{"id":91172,"date":"2026-06-10T14:00:00","date_gmt":"2026-06-10T17:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/mexico-1970-quando-o-brasil-transformou-futebol-em-arte-e-venceu-o-tempo\/"},"modified":"2026-06-10T14:00:00","modified_gmt":"2026-06-10T17:00:00","slug":"mexico-1970-quando-o-brasil-transformou-futebol-em-arte-e-venceu-o-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/mexico-1970-quando-o-brasil-transformou-futebol-em-arte-e-venceu-o-tempo\/","title":{"rendered":"M\u00e9xico, 1970: quando o Brasil transformou futebol em arte e venceu o tempo"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"683\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Brasil-1970.jpg\" alt=\"\" decoding=\"async\" loading=\"lazy\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Brasil-1970.jpg 1024w, https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Brasil-1970-300x200.jpg 300w, https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Brasil-1970-768x512.jpg 768w, https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Brasil-1970-272x182.jpg 272w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><\/p>\n<p>Eles entravam em campo vestidos de amarelo e, enquanto elevavam o futebol ao status de arte, carregavam igualmente o peso de um pa\u00eds partido ao meio. A Sele\u00e7\u00e3o Brasileira que venceu brilhantemente a Copa do Mundo de 1970 protagonizou um evento esportivo inesquec\u00edvel \u2013 mas tamb\u00e9m um acontecimento pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Dentro de campo, aquele Mundial foi o instante em que o esporte alcan\u00e7ou um novo patamar. O futebol jogado no M\u00e9xico, especialmente pelo Brasil, sintetizou uma forma singular de beleza coletiva. A conquista em definitivo da Ta\u00e7a Jules Rimet ocupa um territ\u00f3rio raro, quase mitol\u00f3gico, em que a Sele\u00e7\u00e3o Brasileira transformou improviso em m\u00e9todo, arte em estrat\u00e9gia e alegria em disciplina t\u00e1tica.<\/p>\n<p>Fora das quatro linhas, vivia-se o momento mais sanguin\u00e1rio da ditadura militar (1964-1985). O t\u00edtulo representou as contradi\u00e7\u00f5es profundas desse Brasil que sorria diante das telas enquanto a tortura corria nos por\u00f5es do regime. Os militares tentaram sugar o brilho da conquista para si, mas n\u00e3o conseguiram por completo. O tri pertencia \u00e0 rua, aos bares e \u00e0 ginga que a ditadura tentava extirpar.<\/p>\n<p><strong>O caminho para a Copa<\/strong><\/p>\n<p>Antes da sinfonia, a Sele\u00e7\u00e3o Brasileira quase trope\u00e7ou na pr\u00f3pria partitura. A caminhada para o M\u00e9xico come\u00e7ou antes da Copa e foi carregada de drama, pol\u00edtica e ideologia. O Brasil havia fracassado no Mundial de 1966. Pel\u00e9 foi ca\u00e7ado em campo. Garrincha desapareceu da cena. O futebol brasileiro parecia velho diante da organiza\u00e7\u00e3o europeia e sa\u00eda traumatizado da Inglaterra.<\/p>\n<p>Em fevereiro de 1969, a CBD (Confedera\u00e7\u00e3o Brasileira de Desportos) surpreendeu ao anunciar o jornalista Jo\u00e3o Saldanha, ex-t\u00e9cnico do Botafogo, para comandar a sele\u00e7\u00e3o. Homem de l\u00edngua afiada, dedo em riste e temperamento intempestivo, Saldanha era militante do PCB (Partido Comunista Brasileiro). Nelson Rodrigues o alcunhou de \u201cJo\u00e3o sem Medo\u201d.<\/p>\n<div>\n<figure><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Design-sem-nome-33.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Design-sem-nome-33-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Design-sem-nome-33-300x169.jpg 300w, https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Design-sem-nome-33-768x432.jpg 768w, https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Design-sem-nome-33-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Design-sem-nome-33.