{"id":89814,"date":"2026-06-01T17:50:34","date_gmt":"2026-06-01T20:50:34","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/fifa-e-a-geopolitica-colonialista-do-futebol\/"},"modified":"2026-06-01T17:50:34","modified_gmt":"2026-06-01T20:50:34","slug":"fifa-e-a-geopolitica-colonialista-do-futebol","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/fifa-e-a-geopolitica-colonialista-do-futebol\/","title":{"rendered":"Fifa e a geopol\u00edtica colonialista do futebol"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"900\" height=\"600\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_4967480315119078383_y.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_4967480315119078383_y.jpg 900w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_4967480315119078383_y-300x200.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_4967480315119078383_y-768x512.jpg 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_4967480315119078383_y-272x182.jpg 272w\" sizes=\"(max-width: 900px) 100vw, 900px\"><figcaption>Donald Trump ao lado de Gianni Infantino, presidente da FIFA, recebendo o Pr\u00eamio da Paz, rec\u00e9m-criado pela entidade. Imagem: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Getty Images<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<p><imgsrc=\"\" width=\"1\" height=\"1\" alt=\".\" border=\"0\">\n<\/div>\n<\/div>\n<p>A Copa do Mundo FIFA 2026 consolidar\u00e1 os Estados Unidos como epicentro pol\u00edtico, econ\u00f4mico e simb\u00f3lico do futebol global. Embora o torneio seja formalmente dividido entre EUA, Canad\u00e1 e M\u00e9xico, os norte-americanos concentrar\u00e3o o cora\u00e7\u00e3o da competi\u00e7\u00e3o: seis dos oito jogos das oitavas de final ser\u00e3o disputados em territ\u00f3rio estadunidense e, a partir das quartas de final, todas as partidas (incluindo semifinal e final) ocorrer\u00e3o exclusivamente nos EUA. Ou seja, o pa\u00eds n\u00e3o apenas escapou de qualquer tipo de san\u00e7\u00e3o internacional apesar de seu hist\u00f3rico recente de guerras, assassinatos seletivos, bloqueios econ\u00f4micos e ataques contra outros Estados soberanos, como foi premiado com o protagonismo absoluto do maior evento esportivo do planeta. A contradi\u00e7\u00e3o torna-se ainda mais evidente quando comparada \u00e0 velocidade com que a R\u00fassia foi suspensa pela FIFA e pela UEFA em 2022, sendo exclu\u00edda das Eliminat\u00f3rias e do sistema internacional do futebol em tempo recorde.<\/p>\n<p>Enquanto Moscou foi transformada em p\u00e1ria esportivo, EUA e tamb\u00e9m Israel seguem sem qualquer puni\u00e7\u00e3o relevante, mesmo diante das acusa\u00e7\u00f5es de genoc\u00eddio contra o povo palestino e das sucessivas den\u00fancias de crimes de guerra. A dualidade de crit\u00e9rios revela que a chamada \u201cneutralidade\u201d do futebol mundial n\u00e3o \u00e9 neutra: ela opera de acordo com as hierarquias do poder global, da hegemonia pol\u00edtica e dos interesses do imperialismo contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>A suspens\u00e3o da R\u00fassia pela FIFA e pela UEFA em 2022 foi tratada pelo establishment esportivo ocidental como uma resposta moral inevit\u00e1vel diante da guerra na Ucr\u00e2nia. Em quest\u00e3o de dias, clubes russos foram exclu\u00eddos de competi\u00e7\u00f5es internacionais, a sele\u00e7\u00e3o nacional ficou fora das Eliminat\u00f3rias da Copa do Mundo de 2022 e, posteriormente, tamb\u00e9m da disputa por vagas para a Copa do Mundo FIFA 2026. No dia seguinte \u00e0 decis\u00e3o da FIFA, em entrevista \u00e0 R\u00e1dio BandNews FM do Brasil, afirmei que a medida era hist\u00f3rica justamente por n\u00e3o possuir precedentes no futebol mundial contempor\u00e2neo e que, naquele momento, j\u00e1 me parecia improv\u00e1vel que uma san\u00e7\u00e3o de tamanha magnitude viesse a ser aplicada contra pa\u00edses alinhados \u00e0 hegemonia ocidental. O desenvolvimento dos acontecimentos internacionais desde ent\u00e3o, especialmente a aus\u00eancia de qualquer puni\u00e7\u00e3o a Israel e o protagonismo dos Estados Unidos como sede da Copa de 2026, apenas refor\u00e7ou essa percep\u00e7\u00e3o inicial.<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/14-1.