{"id":91623,"date":"2026-06-11T18:53:51","date_gmt":"2026-06-11T21:53:51","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/filosofia-e-universidade-para-uma-sintonia-possivel\/"},"modified":"2026-06-11T18:53:51","modified_gmt":"2026-06-11T21:53:51","slug":"filosofia-e-universidade-para-uma-sintonia-possivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/filosofia-e-universidade-para-uma-sintonia-possivel\/","title":{"rendered":"Filosofia e Universidade: para uma sintonia poss\u00edvel"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"780\" height=\"470\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/rostos-780x470-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/rostos-780x470-1.jpg 780w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/rostos-780x470-1-300x181.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/rostos-780x470-1-768x463.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 780px) 100vw, 780px\"><figcaption>Arte: contee.org<\/figcaption><\/figure>\n<h3><strong>1.<\/strong><\/h3>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<p><imgsrc=\"\" width=\"1\" height=\"1\" alt=\".\" border=\"0\">\n<\/div>\n<\/div>\n<p>A filosofia interroga a identidade dos fen\u00f4menos. Seu trabalho conceitual n\u00e3o pode, contudo, ser reduzido a uma mera taxonomia. Volta-se, afinal, \u00e0s coisas mesmas n\u00e3o somente para dizer o que s\u00e3o, mas para pensar o que podem ser.<\/p>\n<p>Isso sabe em geral a um paradoxo: o pensamento sempre fixa, solidifica os fen\u00f4menos, inclusive aqueles tendentes a uma inescap\u00e1vel fluidez, de sorte que, por si s\u00f3, envolve alguma impostura. \u00c9 inevit\u00e1vel que cristalize o que jamais pode agarrar, como quando espacializa o tempo ou quantifica qualidades. Dif\u00edcil aceitar esse destino, at\u00e9 por serem muitos e necess\u00e1rios os of\u00edcios da intelig\u00eancia: todos n\u00f3s, enquanto pensamos, temos algo de farsantes.<\/p>\n<p>O pre\u00e7o \u00e9 elevado, sendo importante ter consci\u00eancia da negatividade de qualquer gesto subjetivo, de tudo que, enfim, envolve linguagem e representa\u00e7\u00e3o, seja na produ\u00e7\u00e3o de conhecimento, seja na vida pol\u00edtica. N\u00e3o por acaso, tomando a analogia da representa\u00e7\u00e3o na pol\u00edtica, \u00e9 \u00f3bvio que a presen\u00e7a efetiva sempre ser\u00e1 mais que a representa\u00e7\u00e3o, pois toda representa\u00e7\u00e3o implica algum deslizamento, n\u00e3o podendo representante algum conter a presen\u00e7a. Tais deslizamentos, n\u00e3o obstante, s\u00e3o inevit\u00e1veis, como bem o sabemos e testemunhamos.<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/14--14.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/14--14.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/14-1-300x110.png 300w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>O paradoxo parece mesmo inelud\u00edvel. Mais ainda, ele chega ao paroxismo quando o objeto do pensamento \u00e9 algo da ordem de um sujeito \u2014 como \u00e9 o caso com institui\u00e7\u00f5es vivas: a universidade, e ela pr\u00f3pria, a filosofia. Nosso desafio hoje, cifrado em nosso tema, n\u00e3o \u00e9 pequeno: posta no espelho, a filosofia deve interrogar a si mesma. Flagra-se ent\u00e3o como aquilo que se tornou, como um conjunto de feitos e n\u00e3o como mais um ser em se fazendo.