{"id":90061,"date":"2026-06-02T17:58:13","date_gmt":"2026-06-02T20:58:13","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/por-que-os-portugueses-vao-a-greve-geral\/"},"modified":"2026-06-02T17:58:13","modified_gmt":"2026-06-02T20:58:13","slug":"por-que-os-portugueses-vao-a-greve-geral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/por-que-os-portugueses-vao-a-greve-geral\/","title":{"rendered":"Por que os portugueses v\u00e3o \u00e0 greve geral"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1109\" height=\"624\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_4969732114932763579_y3.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_4969732114932763579_y3.jpg 1109w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_4969732114932763579_y3-300x169.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_4969732114932763579_y3-768x432.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1109px) 100vw, 1109px\"><figcaption>Foto: Georg Moritz\/Getty Images<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<p><imgsrc=\"\" width=\"1\" height=\"1\" alt=\".\" border=\"0\">\n<\/div>\n<\/div>\n<p>A ofensiva contempor\u00e2nea do capital contra o trabalho n\u00e3o conhece fronteiras. Em meio \u00e0 crise estrutural do capitalismo, multiplicam-se estrat\u00e9gias de reorganiza\u00e7\u00e3o produtiva destinadas a restaurar as condi\u00e7\u00f5es de acumula\u00e7\u00e3o por meio da eros\u00e3o de direitos sociais e trabalhistas. O que hoje se desenha em Portugal n\u00e3o representa uma exce\u00e7\u00e3o, mas uma nova express\u00e3o de uma racionalidade neoliberal j\u00e1 experimentada em outros pa\u00edses \u2014 entre eles o Brasil, onde a contrarreforma trabalhista de 2017 aprofundou a precariza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es laborais e fragilizou mecanismos hist\u00f3ricos de prote\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Sob o vocabul\u00e1rio sedutor da \u201cmoderniza\u00e7\u00e3o\u201d, da \u201cflexibiliza\u00e7\u00e3o\u201d e da adapta\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, reaparece um velho movimento de desregulamenta\u00e7\u00e3o do trabalho. A l\u00f3gica \u00e9 conhecida: transferir riscos econ\u00f4micos para trabalhadores e trabalhadoras, ampliar a disponibilidade da for\u00e7a de trabalho e intensificar a explora\u00e7\u00e3o sob o argumento da efici\u00eancia e da competitividade. O laborat\u00f3rio social da precariza\u00e7\u00e3o experimentado no Brasil p\u00f3s-Golpe 2016 ressurge agora em Portugal sob outra forma, mas preservando a mesma gram\u00e1tica pol\u00edtica de desmonte de direitos. \u00c9 nesse contexto que o governo portugu\u00eas apresentou o anteprojeto \u201cTrabalho XXI\u201d, como resposta supostamente inevit\u00e1vel \u00e0s exig\u00eancias da chamada \u201cEconomia 4.0\u201d, um <em>cavalo de Troia<\/em> travestido de atualiza\u00e7\u00e3o civilizacional.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que aquilo que se anuncia como atualiza\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica opera, na pr\u00e1tica, como regress\u00e3o social. O anteprojeto reorganiza as rela\u00e7\u00f5es laborais em favor do patronato, amplia mecanismos de flexibiliza\u00e7\u00e3o contratual, enfraquece dispositivos de prote\u00e7\u00e3o coletiva e aprofunda a vulnerabilidade dos trabalhadores de plataformas digitais. A tecnologia deixa de aparecer como promessa emancipat\u00f3ria para funcionar como instrumento ideol\u00f3gico de legitima\u00e7\u00e3o da precariza\u00e7\u00e3o, acelerando a eros\u00e3o de limites historicamente impostos ao poder do capital sobre o tempo e a vida da classe trabalhadora.<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/15-3.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/15-3.