{"id":91619,"date":"2026-06-11T17:53:03","date_gmt":"2026-06-11T20:53:03","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/austeridade-fiscal-uma-ficcao-cientifica\/"},"modified":"2026-06-11T17:53:03","modified_gmt":"2026-06-11T20:53:03","slug":"austeridade-fiscal-uma-ficcao-cientifica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/austeridade-fiscal-uma-ficcao-cientifica\/","title":{"rendered":"Austeridade fiscal, uma fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"865\" height=\"578\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_4997112149192674364_y-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_4997112149192674364_y-1.jpg 865w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_4997112149192674364_y-300x200.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_4997112149192674364_y-768x513.jpg 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_4997112149192674364_y-272x182.jpg 272w\" sizes=\"(max-width: 865px) 100vw, 865px\"><figcaption>Arte de rua anti-austeridade em Atenas mostra uma pilha de euros representada como um caix\u00e3o. Foto: Socrates Baltagiannis\/dpa\/Corbis<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<p><imgsrc=\"\" width=\"1\" height=\"1\" alt=\".\" border=\"0\">\n<\/div>\n<\/div>\n<p>H\u00e1 uma frase famosa na pol\u00edtica tradicional que diz que \u201co or\u00e7amento do Estado \u00e9 igual ao or\u00e7amento da sua casa\u201d. Se voc\u00ea gasta mais do que ganha, quebra. Essa analogia, repetida exaustivamente nos telejornais, nas colunas do <em>Valor Econ\u00f4mico <\/em>e nos discursos de parlamentares, cumpre uma fun\u00e7\u00e3o muito espec\u00edfica: transformar a economia em um assunto de moralidade familiar. O Estado que investe na sa\u00fade ou na garantia de emprego \u00e9 pintado como o pai ou m\u00e3e de fam\u00edlia irrespons\u00e1vel que estourou o cart\u00e3o de cr\u00e9dito.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que essa premissa \u00e9 fundamentalmente falsa. Um Estado soberano, que emite a sua pr\u00f3pria moeda, n\u00e3o funciona como uma fam\u00edlia. Ele n\u00e3o precisa \u201cpegar emprestado\u201d o dinheiro que ele mesmo tem o poder exclusivo de criar. No entanto, a for\u00e7a dessa mentira n\u00e3o reside na sua precis\u00e3o t\u00e9cnica, mas na sua blindagem ideol\u00f3gica. A economia de mercado conseguiu um feito religioso: convencer a sociedade de que as suas escolhas pol\u00edticas s\u00e3o, na verdade, leis imut\u00e1veis da natureza.<\/p>\n<p>Quando Andr\u00e9 Lara Resende aponta para a \u201cfada da d\u00edvida p\u00fablica\u201d ou discute como a \u201cd\u00edvida p\u00fablica \u00e9 a riqueza privada\u201d, ele est\u00e1 tocando na ferida que a ortodoxia tenta esconder a todo custo. O p\u00e2nico fiscal criado em torno do endividamento do Estado n\u00e3o serve para salvar o pa\u00eds da ru\u00edna; serve para garantir que os recursos p\u00fablicos continuem sendo transferidos, via juros, para o topo da pir\u00e2mide financeira.<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/14--13.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/14--13.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/14-1-300x110.png 300w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Para entender como esse dogma se sustenta mesmo falhando sistematicamente na realidade, precisamos dar um passo atr\u00e1s. N\u00e3o basta discutir n\u00fameros; \u00e9 preciso discutir como esses n\u00fameros s\u00e3o validados como \u201cverdade\u201d. \u00c9 a\u00ed que a economia deixa de ser um debate t\u00e9cnico e passa a ser uma disputa epistemol\u00f3gica, uma batalha sobre o que \u00e9 ci\u00eancia e o que \u00e9 pura propaganda de classe.<\/p>\n<p> *<\/p>\n<p>Antes de implodirmos os mitos fiscais que aprisionam o Brasil, precisamos dar um nome ao territ\u00f3rio onde essa batalha acontece. A macroeconomia \u00e9, em termos simples, o estudo da economia olhada de bin\u00f3culo, e n\u00e3o de microsc\u00f3pio. Enquanto a microeconomia se preocupa em como voc\u00ea decide gastar o seu sal\u00e1rio ou como uma padaria define o pre\u00e7o do p\u00e3o, a macroeconomia lida com os grandes agregados. Ela tenta entender e gerenciar o oxig\u00eanio do sistema: o n\u00edvel de emprego, a infla\u00e7\u00e3o, o crescimento de um pa\u00eds e as decis\u00f5es do governo sobre quanto arrecadar em impostos e onde investir.