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption>Cena do document\u00e1rio <em>Jo\u00e3o Saldanha<\/em> (2008)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Foi, de fato, sem medo que ele reorganizou a Sele\u00e7\u00e3o Brasileira e a tirou do atoleiro. Com um futebol ofensivo e vistoso, classificou o Brasil para o Mundial com uma sequ\u00eancia impec\u00e1vel de seis vit\u00f3rias em seis jogos nas Eliminat\u00f3rias, feito raro at\u00e9 para pot\u00eancias sul-americanas. O ataque deslanchou, com 23 gols. Tost\u00e3o virou c\u00e9rebro ofensivo. Jairzinho ganhou confian\u00e7a. Pel\u00e9 recuperou protagonismo. G\u00e9rson passou a reger o meio-campo com passes diagonais. Os 11 titulares ficaram conhecidos como \u201cas feras do Saldanha\u201d.<\/p>\n<p>Mas o comandante das \u201cferas\u201d ostentava um problema insol\u00favel para a ditadura: a autonomia. Avesso a interfer\u00eancias, o t\u00e9cnico n\u00e3o aceitava palpites nem da CBD, nem do governo. Na v\u00e9spera da convoca\u00e7\u00e3o final, em reuni\u00e3o com a comiss\u00e3o t\u00e9cnica, especulou cortar Pel\u00e9, ent\u00e3o atormentado por les\u00f5es e cobrado pela imprensa. Os cartolas e os militares viram heresia.<\/p>\n<p>A gota d\u2019\u00e1gua veio num embate direto com o regime. Um emiss\u00e1rio do presidente Em\u00edlio Garrastazu M\u00e9dici sugeriu convocar Dario, o Dad\u00e1 Maravilha, para \u201catender a um pedido do povo\u201d. Quando um rep\u00f3rter ga\u00facho questionou Saldanha sobre o pedido do general-ditador, a resposta atravessaria d\u00e9cadas, mas lhe custaria o cargo:<\/p>\n<blockquote>\n<p><em>\u201cEu e o presidente \u2013 ou o presidente e eu \u2013 temos muitas coisas em comum. Somos ga\u00fachos. Somos gremistas. Gostamos de futebol. E nem eu escalo minist\u00e9rio, nem o presidente escala time. Voc\u00ea est\u00e1 vendo que n\u00f3s nos entendemos muito bem.\u201d<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Era uma afronta simb\u00f3lica num pa\u00eds mergulhado desde o final de 1968 no Ato Institucional N\u00famero 5 (AI-5). O Brasil sob M\u00e9dici tinha o \u201cmilagre econ\u00f4mico\u201d e o auge da repress\u00e3o pol\u00edtica. Enquanto \u00edndices de crescimento ganhavam destaque na propaganda oficial, presos pol\u00edticos eram torturados nos por\u00f5es do regime. O governo entendia perfeitamente a pot\u00eancia do futebol como instrumento de coes\u00e3o nacional. Ganhar a Copa significava produzir um pa\u00eds imagin\u00e1rio: harmonioso, vencedor, unido e moderno.<\/p>\n<p>Saldanha ficou inconveniente demais. A menos de tr\u00eas meses para o Mundial-1970, entre press\u00f5es pol\u00edticas do regime e frituras internas, a CBD o demitiu. Oficialmente, ele caiu por diverg\u00eancias t\u00e9cnicas e problemas de sa\u00fade. Extraoficialmente, era imposs\u00edvel para os militares permitir que a grande epopeia nacional tivesse como l\u00edder um comunista indom\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>A campanha \u00e9pica<\/strong><\/p>\n<p>Quem assumiu a sele\u00e7\u00e3o foi M\u00e1rio Jorge Lobo Zagallo, que aceitava as regras do jogo, mesmo as que n\u00e3o estavam escritas. A troca ainda provoca debates. H\u00e1 quem veja injusti\u00e7a hist\u00f3rica com Saldanha. H\u00e1 quem diga que Zagallo deu ao time equil\u00edbrio definitivo. Os dois argumentos s\u00e3o verdadeiros ao mesmo tempo.<\/p>\n<div>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"705\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Zagallo-e-Pele.