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/15-300x110.png 300w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Portugal vive, nesse sentido, um momento revelador das contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo contempor\u00e2neo. N\u00e3o se trata de um ajuste conjuntural, mas de uma ofensiva articulada entre neoliberalismo, financeiriza\u00e7\u00e3o e avan\u00e7o das direitas no Norte Global. O eixo comum desse processo \u00e9 a recomposi\u00e7\u00e3o das taxas de lucro por meio da deteriora\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida e trabalho. O \u201cTrabalho XXI\u201d emerge, portanto, como pe\u00e7a estrat\u00e9gica de uma transforma\u00e7\u00e3o mais ampla do mercado laboral portugu\u00eas. A pr\u00f3pria Exposi\u00e7\u00e3o de Motivos do anteprojeto evidencia essa arquitetura ideol\u00f3gica. Ao afirmar que pretende tornar Portugal \u201cmais justo e solid\u00e1rio\u201d ao mesmo tempo em que promove \u201ccompetitividade\u201d, \u201cprodutividade\u201d e \u201ccria\u00e7\u00e3o de riqueza\u201d, o documento mobiliza um l\u00e9xico que naturaliza interesses empresariais como se fossem interesses universais. Sob a apar\u00eancia de neutralidade t\u00e9cnica, esconde-se um processo de flexibiliza\u00e7\u00e3o de direitos historicamente conquistados e de amplia\u00e7\u00e3o do poder patronal sobre as rela\u00e7\u00f5es de trabalho.<\/p>\n<p>Essa l\u00f3gica se materializa em tr\u00eas movimentos principais. O primeiro \u00e9 a transforma\u00e7\u00e3o da produtividade em fetiche econ\u00f4mico. Governo e associa\u00e7\u00f5es empresariais sustentam que a retirada de direitos estimularia crescimento e efici\u00eancia, embora n\u00e3o existam evid\u00eancias consistentes de que a precariza\u00e7\u00e3o produza ganhos estruturais de produtividade. Na pr\u00e1tica, busca-se recompor margens de rentabilidade pela redu\u00e7\u00e3o do custo do trabalho.<\/p>\n<p>O segundo movimento incide diretamente sobre o tempo. A flexibiliza\u00e7\u00e3o das jornadas e a amplia\u00e7\u00e3o do banco de horas individual aprofundam a captura do tempo social pelo capital, subordinando ritmos biol\u00f3gicos, afetivos e familiares \u00e0s necessidades da acumula\u00e7\u00e3o. A promessa de \u201cacordo direto\u201d entre trabalhador e empregador aparece como fic\u00e7\u00e3o jur\u00eddica num contexto que n\u00e3o promove autonomia, mas um deslocamento do conflito para uma esfera individualizada onde a assimetria de poder j\u00e1 est\u00e1 dada de antem\u00e3o.<\/p>\n<p>O terceiro movimento se materializa na consolida\u00e7\u00e3o da uberiza\u00e7\u00e3o. O trabalho em plataformas digitais tornou-se um laborat\u00f3rio privilegiado da precariza\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea, no qual algoritmos substituem media\u00e7\u00f5es institucionais e trabalhadores passam a ser permanentemente monitorados, avaliados e descartados segundo crit\u00e9rios opacos de desempenho.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, Portugal havia ensaiado mecanismos de conten\u00e7\u00e3o dessa din\u00e2mica. A cria\u00e7\u00e3o do Artigo 12.\u00ba-A, em 2023, buscou adaptar a no\u00e7\u00e3o de subordina\u00e7\u00e3o jur\u00eddica ao universo das plataformas digitais, permitindo o reconhecimento do v\u00ednculo de emprego entre motoristas, entregadores e empresas do setor. O avan\u00e7o aproximava o pa\u00eds de uma tend\u00eancia mais ampla da Uni\u00e3o Europeia, refor\u00e7ada pela Diretiva 2024\/2831, que prev\u00ea mecanismos de reconhecimento do v\u00ednculo laboral nas plataformas at\u00e9 2026. Esse terreno, por\u00e9m, rapidamente se tornou espa\u00e7o de disputa pol\u00edtica intensa. Pressionados por grandes empresas e pela ascens\u00e3o das direitas europeias, governos passaram a defender formas de flexibiliza\u00e7\u00e3o capazes de esvaziar essas conquistas. Em Portugal, o governo de Lu\u00eds Montenegro avan\u00e7a com propostas que incluem amplia\u00e7\u00e3o dos contratos tempor\u00e1rios, facilita\u00e7\u00e3o dos despedimentos, fortalecimento da terceiriza\u00e7\u00e3o, enfraquecimento da negocia\u00e7\u00e3o coletiva e restri\u00e7\u00f5es ao direito de greve.<\/p>\n<p>No caso espec\u00edfico do trabalho plataformizado, o n\u00facleo da reforma consiste em enfraquecer os mecanismos de reconhecimento do v\u00ednculo laboral, sobretudo por meio do esvaziamento pr\u00e1tico do Artigo 12.\u00ba-A. Embora resist\u00eancias sindicais e mobiliza\u00e7\u00f5es sociais tenham imposto recuos pontuais, o eixo estrutural da proposta permanece intacto. O conflito em torno do \u201cTrabalho XXI\u201d, portanto, ultrapassa a dimens\u00e3o nacional e se inscreve numa disputa mais ampla sobre o futuro do trabalho na Europa.