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/14-1.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/14-1-300x110.png 300w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Entretanto, a rapidez da puni\u00e7\u00e3o \u00e0 R\u00fassia levanta uma quest\u00e3o incontorn\u00e1vel: por que o mesmo rigor n\u00e3o se aplica aos Estados Unidos e a Israel? Como explicar que os EUA, sob a lideran\u00e7a de Donald Trump, respons\u00e1veis por ataques militares contra o Ir\u00e3 e pelo assassinato de lideran\u00e7as iranianas, sejam um dos anfitri\u00f5es da Copa do Mundo FIFA 2026? E por que Israel permanece plenamente integrado ao sistema internacional do futebol, sem qualquer san\u00e7\u00e3o relevante, mesmo diante do genoc\u00eddio em curso contra o povo palestino e das sucessivas den\u00fancias de crimes de guerra?<\/p>\n<p>A resposta n\u00e3o est\u00e1 em princ\u00edpios universais, moralidade esportiva ou neutralidade institucional. A resposta est\u00e1 no poder.<\/p>\n<p>O futebol mundial n\u00e3o existe fora das rela\u00e7\u00f5es internacionais. Pelo contr\u00e1rio: ele \u00e9 uma de suas express\u00f5es mais sofisticadas. A FIFA n\u00e3o \u00e9 uma entidade neutra pairando acima da pol\u00edtica global; ela opera dentro da estrutura de poder do sistema internacional e, portanto, reproduz suas hierarquias, interesses e hegemonias.<\/p>\n<p>Joseph Nye formulou o conceito de \u201csoft power\u201d para explicar como os Estados exercem influ\u00eancia n\u00e3o apenas pela coer\u00e7\u00e3o militar ou econ\u00f4mica, mas tamb\u00e9m pela atra\u00e7\u00e3o cultural, pela constru\u00e7\u00e3o de legitimidade e pela capacidade de moldar prefer\u00eancias e consensos. H\u00e1 mais de uma d\u00e9cada venho trabalhando academicamente com o conceito de soft power aplicado \u00e0 diplomacia do esporte, inclusive desenvolvendo uma an\u00e1lise cr\u00edtica sobre os pressupostos ideol\u00f3gicos e hegem\u00f4nicos presentes nessa formula\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, especialmente no que se refere \u00e0 naturaliza\u00e7\u00e3o dos valores e interesses das pot\u00eancias ocidentais como supostamente universais. O esporte, especialmente o futebol, tornou-se um dos instrumentos centrais dessa disputa simb\u00f3lica global. Megaeventos esportivos, Copas do Mundo e Olimp\u00edadas funcionam como vitrines de prest\u00edgio internacional, mecanismos de constru\u00e7\u00e3o de reputa\u00e7\u00e3o e aparatos de legitima\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica.<\/p>\n<p>No entanto, como demonstram as tradi\u00e7\u00f5es marxistas, incluindo suas formula\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas e as contribui\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas de Antonio Gramsci e dos autores gramscianos no campo da hegemonia e do imperialismo, o chamado \u201csoft power\u201d nunca est\u00e1 dissociado do \u201chard power\u201d. Em minha tese de doutorado, posteriormente adaptada para o livro China, Football and Development: socialismo and soft power\u201d (publicado pela Routledge), desenvolvo uma cr\u00edtica marxista ao conceito de soft power, especialmente a partir da an\u00e1lise gramsciana sobre hegemonia, consenso, ideologia e disputa de poder no sistema internacional. O consenso n\u00e3o existe sem coer\u00e7\u00e3o latente, assim como a domina\u00e7\u00e3o n\u00e3o se sustenta apenas por for\u00e7a material, mas tamb\u00e9m por mecanismos culturais, ideol\u00f3gicos e simb\u00f3licos que organizam a produ\u00e7\u00e3o do consentimento. A hegemonia, nesse sentido, n\u00e3o se reduz \u00e0s dimens\u00f5es econ\u00f4mica ou militar, mas se expressa de forma articulada nessas m\u00faltiplas esferas. \u00c9 precisamente nesse ponto que o futebol revela sua dimens\u00e3o pol\u00edtica mais profunda.<\/p>\n<p>A exclus\u00e3o da R\u00fassia n\u00e3o pode ser compreendida apenas como uma decis\u00e3o \u00e9tica. Ela deve ser entendida dentro do contexto mais amplo da disputa geopol\u00edtica entre o Ocidente liderado pelos EUA e seus advers\u00e1rios estrat\u00e9gicos. A R\u00fassia tornou-se alvo de um processo de isolamento internacional que extrapola san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e militares, alcan\u00e7ando cultura, esporte e entretenimento. O futebol foi mobilizado como parte desse esfor\u00e7o de deslegitima\u00e7\u00e3o global.