{"id":91294,"date":"2026-06-10T17:35:00","date_gmt":"2026-06-10T20:35:00","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/argentina-milei-em-apuros\/"},"modified":"2026-06-10T17:35:00","modified_gmt":"2026-06-10T20:35:00","slug":"argentina-milei-em-apuros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/argentina-milei-em-apuros\/","title":{"rendered":"Argentina: Milei em apuros"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"888\" height=\"542\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Sem-titulo-3.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Sem-titulo-3.jpg 888w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Sem-titulo-3-300x183.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Sem-titulo-3-768x469.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 888px) 100vw, 888px\"><figcaption>Foto: Erica Canepa\/Bloomberg<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<p><imgsrc=\"\" width=\"1\" height=\"1\" alt=\".\" border=\"0\">\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Por<strong> Jos\u00e9 Natanson<\/strong>, no <em>Nuso<\/em> | Tradu\u00e7\u00e3o: <strong>R\u00f4ney Rodrigues<\/strong><\/p>\n<p>Em outubro do ano passado, para surpresa de grande parte do pa\u00eds, os candidatos do partido de Javier Milei venceram as elei\u00e7\u00f5es legislativas de meio de mandato. O governo vinha de uma derrota nas elei\u00e7\u00f5es locais na crucial prov\u00edncia de Buenos Aires, as den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o se intensificavam e o plano econ\u00f4mico sofria os efeitos de mais uma das muitas corridas financeiras, a tal ponto que precisou ser resgatado <em>in extremis<\/em> pelo Tesouro dos Estados Unidos. Apesar disso, Milei venceu por quase 10 pontos percentuais no total nacional e ainda conseguiu reverter a derrota em Buenos Aires, governada pelo peronismo. L\u00e1, A Liberdade Avan\u00e7a colocou \u00e0 frente de sua lista legislativa o economista Jos\u00e9 Luis Espert, que, no meio da campanha eleitoral, foi denunciado por ter recebido financiamento de um empres\u00e1rio acusado nos Estados Unidos de narcotr\u00e1fico e lavagem de dinheiro. Milei acabou for\u00e7ando a ren\u00fancia de seu candidato, mas j\u00e1 era tarde para imprimir novas c\u00e9dulas eleitorais e seu nome n\u00e3o p\u00f4de ser retirado; mesmo assim, o mile\u00edsmo triunfou naquele territ\u00f3rio dif\u00edcil.<\/p>\n<p>A principal explica\u00e7\u00e3o para essa vit\u00f3ria foi o medo, por parte de um setor da sociedade, de que uma derrota do governo levasse ao precoce colapso do plano econ\u00f4mico, com suas implica\u00e7\u00f5es em termos de desvaloriza\u00e7\u00e3o cambial, infla\u00e7\u00e3o e perda de poder aquisitivo, tal como ocorreu no fim dos governos de Mauricio Macri (2015-2019) e Alberto Fern\u00e1ndez (2019-2023). Ao contr\u00e1rio de outros pa\u00edses latino-americanos que conseguiram consolidar economias est\u00e1veis independentemente das mudan\u00e7as de governo, na Argentina a fragilidade pol\u00edtica e o caos econ\u00f4mico andam de m\u00e3os dadas, algo que a sociedade levou muito em conta na hora de votar. O \u201ctriplo pacto policlassista\u201d de Milei \u2014 ativos financeiros valorizados para as classes altas, d\u00f3lar barato para a classe m\u00e9dia, infla\u00e7\u00e3o contida para as classes populares \u2014 continuou operando.