{"id":90042,"date":"2026-06-03T00:05:45","date_gmt":"2026-06-03T03:05:45","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/digna-raiva-combustivel-para-a-emancipacao\/"},"modified":"2026-06-03T00:05:45","modified_gmt":"2026-06-03T03:05:45","slug":"digna-raiva-combustivel-para-a-emancipacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/digna-raiva-combustivel-para-a-emancipacao\/","title":{"rendered":"Digna raiva, combust\u00edvel para a emancipa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"976\" height=\"549\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/109305886_gettyimages-1176889091.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/109305886_gettyimages-1176889091.jpg 976w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/109305886_gettyimages-1176889091-300x169.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/109305886_gettyimages-1176889091-768x432.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 976px) 100vw, 976px\"><figcaption>Foto: Getty Images<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<p><imgsrc=\"\" width=\"1\" height=\"1\" alt=\".\" border=\"0\">\n<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>Laura Quintana<\/strong> em entrevista a <strong>Thiago Gama<\/strong><\/p>\n<p>Laura Quintana\u00a0\u2014 a fil\u00f3sofa colombiana que o leitor brasileiro precisa conhecer \u2014 n\u00e3o \u00e9 ourives nem oleira. Mas faz, com os conceitos, exatamente o que os artes\u00e3os pr\u00e9-colombianos \u2014 Quimbaya, Muisca, Zen\u00fa \u2014 faziam com o metal e com a cer\u00e2mica a fim de fabricar \u00e2nforas inimit\u00e1veis: fundem sem derreter, criam ligas ins\u00f3litas e reparam o que estava quebrado com um fio mais nobre que a pe\u00e7a original.<\/p>\n<p>No caso de Laura, a pe\u00e7a que ela tenta reparar com a ourivesaria de sua filosofia e de sua atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica chama-se Col\u00f4mbia \u2014 um pa\u00eds que \u00e9, ao mesmo tempo, o Caribe mais azul, os Andes mais verdes, o Pac\u00edfico mais biodiverso e uma hist\u00f3ria de fraturas que parecem conden\u00e1-lo ao estilha\u00e7o.<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/14-1-3.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/14-1-3.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/14-1-300x110.png 300w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Enquanto a ultradireita que\u00a0empurra o pa\u00eds para o abismo de uma fratura definitiva, Laura desceu da c\u00e1tedra e subiu \u00e0 tribuna p\u00fablica.<\/p>\n<p>Publicou no site\u00a0<em>La Silla Vac\u00eda<\/em>\u00a0um artigo intitulado\u00a0<em>La decisi\u00f3n es por la coexistencia<\/em>, no qual declara seu apoio a\u00a0Iv\u00e1n Cepeda Castro\u00a0\u2014 um candidato que, em suas palavras, \u201caposta por uma economia que permita cumprir fins sociais e respeitar limites planet\u00e1rios\u201d, por \u201cum Estado social de direito que possa garantir uma vida digna para qualquer um\u201d, e que tem na f\u00f3rmula vice-presidencial a reconhecida lideran\u00e7a ind\u00edgena\u00a0Aida Quilcu\u00e9.\u00a0<\/p>\n<p>A obra que Laura construiu at\u00e9 aqui \u00e9 o lastro que sustenta esse gesto. Em\u00a0<em>Pol\u00edtica de los cuerpos: emancipaciones desde y m\u00e1s all\u00e1 de Ranci\u00e8re<\/em>\u00a0(Herder, 2020; traduzido ao ingl\u00eas pela Rowman &amp; Littlefield), ela mostrou que o corpo \u00e9 o ponto de partida para \u201coutros modos de produ\u00e7\u00e3o, de habitar e de sentir\u201d.<\/p>\n<p>Em\u00a0<em>Rabia: afectos, violencia, inmunidad<\/em>\u00a0(Herder, 2021), desmontou a ideia de que a raiva \u00e9 sempre destrutiva e revelou como os movimentos latino-americanos forjaram a\u00a0<em>digna raiva<\/em>\u00a0\u2014 um acirramento que n\u00e3o quer eliminar o outro, mas desmantelar as estruturas que tornam a vida indigna. Em\u00a0<em>Esos afectos voraces<\/em>\u00a0(Tusquets, 2022, com Catalina Cort\u00e9s-Severino), investigou os afetos em sua dimens\u00e3o devoradora e vinculante.<\/p>\n<p>Em\u00a0<em>Espacios afectivos<\/em>\u00a0(Herder, 2023, com Dami\u00e1n Pach\u00f3n), perguntou que territ\u00f3rios podemos construir quando os afetos s\u00e3o levados a s\u00e9rio. Em\u00a0<em>El tiempo que queda<\/em>\u00a0(Ariel, 2025), meditou sobre a finitude e a urg\u00eancia. E em\u00a0<em>Desde lo arruinado: recomposiciones del mundo entre el deseo y el da\u00f1o<\/em>\u00a0(Herder, 2026), o mais recente, parte da ru\u00edna \u2014 social, ecol\u00f3gica, subjetiva \u2014 para pensar as possibilidades de recomposi\u00e7\u00e3o que emergem quando corpos e territ\u00f3rios se aliam.<\/p>\n<p>A entrevista que publicamos a seguir foi realizada ao longo de maio de 2026, numa longa troca de e-mails. Laura n\u00e3o respondia apenas \u00e0s perguntas que preparei depois de uma longa investiga\u00e7\u00e3o sobre sua obra; ela retornava com mensagens que eram miniaulas e pedia opini\u00f5es.<\/p>\n<p>Senti que jamais o fez com soberba \u2014 ao contr\u00e1rio: o lado professora n\u00e3o desejava enviar um relat\u00f3rio de respostas acabadas, mas construir uma travessia conjunta. Foi o mesmo movimento que tr\u00eas entrevistadas anteriores j\u00e1 haviam realizado comigo: Donatella Di Cesare (It\u00e1lia), Nancy Fraser (EUA) e Sabrina Fernandes (Brasil).