<\/p>\n<p>Por outro lado, os Estados Unidos ocupam posi\u00e7\u00e3o distinta dentro da ordem internacional. Como argumenta Antonio Gramsci, a hegemonia se sustenta n\u00e3o apenas pela for\u00e7a, mas pela capacidade de produzir consenso e apresentar seus interesses particulares como universais. O poder hegem\u00f4nico consegue definir quais guerras s\u00e3o \u201cdefensivas\u201d, quais interven\u00e7\u00f5es s\u00e3o \u201chumanit\u00e1rias\u201d e quais viol\u00eancias merecem condena\u00e7\u00e3o internacional.<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/circuito3anos-banner_outraspalavras.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/circuito3anos-banner_outraspalavras.jpg 729w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/circuito3anos-banner_outraspalavras-300x37.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 729px) 100vw, 729px\" width=\"729\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Nesse sentido, os EUA n\u00e3o s\u00e3o tratados como um ator comum do sistema internacional. S\u00e3o o centro da ordem hegem\u00f4nica constru\u00edda ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial. A pr\u00f3pria ideia de uma \u201cordem internacional baseada em regras\u201d frequentemente opera como linguagem ideol\u00f3gica que legitima os interesses do poder dominante. Quando Washington invade pa\u00edses, promove assassinatos seletivos ou imp\u00f5e bloqueios econ\u00f4micos devastadores, esses atos raramente produzem exclus\u00e3o esportiva. Ao contr\u00e1rio: os EUA seguem sendo apresentados como guardi\u00f5es da democracia liberal e do \u201cmundo livre\u201d.<\/p>\n<p>A contradi\u00e7\u00e3o torna-se ainda mais evidente no caso do Ir\u00e3. Durante os \u00faltimos meses, esteve em d\u00favida a participa\u00e7\u00e3o da sele\u00e7\u00e3o iraniana na Copa do Mundo de 2026. N\u00e3o por desempenho esportivo, corrup\u00e7\u00e3o ou viola\u00e7\u00e3o das regras da FIFA, mas porque seus jogadores poderiam simplesmente n\u00e3o receber vistos para entrar nos Estados Unidos. A l\u00f3gica esportiva foi completamente invertida: o pa\u00eds anfitri\u00e3o passou a influenciar o poder de decidir, politicamente, quem poderia ou n\u00e3o competir.<\/p>\n<p>A Federa\u00e7\u00e3o Iraniana exigiu garantias expl\u00edcitas de seguran\u00e7a e livre entrada para todos os jogadores e membros da comiss\u00e3o t\u00e9cnica, especialmente aqueles que cumpriram servi\u00e7o militar obrigat\u00f3rio junto \u00e0 Guarda Revolucion\u00e1ria Isl\u00e2mica (IRGC), caso de atletas como Mehdi Taremi e Ehsan Hajsafi. A preocupa\u00e7\u00e3o iraniana surgiu ap\u00f3s integrantes da delega\u00e7\u00e3o enfrentarem problemas de visto em eventos ligados \u00e0 FIFA e diante do fato de que todos os jogos da fase de grupos da sele\u00e7\u00e3o ocorrer\u00e3o em territ\u00f3rio estadunidense.<\/p>\n<p>O mais impressionante \u00e9 que essa situa\u00e7\u00e3o foi tratada quase com naturalidade por parte da m\u00eddia ocidental e das institui\u00e7\u00f5es esportivas. Imagine-se o contr\u00e1rio: uma Copa sediada por R\u00fassia, China ou Ir\u00e3 amea\u00e7ando impedir a entrada de jogadores de determinadas sele\u00e7\u00f5es por raz\u00f5es pol\u00edtico-ideol\u00f3gicas. O esc\u00e2ndalo seria imediato. Mas quando o poder hegem\u00f4nico imp\u00f5e restri\u00e7\u00f5es, elas s\u00e3o enquadradas como \u201cquest\u00f5es de seguran\u00e7a nacional\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, cresce o temor em torno das a\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias do U.S. Immigration and Customs Enforcement, mais conhecido e temido pela sua sigla, ICE. O endurecimento das pol\u00edticas migrat\u00f3rias nos EUA, marcado por deten\u00e7\u00f5es arbitr\u00e1rias, deporta\u00e7\u00f5es e persegui\u00e7\u00f5es contra estrangeiros, projeta uma sombra sobre a pr\u00f3pria realiza\u00e7\u00e3o do Mundial. Torcedores estrangeiros, trabalhadores migrantes e membros de delega\u00e7\u00f5es convivem com o medo constante de abordagens discriminat\u00f3rias, dificuldades migrat\u00f3rias e repress\u00e3o estatal. Uma Copa do Mundo, que deveria simbolizar circula\u00e7\u00e3o global, integra\u00e7\u00e3o cultural e encontro entre povos, corre o risco de ocorrer sob um ambiente de vigil\u00e2ncia, intimida\u00e7\u00e3o e securitiza\u00e7\u00e3o permanente.