{"id":91319,"date":"2026-06-10T18:41:51","date_gmt":"2026-06-10T21:41:51","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/emissao-de-titulos-em-yuan-pelo-brasil-e-alternativa-a-selic\/"},"modified":"2026-06-10T18:41:51","modified_gmt":"2026-06-10T21:41:51","slug":"emissao-de-titulos-em-yuan-pelo-brasil-e-alternativa-a-selic","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/emissao-de-titulos-em-yuan-pelo-brasil-e-alternativa-a-selic\/","title":{"rendered":"Emiss\u00e3o de t\u00edtulos em yuan pelo Brasil \u00e9 alternativa \u00e0 SELIC?"},"content":{"rendered":"<p><span>O motivo inicial desse texto s\u00e3o os argumentos apresentados por Elias Jabour e a confus\u00e3o te\u00f3rica e pr\u00e1tica que ele e outros autores (alguns neodesenvolvimentistas e neocl\u00e1ssicos) cometem em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 gest\u00e3o da pol\u00edtica monet\u00e1ria e a diferen\u00e7a estrutural entre d\u00edvida interna e d\u00edvida externa. Apesar de Elias pertencer ao campo pr\u00f3-desenvolvimento e da defesa da soberania nacional, acaba cometendo v\u00e1rios erros graves sobre o entendimento dos mecanismos de financiamento p\u00fablico. Com isso, sua an\u00e1lise e perspectiva para a agenda pol\u00edtica e econ\u00f4mica ficam debilitadas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>A interpreta\u00e7\u00e3o de Elias sobre a emiss\u00e3o de t\u00edtulos p\u00fablicos denominados em yuan possui um elemento relevante: destaca a dimens\u00e3o geopol\u00edtica e financeira da diversifica\u00e7\u00e3o dos ativos externos em um cen\u00e1rio de profunda altera\u00e7\u00e3o na geopol\u00edtica internacional e a ascens\u00e3o da China, como potencial global. Mas, ao mesmo tempo, apresenta uma confus\u00e3o conceitual e de entendimento da macroeconomia ao tratar essa opera\u00e7\u00e3o como uma alternativa direta \u00e0 taxa Selic e ao financiamento p\u00fablico.\u00a0<\/span><\/p>\n<figure aria-describedby=\"caption-attachment-257198\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/54155902148_836c85ca70_c.jpg\" alt=\" Os presidentes do Brasil, Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, e da China, Xi Jinping, dujrante encontro no Pal\u00e1cio da Alvorada, em Bras\u00edlia. &lt;br&gt; (Foto: Ricardo Stcukert \/ PR)\" width=\"799\" height=\"533\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/54155902148_836c85ca70_c.jpg 799w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/54155902148_836c85ca70_c-300x200.jpg 300w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/54155902148_836c85ca70_c-768x512.jpg 768w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/54155902148_836c85ca70_c-150x100.jpg 150w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/54155902148_836c85ca70_c-750x500.jpg 750w\" sizes=\"(max-width: 799px) 100vw, 799px\"><figcaption>Os presidentes do Brasil, Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, e da China, Xi Jinping, dujrante encontro no Pal\u00e1cio da Alvorada, em Bras\u00edlia. <br \/>(Foto: Ricardo Stcukert \/ PR)<\/figcaption><\/figure>\n<p><span>A emiss\u00e3o de t\u00edtulos em moeda estrangeira e a emiss\u00e3o de t\u00edtulos em moeda dom\u00e9stica possuem naturezas econ\u00f4micas distintas, pois envolvem restri\u00e7\u00f5es diferentes. A d\u00edvida p\u00fablica denominada em reais \u00e9 um passivo emitido pelo pr\u00f3prio Estado em sua moeda soberana, enquanto uma d\u00edvida denominada em yuan, d\u00f3lar ou qualquer outra moeda representa uma obriga\u00e7\u00e3o externa, sujeita \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de disponibilidade e varia\u00e7\u00e3o cambial dessa moeda. Dessa forma, comparar diretamente um t\u00edtulo em yuan com t\u00edtulos p\u00fablicos brasileiros remunerados pela Selic implica ignorar a diferen\u00e7a fundamental entre d\u00edvida interna e d\u00edvida externa; \u00e9 como misturar \u00e1gua com azeite.<\/span><\/p>\n<p><span>A afirma\u00e7\u00e3o de que t\u00edtulos chineses com juros pr\u00f3ximos a 3% representariam uma alternativa \u00e0 Selic pode parecer sedutora, mas tamb\u00e9m precisa ser analisada com cautela. A Selic \u00e9 a taxa b\u00e1sica de juros da economia brasileira e cumpre uma fun\u00e7\u00e3o dentro do regime monet\u00e1rio dom\u00e9stico, influenciando a estrutura de remunera\u00e7\u00e3o dos ativos denominados em reais e a pol\u00edtica monet\u00e1ria conduzida pelo Banco Central. Um t\u00edtulo emitido em yuan n\u00e3o substitui esse mecanismo, pois n\u00e3o representa uma alternativa de financiamento interno do Estado brasileiro em sua pr\u00f3pria moeda.