<\/p>\n<p>A primeira aproxima\u00e7\u00e3o, a mais emp\u00edrica, j\u00e1 nos retira o f\u00f4lego ao pensar a rela\u00e7\u00e3o entre filosofia e universidade, adiantando alguns pontos sobre seu futuro. Paci\u00eancia, pois \u00e9 o nosso tema. Como uma constata\u00e7\u00e3o emp\u00edrica, no que pode ter de b\u00ean\u00e7\u00e3o ou de maldi\u00e7\u00e3o, a filosofia \u00e9 isso, sim: uma coisa universit\u00e1ria; e a universidade, por sua feita, \u00e9 tamb\u00e9m uma coisa, marcada embora por exig\u00eancias filos\u00f3ficas. De forma um tanto dura, conquanto entremeada de rebeldia, Jos\u00e9 Arthur Giannotti nos dizia em 1975:<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio de outras \u00e9pocas, o filosofar de hoje \u00e9 em geral trabalho remunerado. O fil\u00f3sofo \u00e9 um funcion\u00e1rio, poucas vezes um escritor, vivendo de sua pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o. Goza assim de um lazer ritmado pelo livro de ponto, pelos hor\u00e1rios das aulas, onde se obriga a comunicar, com r\u00edgida periodicidade, o resultado de suas investiga\u00e7\u00f5es livres. Qual \u00e9 o mist\u00e9rio que leva uma sociedade moderna, quase sempre tecnocrata e autorit\u00e1ria, a financiar a vagabundagem bem comportada do fil\u00f3sofo?<sup>1<\/sup><\/p>\n<p>O quadro talvez devesse hoje ser mais severo. A aula n\u00e3o \u00e9 sempre o espa\u00e7o de comunica\u00e7\u00e3o de uma pesquisa. Com frequ\u00eancia, \u00e9 a ant\u00edpoda do exerc\u00edcio livre do pensamento. Por sua feita, a vagabundagem consentida perdeu muito do que seria pr\u00f3prio de uma rebeldia e uma err\u00e2ncia. De todo modo, seja como lugar de repeti\u00e7\u00e3o, reprodu\u00e7\u00e3o e competi\u00e7\u00e3o, seja como lugar de cria\u00e7\u00e3o e liberdade, a equa\u00e7\u00e3o est\u00e1 posta: a filosofia se realiza na universidade.<\/p>\n<p>Tem bastante raz\u00e3o Giannotti, ao afirmar a necessidade de decifrar o escopo e as limita\u00e7\u00f5es de nossa poss\u00edvel a\u00e7\u00e3o ou atua\u00e7\u00e3o. Cabe voltar ao ch\u00e3o concreto dos fen\u00f4menos sociais nos quais nos inserimos. Assim, necessitar\u00edamos tamb\u00e9m \u201cdeixar de ser meros fil\u00f3sofos, profissionais da reflex\u00e3o, para participar conscientemente da reflex\u00e3o objetiva que constitui o cerne dos fen\u00f4menos sociais\u201d.<sup>2<\/sup><\/p>\n<p>Vejamos, pois, algumas imagens caracter\u00edsticas (algumas historicamente datadas e localizadas na UFBA) do trabalho da filosofia na universidade, para em seguida pensarmos, qui\u00e7\u00e1 mais fundamente, a rela\u00e7\u00e3o entre a filosofia e a universidade \u2014 uma conjun\u00e7\u00e3o enigm\u00e1tica e talvez adversativa.<\/p>\n<h3><strong>2.<\/strong> <\/h3>\n<p>Pode ter sido diferente ou muito parecido em outros lugares. Entretanto, tendo em conta nossa hist\u00f3ria particular, podemos espalhar algumas imagens da filosofia na nossa Universidade, como o \u00e1lbum breve de uma travessia de d\u00e9cadas.<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/BANNER-Outras-palavras-NOVEMBRO7.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/BANNER-Outras-palavras-NOVEMBRO7.jpg 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/BANNER-Outras-palavras-NOVEMBRO7-300x37.