{"id":90861,"date":"2026-06-08T19:48:24","date_gmt":"2026-06-08T22:48:24","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/thomas-piketty-vislumbra-o-pos-capitalismo\/"},"modified":"2026-06-08T19:48:24","modified_gmt":"2026-06-08T22:48:24","slug":"thomas-piketty-vislumbra-o-pos-capitalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/thomas-piketty-vislumbra-o-pos-capitalismo\/","title":{"rendered":"Thomas Piketty vislumbra o p\u00f3s-capitalismo"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1086\" height=\"600\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Sem-titulo1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Sem-titulo1.jpg 1086w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Sem-titulo1-300x166.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Sem-titulo1-768x424.jpg 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Sem-titulo1-700x387.jpg 700w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Sem-titulo1-219x121.jpg 219w\" sizes=\"(max-width: 1086px) 100vw, 1086px\"><figcaption> Foto: Ed Calcock\/\u201cThe New York Times\u201d<\/figcaption><\/figure>\n<\/p>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<p><imgsrc=\"\" width=\"1\" height=\"1\" alt=\".\" border=\"0\">\n<\/div>\n<\/div>\n<p><strong><strong>Thomas Piketty<\/strong>, <strong>Anmol Somanchi<\/strong> <\/strong>e<strong> <strong>Gast\u00f3n Nievas <\/strong><\/strong>em entrevista<strong> a<strong> Thiago Gama<\/strong><\/strong><\/p>\n<p>S\u00f3 as lutas sociais podem produzir transforma\u00e7\u00f5es nas estruturas de poder e de riqueza, sugere a Hist\u00f3ria \u2013 mas onde est\u00e1 a centelha capaz de mobilizar as sociedades para tanto? Numa \u00e9poca cm que a ordem capitalista est\u00e1 em crise, mas o vatic\u00ednio de Margaret Thatcher (\u201cN\u00e3o h\u00e1 alternativas\u201d), ainda insuperado, produz ang\u00fastia e desencanto, vale atentar para um trabalho lan\u00e7ado neste fim de semana pelo Laborat\u00f3rio Mundial das Desigualdades, liderado pelo economista franc\u00eas Thomas Piketty.<\/p>\n<p>Chama-se Relat\u00f3rio para a Justi\u00e7a Global. Prop\u00f5em objetivos que s\u00f3 podem ser classificados como p\u00f3s-capitalistas \u2013 ainda que n\u00e3o tenham sintonia direta com os distintos programas socialistas dos s\u00e9culos passados. Prop\u00f5em basicamente tr\u00eas objetivos, que requerem transformar as rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f4micas hoje existentes \u2013 da\u00ed o car\u00e1ter disruptivo e mobilizador da proposta.<\/p>\n<p>A primeira meta \u00e9 uma redu\u00e7\u00e3o radical da desigualdade, por meio de uma melhora constante das condi\u00e7\u00f5es de vida nos pa\u00edses hoje perif\u00e9ricos e no interior de cada na\u00e7\u00e3o. Piketty e seus parceiros imaginam que \u00e9 poss\u00edvel esperar, no final do s\u00e9culo, um mundo em que a renda m\u00e9dia situe-se, em qualquer parte do planeta, em torno de 5 mil d\u00f3lares mensais. Hoje ela varia entre US$ 137, para Mo\u00e7ambique, e US$ 7661, para a Su\u00ed\u00e7a, com o Brasil em US$ 1735. Seria necess\u00e1ria, portanto, um not\u00e1vel igualamento\u2013 que, mostram os c\u00e1lculos do relat\u00f3rio, beneficiaria 98% das pessoas\u2026 A metade mais pobre do planeta, que hoje est\u00e1 comprimida a 2% da riqueza, passaria a deter 30%. Os bilion\u00e1rios, que representam apenas 0,001%, mas capturam 6% de tudo o que \u00e9 produzido, teriam de se contentar com 0,05%.<\/p>\n<p>Combinado com este choque de igualdade est\u00e1, segundo o relat\u00f3rio, uma redu\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica nos aquecimento global. \u00c9 sabido que o fen\u00f4meno \u00e9 provocado, essencialmente, por uma elite reduzid\u00edssima. Segundo os \u00faltimos dados da Oxfam, o 0,1% mais rico da popula\u00e7\u00e3o emite, <em>a cada dia<\/em><em>, <\/em>o mesmo que a metade das pessoas mais pobres. Enfrentar a desigualdade obscena ser\u00e1, portanto, ben\u00e9fico at\u00e9 mesmo para os mais privilegiados de hoje \u2013 a menos que ainda acalentem devaneios pueris de uma mudan\u00e7a para outro planeta\u2026<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Prancheta-4-5.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Prancheta-4-5.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Prancheta-4-300x110.png 300w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>O terceiro pilar do projeto \u00e9 uma redu\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria na dura\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho. O Relat\u00f3rio para a Justi\u00e7a Global imagina que \u00e9 poss\u00edvel baix\u00e1-la das atuais 2100 horas anuais (m\u00e9dia de 40,4 por semana, sem contar as f\u00e9rias, que variam de pa\u00eds para pa\u00eds) para 1000 horas (m\u00e9dia de 19,2 semanais). Trata-se de uma mudan\u00e7a cultural e pol\u00edtica de enormes dimens\u00f5es. Significa enfrentar n\u00e3o apenas a hiperexplora\u00e7\u00e3o neoliberal mas tamb\u00e9m o produtivismo, que tem apelo inclusive em pa\u00edses \u2013 como a China \u2013 cujo projeto contrap\u00f5e-se ao sistema hoje hegem\u00f4nico.