<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Prancheta--11.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Prancheta--11.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Prancheta-4-300x110.png 300w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Ap\u00f3s o resultado eleitoral, que desconcertou tanto o peronismo quanto aqueles que buscaram criar uma terceira via, o governo conquistou uma s\u00e9rie de vit\u00f3rias legislativas. O Congresso aprovou a Lei Or\u00e7ament\u00e1ria, a Lei de Moderniza\u00e7\u00e3o Trabalhista (uma flexibiliza\u00e7\u00e3o que implica, na pr\u00e1tica, um corte nos direitos dos trabalhadores) e a Lei da Inoc\u00eancia Fiscal (uma esp\u00e9cie de amplo perd\u00e3o fiscal). Com o d\u00f3lar calmo e a infla\u00e7\u00e3o ainda em n\u00edveis altos \u2014 entre 2% e 3% ao m\u00eas \u2014 por\u00e9m controlada, abria-se um panorama claro para um presidente que j\u00e1 falava em reelei\u00e7\u00e3o, mas que rapidamente descobriria o perigo de precipitar as coisas.<\/p>\n<p>Seja pelas particularidades desta \u00e9poca, pela acelera\u00e7\u00e3o global ou pela din\u00e2mica infernal de um pa\u00eds particularmente hipercin\u00e9tico, no curto espa\u00e7o de alguns meses a situa\u00e7\u00e3o voltou a mudar, e o que parecia um caminho sem obst\u00e1culos para um segundo mandato em 2027 se transformou em uma via-cr\u00facis que ainda n\u00e3o terminou. As pesquisas coincidem que a imagem do presidente e o apoio \u00e0 sua gest\u00e3o despencaram e, em um plano mais qualitativo, apontam que os dois fatores que ajudavam a explicar a ades\u00e3o ao governo foram se enfraquecendo: as expectativas (cada vez menos pessoas acham que com Milei podem melhorar de vida) e as responsabilidades (cada vez menos pessoas acreditam que a situa\u00e7\u00e3o atual \u00e9 consequ\u00eancia da heran\u00e7a dos governos anteriores, sobretudo do peronismo).<\/p>\n<p>O que aconteceu para que, em t\u00e3o pouco tempo, as coisas mudassem tanto? Ocorrem-me duas respostas complementares, que analiso come\u00e7ando pela mais concreta e terminando pela mais geral.<\/p>\n<p><strong>Emprego, renda, d\u00edvidas<\/strong><\/p>\n<p>Desde dezembro de 2023, quando Milei chegou \u00e0 Casa Rosada, a economia registrou taxas de crescimento positivas, embora tenha sido um crescimento baixo e, sobretudo, muito heterog\u00eaneo, impulsionado basicamente pelo boom dos hidrocarbonetos e, em menor medida, pela minera\u00e7\u00e3o. Vale lembrar que Milei se beneficiou da infraestrutura energ\u00e9tica constru\u00edda por governos anteriores, em particular o Gasoduto N\u00e9stor Kirchner (hoje Perito Moreno), inaugurado em julho de 2023 para transportar g\u00e1s da megajazida de Vaca Muerta, cuja entrada em opera\u00e7\u00e3o contribuiu para reverter a balan\u00e7a energ\u00e9tica e permitiu alcan\u00e7ar um super\u00e1vit hist\u00f3rico no setor.<\/p>\n<p>No entanto, embora din\u00e2micos e internacionalmente competitivos, os complexos extrativos criam poucos empregos, geram escassas cadeias produtivas e est\u00e3o situados em \u00e1reas de baixa densidade populacional, a Cordilheira e a Patag\u00f4nia, distantes das grandes periferias urbanas empobrecidas. \u00c9 verdade que o agroneg\u00f3cio, o \u00fanico setor com possibilidade de oferecer ao mesmo tempo d\u00f3lares para a economia nacional e certo bem-estar em \u00e1reas do interior do pa\u00eds, ter\u00e1, com as chuvas, uma grande safra em 2026, mas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 suficiente.