<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"\" alt=\"\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Laura Quintana se junta, agora, a este rol de pensadoras que plasmam com tinta no papel \u2014 ou teclam na tela de um computador \u2014 uma reflex\u00e3o real, e isto deve ser dito \u00e0 sociedade latino-americana.<\/p>\n<p>Como Laura Quintana \u00e9, por defini\u00e7\u00e3o, uma acad\u00eamica cosmopolita, creio que ela, ao ler esta entrevista em l\u00edngua portuguesa, dir\u00e1 a si mesma:\u00a0<em>\u201clindo leerse en otra lengua\u201d<\/em>.<\/p>\n<p><strong>Eis a entrevista<\/strong><\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"500\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/260602-Laura-Quintana.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/260602-Laura-Quintana.jpg 1000w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/260602-Laura-Quintana-300x150.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/260602-Laura-Quintana-768x384.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\"><\/figure>\n<p><strong>Em\u00a0<\/strong><em><strong>Pol\u00edtica dos corpos<\/strong><\/em><strong>, a senhora explora como os corpos s\u00e3o lugares de poder e de resist\u00eancia. No contexto do \u201ctecnofascismo\u201d e da governan\u00e7a algor\u00edtmica, como est\u00e3o se transformando as pol\u00edticas dos corpos? De que maneira o controle digital e a extra\u00e7\u00e3o de dados reconfiguram as possibilidades de emancipa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Antes de tudo, cabe uma precis\u00e3o sobre o que me interessou em\u00a0<em>Pol\u00edtica dos corpos<\/em>. Nesse livro, n\u00e3o se tratava apenas de explorar como os corpos s\u00e3o lugares de poder e de resist\u00eancia, mas de indagar de que modo tudo aquilo que constitui a pol\u00edtica (as ferramentas, as tecnologias, os dispositivos, as infraestruturas, os espa\u00e7os de rela\u00e7\u00e3o, as pr\u00e1ticas, os arranjos que criamos para organizar formas de habitar uns com os outros) incide e afeta a maneira como temos experi\u00eancia: o que sentimos, desejamos, compreendemos, imaginamos, como nos relacionamos espacial e temporalmente, e o modo como nos reconhecemos e nos configuramos como corpos. No fim das contas, cada corpo \u00e9 uma montagem (<em>ensamblaje<\/em>) de rela\u00e7\u00f5es emergidas na intera\u00e7\u00e3o entre condi\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas em devir, t\u00e9cnicas e rela\u00e7\u00f5es com materiais e outros seres vivos, em entornos ecol\u00f3gicos cambiantes.<\/p>\n<p>Nesse sentido, as institui\u00e7\u00f5es, as formas de poder e de domina\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m as pr\u00e1ticas de emancipa\u00e7\u00e3o, configuram formas de ter experi\u00eancia. Por isso, produzir transforma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, a partir dessa perspectiva, implica que se possam criar outros h\u00e1bitos corporais, outras maneiras de levar o dia a dia, mas tamb\u00e9m outras institui\u00e7\u00f5es e modos de produ\u00e7\u00e3o que incidam nas rela\u00e7\u00f5es entre os corpos e nas suas formas de habitar. Junto a isso, interessou-me reconhecer como podem ser revertidas as formas de domina\u00e7\u00e3o e de poder por meio de reconfigura\u00e7\u00f5es da experi\u00eancia, ou seja, mediante a cria\u00e7\u00e3o de outros lugares, outros modos de produ\u00e7\u00e3o, de habitar e de sentir, atrav\u00e9s dos quais os corpos podem criar formas de exist\u00eancia mais igualit\u00e1rias.<\/p>\n<p>Essas altera\u00e7\u00f5es emancipat\u00f3rias podem ocorrer porque as formas de poder e de domina\u00e7\u00e3o \u2014 uma vez que operam em rela\u00e7\u00f5es contingentes e em tramas (<em>entramados<\/em>) heterog\u00eaneas \u2014 n\u00e3o saturam por completo o campo de a\u00e7\u00e3o dos sujeitos nem seu horizonte de possibilidade, de modo que podem ser desviadas, intervencionadas aqui e ali, de maneiras imprevis\u00edveis, para possibilitar formas in\u00e9ditas de igualdade.<\/p>\n<p>Agora, passando \u00e0 segunda parte da pergunta, \u00e9 ineg\u00e1vel que, no contexto do capitalismo global, vivemos em regimes nos quais o poder econ\u00f4mico, pol\u00edtico e informativo est\u00e1 monopolizado por grandes conglomerados, sobretudo por corpora\u00e7\u00f5es financeiras e tecnol\u00f3gicas. De modo que, hoje em dia, vivemos mais em oligop\u00f3lios do que em democracias. Contudo, as corpora\u00e7\u00f5es n\u00e3o capturam meramente o Estado a partir de fora, mediante lobby ou financiamento, sen\u00e3o que tamb\u00e9m interv\u00eam diretamente em opera\u00e7\u00f5es que constituem as pr\u00f3prias formas de governar. Fazem-no atrav\u00e9s de infraestruturas de comunica\u00e7\u00e3o, de mobilidade, de aparatos financeiros e de vigil\u00e2ncia, de redes sociais, entre outras, que est\u00e3o mediadas por sistemas de informa\u00e7\u00e3o cujo funcionamento se encontra crescentemente organizado por dispositivos algor\u00edtmicos, sobre os quais as pessoas t\u00eam pouca ag\u00eancia. Em vez disso, sabe-se que esses dispositivos reproduzem fronteiras de visibilidade (por exemplo, sobre o que seja um problema, quais s\u00e3o os atores e considera\u00e7\u00f5es importantes), formas de identifica\u00e7\u00e3o (de comportamentos, condutas, eventos, danos), padr\u00f5es de reconhecimento (de sujeitos, popula\u00e7\u00f5es), marcadores de risco (de seguran\u00e7a, econ\u00f4micos, sanit\u00e1rios), mecanismos de acesso e de exclus\u00e3o (a cr\u00e9ditos, pol\u00edticas p\u00fablicas, benef\u00edcios, programas), previamente incorporados mediante decis\u00f5es (crit\u00e9rios institucionais, rela\u00e7\u00f5es de poder) que os orientam e que reiteram formas de estigmatiza\u00e7\u00e3o e de desigualdade.