suas pr\u00f3prias palavras: \u201cEu reflito sobre minha antiga vida, meu erro, meus direitos e meu futuro adiante\u201d, diz uma de suas anota\u00e7\u00f5es. Guianense, negra e m\u00e3e de cinco filhos, Tanaka Luanda Lawrence estava presa havia alguns anos na Penitenci\u00e1ria Feminina da Capital (PFC), na zona norte de S\u00e3o Paulo, no antigo complexo do Carandiru. <span>A sua trajet\u00f3ria no sistema penitenci\u00e1rio brasileiro \u00e9 um retrato das engrenagens de neglig\u00eancia operadas nas pris\u00f5es do pa\u00eds, em um sistema que m\u00f3i exist\u00eancias e \u00e9 especialmente cruel contra mulheres.<\/span><\/p>\n<p>Entre 2016 e 2019, Tanaka, ou Lulu, como foi carinhosamente apelidada devido ao sobrenome Luanda, chamava de \u201csenhoras\u201d as outras mulheres brasileiras, angolanas, cabo-verdianas e peruanas, a quem descrevia como \u201cbonitas\u201d.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p>\u00a0\u201cAdoro poemas e nem sequer consegui escrever um adequado hoje, mas, de qualquer forma, o per\u00edodo que passo aqui vale o meu tempo\u201d, anotou em um dos encontros do projeto coletivo <em>Mulheres poss\u00edveis \u2014 corpo, g\u00eanero e encarceramento <\/em>voltado a reeducandas do sistema penitenci\u00e1rio.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cEste projeto traz \u00e0 tona a mulher, a crian\u00e7a e a artista em mim. \u00c9 realmente um prazer estar aqui com voc\u00eas, senhoras, aprendendo, desenhando, rindo, compartilhando ideias. <span>Quando nos encontramos, para mim \u00e9 uma liberta\u00e7\u00e3o mental da pris\u00e3o, apesar de eu ainda estar nela\u201d<\/span>, registrou. Nos encontros, os registros de Lulu indicam que ela aprendeu \u201cnovas habilidades\u201d, que fez \u201cum pouco de exerc\u00edcio\u201d e que dava risada. Relatou, ainda, que entendia melhor \u201csobre o corpo feminino\u201d e \u201csobre o Brasil e sua maneira de sobreviver\u201d.\u00a0<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div data-id=\"1\">\n<div>\n<p><span><br \/>\n\u201cHoje eu tinha tanto em que pensar\u201d, escreveu, ao ilustrar o que seria sua cela, a de n\u00famero 81.<br \/>\n<\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div data-id=\"2\">\n<div>\n<p><span><br \/>\n\u201cUma cela \u00e9 um quarto quadrado de 2&#215;2 com paredes brancas e uma porta azul de ferro que \u00e0s 6 da tarde deve estar trancada e aberta \u00e0s 7 ou 8 horas da manh\u00e3 de um s\u00e1bado. Tem um vaso sanit\u00e1rio e um banheiro bem pequeno.<br \/>\n<\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div data-id=\"3\">\n<div>\n<p><span><br \/>\nTem duas camas de cimento, uma pequena prateleira para deixar as coisas. Tamb\u00e9m tem duas janelas bem gradeadas, ent\u00e3o, ao menos voc\u00ea pode ter um pouco de ar para respirar. Quanto a mim, prefiro ficar na cela.<br \/>\n<\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div data-id=\"4\">\n<div>\n<p><span><br \/>\nPor qu\u00ea? Porque quando eu estou l\u00e1 dentro, minha mente pode ir a qualquer lugar que eu queira estar.\u201d<br \/>\n<\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div data-id=\"1\"><\/div>\n<div data-id=\"2\"><\/div>\n<div data-id=\"3\"><\/div>\n<div data-id=\"4\"><\/div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div data-id=\"1\">\n<div>\n<span><br \/>\n&#8220;Adoro poemas e nem sequer consegui escrever um adequado hoje, mas, de qualquer forma, o per\u00edodo que passo aqui vale o meu tempo&#8221;, anotou em um dos encontros do projeto coletivo <i>Mulheres poss\u00edveis \u2014 corpo, g\u00eanero e encarceramento<\/i> voltado a reeducandas do sistema penitenci\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8220;Este projeto traz \u00e0 tona a mulher, a crian\u00e7a e a artista em mim. \u00c9 realmente um prazer estar aqui com voc\u00eas, senhoras, aprendendo, desenhando, rindo, compartilhando ideias.&#8221;<br \/>\n<\/span>\n<\/div>\n<\/div>\n<div data-id=\"2\">\n<div>\n<span><br \/>\n&#8220;Quando nos encontramos, para mim \u00e9 uma liberta\u00e7\u00e3o mental da pris\u00e3o, apesar de eu ainda estar nela&#8221;, registrou.<\/p>\n<p>Nos encontros, os registros de Lulu indicam que ela aprendeu &#8220;novas habilidades&#8221;, que fez &#8220;um pouco de exerc\u00edcio&#8221; e que dava risada. Relatou, ainda, que entendia melhor &#8220;sobre o corpo feminino&#8221; e &#8220;sobre o Brasil e sua maneira de sobreviver&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Hoje eu tinha tanto em que pensar&#8221;, escreveu, ao ilustrar o que seria sua cela, a de n\u00famero 81.<br \/>\n<\/span>\n<\/div>\n<\/div>\n<div data-id=\"3\">\n<div>\n<p>\n\u201cUma cela \u00e9 um quarto quadrado de 2&#215;2 com paredes brancas e uma porta azul de ferro que \u00e0s 6 da tarde deve estar trancada e aberta \u00e0s 7 ou 8 horas da manh\u00e3 de um s\u00e1bado. Tem um vaso sanit\u00e1rio e um banheiro bem pequeno.\n<\/p>\n<p>\nTem duas camas de cimento, uma pequena prateleira para deixar as coisas. Tamb\u00e9m tem duas janelas bem gradeadas, ent\u00e3o, ao menos voc\u00ea pode ter um pouco de ar para respirar.\u201d\n<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div data-id=\"4\">\n<div>\n<p><span><br \/>\nQuanto a mim, prefiro ficar na cela.<br \/>\nPor qu\u00ea? Porque quando eu estou l\u00e1 dentro, minha mente pode ir a qualquer lugar que eu queira estar.\u201d<br \/>\n<\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div data-id=\"1\"><\/div>\n<div data-id=\"2\"><\/div>\n<div data-id=\"3\"><\/div>\n<div data-id=\"4\"><\/div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div aria-hidden=\"true\"><\/div>\n<div>\n<div>\n<h2><strong>A autoridade de um diamante \u201cbruto\u201d<\/strong><\/h2>\n<p>\u201cEla acabou virando uma refer\u00eancia l\u00e1 dentro, seja pela luta pelos direitos delas, seja porque conseguia unir as estrangeiras\u201d, relata Lucas Lopes, advogado que assumiu a defesa de Tanaka em 2021. Ele destaca que Lulu passava a impress\u00e3o de ser dura, num primeiro momento, mas tinha um grande cora\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de ser generosa e acolhedora.\u00a0<\/p>\n<p>\u201c[Para] muitas [reeducandas] que tinham acabado de chegar e queriam sair em liberdade, ela conseguia fazer a ponte, para que tivessem um lugar para ficar no primeiro momento\u201d, conta Lopes.<\/p>\n<p>Ex-reeducanda francesa, Sophie Marie* conheceu Tanaka no pavilh\u00e3o das estrangeiras da PFC e tamb\u00e9m relembra as primeiras impress\u00f5es. Ela conta que levou alguns meses at\u00e9 que as duas trocassem mais do que cumprimentos: nenhuma falava ainda portugu\u00eas, e se aproximaram pelo ingl\u00eas.<\/p>\n<div>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"6a1d2dfa5e0ac\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\" data-wp-key=\"6a1d2dfa5e0ac\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" data-wp-bind--aria-label=\"state.thisImage.triggerButtonAriaLabel\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.thisImage.buttonRight\" data-wp-style--top=\"state.thisImage.buttonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><figcaption>Lulu usava cartas e desenhos para se expressar e evidenciava o conhecimento que obtinha em encontros com colegas de cela tanto sobre o Brasil quanto sobre o pr\u00f3prio corpo<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>\u201cEra uma mulher robusta, forte, sempre disposta a fazer as pessoas rirem.\u201d Em 2013, com a progress\u00e3o ao semiaberto, Sophie Marie perdeu o contato com Lulu, especialmente ap\u00f3s ser solta, em 2015.<\/p>\n<p>Nove anos depois, a francesa, reencarcerada por outro delito, encontraria novamente Tanaka no mesmo lugar. Ambas passaram a dividir a cela no pavilh\u00e3o das brasileiras. Ali, Sophie Marie diz ter conhecido \u201ca Tanaka de verdade, n\u00e3o a Tanaka de fachada\u201d.\u00a0<\/p>\n<p><span>\u201cQuando eu voltei, ela continuava alegre, sim, mas esses anos todos a mudaram, o sofrimento, a incerteza de n\u00e3o saber o futuro. Eu vi uma Lulu mais sombria\u201d, conta Sophie.