{"id":90278,"date":"2026-06-03T18:23:46","date_gmt":"2026-06-03T21:23:46","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-que-os-direitos-digitais-tem-a-ver-com-a-crise-climatica-2\/"},"modified":"2026-06-03T18:23:46","modified_gmt":"2026-06-03T21:23:46","slug":"o-que-os-direitos-digitais-tem-a-ver-com-a-crise-climatica-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-que-os-direitos-digitais-tem-a-ver-com-a-crise-climatica-2\/","title":{"rendered":"O que os direitos digitais t\u00eam a ver com a crise clim\u00e1tica?"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"873\" height=\"491\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Screenshot-2026-06-03-at-18-23-04-minerais-terras-raraswebp-imagem-WEBP-904-511-pixels-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Screenshot-2026-06-03-at-18-23-04-minerais-terras-raraswebp-imagem-WEBP-904-511-pixels-1.jpg 873w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Screenshot-2026-06-03-at-18-23-04-minerais-terras-raras.webp-imagem-WEBP-904-\u00d7-511-pixels-300x169.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Screenshot-2026-06-03-at-18-23-04-minerais-terras-raras.webp-imagem-WEBP-904-\u00d7-511-pixels-768x432.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 873px) 100vw, 873px\"><figcaption>Arte: Neofeed<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<p><imgsrc=\"\" width=\"1\" height=\"1\" alt=\".\" border=\"0\">\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Enquanto governos latinoamericanos disputam investimentos estrangeiros em mat\u00e9ria de intelig\u00eancia artificial, data centers e minera\u00e7\u00e3o para o que t\u00eam chamado de \u201ctransi\u00e7\u00e3o digital\u201d, expande-se a narrativa enganosa segundo a qual a crise clim\u00e1tica poder\u00e1 ser resolvida por meio da inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. A COP30, realizada no Brasil em 2025, <u>contribuiu para refor\u00e7ar esse imagin\u00e1rio<\/u> ao colocar a digitaliza\u00e7\u00e3o, a intelig\u00eancia artificial e as chamadas \u201ctecnologias verdes\u201d no centro de parte importante das discuss\u00f5es sobre desenvolvimento e sustentabilidade.\u00a0<\/p>\n<p>A promessa aparece em discursos oficiais sobre cidades inteligentes, monitoramento ambiental, agricultura de precis\u00e3o, efici\u00eancia energ\u00e9tica e \u201cinova\u00e7\u00e3o verde\u201d e des\u00e1gua em pol\u00edticas como as de digitaliza\u00e7\u00e3o de programas ambientais e agr\u00e1rios e de abono tribut\u00e1rio para atividades extrativistas relacionadas \u00e0 tecnologia. O futuro sustent\u00e1vel, de acordo com essa linha, seria tamb\u00e9m um futuro digital.<\/p>\n<p>Mas quem sustenta materialmente esse futuro? Quem sofre seus \u00f4nus e quem de fato ganha seus b\u00f4nus?<\/p>\n<p>Esse discurso tamb\u00e9m se beneficia de escolhas sem\u00e2nticas que ajudam a ocultar a materialidade da economia digital. Talvez o exemplo mais evidente seja a populariza\u00e7\u00e3o da express\u00e3o \u201ccomputa\u00e7\u00e3o em nuvem\u201d, que sugere algo leve, abstrato e distante do mundo f\u00edsico, refor\u00e7ando a ideia de que dados, plataformas digitais e sistemas de intelig\u00eancia artificial existiriam em uma esfera quase et\u00e9rea. Na pr\u00e1tica, por\u00e9m, a infraestrutura que sustenta essas tecnologias est\u00e1 longe de ser invis\u00edvel. Come\u00e7a na minera\u00e7\u00e3o, passa por cadeias industriais complexas, consome grandes quantidades de energia e \u00e1gua e depende da ocupa\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios para funcionar.\u00a0<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/15-6.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/15-6.