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>A filosofia entre n\u00f3s j\u00e1 foi tratada como se fora um mero compartimento, uma disciplina a mais \u2014 no que seria exemplo de uma m\u00e1 disciplinaridade, uma esp\u00e9cie de reserva de saber, um agregado de proposi\u00e7\u00f5es e de argumentos datados que conformariam um campo.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m foi tratada como se fora uma concess\u00e3o nobili\u00e1rquica, uma esp\u00e9cie de mel de coruja, a espalhar gotas de sabedoria para engenheiros e contadores \u2014 no que ser\u00edamos um exemplo de uma m\u00e1 interdisciplinaridade.<\/p>\n<p>Com frequ\u00eancia, fomos tratados como se n\u00e3o tiv\u00e9ssemos medidas pr\u00f3prias e, logo, como se dev\u00eassemos nos submeter aos crit\u00e9rios e modos de produ\u00e7\u00e3o de outras \u00e1reas. Ao mesmo tempo, por uma esp\u00e9cie de redu\u00e7\u00e3o especular, enfrentamos e continuamos a enfrentar a oferta f\u00e1cil de uma medida \u00fanica por alguns dos nossos, como se nossa disciplina milenar devesse renunciar ao ensaio e, qui\u00e7\u00e1, \u00e0 poesia, e nossa compet\u00eancia tivesse agora de ser medida t\u00e3o somente por um conjunto de <em>papers<\/em>.<\/p>\n<p>De certa forma, essa incurs\u00e3o imperialista se legitimava e ainda se legitima por escovar a contrapelo um v\u00edcio antigo e oposto, o do beletrismo, que tanto nos caracterizou por d\u00e9cadas, de sorte que nossos melhores quadros apressadamente preenchiam lacunas conceituais por solu\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias, perfazendo com relativo sucesso a imagem de mares de uma polegada.<\/p>\n<p>H\u00e1 de se conceder, todavia, que o beletrismo, com sua pobreza at\u00e1vica, tinha l\u00e1 algum brilho, sobretudo se o comparamos ao modelo produtivista ultraespecializado que enche de orgulho quem organiza col\u00f3quios para poucas pessoas, consagrando-se como te\u00f3ricos abissais e isolados para seus pares, mas, de resto, desobrigados da tarefa penosa de qualifica\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria demanda social por filosofia.<\/p>\n<p>Outras imagens podem ocorrer, mas elas se disp\u00f5em aqui e acol\u00e1, sempre de forma confusa e misturada, na trajet\u00f3ria comum de muitos departamentos de filosofia pelo Brasil afora, que, felizmente, com grande sucesso e eventuais recuos, deixaram de ser departamentos de servi\u00e7o para se consolidarem como centros de pesquisa, com gradua\u00e7\u00e3o e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em linha de conta com as dos demais centros de excel\u00eancia do pa\u00eds. N\u00e3o obstante sua necessidade, o que tal sucesso pode ocultar \u00e9 uma certa indiferen\u00e7a ao destino da pr\u00f3pria universidade que a todos nos emprega. Vejamos mais de perto essa quest\u00e3o.<\/p>\n<h3><strong>3.<\/strong><\/h3>\n<p>A filosofia tornou-se coisa universit\u00e1ria. E isso n\u00e3o \u00e9 ruim. Ao contr\u00e1rio, foi no meio universit\u00e1rio que a comunidade filos\u00f3fica conseguiu estabelecer seus padr\u00f5es mais elevados. Por outro lado, por estarmos na universidade, agarram-se em n\u00f3s v\u00edcios e virtudes, e n\u00e3o podemos deixar de enxergar umas e outros, no momento em que somos desafiados a pensar em nossa realidade e em nosso futuro.