<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio, o discurso oficial sustenta a reforma por meio de uma invers\u00e3o recorrente: aquilo que representa regress\u00e3o social \u00e9 apresentado como moderniza\u00e7\u00e3o inevit\u00e1vel. A adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 \u201cEconomia 4.0\u201d aparece como imperativo t\u00e9cnico incontorn\u00e1vel, como se as transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas carregassem automaticamente um sentido progressista. A hist\u00f3ria do capitalismo mostra justamente o contr\u00e1rio. Cada salto t\u00e9cnico reorganiza as formas de explora\u00e7\u00e3o e frequentemente aprofunda desigualdades sob novas linguagens de legitimidade.<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/HUCITEC-basaglia5.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/HUCITEC-basaglia5.png 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/HUCITEC-basaglia5-300x37.png 300w\" sizes=\"(max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Essa naturaliza\u00e7\u00e3o se torna ainda mais evidente quando o projeto ignora problemas concretos da realidade laboral portuguesa, como ass\u00e9dio moral, acidentes de trabalho e adoecimento profissional. Ao mesmo tempo, mant\u00e9m-se a contradi\u00e7\u00e3o estrutural de um pa\u00eds que depende fortemente da for\u00e7a de trabalho imigrante \u2014 especialmente nas plataformas digitais \u2014 enquanto produz regimes seletivos de cidadania que empurram esses trabalhadores para zonas permanentes de vulnerabilidade social e jur\u00eddica.<\/p>\n<p>O governo portugu\u00eas argumenta que a reforma responde \u00e0 crise dos modelos tradicionais de trabalho diante das transforma\u00e7\u00f5es digitais. \u00c9 verdade que o capitalismo de plataformas reorganiza profundamente o mundo laboral, criando estruturas descentralizadas mediadas por algoritmos e dispositivos digitais. \u00c0 luz de Marx, por\u00e9m, essas mudan\u00e7as expressam o car\u00e1ter contradit\u00f3rio do capital: ao mesmo tempo em que dissolve formas anteriores de organiza\u00e7\u00e3o produtiva, cria novos mecanismos de controle e explora\u00e7\u00e3o. Essa din\u00e2mica n\u00e3o \u00e9 apenas econ\u00f4mica. Ela tamb\u00e9m produz inseguran\u00e7a, ansiedade e instabilidade permanentes. Paralelamente, o pr\u00f3prio setor de plataformas se converte em campo de disputa pol\u00edtica e jur\u00eddica, com o crescimento de a\u00e7\u00f5es coletivas, mobiliza\u00e7\u00f5es sindicais e tentativas de regula\u00e7\u00e3o estatal. O trabalho n\u00e3o desaparece; torna-se mais fragmentado, disperso e opaco.<\/p>\n<p>A fal\u00e1cia central do \u201cTrabalho XXI\u201d reside justamente em apresentar essa reorganiza\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o como necessidade t\u00e9cnica inevit\u00e1vel. Sob o discurso de dinamiza\u00e7\u00e3o da negocia\u00e7\u00e3o coletiva, o que se prop\u00f5e \u00e9 seu esvaziamento progressivo, facilitando a caducidade de conven\u00e7\u00f5es coletivas e fragmentando a capacidade de resist\u00eancia sindical. Nesse ponto, o paralelo com a contrarreforma trabalhista brasileira de 2017 \u00e9 inevit\u00e1vel. Em ambos os casos, a promessa de flexibiliza\u00e7\u00e3o serviu como dispositivo ret\u00f3rico para legitimar a corros\u00e3o de direitos e institucionalizar a precariedade como regra. O resultado brasileiro \u2014 marcado pela expans\u00e3o da informalidade e pela deteriora\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de trabalho \u2014 funciona menos como advert\u00eancia abstrata e mais como espelho hist\u00f3rico de um futuro poss\u00edvel para Portugal.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que o capital n\u00e3o d\u00e1 tr\u00e9gua \u00e0 classe trabalhadora, articulando seus ataques atrav\u00e9s do amparo estatal. Enquanto no Brasil, comemora-se a aprova\u00e7\u00e3o na C\u00e2mara dos Deputados pelo fim da escala 6\u00d71, Portugal busca capturar ainda mais o tempo vital da classe trabalhadora. A l\u00f3gica do banco de horas individual expressa com clareza essa din\u00e2mica. Embora o governo o apresente como mecanismo de flexibilidade ben\u00e9fica, ele opera, na pr\u00e1tica, como instrumento de desregula\u00e7\u00e3o da jornada e amplia\u00e7\u00e3o de horas de trabalho n\u00e3o remuneradas. A no\u00e7\u00e3o de \u201cacordo individual\u201d entre patr\u00e3o e empregado ignora a profunda desigualdade de poder que estrutura as rela\u00e7\u00f5es laborais e reduz drasticamente qualquer possibilidade real de recusa por parte do trabalhador.