<\/p>\n<p>Essa satura\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia se torna mais aguda com a difus\u00e3o da intelig\u00eancia artificial. Uma tecnologia impulsionada por grandes corpora\u00e7\u00f5es, que est\u00e1 permeando extensiva e intensivamente n\u00e3o apenas opera\u00e7\u00f5es governamentais, como tamb\u00e9m lugares de estudo, pr\u00e1ticas laborais, intera\u00e7\u00f5es interpessoais, a tal ponto que pareceria que esses dispositivos est\u00e3o remodelando por completo a intelig\u00eancia humana; ao ponto de que esta poderia ficar capturada por opera\u00e7\u00f5es que despotencializam sua criatividade, sua capacidade de sentir o mundo e de reconhec\u00ea-lo a partir da experi\u00eancia corporal situada. De modo que, se esse fosse realmente o caso, se a satura\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia que descrevi brevemente acima se consumasse, os poderes econ\u00f4micos dominariam de maneira completa ou total, e pareceria que j\u00e1 n\u00e3o restariam espa\u00e7os para que pudessem surgir pr\u00e1ticas emancipat\u00f3rias capazes de reverter a ordem de coisas dada.<\/p>\n<p>Esse parece ser justamente o horizonte para o qual aponta o tecnofascismo, como vem sendo chamada uma forma de governar, impulsionada cada vez mais pelas elites corporativas que concentraram o poder econ\u00f4mico e pol\u00edtico global. Como argumentou Donatella di Cesare, esse regime busca substituir completamente a pol\u00edtica por formas de administra\u00e7\u00e3o que operam por meio de tecnologias digitais de vigil\u00e2ncia e extra\u00e7\u00e3o de dados, atrav\u00e9s das quais se busca a gest\u00e3o algor\u00edtmica das condutas, a antecipa\u00e7\u00e3o do risco e a produ\u00e7\u00e3o de sujeitos completamente monitorados, aos quais cabe decidir muito pouco. Essas formas de controle pretenderiam, ademais, remodelar as comunidades pol\u00edticas, em sua heterogeneidade, para produzir um\u00a0<em>etnos<\/em>\u00a0unit\u00e1rio e homog\u00eaneo, que \u2014 a partir de certas manifesta\u00e7\u00f5es do medo, do \u00f3dio e do ressentimento contra identidades previamente fixadas como indesej\u00e1veis \u2014 proteja-se da contamina\u00e7\u00e3o de todo elemento estranho que possa \u201camea\u00e7ar\u201d sua mesmidade.<\/p>\n<p>No entanto, ainda que vivamos em um mundo cada vez mais afetado por esses processos globais, estes n\u00e3o operaram da mesma maneira nem com a mesma intensidade em todos os territ\u00f3rios e sujeitos. N\u00e3o apenas nos lugares que parecem mais saturados restam sempre atores que se integram mal ou de maneira defeituosa a essas din\u00e2micas, e v\u00e3o gerando, em suas pr\u00e1ticas cotidianas, em suas formas de intera\u00e7\u00e3o corporal, mecanismos de resist\u00eancia, como tamb\u00e9m restam lugares onde essas tecnologias chegam mais lentamente e de forma mais irregular, nos quais tamb\u00e9m podem surgir desvios e revers\u00f5es. Vemos assim movimentos e organiza\u00e7\u00f5es que j\u00e1 v\u00eam alertando contra os riscos \u2014 ecol\u00f3gicos, para a liberdade de pensamento e express\u00e3o, para o dissenso e a igualdade \u2014 que trazem os sistemas de informa\u00e7\u00e3o contempor\u00e2neos, e o uso da IA, e a import\u00e2ncia de insistir em um conhecimento e em modos de produ\u00e7\u00e3o situados, atentos \u00e0 materialidade dos lugares e aos efeitos que toda interven\u00e7\u00e3o exerce sobre o mundo. Assim como pr\u00e1ticas que buscam usar essas tecnologias contra a l\u00f3gica da privatiza\u00e7\u00e3o da qual emergem, evitando, em todo caso, a sobredetermina\u00e7\u00e3o e o uso extensivo que estas est\u00e3o come\u00e7ando a gerar.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso dizer, igualmente, que as tend\u00eancias etnocr\u00e1ticas, vinculadas a projetos tecnofascistas, n\u00e3o se d\u00e3o da mesma forma em todos os espa\u00e7os, nem os desejos imunizantes (<em>inmunitarios<\/em>) de prote\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio contra identidades fixadas como amea\u00e7adoras operam necessariamente em chave \u00e9tnica (por exemplo, podem funcionar a partir de uma identidade de classe, ligada ao desejo de eliminar os pobres ou esquerdistas que amea\u00e7am as promessas de sucesso, propriedade e dinheiro). Em todo caso, em muitas partes do mundo onde v\u00eam se consolidando essas tend\u00eancias, n\u00e3o deixaram de surgir manifesta\u00e7\u00f5es de um\u00a0<em>demos<\/em>\u00a0que se resiste a ser tratado como\u00a0<em>etnos<\/em>, ou como identidade fixada e fechada, atrav\u00e9s de organiza\u00e7\u00f5es que lutam pelo comum, pelo p\u00fablico, pela igualdade e contra as formas de crueldade frente ao estrangeiro e ao marginalizado.