<\/p>\n<p>Historicamente, a macroeconomia nasceu de uma necessidade social. Ela ganhou corpo nos anos 1930, quando o capitalismo ruiu na Grande Depress\u00e3o e milh\u00f5es de trabalhadores se viram sem emprego e sem comida nas ruas da Europa e dos Estados Unidos. Foi ali que John Maynard Keynes percebeu que o mercado livre n\u00e3o se autorregula. Se o Estado n\u00e3o intervier injetando dinheiro na economia para gerar emprego e fazer a roda girar, o sistema simplesmente para. A macroeconomia, portanto, nasceu para resolver crises humanas reais.<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, por\u00e9m, esse campo sofreu um sequestro intelectual. O que era um debate sobre vidas, sal\u00e1rios e soberania popular foi trancado em salas de computadores nas universidades do Norte Global. A pol\u00edtica econ\u00f4mica foi desidratada e transformada em pura matem\u00e1tica pura, uma esp\u00e9cie de engenharia abstrata onde as pessoas de carne e os osso viraram apenas vari\u00e1veis invis\u00edveis em equa\u00e7\u00f5es insol\u00faveis.<\/p>\n<p>Quem denunciou esse processo com uma crueza surpreendente n\u00e3o foi um militante de esquerda, mas um dos nomes mais laureados do pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o do sistema: Paul Romer, vencedor do Pr\u00eamio Nobel de Economia. Em um artigo demolidor intitulado <em>The Trouble With Macroeconomics <\/em>(O Problema com a Macroeconomia), Romer aponta que a disciplina operou um verdadeiro retrocesso intelectual nos \u00faltimos trinta anos, aproximando-se mais de uma pseudoci\u00eancia do que de um conhecimento rigoroso.<\/p>\n<p>A principal pe\u00e7a de acusa\u00e7\u00e3o de Romer gira em torno do abuso da matem\u00e1tica e da econometria, o uso de ferramentas estat\u00edsticas complexas para analisar dados econ\u00f4micos. Os economistas ortodoxos passaram a criar modelos de simula\u00e7\u00e3o computacional incrivelmente sofisticados, conhecidos pela sigla DSGE (<em>Dynamic Stochastic General Equilibrium<\/em>, ou Equil\u00edbrio Geral Din\u00e2mico Estoc\u00e1stico). O nome pomposo serve justamente para assustar os leigos, mas o que h\u00e1 por tr\u00e1s dele \u00e9 uma fragilidade metodol\u00f3gica assustadora.<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/VENETA-3.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/VENETA-3.png 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/VENETA-300x37.png 300w\" sizes=\"(max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Esses modelos tentam prever o comportamento de toda a economia de um pa\u00eds partindo de premissas absurdas e completamente fora da realidade. Eles assumem, por exemplo, que todos os consumidores e empresas agem sempre de forma perfeitamente racional, que possuem informa\u00e7\u00f5es completas sobre o futuro e que os mercados tendem naturalmente ao equil\u00edbrio perfeito. \u00c9 uma fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica de mau gosto.<\/p>\n<p>Romer argumenta que essa blindagem matem\u00e1tica n\u00e3o serve para revelar a verdade, mas para esconder premissas ideol\u00f3gicas fracas. Quando um economista do Banco Central ou um consultor do mercado financeiro apresenta um gr\u00e1fico tridimensional gerado por um modelo econom\u00e9trico complexo, o debate p\u00fablico \u00e9 silenciado. Afinal, como o cidad\u00e3o comum, o l\u00edder sindical ou o deputado podem questionar uma equa\u00e7\u00e3o que exige doutorado para ser lida?<\/p>\n<p>\u00c9 exatamente assim que a ideologia neoliberal opera o seu maior milagre: transforma uma op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, a austeridade fiscal, o corte de gastos na sa\u00fade, a privatiza\u00e7\u00e3o, em uma suposta \u201clei da natureza\u201d. O que deveria ser apenas uma teoria econ\u00f4mica controversa passa a ser tratado nos jornais como se fosse a lei da gravidade. Se o modelo matem\u00e1tico diz que o Estado precisa cortar investimentos para atingir o equil\u00edbrio, aceita-se o desemprego e a mis\u00e9ria como um pre\u00e7o inevit\u00e1vel a pagar aos \u201cdeuses do mercado\u201d. A matem\u00e1tica, nesse contexto, deixa de ser uma ferramenta de descoberta e passa a funcionar como um manto de invisibilidade para proteger os interesses da riqueza privada.