<\/p>\n<p>Se durante meio s\u00e9culo o principal desafio da economia argentina foi a restri\u00e7\u00e3o externa, ou seja, a escassez de d\u00f3lares, hoje o problema \u00e9 outro: os setores que geram divisas n\u00e3o promovem o efeito de transbordamento (trickle-down), e aqueles que fornecem empregos, renda e cadeias produtivas est\u00e3o em queda. De fato, a maior parte da atividade econ\u00f4mica se concentra em tr\u00eas rubricas \u2014 ind\u00fastria, com\u00e9rcio e constru\u00e7\u00e3o \u2014 que, desde que Milei assumiu o governo, ca\u00edram, respectivamente, 9,5%, 4,9% e 14,2%. O crescimento na era Milei \u00e9 um crescimento limitado, quase de enclave, que aprofunda a tend\u00eancia \u00e0 \u201cperuaniza\u00e7\u00e3o\u201d da Argentina. Ou seja, um modelo de estabilidade com alta desigualdade social, um n\u00facleo irredut\u00edvel de pobreza e muita informalidade.<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Arte-1_banner-site-outras-palavras_IC-na-Unesp_728x90-5.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Arte-1_banner-site-outras-palavras_IC-na-Unesp_728x90-5.png 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Arte-1_banner-site-outras-palavras_IC-na-Unesp_728x90-300x37.png 300w\" sizes=\"(max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Em segundo lugar, e como consequ\u00eancia do anterior, a renda da popula\u00e7\u00e3o caiu. Os sal\u00e1rios reais diminu\u00edram 8% desde que Milei assumiu a Presid\u00eancia, e as aposentadorias, 22%, com quedas especialmente not\u00e1veis entre os trabalhadores estatais (18,3%) e os docentes universit\u00e1rios (34,5%). A infla\u00e7\u00e3o est\u00e1 controlada, mas continua alta: entre 2% e 3,5% ao m\u00eas, o que confirma o velho ad\u00e1gio de Juan Domingo Per\u00f3n \u2014 a infla\u00e7\u00e3o sobe pelo elevador e os sal\u00e1rios pela escada \u2014 e obriga a sociedade a uma din\u00e2mica de ajuste permanente de seus gastos. Essa crise de renda se agrava quando se considera que o aumento das tarifas de servi\u00e7os p\u00fablicos, fundamental para a redu\u00e7\u00e3o do d\u00e9ficit fiscal, diminuiu ainda mais a renda dispon\u00edvel das pessoas, ou seja, aquela que resta ap\u00f3s descontar os gastos fixos. Considerando essa vari\u00e1vel, a queda foi ainda maior.<\/p>\n<p>Se a estabilidade da taxa de c\u00e2mbio e a queda da infla\u00e7\u00e3o (o que na Argentina \u00e9 mais ou menos a mesma coisa) explicam o apoio inicial obtido por Milei, imagens mais recentes d\u00e3o conta das priva\u00e7\u00f5es a que uma grande parte da sociedade vem sendo submetida: a\u00e7ougues que j\u00e1 n\u00e3o vendem por quilo, mas sim em fatias (em um pa\u00eds tradicionalmente carn\u00edvoro), uma explos\u00e3o de pessoas dormindo nas ruas e a cena, entre muitas outras similares, de 3 mil pessoas fazendo fila para se candidatar a 60 vagas de emprego em um frigor\u00edfico.