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, de tempos para c\u00e1, v\u00eam surgindo pr\u00e1ticas de resist\u00eancia e reexist\u00eancia que confrontaram as formas de extra\u00e7\u00e3o de valor que o capital imp\u00f5e, ao contra-arrestar os dispositivos de abstra\u00e7\u00e3o do tempo e dos espa\u00e7os que este imp\u00f5e. Podemos pensar em organiza\u00e7\u00f5es que insistem na enorme explora\u00e7\u00e3o de recursos que as novas tecnologias exigem e em como estas, ao se apresentarem como desmaterializadas, escondem as formas de explora\u00e7\u00e3o territorial e corporal que sup\u00f5em. Podemos considerar lutas camponesas, ind\u00edgenas e afro em defesa do territ\u00f3rio; economias populares que resistem a din\u00e2micas de endividamento ligadas \u00e0 financeiriza\u00e7\u00e3o; coletivos que resistem \u00e0 especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria e afirmam o direito \u00e0 cidade; movimentos pelo car\u00e1ter comum da \u00e1gua; apostas (<em>apuestas<\/em>) por meios de informa\u00e7\u00e3o independentes, entre tantos outros.<\/p>\n<p>Em muitas dessas lutas, tamb\u00e9m esteve em jogo recha\u00e7ar mecanismos de desapropria\u00e7\u00e3o (<em>desposesi\u00f3n<\/em>) territorial e da ag\u00eancia que as interven\u00e7\u00f5es extrativistas geraram sobretudo no Sul global (entendido n\u00e3o meramente como lugar geogr\u00e1fico, mas como fronteira de poder), e questionar os marcadores de racializa\u00e7\u00e3o e de etniza\u00e7\u00e3o que ali v\u00eam operando em diversas formas de viol\u00eancia, por vezes intensificadas em pr\u00e1ticas necropol\u00edticas extremas como o genoc\u00eddio e a \u201climpeza \u00e9tnica\u201d.<\/p>\n<p>Certamente, essas pr\u00e1ticas de crueldade, assim como o monop\u00f3lio da informa\u00e7\u00e3o que os grandes conglomerados tecnol\u00f3gicos buscam alcan\u00e7ar, tentam aplacar por completo as formas de resist\u00eancia e, inclusive, erradicar a mem\u00f3ria de suas lutas, algo que se viu no caso do genoc\u00eddio palestino e na pretens\u00e3o de apagar n\u00e3o apenas os habitantes do lugar, mas tamb\u00e9m sua hist\u00f3ria e seu nome. Contudo, os testemunhos, de todo modo, permaneceram, os arquivos do horror tamb\u00e9m, e impulsionaram resist\u00eancias que, embora tenham se deparado com uma repress\u00e3o brutal, n\u00e3o deixaram de emergir.<\/p>\n<p>Considero, ent\u00e3o, que, ao refletir sobre essas condi\u00e7\u00f5es do presente, \u00e9 preciso fazer valer a heterogeneidade dos arranjos sociais, mas tamb\u00e9m as sedimenta\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas que operam nessas montagens (<em>ensamblajes<\/em>), de modo que, sem negar a singularidade das tecnologias de poder que hoje operam, e suas in\u00e9ditas tend\u00eancias \u201ctecnofascistas\u201d, se possam reconhecer condi\u00e7\u00f5es persistentes de domina\u00e7\u00e3o e de poder que atravessam as novas din\u00e2micas. Por exemplo, configura\u00e7\u00f5es imperiais associadas ao extrativismo, mecanismos de abstra\u00e7\u00e3o e de fetichiza\u00e7\u00e3o, pr\u00e1ticas de desapropria\u00e7\u00e3o e padr\u00f5es coloniais, fen\u00f4menos caracter\u00edsticos do capitalismo em sua hist\u00f3ria, que persistem nas viol\u00eancias sobre corpos e territ\u00f3rios que a governan\u00e7a corporativa vem impondo pelo mundo. Isso tamb\u00e9m \u00e9 fundamental para reconhecer como, em meio a tal complexidade, n\u00e3o deixaram de surgir alian\u00e7as entre corpos que apontam para fazer as coisas de outro modo, para gerar outras formas de ter experi\u00eancia com respeito \u00e0s impostas pelas formas de domina\u00e7\u00e3o contempor\u00e2neas.<\/p>\n<p><strong>Em\u00a0<\/strong><em><strong>Raiva: afetos, viol\u00eancia, imunidade<\/strong><\/em><strong>, a senhora distingue entre formas de raiva que intensificam a desigualdade e aquelas que a combatem. No Sul Global, onde a injusti\u00e7a estrutural gera uma raiva profunda, como os movimentos sociais podem canalizar essa raiva para pr\u00e1ticas emancipat\u00f3rias sem que seja cooptada pelo ressentimento autorit\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n<p>A raiva est\u00e1 fortemente emparentada com o ressentimento, a ira e o \u00f3dio. De fato, em suas diferen\u00e7as, os quatro poderiam ser entendidos como modula\u00e7\u00f5es do acirramento (<em>enardecimiento<\/em>): algo se acende no corpo e reage frente a um sofrimento que trunca as possibilidades vitais de um sujeito, e que este interpreta como algo ocasionado por outros e que n\u00e3o precisava ter acontecido. Por isso, a dor se entende aqui como um sofrimento que danifica: como um preju\u00edzo, assumido de acordo com valora\u00e7\u00f5es arraigadas.<\/p>\n<p>O ressentimento est\u00e1 fortemente vinculado \u00e0 mem\u00f3ria do dano. O \u00f3dio \u00e9 um acirramento que leva a querer eliminar aquilo que se identifica como causa de uma ofensa inaceit\u00e1vel. A raiva busca expressar-se de maneira vis\u00edvel diante de outros para denunciar o preju\u00edzo como uma injusti\u00e7a e exigir que seja reparada, de modo que uma exist\u00eancia possa ter melhores condi\u00e7\u00f5es no futuro.<\/p>\n<p>Dado que os afetos dependem de institui\u00e7\u00f5es que atravessam e moldam os corpos, suas sensibilidades e os espa\u00e7os que habitam, eles podem se manifestar de formas diferentes. Por isso, muda muito as coisas se o ressentimento se ata a pr\u00e1ticas de mem\u00f3ria que fixam o passado a uma \u00fanica interpreta\u00e7\u00e3o oficial, ou se vincula a leituras que n\u00e3o fecham o acontecido, mas o assumem como conflitivo e sempre em rela\u00e7\u00e3o com um presente em disputa e com possibilidades divergentes de porvir. Da mesma maneira, o \u00f3dio se modula de forma muito distinta quando se vincula a l\u00f3gicas dicot\u00f4micas que ensinam a dividir o mundo em dois, entre amigos e inimigos, e leva a perseguir identidades odi\u00e1veis, e quando se dirige contra institui\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas opressivas que se busca destruir ou desmantelar.