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>A ex-colega de cela diz que Lulu \u201cera como um diamante\u201d. \u201cPara ver todas as faces do diamante, \u00e9 preciso girar a pe\u00e7a. Lulu era assim, tinha autoridade natural\u201d, recorda. \u201cExtremamente generosa, impaciente, \u00e0s vezes, insegura. Quem n\u00e3o a conhecia podia pensar que era brava, meio bruta, de tanto que tinha o respeito das brasileiras. Bastava ela olhar ou levantar um pouquinho a voz e j\u00e1 resolvia o problema\u201d, diz a amiga.<\/p>\n<p>Para Paula*, outra das reeducandas que dividia o alojamento com a guianense, Lulu era uma figura materna no ambiente hostil do c\u00e1rcere. \u201cEla era minha m\u00e3e l\u00e1 dentro\u201d, diz, acrescentando que havia at\u00e9 planos de as duas abrirem um neg\u00f3cio de costura em sociedade quando estivessem fora da pris\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p><span>\u201cUm dos sonhos dela era abrir um neg\u00f3cio de costura comigo e com outra colega, que a gente \u00e9 costureira, n\u00e9?<\/span> Ela tamb\u00e9m queria comprar uma casa e voltar ao pa\u00eds dela para conhecer os netinhos\u201d, detalha a amiga j\u00e1 em liberdade.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div>\n<h2><strong>A autoridade de um diamante \u201cbruto\u201d<\/strong><\/h2>\n<p>\u201cEla acabou virando uma refer\u00eancia l\u00e1 dentro, seja pela luta pelos direitos delas, seja porque conseguia unir as estrangeiras\u201d, relata Lucas Lopes, advogado que assumiu a defesa de Tanaka em 2021. Ele destaca que Lulu passava a impress\u00e3o de ser dura, num primeiro momento, mas tinha um grande cora\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de ser generosa e acolhedora.\u00a0<\/p>\n<p>\u201c[Para] muitas [reeducandas] que tinham acabado de chegar e queriam sair em liberdade, ela conseguia fazer a ponte, para que tivessem um lugar para ficar no primeiro momento\u201d, conta Lopes.<\/p>\n<p>Ex-reeducanda francesa, Sophie Marie* conheceu Tanaka no pavilh\u00e3o das estrangeiras da PFC e tamb\u00e9m relembra as primeiras impress\u00f5es. Ela conta que levou alguns meses at\u00e9 que as duas trocassem mais do que cumprimentos: nenhuma falava ainda portugu\u00eas, e se aproximaram pelo ingl\u00eas.<\/p>\n<div aria-hidden=\"true\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div><\/div>\n<div>\n<div>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"6a1d2dfa5e931\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\" data-wp-key=\"6a1d2dfa5e931\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" data-wp-bind--aria-label=\"state.thisImage.triggerButtonAriaLabel\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.thisImage.buttonRight\" data-wp-style--top=\"state.thisImage.buttonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><figcaption>Lulu usava cartas e desenhos para se expressar e evidenciava o conhecimento que obtinha em encontros com colegas de cela tanto sobre o Brasil quanto sobre o pr\u00f3prio corpo<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div>\n<p>\u201cEra uma mulher robusta, forte, sempre disposta a fazer as pessoas rirem.\u201d Em 2013, com a progress\u00e3o ao semiaberto, Sophie Marie perdeu o contato com Lulu, especialmente ap\u00f3s ser solta, em 2015.<\/p>\n<p>Nove anos depois, a francesa, reencarcerada por outro delito, encontraria novamente Tanaka no mesmo lugar. Ambas passaram a dividir a cela no pavilh\u00e3o das brasileiras. Ali, Sophie Marie diz ter conhecido \u201ca Tanaka de verdade, n\u00e3o a Tanaka de fachada\u201d.<\/p>\n<p><span>\u201cQuando eu voltei, ela continuava alegre, sim, mas esses anos todos a mudaram, o sofrimento, a incerteza de n\u00e3o saber o futuro. Eu vi uma Lulu mais sombria\u201d, conta Sophie.<\/span><\/p>\n<p>A ex-colega de cela diz que Lulu \u201cera como um diamante\u201d. \u201cPara ver todas as faces do diamante, \u00e9 preciso girar a pe\u00e7a. Lulu era assim, tinha autoridade natural\u201d, recorda. \u201cExtremamente generosa, impaciente, \u00e0s vezes, insegura. Quem n\u00e3o a conhecia podia pensar que era brava, meio bruta, de tanto que tinha o respeito das brasileiras. Bastava ela olhar ou levantar um pouquinho a voz e j\u00e1 resolvia o problema\u201d, diz a amiga.<\/p>\n<p>Para Paula*, outra das reeducandas que dividia o alojamento com a guianense, Lulu era uma figura materna no ambiente hostil do c\u00e1rcere. \u201cEla era minha m\u00e3e l\u00e1 dentro\u201d, diz, acrescentando que havia at\u00e9 planos de as duas abrirem um neg\u00f3cio de costura em sociedade quando estivessem fora da pris\u00e3o.<\/p>\n<p><span>\u201cUm dos sonhos dela era abrir um neg\u00f3cio de costura comigo e com outra colega, que a gente \u00e9 costureira, n\u00e9?<\/span> Ela tamb\u00e9m queria comprar uma casa e voltar ao pa\u00eds dela para conhecer os netinhos\u201d, detalha a amiga j\u00e1 em liberdade.<\/p>\n<div aria-hidden=\"true\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"6a1d2dfa5f1a2\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\" data-wp-key=\"6a1d2dfa5f1a2\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" data-wp-bind--aria-label=\"state.thisImage.triggerButtonAriaLabel\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.thisImage.buttonRight\" data-wp-style--top=\"state.thisImage.buttonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><figcaption>P\u00e1gina do livro \u201cMulheres Poss\u00edveis\u201d em que Tanaka Luanda participa e tenta definir o que seria o substantivo carta<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<h2><strong>Geografia de uma solid\u00e3o continental<\/strong><\/h2>\n<p>Sobre uma foto sua que integra o livro <em>Mulheres poss\u00edveis<\/em>, Tanaka descreveu o substantivo sobre o qual parecia ter se tornado especialista: \u201cCarta \u2014 substantivo feminino, conversa prolongada no tempo-espa\u00e7o, pertence ao grupo de objetos \u2018espelho\u2019 cujo conte\u00fado transborda o continente, pode conter pessoas, lembran\u00e7as, relatos, conselhos, mist\u00e9rios, imagens, objetos, fragmentos (de si e do outro), aproxima\u00e7\u00f5es e rompimentos; une dois pontos no espa\u00e7o; pressup\u00f5e o desapego daquilo que se deixa dentro; objeto de manuten\u00e7\u00e3o de v\u00ednculo; e registro no papel daquilo que se sente e pensa\u201d.\u00a0<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div data-id=\"1\">\n<div>\n<p>\nLulu escrevia cartas. Pela falta de visitas, pela dist\u00e2ncia dos filhos e pelas restri\u00e7\u00f5es do Estado brasileiro ao contato de reeducandas estrangeiras com suas fam\u00edlias no exterior.\n<\/p>\n<p>\nAs mensagens eram, para Lulu, companhia, saudade e resgate de afetos distantes. Em uma delas, ela conta que com m\u00fasica e dan\u00e7a se sentia conectada \u00e0 fam\u00edlia e \u00e0 pr\u00f3pria alma. \u201cEu uso m\u00fasica para curar minha alma\u201d.\n<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div data-id=\"2\">\n<div>\n<p>\nApenas em 2024, o Estado brasileiro se tornou obrigado a providenciar videochamadas para as detentas estrangeiras do sistema penitenci\u00e1rio nacional.\n<\/p>\n<p>\nAt\u00e9 ent\u00e3o, as reeducandas estrangeiras viviam uma esp\u00e9cie de ex\u00edlio legalizado. No Brasil, essas mulheres presas enfrentam um isolamento duplo, uma puni\u00e7\u00e3o que vai muito al\u00e9m da priva\u00e7\u00e3o de liberdade.\n<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div data-id=\"3\">\n<div>\n<p>\nSem fam\u00edlia no pa\u00eds, a maioria das reeducandas estrangeiras t\u00eam dificuldades de acesso ao \u201cjumbo\u201d, pacote com alimentos e produtos de higiene que parentes t\u00eam permiss\u00e3o de levar em dias de visita. Os visitantes, no entanto, para serem cadastrados, precisam apresentar documentos nacionais, como CPF ou RG, o que inviabiliza o envio de itens, inclusive pelos Correios, e dificulta o contato com familiares.\n<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div data-id=\"4\">\n<div>\n<p>\nO jumbo cumpre a fun\u00e7\u00e3o de suprir lacunas estruturais do Estado, que, na rotina prisional, serve o jantar pouco ap\u00f3s as 16h e o caf\u00e9 da manh\u00e3 no in\u00edcio da manh\u00e3 seguinte, muitas vezes impondo longos per\u00edodos de jejum for\u00e7ado.\n<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div data-id=\"1\"><\/div>\n<div data-id=\"2\"><\/div>\n<div data-id=\"3\"><\/div>\n<div data-id=\"4\"><\/div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div data-id=\"1\">\n<div>\n<p><span><br \/>\nLulu escrevia cartas. Pela falta de visitas, pela dist\u00e2ncia dos filhos e pelas restri\u00e7\u00f5es do Estado brasileiro ao contato de reeducandas estrangeiras com suas fam\u00edlias no exterior.