<\/p>\n<p> *<\/p>\n<p> A blindagem matem\u00e1tica descrita por Paul Romer n\u00e3o serve apenas para intimidar os n\u00e3o iniciados em salas de aula; ela dita o destino de na\u00e7\u00f5es inteiras. O exemplo mais dram\u00e1tico e escandaloso dessa din\u00e2mica ocorreu logo ap\u00f3s a crise financeira global de 2008. Enquanto o mundo tentava se recuperar do colapso provocado pela especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria nos Estados Unidos, dois economistas do primeir\u00edssimo escal\u00e3o de Harvard, Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff, publicaram um artigo que se tornaria o texto sagrado dos defensores da austeridade: <em>Growth in a Time of Debt <\/em>(O Crescimento em Tempos de D\u00edvida, 2010).<\/p>\n<p>A tese de Reinhart e Rogoff era simples, direta e assustadora: eles analisaram dados hist\u00f3ricos de dezenas de pa\u00edses ao longo de s\u00e9culos e fincaram uma linha na areia. Segundo o modelo econom\u00e9trico dos autores, quando a d\u00edvida p\u00fablica de um pa\u00eds ultrapassa o limite de 90% do seu Produto Interno Bruto (PIB), o crescimento econ\u00f4mico despenca drasticamente, entrando em terreno negativo.<\/p>\n<p>A conclus\u00e3o parecia cir\u00fargica e puramente t\u00e9cnica. Ela foi o combust\u00edvel perfeito para que institui\u00e7\u00f5es como o Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI), o Banco Central Europeu e governos do mundo inteiro, inclusive no Brasil, anos mais tarde, decretassem que a \u00fanica sa\u00edda para a sobreviv\u00eancia econ\u00f4mica era passar o fac\u00e3o nos direitos sociais. Cortes na sa\u00fade, congelamento de sal\u00e1rios, redu\u00e7\u00e3o de investimentos em infraestrutura: tudo era justificado pelo \u201cconsenso cient\u00edfico\u201d dos 90% de Harvard. Se os dados de dois dos maiores economistas do mundo apontavam o abismo, quem ousaria duvidar?<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que ningu\u00e9m conseguia conferir os dados originais. Durante anos, Reinhart e Rogoff se recusaram a compartilhar a planilha de Excel onde haviam feito os c\u00e1lculos, alegando que o material era complexo demais ou propriedade intelectual de suas pesquisas. Foi a\u00ed que a fachada de infalibilidade come\u00e7ou a ruir.<\/p>\n<p>Um jovem estudante de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o da Universidade de Massachusetts Amherst, Thomas Herndon, junto com seus professores Michael Ash e Robert Pollin, decidiu que o trabalho de conclus\u00e3o de curso seria tentar replicar os resultados do famoso paper de Harvard. Depois de muita insist\u00eancia, Herndon conseguiu acesso \u00e0 planilha original de Reinhart e Rogoff. O que ele descobriu n\u00e3o foi uma diverg\u00eancia te\u00f3rica sofisticada, mas algo vergonhoso: um erro crasso de digita\u00e7\u00e3o e codifica\u00e7\u00e3o no software.<\/p>\n<p>Os professores de Harvard simplesmente esqueceram de selecionar cinco linhas inteiras de dados de pa\u00edses importantes (como Austr\u00e1lia, \u00c1ustria, B\u00e9lgica, Canad\u00e1 e Dinamarca) na hora de aplicar a f\u00f3rmula da m\u00e9dia de crescimento no Excel. Quando Herndon corrigiu o erro de sele\u00e7\u00e3o da planilha e incluiu os pa\u00edses omitidos, o \u201ccolapso\u201d econ\u00f4mico sumiu. Pa\u00edses com d\u00edvida acima de 90% do PIB n\u00e3o encolhiam; eles cresciam, em m\u00e9dia, 2,2% ao ano. A suposta lei universal da austeridade era, literalmente, um erro de digita\u00e7\u00e3o mascarado de macroeconomia de ponta.<\/p>\n<p>A revela\u00e7\u00e3o desse esc\u00e2ndalo, documentada no artigo de Herndon, Ash e Pollin (2013), revelou uma ferida ainda mais profunda na ci\u00eancia econ\u00f4mica: a crise da replicabilidade. Na f\u00edsica, na qu\u00edmica ou na biologia, se um cientista publica que descobriu uma cura ou uma nova lei da mat\u00e9ria, outros laborat\u00f3rios precisam ser capazes de repetir o exato mesmo experimento e chegar ao mesmo resultado. Se ningu\u00e9m consegue replicar, a descoberta \u00e9 descartada como fraude ou erro.