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Zagallo-e-Pele-1024x705.jpg 1024w, https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Zagallo-e-Pele-300x206.jpg 300w, https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Zagallo-e-Pele-768x529.jpg 768w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Zagallo-e-Pele.jpg 1280w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption><em>Zagallo e Pel\u00e9, durante a concentra\u00e7\u00e3o para a Copa de 1970 (Foto: <strong>\u00a0<\/strong>Acervo \/ Fifa)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Zagallo entendia futebol como poucos. Tinha a experi\u00eancia do bicampeonato mundial como jogador e uma intelig\u00eancia t\u00e1tica muito acima do seu tempo. Herdou um elenco extraordin\u00e1rio e fez dele uma arquitetura quase perfeita, que desafiava a l\u00f3gica posicional do futebol. A forma\u00e7\u00e3o brasileira parecia imposs\u00edvel at\u00e9 no papel: Felix; Carlos Alberto, Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo e G\u00e9rson; Jairzinho, Pel\u00e9, Tost\u00e3o e Rivellino.<\/p>\n<p>Com aud\u00e1cia, o t\u00e9cnico decidiu alinhar cinco camisas 10 originais em seus clubes, sem engarrafamento de talento. Pel\u00e9, o rei universal em sua \u00faltima Copa, n\u00e3o precisava mais provar nada a ningu\u00e9m, apenas coroar a trajet\u00f3ria. Tost\u00e3o era o falso centroavante que antecipou em d\u00e9cadas a ideia do \u201c9 m\u00f3vel\u201d. Rivellino, de bigode, canhota vulc\u00e2nica e chute de tr\u00eas dedos, encarnava a malandragem que n\u00e3o se curva. G\u00e9rson, o \u201cRei do Rio\u201d, o \u201cCanhotinha de Ouro\u201d, retinha a bola e ditava o tempo do jogo, esperando o momento exato em que a defesa advers\u00e1ria se partia para dar lan\u00e7amentos precisos. E Jairzinho, uma locomotiva em campo aberto, parecia predestinado.<\/p>\n<p>Havia, ainda, um detalhe quase liter\u00e1rio: tr\u00eas canhotos geniais, G\u00e9rson, Tost\u00e3o e Rivellino, conduziam a imagina\u00e7\u00e3o brasileira pela esquerda do campo, como se a pr\u00f3pria geometria do futebol tivesse decidido inclinar-se para um lado. Os europeus criticavam a \u201cfrouxid\u00e3o\u201d do trio, sem entenderem que a pausa e a imprevisibilidade eram trunfos do Brasil.<\/p>\n<p>O resultado foi um futebol que o uruguaio Eduardo Galeano mais tarde descreveria como uma obra de arte coletiva, onde a bola parecia procurar os p\u00e9s dos poetas, e n\u00e3o o contr\u00e1rio. A Sele\u00e7\u00e3o Brasileira, escreveu Galeano, \u201cjogava um futebol que vinha do samba e ia para o sonho\u201d.<\/p>\n<p>A Copa do M\u00e9xico carregava outra singularidade hist\u00f3rica. Pela primeira vez em 40 anos de competi\u00e7\u00e3o, cinco campe\u00f5es mundiais estavam reunidos no torneio: Brasil (1958 e 1962), Uruguai (1930 e 1950), It\u00e1lia (1934 e 1938), Inglaterra (1966) e Alemanha Ocidental (1954). Quatro chegaram \u00e0s semifinais. Tr\u00eas deles, Brasil, It\u00e1lia e Uruguai, podiam conquistar em definitivo a Ta\u00e7a Jules Rimet, honraria reservada ao primeiro tricampe\u00e3o. Outro fator que contribu\u00eda para a qualidade da disputa era o n\u00famero reduzido de sele\u00e7\u00f5es no Mundial, apenas 16, tr\u00eas vezes menos que as atuais 48 classificadas para a Copa de 2026.<\/p>\n<p>Se 1954 foi a Copa da avalanche de gols (140 em 26 partidas, m\u00e9dia de 5,38 gols por jogo), 1970 foi a Copa do mais alto n\u00edvel t\u00e9cnico, com tantos gigantes em campo, fluidez, <em>fair play<\/em> e densidade est\u00e9tica. Alemanha e It\u00e1lia fizeram a \u201cPartida do S\u00e9culo\u201d na semifinal. O Uruguai ainda assustava com os fantasmas de 1950. A Inglaterra de Bobby Charlton e Gordon Banks era a campe\u00e3 mundial. E o Brasil, apesar de desacreditado, sobressaiu ao atravessar esse cen\u00e1rio.