<\/p>\n<p>Como alcan\u00e7ar objetivos t\u00e3o ambiciosos e contraintuitivos? O grupo de Piketty prop\u00f5e um conjunto de a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas antissist\u00eamicas \u2013 todas de car\u00e1ter global. Lembra \u2013 em confronto com toda a teoria retr\u00f3grada dos \u201cajustes fiscais\u201d \u2013 que os Estados podem emitir dinheiro a partir do nada. As institui\u00e7\u00f5es internacionais tamb\u00e9m, e o pr\u00f3prio FMI o fez, ap\u00f3s a pandemia, ao multiplicar a emiss\u00e3o dos Direitos Especiais de Saque, o \u00fanico embri\u00e3o de moeda internacional hoje existente. A emiss\u00e3o monet\u00e1ria j\u00e1 \u00e9 comum hoje, sempre a favor dos rentistas. Havendo determina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, pode ser feita para assegurar os direitos do <em>Comum <\/em>para o conjunto dos habitantes do planeta. Ou seja, os Estados podem, isoladamente ou em conjunto, mobilizar trabalho humano e recursos e alcan\u00e7ar objetivos desenvolvimento humano, por meio de interven\u00e7\u00e3o na l\u00f3gica do dinheiro.<\/p>\n<p>Mas esta cria\u00e7\u00e3o de moeda resulta normalmente, sempre segundo o relat\u00f3rio, em benef\u00edcios para o setor privado, funcionando como mecanismo de concentra\u00e7\u00e3o de riquezas. Para evitar que isso se prolongue, o documento de Piketty prop\u00f5e dois mecanismos de import\u00e2ncia crucial: a) um sistema de tributos internacionais, voltado contra as desigualdades e suficientemente forte para atingir a riqueza e a renda do 0,1% mais rico; b) um fundo internacional que captaria tanto os recursos criados pela emiss\u00e3o monet\u00e1ria quanto a receita dos tributos internacionais. Os recursos desta fundo seriam orientados obrigatoriamente para objetivos ligados \u00e0 promo\u00e7\u00e3o de um desenvolvimento de novo tipo, a garantia de vida digna e nova rela\u00e7\u00f5es entre a humanidade e o mundo natural. Entre suas a\u00e7\u00f5es t\u00edpicas estariam a promo\u00e7\u00e3o de sistemas p\u00fablicos de Sa\u00fade e Educa\u00e7\u00e3o de excel\u00eancia, o combate ao desmatamento e a recomposi\u00e7\u00e3o dos ambientes florestais.<\/p>\n<p>A proposta de Piketty e seus pares inclui um conceito inovador: <em>sobriedade. <\/em>\u00c9 imposs\u00edvel assegurar vida digna da todos os habitantes do planeta se persistirem as tend\u00eancias atuais ao consumismo. \u00c9 por isso que se prop\u00f5e manter est\u00e1vel a renda <em>per capita <\/em>nos pa\u00edses mais ricos do planeta, enquanto \u00e9 necess\u00e1rio elevar a da maioria que vive nas na\u00e7\u00f5es hoje perif\u00e9ricas. Mas sugere-se, tamb\u00e9m, mudar os <em>padr\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o. <\/em>Ao inv\u00e9s de concentrar-se em bens materiais, t\u00edpicos do consumo sem freios e da depreda\u00e7\u00e3o da natureza, ele deveria migrar para o <em>imaterial, <\/em>que expressa uma rela\u00e7\u00e3o menos coisificada e alienada com o mundo. Inclui o direito a Educa\u00e7\u00e3o, Sa\u00fade e Mobilidade de excel\u00eancia para todos; Habita\u00e7\u00e3o e Cidades transformadas; frui\u00e7\u00e3o da Natureza e das cria\u00e7\u00f5es da Cultura e da Arte.<\/p>\n<p>Em paralelo ao lan\u00e7amento do Relat\u00f3rio para a Justi\u00e7a Global, o soci\u00f3logo Thiago Gama, colaborador de <em>Outras Palavras, <\/em>obteve de Thomas Piketty e de dois de seus colaboradores mais pr\u00f3ximos \u2014 Anmol Somanchi e Gast\u00f3n Nievas \u2013 a entrevista que se segue. A reconstru\u00e7\u00e3o de um projeto p\u00f3s-capitalista \u00e9 uma tarefa \u00e1rdua. Envolve retomada pela esquerda das rela\u00e7\u00f5es com a base da sociedade, concentra\u00e7\u00e3o de esfor\u00e7os na forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, reflex\u00e3o sobre as transforma\u00e7\u00f5es do capitalismo, reconsidera\u00e7\u00e3o sobre os sujeitos sociais da mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>Uma das a\u00e7\u00f5es mais indispens\u00e1veis, por\u00e9m, \u00e9 recompor um horizonte pol\u00edtico de supera\u00e7\u00e3o do capitalismo. Nesse aspecto, o relat\u00f3rio liderado por Piketty oferece uma contribui\u00e7\u00e3o inestim\u00e1vel [Texto: <strong>Antonio Martins<\/strong>]<\/p>\n<p>Leia a entrevista realizada por Thiago Gama, autor de <em>Outras Palavras<\/em>. <\/p>\n<p><strong>O relat\u00f3rio baseia-se em um imposto global sobre a riqueza para financiar o Fundo de Justi\u00e7a Global. No entanto, a ascens\u00e3o de regimes nacionalistas-autorit\u00e1rios e as persistentes estruturas offshore restringem fortemente a fiscaliza\u00e7\u00e3o multilateral. Como esse imposto pode ser operacionalmente fiscalizado sem um aparato supranacional coercitivo ou sem desencadear graves greves de capital contra as na\u00e7\u00f5es em desenvolvimento?