<br \/>\n<\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div data-id=\"2\">\n<div>\n<p><span><br \/>\nAs mensagens eram, para Lulu, companhia, saudade e resgate de afetos distantes. Em uma delas, ela conta que com m\u00fasica e dan\u00e7a se sentia conectada \u00e0 fam\u00edlia e \u00e0 pr\u00f3pria alma. \u201cEu uso m\u00fasica para curar minha alma\u201d.<br \/>\n<\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div data-id=\"3\">\n<div>\n<p><span><br \/>\nApenas em 2024, o Estado brasileiro se tornou obrigado a providenciar videochamadas para as detentas estrangeiras do sistema penitenci\u00e1rio nacional.<br \/>\n<\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div data-id=\"4\">\n<div>\n<p><span><br \/>\nAt\u00e9 ent\u00e3o, as reeducandas estrangeiras viviam uma esp\u00e9cie de ex\u00edlio legalizado. No Brasil, essas mulheres presas enfrentam um isolamento duplo, uma puni\u00e7\u00e3o que vai muito al\u00e9m da priva\u00e7\u00e3o de liberdade.<br \/>\n<\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div data-id=\"1\"><\/div>\n<div data-id=\"2\"><\/div>\n<div data-id=\"3\"><\/div>\n<div data-id=\"4\"><\/div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div>\n<p>Sem fam\u00edlia no pa\u00eds, a maioria das reeducandas estrangeiras t\u00eam dificuldades de acesso ao \u201cjumbo\u201d, pacote com alimentos e produtos de higiene que parentes t\u00eam permiss\u00e3o de levar em dias de visita. <span>Os visitantes, no entanto, para serem cadastrados, precisam apresentar documentos nacionais, como CPF ou RG, o que inviabiliza o envio de itens, inclusive pelos Correios, e dificulta o contato com familiares.<\/span><\/p>\n<p>O jumbo cumpre a fun\u00e7\u00e3o de suprir lacunas estruturais do Estado, que, na rotina prisional, serve o jantar pouco ap\u00f3s as 16h e o caf\u00e9 da manh\u00e3 no in\u00edcio da manh\u00e3 seguinte, muitas vezes impondo longos per\u00edodos de jejum for\u00e7ado.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"6a1d2dfa5fd21\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\" data-wp-key=\"6a1d2dfa5fd21\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" data-wp-bind--aria-label=\"state.thisImage.triggerButtonAriaLabel\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.thisImage.buttonRight\" data-wp-style--top=\"state.thisImage.buttonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><figcaption>Entre as atividades propostas em oficiais com reeducandas estava a confec\u00e7\u00e3o de cartas para que as mulheres pudessem se expressar livremente<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>A ex-reeducanda cabo-verdiana T\u00e2nia* conta que o tamanho dessa solid\u00e3o depende de uma vari\u00e1vel: ter ou n\u00e3o um consulado em funcionamento. \u201cO suporte consular \u00e9 um privil\u00e9gio at\u00e9 para as brasileiras dentro da cadeia. Ser uma estrangeira sem apoio consular torna-se mais complicado e dif\u00edcil\u201d, explica.\u00a0<\/p>\n<p>Segundo ela, assessores ou secret\u00e1rias executivas de alguns consulados visitam a unidade prisional para entregar produtos de higiene, comida e roupas; em outros, v\u00e3o a cada dois ou tr\u00eas meses. Em alguns casos, intermedia o contato com advogados e o repasse de dinheiro da fam\u00edlia, depositado na folha prisional. \u201cEles averiguam o teu processo. Voc\u00ea j\u00e1 sabe que, com o suporte consular por tr\u00e1s, n\u00e3o \u00e9 muito humilhada\u201d, diz a mulher, hoje em liberdade e de volta ao pa\u00eds africano.<\/p>\n<p><span>Uma pesquisa realizada pelo World Female Imprisonment List, divulgada em 2023, revelou que o Brasil possui, atualmente, a terceira maior popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria feminina do mundo, atr\u00e1s apenas dos Estados Unidos e da China.<\/span> O pa\u00eds apresentou um crescimento exponencial, ao quadruplicar o n\u00famero de mulheres encarceradas em 20 anos, chegando a cerca de 33.488 at\u00e9 dezembro de 2025, das quais 34% est\u00e3o na chamada \u201cpris\u00e3o provis\u00f3ria\u201d, segundo dados do Departamento Penitenci\u00e1rio Nacional (Depen), ligado ao Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a.<\/p>\n<h2><strong>Longe do para\u00edso<\/strong><\/h2>\n<p>Para Tanaka, a pris\u00e3o era \u201co inferno de verdade\u201d. Em uma mensagem mais soturna, ela descreve: \u201cVoc\u00ea n\u00e3o pode nem mesmo falar em paz com outra prisioneira em outro pavilh\u00e3o, esses guardas gritariam com voc\u00ea como uma crian\u00e7a, ou eles ouviriam o que estamos dizendo e, mais tarde, viriam para dar <em>blitz<\/em> em sua cela. Ontem \u00e0 noite eles vieram \u00e0 minha cela para procurar um telefone, tudo porque eu estava dando \u00e0 minha colega de pa\u00eds uma mensagem que veio para ela atrav\u00e9s do meu e-mail \u2013 e o que piorou a situa\u00e7\u00e3o foi a minha maneira de falar [portugu\u00eas]\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>O registro de Tanaka refor\u00e7a o que revelam os dados divulgados em 2023 pelo Instituto Terra, Trabalho e Cidadania (ITTC), que atua na defesa dos direitos de mulheres migrantes em conflito com a lei, a respeito de a barreira do idioma aprofundar o abismo comunicacional no sistema penitenci\u00e1rio: <span>cerca de 9% das mulheres atendidas entre 2008 e 2018 n\u00e3o falavam espanhol, ingl\u00eas ou portugu\u00eas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>A comunica\u00e7\u00e3o e o acesso a direitos b\u00e1sicos, como o acompanhamento de seus processos judiciais, dependem frequentemente de tradu\u00e7\u00f5es improvisadas feitas por outras reeducandas.<\/span> Era o que Tanaka fazia para ajudar outras detentas.\u00a0<\/p>\n<p>Lulu desabafa: \u201cCara, esse lugar \u00e9 muito confuso. Agora eles querem tirar seus direitos de falar com uma companheira presa. Eu estava t\u00e3o brava, mas eu tinha que permitir que eles fizessem o trabalho. Depois eu limpo a bagun\u00e7a. Nunca fui para a cama depois da 1 da manh\u00e3. Tudo come\u00e7ou \u00e0s 17h41 de s\u00e1bado \u00e0 tarde, 21-07, mas enquanto eu estiver na cela 81, os guardas nunca encontrar\u00e3o nada que me leve ao castigo, em nome do Senhor que eu sirvo. Deixem-me em paz\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>Segundo o ITTC, o racismo institucional tamb\u00e9m atua como uma engrenagem central nesse sistema: entre 351 mulheres migrantes da Am\u00e9rica Latina e do Caribe, 71% se autodeclararam n\u00e3o brancas, como Tanaka. A an\u00e1lise dos dados da organiza\u00e7\u00e3o demonstra que mulheres negras e ind\u00edgenas tendem a receber penas mais altas do que mulheres brancas e amarelas, ainda que possuam perfis e experi\u00eancias semelhantes.<\/p>\n<figure>\n<div data-mode=\"horizontal\"><\/div><figcaption>Ilustra\u00e7\u00e3o da cela 81 pela pr\u00f3pria Lulu representando o lugar onde passou parte da vida. Todas as ilustra\u00e7\u00f5es desta reportagem s\u00e3o de autoria de Tanaka Luanda<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div data-src=\"visualisation\/29137172\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<h2><strong>Liberdade ao alcance das m\u00e3os<\/strong><\/h2>\n<p>Tanaka cumpriu todos os requisitos objetivos e subjetivos, ostentava bom comportamento e possu\u00eda registro de trabalho externo. <span>Em 2024, no dia 11 de dezembro, recebeu parecer do Minist\u00e9rio P\u00fablico favor\u00e1vel \u00e0 progress\u00e3o para o regime aberto. No papel, o Estado reconheceu que estaria pronta retornar ao conv\u00edvio social ap\u00f3s 12 anos.<\/span><\/p>\n<div>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"6a1d2dfa60924\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\" data-wp-key=\"6a1d2dfa60924\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" data-wp-bind--aria-label=\"state.thisImage.triggerButtonAriaLabel\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.thisImage.buttonRight\" data-wp-style--top=\"state.thisImage.buttonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><figcaption>Tanaka aproveitava as saidinhas tempor\u00e1rias para buscar m\u00e9dicos em busca de solu\u00e7\u00e3o para sua condi\u00e7\u00e3o de sa\u00fade e sempre voltou ao pres\u00eddio no prazo esperado<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Quase dois anos ap\u00f3s chegar ao Brasil, Tanaka foi capturada em uma opera\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal (PF), no aeroporto de Guarulhos, em 14 de fevereiro de 2012. A a\u00e7\u00e3o desmantelou um grupo criminoso que usava \u201cmulas\u201d para transportar coca\u00edna para a Europa.