<\/p>\n<p>Da mesma forma, muda muito as coisas se o dano, que a raiva reconhece, \u00e9 lido a partir de um esquema regido por um c\u00f3digo de honra, completamente hier\u00e1rquico e aristocr\u00e1tico, ou se \u00e9 compreendido a partir de um sistema ancorado na l\u00f3gica da compet\u00eancia e no m\u00e9rito pessoal, que abstrai das rela\u00e7\u00f5es de poder que gera e das desigualdades que normaliza. \u00c9 muito diferente tamb\u00e9m entender o dano a partir de uma ideia inquestionada de justi\u00e7a retributiva, acentuada por no\u00e7\u00f5es religiosas de culpa, muito punitivistas; ou compreender a injusti\u00e7a a partir de um pensamento cr\u00edtico atento a como os danos foram recaindo em particular sobre certos sujeitos e lugares.<\/p>\n<p>Poder-se-ia dizer, ent\u00e3o, que os acirramentos desigualit\u00e1rios respondem a l\u00f3gicas pouco relacionais, pois se baseiam na cria\u00e7\u00e3o de fronteiras (entre amigos\/inimigos, inocentes\/culpados, os que pertencem\/os que n\u00e3o; entre vidas privilegiadas\/vidas inferiorizadas), que geram formas de subordina\u00e7\u00e3o e resultam, portanto, excludentes. H\u00e1 tamb\u00e9m usos individualizantes e conformistas da raiva, que a abstraem das condi\u00e7\u00f5es sociais das quais emerge e que se limitam a manifestar o desejo de adquirir respeitabilidade em uma ordem hier\u00e1rquica que n\u00e3o se p\u00f5e em quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Em contrapartida, os usos igualit\u00e1rios da raiva permitem criar v\u00ednculos de solidariedade entre aqueles que padeceram efeitos de domina\u00e7\u00e3o, e os impele a question\u00e1-los, para recha\u00e7ar, com isso, todo o sistema de opress\u00e3o que os gerou, e buscar desmantel\u00e1-lo. O que \u00e9 crucial aqui \u00e9 que se possa produzir uma compreens\u00e3o relacional e cr\u00edtica do dano, ou seja, que este possa ligar-se a condi\u00e7\u00f5es de um mundo que se reconhece como comum e que, ent\u00e3o, se busca habitar com outros, em p\u00e9 de igualdade. Junto a isso, \u00e9 fundamental que se possa dar uma modula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do acirramento, que permita organiz\u00e1-lo coletivamente para transformar as condi\u00e7\u00f5es que deram lugar \u00e0 injusti\u00e7a. Algo que, como analisei em diversos lugares, diversos movimentos populares na Am\u00e9rica Latina fizeram valer com a no\u00e7\u00e3o de \u201cdigna raiva\u201d (<em>digna rabia<\/em>). Um acirramento que, contra as formas de explora\u00e7\u00e3o e subordina\u00e7\u00e3o da matriz imperial-capitalista-colonial de poder, reclama as condi\u00e7\u00f5es materiais para que seja poss\u00edvel uma vida digna para qualquer pessoa: uma vida que as pessoas possam organizar para si e decidir; uma vida experimentada em condi\u00e7\u00f5es de igualdade e de sustentabilidade.<\/p>\n<p><strong>A senhora coordenou o livro\u00a0<\/strong><em><strong>Neoliberal Techniques of Social Suffering<\/strong><\/em><strong>. Na Am\u00e9rica Latina, as pol\u00edticas neoliberais causaram um profundo sofrimento social. Como a filosofia pol\u00edtica pode contribuir para visibilizar e resistir a essas t\u00e9cnicas, especialmente diante do auge da extrema direita?<\/strong><\/p>\n<p>Com a no\u00e7\u00e3o de sofrimento social, alude-se a efeitos de dano que trouxeram dolorosas formas de precariza\u00e7\u00e3o, abandono social programado, morte lenta, endividamento das pessoas, desenhados por pol\u00edticas e programas que apostaram na continuidade do projeto de acumula\u00e7\u00e3o do capital, ou seja, em seguir aumentando a riqueza privada \u00e0 custa da redu\u00e7\u00e3o da riqueza p\u00fablica. Foi o que sucedeu com medidas neoliberais que trouxeram consigo a privatiza\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os e bens p\u00fablicos; a inseguran\u00e7a nas condi\u00e7\u00f5es laborais; a desindustrializa\u00e7\u00e3o. E que apresentaram o desmantelamento de pol\u00edticas p\u00fablicas, protecionistas e redistributivas como a\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias, mais ainda como sacrif\u00edcios para assegurar a ordem e a estabilidade de um sistema cada vez mais estendido e desigualit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Ora, o que nos interessou argumentar nesse volume \u00e9 que essas formas de sofrimento social s\u00e3o transformadas pelo neoliberalismo em assuntos individuais que devem ser abordados mediante discursos de autorresponsabiliza\u00e7\u00e3o, formas de endividamento para a sobreviv\u00eancia individual e pr\u00e1ticas de \u201cempoderamento\u201d atrav\u00e9s da forma\u00e7\u00e3o cont\u00ednua e da competitividade. Trata-se de dispositivos que deixam os sujeitos com a sensa\u00e7\u00e3o de serem os \u00fanicos respons\u00e1veis por suas condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias de vida. De modo que, por esse caminho, as quest\u00f5es sociais s\u00e3o despolitizadas e suas condi\u00e7\u00f5es materiais ficam obscurecidas, como se fossem meras manifesta\u00e7\u00f5es pessoais e inclusive patologias: uma experi\u00eancia de dano que cada indiv\u00edduo deve enfrentar em meio a circunst\u00e2ncias opacas, divergentes e amb\u00edguas. Assim, interessou-nos mostrar que o neoliberalismo requer o sofrimento social para operar, enquanto nega esse dano, ao reduzi-lo a uma dimens\u00e3o individual ou a uma mera externalidade, que excederia os c\u00e1lculos de custos e benef\u00edcios da contabilidade corporativa, e pelos quais n\u00e3o assume responsabilidade.