<\/strong><\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"\" alt=\"\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p><strong>Thomas Piketty:<\/strong> Deixe-me primeiro dizer que os governos nacionais j\u00e1 podem implementar impostos progressivos sobre a riqueza por conta pr\u00f3pria. O que \u00e9 fundamental \u00e9 que eles devem tributar da mesma maneira todos os indiv\u00edduos e entidades que acumularam ativos ao se beneficiarem dos recursos e infraestruturas de seu pa\u00eds no passado, onde quer que estejam localizados agora (para que n\u00e3o se possa simplesmente se esquivar dos impostos indo embora). Muitos pa\u00edses j\u00e1 fazem exatamente isso com os impostos sobre a propriedade, aplicando-os tanto a propriedades residenciais quanto comerciais, e poderiam fazer o mesmo com impostos progressivos sobre a riqueza.<\/p>\n<p>Pa\u00edses individualmente j\u00e1 podem avan\u00e7ar nessa dire\u00e7\u00e3o por conta pr\u00f3pria, mas, obviamente, poderiam fazer ainda mais com uma coaliz\u00e3o de pa\u00edses pela justi\u00e7a global. Quanto maior a coaliz\u00e3o, mais se pode fazer e mais perto se chega da Plataforma de Justi\u00e7a Global completa. O ponto importante para a expans\u00e3o da coaliz\u00e3o \u00e9 que os pa\u00edses participantes devem ser capazes de acessar benef\u00edcios concretos ao aderirem \u00e0 plataforma. Naturalmente, apenas os pa\u00edses cooperativos receber\u00e3o dividendos nacionais financiados pelos impostos globais sobre a riqueza e a renda. Al\u00e9m disso, os pa\u00edses n\u00e3o cooperativos n\u00e3o devem se beneficiar das mesmas regras comerciais e financeiras que os pa\u00edses cooperativos. Eles devem ser expostos a san\u00e7\u00f5es adequadas, proporcionais aos danos econ\u00f4micos e clim\u00e1ticos que imp\u00f5em aos outros.<\/p>\n<p>A boa not\u00edcia \u00e9 que o mundo est\u00e1 configurado para ser multipolar no s\u00e9culo XXI. Ou seja, nenhum pa\u00eds individualmente ser\u00e1 capaz de impor suas pr\u00f3prias regras e resistir \u00e0s press\u00f5es de uma coaliz\u00e3o suficientemente grande (nem mesmo os EUA, cuja participa\u00e7\u00e3o no PIB mundial deve declinar de 15% em 2025 para 5% at\u00e9 2100 em nossas proje\u00e7\u00f5es de refer\u00eancia). N\u00f3s fornecemos simula\u00e7\u00f5es sobre tais san\u00e7\u00f5es no Relat\u00f3rio, incluindo em casos onde grandes pa\u00edses (como os EUA e\/ou a China) se recusam a cooperar. Nossa conclus\u00e3o geral \u00e9 que o que impede a justi\u00e7a global n\u00e3o \u00e9 a impossibilidade t\u00e9cnica, mas a escolha pol\u00edtica e o \u00e1rduo, por\u00e9m crucial, trabalho de construir uma coaliz\u00e3o para apoi\u00e1-la.<\/p>\n<p><strong>Seu modelo tem como meta uma converg\u00eancia global de renda mensal de \u20ac 5.000 per capita at\u00e9 2100. Cr\u00edticos do movimento pelo decrescimento (degrowth) argumentam que tal meta reproduz a pr\u00f3pria l\u00f3gica produtivista respons\u00e1vel pelo colapso ecol\u00f3gico. O seu modelo exige uma expans\u00e3o material tempor\u00e1ria no Sul Global, ou pode contornar as m\u00e9tricas tradicionais de crescimento industrial?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Thomas Piketty:<\/strong> Em nosso cen\u00e1rio de refer\u00eancia, todos os pa\u00edses convergem para 5 mil euros em renda mensal (60 mil por ano) at\u00e9 2100, o que se aproxima do n\u00edvel atual dos pa\u00edses mais ricos do mundo. Em outras palavras, h\u00e1 um limite de crescimento nos pa\u00edses ricos, mas permite-se que os pa\u00edses pobres atinjam esse n\u00edvel.<\/p>\n<p>Note, contudo, que esse n\u00e3o seria o mesmo tipo de crescimento industrial que vimos no passado. Primeiro, ele se basearia em fontes de energia de baixo carbono, gra\u00e7as a massivos investimentos clim\u00e1ticos financiados pelo Fundo de Justi\u00e7a Global. Em seguida, envolveria uma grande redu\u00e7\u00e3o nas horas de trabalho (de modo a limitar o crescimento total e a pegada material) e uma mudan\u00e7a substancial dos setores materiais para os imateriais (com 43% das horas de trabalho na educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade em todos os pa\u00edses at\u00e9 2100) e nos h\u00e1bitos alimentares (para permitir um retorno gradual da cobertura florestal aos n\u00edveis de 1900).<\/p>\n<p>Essa ambiciosa transforma\u00e7\u00e3o estrutural da economia \u2013 que chamamos de \u201csufici\u00eancia\u201d \u2013 desempenha um papel central para tornar a prosperidade para todos compat\u00edvel com a habitabilidade planet\u00e1ria. Esta \u00e9 a mensagem central do Relat\u00f3rio de Justi\u00e7a Global: a r\u00e1pida descarboniza\u00e7\u00e3o dos sistemas de energia, por si s\u00f3, n\u00e3o ser\u00e1 suficiente. Ela precisa ser complementada pela sufici\u00eancia e por uma forte compress\u00e3o da desigualdade, tanto para financiar o investimento clim\u00e1tico quanto para sustentar o apoio pol\u00edtico dos grupos de base e de m\u00e9dia renda.