\u00a0<\/p>\n<p>Tanaka come\u00e7ou transportando drogas no pr\u00f3prio corpo. Com o passar do tempo, ganhou confian\u00e7a dos chefes e passou a preparar outras mulheres para a mesma fun\u00e7\u00e3o. Ocupava um cargo baixo na hierarquia da organiza\u00e7\u00e3o, mas foi condenada por tr\u00e1fico internacional de entorpecentes, o que lhe rendeu uma pena severa: 24 anos de pris\u00e3o em regime fechado.<\/p>\n<p>Durante mais de uma d\u00e9cada encarcerada, trabalhou incansavelmente no sistema \u2014 chegou a atuar na montagem de caixas de panetone para uma grande marca aliment\u00edcia \u2014, estudou, fez cursos profissionalizantes e manteve um hist\u00f3rico irretoc\u00e1vel de bom comportamento.\u00a0<\/p>\n<p>Aprendeu a falar portugu\u00eas e, com essa habilidade somada ao seu carisma, tornou-se uma lideran\u00e7a entre as outras presas estrangeiras. Por isso, aquele parecer do MP era t\u00e3o desejado.<\/p>\n<p>Tanaka havia acertado as contas com seu passado.\u00a0<\/p>\n<div aria-hidden=\"true\"><\/div>\n<div>\n<div>\n<h2><strong><strong>Burocracia \u00edntima e impessoal<\/strong><\/strong><\/h2>\n<div aria-hidden=\"true\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div><\/div>\n<div>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"6a1d2dfa610eb\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\" data-wp-key=\"6a1d2dfa610eb\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" data-wp-bind--aria-label=\"state.thisImage.triggerButtonAriaLabel\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.thisImage.buttonRight\" data-wp-style--top=\"state.thisImage.buttonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><figcaption>Tanaka Luana passou 12 anos confinada em regime fechado e teve progress\u00e3o de pena concedido em dezembro de 2024, ap\u00f3s meses de luta por sa\u00fade lidando com um mioma<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div>\n<p>Tanaka j\u00e1 cumpria pena no Centro de Progress\u00e3o Penitenci\u00e1ria (CPP) Feminina de S\u00e3o Miguel Paulista, na zona leste da capital paulista, quando passou a relatar \u00e0 sua defesa em maio de 2023 um quadro de sangramento vaginal cont\u00ednuo e dores abdominais intensas. Desde o in\u00edcio do cumprimento da pena seu prontu\u00e1rio m\u00e9dico j\u00e1 registrava a presen\u00e7a de um mioma uterino, doen\u00e7a que afeta quatro em cada 10 mulheres com mais de 40 anos e que \u00e9 de tr\u00eas a nove vezes mais comum em pacientes negras, segundo dados da Federa\u00e7\u00e3o Brasileira das Associa\u00e7\u00f5es de Ginecologia e Obstetr\u00edcia (Febrasgo).<\/p>\n<p>Sem acompanhamento adequado, o mioma cresceu. Nas sa\u00eddas tempor\u00e1rias a que passou a ter direito, Tanaka procurou m\u00e9dicos particulares e comprou os rem\u00e9dios com o pr\u00f3prio dinheiro, recursos guardados a duras penas do seu trabalho na pris\u00e3o. O sofrimento foi testemunhado pelas colegas. <span>Paula relata ter enfrentado noites insones no alojamento superlotado: \u201cComo a gente ficava em uma cela com 17, 18 meninas, tinha dias que ela ficava a madrugada gemendo de dor. E como eu era mais pr\u00f3xima, a gente n\u00e3o dormia, de tanto que ela gemia\u201d.<\/span><\/p>\n<p>Em janeiro de 2024, durante uma sa\u00edda tempor\u00e1ria de fim de ano, um m\u00e9dico particular atestou a gravidade do caso e recomendou a histerectomia total (retirada do \u00fatero). O advogado de Tanaka acionou a embaixada da Guiana em Bras\u00edlia e somente ap\u00f3s press\u00e3o diplom\u00e1tica, uma cirurgia foi agendada no Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS) para o dia 2 de abril de 2024, no Hospital Estadual Sapopemba, em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Naquela mesma noite, no entanto, funcion\u00e1rios do hospital ligaram diretamente para o celular do defensor. A cirurgia n\u00e3o havia sido realizada, devido a uma \u201cdiferen\u00e7a\u201d, n\u00e3o especificada, no exame pr\u00e9-operat\u00f3rio. Segundo a equipe m\u00e9dica, o contato com o advogado se deu porque ningu\u00e9m conseguiu contato com a escolta prisional para levar Tanaka de volta ao pres\u00eddio. \u201cComo assim? Voc\u00ea t\u00e1 achando que eu vou conseguir chamar a escolta? O mesmo n\u00famero do pres\u00eddio que eu tenho \u00e9 o de voc\u00eas\u201d, respondeu Lucas Lopes.<\/p>\n<p><span>O que se seguiu foi um labirinto burocr\u00e1tico de peti\u00e7\u00f5es ignoradas e prazos descumpridos.<\/span> Em 12 de abril de 2024, o advogado protocolou pedido urgente de esclarecimentos ao juiz H\u00e9lio Narv\u00e1ez, respons\u00e1vel pela execu\u00e7\u00e3o penal. O magistrado proferiu um despacho padr\u00e3o que, na especificidade do juridiqu\u00eas, n\u00e3o dialogava com a urg\u00eancia do caso de Lulu, concedendo 15 dias para o pres\u00eddio responder. O prazo expirou sem qualquer manifesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O pedido foi reiterado, em busca de respostas. O juiz ainda concedeu mais cinco dias para manifesta\u00e7\u00e3o. Apenas 26 dias ap\u00f3s o primeiro pedido de urg\u00eancia, em 8 de maio de 2024, a unidade prisional informou que o exame de colpocitologia onc\u00f3tica havia apresentado altera\u00e7\u00f5es e que um novo exame seria agendado.<\/p>\n<p>A defesa, alarmada com a falta de transpar\u00eancia, pediu acesso imediato ao prontu\u00e1rio completo, aos exames detalhados e \u00e0 lista de medicamentos que seriam fornecidos \u00e0 detenta. O Minist\u00e9rio P\u00fablico concordou com a pertin\u00eancia do pedido. O juiz Narv\u00e1ez, no entanto, mandou arquivar a solicita\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cEste ju\u00edzo n\u00e3o se presta a ficar acompanhando as sucessivas medidas terap\u00eauticas e medicinais a que a pessoa presa \u00e9 submetida\u201d, decidiu. O Tribunal de Justi\u00e7a do Estado de S\u00e3o Paulo (TJSP), ao julgar o recurso da defesa de Tanaka, manteve a decis\u00e3o de Narv\u00e1ez.<\/p>\n<div aria-hidden=\"true\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div><\/div>\n<div>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"6a1d2dfa619af\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\" data-wp-key=\"6a1d2dfa619af\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" data-wp-bind--aria-label=\"state.thisImage.triggerButtonAriaLabel\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.thisImage.buttonRight\" data-wp-style--top=\"state.thisImage.buttonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><figcaption>Lulu chegou ao Brasil em 2010 e foi presa menos de dois anos depois, em S\u00e3o Paulo. Ganhou direito a ser reintegrada \u00e0 sociedade por bom comportamento e por cumprir todos os requisitos exigidos<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div>\n<div aria-hidden=\"true\"><\/div>\n<p>A <strong>Ag\u00eancia P\u00fablica<\/strong> procurou o juiz Narv\u00e1ez por meio do TJSP, mas o tribunal informou que ele n\u00e3o se manifestaria: \u201cOs magistrados t\u00eam independ\u00eancia funcional para decidir de acordo com os documentos dos autos e seu livre convencimento. Essa independ\u00eancia \u00e9 uma garantia do pr\u00f3prio Estado de Direito. Quando h\u00e1 discord\u00e2ncia da decis\u00e3o, cabe \u00e0s partes a interposi\u00e7\u00e3o dos recursos previstos na legisla\u00e7\u00e3o vigente\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>Tanaka continuava sangrando na cela. Em setembro de 2024, durante mais uma sa\u00edda tempor\u00e1ria, ela comprou novamente, com seus pr\u00f3prios recursos, o Primolut-Nor, um medicamento essencial para controlar a hemorragia. O advogado peticionou, mais uma vez, no processo, informando detalhadamente que a cirurgia estava atrasada h\u00e1 mais de cinco meses. O juiz repetiu o despacho padr\u00e3o: 15 dias para resposta do pres\u00eddio.