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>O Estado n\u00e3o precisa obter previamente a moeda que ele pr\u00f3prio emite para realizar seus gastos, pois a despesa p\u00fablica antecede, logicamente, a arrecada\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria \u2013 afinal, de onde veio o dinheiro que posteriormente \u00e9 arrecadado? A emiss\u00e3o de t\u00edtulos p\u00fablicos funciona como uma opera\u00e7\u00e3o de gest\u00e3o da liquidez e da estrutura financeira da economia, que acontece a posteriori. Ou seja, as pessoas e empresas recebem seu fluxo monet\u00e1rio e posteriormente o excedente desse fluxo monet\u00e1rio \u00e9 aplicado em t\u00edtulos, como CDB ou t\u00edtulos do governo, entre outros ativos financeiros. Na leitura colocada por Elias e economistas de forma\u00e7\u00e3o ortodoxa, a moeda dom\u00e9stica \u00e9 vista como equivalente \u00e0 moeda nacional. Contudo, existe uma diferen\u00e7a fundamental entre esses dois processos. A emiss\u00e3o de t\u00edtulos p\u00fablicos em reais n\u00e3o ocorre porque o Estado precisa obter reais para gastar, mas porque esses t\u00edtulos cumprem fun\u00e7\u00f5es dentro da organiza\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria, especialmente no gerenciamento das reservas banc\u00e1rias e da taxa de juros e a renda excedente das fam\u00edlias e empresas, que \u00e9 diferente do papel dos ativos e passivos externos, que est\u00e3o mais relacionados \u00e0 gest\u00e3o de liquidez monet\u00e1ria externa.<\/span><\/p>\n<p><span>Por outro lado, a d\u00edvida externa possui uma natureza distinta, pois envolve uma restri\u00e7\u00e3o externa, em uma moeda que n\u00e3o emitimos. Um pa\u00eds que emite sua pr\u00f3pria moeda possui capacidade de criar meios de pagamento dom\u00e9sticos, mas n\u00e3o possui a mesma capacidade de criar moedas estrangeiras aceitas internacionalmente. Dessa forma, as limita\u00e7\u00f5es externas de uma economia est\u00e3o associadas \u00e0 necessidade de obten\u00e7\u00e3o de divisas para importar bens de capital, tecnologia, insumos estrat\u00e9gicos e cumprir compromissos internacionais. A verdadeira restri\u00e7\u00e3o ao desenvolvimento de pa\u00edses perif\u00e9ricos n\u00e3o est\u00e1 necessariamente na capacidade fiscal do Estado em sua pr\u00f3pria moeda, mas na capacidade de utilizar mecanismos de financiamento, seja via o Estado ou pelo sistema banc\u00e1rio, que promovam o desenvolvimento produtivo interno, a m\u00e3o de obra, e que conquistem moeda estrangeira. Nesse sentido, a quest\u00e3o central para uma estrat\u00e9gia nacional de desenvolvimento n\u00e3o \u00e9 simplesmente encontrar novas formas de financiar o Estado, mas como esse financiamento possibilita ampliar a capacidade produtiva, tecnol\u00f3gica e a capacidade de exporta\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span>Isso n\u00e3o significa que uma emiss\u00e3o de t\u00edtulos em yuan n\u00e3o possua relev\u00e2ncia estrat\u00e9gica. Ela pode representar um movimento de aproxima\u00e7\u00e3o financeira com a China, ampliar os instrumentos de coopera\u00e7\u00e3o entre os pa\u00edses e reduzir parcialmente a depend\u00eancia exclusiva dos mercados financeiros tradicionais denominados em d\u00f3lar. Mas esses ativos devem ser conquistados a partir da gera\u00e7\u00e3o de excedente externo, particularmente vinculado a uma estrutura exportadora mais competitiva e em setores com maior complexidade econ\u00f4mica. Sua import\u00e2ncia est\u00e1 mais relacionada \u00e0 diversifica\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es financeiras externas e \u00e0 amplia\u00e7\u00e3o dos instrumentos de inser\u00e7\u00e3o internacional do Brasil do que a uma mudan\u00e7a estrutural na soberania monet\u00e1ria dom\u00e9stica.