<\/p>\n<p>Em compara\u00e7\u00e3o com a maioria dos cen\u00e1rios clim\u00e1ticos (incluindo os estudados pelo IPCC), a principal novidade \u00e9 que colocamos a sufici\u00eancia e a desigualdade no centro da an\u00e1lise. Descobrimos que, ao combinar r\u00e1pida descarboniza\u00e7\u00e3o, sufici\u00eancia e dr\u00e1stica compress\u00e3o da desigualdade, somos capazes de manter o aquecimento global em 1,8 graus at\u00e9 2100, em vez de mais de 4 graus sob as tend\u00eancias macroecon\u00f4micas e pol\u00edticas de base. A parcela da metade inferior da riqueza global aumenta de 2% para 30%, enquanto a parcela da classe bilion\u00e1ria diminui de 6% para 0,05%. Quase 90% da popula\u00e7\u00e3o mundial dobra sua renda trabalhando aproximadamente metade das horas que trabalham hoje.<\/p>\n<p>Nossa estrutura tamb\u00e9m pode ser usada para estudar cen\u00e1rios alternativos, por exemplo, se todos os pa\u00edses convergirem para um PIB per capita inferior a 60 mil at\u00e9 2100, por exemplo, 30 mil e 15 mil. O que descobrimos \u00e9 que a sufici\u00eancia direcionada (por exemplo, 60 mil com grandes mudan\u00e7as setoriais) pode ser mais eficaz do que um decrescimento uniforme e amplo (por exemplo, 15 mil sem mudan\u00e7as setoriais) a fim de reduzir a pegada material, as emiss\u00f5es e o aquecimento global. Em outras palavras, o que mais importa \u00e9 a composi\u00e7\u00e3o setorial da produ\u00e7\u00e3o, mais do que seu n\u00edvel agregado.<\/p>\n<p><strong>A plataforma alavanca as atuais presid\u00eancias do G20 lideradas pelo Brasil e pela \u00c1frica do Sul para o reequil\u00edbrio estrutural. No entanto, o G20 permanece atrelado \u00e0 ortodoxia de Bretton Woods e ao poder de veto do Norte. Um redesenho fundamental das finan\u00e7as internacionais pode ser alcan\u00e7ado atrav\u00e9s desses f\u00f3runs herdados, ou eles inevitavelmente diluem mecanismos redistributivos radicais?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Thomas Piketty:<\/strong> As institui\u00e7\u00f5es internacionais existentes baseiam-se no princ\u00edpio da plutocracia global: os habitantes da Europa e da Am\u00e9rica do Norte\/Oceania t\u00eam mais de 4 vezes mais votos do que a sua participa\u00e7\u00e3o populacional no FMI e no Banco Mundial, enquanto os habitantes da \u00c1frica Subsaariana e do Sul e Sudeste Asi\u00e1tico t\u00eam 4 vezes menos votos do que a sua participa\u00e7\u00e3o populacional. Em contraste, projeta-se que o Fundo de Justi\u00e7a Global seja governado de acordo com os princ\u00edpios da democracia global. Ou seja, propomos que as decis\u00f5es or\u00e7ament\u00e1rias regulares devam ser tomadas sob uma regra de dupla maioria: 55% dos pa\u00edses representando 60% da popula\u00e7\u00e3o. Em nossa vis\u00e3o, \u00e9 prefer\u00edvel criar o FJG com uma coaliz\u00e3o incompleta de pa\u00edses seguindo regras democr\u00e1ticas do que com todos os pa\u00edses sob regras plutocr\u00e1ticas persistentes.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m propomos substituir o FMI por um Banco Central das Na\u00e7\u00f5es Unidas, que emitiria uma nova moeda internacional (a Moeda das Na\u00e7\u00f5es Unidas, MNU), administraria uma Uni\u00e3o de Compensa\u00e7\u00e3o Internacional (International Clearing Union) e poria fim a privil\u00e9gios financeiros exorbitantes. Ele seria governado pelas mesmas regras democr\u00e1ticas que o Fundo de Justi\u00e7a Global. Se necess\u00e1rio, poderia come\u00e7ar com uma coaliz\u00e3o incompleta de pa\u00edses (incluindo sem os EUA e\/ou a China).<\/p>\n<p>No Relat\u00f3rio, tamb\u00e9m discutimos cen\u00e1rios de transi\u00e7\u00e3o incrementais \u2013 com uma mudan\u00e7a gradual das atuais institui\u00e7\u00f5es internacionais e regras de governan\u00e7a para uma ordem internacional mais democr\u00e1tica. Embora isso pudesse funcionar na teoria, enfatizamos que existe um s\u00e9rio risco de que as atuais regras plutocr\u00e1ticas impe\u00e7am a ado\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas ambiciosas e bloqueiem todo o processo. Em grande medida, o atual sistema plutocr\u00e1tico global assemelha-se aos sistemas de vota\u00e7\u00e3o baseados em riqueza e renda que foram aplicados em muitos pa\u00edses na Europa e em outros lugares no s\u00e9culo XIX e at\u00e9 o in\u00edcio do s\u00e9culo XX. A mudan\u00e7a da plutocracia global para a democracia global, que vislumbramos para o s\u00e9culo XXI no contexto da Plataforma de Justi\u00e7a Global, tem o mesmo status que a mudan\u00e7a da plutocracia nacional para a democracia nacional que ocorreu no s\u00e9culo XX. \u00c9 tanto um objetivo quanto um meio.<\/p>\n<p><strong>A plataforma visa reduzir pela metade as horas de trabalho globais enquanto dobra a renda para 90% da popula\u00e7\u00e3o. Em economias como o Brasil, a informalidade estrutural do trabalho e o subemprego n\u00e3o regulamentado dominam o cen\u00e1rio produtivo. Quais mecanismos pol\u00edticos concretos podem implementar essa estrutura nos setores informais sem comprimir os sal\u00e1rios reais ou intensificar a precariedade estrutural?