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, os Estados Unidos intensificam pol\u00edticas agressivas de car\u00e1ter imperial. A guerra tarif\u00e1ria contra diversos pa\u00edses do mundo, a tentativa de reorganizar coercitivamente cadeias globais de produ\u00e7\u00e3o, as amea\u00e7as abertas de anexa\u00e7\u00e3o da Groenl\u00e2ndia e as reiteradas inger\u00eancias contra governos considerados \u201chostis\u201d demonstram que a l\u00f3gica imperial permanece viva. A pol\u00edtica externa estadunidense segue operando sob a ideia de que Washington possui legitimidade para disciplinar o sistema internacional e impor unilateralmente seus interesses estrat\u00e9gicos.<\/p>\n<p>Um caso particularmente ilustrativo \u00e9 o da Venezuela, cuja hist\u00f3ria recente evidencia ainda mais a seletividade das normas internacionais contempor\u00e2neas. Em 2026, os Estados Unidos realizaram uma opera\u00e7\u00e3o militar que resultou na captura e remo\u00e7\u00e3o do presidente Nicol\u00e1s Maduro e da primeira-dama Cilia Flores, transferindo-os para cust\u00f3dia norte-americana e, posteriormente, para Nova York, onde passaram a responder a acusa\u00e7\u00f5es criminais. Essa a\u00e7\u00e3o constituiu uma clara viola\u00e7\u00e3o da soberania nacional venezuelana e uma ruptura direta do direito internacional, na medida em que envolveu o uso unilateral da for\u00e7a em territ\u00f3rio de um Estado soberano, sem autoriza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas ou qualquer mandato jur\u00eddico internacionalmente reconhecido. Esse epis\u00f3dio foi acompanhado por debates mais amplos sobre a legalidade da opera\u00e7\u00e3o e suas implica\u00e7\u00f5es para o direito internacional, com parcelas significativas da comunidade internacional questionando sua compatibilidade com os princ\u00edpios fundamentais da Carta da ONU e com a soberania da Venezuela. Nesse contexto, at\u00e9 mesmo a discuss\u00e3o p\u00fablica nos Estados Unidos sobre a possibilidade de capturar e remover \u00e0 for\u00e7a Maduro do poder j\u00e1 sinalizava a normaliza\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas fundamentalmente incompat\u00edveis com os princ\u00edpios de soberania estatal quando aplicadas a pa\u00edses alvos da pol\u00edtica externa estadunidense.<\/p>\n<p>O caso de Israel \u00e9 igualmente revelador da seletividade moral do futebol global. Ao longo dos \u00faltimos anos, acumulam-se den\u00fancias de limpeza \u00e9tnica, apartheid, massacres contra civis palestinos, destrui\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de infraestrutura e assassinatos em massa em Gaza. Ainda assim, n\u00e3o h\u00e1 qualquer movimento efetivo da FIFA para suspender Israel de competi\u00e7\u00f5es internacionais.<\/p>\n<p>A contradi\u00e7\u00e3o torna-se evidente quando se compara a velocidade da puni\u00e7\u00e3o \u00e0 R\u00fassia com a complac\u00eancia diante da viol\u00eancia israelense. Isso demonstra que os crit\u00e9rios da FIFA n\u00e3o s\u00e3o universais, mas profundamente pol\u00edticos. Alguns Estados podem ser convertidos em p\u00e1rias internacionais; outros permanecem protegidos pela estrutura de alian\u00e7as e interesses da hegemonia ocidental.<\/p>\n<p>O futebol, nesse cen\u00e1rio, funciona como aparelho ideol\u00f3gico da ordem internacional. A narrativa da \u201cneutralidade esportiva\u201d \u00e9 utilizada seletivamente. Quando interessa ao bloco hegem\u00f4nico, esporte e pol\u00edtica se misturam rapidamente. Quando n\u00e3o interessa, invoca-se a autonomia esportiva para evitar puni\u00e7\u00f5es e preservar aliados estrat\u00e9gicos.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria Copa do Mundo FIFA 2026 simboliza essa contradi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. O torneio ser\u00e1 sediado pelos Estados Unidos, Canad\u00e1 e M\u00e9xico, mas inevitavelmente ter\u00e1 os EUA como centro pol\u00edtico e simb\u00f3lico do evento. A competi\u00e7\u00e3o ocorrer\u00e1 justamente num contexto de crise da hegemonia estadunidense, ascens\u00e3o chinesa, aprofundamento das disputas multipolares e crescente contesta\u00e7\u00e3o do poder ocidental no Sul Global.