<\/span><\/p>\n<p><span>Portanto, a relev\u00e2ncia da opera\u00e7\u00e3o deve ser analisada em dois n\u00edveis distintos. Internamente, ela possui impacto limitado sobre a din\u00e2mica da d\u00edvida p\u00fablica brasileira em reais e n\u00e3o representa uma alternativa \u00e0 Selic ou ao funcionamento do sistema monet\u00e1rio dom\u00e9stico. Externamente, pode contribuir para uma estrat\u00e9gia de diversifica\u00e7\u00e3o financeira e aproxima\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica com a China, mas n\u00e3o elimina a principal restri\u00e7\u00e3o estrutural das economias perif\u00e9ricas: a necessidade de desenvolver capacidade produtiva e tecnol\u00f3gica capaz de reduzir a depend\u00eancia de divisas estrangeiras e melhorar estruturalmente nosso balan\u00e7o de pagamento para bens e servi\u00e7os em setores mais complexos. Podemos fazer isso com financiamento interno do Estado ou do nosso sistema banc\u00e1rio, n\u00e3o precisamos necessariamente do financiamento externo. O erro anal\u00edtico est\u00e1 em tratar uma opera\u00e7\u00e3o de diversifica\u00e7\u00e3o externa como se fosse uma solu\u00e7\u00e3o para uma restri\u00e7\u00e3o fiscal interna, confundindo dois problemas econ\u00f4micos de naturezas completamente distintas. Em alguns momentos pode-se utilizar esse financiamento, mas isso tem que estar muito bem avaliado, e somente em um cen\u00e1rio de alta restri\u00e7\u00e3o externa, que realmente entrave o crescimento nacional, ou seja; n\u00e3o se deve utilizar esse tipo de financiamento em qualquer cen\u00e1rio, pois deve-se ter clareza dos riscos envolvidos.<\/span><\/p>\n<p><span>Mesmo que tenhamos financiamento externo, Elias parece n\u00e3o expor que a principal restri\u00e7\u00e3o fiscal do Brasil \u00e9 autoimposta por um conjunto de regras fiscais que inviabilizam expans\u00e3o do gasto p\u00fablico superior a 2,5% acima da infla\u00e7\u00e3o. Nesse cen\u00e1rio, pouco importa o financiamento externo, pois o Estado de qualquer maneira n\u00e3o poder\u00e1 ampliar suas despesas al\u00e9m do novo teto de gastos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>Como agravante, \u00e9 importante destacar que essa substitui\u00e7\u00e3o de t\u00edtulos implica aumento do passivo externo brasileiro e, consequentemente, amplia a exposi\u00e7\u00e3o do pa\u00eds \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de liquidez e \u00e0s oscila\u00e7\u00f5es do sistema financeiro internacional, elevando a vulnerabilidade externa. Nesse ambiente, o Brasil se torna mais suscet\u00edvel a crises externas, o que pode comprometer a capacidade de condu\u00e7\u00e3o de um projeto de desenvolvimento nacional e de amplia\u00e7\u00e3o da soberania econ\u00f4mica \u2013 justamente o projeto que Elias defende. Uma an\u00e1lise hist\u00f3rica comparativa importante \u00e9 com o per\u00edodo do milagre econ\u00f4mico brasileiro, quando os governos militares utilizaram fortemente o endividamento externo como instrumento de financiamento do desenvolvimento, sendo que a an\u00e1lise do Elias tem um problema adicional: o cen\u00e1rio externo do Brasil hoje \u00e9 diferente do dos 1960 a 1980.<\/span><\/p>\n<p><span>Naquele contexto, o aumento da d\u00edvida externa esteve associado a uma estrat\u00e9gia de acelera\u00e7\u00e3o do crescimento e industrializa\u00e7\u00e3o, mas as transforma\u00e7\u00f5es da geopol\u00edtica internacional, especialmente a cria\u00e7\u00e3o dos petrod\u00f3lares nos anos 1970 e a eleva\u00e7\u00e3o dos juros internacionais na d\u00e9cada de 1980, desencadearam uma crise externa que interrompeu aquele processo de desenvolvimento desigual que o Brasil vinha promovendo. O agravante da an\u00e1lise de Elias \u00e9 que, diferentemente do per\u00edodo entre as d\u00e9cadas de 1960 e 1980, quando o Brasil possu\u00eda uma restri\u00e7\u00e3o externa muito mais intensa e dependia de financiamento externo para sustentar elevadas taxas de crescimento, o cen\u00e1rio atual apresenta uma posi\u00e7\u00e3o externa relativamente mais robusta. Assim, a amplia\u00e7\u00e3o do passivo externo n\u00e3o responde necessariamente a uma restri\u00e7\u00e3o estrutural existente, podendo, ao contr\u00e1rio, criar vulnerabilidades para um projeto de desenvolvimento nacional, indo no sentido contr\u00e1rio da defesa p\u00fablica do Elias de um projeto nacional de desenvolvimento.<\/span><\/p>\n<p><b><i>(*) Thiago Machado dos Santos<\/i><\/b><i><span> \u00e9 Doutorando em Economia pela UFRJ, Gestor Or\u00e7ament\u00e1rio e de Planejamento<\/span><\/i><\/p>\n<p>O post Emiss\u00e3o de t\u00edtulos em yuan pelo Brasil \u00e9 alternativa \u00e0 SELIC? apareceu primeiro em Opera Mundi.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-caleidoscopio\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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