<\/p>\n<p>Na macroeconomia ortodoxa, a regra \u00e9 o segredo e o dogma. Um estudo monumental conduzido por Andrew Chang e Phillip Li em 2015, intitulado <em>Is Economics Research Replicable? <\/em>(A Pesquisa Econ\u00f4mica \u00e9 Replic\u00e1vel?), colocou essa fragilidade \u00e0 prova. Eles selecionaram 60 artigos de macroeconomia publicados em 13 das revistas acad\u00eamicas mais prestigiadas do planeta. O resultado foi devastador: a esmagadora maioria dos artigos n\u00e3o p\u00f4de ter seus resultados reproduzidos, mesmo quando os autores forneciam assist\u00eancia b\u00e1sica. Os modelos eram t\u00e3o cheios de ajustes arbitr\u00e1rios, dados selecionados a dedo e ferramentas econom\u00e9tricas opacas que a dita \u201cci\u00eancia\u201d se liquefazia diante de um teste emp\u00edrico elementar.<\/p>\n<p>Essa insist\u00eancia em modelos que n\u00e3o sobrevivem \u00e0 realidade choca-se de frente com a pr\u00f3pria hist\u00f3ria da constru\u00e7\u00e3o do conhecimento. O historiador Fernand Braudel, em suas reflex\u00f5es sobre as estruturas sociais e econ\u00f4micas, nos ensina uma li\u00e7\u00e3o preciosa sobre como a ci\u00eancia de fato avan\u00e7a. Para Braudel, a evolu\u00e7\u00e3o de uma teoria n\u00e3o se faz aceitando-a cegamente por causa do prest\u00edgio de quem a assina, nem descartando-a de forma leviana sem compreend\u00ea-la. O verdadeiro avan\u00e7o ocorre atrav\u00e9s da <em>nega\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica<\/em>.<\/p>\n<p>Negar uma teoria significa conhec\u00ea-la t\u00e3o profundamente, em suas entranhas e premissas, que voc\u00ea se torna capaz de usar as contradi\u00e7\u00f5es internas dela para desarm\u00e1-la e propor algo qualitativamente superior. Foi exatamente o que John Maynard Keynes fez em sua <em>Teoria Geral<\/em>. Ele n\u00e3o ignorou a economia cl\u00e1ssica; ele a dominava por completo. E foi ao apontar que as premissas cl\u00e1ssicas de pleno emprego autom\u00e1tico eram uma fantasia que ele p\u00f4de reconstruir a macroeconomia.<\/p>\n<p>O neoliberalismo faz o oposto. Ele se recusa a aceitar a nega\u00e7\u00e3o, mesmo quando desmascarado por erros de Excel ou pela incapacidade de replicar seus dados. Quando uma teoria econ\u00f4mica falha na realidade, como a austeridade falhou em produzir crescimento na Gr\u00e9cia, no Reino Unido ou no Brasil do teto de gastos, os economistas ortodoxos n\u00e3o revisam suas premissas. Eles dizem que a dose do rem\u00e9dio \u00e9 pequena. Em vez de ci\u00eancia, o que temos \u00e9 um sistema de cren\u00e7as fechado, projetado para blindar os interesses de quem lucra com a escassez p\u00fablica.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p> A descoberta do erro de Excel na pesquisa de Harvard deveria ter sido o suficiente para enterrar a tese da austeridade fiscal em qualquer debate que se pretenda s\u00e9rio. Se a base matem\u00e1tica ruiu, a pol\u00edtica econ\u00f4mica baseada nela deveria cair junto. No entanto, o que se viu nos anos seguintes foi a continuidade implac\u00e1vel das mesmas receitas contracionistas. No Brasil, o teto de gastos foi aprovado anos ap\u00f3s o desmascaramento de Reinhart e Rogoff, e o debate p\u00fablico nacional seguiu, e segue, ref\u00e9m do mesmo alarmismo fiscal.<\/p>\n<p>Por que ideias que falham na matem\u00e1tica e na realidade continuam governando as nossas vidas? A resposta n\u00e3o est\u00e1 nos n\u00fameros, mas na geopol\u00edtica do conhecimento. \u00c9 aqui que precisamos cruzar a economia com o pensamento decolonial, mais especificamente com o conceito de colonialidade do ser e do saber.<\/p>\n<p>A colonialidade nos ensina que o fim do colonialismo administrativo (a independ\u00eancia pol\u00edtica das col\u00f4nias) n\u00e3o encerrou a subordina\u00e7\u00e3o cultural, intelectual e econ\u00f4mica dos povos do Sul Global. Existe uma hierarquia invis\u00edvel que define quais corpos s\u00e3o autorizados a produzir pensamento universal e quais territ\u00f3rios devem apenas consumir e obedecer.