<\/p>\n<p>Como essa \u00e9, por\u00e9m, uma circunst\u00e2ncia hist\u00f3rica, poder\u00edamos pensar: ser coisa universit\u00e1ria \u00e9 um fen\u00f4meno passageiro. \u00c9 uma resid\u00eancia datada, uma instala\u00e7\u00e3o provis\u00f3ria. Talvez em breve o valor do \u201cprofissional da filosofia\u201d n\u00e3o seja medido pelo reconhecimento dos pares ou por sua eventual classifica\u00e7\u00e3o como bolsista de produtividade de alguma ag\u00eancia de fomento, mas sim pelo n\u00famero de seguidores nas redes e sua capacidade de fazer aderir seu discurso a m\u00faltiplos recursos digitais. N\u00e3o mais valer\u00e1 seu desempenho em sala de aula ou na \u00e1gora, mas sim seu alcance como <em>influencer<\/em>.<\/p>\n<p>Entretanto, os que s\u00e3o do ramo sempre saber\u00e3o discernir profundidade de esc\u00e2ndalo, rigor de simples impacto; e continuaremos espantados com o sucesso ocasional de te\u00f3ricos med\u00edocres. Ou seja, em tese, continuaremos a operar na longa dura\u00e7\u00e3o, com os crit\u00e9rios urdidos por nossa comunidade cient\u00edfica, assim como deve operar a universidade. Desse modo, temos boa raz\u00e3o para invocar como mais apropriado falar de filosofia e universidade como um la\u00e7o essencial, e n\u00e3o apenas da circunst\u00e2ncia de a filosofia se dar na universidade.<\/p>\n<p>Est\u00e1 em jogo n\u00e3o apenas o v\u00ednculo empregat\u00edcio, o fato de sermos funcion\u00e1rios do Estado, mas sim o fato mais relevante de o Estado, em condi\u00e7\u00f5es normais de temperatura e press\u00e3o (tirante os per\u00edodos estritamente ditatoriais), poder abrigar esses dois projetos, compreendendo, por isso mesmo, que a amea\u00e7a a esses projetos que guardam as condi\u00e7\u00f5es de uma argumenta\u00e7\u00e3o razo\u00e1vel implica a amea\u00e7a a um pacto social democr\u00e1tico.<\/p>\n<h3><strong>4.<\/strong> <\/h3>\n<p>Tendo em vista tal contexto (esse cen\u00e1rio em que operamos), podemos sustentar alguns pontos:<\/p>\n<ol>\n<li>O futuro da filosofia n\u00e3o pode estar apenas no seu passado, sob pena de nos tornarmos uma gigantesca par\u00e1frase de n\u00f3s mesmos e de reduzirmos nosso labor \u00e0 disciplina do coment\u00e1rio;<\/li>\n<li>O futuro da filosofia n\u00e3o pode, contudo, renunciar a uma confronta\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica com nosso passado, sob pena de abandonarmos nossos principais contendores e de precisarmos reformular, em meio \u00e0 nossa precariedade, quest\u00f5es mais bem formuladas outrora. Fil\u00f3sofos formadores distinguem-se naturalmente por seu f\u00f4lego na corrida filos\u00f3fica e, na verdade, quem n\u00e3o percebe o significado profundo dessa diferen\u00e7a passa a sobreviver de mera ret\u00f3rica, sem dominar bens os instrumentos de nosso of\u00edcio;<\/li>\n<li>O futuro da filosofia n\u00e3o est\u00e1 apenas na Europa ou nos Estados Unidos, de sorte que nos enriquecemos se colhemos os frutos do pensamento rigoroso ou de sua cr\u00edtica nas diversas l\u00ednguas e m\u00faltiplos lugares em que tenha florescido, sendo uma tarefa necess\u00e1ria a recupera\u00e7\u00e3o de matrizes m\u00faltiplas e um di\u00e1logo s\u00e9rio com elas. Aqui, como em toda parte, o pensamento exige disciplina e dedica\u00e7\u00e3o, nunca estando legitimado previamente qualquer consentimento