<\/p>\n<p>A campanha brasileira no M\u00e9xico foi um crescendo. Na estreia, vit\u00f3ria por 4 a 1 sobre a Tchecoslov\u00e1quia. Pel\u00e9, vendo o goleiro Viktor adiantado, tentou marcar de longe, da meia-lua. A bola passou a dois palmos da trave, mas o lance entrou para a mem\u00f3ria do futebol. Como aconteceria tamb\u00e9m na semifinal, ao receber um lan\u00e7amento nas costas da defesa uruguaia e driblar o goleiro Mazurkiewicz sem tocar na bola. Carlos Alberto Torres, capit\u00e3o daquela sele\u00e7\u00e3o, dizia que aquele drible foi melhor do que qualquer gol que ele havia visto.<\/p>\n<div>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"673\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Brasil-Italia-1970.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Brasil-Italia-1970-1024x673.jpg 1024w, https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Brasil-Italia-1970-300x197.jpg 300w, https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Brasil-Italia-1970-768x505.jpg 768w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Brasil-Italia-1970.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption><em>As sele\u00e7\u00f5es da It\u00e1lia e do Brasil, perfiladas antes da final da Copa de 1970<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Diante da Inglaterra, veio o jogo mais emblem\u00e1tico e falado da fase de grupos. Ali estavam, frente a frente, os campe\u00f5es dos tr\u00eas \u00faltimos Mundiais. Num cabeceio de Pel\u00e9 \u00e0 queima-roupa, Gordon Banks fez a defesa mais famosa da hist\u00f3ria das Copas. O pr\u00f3prio Pel\u00e9 gritou gol antes de a bola ser espalmada. Depois, parou, olhou e disse: \u201cMeu Deus\u201d. A frase foi registrada como parte do patrim\u00f4nio oral do esporte. O Brasil venceu por 1 a 0, gol de Jairzinho.<\/p>\n<p>O mundo come\u00e7ou a perceber que aquela sele\u00e7\u00e3o era t\u00e3o talentosa quanto madura. Veio depois o 3 a 2 sobre a Rom\u00eania, com dois gols de Pel\u00e9. Se no papel o Grupo C parecia equilibrado, na pr\u00e1tica o Brasil o transformou num recital. No mata-mata, contra o Peru de Didi, antigo \u00eddolo brasileiro e agora treinador advers\u00e1rio, o Brasil venceu por 4 a 2, num jogo em que Tost\u00e3o participou de tr\u00eas gols.<\/p>\n<p>Na semifinal contra o Uruguai, o carrasco de 1950, a mem\u00f3ria do <em>Maracanazo<\/em> pairava como nuvem antiga. Quando Cubilla abriu o placar para os uruguaios, parecia que um fantasma regressava do passado. Mas Clodoaldo empatou. Jairzinho virou. Rivellino fechou. Ainda restou tempo para Pel\u00e9 desnortear Mazurkiewicz e perder um gol incr\u00edvel.<\/p>\n<p>O Brasil pisaria novamente numa final de Copa contra a It\u00e1lia de Mazzola e Riva. Campe\u00f5es europeus de 1968, os italianos traziam tradi\u00e7\u00e3o, ferocidade defensiva e o embalo emocional da vit\u00f3ria \u00e9pica sobre a Alemanha Ocidental por 4 a 3. Era uma sele\u00e7\u00e3o cascuda, experiente, sofisticada taticamente.<\/p>\n<p><strong>O jogo que mudou o esporte<\/strong><\/p>\n<p>A final em 21 de junho de 1970, diante de 107 mil pessoas no Est\u00e1dio Azteca, \u00e9 uma aula audiovisual de futebol. O Brasil sobrou. Pel\u00e9, em sua \u00faltima apari\u00e7\u00e3o em Copas, jogou com a majestade de quem sabia que estava moldando a eternidade.<\/p>\n<div>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Design-sem-nome-34.