<\/p>\n<p>A (ultra)direita nega todas essas condi\u00e7\u00f5es e efeitos, ao apresent\u00e1-los como eventos necess\u00e1rios que t\u00eam de acontecer, ao abstra\u00ed-los das tramas sociais nas quais operam, ao fetichiz\u00e1-los como coisas dadas, separadas dos processos de explora\u00e7\u00e3o corporal e territorial que sup\u00f5em, ao legitim\u00e1-los com sacrif\u00edcios necess\u00e1rios para cumprir promessas de bem-estar que sempre se adiam para as maiorias, enquanto geram um mundo cada vez mais devastado social e ecologicamente.<\/p>\n<p>Uma filosofia cr\u00edtica e atenta \u00e0 conting\u00eancia pode contribuir para contra-arrestar essas tend\u00eancias, ao desnaturalizar seus pressupostos, ao p\u00f4r a descoberto sua arbitrariedade e os efeitos t\u00e3o destrutivos que trazem. Mas tamb\u00e9m ao se pensar em alian\u00e7a com esfor\u00e7os corporais concretos que est\u00e3o resistindo aos dispositivos de despojo (<em>despojo<\/em>) e de morte, e propondo pr\u00e1ticas econ\u00f4micas diferentes, n\u00e3o centradas no lucro, nem na valoriza\u00e7\u00e3o do capital.<\/p>\n<p><strong>A senhora investigou como os movimentos sociais produzem subjetividades pol\u00edticas. Na Col\u00f4mbia e no Brasil, os movimentos ind\u00edgenas, afrodescendentes e feministas desafiam a ordem neoliberal. Que li\u00e7\u00f5es podem ser extra\u00eddas dessas lutas para a constru\u00e7\u00e3o de um internacionalismo desde baixo?<\/strong><\/p>\n<p>Ao vincular movimentos sociais igualit\u00e1rios com formas de subjetiva\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, interessou-me p\u00f4r em quest\u00e3o uma s\u00e9rie de interpreta\u00e7\u00f5es sobre os movimentos sociais que t\u00eam sido influentes, mas que, muitas vezes, impedem de compreender o car\u00e1ter criativo-experimental e os efeitos dissensuais daqueles. Em particular, trata-se de confrontar a vis\u00e3o segundo a qual tais movimentos s\u00e3o somente formas de interven\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica que t\u00eam por objetivo incluir um determinado grupo exclu\u00eddo no sistema pol\u00edtico estabelecido, para lograr seu reconhecimento dentro de uma ordem institucional dada. Esse tipo de aproxima\u00e7\u00e3o perde de vista a capacidade das a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas emancipat\u00f3rias para criar demandas e propostas que n\u00e3o fazem sentido nas formas institucionais estabelecidas, e como essas pr\u00e1ticas exigem transformar os crit\u00e9rios de uma ordem que, precisamente, produziu a marginaliza\u00e7\u00e3o que contestam. Assim, podem desafiar marcos normativos e culturais com not\u00e1veis efeitos materiais, para propor outros arranjos normativos e institucionais.<\/p>\n<p>Mais ainda, a partir dessa perspectiva, os movimentos sociais igualit\u00e1rios podem confrontar formas de poder que configuram a experi\u00eancia cotidiana dos corpos, seus espa\u00e7os \u00edntimos, seus modos de habitar o territ\u00f3rio, mas tamb\u00e9m as formas de organiza\u00e7\u00e3o local e nacional, bem como as pr\u00e1ticas de gest\u00e3o econ\u00f4mica e de participa\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica. Por isso, n\u00e3o se trata apenas de pr\u00e1ticas antag\u00f4nicas, mas de processos de reconfigura\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia que partem dos territ\u00f3rios e podem ir criando articula\u00e7\u00f5es de cima para baixo e transversalmente. [Nota da tradu\u00e7\u00e3o: o original espanhol diz \u201cde arriba hacia abajo\u201d, literalmente \u201cde cima para baixo\u201d. O contexto sugere um prov\u00e1vel lapso da autora, que parece descrever articula\u00e7\u00f5es que partem dos territ\u00f3rios e se expandem \u201cde baixo para cima\u201d. Mantivemos a literalidade e registramos aqui a poss\u00edvel contradi\u00e7\u00e3o.]<\/p>\n<p>Certamente, nos movimentos sociais contempor\u00e2neos igualit\u00e1rios, uma preocupa\u00e7\u00e3o de primeira ordem \u00e9 lutar contra a degrada\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica e social que os projetos de crescimento da riqueza em prol da acumula\u00e7\u00e3o do capital, e suas formas de privatiza\u00e7\u00e3o, v\u00eam impondo pelo mundo. Trata-se de uma preocupa\u00e7\u00e3o estendida, porque n\u00e3o h\u00e1 lugares que n\u00e3o estejam afetados pela corros\u00e3o de suas redes vitais e pelas din\u00e2micas corporativas globais que intensificaram tal eros\u00e3o. Da\u00ed que as pr\u00e1ticas desses movimentos estejam apostando (<em>apostando<\/em>) em construir metodologias e projetos para criar o comum entre territ\u00f3rios municipais e nacionais diversos, atrav\u00e9s das quais buscam tornar-se copart\u00edcipes e correspons\u00e1veis de um mundo compartilhado no qual buscam coexistir.