<\/p>\n<p>Esse dispositivo subordina o tempo biol\u00f3gico e social \u00e0s oscila\u00e7\u00f5es do mercado. O trabalhador perde progressivamente o controle sobre sua vida cotidiana, seu planejamento familiar e seu tempo livre, tornando-se um recurso permanentemente dispon\u00edvel \u00e0s necessidades empresariais. A prometida concilia\u00e7\u00e3o entre vida profissional e vida privada transforma-se, assim, em ret\u00f3rica vazia, onde as horas extras s\u00e3o impostas conforme a conveni\u00eancia da empresa, atingindo jornadas de at\u00e9 50 horas semanais. A suposta flexibilidade serve apenas para que o acr\u00e9scimo de esfor\u00e7o seja apropriado pelo empregador, sem que isso se traduza em valoriza\u00e7\u00e3o salarial real ou bem-estar social.<\/p>\n<p>Os impactos dessa intensifica\u00e7\u00e3o recaem diretamente sobre a sa\u00fade f\u00edsica e mental da classe trabalhadora. A press\u00e3o pela disponibilidade constante amplia fadiga, adoecimento ps\u00edquico, esgotamento e risco de acidentes, ao mesmo tempo em que inviabiliza qualquer experi\u00eancia efetiva de desconex\u00e3o do trabalho.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia brasileira demonstra, inclusive, que a redu\u00e7\u00e3o de custos trabalhistas n\u00e3o produz automaticamente mais empregos. A promessa de gera\u00e7\u00e3o massiva de postos formais ap\u00f3s a reforma de 2017 terminou acompanhada pelo crescimento da informalidade e da instabilidade laboral. Ainda assim, o anteprojeto portugu\u00eas insiste na amplia\u00e7\u00e3o dos contratos tempor\u00e1rios e na facilita\u00e7\u00e3o dos despedimentos, repetindo um roteiro j\u00e1 amplamente testado.<\/p>\n<p>O ponto mais sens\u00edvel da reforma recai sobre o trabalho em plataformas digitais. O esvaziamento da presun\u00e7\u00e3o de contrato de trabalho prevista no Artigo 12.\u00ba-A representa um retrocesso importante diante da tend\u00eancia regulat\u00f3ria da Uni\u00e3o Europeia. Enquanto o bloco europeu busca facilitar o reconhecimento do v\u00ednculo laboral entre plataformas e trabalhadores, o governo portugu\u00eas opta por proteger interesses empresariais transnacionais e aprofundar a vulnerabilidade de entregadores e motoristas de aplicativos.<\/p>\n<p>Em Portugal, onde a maioria dos estafetas (entregadores) \u00e9 composta por imigrantes \u2014 especialmente brasileiros e sul-asi\u00e1ticos \u2014, o sistema se apoia diretamente na vulnerabilidade administrativa, econ\u00f4mica e racial dessa for\u00e7a de trabalho para consolidar um modelo de m\u00e1xima extra\u00e7\u00e3o de produtividade. Nesse regime, algoritmos passam a comandar e disciplinar o trabalho humano sob a apar\u00eancia de autonomia individual. \u00c9 a\u00ed que opera o n\u00facleo ideol\u00f3gico da uberiza\u00e7\u00e3o. O discurso da liberdade, da flexibilidade e do empreendedorismo converte sobreviv\u00eancia prec\u00e1ria em narrativa de autonomia. O trabalhador \u00e9 apresentado como empres\u00e1rio de si mesmo enquanto permanece submetido a mecanismos intensivos de controle algor\u00edtmico e inseguran\u00e7a permanente.<\/p>\n<p>Esse processo se articula ao crescimento da extrema direita em Portugal. \u00c0 medida que a precariza\u00e7\u00e3o corr\u00f3i condi\u00e7\u00f5es de vida, discursos de \u00f3dio deslocam tens\u00f5es sociais para alvos substitutivos, especialmente popula\u00e7\u00f5es imigrantes. A reforma laboral, nesse sentido, reorganiza n\u00e3o apenas o mercado de trabalho, mas tamb\u00e9m o pr\u00f3prio campo pol\u00edtico da disputa social, fragmentando a classe trabalhadora e enfraquecendo sua capacidade coletiva de resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Diante dessa ofensiva, a greve geral convocada para 3 de junho assume dimens\u00e3o hist\u00f3rica. Mais do