<\/p>\n<p>Quando um artigo \u00e9 assinado por economistas brancos, professores de Harvard ou do MIT, no Norte Global, ele n\u00e3o \u00e9 recebido pela tecnocracia latino-americana como uma hip\u00f3tese a ser testada. Ele \u00e9 recebido como um decreto de validade universal. A valida\u00e7\u00e3o cient\u00edfica passa a depender da geografia do poder: o que vem do centro do imp\u00e9rio \u00e9 \u201cci\u00eancia neutra e objetiva\u201d; o que \u00e9 produzido na periferia para responder \u00e0s necessidades do nosso povo \u00e9 rotulado como \u201cpopulismo\u201d ou \u201cheterodoxia irrespons\u00e1vel\u201d. A colonialidade do ser opera domesticando a subjetividade dos nossos pr\u00f3prios formuladores de pol\u00edtica econ\u00f4mica, que repetem o mantra do trip\u00e9 macroecon\u00f4mico como se fossem verdades teol\u00f3gicas coloniais que eles precisam proteger para serem aceitos nos sal\u00f5es do mercado financeiro internacional.<\/p>\n<p>Para compreender como essa estrutura se protege da realidade, a epistemologia da ci\u00eancia nos oferece as chaves conceituais mais afiadas. O f\u00edsico e fil\u00f3sofo Thomas Kuhn, em sua obra cl\u00e1ssica <em>A Estrutura das Revolu\u00e7\u00f5es Cient\u00edficas<\/em>, explicou que a ci\u00eancia n\u00e3o evolui em uma linha reta e pac\u00edfica de ac\u00famulo de dados. Ela opera atrav\u00e9s de paradigmas, um conjunto de cren\u00e7as, m\u00e9todos e valores compartilhados por uma comunidade cient\u00edfica em determinado momento.<\/p>\n<p>Quando um paradigma est\u00e1 estabelecido, os cientistas passam a maior parte do tempo fazendo o que Kuhn chama de \u201cci\u00eancia normal\u201d, que consiste basicamente em for\u00e7ar a realidade a se encaixar dentro das caixas pr\u00e9-definidas pelo paradigma. Quando surgem anomalias, ou seja, fatos da realidade que contradizem a teoria, a primeira rea\u00e7\u00e3o da comunidade acad\u00eamica n\u00e3o \u00e9 mudar de teoria. \u00c9 ignorar a anomalia, culpar os instrumentos de medi\u00e7\u00e3o ou tratar o fato como uma exce\u00e7\u00e3o irrelevante. O economista ortodoxo prefere culpar o pa\u00eds real por n\u00e3o se ajustar ao seu modelo DSGE do que admitir que o modelo est\u00e1 errado. Um paradigma s\u00f3 cai, diz Kuhn, quando a crise \u00e9 t\u00e3o profunda que a sustenta\u00e7\u00e3o do dogma se torna insustent\u00e1vel, abrindo espa\u00e7o para uma revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Na macroeconomia, essa crise j\u00e1 chegou, mas a estrutura de poder impede que a revolu\u00e7\u00e3o aconte\u00e7a.<\/p>\n<p>O fil\u00f3sofo h\u00fangaro Imre Lakatos aprofunda essa mec\u00e2nica ao discutir a diferen\u00e7a entre ci\u00eancia e pseudoci\u00eancia por meio dos seus Programas de Pesquisa Cient\u00edfica. Para Lakatos, toda teoria possui um \u201cn\u00facleo firme\u201d, que \u00e9 o conjunto de hip\u00f3teses centrais que os cientistas decidiram n\u00e3o questionar de jeito nenhum. Ao redor desse n\u00facleo, os cientistas constroem um cintur\u00e3o de prote\u00e7\u00e3o composto por hip\u00f3teses auxiliares, m\u00e9todos estat\u00edsticos complicados e equa\u00e7\u00f5es acess\u00f3rias.<\/p>\n<p>Se a realidade choca-se contra o n\u00facleo firme, o cintur\u00e3o de prote\u00e7\u00e3o absorve o impacto. Na macroeconomia neoliberal, o n\u00facleo firme \u00e9 intoc\u00e1vel: a ideia de que os mercados s\u00e3o eficientes, que o Estado \u00e9 intrinsecamente ineficiente e que a estabilidade fiscal da riqueza privada deve vir antes do bem-estar social. Quando a austeridade destr\u00f3i o crescimento de um pa\u00eds, o cintur\u00e3o de prote\u00e7\u00e3o entra em a\u00e7\u00e3o imediatamente atrav\u00e9s do jarg\u00e3o tecnocr\u00e1tico: \u201cas reformas estruturais foram t\u00edmidas\u201d, \u201cfaltou seguran\u00e7a jur\u00eddica\u201d, ou \u201co mercado internacional estava desfavor\u00e1vel\u201d. Modifica-se o acess\u00f3rio, mas nunca o dogma.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que Lakatos argumenta que quando um programa de pesquisa falha continuamente em prever a realidade e passa a viver exclusivamente de inventar desculpas para salvar o seu pr\u00f3prio n\u00facleo firme, ele se transforma em um programa degenerativo ou, em termos mais diretos, em uma pseudoci\u00eancia. A macroeconomia ortodoxa, ao se blindar contra os testes de replicabilidade e ao ignorar o colapso social que suas pol\u00edticas provocam, encaixa-se perfeitamente na defini\u00e7\u00e3o lakatosiana de pseudoci\u00eancia. Ela sobrevive n\u00e3o porque explica o mundo, mas porque o seu cintur\u00e3o de prote\u00e7\u00e3o \u00e9 financiado e sustentado pela classe que det\u00e9m o controle dos t\u00edtulos da d\u00edvida p\u00fablica.