<\/p>\n<p>Aqui est\u00e1 em jogo a aposta (<em>apuesta<\/em>) por construir formas de globalismo desde baixo, para diz\u00ea-lo com o ge\u00f3grafo brasileiro Milton Santos, desdobrada ao tecer redes entre organiza\u00e7\u00f5es e movimentos em diferentes escalas. Poder\u00edamos pensar \u2014 para concretiz\u00e1-lo \u2014 em uma organiza\u00e7\u00e3o como a \u201cVia Campesina\u201d, \u00e0 qual aludi em meu \u00faltimo livro (<em>Desde lo arruinado<\/em>). A \u201cVia Campesina\u201d \u00e9 um movimento composto por cerca de 182 organiza\u00e7\u00f5es em 81 pa\u00edses do mundo, que se articularam transversalmente a partir de suas diferen\u00e7as geogr\u00e1ficas, hist\u00f3ricas e de valores, para defender a persist\u00eancia das pr\u00e1ticas territorializadas de agricultores que trabalham parcelas pequenas, em sua maioria de menos de dois hectares, e com m\u00e9todos de baixo impacto ambiental.<\/p>\n<p>Esse movimento elaborou uma compreens\u00e3o da vida digna que se imagina universalizante, pois pretende ser estendida a qualquer trama bi\u00f3tica e abi\u00f3tica, em suas intera\u00e7\u00f5es. E est\u00e1 estreitamente ligada \u00e0 ideia de \u201csoberania alimentar\u201d. Uma no\u00e7\u00e3o que, como se sabe, exige desenvolver pr\u00e1ticas de agricultura em pequena escala e sustent\u00e1veis, ao mesmo tempo que enfatiza a produ\u00e7\u00e3o local, o uso de sementes nativas e a produ\u00e7\u00e3o de alimentos nutritivos e pouco contaminantes. Ademais, a soberania alimentar reclama modos de fazer ligados ao conhecimento dos solos, dos climas, da rota\u00e7\u00e3o de cultivos, formas de consumo respons\u00e1vel, que velam tamb\u00e9m pela biodiversidade; compreens\u00f5es preventivas da sa\u00fade, pol\u00edticas distributivas que lutam contra a fome e a desnutri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Poder\u00edamos dizer, ent\u00e3o, que um movimento internacionalista desde baixo como a \u201cVia Campesina\u201d reconhece que a luta pela igualdade e pela habitabilidade do mundo n\u00e3o pode separar-se de quest\u00f5es t\u00e3o materiais e cotidianas como a comida. Pois todo o sistema de produ\u00e7\u00e3o de alimentos ficou preso pela matriz imperial de poder, e isso afeta cada uma das dimens\u00f5es da exist\u00eancia: a sa\u00fade dos solos, dos corpos e sua sustentabilidade no tempo. Assim, com essa no\u00e7\u00e3o relacional, busca-se enfrentar simultaneamente os desafios vinculados \u00e0 precariza\u00e7\u00e3o social e \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica em suas conex\u00f5es, com o objetivo de desativar as din\u00e2micas erosivas que o capitalismo desencadeou em n\u00edvel global. E isso exige tamb\u00e9m uma cr\u00edtica do patriarcado, na medida em que este tamb\u00e9m justificou espremer as for\u00e7as reprodutivas e regenerativas que sustentam a vida. Por isso, a soberania alimentar exige uma sociedade que recuse toda forma de discrimina\u00e7\u00e3o \u2014 de casta, classe, ra\u00e7a e g\u00eanero, em seus entrecruzamentos interseccionais.<\/p>\n<p><strong>A senhora contribuiu significativamente para o pensamento feminista. Como um feminismo dos 99% \u2014 em di\u00e1logo com Cinzia Arruzza e Nancy Fraser \u2014 pode articular-se com as pol\u00edticas dos afetos na Am\u00e9rica Latina, especialmente na defesa do territ\u00f3rio na regi\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Em primeiro lugar, um esclarecimento sobre onde me situo na discuss\u00e3o sobre os afetos. O que me interessa, ao insistir nessa no\u00e7\u00e3o, \u00e9 fazer valer uma abordagem relacional que considera como os espa\u00e7os, os arranjos temporais, as institui\u00e7\u00f5es, as tecnologias se afetam mutuamente e afetam aqueles que as habitam. Os afetos se referem, ent\u00e3o, a esses efeitos e a como s\u00e3o incorporados, a como se espacializam e se distribuem, organizando a experi\u00eancia.<\/p>\n<p>A partir dessa perspectiva relacional, n\u00e3o faz sentido dizer que h\u00e1 afetos em si mesmos bons e maus, porque tudo depende dos efeitos em uma determinada trama de rela\u00e7\u00f5es e dos campos de for\u00e7a que geram. Contudo, pode-se dizer que h\u00e1 afetos que podem tornar-se corrosivos e pouco vitais, ainda que essa condi\u00e7\u00e3o seja inst\u00e1vel e n\u00e3o possa ser considerada nunca como definitiva. Se a vida \u00e9 relacional, hist\u00f3rica e complexa, s\u00e3o nocivos para a exist\u00eancia os afetos que negam essas condi\u00e7\u00f5es, que impedem um sujeito de transformar o que o danifica, que o tornam impotente, isto \u00e9, incapaz de assumir as rela\u00e7\u00f5es que habita e de sustent\u00e1-las. Por exemplo, desejos de controle e dom\u00ednio que produzem a destrui\u00e7\u00e3o de redes vitais, ou ideais de bem-estar econ\u00f4mico que negam a capacidade e o desejo \u00e0queles que n\u00e3o correspondem a seus valores, enquanto consomem, com suas exig\u00eancias, aqueles que os sentem, entre outros.<\/p>\n<p>Ora, compartilho com uma vertente importante do feminismo contempor\u00e2neo a ideia segundo a qual cultivar tramas sociais e afetos mais vitais sup\u00f5e desdobrar uma racionalidade relacional centrada no cuidado. Entendo que este se refere, em sentido amplo, a todas as pr\u00e1ticas que permitem sustentar a coexist\u00eancia em um territ\u00f3rio. De modo que me sinto pr\u00f3xima de aproxima\u00e7\u00f5es feministas que insistiram em socializar o trabalho de cuidado, e em que as mulheres deveriam ter igual acesso \u00e0 terra e aos recursos produtivos, como algo central para lutar contra a divis\u00e3o sexual do trabalho, ao mesmo tempo que p\u00f5em no centro as pr\u00e1ticas que permitem coabitar um lugar de maneira sustent\u00e1vel. Aqui est\u00e1 em jogo, como argumentei em meu \u00faltimo livro, desmontar a diferencia\u00e7\u00e3o entre produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o, e democratizar as diversas atividades que sustentam a vida, como algo fundamental para democratizar a sociedade em geral. Aposta-se (<em>Se apuesta<\/em>), assim, por toda uma transforma\u00e7\u00e3o da vida afetiva e sensorial, que p\u00f5e de manifesto como resistir verdadeiramente ao imp\u00e9rio militar-industrial corporativo que hoje nos domina exige \u201cmudar tudo\u201d (Gago).