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Anmol Somanchi:<\/strong> N\u00e3o vemos a redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho puramente como uma imposi\u00e7\u00e3o de cima para baixo, mas sim tamb\u00e9m como o resultado de um crescimento sustentado da produtividade. Em nosso cen\u00e1rio de refer\u00eancia, os pa\u00edses do Sul Global \u2013 incluindo o Brasil e a \u00cdndia, que atualmente s\u00e3o caracterizados por altos n\u00edveis de informalidade laboral \u2013 experimentam forte crescimento de produtividade \u00e0 medida que convergem para os n\u00edveis dos pa\u00edses ricos de hoje. Sob a premissa padr\u00e3o de que os trabalhadores valorizam o lazer \u2013 uma premissa que \u00e9 bem respaldada por evid\u00eancias hist\u00f3ricas, especialmente nos pa\u00edses ricos de hoje, onde a jornada de trabalho foi reduzida pela metade entre 1800 e os dias atuais \u2013 os trabalhadores responderiam ao aumento da produtividade, em parte, trabalhando menos horas. Esse efeito poderia ser especialmente forte para aqueles na extremidade inferior da distribui\u00e7\u00e3o de renda que lutam para garantir padr\u00f5es de vida b\u00e1sicos, bem como para aqueles empregados em condi\u00e7\u00f5es de trabalho duras ou desagrad\u00e1veis, ambos os quais provavelmente coincidem com o trabalho informal e prec\u00e1rio. Keynes previu em 1930 que seus netos trabalhariam apenas 10 horas por semana. Talvez ele tenha ido longe demais com isso, mas esta \u00e9 certamente a dire\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o chave \u00e9 se as condi\u00e7\u00f5es institucionais existem para permitir que os trabalhadores traduzam uma produtividade mais alta tanto em rendas mais altas quanto em mais lazer, em vez de ver esses ganhos serem capturados inteiramente pelos empregadores ou dissipados atrav\u00e9s da precariedade. Isso \u00e9 importante porque a redu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da jornada de trabalho observada em todo o mundo ocorreu durante um per\u00edodo de intensa mobiliza\u00e7\u00e3o trabalhista (1860-1980), o que permitiu que os trabalhadores convertessem o aumento da produtividade em redu\u00e7\u00e3o das horas de trabalho. Uma mobiliza\u00e7\u00e3o semelhante provavelmente ser\u00e1 necess\u00e1ria no s\u00e9culo XXI para promover um caminho de crescimento sustent\u00e1vel e equitativo. Isso se reflete na \u00eanfase da plataforma na democracia no local de trabalho e nos direitos trabalhistas \u2013 incluindo pol\u00edticas de sal\u00e1rio m\u00ednimo, expans\u00e3o das regras de cogest\u00e3o do tipo visto na Alemanha e nos pa\u00edses n\u00f3rdicos, limites aos direitos de voto dos acionistas individuais, promo\u00e7\u00e3o de negocia\u00e7\u00f5es coletivas mais amplas e sindicatos mais fortes \u2013 como ferramentas-chave que devem ser usadas para reduzir drasticamente a desigualdade de renda dentro dos pa\u00edses e melhorar o poder de barganha dos trabalhadores. Tamb\u00e9m n\u00e3o descartamos que, em alguns contextos, a interven\u00e7\u00e3o legislativa possa ser necess\u00e1ria para ajudar os trabalhadores a se organizarem e limitarem o total de horas de trabalho.<\/p>\n<p>Na medida em que a compress\u00e3o dos sal\u00e1rios reais e a precariedade estrutural s\u00e3o uma preocupa\u00e7\u00e3o, especialmente na presen\u00e7a de informalidade, uma poss\u00edvel ferramenta de pol\u00edtica p\u00fablica poderia ser um programa de garantia de emprego bem projetado, que poderia, em princ\u00edpio, atingir tr\u00eas objetivos simultaneamente: (i) fornecer um piso salarial justo para todos os trabalhadores (incluindo os informais); (ii) absorver trabalhadores deslocados pela transforma\u00e7\u00e3o estrutural e (iii) redirecionar as horas de trabalho para setores imateriais como sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e outros setores de servi\u00e7os. Algumas li\u00e7\u00f5es \u00fateis poderiam ser extra\u00eddas da Lei Nacional de Garantia de Emprego Rural (NREGA) da \u00cdndia, tanto no que diz respeito aos desafios de implementa\u00e7\u00e3o quanto aos potenciais benef\u00edcios (que se estendem muito al\u00e9m dos efeitos positivos no mercado de trabalho).<\/p>\n<p><strong>O relat\u00f3rio projeta o aumento da parcela de riqueza da metade inferior da popula\u00e7\u00e3o global de 2% para 30%. Nas na\u00e7\u00f5es em desenvolvimento, a maioria dos ativos dom\u00e9sticos est\u00e1 imobilizada em setores extrativistas ou altamente financeirizados. Quais classes de ativos espec\u00edficas devem ser visadas para garantir que essa transfer\u00eancia de riqueza construa uma capacidade produtiva dom\u00e9stica duradoura, em vez de liquidez tempor\u00e1ria?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Anmol Somanchi:<\/strong> Existem v\u00e1rios elementos diferentes na Plataforma de Justi\u00e7a Global que fornecem a base para uma capacidade produtiva sustent\u00e1vel em vez de liquidez tempor\u00e1ria.