que rea\u00e7\u00e3o imediata a um pacote laboral, ela expressa a perman\u00eancia do conflito entre capital e trabalho em pleno s\u00e9culo XXI. A mobiliza\u00e7\u00e3o resgata uma tradi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de resist\u00eancia social que atravessa a experi\u00eancia portuguesa desde a Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos, reafirmando que direitos trabalhistas n\u00e3o s\u00e3o concess\u00f5es naturais do mercado, mas conquistas pol\u00edticas produzidas pela luta coletiva. No atual cen\u00e1rio, a greve constitui um ato vital de resist\u00eancia de classe, configurando o que Friedrich Engels definiu como uma \u201cescola de guerra\u201d, onde trabalhadores e trabalhadoras desenvolvem a coragem e a firmeza necess\u00e1rias para enfrentar o arb\u00edtrio patronal e a complac\u00eancia estatal. Como elucidaram Karl Marx e Engels, a hist\u00f3ria de todas as sociedades \u00e9 a hist\u00f3ria da luta de classes, e a greve que se avizinha \u00e9 a materializa\u00e7\u00e3o desse conflito permanente contra um projeto que busca, em \u00faltima inst\u00e2ncia, intensificar o processo de explora\u00e7\u00e3o e precariza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora. Lutar contra este pacote \u00e9 defender os direitos de Abril e reafirmar que o trabalho humano n\u00e3o pode ser domesticado pela l\u00f3gica do capital.<\/p>\n<p>O \u201cTrabalho XXI\u201d n\u00e3o representa apenas uma reforma laboral. Trata-se de uma disputa sobre o pr\u00f3prio estatuto do trabalho contempor\u00e2neo. Ao converter direitos em vari\u00e1veis de ajuste econ\u00f4mico, o projeto normaliza a precariza\u00e7\u00e3o como forma de governo e desloca a prote\u00e7\u00e3o social para o terreno da exce\u00e7\u00e3o. O que est\u00e1 em jogo n\u00e3o \u00e9 apenas a forma do emprego, mas a pr\u00f3pria capacidade de resist\u00eancia coletiva diante de uma racionalidade que transforma o trabalho humano em mercadoria descart\u00e1vel e reduz trabalhadores a meros sujeitos de desempenho e produ\u00e7\u00e3o. A resposta depender\u00e1 da capacidade de reorganiza\u00e7\u00e3o das lutas sociais diante de uma ofensiva que \u00e9 simultaneamente local em sua aplica\u00e7\u00e3o e global em sua l\u00f3gica de explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Jornadas podem chegar a 50 horas. Plataformas autorizadas a precarizar mais. Imigrantes particularmente atingidos. Nesta quarta-feira, trabalhadores dar\u00e3o sua resposta<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/trabalhoeprecariado\/por-que-os-portugueses-vao-a-greve-geral\/\">Por que os portugueses v\u00e3o \u00e0 greve geral<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":90062,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[11552,1014,25355,4612,63983,63984,5236,423,63985,20018,756,63986,13151,20500,2345,505,4815,63987,63988,24815,614,1482,480,377,5834,2248,63989,26652],"tags":[],"class_list":["post-90061","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-capital","category-classe-trabalhadora","category-crise-do-capitalismo","category-entregadores","category-erosao-de-direitos-sociais","category-estafetas","category-exploracao","category-extrema-direita","category-fetiche-economico","category-forca-de-trabalho","category-greve","category-laboratorio-social","category-lutas-sociais","category-norte-global","category-plataformas-digitais","category-portugal","category-precariado","category-racionalidade-neoliberal","category-regressao-social","category-saude-fisica","category-saude-mental","category-sul-global","category-trabalhadores","category-trabalho","category-trabalho-e-precariado","category-uberizacao","category-vulnerabilidade-juridica","category-vulnerabilidade-social"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/90061","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=90061"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/90061\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/90062"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=90061"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=90061"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=90061"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}