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>A maior vit\u00f3ria da macroeconomia ortodoxa n\u00e3o foi convencer o mundo de que seus modelos s\u00e3o exatos, mas conseguir desumanizar o debate econ\u00f4mico. Quando os telejornais anunciam friamente um \u201cajuste fiscal de trinta bilh\u00f5es\u201d ou uma eleva\u00e7\u00e3o da taxa b\u00e1sica de juros para conter a demanda, essas decis\u00f5es s\u00e3o apresentadas como procedimentos m\u00e9dicos ass\u00e9pticos, desprovidos de sangue ou dor. No entanto, as vari\u00e1veis macroecon\u00f4micas n\u00e3o operam no v\u00e1cuo; elas incidem diretamente sobre corpos concretos. E esses corpos t\u00eam cor, g\u00eanero e classe social.<\/p>\n<p>O ceticismo cr\u00f4nico que os formuladores da pol\u00edtica econ\u00f4mica tradicional mant\u00eam em rela\u00e7\u00e3o ao que chamamos de economia da estratifica\u00e7\u00e3o \u00e9 uma escolha pol\u00edtica deliberada. Esse campo de estudo demonstra que o racismo, o machismo e a heran\u00e7a colonial n\u00e3o s\u00e3o desvios morais individuais, mas estruturas funcionais para a acumula\u00e7\u00e3o capitalista. Tratar os agentes econ\u00f4micos como se fossem todos iguais perante as leis de mercado \u00e9 uma nega\u00e7\u00e3o violenta da realidade. Um homem branco do topo da pir\u00e2mide de renda e uma mulher negra moradora da periferia n\u00e3o respondem aos mesmos est\u00edmulos econ\u00f4micos, porque est\u00e3o situados em polos opostos de uma estrutura de privil\u00e9gios hist\u00f3ricos.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica de austeridade fiscal, portanto, \u00e9 tudo menos neutra. Quando o Estado decide congelar os investimentos p\u00fablicos em sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o para garantir o pagamento dos juros da d\u00edvida aos rentistas, o peso desse sacrif\u00edcio n\u00e3o \u00e9 distribu\u00eddo igualmente. Quem mais depende do Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS) e da rede de ensino p\u00fablico s\u00e3o as fam\u00edlias trabalhadoras, majoritariamente negras.<\/p>\n<p>Mais do que isso: quando a creche p\u00fablica n\u00e3o abre ou o hospital carece de leitos, a crise fiscal \u00e9 transferida diretamente para o colo das mulheres. A teoria feminista da economia joga luz sobre esse ponto cego ao analisar o trabalho reprodutivo n\u00e3o remunerado e a pol\u00edtica do cuidado. Algu\u00e9m precisa cuidar das crian\u00e7as, dos idosos e dos doentes. Quando o Estado se retira sob o pretexto de responsabilidade fiscal, esse trabalho de cuidado, atribu\u00eddo socialmente \u00e0s mulheres, que sustenta a pr\u00f3pria reprodu\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho para o capitalismo, \u00e9 privatizado e empurrado como uma dupla ou tripla jornada invis\u00edvel sobre elas. A austeridade, no fundo, sustenta-se sobre a explora\u00e7\u00e3o do tempo e do esgotamento f\u00edsico das mulheres.<\/p>\n<p>O mesmo racioc\u00ednio se aplica \u00e0 obsess\u00e3o pela manuten\u00e7\u00e3o de taxas de juros estratosf\u00e9ricas sob o mantra do controle inflacion\u00e1rio. O juro alto encarece o cr\u00e9dito, freia o investimento produtivo e desidrata a gera\u00e7\u00e3o de empregos. Quem perde o emprego primeiro em uma recess\u00e3o induzida pelo Banco Central? Os trabalhadores menos qualificados, os jovens e a popula\u00e7\u00e3o negra. Por outro lado, quem se beneficia do juro alto? Os detentores dos t\u00edtulos da d\u00edvida p\u00fablica, a elite financeira que v\u00ea seu patrim\u00f4nio se multiplicar sem precisar erguer uma \u00fanica f\u00e1brica. O juro alto \u00e9 um mecanismo de transfer\u00eancia de renda que tira dinheiro do imposto do trabalhador para alimentar a riqueza privada.