\u00a0<\/p>\n<p>Em 31 de outubro de 2024, diante do sil\u00eancio da unidade prisional e da juntada de um of\u00edcio de cobran\u00e7a enviado pela embaixada da Guiana, o juiz limitou-se a escrever uma linha: \u201cCiente. Aguarde-se resposta\u201d. <span>O pres\u00eddio nunca respondeu \u00e0 determina\u00e7\u00e3o judicial.<\/span><\/p>\n<p>A cirurgia foi feita com m\u00e9dico particular, apenas em 5 de dezembro de 2024, no Hospital Planalto, em S\u00e3o Paulo. Dois dias depois, num s\u00e1bado, Tanaka teve alta e, antes de retornar ao pres\u00eddio, recebeu uma recomenda\u00e7\u00e3o taxativa: \u201cSinais de alarme para ida imediata ao pronto-socorro: dores intensas, sangramento aumentando, febre ou outra intercorr\u00eancia\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>Lulu usou recursos pr\u00f3prios para buscar sa\u00fade, o que nem Justi\u00e7a nem sistema penitenci\u00e1rio lhe garantiram. Ap\u00f3s meses de dor, um novo cap\u00edtulo se desenhava com o regime aberto \u00e0 vista.<\/p>\n<div aria-hidden=\"true\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div><\/div>\n<div>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"6a1d2dfa61fb5\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\" data-wp-key=\"6a1d2dfa61fb5\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" data-wp-bind--aria-label=\"state.thisImage.triggerButtonAriaLabel\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.thisImage.buttonRight\" data-wp-style--top=\"state.thisImage.buttonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><figcaption>Lulu chegou ao Brasil em 2010 e foi presa menos de dois anos depois, em S\u00e3o Paulo. Ganhou direito a ser reintegrada \u00e0 sociedade por bom comportamento e por cumprir todos os requisitos exigidos<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div>\n<h2><strong>Burocracia \u00edntima e impessoal\u00a0<\/strong><\/h2>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"6a1d2dfa62275\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\" data-wp-key=\"6a1d2dfa62275\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" data-wp-bind--aria-label=\"state.thisImage.triggerButtonAriaLabel\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.thisImage.buttonRight\" data-wp-style--top=\"state.thisImage.buttonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><figcaption>Tanaka Luana passou 12 anos confinada em regime fechado e teve progress\u00e3o de pena concedido em dezembro de 2024, ap\u00f3s meses de luta por sa\u00fade lidando com um mioma<\/figcaption><\/figure>\n<p>Tanaka j\u00e1 cumpria pena no Centro de Progress\u00e3o Penitenci\u00e1ria (CPP) Feminina de S\u00e3o Miguel Paulista, na zona leste da capital paulista, quando passou a relatar \u00e0 sua defesa em maio de 2023 um quadro de sangramento vaginal cont\u00ednuo e dores abdominais intensas. Desde o in\u00edcio do cumprimento da pena seu prontu\u00e1rio m\u00e9dico j\u00e1 registrava a presen\u00e7a de um mioma uterino, doen\u00e7a que afeta quatro em cada 10 mulheres com mais de 40 anos e que \u00e9 de tr\u00eas a nove vezes mais comum em pacientes negras, segundo dados da Federa\u00e7\u00e3o Brasileira das Associa\u00e7\u00f5es de Ginecologia e Obstetr\u00edcia (Febrasgo).<\/p>\n<p>Sem acompanhamento adequado, o mioma cresceu. Nas sa\u00eddas tempor\u00e1rias a que passou a ter direito, Tanaka procurou m\u00e9dicos particulares e comprou os rem\u00e9dios com o pr\u00f3prio dinheiro, recursos guardados a duras penas do seu trabalho na pris\u00e3o. O sofrimento foi testemunhado pelas colegas. <span>Paula relata ter enfrentado noites insones no alojamento superlotado: \u201cComo a gente ficava em uma cela com 17, 18 meninas, tinha dias que ela ficava a madrugada gemendo de dor. E como eu era mais pr\u00f3xima, a gente n\u00e3o dormia, de tanto que ela gemia\u201d.<\/span><\/p>\n<p>Em janeiro de 2024, durante uma sa\u00edda tempor\u00e1ria de fim de ano, um m\u00e9dico particular atestou a gravidade do caso e recomendou a histerectomia total (retirada do \u00fatero). O advogado de Tanaka acionou a embaixada da Guiana em Bras\u00edlia e somente ap\u00f3s press\u00e3o diplom\u00e1tica, uma cirurgia foi agendada no Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS) para o dia 2 de abril de 2024, no Hospital Estadual Sapopemba, em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Naquela mesma noite, no entanto, funcion\u00e1rios do hospital ligaram diretamente para o celular do defensor. A cirurgia n\u00e3o havia sido realizada, devido a uma \u201cdiferen\u00e7a\u201d, n\u00e3o especificada, no exame pr\u00e9-operat\u00f3rio. Segundo a equipe m\u00e9dica, o contato com o advogado se deu porque ningu\u00e9m conseguiu contato com a escolta prisional para levar Tanaka de volta ao pres\u00eddio. \u201cComo assim? Voc\u00ea t\u00e1 achando que eu vou conseguir chamar a escolta? O mesmo n\u00famero do pres\u00eddio que eu tenho \u00e9 o de voc\u00eas\u201d, respondeu Lucas Lopes.<\/p>\n<p><span>O que se seguiu foi um labirinto burocr\u00e1tico de peti\u00e7\u00f5es ignoradas e prazos descumpridos.<\/span> Em 12 de abril de 2024, o advogado protocolou pedido urgente de esclarecimentos ao juiz H\u00e9lio Narv\u00e1ez, respons\u00e1vel pela execu\u00e7\u00e3o penal. O magistrado proferiu um despacho padr\u00e3o que, na especificidade do juridiqu\u00eas, n\u00e3o dialogava com a urg\u00eancia do caso de Lulu, concedendo 15 dias para o pres\u00eddio responder. O prazo expirou sem qualquer manifesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O pedido foi reiterado, em busca de respostas. O juiz ainda concedeu mais cinco dias para manifesta\u00e7\u00e3o. Apenas 26 dias ap\u00f3s o primeiro pedido de urg\u00eancia, em 8 de maio de 2024, a unidade prisional informou que o exame de colpocitologia onc\u00f3tica havia apresentado altera\u00e7\u00f5es e que um novo exame seria agendado.<\/p>\n<p>A defesa, alarmada com a falta de transpar\u00eancia, pediu acesso imediato ao prontu\u00e1rio completo, aos exames detalhados e \u00e0 lista de medicamentos que seriam fornecidos \u00e0 detenta. O Minist\u00e9rio P\u00fablico concordou com a pertin\u00eancia do pedido. O juiz Narv\u00e1ez, no entanto, mandou arquivar a solicita\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cEste ju\u00edzo n\u00e3o se presta a ficar acompanhando as sucessivas medidas terap\u00eauticas e medicinais a que a pessoa presa \u00e9 submetida\u201d, decidiu. O Tribunal de Justi\u00e7a do Estado de S\u00e3o Paulo (TJSP), ao julgar o recurso da defesa de Tanaka, manteve a decis\u00e3o de Narv\u00e1ez.<\/p>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"6a1d2dfa624bb\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\" data-wp-key=\"6a1d2dfa624bb\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" data-wp-bind--aria-label=\"state.thisImage.triggerButtonAriaLabel\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.thisImage.buttonRight\" data-wp-style--top=\"state.thisImage.buttonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><figcaption>Lulu chegou ao Brasil em 2010 e foi presa menos de dois anos depois, em S\u00e3o Paulo. Ganhou direito a ser reintegrada \u00e0 sociedade por bom comportamento e por cumprir todos os requisitos exigidos<\/figcaption><\/figure>\n<p>A <strong>Ag\u00eancia P\u00fablica<\/strong> procurou o juiz Narv\u00e1ez por meio do TJSP, mas o tribunal informou que ele n\u00e3o se manifestaria: \u201cOs magistrados t\u00eam independ\u00eancia funcional para decidir de acordo com os documentos dos autos e seu livre convencimento. Essa independ\u00eancia \u00e9 uma garantia do pr\u00f3prio Estado de Direito. Quando h\u00e1 discord\u00e2ncia da decis\u00e3o, cabe \u00e0s partes a interposi\u00e7\u00e3o dos recursos previstos na legisla\u00e7\u00e3o vigente\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>Tanaka continuava sangrando na cela. Em setembro de 2024, durante mais uma sa\u00edda tempor\u00e1ria, ela comprou novamente, com seus pr\u00f3prios recursos, o Primolut-Nor, um medicamento essencial para controlar a hemorragia. O advogado peticionou, mais uma vez, no processo, informando detalhadamente que a cirurgia estava atrasada h\u00e1 mais de cinco meses. O juiz repetiu o despacho padr\u00e3o: 15 dias para resposta do pres\u00eddio.\u00a0<\/p>\n<p>Em 31 de outubro de 2024, diante do sil\u00eancio da unidade prisional e da juntada de um of\u00edcio de cobran\u00e7a enviado pela embaixada da Guiana, o juiz limitou-se a escrever uma linha: \u201cCiente. Aguarde-se resposta\u201d. <span>O pres\u00eddio nunca respondeu \u00e0 determina\u00e7\u00e3o judicial.