<\/p>\n<p>Talvez o mais crucial sejam os investimentos direcionados ao capital humano, financiados em parte pelos dividendos nacionais provenientes do Fundo de Justi\u00e7a Global. Ao longo do s\u00e9culo XXI, projeta-se que os gastos per capita com sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o aumentem em todos os lugares para n\u00edveis ainda mais altos do que os dos pa\u00edses ricos de hoje. Embora talvez menos \u00f3bvios num primeiro momento, esses investimentos em capital humano provavelmente representar\u00e3o os investimentos mais duradouros e produtivos para as na\u00e7\u00f5es em desenvolvimento e contribuir\u00e3o significativamente para elevar os padr\u00f5es de vida.<\/p>\n<p>A infraestrutura p\u00fablica e os sistemas de energia s\u00e3o o segundo canal principal. H\u00e1 uma necessidade urgente (tanto nas economias em desenvolvimento quanto nas desenvolvidas) de reorientar os investimentos para ativos de baixo carbono e sustent\u00e1veis. Isso deve incluir investimentos no setor habitacional e de constru\u00e7\u00e3o (para melhorar a efici\u00eancia energ\u00e9tica dos edif\u00edcios), no setor de manufatura (para reduzir as emiss\u00f5es industriais), no setor de energia (para expandir a distribui\u00e7\u00e3o de eletricidade e descarbonizar a produ\u00e7\u00e3o de eletricidade) e no setor de transporte (para expandir o transporte p\u00fablico e os ve\u00edculos el\u00e9tricos). Todos esses representariam investimentos produtivos duradouros e sustent\u00e1veis que gerariam retornos no futuro pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Por fim, o Fundo Soberano Mundial (World Sovereign Fund), acumulado a partir do imposto global sobre a riqueza nos anos iniciais da plataforma, est\u00e1 projetado para acumular ativos equivalentes a 10% do estoque de capital global at\u00e9 2100. Esses ativos geridos coletivamente (que poderiam ser alocados aos pr\u00f3prios pa\u00edses para que os administrem) representariam uma mudan\u00e7a fundamental no equil\u00edbrio entre ativos p\u00fablicos e privados, permitindo uma reorienta\u00e7\u00e3o deliberada para longe de setores altamente financeirizados e extrativistas (impulsionados apenas pelo motivo de lucro) em dire\u00e7\u00e3o a uma capacidade produtiva mais sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>Atingir um limite clim\u00e1tico de 1,8\u00b0C requer mudan\u00e7as profundas no consumo global, nos sistemas alimentares e no uso da terra. No entanto, as metas globais padronizadas de sufici\u00eancia correm o risco de penalizar os d\u00e9ficits hist\u00f3ricos de desenvolvimento no Sul. Como o relat\u00f3rio diferencia tecnicamente entre a contra\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria do consumo ocidental e a necess\u00e1ria expans\u00e3o de infraestrutura nos pa\u00edses em desenvolvimento?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Anmol Somanchi:<\/strong> O mundo de hoje \u00e9 caracterizado por imensas desigualdades globais. Em 2025, a renda per capita mensal variava de 290 euros na \u00c1frica Subsaariana, 720 euros no Sul e Sudeste Asi\u00e1tico e 1.250 euros na Am\u00e9rica Latina a 4.590 euros na Am\u00e9rica do Norte\/Oceania. Sentimos fortemente que qualquer discuss\u00e3o s\u00e9ria sobre futuros clim\u00e1ticos sustent\u00e1veis deve come\u00e7ar pelo reconhecimento da aspira\u00e7\u00e3o muito leg\u00edtima do Sul Global de atingir altos n\u00edveis de prosperidade. Portanto, fundamental para nossa vis\u00e3o de progresso global no s\u00e9culo XXI \u00e9 um mundo onde as rendas mensais per capita atinjam 5.000 euros em todas as regi\u00f5es do mundo at\u00e9 2100.<\/p>\n<p>Isso naturalmente imp\u00f5e limites de crescimento aos pa\u00edses ricos de hoje, que j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o muito longe desse n\u00edvel (4.590 euros na Am\u00e9rica do Norte e Oceania e 3.590 euros na Europa). Mas para o resto do mundo, e especialmente para os pa\u00edses do Sul Global, isso implica um crescimento significativo das rendas, elevando-os aos padr\u00f5es de vida experimentados hoje nos Estados Unidos e na Europa N\u00f3rdica. Note tamb\u00e9m que a despesa per capita em consumo final em setores materiais (manufatura, energia, alimenta\u00e7\u00e3o, habita\u00e7\u00e3o, constru\u00e7\u00e3o) nos pa\u00edses em desenvolvimento est\u00e1 projetada para aumentar 4 ou 5 vezes em rela\u00e7\u00e3o aos seus n\u00edveis de hoje (3 vezes a n\u00edvel mundial), proporcionando um espa\u00e7o significativo para expandir a infraestrutura, a habita\u00e7\u00e3o e a manufatura. Em outras palavras, as metas de sufici\u00eancia t\u00eam um impacto imediato e agudo nos pa\u00edses ricos de hoje, mas come\u00e7am a ser aplicadas apenas gradualmente aos pa\u00edses em desenvolvimento \u00e0 medida que eles sobem ainda mais em sua trajet\u00f3ria de converg\u00eancia.