<\/p>\n<p>Felizmente, esse bloqueio anal\u00edtico come\u00e7ou a ser fissurado por dentro da pr\u00f3pria academia brasileira. Um dos exemplos mais promissores desse resgate cient\u00edfico \u00e9 o trabalho realizado pelo MADE (Centro de Pesquisa em Macroeconomia da Desigualdade da USP). Esse grupo vem provando com rigor estat\u00edstico que \u00e9 poss\u00edvel, sim, colocar cor e g\u00eanero no sujeito da an\u00e1lise macroecon\u00f4mica. As pesquisas do MADE demonstram empiricamente como as pol\u00edticas fiscais e tribut\u00e1rias afetam assimetricamente os diferentes extratos da popula\u00e7\u00e3o, revelando, por exemplo, como a progressividade de gastos p\u00fablicos tem um poder multiplicador imenso na economia justamente por beneficiar aqueles que gastam a totalidade da sua renda na sobreviv\u00eancia b\u00e1sica.<\/p>\n<p>Em uma regi\u00e3o como a Am\u00e9rica Latina, marcada por s\u00e9culos de viol\u00eancia colonial e pela reprodu\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea de uma din\u00e2mica econ\u00f4mica dependente, a desigualdade de g\u00eanero e ra\u00e7a \u00e9 a pr\u00f3pria engrenagem que viabiliza o capitalismo perif\u00e9rico. Continuar importando modelos econom\u00e9tricos complexos do Norte Global, desprovidos de fundamento hist\u00f3rico e social, \u00e9 um equ\u00edvoco metodol\u00f3gico e uma cumplicidade pol\u00edtica. A matem\u00e1tica e a econometria n\u00e3o devem ser descartadas; elas s\u00e3o ferramentas valiosas, mas precisam funcionar como meios para desvelar a realidade das assimetrias sociais, e nunca como escudos para ocultar os privil\u00e9gios da classe dominante.<\/p>\n<p> *<\/p>\n<p> Para romper o cerco ideol\u00f3gico que aprisiona o debate econ\u00f4mico contempor\u00e2neo, precisamos recuperar a aud\u00e1cia dos pensadores que nos antecederam. A cr\u00edtica que Celso Furtado fazia \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica da macroeconomia na periferia do capitalismo continua atual. Furtado compreendia que os manuais produzidos nos centros hegem\u00f4nicos n\u00e3o davam conta de explicar a realidade de pa\u00edses que carregavam as marcas estruturais do subdesenvolvimento e da depend\u00eancia colonial. For\u00e7ar a realidade brasileira ou latino-americana a caber dentro de modelos abstratos de equil\u00edbrio de mercado n\u00e3o \u00e9 ci\u00eancia; \u00e9 uma forma de colonialismo intelectual que perpetua o atraso.<\/p>\n<p>A ilus\u00e3o de que a din\u00e2mica de uma sociedade inteira pode ser capturada por equa\u00e7\u00f5es lineares e planilhas de Excel choca-se tamb\u00e9m com as li\u00e7\u00f5es do pensamento complexo. O fil\u00f3sofo Edgar Morin nos ensinou que o todo n\u00e3o \u00e9 simplesmente a soma das pequenas partes. O sistema econ\u00f4mico \u00e9 vivo, aberto e profundamente interligado com as din\u00e2micas sociais, hist\u00f3ricas, raciais e de g\u00eanero. Quando a ortodoxia tenta isolar a macroeconomia em um laborat\u00f3rio matem\u00e1tico ass\u00e9ptico, ela comete um erro metodol\u00f3gico fatal. Ao fragmentar a realidade para torn\u00e1-la matematicamente trat\u00e1vel, os economistas liberais perdem de vista o pr\u00f3prio objeto de estudo: a reprodu\u00e7\u00e3o da vida humana em sociedade.<\/p>\n<p>O desmascaramento dos erros metodol\u00f3gicos de Reinhart e Rogoff por Herndon, Ash e Pollin, somado \u00e0s den\u00fancias de Paul Romer sobre a degenera\u00e7\u00e3o da macroeconomia em pseudoci\u00eancia, abre uma fresta hist\u00f3rica que a esquerda radical n\u00e3o pode desperdi\u00e7ar. O rei est\u00e1 nu. A austeridade fiscal n\u00e3o se sustenta como verdade cient\u00edfica; ela sobrevive como uma decis\u00e3o pol\u00edtica imposta pela for\u00e7a do capital financeiro para garantir que o fundo p\u00fablico funcione como um duto de transfer\u00eancia de riqueza para a minoria rentista.<\/p>\n<p>O resgate da macroeconomia passa, necessariamente, pela sua descoloniza\u00e7\u00e3o e pela incorpora\u00e7\u00e3o definitiva da economia da estratifica\u00e7\u00e3o e do feminismo cr\u00edtico. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel desenhar pol\u00edticas de cr\u00e9dito, de investimentos ou de controle inflacion\u00e1rio sem reconhecer que as desigualdades s\u00e3o estruturais e assim\u00e9tricas. O teto de gastos, as metas de super\u00e1vit e a autonomia de Bancos Centrais blindados contra a soberania popular s\u00e3o os instrumentos modernos de um programa de pesquisa degenerativo que sacrifica o futuro de uma na\u00e7\u00e3o em nome de dogmas metaf\u00edsicos.