<\/span><\/p>\n<p>A cirurgia foi feita com m\u00e9dico particular, apenas em 5 de dezembro de 2024, no Hospital Planalto, em S\u00e3o Paulo. Dois dias depois, num s\u00e1bado, Tanaka teve alta e, antes de retornar ao pres\u00eddio, recebeu uma recomenda\u00e7\u00e3o taxativa: \u201cSinais de alarme para ida imediata ao pronto-socorro: dores intensas, sangramento aumentando, febre ou outra intercorr\u00eancia\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>Lulu usou recursos pr\u00f3prios para buscar sa\u00fade, o que nem Justi\u00e7a nem sistema penitenci\u00e1rio lhe garantiram. Ap\u00f3s meses de dor, um novo cap\u00edtulo se desenhava com o regime aberto \u00e0 vista.<\/p>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"6a1d2dfa626b5\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\" data-wp-key=\"6a1d2dfa626b5\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" data-wp-bind--aria-label=\"state.thisImage.triggerButtonAriaLabel\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.thisImage.buttonRight\" data-wp-style--top=\"state.thisImage.buttonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n<h2><strong>\u201cDesculpa, obrigado, meninas\u201d<\/strong><\/h2>\n<p>Era 9 de dezembro de 2024, uma segunda-feira, quando as dores p\u00f3s-cir\u00fargicas come\u00e7aram a se manifestar. T\u00e2nia, que dividia a cela com ela, conta ter ouvido as primeiras queixas ainda no almo\u00e7o. \u201cPerguntei se era dor de barriga ou na cicatriz. Falou que era por dentro\u201d, recorda. No dia seguinte, a guianense foi at\u00e9 a enfermaria; a auxiliar de sa\u00fade de plant\u00e3o entregou rem\u00e9dio para gases, atribuindo o desconforto ao p\u00f3s-operat\u00f3rio. No mesmo dia 10, o quadro se agravou.<\/p>\n<p>\u00a0\u201cEla passou muito mal, mencionando que sentia uma bola de fogo dentro dela, que queimava por dentro, transpirava muito e que a press\u00e3o estava muito baixa\u201d, relatou outra presa, testemunha do sofrimento. A solu\u00e7\u00e3o adotada pela chefia de plant\u00e3o do pres\u00eddio, segundo depoimento oficial prestado em uma sindic\u00e2ncia interna instaurada pela Secretaria de Administra\u00e7\u00e3o Penitenci\u00e1ria (SAP), foi oferecer um prato de sopa \u00e0 Lulu, que agonizava.<\/p>\n<p>Os relatos de ao menos quatro colegas de cela, obtidos pela <strong>P\u00fablica<\/strong>, que acompanharam de perto o calv\u00e1rio p\u00f3s-cir\u00fargico de Tanaka, afirmam que houve neglig\u00eancia. \u201cPassaram, acho, s\u00f3 diclofenaco e dipirona. Ela reclamava de dor. J\u00e1 tinha febre. Falaram para ela que eram gases, que era para ela ficar andando\u201d, diz T\u00e2nia, que insistiu com a chefia do plant\u00e3o por socorro. \u201cA agente respondeu que era frescura, que a cirurgia tinha corrido bem, que a enfermaria j\u00e1 tinha dado rem\u00e9dio para gases\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>A agente em quest\u00e3o, segundo o depoimento de T\u00e2nia, foi quem mandou que a cozinha preparasse uma sopa para a presa, sob a hip\u00f3tese de que o problema pudesse ser gastrite. \u201cS\u00f3 que, quando ela terminou de comer a sopa, vomitou. E a dor s\u00f3 aumentava\u201d. Lulu n\u00e3o foi encaminhada ao hospital, e j\u00e1 sem conseguir andar, foi levada \u00e0 enfermaria do pr\u00f3prio pres\u00eddio.<\/p>\n<p>\u201cDe ter\u00e7a para quarta, a gente chamando ajuda, falando que ela estava ruim, e ela falando: \u2018Eu vou morrer, eu vou morrer. Eu t\u00f4 com muita dor\u2019\u201d, recorda Paula. \u201cA gente chamou ajuda para tirar ela dali, porque ela estava sofrendo: vomitava, gritava, arregalava os olhos de tanta dor, e a gente n\u00e3o podia fazer nada.\u201d<\/p>\n<p>\u00c0s 22h55, mais de 24 horas ap\u00f3s o in\u00edcio das dores intensas relatadas no prontu\u00e1rio, Tanaka deu entrada no Hospital Municipal Tide Set\u00fabal. O detalhe mais perverso \u00e9 que o hospital fica, literalmente, parede a parede com o pres\u00eddio, dividindo o mesmo muro na zona leste de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Paula relembra a cena emocionada. \u201cEla s\u00f3 queria ficar comigo, segurando a minha m\u00e3o. Ela dizia: \u2018Eu vou morrer, eu vou morrer.\u2019 A\u00ed teve uma hora em que ela falava bem assim: \u2018Obrigado, meninas, desculpa, obrigado, meninas\u2019\u201d, diz a amiga, que carregou Tanaka at\u00e9 o carro que a levaria, enfim, ao hospital. \u201cEu falei: \u2018Tchau, Tanaka, fica com Deus, t\u00e1?\u2019 e nunca mais a vi.\u201d<\/p>\n<p>No dia seguinte, 11 de dezembro, alheio \u00e0 trag\u00e9dia que se desenrolava na UTI do hospital vizinho ao pres\u00eddio, o parecer favor\u00e1vel \u00e0 progress\u00e3o de Tanaka ao regime aberto foi emitido pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico. \u00c0 1h de 12 de dezembro, Lulu morreu, aos 47 anos.\u00a0<\/p>\n<p>O laudo pericial do Instituto M\u00e9dico Legal (IML) apontou como causa mortis \u201csepse generalizada e necrose mesent\u00e9rica\u201d, uma infec\u00e7\u00e3o generalizada letal que tomou conta do seu corpo ap\u00f3s a cirurgia pela qual ela e seu advogado tanto batalharam.<\/p>\n<p>A not\u00edcia chegou tarde \u00e0 unidade prisional, que \u00e0 \u00e9poca tinha na dire\u00e7\u00e3o Nivia Claudia Firmo Pedro. \u201cEra quase onze horas da manh\u00e3 quando informaram que Tanaka tinha morrido \u00e0 meia-noite. Para o senhor ver que eles n\u00e3o tinham nem dignidade para respeitar a nossa dor\u201d, reclama T\u00e2nia.\u00a0<\/p>\n<p>Naquele dia, quatro ou cinco estrangeiras africanas foram \u00e0 enfermaria com a press\u00e3o arterial elevada, transtornadas com a morte da amiga guianense. O luto estava apenas come\u00e7ando. De sua casa, por mensagem de uma amiga em comum, Sophie Marie soube logo cedo da trag\u00e9dia. \u201cMandei uma mensagem perguntando como ela estava e a resposta veio: \u2018A Lulu morreu, a Lulu morreu\u2019. Eu dei um grito.\u201d<\/p>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"6a1d2dfa62bc1\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\" data-wp-key=\"6a1d2dfa62bc1\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" data-wp-bind--aria-label=\"state.thisImage.triggerButtonAriaLabel\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.thisImage.buttonRight\" data-wp-style--top=\"state.thisImage.buttonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><\/figure>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"6a1d2dfa62ddf\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\" data-wp-key=\"6a1d2dfa62ddf\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" data-wp-bind--aria-label=\"state.thisImage.triggerButtonAriaLabel\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.thisImage.buttonRight\" data-wp-style--top=\"state.thisImage.buttonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><\/figure>\n<div>\n<div>\n<p>e<\/p>\n<div aria-hidden=\"true\"><\/div>\n<h2><strong><strong>A dois dias da liberdade<\/strong><\/strong><\/h2>\n<p><span>O corpo de Tanaka Luanda Lawrence cruzou o Brasil no final de dezembro de 2024, partindo de S\u00e3o Paulo at\u00e9 Boa Vista. De l\u00e1, a viagem seguiu at\u00e9 a cidade de Bonfim (RR), na fronteira seca com a Guiana, pa\u00eds de origem de Lulu.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>Do outro lado da linha imagin\u00e1ria que divide as duas na\u00e7\u00f5es, uma funer\u00e1ria guianesa j\u00e1 a aguardava para a viagem final at\u00e9 a capital, Georgetown. O traslado internacional, com toda a sua complexidade log\u00edstica e financeira, s\u00f3 foi poss\u00edvel porque familiares e ex-companheiras de cela organizaram uma vaquinha.\u00a0<\/p>\n<p>O medo era que Lulu fosse enterrada como indigente em uma vala comum em solo estrangeiro. Com esfor\u00e7o, os amigos juntaram cerca de R$ 10 mil. Do filho mais velho de Tanaka, que havia tentado a vida nos Estados Unidos, veio o complemento.\u00a0<\/p>\n<p>A coleta foi realizada por Sophie Marie fora dos muros do pres\u00eddio. Durante tr\u00eas dias, ela angariou contribui\u00e7\u00f5es de cerca de quarenta pessoas. A burocracia estatal brasileira ainda tentou reter os documentos originais de Lulu at\u00e9 o \u00faltimo momento, mas a press\u00e3o do consulado guian\u00eas viabilizou a viagem de retorno.