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, \u00e9 importante observar que, para alcan\u00e7ar a prosperidade para todos limitando o aumento da temperatura a menos de 2 graus, precisamos nos afastar dos modelos de crescimento de uso intensivo de materiais e carbono do passado em favor de um modelo mais sustent\u00e1vel. O que importa mais para as emiss\u00f5es e o aumento da temperatura \u00e9 a composi\u00e7\u00e3o setorial do PIB, em vez do seu valor agregado. Isso ocorre porque os setores imateriais t\u00eam uma pegada material e de carbono significativamente menor (tanto sob a perspectiva de produ\u00e7\u00e3o quanto de despesa) do que os setores materiais. Portanto, defendemos a limita\u00e7\u00e3o do PIB per capita dos setores materiais aos n\u00edveis dos pa\u00edses ricos de hoje (um n\u00edvel absoluto suficientemente alto em nossa vis\u00e3o) e, al\u00e9m disso, a expans\u00e3o dos setores imateriais, como sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e servi\u00e7os p\u00fablicos, para continuar a aumentar a renda.<\/p>\n<p><strong>O fundo proposto injeta anualmente liquidez massiva, equivalente a 10,3% do PIB mundial, na economia global. Sem o desmantelamento dos monop\u00f3lios tecnol\u00f3gicos do Norte, essa liquidez corre o risco de retornar ao centro para pagar pelas importa\u00e7\u00f5es de tecnologias verdes (green-tech). Como o seu modelo de balan\u00e7o de pagamentos evita que essa transfer\u00eancia reforce padr\u00f5es hist\u00f3ricos de troca desigual?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Gast\u00f3n Nievas:<\/strong> Essa \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o real que discutimos explicitamente em nossa pesquisa sobre troca desigual. Uma melhoria nos termos de troca para os pa\u00edses em desenvolvimento n\u00e3o \u00e9 suficiente se os lucros gerados por essas exporta\u00e7\u00f5es continuarem a acumular-se em empresas de propriedade estrangeira. Nesse caso, receitas de exporta\u00e7\u00e3o mais elevadas podem simplesmente traduzir-se em renovadas sa\u00eddas de capital para as economias centrais, reproduzindo padr\u00f5es existentes de troca desigual em vez de super\u00e1-los. Evitar esse resultado exige mais do que apenas transfer\u00eancias fiscais. Implica repensar a estrutura de propriedade de setores exportadores chave, aumentar a tributa\u00e7\u00e3o sobre lucros multinacionais e direcionar os recursos do Fundo de Justi\u00e7a Global para setores estrat\u00e9gicos que fortale\u00e7am a capacidade produtiva nacional e a autonomia tecnol\u00f3gica nos pa\u00edses em desenvolvimento. Note tamb\u00e9m que os grandes monop\u00f3lios ser\u00e3o parcialmente desmantelados pelo imposto global sobre a riqueza e pela transfer\u00eancia da riqueza de bilion\u00e1rios e multimilion\u00e1rios para o fundo soberano mundial. Do lado do balan\u00e7o de pagamentos, a Uni\u00e3o de Compensa\u00e7\u00e3o Internacional proposta, administrada pelo Banco Central da ONU, imporia penalidades autom\u00e1ticas e progressivas sobre desequil\u00edbrios externos persistentes. Se o excesso de fluxos de renda de capital retornar aos pa\u00edses ricos, parte desses super\u00e1vits seria efetivamente reciclados atrav\u00e9s do sistema e redirecionados para o Fundo de Justi\u00e7a Global. O objetivo n\u00e3o \u00e9 apenas a redistribui\u00e7\u00e3o, mas uma converg\u00eancia gradual das estruturas produtivas, para que os desequil\u00edbrios estruturais diminuam ao longo do tempo.<\/p>\n<p><strong>Sua pesquisa mapeia transfer\u00eancias de valor e fluxos comerciais dentro de termos desiguais de troca. Cr\u00edticas heterodoxas sugerem que desequil\u00edbrios globais n\u00e3o podem ser curados apenas por redistribui\u00e7\u00e3o fiscal se a divis\u00e3o internacional do trabalho permanecer intacta. O relat\u00f3rio prop\u00f5e uma reestrutura\u00e7\u00e3o das cadeias de produ\u00e7\u00e3o globais, ou restringe-se a transfer\u00eancias fiscais post-facto?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Gast\u00f3n Nievas:<\/strong> O relat\u00f3rio n\u00e3o se restringe \u00e0 redistribui\u00e7\u00e3o post-facto. O cen\u00e1rio de refer\u00eancia combina a redistribui\u00e7\u00e3o fiscal com uma transforma\u00e7\u00e3o mais ampla dos padr\u00f5es de investimento, das estruturas de produ\u00e7\u00e3o e das trajet\u00f3rias de desenvolvimento. O Fundo de Justi\u00e7a Global financiaria o investimento clim\u00e1tico, a educa\u00e7\u00e3o, a sa\u00fade, a infraestrutura e um Fundo Soberano Mundial projetado para redirecionar o investimento global para o desenvolvimento sustent\u00e1vel. O relat\u00f3rio tamb\u00e9m defende uma transi\u00e7\u00e3o para padr\u00f5es de consumo mais sustent\u00e1veis, incluindo jornadas de trabalho mais curtas, menor intensidade material e maior \u00eanfase nos setores de educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e assist\u00eancia (care). Institucionalmente, o FJG e o FSM teriam influ\u00eancia sobre padr\u00f5es trabalhistas, fluxos comerciais, sistemas de energia e normas de produ\u00e7\u00e3o. Isso cria espa\u00e7o n\u00e3o apenas para a redistribui\u00e7\u00e3o ap\u00f3s a produ\u00e7\u00e3o ter ocorrido, mas tamb\u00e9m para influenciar o que \u00e9 produzido, onde \u00e9 produzido e sob quais condi\u00e7\u00f5es. No cen\u00e1rio de refer\u00eancia, os pa\u00edses em desenvolvimento se afastariam progressivamente da depend\u00eancia da especializa\u00e7\u00e3o em commodities e desenvolveriam setores intensivos em capital humano mais competitivos, permitindo uma integra\u00e7\u00e3o mais equilibrada nas cadeias de valor globais e reduzindo assimetrias estruturais na divis\u00e3o internacional do trabalho.