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/15-300x110.png 300w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Em outras palavras, longe de ser imaterial, portanto, a digitaliza\u00e7\u00e3o est\u00e1 profundamente enraizada em territ\u00f3rios e recursos naturais. E seus impactos socioambientais recaem de forma desproporcional sobre pa\u00edses do Sul Global \u2013 entre eles, os latinoamericanos -, onde persisten din\u00e2micas hist\u00f3ricas de extra\u00e7\u00e3o de recursos naturais que sustentam agora tamb\u00e9m a expans\u00e3o da econom\u00eda digital. E a quest\u00e3o n\u00e3o se limita \u00e0 infraestrutura, pois tecnologias digitais tamb\u00e9m passaram a intermediar cada vez mais as rela\u00e7\u00f5es sociais, econ\u00f4micas e pol\u00edticas ligadas ao meio ambiente, influenciando a circula\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es e a participa\u00e7\u00e3o em decis\u00f5es que afetam os territ\u00f3rios.\u00a0<\/p>\n<p>\u00c0 medida que a gest\u00e3o de recursos, os sistemas de monitoramento ambiental e a produ\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o sobre os territ\u00f3rios dependem cada vez mais de infraestruturas e plataformas digitais, direitos como o acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o, a transpar\u00eancia, a participa\u00e7\u00e3o p\u00fablica e a autodetermina\u00e7\u00e3o dos dados adquirem uma dimens\u00e3o ambiental cada vez mais evidente. Por isso, se queremos enfrentar a crise clim\u00e1tica de forma s\u00e9ria, o debate precisa passar a incorporar os impactos das tecnologias e a luta deve encampar tamb\u00e9m a defesa dos direitos digitais.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, isso significa olhar para as infraestruturas que sustentam a digitaliza\u00e7\u00e3o e para as rela\u00e7\u00f5es de poder que ela aprofunda.\u00a0<\/p>\n<h3><strong>Quando a tecnologia encontra o territ\u00f3rio<\/strong><\/h3>\n<p>A Am\u00e9rica Latina oferece exemplos reveladores dessa conex\u00e3o. O Brasil, por exemplo, \u00e9 o segundo no ranking mundial de pa\u00edses em reservas de terras raras, das quais pode ser extra\u00eddo grupo de minerais essenciais para a fabrica\u00e7\u00e3o de chips, baterias, smartphones e diversos outros componentes utilizados na infraestrutura digital. O interesse geopol\u00edtico por esses recursos, n\u00e3o \u00e0 toa, vem crescendo rapidamente. Em um contexto de disputa tecnol\u00f3gica entre Estados Unidos e China, insumos considerados estrat\u00e9gicos para essa cadeia <u>passaram a ocupar lugar central<\/u> nas pol\u00edticas industriais e de seguran\u00e7a nacional.\u00a0<\/p>\n<p>Por isso, o questionamento que deve ser realizado vai al\u00e9m de extrair ou n\u00e3o extrair esses recursos. Deve considerar tamb\u00e9m, a posi\u00e7\u00e3o ocupada pelos pa\u00edses latinoamericanos nessa cadeia produtiva. Embora concentrem parte importante das reservas minerais, seguem participando essencialmente das etapas de extra\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias primas, enquanto o processamento industrial, o desenvolvimento tecnol\u00f3gico e os maiores benef\u00edcios econ\u00f4micos permanecem concentrados no Norte Global. No caso brasileiro, pesquisadores t\u00eam alertado sobre como a corrida por terras raras pode, justamente, aprofundar uma inser\u00e7\u00e3o subordinada na economia digital global, baseada no fornecimento de recursos estrat\u00e9gicos sem que haja transfer\u00eancia significativa de tecnologia ou fortalecimento das capacidades produtivas locais.<\/p>\n<p>Essa din\u00e2mica tamb\u00e9m aparece de forma semelhante no fen\u00f4meno de expans\u00e3o dos data centers na Am\u00e9rica Latina. Nos \u00faltimos anos, empresas de tecnologia estrangeiras t\u00eam mirado cada vez mais a regi\u00e3o aproveitando-se de condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis para instala\u00e7\u00e3o da infraestrutura f\u00edsica necess\u00e1ria ao armazenamento e processamento de dados em larga escala. Al\u00e9m da disponibilidade de energia, alguns pa\u00edses latinos oferecem extensas redes de transmiss\u00e3o, conectividade internacional e disponibilidade territorial. A isso se somam <u>escolhas preocupantes de governos da regi\u00e3o,<\/u> que t\u00eam adotado pol\u00edticas de incentivo para atrair essas empresas, especialmente por meio de benef\u00edcios fiscais e flexibiliza\u00e7\u00e3o regulat\u00f3ria.