\u00a0<\/p>\n<p>Antes do traslado, amigas se reuniram em uma missa numa igreja da zona leste de S\u00e3o Paulo que Tanaka frequentava nos dias de saidinha do pres\u00eddio.<\/p>\n<p>O enterro, realizado a milhares de quil\u00f4metros do pres\u00eddio, foi transmitido ao vivo no Facebook, para que as amigas que ficaram para tr\u00e1s no Brasil, pudessem, pela tela de um celular, se despedir.<\/p>\n<p><span>Na Guiana, o ca\u00e7ula de Tanaka, que tinha acabado de nascer quando ela tomou a decis\u00e3o de vir para o Brasil, hoje com 14 anos, \u00e9 um promissor tenista da sele\u00e7\u00e3o nacional de seu pa\u00eds. O grande desejo da m\u00e3e era, ao sair em regime aberto, trabalhar para traz\u00ea-lo a S\u00e3o Paulo e dar-lhe uma raquete profissional de presente.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>O sonho foi interrompido de forma abrupta numa maca de um hospital p\u00fablico, a poucos metros da cela onde ela passou parte dos \u00faltimos anos de sua vida, e a meros dois dias de deixar o pres\u00eddio.<\/p>\n<div aria-hidden=\"true\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div>\n<h2><strong>A dois dias da liberdade<\/strong><\/h2>\n<p>O corpo de Tanaka Luanda Lawrence cruzou o Brasil no final de dezembro de 2024, partindo de S\u00e3o Paulo at\u00e9 Boa Vista. De l\u00e1, a viagem seguiu at\u00e9 a cidade de Bonfim (RR), na fronteira seca com a Guiana, pa\u00eds de origem de Lulu.\u00a0<\/p>\n<p>Do outro lado da linha imagin\u00e1ria que divide as duas na\u00e7\u00f5es, uma funer\u00e1ria guianesa j\u00e1 a aguardava para a viagem final at\u00e9 a capital, Georgetown. O traslado internacional, com toda a sua complexidade log\u00edstica e financeira, s\u00f3 foi poss\u00edvel porque familiares e ex-companheiras de cela organizaram uma vaquinha.\u00a0<\/p>\n<p>O medo era que Lulu fosse enterrada como indigente em uma vala comum em solo estrangeiro. Com esfor\u00e7o, os amigos juntaram cerca de R$ 10 mil. Do filho mais velho de Tanaka, que havia tentado a vida nos Estados Unidos, veio o complemento.\u00a0<\/p>\n<p>A coleta foi realizada por Sophie Marie fora dos muros do pres\u00eddio. Durante tr\u00eas dias, ela angariou contribui\u00e7\u00f5es de cerca de quarenta pessoas. A burocracia estatal brasileira ainda tentou reter os documentos originais de Lulu at\u00e9 o \u00faltimo momento, mas a press\u00e3o do consulado guian\u00eas viabilizou a viagem de retorno.\u00a0<\/p>\n<p>Antes do traslado, amigas se reuniram em uma missa numa igreja da zona leste de S\u00e3o Paulo que Tanaka frequentava nos dias de saidinha do pres\u00eddio.<\/p>\n<p>O enterro, realizado a milhares de quil\u00f4metros do pres\u00eddio, foi transmitido ao vivo no Facebook, para que as amigas que ficaram para tr\u00e1s no Brasil, pudessem, pela tela de um celular, se despedir.<\/p>\n<p><span>Na Guiana, o ca\u00e7ula de Tanaka, que tinha acabado de nascer quando ela tomou a decis\u00e3o de vir para o Brasil, hoje com 14 anos, \u00e9 um promissor tenista da sele\u00e7\u00e3o nacional de seu pa\u00eds. O grande desejo da m\u00e3e era, ao sair em regime aberto, trabalhar para traz\u00ea-lo a S\u00e3o Paulo e dar-lhe uma raquete profissional de presente.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>O sonho foi interrompido de forma abrupta numa maca de um hospital p\u00fablico, a poucos metros da cela onde ela passou parte dos \u00faltimos anos de sua vida, e a meros dois dias de deixar o pres\u00eddio.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div>\n<h2><strong><strong>Desejo e repara\u00e7\u00e3o<\/strong><\/strong><\/h2>\n<div aria-hidden=\"true\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div data-id=\"1\">\n<div>\n<p>\nNa sindic\u00e2ncia administrativa instaurada pela SAP para apurar a morte de Tanaka Luanda Lawrence, todas as presas e funcion\u00e1rias ouvidas declararam formalmente que \u201cn\u00e3o houve omiss\u00e3o de socorro\u201d.\n<\/p>\n<p>\nNo entanto, a leitura atenta dos pr\u00f3prios relatos anexados ao processo obtido pela reportagem indicam que Tanaka sentiu dores intensas, que a recomenda\u00e7\u00e3o m\u00e9dica por escrito de retorno imediato ao hospital foi flagrantemente ignorada pelos servidores.\n<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div data-id=\"2\">\n<div>\n<p>\ne que ela permaneceu horas agonizando na cela ou na enfermaria antes de ser finalmente transferida para o hospital que ficava do outro lado do muro.\n<\/p>\n<p>\nAl\u00e9m disso, ex-companheiras de cela que falaram sob condi\u00e7\u00e3o de anonimato questionam a sindic\u00e2ncia da SAP e afirmam que o sofrimento de Tanaka foi sistematicamente subestimado pelas funcion\u00e1rias, que insistiam em diagnosticar a dor p\u00f3s-cir\u00fargica como \u201cgases\u201d e as repreendiam pelos apelos de socorro \u00e0 colega.\n<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div data-id=\"3\">\n<div>\n<p><span><br \/>\nT\u00e2nia afirma que n\u00e3o foi chamada a depor na sindic\u00e2ncia e \u00e9 categ\u00f3rica: \u201cfoi omiss\u00e3o de socorro, sim, da parte da chefe de plant\u00e3o e da penitenci\u00e1ria\u201d. Para ela, a morte de Lulu tem cor. \u201cContinuo a falar: ela morreu por causa do racismo\u201d.<br \/>\n<\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div data-id=\"4\">\n<div>\n<p><span><br \/>\n\u201cAquele foi o pior Natal. Eu fiquei muito, mas muito mal. Comecei a tomar rem\u00e9dio por conta pr\u00f3pria para dormir. Tive que aguentar ainda alguns meses sem ela, eu sofri demais porque meus filhos gostavam muito dela\u201d, lembra Paula.<br \/>\n<\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div data-id=\"1\"><\/div>\n<div data-id=\"2\"><\/div>\n<div data-id=\"3\"><\/div>\n<div data-id=\"4\"><\/div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div>\n<div aria-hidden=\"true\"><\/div>\n<p>Procurada, a Secretaria de Administra\u00e7\u00e3o Penitenci\u00e1ria (SAP) afirmou que Tanaka \u201crecebeu atendimento de sa\u00fade cont\u00ednuo, de acordo com todos os protocolos exigidos, incluindo acompanhamento cl\u00ednico, ginecol\u00f3gico e realiza\u00e7\u00e3o de exames, conforme a necessidade identificada pelas equipes m\u00e9dicas\u201d e que o PAD instaurado n\u00e3o apontou irregularidades no caso. Sobre detentos estrangeiros, em nota oficial, a SAP disse adotar protocolos para garantir comunica\u00e7\u00e3o com familiares, com apoio consular quando necess\u00e1rio e que demandas adicionais s\u00e3o \u201canalisadas caso a caso\u201d.<\/p>\n<p>\u201cO que houve foi o que eu chamaria de uma dupla desprote\u00e7\u00e3o\u201d, avalia o doutor em sociologia e pesquisador de viol\u00eancias de Estado da Universidade de Bras\u00edlia (UnB) Edergenio Negreiros Vieira. \u201cHouve omiss\u00e3o por parte do Estado na assist\u00eancia \u00e0 sa\u00fade m\u00e9dica e farmac\u00eautica e at\u00e9 na aten\u00e7\u00e3o \u00e0 dignidade da pessoa humana, uma omiss\u00e3o estrutural e institucional. [\u2026] E se o Estado falhou ao negar acesso \u00e0 sa\u00fade, a Justi\u00e7a tamb\u00e9m falhou. Por que? Porque a Justi\u00e7a deve fiscalizar o cumprimento da pena\u201d, afirma.<\/p>\n<p>O pesquisador ressalta que houve um claro descumprimento da Regra de Bangkok, da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), da qual o Brasil \u00e9 signat\u00e1rio e que versa sobre o acesso a ao menos um m\u00e9dico \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o por unidade prisional como condi\u00e7\u00e3o m\u00ednima, e que o profissional ainda tenha conhecimentos a respeito de sa\u00fade mental. \u201cQuando se fala em falha, pode-se pensar que \u00e9 um caso isolado, mas o mais prov\u00e1vel \u00e9 que essa realidade esteja mais para regra que para exce\u00e7\u00e3o\u201d, complementa Vieira, salientando que o caso de Tanaka evidencia o que seria uma desumaniza\u00e7\u00e3o das pessoas encarceradas, \u201co que acaba produzindo mais desigualdades, em vez de reeduca\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>O processo de execu\u00e7\u00e3o penal de Tanaka Luanda Lawrence, a Lulu, que deveria culminar com o seu alvar\u00e1 de soltura, foi encerrado com a juntada de uma certid\u00e3o de \u00f3bito. Em 6 de abril de 2026, quase um ano e meio ap\u00f3s a sua morte evit\u00e1vel, a defesa da guianense formalizou o pedido de remessa dos autos ao Minist\u00e9rio P\u00fablico para apura\u00e7\u00e3o dos crimes de omiss\u00e3o de socorro (artigo 135 do C\u00f3digo Penal) e homic\u00eddio culposo (artigo 121, \u00a73\u00ba, do CP).