<\/p>\n<p>A esse quadro soma-se a deteriora\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os p\u00fablicos, resultado do torniquete or\u00e7ament\u00e1rio: o investimento em educa\u00e7\u00e3o foi reduzido em 40% e em sa\u00fade, 34%. O resultado \u00e9 uma degrada\u00e7\u00e3o social que n\u00e3o se processa mediante um \u00fanico evento disruptivo \u2014 como a hiperinfla\u00e7\u00e3o de 1989, a crise de 2001 ou a pandemia \u2014, mas sim de forma mais lenta e silenciosa, por acumula\u00e7\u00e3o: uma devasta\u00e7\u00e3o em parcelas. Al\u00e9m disso, o governo desmantelou, sob a desculpa da luta contra o clientelismo, boa parte das organiza\u00e7\u00f5es territoriais, cooperativas, restaurantes escolares e comedores comunit\u00e1rios que funcionavam como uma rede de conten\u00e7\u00e3o de \u00faltima inst\u00e2ncia, que forneciam a refei\u00e7\u00e3o quente, a ajuda escolar e at\u00e9 a media\u00e7\u00e3o em conflitos entre vizinhos ou familiares.<\/p>\n<p>Essa desarticula\u00e7\u00e3o organizacional transforma a pobreza da era Milei em uma pobreza com estabilidade, por\u00e9m menos solid\u00e1ria, mais individualizada e dura. E, como assinalaram v\u00e1rios padres que trabalham em zonas populares, o recuo do Estado alimentou o crescimento do narcotr\u00e1fico, que se torna uma atrativa \u201csa\u00edda laboral\u201d para jovens cujo \u00fanico horizonte s\u00e3o os \u201cbicos\u201d (trabalhos informais mal remunerados).<\/p>\n<p>Durante os primeiros dois anos de governo libert\u00e1rio, a sociedade p\u00f4de suportar esse decl\u00ednio gra\u00e7as a tr\u00eas \u201camortecedores sociais\u201d que atenuaram os efeitos mais negativos do ajuste. O primeiro foi a decis\u00e3o do governo de garantir aumentos acima da infla\u00e7\u00e3o das duas grandes pol\u00edticas de transfer\u00eancia de renda: a Asignaci\u00f3n Universal por Hijo, que atende 4,1 milh\u00f5es de crian\u00e7as e adolescentes, e o Cart\u00e3o Alimentar, que alcan\u00e7a 4,5 milh\u00f5es de benefici\u00e1rios. Embora Milei tenha tomado o cuidado de n\u00e3o divulgar essa medida, ciente de que parte de sua base eleitoral a questionaria como uma decis\u00e3o assistencialista em favor dos \u201cvagabundos\u201d ou \u201cbenefici\u00e1rios de planos sociais\u201d, o certo \u00e9 que a renda direta do Estado recebida pelas fam\u00edlias mais pobres aumentou, em m\u00e9dia, 40% e explica a queda nos n\u00fameros da pobreza por renda \u2014 muito dependente, no entanto, dos altos e baixos econ\u00f4micos. Contudo, no \u00faltimo ano, tamb\u00e9m por decis\u00e3o oficial, esses aumentos foram interrompidos.<\/p>\n<p>O segundo amortecedor que ajudou a atravessar a primeira etapa do ajuste \u00e9 a informalidade. Nos \u00faltimos dois anos, foram destru\u00eddos 320 mil postos de trabalho formais, muitos dos quais migraram para os aplicativos de mobilidade e entregas. As plataformas, assim como o microcom\u00e9rcio eletr\u00f4nico e a venda informal, operaram, nessa fase inicial, como um seguro-desemprego privado descentralizado, uma rede de conten\u00e7\u00e3o na qual o Estado n\u00e3o precisou investir um centavo e que ainda se encaixava bem na narrativa empreendedora de Milei. No entanto, com o passar dos meses, ocorreu um efeito de satura\u00e7\u00e3o, o que resultou em rendimentos decrescentes e at\u00e9 na decis\u00e3o de alguns aplicativos de n\u00e3o aceitar mais \u201cparceiros\u201d (por isso as contas boas, com muito hist\u00f3rico e altas avalia\u00e7\u00f5es, hoje s\u00e3o alugadas).