te\u00f3rico;<\/li>\n<li>Da mesma forma, o futuro da filosofia nunca estar\u00e1 inteiramente fora da Europa (ou at\u00e9 dos Estados Unidos), uma vez que a desconstru\u00e7\u00e3o de pretensos sujeitos universais, tarefa bastante atual, envolve a reconstru\u00e7\u00e3o permanente das condi\u00e7\u00f5es mesmas da subjetividade, ou seja, uma pauta cl\u00e1ssica e contempor\u00e2nea que, como heran\u00e7a ou como futuro, define-se como nossa;<\/li>\n<li>O trabalho filos\u00f3fico, em suma, caso tenha direitos e algum futuro, n\u00e3o se faz por mera substitui\u00e7\u00e3o, mas sim por agrega\u00e7\u00e3o e confronto, sob pena de se transformar em mera dogm\u00e1tica, n\u00e3o importando saber a servi\u00e7o de quais senhores.<\/li>\n<\/ol>\n<h3><strong>5.<\/strong> <\/h3>\n<p>Se coisa universit\u00e1ria, o futuro da filosofia n\u00e3o \u00e9 apenas a filosofia. Cabe aqui enfatizar um tra\u00e7o pr\u00f3prio das proposi\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas: elas n\u00e3o s\u00e3o apenas te\u00f3ricas, mas sim normativas. Nossas proposi\u00e7\u00f5es s\u00e3o degeneradas, porquanto infensas \u00e0 mera bipolaridade dos enunciados significativos. Por isso mesmo, podem ser mais relevantes para dizerem o que ainda n\u00e3o \u00e9, pois capazes de antever edifica\u00e7\u00f5es onde incautos s\u00f3 veem ru\u00ednas. Por outro lado, se falamos de universidades, estas n\u00e3o se fazem como soma de voca\u00e7\u00f5es disciplinares, de sorte que, bem pensadas, n\u00e3o se fazem sem filosofia.<\/p>\n<p>Aprofundemos, pois, esse tra\u00e7o de afinidade, destacando o lado normativo da filosofia e de qualquer pol\u00edtica com horizontes mais largos para a constru\u00e7\u00e3o da vida universit\u00e1ria. Refletindo, ent\u00e3o, sobre as condi\u00e7\u00f5es de sentido, sem estar voltada \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de verdades, a filosofia deve interrogar o sentido desse equipamento de constru\u00e7\u00e3o ou de destrui\u00e7\u00e3o do pensamento, a universidade. Ou seja, dialoga com as ci\u00eancias e as artes, sem lhes fazer uma mera apologia.<\/p>\n<p>Entre outras coisas, a filosofia deve iluminar um paradoxo que nos concerne a todos e apontar os caminhos de uma rea\u00e7\u00e3o organizada, a saber, o paradoxo por meio do qual, em linhas gerais, documentos da civiliza\u00e7\u00e3o s\u00e3o tamb\u00e9m documentos da barb\u00e1rie e como, em espec\u00edfico, \u00e9 poss\u00edvel o absurdo concreto de um desenvolvimento cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico cada vez maior n\u00e3o ser incompat\u00edvel como a mais profunda degrada\u00e7\u00e3o cultural e mesmo a favore\u00e7a.<\/p>\n<p>Como disciplina normativa, para dar outro exemplo, a filosofia afirma sua identidade prec\u00e1ria ao questionar a identidade definidora da pr\u00f3pria universidade, que associa a gest\u00e3o aut\u00f4noma de pessoal, saberes e patrim\u00f4nio ao princ\u00edpio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extens\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao ativar, nesse caso, sua voca\u00e7\u00e3o normativa, a filosofia questiona n\u00e3o apenas a letra da defini\u00e7\u00e3o da autonomia e a atual realidade de degrada\u00e7\u00e3o do tecido, por conta da pen\u00faria or\u00e7ament\u00e1ria, das empobrecidas rela\u00e7\u00f5es interpessoais, da cis\u00e3o interna que perpassa categorias e unidades, mas sobretudo que a identidade se fa\u00e7a por ajuntamento, e seja morta, e n\u00e3o por uma viva coes\u00e3o.