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Design-sem-nome-34-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Design-sem-nome-34-300x169.jpg 300w, https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Design-sem-nome-34-768x432.jpg 768w, https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Design-sem-nome-34-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Design-sem-nome-34.jpg 1920w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption><em>Jogadores brasileiros comemoram o gol antol\u00f3gico de Carlos Alberto contra a It\u00e1lia (Foto: Fifa)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Foi o Rei que abriu o placar com uma cabe\u00e7ada monumental, subindo sobre Burgnich como se permanecesse suspenso no ar. Boninsegna empatou ap\u00f3s um erro defensivo brasileiro. G\u00e9rson fez 2 a 1 com um chute de fora da \u00e1rea, de esquerda, com devastadora precis\u00e3o. Jairzinho ampliou (e, com esse gol, tornou-se o \u00fanico jogador a marcar em todas as partidas de uma Copa).<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, ap\u00f3s uma sequ\u00eancia de toques, veio o quarto gol, talvez o gol mais famoso da hist\u00f3ria das Copas. Clodoaldo driblou quatro italianos no meio-campo. Rivellino abriu pela esquerda. Jairzinho prendeu a defesa. Pel\u00e9 recebeu e, sem olhar, rolou para Carlos Alberto chegar em velocidade, batendo no canto do goleiro Albertosi. \u201cN\u00e3o foi um gol, foi um manifesto\u201d, resumiu Eduardo Galeano.<\/p>\n<p>O Brasil venceu por 4 a 1, concluiu uma campanha t\u00e3o perfeita quanto a das Eliminat\u00f3rias (novamente com seis vit\u00f3rias em seis jogos) e ficou com a Ta\u00e7a Jules Rimet. Ela seria roubada em 1983 e nunca mais encontrada, mas isso \u00e9 tema para outra cr\u00f4nica.<\/p>\n<p>Aos 29 anos, Pel\u00e9 se tornou o primeiro (e, at\u00e9 hoje, \u00fanico) atleta tricampe\u00e3o mundial, despedindo-se das Copas como figura planet\u00e1ria, no pico absoluto de sua carreira. Era a Copa da reden\u00e7\u00e3o: em 1966, ele havia sido sistematicamente derrubado e a sele\u00e7\u00e3o foi eliminada ainda na fase de grupos. Quatro anos depois, no calor do M\u00e9xico, ele estava mais s\u00e1bio, paciente e preciso. Fez quatro gols no torneio, distribuiu assist\u00eancias com uma generosidade calculada e participou diretamente de lances eternos. Em muitos sentidos, 1970 encerra a era cl\u00e1ssica de Pel\u00e9 e inaugura sua dimens\u00e3o definitiva de mito.<\/p>\n<p>Eric Hobsbawm considerou aquela Copa o primeiro grande espet\u00e1culo global da televis\u00e3o. Segundo o historiador brit\u00e2nico, o futebol se firmou como um fen\u00f4meno de identidade coletiva global, uma linguagem universal da modernidade \u2013 e a Sele\u00e7\u00e3o Brasileira de 1970 foi sua express\u00e3o mais acabada. O tima\u00e7o liderado por Pel\u00e9 forjou uma imagem internacional de Brasil.<\/p>\n<div>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"360\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/documentario-Pele.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/documentario-Pele.jpg 640w, https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/documentario-Pele-300x169.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\"><figcaption><em>O ditador M\u00e9dici recebe a sele\u00e7\u00e3o brasileira antes da partida dos jogadores para a Copa de 1970<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>A ditadura \u2013 que patrocinava a sele\u00e7\u00e3o com ufanismo for\u00e7ado \u2013 tentou ao m\u00e1ximo se apropriar dessa imagem para capturar o sentimento nacional. O jingle <em>Pra Frente Brasil<\/em> transformou patriotismo num hino de unifica\u00e7\u00e3o falsa, em que o esquadr\u00e3o canarinho era cortina de fuma\u00e7a para censura, persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, viol\u00eancia institucional e assassinatos. M\u00e9dici aparecia nas fotos segurando um radinho de pilha para