\u00a0<\/p>\n<p>O Paraguai talvez seja hoje um dos exemplos mais emblem\u00e1ticos desse processo. A energia gerada pela Usina de Itaipu <u>transformou o pa\u00eds em destino atraente<\/u> para projetos ligados \u00e0 infraestrutura digital. N\u00e3o por acaso, empres\u00e1rios e investidores influentes t\u00eam intensificado sua presen\u00e7a no local \u2013 entre eles Peter Thiel, bilion\u00e1rio do Vale do Sil\u00edcio e cofundador da <u>Palantir<\/u>, empresa que \u00e9 reconhecidamente uma das principais fornecedoras de tecnologias de vigil\u00e2ncia para o aparato militar dos Estados Unidos.\u00a0<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Arte-1_banner-site-outras-palavras_IC-na-Unesp_728x90-1.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Arte-1_banner-site-outras-palavras_IC-na-Unesp_728x90-1.png 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Arte-1_banner-site-outras-palavras_IC-na-Unesp_728x90-300x37.png 300w\" sizes=\"(max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>\u00c9 preocupante que o debate sobre data centers esteja aparecendo especialmente em discursos de governos e do setor privado como uma oportunidade econ\u00f4mica, com pouca ou nenhuma aten\u00e7\u00e3o dada a seus impactos ambientais e territoriais. Data centers s\u00e3o instala\u00e7\u00f5es <u>altamente intensivas em energia e \u00e1gua<\/u>. Operam ininterruptamente, exigem sistemas permanentes de refrigera\u00e7\u00e3o e podem pressionar redes el\u00e9tricas e recursos h\u00eddricos j\u00e1 disputados por outros usos sociais e econ\u00f4micos.<\/p>\n<p>Os efeitos n\u00e3o se limitam ao consumo de recursos. Um estudo recente identificou a forma\u00e7\u00e3o do que pesquisadores chamaram de \u201cilhas de calor de dados\u201d, ou seja, \u00e1reas ao redor de data centers onde a temperatura da superf\u00edcie pode aumentar, em m\u00e9dia, 2\u00b0C ap\u00f3s o in\u00edcio das opera\u00e7\u00f5es. Segundo os autores, esse impacto pode se estender por at\u00e9 4,5 quil\u00f4metros ao redor das instala\u00e7\u00f5es, alterando microclimas locais e produzindo efeitos sobre popula\u00e7\u00f5es humanas e ecossistemas. Casos analisados no estudo inclu\u00edram regi\u00f5es do Cear\u00e1 e do Piau\u00ed, no Brasil, al\u00e9m de polos de data centers no M\u00e9xico.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m crescem as preocupa\u00e7\u00f5es sobre os efeitos dessas instala\u00e7\u00f5es nos territ\u00f3rios. Relat\u00f3rios recentes produzidos por organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil apontam obst\u00e1culos ao acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o sobre consumo de \u00e1gua e energia, flexibiliza\u00e7\u00e3o de regras ambientais e fragiliza\u00e7\u00e3o de mecanismos de consulta \u00e0s comunidades afetadas. Em alguns casos ainda mais problem\u00e1ticos, a expans\u00e3o dessa infraestrutura tem avan\u00e7ado sobre territ\u00f3rios ocupados por comunidades ind\u00edgenas, camponesas e outras popula\u00e7\u00f5es tradicionais, aprofundando disputas hist\u00f3ricas e constitutivas da Am\u00e9rica Latina como regi\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o com esses impactos j\u00e1 alcan\u00e7ou os principais mecanismos regionais de direitos humanos. Em fevereiro de 2026, a Relatoria Especial sobre Direitos Econ\u00f4micos, Sociais, Culturais e Ambientais (REDESCA) da Comiss\u00e3o Interamericana de Direitos Humanos <u>advertiu <\/u>que a expans\u00e3o acelerada dos data centers pode colocar em risco direitos como o acesso \u00e0 \u00e1gua, \u00e0 sa\u00fade e a um meio ambiente saud\u00e1vel, e sustentou que os Estados deveriam adotar morat\u00f3rias para novas autoriza\u00e7\u00f5es at\u00e9 que existam salvaguardas adequadas.<\/p>\n<h3><strong>A pol\u00edtica da informa\u00e7\u00e3o ambiental<\/strong><\/h3>\n<p>Os impactos da digitaliza\u00e7\u00e3o sobre a agenda ambiental ainda v\u00e3o al\u00e9m dos territ\u00f3rios onde s\u00e3o extra\u00eddos minerais ou instalados servidores. Eles tamb\u00e9m se manifestam nas decis\u00f5es pol\u00edticas sobre como e onde informa\u00e7\u00f5es circulam e disputas p\u00fablicas sobre temas como sustentabilidade e crise clim\u00e1tica s\u00e3o travadas.