<\/p>\n<p>A peti\u00e7\u00e3o assinada pelos advogados Lucas Marques Gon\u00e7alves Lopes, Rubens Siebner Mendes de Almeida e Guilherme Fortes Bassi re\u00fane as contradi\u00e7\u00f5es entre os depoimentos prestados na sindic\u00e2ncia da SAP, os documentos hospitalares e o sum\u00e1rio de alta da cirurgia.<\/p>\n<p><span>Em 16 de abril de 2026, o promotor de Justi\u00e7a Mateus Victor Ribeiro de Castilho, da Promotoria do Departamento Estadual de Execu\u00e7\u00e3o Criminal (DEECRIM), emitiu parecer favor\u00e1vel ao pedido da defesa e requereu \u00e0 autoridade policial a \u201capura\u00e7\u00e3o de eventual crime\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>Dias depois, o juiz H\u00e9lio Narv\u00e1ez, o mesmo que conduziu o processo de execu\u00e7\u00e3o penal desde o primeiro pedido de provid\u00eancias por interven\u00e7\u00e3o m\u00e9dica urgencial, proferiu um novo despacho. Determinou que, antes da instaura\u00e7\u00e3o de procedimento para apurar eventuais crimes, fossem solicitadas mais informa\u00e7\u00f5es sobre os fatos elencados pela defesa \u00e0 unidade prisional, a mesma institui\u00e7\u00e3o que nunca respondeu ao pedido judicial, de mesma natureza, enquanto Lulu sangrava.<\/p>\n<div aria-hidden=\"true\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div>\n<h2><strong>Desejo e repara\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h2>\n<div aria-hidden=\"true\"><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div data-id=\"1\">\n<div>\n<p><span><br \/>\n    Na sindic\u00e2ncia administrativa instaurada pela SAP para apurar a morte de Tanaka Luanda Lawrence, todas as presas e funcion\u00e1rias ouvidas declararam formalmente que \u201cn\u00e3o houve omiss\u00e3o de socorro\u201d.<br \/>\n<\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div data-id=\"2\">\n<div>\n<p><span><br \/>\n    No entanto, a leitura atenta dos pr\u00f3prios relatos anexados ao processo obtido pela reportagem indicam que Tanaka sentiu dores intensas<br \/>\n<\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div data-id=\"3\">\n<div>\n<p><span><br \/>\n    que a recomenda\u00e7\u00e3o m\u00e9dica por escrito de retorno imediato ao hospital foi flagrantemente ignorada pelos servidores<br \/>\n<\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div data-id=\"4\">\n<div>\n<p><span><br \/>\n    e que ela permaneceu horas agonizando na cela ou na enfermaria antes de ser finalmente transferida para o hospital que ficava do outro lado do muro.<br \/>\n<\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div data-id=\"1\"><\/div>\n<div data-id=\"2\"><\/div>\n<div data-id=\"3\"><\/div>\n<div data-id=\"4\"><\/div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Al\u00e9m disso, ex-companheiras de cela que falaram sob condi\u00e7\u00e3o de anonimato questionam a sindic\u00e2ncia da SAP e afirmam que o sofrimento de Tanaka foi sistematicamente subestimado pelas funcion\u00e1rias, que insistiam em diagnosticar a dor p\u00f3s-cir\u00fargica como \u201cgases\u201d e as repreendiam pelos apelos de socorro \u00e0 colega.\u00a0<\/p>\n<p><span>T\u00e2nia afirma que n\u00e3o foi chamada a depor na sindic\u00e2ncia e \u00e9 categ\u00f3rica: \u201cfoi omiss\u00e3o de socorro, sim, da parte da chefe de plant\u00e3o e da penitenci\u00e1ria\u201d.<\/span> Para ela, a morte de Lulu tem cor. \u201cContinuo a falar: ela morreu por causa do racismo\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cAquele foi o pior Natal. Eu fiquei muito, mas muito mal. Comecei a tomar rem\u00e9dio por conta pr\u00f3pria para dormir. Tive que aguentar ainda alguns meses sem ela, eu sofri demais porque meus filhos gostavam muito dela\u201d, lembra Paula.<\/p>\n<p>Procurada, a Secretaria de Administra\u00e7\u00e3o Penitenci\u00e1ria (SAP) afirmou que Tanaka \u201crecebeu atendimento de sa\u00fade cont\u00ednuo, de acordo com todos os protocolos exigidos, incluindo acompanhamento cl\u00ednico, ginecol\u00f3gico e realiza\u00e7\u00e3o de exames, conforme a necessidade identificada pelas equipes m\u00e9dicas\u201d e que o PAD instaurado n\u00e3o apontou irregularidades no caso. Sobre detentos estrangeiros, em nota oficial, a SAP disse adotar protocolos para garantir comunica\u00e7\u00e3o com familiares, com apoio consular quando necess\u00e1rio e que demandas adicionais s\u00e3o \u201canalisadas caso a caso\u201d.<\/p>\n<p>\u201cO que houve foi o que eu chamaria de uma dupla desprote\u00e7\u00e3o\u201d, avalia o doutor em sociologia e pesquisador de viol\u00eancias de Estado da Universidade de Bras\u00edlia (UnB) Edergenio Negreiros Vieira. \u201cHouve omiss\u00e3o por parte do Estado na assist\u00eancia \u00e0 sa\u00fade m\u00e9dica e farmac\u00eautica e at\u00e9 na aten\u00e7\u00e3o \u00e0 dignidade da pessoa humana, uma omiss\u00e3o estrutural e institucional. [\u2026] E se o Estado falhou ao negar acesso \u00e0 sa\u00fade, a Justi\u00e7a tamb\u00e9m falhou. Por que? Porque a Justi\u00e7a deve fiscalizar o cumprimento da pena\u201d, afirma.<\/p>\n<p>O pesquisador ressalta que houve um claro descumprimento da Regra de Bangkok, da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), da qual o Brasil \u00e9 signat\u00e1rio e que versa sobre o acesso a ao menos um m\u00e9dico \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o por unidade prisional como condi\u00e7\u00e3o m\u00ednima, e que o profissional ainda tenha conhecimentos a respeito de sa\u00fade mental. \u201cQuando se fala em falha, pode-se pensar que \u00e9 um caso isolado, mas o mais prov\u00e1vel \u00e9 que essa realidade esteja mais para regra que para exce\u00e7\u00e3o\u201d, complementa Vieira, salientando que o caso de Tanaka evidencia o que seria uma desumaniza\u00e7\u00e3o das pessoas encarceradas, \u201co que acaba produzindo mais desigualdades, em vez de reeduca\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>O processo de execu\u00e7\u00e3o penal de Tanaka Luanda Lawrence, a Lulu, que deveria culminar com o seu alvar\u00e1 de soltura, foi encerrado com a juntada de uma certid\u00e3o de \u00f3bito. Em 6 de abril de 2026, quase um ano e meio ap\u00f3s a sua morte evit\u00e1vel, a defesa da guianense formalizou o pedido de remessa dos autos ao Minist\u00e9rio P\u00fablico para apura\u00e7\u00e3o dos crimes de omiss\u00e3o de socorro (artigo 135 do C\u00f3digo Penal) e homic\u00eddio culposo (artigo 121, \u00a73\u00ba, do CP).<\/p>\n<p>A peti\u00e7\u00e3o assinada pelos advogados Lucas Marques Gon\u00e7alves Lopes, Rubens Siebner Mendes de Almeida e Guilherme Fortes Bassi re\u00fane as contradi\u00e7\u00f5es entre os depoimentos prestados na sindic\u00e2ncia da SAP, os documentos hospitalares e o sum\u00e1rio de alta da cirurgia.<\/p>\n<p><span>Em 16 de abril de 2026, o promotor de Justi\u00e7a Mateus Victor Ribeiro de Castilho, da Promotoria do Departamento Estadual de Execu\u00e7\u00e3o Criminal (DEECRIM), emitiu parecer favor\u00e1vel ao pedido da defesa e requereu \u00e0 autoridade policial a \u201capura\u00e7\u00e3o de eventual crime\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>Dias depois, o juiz H\u00e9lio Narv\u00e1ez, o mesmo que conduziu o processo de execu\u00e7\u00e3o penal desde o primeiro pedido de provid\u00eancias por interven\u00e7\u00e3o m\u00e9dica urgencial, proferiu um novo despacho. Determinou que, antes da instaura\u00e7\u00e3o de procedimento para apurar eventuais crimes, fossem solicitadas mais informa\u00e7\u00f5es sobre os fatos elencados pela defesa \u00e0 unidade prisional, a mesma institui\u00e7\u00e3o que nunca respondeu ao pedido judicial, de mesma natureza, enquanto Lulu sangrava.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div aria-hidden=\"true\"><\/div>\n<blockquote>\n<\/blockquote>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/deputada-laura-sito-entrega-a-personalidades-negras-a-medalha-preta-rosa-na-assembleia-legislativa-do-rs\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/bdf-20250703-191638-6a2560-21-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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