ouvir os jogos, construindo a imagem do presidente-torcedor. Os jogadores carregavam a press\u00e3o de representar a alegria nacional e, ao mesmo tempo, servir de vitrine para um regime autorit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a conquista, a propaganda oficial explorou ainda mais exaustivamente o time. Parte da esquerda brasileira tratou o Mundial como produto da manipula\u00e7\u00e3o militar e se recusou a comemorar o tri. Era um erro compreens\u00edvel, mas, ainda assim, um erro. O futebol jogado pela Sele\u00e7\u00e3o Brasileira no M\u00e9xico pertencia ao povo muito antes de ser associado ao regime.<\/p>\n<p>A imagem que o mundo viu n\u00e3o era de soldados com armas nas m\u00e3os, mas de malabaristas com a bola nos p\u00e9s. Nenhuma ditadura produz espontaneamente um passe de G\u00e9rson. Nenhum governo fabrica a intelig\u00eancia de Tost\u00e3o. Nenhum aparelho repressivo inventa a alegria torta do drible de Rivellino. Nenhum slogan estatal cria Pel\u00e9. A ditadura tentou sequestrar o tricampeonato politicamente, mas n\u00e3o conseguiu sequestrar sua beleza.<\/p>\n<p>Ironicamente, o time que a ditadura queria como vitrine era composto por homens que, em sua maioria, nada tinham de militares, ordeiros ou d\u00f3ceis. Tinham, sim, ginga, improviso, beleza imprevis\u00edvel. Eram, em campo, tudo aquilo que os militares temiam fora dele.<\/p>\n<p>Mais de meio s\u00e9culo depois, a Sele\u00e7\u00e3o de 1970 permanece como par\u00e2metro quase imposs\u00edvel. Quando algu\u00e9m fala em \u201cfutebol arte\u201d, normalmente est\u00e1 falando daquele time, mesmo sem perceber. A ideia de que jogar bem \u00e9 uma obriga\u00e7\u00e3o moral tanto quanto marcar gols tem sua certid\u00e3o de nascimento naquela campanha brasileira. Da mesma maneira, a proje\u00e7\u00e3o do Brasil como p\u00e1tria criativa da bola nasce ali em escala mundial.<\/p>\n<p>N\u00e3o que as sele\u00e7\u00f5es campe\u00e3s em 1958 ou 1962 fossem menos t\u00e9cnicas. Mas o Mundial-1970 foi o primeiro a ser transmitido em cores para o mundo inteiro, o primeiro a existir visualmente na mem\u00f3ria coletiva global. O Brasil de 1970 foi o espelho mais generoso que o Pa\u00eds j\u00e1 ofereceu de si mesmo ao mundo: inventivo, alegre, coletivo sem ser uniforme, brilhante sem ser frio.<\/p>\n<p>Outras sele\u00e7\u00f5es brasileiras venceram Copas depois disso. Nenhuma jogou com tamanha abund\u00e2ncia est\u00e9tica. O time tricampe\u00e3o resolveu uma contradi\u00e7\u00e3o rara no futebol: ganhar e encantar ao mesmo tempo. Enquanto certas equipes vencem torneios, a lend\u00e1ria Sele\u00e7\u00e3o Brasileira de 1970 venceu o tempo.<\/p>\n<p>SAIBA MAIS<\/p>\n<p><strong><em>O Mundo a Seus P\u00e9s \u2013 O Filme Oficial da Copa do Mundo Fifa 1970<\/em> (document\u00e1rio, 1970)<\/strong><\/p>\n<figure>\n<div>\n<\/div>\n<\/figure>\n<p>*<\/p>\n<p><strong><em>Copa de 1970 \u2013 Depoimentos de Jogadores da Sele\u00e7\u00e3o<\/em> (document\u00e1rio, 2012)<\/strong><\/p>\n<figure>\n<div>\n<\/div>\n<\/figure>\n<p>*<\/p>\n<p><strong><em>Brasil 70 \u2013 A Saga do Tri <\/em>(miniss\u00e9rie, 2026)<\/strong><\/p>\n<figure>\n<div>\n<\/div>\n<\/figure>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/vermelho.org.br\/2026\/06\/10\/mexico-1970-quando-o-brasil-transformou-futebol-em-arte-e-venceu-o-tempo\/\">M\u00e9xico, 1970: quando o Brasil transformou futebol em arte e venceu o tempo<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/vermelho.org.br\/\">Vermelho<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/guerra-no-oriente-medio-9-de-marco-ultimas-noticias\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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