\u00a0<\/p>\n<p>O enfrentamento das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas depende da produ\u00e7\u00e3o e do acesso a informa\u00e7\u00f5es confi\u00e1veis. Isso inclui dados cient\u00edficos, monitoramento ambiental, den\u00fancias de viola\u00e7\u00f5es socioambientais e informa\u00e7\u00f5es produzidas por comunidades afetadas por empreendimentos como projetos de minera\u00e7\u00e3o, desmatamento ou grandes obras de infraestrutura. Quando esses fluxos de informa\u00e7\u00e3o s\u00e3o comprometidos, a pr\u00f3pria capacidade da sociedade de responder \u00e0 crise clim\u00e1tica \u00e9 afetada.<\/p>\n<p>Nesse contexto, o ambiente digital tornou-se um espa\u00e7o central de disputa. J\u00e1 h\u00e1 ampla evid\u00eancia emp\u00edrica que mostra como plataformas digitais amplificam conte\u00fados enganosos sobre quest\u00f5es ambientais por benef\u00edcios econ\u00f4micos, a partir de seus modelos de neg\u00f3cio que s\u00e3o baseados na maximiza\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o e do engajamento das pessoas usu\u00e1rias. Informa\u00e7\u00f5es falsas ou sensacionalistas tendem a gerar mais intera\u00e7\u00f5es, aumentando seu alcance e sua rentabilidade para as plataformas.<\/p>\n<p>O problema n\u00e3o se limita ao negacionismo clim\u00e1tico tradicional. Tamb\u00e9m inclui <u>pr\u00e1ticas de <em>greenwashing<\/em><\/u>, termo utilizado para descrever estrat\u00e9gias que apresentam atores, produtos, servi\u00e7os ou projetos como ambientalmente respons\u00e1veis sem que isso corresponda \u00e0 realidade, ocultando seus reais impactos socioambientais. Na Am\u00e9rica Latina, esse tipo de narrativa tem sido utilizada especialmente por governos em empresas, inclusive nas iniciativas associadas \u00e0 expans\u00e3o da minera\u00e7\u00e3o de minerais cr\u00edticos, \u00e0 instala\u00e7\u00e3o de grandes data centers e a empreendimentos apresentados como indispens\u00e1veis para a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica ou digital, mesmo diante de seus efeitos delet\u00e9rios ou insuficientemente avaliados sobre territ\u00f3rios, recursos naturais e comunidades.\u00a0<\/p>\n<p>O mesmo ambiente digital que amplifica narrativas negacionistas e campanhas de <em>greenwashing<\/em> tamb\u00e9m tem sido amplamente utilizado para intimidar, desacreditar e silenciar pessoas que denunciam conflitos socioambientais. Hoje, a Am\u00e9rica Latina \u00e9 a <u>regi\u00e3o mais perigosa do mundo<\/u> para defensores da terra e do meio ambiente. A Col\u00f4mbia especificamente lidera o ranking de pa\u00edses mais letais para esse grupo, junto ao M\u00e9xico e ao Brasil.<\/p>\n<p>Embora a viol\u00eancia f\u00edsica seja sua manifesta\u00e7\u00e3o mais extrema, ela n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica forma de silenciamento. Organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil t\u00eam documentado o uso crescente de tecnologias digitais para esse fim, seja por meio de estrat\u00e9gias de vigil\u00e2ncia ou por epis\u00f3dios de invas\u00f5es de contas e campanhas coordenadas de ass\u00e9dio online. Al\u00e9m de defensoras e defensores ambientais, jornalistas e comunicadores que trabalham na pauta tamb\u00e9m s\u00e3o alvos recorrentes.<\/p>\n<h3><strong>S\u00e3o poss\u00edveis outras formas de construir tecnologia?<\/strong><\/h3>\n<p>O cen\u00e1rio produz um tom pessimista praticamente inevit\u00e1vel. Mas \u00e9 importante reconhecer que os exemplos apresentados at\u00e9 aqui n\u00e3o levam necessariamente a uma cr\u00edtica \u00e0 exist\u00eancia das tecnologias em si mesmas. Eles apontam para a necessidade de questionar os modelos pol\u00edticos e econ\u00f4micos que orientam seu desenvolvimento. Afinal, para al\u00e9m das tecnologias em si, o debate deve sempre ser permeado sobre quem define seus usos, quem se beneficia delas e quem arca com seus custos.