<\/p>\n<p>A economia deve voltar a ser o que sempre foi na sua origem: economia pol\u00edtica. A matem\u00e1tica e a econometria precisam ser destitu\u00eddas do altar da teologia de mercado e devolvidas ao seu lugar correto: o de ferramentas auxiliares a servi\u00e7o de um projeto de desenvolvimento socioecon\u00f4mico generalizado. Um projeto que n\u00e3o tenha como meta o equil\u00edbrio cont\u00e1bil das planilhas, mas a soberania alimentar, a sa\u00fade p\u00fablica universal, a valoriza\u00e7\u00e3o do trabalho e o desmonte das opress\u00f5es de ra\u00e7a e g\u00eanero. Refundar a macroeconomia, portanto, n\u00e3o \u00e9 um desafio t\u00e9cnico para iniciados; \u00e9 uma tarefa militante inadi\u00e1vel para arrombar as portas do consenso neoliberal e devolver ao povo o direito de decidir o pr\u00f3prio destino.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. Se voc\u00ea valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o, contribua com um PIX para <strong>outrosquinhentos@outraspalavras.net<\/strong> e fortale\u00e7a o jornalismo cr\u00edtico.<\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post &lt;i&gt;Austeridade fiscal&lt;\/i&gt;, uma fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/paciente-morre-em-condicao-suspeita-em-hospital-psiquiatrico-no-df\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Paciente morre em condi\u00e7\u00e3o suspeita em hospital ps...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/a-dura-vida-das-mulheres-operarias-em-sao-paulo\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">A dura vida das mulheres oper\u00e1rias em S\u00e3o Paulo<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/nakba-77-anos-da-catastrofe-palestina-sera-lembrada-em-atividade-no-rio\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Nakba: 77 anos da cat\u00e1strofe palestina ser\u00e1 lembra...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/mexico-sheinbaum-repudia-assassinato-de-prefeito-e-garante-que-nao-havera-impunidade\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/g4oxljibqaiuj0h-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">M\u00e9xico: Sheinbaum repudia assassinato de prefeito ...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cr\u00f4nica de um sequestro na ci\u00eancia econ\u00f4mica. Nasceu para resolver crises humanas e tornou-se <i>matem\u00e1tica ass\u00e9ptica<\/i>. Quando falha, muda-se a justificativa, nunca o dogma. E perde-se de vista o pr\u00f3prio objeto de estudo: a reprodu\u00e7\u00e3o da vida em sociedade<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/mercadovsdemocracia\/austeridade-fiscal-uma-ficcao-cientifica\/\">&lt;i&gt;Austeridade fiscal&lt;\/i&gt;, uma fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":91620,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[8015,119,45,6206,577,381,815,67352,27117,20699,14284,17045,607,67353,34455,4640,6021,67354,67355,20500,578,67410,9511,11756,1256,67411,2729],"tags":[],"class_list":["post-91619","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-austeridade-fiscal","category-banco-central","category-brasil","category-colonialidade","category-crescimento-economico","category-divida-publica","category-economia-brasileira","category-economia-classica","category-economia-de-mercado","category-economia-politica","category-economistas","category-estado","category-fmi","category-ideologia-neoliberal","category-macroeconomia","category-mercado-livre","category-mercado-x-democracia","category-mitos-fiscais","category-moralidade-familiar","category-norte-global","category-pib","category-planilhas-de-crescimento","category-recursos-publicos","category-responsabilidade-fiscal","category-sus","category-teoria-keynesiana","category-teto-de-gastos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/91619","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=91619"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/91619\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/91620"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=91619"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=91619"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=91619"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}