<\/p>\n<p>Como disciplina normativa, a filosofia se aproxima ent\u00e3o da universidade indagando como um projeto talhado no papel para a produ\u00e7\u00e3o da igualdade e a amplia\u00e7\u00e3o de direitos e de conhecimentos pode correr o risco de ser considerado agora apenas um projeto caro e at\u00e9 desnecess\u00e1rio (como o est\u00e1 sendo pela grande m\u00eddia, O Globo, Estad\u00e3o e Folha de S. Paulo) \u2014 projeto que poderia ser substitu\u00eddo com vantagens por novas tecnologias e pela mais completa privatiza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o superior.<\/p>\n<h3><strong>6.<\/strong> <\/h3>\n<p>A filosofia pode bem ajudar a combater tais aleivosias, mas apenas se, como disciplina normativa que interroga a identidade de fen\u00f4menos, for capaz de identificar o que lhe corr\u00f3i a identidade e faz produzir o seu reverso. Em outras palavras, como exclus\u00e3o e a desigualdade podem estar sendo produzidas em cada uma de suas dimens\u00f5es constitutivas.<\/p>\n<p>No <em>ensino<\/em> \u2014 por exemplo, na manuten\u00e7\u00e3o custosa de assimetrias pedag\u00f3gicas que substituem uma autoridade leg\u00edtima (e, de resto, necess\u00e1ria) por exerc\u00edcios de aprendizado que, na express\u00e3o de Marilena Chaui, n\u00e3o deixam a cadeira vazia. A atividade formadora, afinal, renova pactos e consensos, legitima autoridades e cria condi\u00e7\u00f5es para uma transmiss\u00e3o que \u00e9 tamb\u00e9m escuta, de sorte que, tamb\u00e9m no ensino, a universidade deve ser capaz de alimentar o sentido de sua autonomia, a saber, a maioridade intelectual do exerc\u00edcio esclarecido de seu entendimento. Ao contr\u00e1rio, e n\u00e3o por acaso, temos visto o conjunto dos universit\u00e1rios vulner\u00e1veis \u00e0 baixa qualidade narrativa das redes, que \u00e9 sempre mais \u00e1gil no que se trata de repeti\u00e7\u00e3o, reprodu\u00e7\u00e3o do j\u00e1 estabelecido. Vimos isso, ali\u00e1s, em campanha recente, pontuada menos pela viol\u00eancia dos ataques e mais pela infantilidade das argumenta\u00e7\u00f5es. Muita intelig\u00eancia artificial e pouco talento \u2014 o que prova que o uso de tecnologias de informa\u00e7\u00e3o sofisticadas n\u00e3o nos salva da mediocridade.<\/p>\n<p>Na <em>pesquisa<\/em> \u2014 na disparidade dos recursos dispon\u00edveis e a perigosa intromiss\u00e3o, sem media\u00e7\u00f5es, de imperativos deslinguistizados nos rumos da pesquisa, ou seja, o investimento seletivo e tendente ao clientelismo de recursos extraor\u00e7ament\u00e1rios para a defini\u00e7\u00e3o dos rumos e temas de pesquisa, doravante subordinada aos interesses relevantes da inova\u00e7\u00e3o, que deveria ser sua suced\u00e2nea e n\u00e3o sua bitola. A disparidade tende a aprofundar a diversa posi\u00e7\u00e3o de cursos em rela\u00e7\u00e3o a demandas ou em fun\u00e7\u00e3o de seu prest\u00edgio social, bem como tende a fortalecer os grupos consolidados e a internacionalizar seletivamente quem j\u00e1 tem ampla rela\u00e7\u00e3o internacional.