<\/p>\n<p>O terceiro fator \u00e9 o endividamento, que tamb\u00e9m encontrou um limite. A taxa de inadimpl\u00eancia atingiu n\u00edveis assustadores. Segundo c\u00e1lculos da consultoria 1816, a irregularidade nos empr\u00e9stimos pessoais dos bancos subiu para 11%, o maior n\u00edvel desde a crise de 2001, e a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais grave nas carteiras virtuais, \u00e0s quais recorrem os trabalhadores informais a um custo financeiro total que hoje chega a 200% ao ano e cujos n\u00edveis de inadimpl\u00eancia giram em torno de 27%.<\/p>\n<p>O problema se agrava porque o dogmatismo do governo o impede de v\u00ea-lo como tal. O ministro da Economia, Luis Caputo, classificou como especuladores aqueles que se endividaram, supostamente pensando que uma reacelera\u00e7\u00e3o inflacion\u00e1ria liquidaria as d\u00edvidas, como se fossem <em>traders<\/em> experientes e n\u00e3o fam\u00edlias desesperadas para pagar a conta de g\u00e1s (h\u00e1 casos de trabalhadores que v\u00e3o ao caixa eletr\u00f4nico na madrugada do dia do dep\u00f3sito do sal\u00e1rio para evitar que, pela manh\u00e3, o dinheiro seja \u201csugado\u201d pelos d\u00e9bitos autom\u00e1ticos das d\u00edvidas a pagar). Paralisado pelos limites de sua cosmovis\u00e3o, o governo est\u00e1 muito longe de compreender esse problema \u2014 que n\u00e3o se reduz a uma soma de decis\u00f5es individuais \u2014 e tentar um plano de desendividamento nos moldes do lan\u00e7ado por Luiz In\u00e1cio Lula da Silva no Brasil.<\/p>\n<p><strong>Expectativas, promessas, tempo<\/strong><\/p>\n<p>Quando Milei conquistou sua inesperada revalida\u00e7\u00e3o eleitoral, escrevi que a oportunidade que a sociedade argentina lhe havia dado, apesar do ajuste, era a \u00faltima, e que, se n\u00e3o come\u00e7asse a entregar resultados, ainda que m\u00ednimos, em termos de n\u00edveis de bem-estar, emprego e melhoria da renda, o clima social mudaria: a estabilidade da taxa de c\u00e2mbio e a desinfla\u00e7\u00e3o, o grande sucesso da primeira etapa de sua gest\u00e3o, j\u00e1 n\u00e3o seriam suficientes.<\/p>\n<p>Na mesma linha, o cientista pol\u00edtico Federico Zapata explica que a vit\u00f3ria libert\u00e1ria marcou o in\u00edcio de uma nova etapa. Milei chegou ao governo com o mandato de quebrar algo que h\u00e1 muito tempo deixara de funcionar. Entre 2011 e 2023, uma verdadeira d\u00e9cada perdida, a economia argentina praticamente n\u00e3o cresceu, mal criou emprego privado e experimentou, uma ap\u00f3s a outra, sucessivas crises de desvaloriza\u00e7\u00e3o cambial, disparadas inflacion\u00e1rias, \u201ccepos\u201d (controles cambiais) que impediam a compra de d\u00f3lares e at\u00e9 um minicalote da d\u00edvida. Mas, estabilizadas as grandes vari\u00e1veis, a clivagem, diz Zapata, mudou: passou de outsider-sistema para reforma-antirreforma. Assim, o presidente j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 visto como o l\u00edder exc\u00eantrico e decisionista que veio fazer o que outros n\u00e3o ousaram fazer \u2014 o ajuste estabilizador \u2014, mas como o chefe de um governo que, dotado de apoio social e poder pol\u00edtico, deve empreender mudan\u00e7as profundas e construir uma nova ordem econ\u00f4mica, diferente da do passado, provavelmente mais capitalista e pr\u00f3-mercado, mas que gere resultados concretos.