<\/p>\n<p>Em termos gramscianos, vive-se um momento de crise hegem\u00f4nica: \u201co velho est\u00e1 morrendo e o novo ainda n\u00e3o pode nascer\u201d. O endurecimento das san\u00e7\u00f5es, das guerras h\u00edbridas, das disputas narrativas e da instrumentaliza\u00e7\u00e3o do esporte revela exatamente esse processo. O poder dominante percebe o enfraquecimento relativo de sua capacidade de convencimento e, por isso, intensifica simultaneamente coer\u00e7\u00e3o e propaganda.<\/p>\n<p>A FIFA, longe de escapar dessa l\u00f3gica, integra-a. O futebol globalizado tornou-se parte da engrenagem do capitalismo internacional e das estruturas de poder do imperialismo contempor\u00e2neo. Sua governan\u00e7a reflete as assimetrias do sistema mundial.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significa defender guerras ou relativizar trag\u00e9dias humanas. Significa questionar por que algumas v\u00edtimas mobilizam indigna\u00e7\u00e3o universal imediata, enquanto outras permanecem invisibilizadas. Significa perguntar por que determinados Estados s\u00e3o punidos exemplarmente e outros seguem legitimados, premiados e celebrados.<\/p>\n<p>A suspens\u00e3o da R\u00fassia demonstrou que a FIFA \u00e9 plenamente capaz de agir politicamente quando deseja. Como j\u00e1 apontado publicamente por mim em 2022, desde o primeiro momento daquela decis\u00e3o, tratava-se de uma medida excepcional, sem precedentes no futebol internacional, dificilmente aplic\u00e1vel a pa\u00edses alinhados \u00e0 hegemonia ocidental. O desenrolar dos acontecimentos apenas refor\u00e7ou essa percep\u00e7\u00e3o. O sil\u00eancio diante de Israel, a naturaliza\u00e7\u00e3o do protagonismo dos EUA na Copa de 2026 e a pr\u00f3pria possibilidade de uma sele\u00e7\u00e3o classificada ser impedida de competir por restri\u00e7\u00f5es migrat\u00f3rias do pa\u00eds anfitri\u00e3o demonstram que o problema nunca foi a politiza\u00e7\u00e3o do esporte. O problema \u00e9 quem possui poder suficiente para definir quais viol\u00eancias importam e quais podem continuar sendo tratadas como normais.<\/p>\n<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Em 2022, expulsou a R\u00fassia da Copa. Mas nunca penalizou EUA e Israel. E permitiu at\u00e9 intimida\u00e7\u00f5es de Trump contra a sele\u00e7\u00e3o iraniana. Casos revelam: narrativa de autonomia esportiva s\u00f3 vale quando trata-se de defender aliados do Ocidente<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/geopoliticaeguerra\/fifa-e-a-geopolitica-colonialista-do-futebol\/\">Fifa e a geopol\u00edtica colonialista do futebol<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":89815,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[13812,2292,2700,4398,63541,61550,394,9,2796,227,325,5700,4102,1402,1115,10732,25,61031,726,54,1089,43,3132,3927,1453,1049,63542],"tags":[],"class_list":["post-89814","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-antonio-gramsci","category-canada","category-copa-do-mundo","category-crimes-de-guerra","category-crise-hegemonica","category-disputa-geopolitica","category-estados-unidos","category-eua","category-fifa","category-futebol","category-genocidio","category-geopolitica-guerra","category-guerra-tarifaria","category-guerras","category-imperialismo","category-injustica","category-israel","category-megaeventos","category-mexico","category-palestina","category-punicoes","category-russia","category-soberania-nacional","category-soft-power","category-trump","category-venezuela","category-violencias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/89814","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=89814"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/89814\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/89815"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=89814"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=89814"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=89814"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}