<\/p>\n<p><strong>A atual presid\u00eancia brasileira do G20 priorizou uma profunda reforma da arquitetura financeira internacional. No entanto, os monop\u00f3lios de cotas de vota\u00e7\u00e3o no FMI e no Banco Mundial permanecem fortemente inclinados em favor do Norte Global. Seus dados demonstram que uma democratiza\u00e7\u00e3o do sistema monet\u00e1rio pode ocorrer de forma incremental ou isso requer uma ruptura institucional absoluta?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Gast\u00f3n Nievas:<\/strong> A Plataforma de Justi\u00e7a Global deixa espa\u00e7o para reformas graduais, mas apenas se houver um compromisso cr\u00edvel com uma aut\u00eantica redistribui\u00e7\u00e3o de poder institucional a m\u00e9dio prazo. A mudan\u00e7a incremental pode desempenhar um papel construtivo, mas a hist\u00f3ria recente tamb\u00e9m mostra seus limites. A reforma das cotas do FMI que entrou em vigor em 2016 transferiu apenas cerca de 6% das cotas para os pa\u00edses em desenvolvimento, sem alterar substancialmente o equil\u00edbrio de poder dentro da institui\u00e7\u00e3o. Em nossa vis\u00e3o, a democratiza\u00e7\u00e3o da arquitetura financeira internacional n\u00e3o exige uma ruptura abrupta do dia para a noite, mas exige um horizonte institucional claro. O arcabou\u00e7o proposto vislumbra, portanto, uma transi\u00e7\u00e3o para um sistema de dupla maioria, no qual as decis\u00f5es exigiriam o apoio de 55% dos pa\u00edses que representam 60% da popula\u00e7\u00e3o mundial. Da mesma forma, a moeda da ONU proposta poderia emergir inicialmente de um uso expandido dos Direitos Especiais de Saque do FMI antes de se tornar progressivamente uma moeda internacional aut\u00f4noma, n\u00e3o mais atrelada \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o das moedas nacionais dominantes. A quest\u00e3o central n\u00e3o \u00e9 a ruptura repentina, mas se as reformas genuinamente avan\u00e7am em dire\u00e7\u00e3o a uma ordem internacional mais coletiva e democr\u00e1tica, em vez de permanecerem apenas ajustes simb\u00f3licos.<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Thomas Piketty <\/strong>\u00e9 um das economistas mais influentes em atividades, autor de \u201cO Capital no s\u00e9culo XXI\u201d (2013), no qual defende, atrav\u00e9s da an\u00e1lise de dados estat\u00edsticos, que o capitalismo possui uma tend\u00eancia inerente de concentra\u00e7\u00e3o de riqueza nas m\u00e3os de poucos. <strong>Anmol Somanchi<\/strong> \u00e9 doutorando em Economia na Escola de Economia de Paris e coordenador de Justi\u00e7a Global no Laborat\u00f3rio Mundial da Desigualdade. <strong>Gast\u00f3n Nievas <\/strong>tamb\u00e9m desenvolve seu doutorado em Economia na Escola de Economia de Paris (PSE), sob supervis\u00e3o de Thomas Piketty, e \u00e9 cordenador de Contas Nacionais no Laborat\u00f3rio Mundial de Desigualdade (WIL).<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. Se voc\u00ea valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o, seja nosso apoiador e fortale\u00e7a o jornalismo cr\u00edtico: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post Thomas Piketty vislumbra o p\u00f3s-capitalismo appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/nenhum-presidente-do-brasil-pode-dar-essa-noticia-so-o-lula\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">\u2013 Nenhum presidente do Brasil p\u00f4de dar essa not\u00edci...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/dono-da-ultrafarma-e-diretor-da-fast-shop-sao-soltos-em-sao-paulo\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Dono da Ultrafarma e diretor da Fast Shop s\u00e3o solt...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/morre-em-bh-a-irma-maria-brigida-barbosa-missionaria-da-educacao-popular-e-da-justica-social\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Morre em BH a Irm\u00e3 Maria Br\u00edgida Barbosa, mission\u00e1...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/ataque-dos-eua-no-caribe-matou-dois-cidadaos-de-trinidad-e-tobago\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/54855319209_a39da0d7a2_c-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Ataque dos EUA no Caribe matou dois cidad\u00e3os de Tr...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Relat\u00f3rio coordenado pelo economista sugere: \u00e9 poss\u00edvel eliminar pobreza, reduzir jornadas de trabalho \u00e0 metade e frear o aquecimento global. Pr\u00e9-requisitos: ataque frontal \u00e0 desigualdade e transforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e econ\u00f4mica. 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