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente a\u00ed que Milei est\u00e1 falhando. Sua gest\u00e3o \u00e9 um menu de dois ou tr\u00eas pratos. Na economia, ajuste fiscal e gerenciamento do dia a dia financeiro para manter o d\u00f3lar e a infla\u00e7\u00e3o sob controle (como muitos j\u00e1 apontaram, o ministro Caputo \u00e9 mais um trader do que um macroeconomista); em mat\u00e9ria de seguran\u00e7a cidad\u00e3, m\u00e3o dura e repress\u00e3o \u00e0 protesto social para dar a impress\u00e3o de ordem; na pol\u00edtica internacional, alinhamento absoluto com Donald Trump e Benjamin Netanyahu. Tudo isso, no quadro da batalha cultural reacion\u00e1ria, que se intensifica ou se reduz conforme o momento e as circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>Por sua pr\u00f3pria natureza, o governo de Milei d\u00e1 passos curtos, incapaz de oferecer algo parecido com um plano de m\u00e9dio prazo. O presidente demonstrou ser um l\u00edder disposto a correr riscos, at\u00e9 mesmo temer\u00e1rio, e de grande intui\u00e7\u00e3o, mas por personalidade e forma\u00e7\u00e3o n\u00e3o parece apto para enfrentar o desafio de construir algo mais permanente e consistente: uma ordem econ\u00f4mica sustentada em um novo pacto social. A negocia\u00e7\u00e3o legislativa, os acordos de coaliz\u00e3o, o planejamento e a persuas\u00e3o \u2014 todas ferramentas imprescind\u00edveis para um projeto desse tipo \u2014 s\u00e3o-lhe estranhas.<\/p>\n<p>A compara\u00e7\u00e3o com Carlos Menem, que liderou nos anos 1990 um bem-sucedido projeto de reforma neoliberal \u2014 ao menos em seus pr\u00f3prios termos \u2014 ilustra esse ponto. Assim como Milei, Menem concretizou um plano ortodoxo de ajuste fiscal; assim como Milei, contava com o apoio dos Estados Unidos \u2014 os ventos da hist\u00f3ria, digamos, sopravam tamb\u00e9m a seu favor ap\u00f3s a queda do Muro de Berlim \u2014; assim como Milei, Menem era um l\u00edder audaz; e assim como Milei, mantinha-se um tanto afastado do dia a dia da gest\u00e3o (tamb\u00e9m preferia passar o dia em Olivos, a resid\u00eancia privada do presidente, em vez da Casa Rosada, a sede operacional do governo). A diferen\u00e7a \u00e9 que Menem apoiava-se em uma equipe de experientes dirigentes e economistas, cuja face mais vis\u00edvel era seu ministro da Economia, Domingo Cavallo, e que o \u00edmpeto reformista de seu governo, n\u00e3o menos ambicioso que o atual, organizou-se em torno do Plano de Convertibilidade, que n\u00e3o foi um simples programa de estabiliza\u00e7\u00e3o macroecon\u00f4mica, mas sim um verdadeiro pacto social, pelo qual a sociedade entregou ao mercado as decis\u00f5es sobre emprego e desigualdade, mas recebeu em troca estabilidade e consumo.<\/p>\n<p>Em seus primeiros dois anos de gest\u00e3o, Milei conseguiu conter o d\u00f3lar e reduzir a infla\u00e7\u00e3o, mas esse al\u00edvio foi ficando para tr\u00e1s. A infla\u00e7\u00e3o mant\u00e9m um n\u00facleo at\u00e9 agora irredut\u00edvel, e as preocupa\u00e7\u00f5es sociais se deslocaram para a renda, o trabalho e a pobreza. Como costuma acontecer na Argentina, quando a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica aperta, a corrup\u00e7\u00e3o come\u00e7a a se tornar vis\u00edvel ou intoler\u00e1vel, e o governo de Milei vive atualmente perturbado por esc\u00e2ndalos, como o do enriquecimento pessoal do chefe de gabinete, Manuel Adorni, um suposto cruzado contra o uso do Estado pelos pol\u00edticos da casta. Milei acredita que tudo se resume a uma conspira\u00e7\u00e3o da m\u00eddia e trata os jornalistas, especificamente \u201c95%\u201d deles segundo o c\u00e1lculo presidencial, de \u201cimundices\u201d e \u201cmerdas humanas\u201d (sic). Seu lema \u00e9 \u201cN\u00e3o odiamos os jornalistas o suficiente\u201d (sintetizado na sigla \u201cNOLSALP\u201d que ele usa em seus tu\u00edtes) e ele se mostra cada vez mais impulsivo nas redes sociais, onde os xingamentos ganham intensidade enquanto os problemas aumentam e se aprofunda a fissura interna entre a ala de sua poderos\u00edssima irm\u00e3 Karina e aqueles que respondem ao \u201cmago do Kremlin\u201d, seu assessor nas sombras Santiago Caputo. Trata-se de disputas cada vez mais abertas, que se traduzem em lutas pelo controle do Estado (justi\u00e7a, intelig\u00eancia e diversas \u201ccaixas\u201d, ou seja, \u00f3rg\u00e3os com grandes recursos) e que se expressam no mundo da internet, onde operam \u201cAs For\u00e7as do C\u00e9u\u201d, a guerrilha digital de Caputo.<\/p>\n<p>O peronismo, que continua sendo a principal for\u00e7a opositora, come\u00e7ou a se movimentar; ainda est\u00e1 se desentorpecendo lentamente. Ao mesmo tempo, alguns setores do poder econ\u00f4mico que nunca aceitaram totalmente Milei, a quem viam e continuam vendo como um outsider grotesco e imprevis\u00edvel, exploram alternativas. Os rompantes do presidente contra Paolo Rocca, um dos empres\u00e1rios mais importantes do pa\u00eds, s\u00e3o significativos dos complexos v\u00ednculos entre Milei e a burguesia argentina. O estopim foi uma licita\u00e7\u00e3o de tubos para um gasoduto em Vaca Muerta que a Tenaris, empresa de Rocca, perdeu para a indiana Welspun. Milei acusou ent\u00e3o o empres\u00e1rio de financiar cr\u00edticas na m\u00eddia contra essa decis\u00e3o e o apelidou de forma insultuosa de \u201cDom Sucatinho\u201d.<\/p>\n<p>Hoje, muitos conhecedores do mundo das elites est\u00e3o constatando que um setor delas aposta em um mile\u00edsmo sem Milei, um neoliberalismo \u201cs\u00e9rio\u201d, sem os empres\u00e1rios lumpesinos e oportunistas que rondam o presidente em busca de algum neg\u00f3cio r\u00e1pido, aproveitando oportunidades fugidias oferecidas pelo governo \u201clibert\u00e1rio\u201d, como foi o caso da fraudulenta criptomoeda Libra, e sem personagens dif\u00edceis de escrutinar como Karina Milei, que da noite para o dia passou a controlar grande parte do aparato estatal.<\/p>\n<p>Mas nada est\u00e1 definido. No ano que vem h\u00e1 elei\u00e7\u00f5es presidenciais, e mesmo com esta crise social, um presidente que consiga continuar unificando a direita \u2014 Milei conseguiu cooptar o partido de Mauricio Macri \u2014, expressar o anti-peronismo e garantir a estabilidade continua sendo competitivo. Milei, que j\u00e1 demonstrou outras vezes ser capaz de se levantar e continuar lutando, atravessa um momento cr\u00edtico: pode dar uma guinada em sua gest\u00e3o para avan\u00e7ar em dire\u00e7\u00e3o a um programa de reforma mais profundo, pode apostar em sustentar agonicamente o desenho econ\u00f4mico (e rezar para que isso lhe seja suficiente), ou pode se tornar mais um caso das \u201chegemonias breves\u201d que v\u00eam marcando a vida pol\u00edtica desde que o fim do modelo kirchnerista mergulhou a Argentina em uma decad\u00eancia sem rumo.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Presidente sequer tem um projeto de m\u00e9dio prazo e j\u00e1 se indisp\u00f5e com as elites, que almejam um \u201cneoliberalismo est\u00e1vel\u201d. Peronismo v\u00ea uma brecha. 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