\u00a0<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria Am\u00e9rica Latina oferece exemplos de iniciativas que seguem uma l\u00f3gica oposta e buscam construir infraestruturas digitais a partir de princ\u00edpios diferentes daqueles que predominam no modelo extrativista das grandes plataformas e corpora\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas. Em vez de depender exclusivamente de redes controladas por empresas privadas, comunidades t\u00eam desenvolvido solu\u00e7\u00f5es voltadas para suas pr\u00f3prias necessidades de comunica\u00e7\u00e3o, organiza\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o territorial.<\/p>\n<p>Um grande exemplo \u00e9 o das iniciativas de <u>redes comunit\u00e1rias de internet <\/u>que v\u00eam sendo implementadas em diferentes pa\u00edses da regi\u00e3o, entre eles Brasil, M\u00e9xico, Col\u00f4mbia, Argentina e Nicar\u00e1gua. Nesses projetos, s\u00e3o as comunidades \u2013 em sua maioria situadas em \u00e1reas rurais ou isoladas, frequentemente ocupadas por comunidades ind\u00edgenas ou tradicionais -, que organizam sistemas aut\u00f4nomos de telecomunica\u00e7\u00f5es para garantir acesso \u00e0 conectividade em locais historicamente negligenciados por operadoras comerciais. Mais do que ampliar o acesso \u00e0 internet, essas iniciativas fortalecem capacidades locais de gest\u00e3o da infraestrutura de comunica\u00e7\u00e3o e ampliam a autonomia das comunidades sobre tecnologias que afetam diretamente sua vida cotidiana.<\/p>\n<p>Essa l\u00f3gica tamb\u00e9m se manifesta em outras experi\u00eancias de desenvolvimento de ferramentas digitais a partir das necessidades definidas pelos pr\u00f3prios territ\u00f3rios, como \u00e9 o caso da <u>colabora\u00e7\u00e3o entre as organiza\u00e7\u00f5es <\/u>T\u00e9cnicas Rudas, do M\u00e9xico, e Diversa Studio, do Equador, junto ao povo ind\u00edgena Yaqui. O projeto combina intelig\u00eancia artificial, imagens de sat\u00e9lite e an\u00e1lise geoespacial para apoiar a gest\u00e3o comunit\u00e1ria da \u00e1gua e o monitoramento das transforma\u00e7\u00f5es ambientais em seu territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>O aspecto mais relevante dessa iniciativa n\u00e3o est\u00e1 na tecnologia utilizada, mas na forma como ela \u00e9 constru\u00edda. Os dados produzidos permanecem acess\u00edveis \u00e0 comunidade, as prioridades de pesquisa s\u00e3o definidas localmente e o objetivo n\u00e3o \u00e9 alimentar plataformas comerciais globais, mas apoiar processos de gest\u00e3o territorial e tomada de decis\u00e3o coletiva.\u00a0<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, como apontam perspectivas feministas e comunit\u00e1rias da regi\u00e3o, essas experi\u00eancias lembram que uma transi\u00e7\u00e3o digital mais justa n\u00e3o implica necessariamente produzir mais tecnologia. Tamb\u00e9m exige perguntar quais tecnologias s\u00e3o realmente necess\u00e1rias, para quais finalidades s\u00e3o desenvolvidas e como reduzir seus impactos sobre os territ\u00f3rios e os recursos naturais.<\/p>\n<h3><strong>Onde as agendas se encontram<\/strong><\/h3>\n<p>No Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado em 5 de junho, frisamos a import\u00e2ncia de, em uma economia cada vez mais atravessada por infraestruturas digitais, a discuss\u00e3o sobre sustentabilidade e justi\u00e7a clim\u00e1tica incorporar tamb\u00e9m as formas como tecnologias s\u00e3o produzidas, governadas e distribu\u00eddas. E, al\u00e9m disso, de seguirmos travando esse debate situado em termos geogr\u00e1ficos, reconhecendo a posi\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica Latina como fornecedora de insumos estrat\u00e9gicos e palco de impactos socioambientais desproporcionais.