<\/p>\n<p>Uma revolu\u00e7\u00e3o sens\u00edvel que a pot\u00eancia feminista, para diz\u00ea-lo com a fil\u00f3sofa argentina Ver\u00f3nica Gago, j\u00e1 est\u00e1 impulsionando por toda parte. Vem fazendo-o ao revelar o v\u00ednculo indissol\u00favel entre produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o, ao entrela\u00e7ar todos os modos de produ\u00e7\u00e3o de valor e suas formas de explora\u00e7\u00e3o e extra\u00e7\u00e3o, atravessadas pelas tramas de domina\u00e7\u00e3o geradas entre classe, g\u00eanero e ra\u00e7a; ao demonstrar que a viol\u00eancia dom\u00e9stica n\u00e3o pode ser desvinculada da viol\u00eancia econ\u00f4mica, laboral, institucional, policial, racista e colonial; ao p\u00f4r em evid\u00eancia que a viol\u00eancia machista e feminicida se conecta com as formas atuais de acumula\u00e7\u00e3o de capital e com a viol\u00eancia da d\u00edvida; ao visibilizar a continuidade entre corpos e territ\u00f3rios, e o v\u00ednculo entre a destrui\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica e social. E ao abrir, enfim, caminhos para transformar as formas de viver, por meio de pr\u00e1ticas de experimenta\u00e7\u00e3o que j\u00e1 est\u00e3o reconfigurando o dado.<\/p>\n<p>Laura Quintana \u00e9 professora titular do Departamento de Filosofia da Universidad de los Andes (Col\u00f4mbia). Entre seus livros encontram-se: Pol\u00edtica de los cuerpos: emancipaciones desde y m\u00e1s all\u00e1 de Ranci\u00e8re. Barcelona: Herder (2020), traduzido para o ingl\u00eas pela editora Rowman &amp; Littlefield (2020) na s\u00e9rie \u201cReinventing Critical Theory\u201d; Rabia: afectos, violencia, inmunidad. Barcelona: Herder (2021); Esos afectos voraces (em coautoria com Catalina Cort\u00e9s-Severino). Tusquets (2022); Espacios afectivos (em di\u00e1logo com Dami\u00e1n Pach\u00f3n). Barcelona: Herder (2023); El tiempo que queda. Ariel (2025); Desde lo arruinado: recomposiciones del mundo entre el deseo y el da\u00f1o. Barcelona: Herder (2026).<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. Se voc\u00ea valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o, seja nosso apoiador e fortale\u00e7a o jornalismo cr\u00edtico: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post &lt;i&gt;Digna raiva&lt;\/i&gt;, combust\u00edvel para a emancipa\u00e7\u00e3o appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/pequim-recebe-exposicao-o-brasil-de-portinari-primeira-grande-mostra-do-artista-na-asia\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Pequim recebe exposi\u00e7\u00e3o \u2018O Brasil de Portinari\u2019, p...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/zelensky-diz-que-pode-fornecer-ajuda-de-especialistas-ucranianos-no-combate-a-drones-do-ira\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Zelensky diz que pode fornecer ajuda de especialis...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/alta-do-lucro-das-distribuidoras-impede-reducao-no-preco-da-gasolina\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Alta do lucro das distribuidoras impede redu\u00e7\u00e3o no...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/dez-anos-depois-naufragio-que-matou-5-mil-bois-ainda-afeta-comunidades-no-para\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Navio-Haidar-150x150.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Dez anos depois, naufr\u00e1gio que matou 5 mil bois ai...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fil\u00f3sofa colombiana provoca: se o corpo \u00e9 base para \u201coutros modos de produ\u00e7\u00e3o, de habitar e de sentir\u201d, como o tecnofascismo tenta coloniz\u00e1-lo? Por que a indigna\u00e7\u00e3o \u00e9 afeto coletivo libert\u00e1rio, se canalizada pela compreens\u00e3o cr\u00edtica dos perdas sofridas?<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/descolonizacoes\/digna-raiva-combustivel-para-a-emancipacao\/\">&lt;i&gt;Digna raiva&lt;\/i&gt;, combust\u00edvel para a emancipa\u00e7\u00e3o<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":90043,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[5599,63961,63962,63963,63964,63965,18318],"tags":[],"class_list":["post-90042","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-descolonizacoes","category-laura-quintana","category-lutas-feministas","category-politica-dos-afetos","category-politicas-dos-corpos","category-resistencias-no-sul","category-tecnofascismo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/90042","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=90042"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/90042\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/90043"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=90042"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=90042"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=90042"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}