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre justi\u00e7a clim\u00e1tica e direitos digitais \u00e9 cada vez mais n\u00edtida e central. Ela diz respeito \u00e0s condi\u00e7\u00f5es sob as quais a transi\u00e7\u00e3o digital est\u00e1 sendo constru\u00edda e a quem participa das decis\u00f5es sobre seu futuro. Diz respeito \u00e0 capacidade de comunidades influenciarem projetos que afetam seus territ\u00f3rios, acessarem informa\u00e7\u00f5es de interesse p\u00fablico e desenvolverem tecnologias alinhadas \u00e0s suas pr\u00f3prias necessidades e prioridades.<\/p>\n<p>Enquanto a expans\u00e3o da economia digital continuar reproduzindo padr\u00f5es de concentra\u00e7\u00e3o de poder e deslocando seus impactos ambientais para determinados territ\u00f3rios, a promessa de uma transi\u00e7\u00e3o sustent\u00e1vel permanecer\u00e1 dificilmente alcan\u00e7\u00e1vel.<\/p>\n<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Sem publicidade ou patroc\u00ednio, dependemos de voc\u00ea. Fa\u00e7a parte do nosso grupo de apoiadores e ajude a manter nossa voz livre e plural: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post O que os direitos digitais t\u00eam a ver com a crise clim\u00e1tica? appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/senado-promove-maior-desmonte-do-licenciamento-ambiental-no-pais\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Captura-de-Tela-2023-12-27-as-162247-150x150.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Senado promove maior desmonte do licenciamento amb...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/cuba-homenageia-mst-por-apoio-do-movimento-brasileiro-a-agricultura-urbana-da-ilha\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Cuba homenageia MST por apoio do movimento brasile...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/midia-intel-vai-ter-subsidios-cortados-enquanto-plano-de-fabricacao-de-chips-de-biden-vacila\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">M\u00eddia: Intel vai ter subs\u00eddios cortados enquanto p...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/coletanea-para-entender-e-transformar-a-realidade-brasileira-apresenta-debates-sobre-os-desafios-para-o-pais-e-o-pt\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Colet\u00e2nea \u2018Para entender (e transformar) a realida...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Am\u00e9rica Latina vive nova encruzilhada colonial. Norte busca capturar suas terras raras e controlar, por meio das big techs, seu espa\u00e7o p\u00fablico. Coes\u00e3o social e natureza est\u00e3o em risco, mas surgem alternativas. As decis\u00f5es pol\u00edticas, mais uma vez, definir\u00e3o o destino<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/o-que-os-direitos-digitais-tem-a-ver-com-a-crise-climatica\/\">O que os direitos digitais t\u00eam a ver com a crise clim\u00e1tica?<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":90279,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[5874,64402,12562,64403,568,154,12959,10471,13668,64404,8837,6219,64405,8439,3984,18,2044,20500,1005,5493,23267,13563,64406],"tags":[],"class_list":["post-90278","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ambiente-digital","category-comunidades-camponesas","category-comunidades-indigenas","category-consumo-de-agua-e-energia","category-cop-30","category-crise-climatica","category-dados","category-data-centers","category-economia-digital","category-governos-latinoamericanos","category-greenwashing","category-ia","category-informacao-ambiental","category-infraestrutura-digital","category-justica-climatica","category-meio-ambiente","category-negacionismo-climatico","category-norte-global","category-sustentabilidade","category-tecnologia-em-disputa","category-tecnologias-verdes","category-territorio","category-transicao-digital"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/90278","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=90278"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/90278\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/90279"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=90278"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=90278"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=90278"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}