<\/p>\n<p>Na <em>extens\u00e3o<\/em> \u2014 com a manuten\u00e7\u00e3o de assimetrias, de projetos unilaterais, que terminam por reduzir a extens\u00e3o a uma disputa por alunos, como o fazem as privadas, ou a uma forma menor de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica tamb\u00e9m de m\u00e3o \u00fanica, uma vez que tais projetos est\u00e3o longe de favorecer uma ocupa\u00e7\u00e3o das universidades por demandas e saberes que n\u00e3o mais deveriam ser compreendidos como externalidades.<\/p>\n<p>Na <em>gest\u00e3o universit\u00e1ria<\/em> \u2014 por exemplo, quando a institui\u00e7\u00e3o, vista como mera empresa ou como mais uma reparti\u00e7\u00e3o p\u00fablica, \u00e9 amea\u00e7ada pelo empreendedorismo e aceita medir-se pela mera efic\u00e1cia dos resultados, sem que estes estejam em linha de conta com os prop\u00f3sitos final\u00edsticos da institui\u00e7\u00e3o, de sorte que seus gestores, de representantes mais ou menos pr\u00f3ximos da vontade democr\u00e1tica dos representados, se desnaturam e mesmo se amesquinham como executivos ou lobistas.<\/p>\n<p>Longe de desenvolver aqui tais pontos, apenas os sugerimos, indicando que podem e devem ser desenvolvidos por uma interroga\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica radical e coletiva dos comprometimentos hoje sofridos pela identidade dessa institui\u00e7\u00e3o singular, cujo destino deveria ser pautado pelos des\u00edgnios da educa\u00e7\u00e3o e n\u00e3o pelas for\u00e7as da barb\u00e1rie.<\/p>\n<h3><strong>7. <\/strong><\/h3>\n<p>A rep\u00fablica n\u00e3o deve precisar de s\u00e1bios, mas sim de universidades. Por isso, insistimos na import\u00e2ncia da conjun\u00e7\u00e3o. Filosofia e universidade, registrando que a conjun\u00e7\u00e3o encobre uma natureza adversativa. \u00c9 verdadeira t\u00e3o somente se ambos os termos se afirmam, mas n\u00e3o \u00e9 uma mera fun\u00e7\u00e3o de verdade de dimens\u00f5es isoladas. A conjun\u00e7\u00e3o \u00e9 adversativa, pois os termos se matizam. Cada um \u00e9, apesar do outro; cada qual pode ser por causa do outro.<\/p>\n<p>Em sendo assim, as medidas pr\u00f3prias da compet\u00eancia filos\u00f3fica devem se afirmar, em todo pa\u00eds e em face de todas as \u00e1reas, da mesma forma que as universidades federais n\u00e3o podem ser reduzidas a institui\u00e7\u00f5es de terceiro grau. Aqui, importa registrar que as universidades, uma vez medidas por um tempo comum que n\u00e3o se congela nos pr\u00e9dios j\u00e1 constru\u00eddos, s\u00e3o da ordem do que se move e n\u00e3o do que se classifica em <em>rankings<\/em>. Estes s\u00e3o importantes como s\u00e3o indispens\u00e1veis os rel\u00f3gios para o medir das horas e o estabelecimento de acordos, mas os rankings n\u00e3o s\u00e3o as universidades, assim como os rel\u00f3gios n\u00e3o s\u00e3o o tempo.<\/p>\n<p>Os profissionais aut\u00eanticos de filosofia, os que n\u00e3o est\u00e3o fechados em seus pr\u00f3prios interesses ou em suas carreiras, devem empregar sua voca\u00e7\u00e3o al\u00e9m de suas comunidades diminutas, que podem continuar diminutas, mesmo se internacionais. Se somos oper\u00e1rios de uma coisa universit\u00e1ria, temos obriga\u00e7\u00f5es com nossa casa, com esse lugar que nos abriga e emprega, de sorte que nosso labor intelectual n\u00e3o pode descurar nosso compromisso militante com essa morada que nos alimenta. Mais que nunca, em defesa de nossa profiss\u00e3o e de nossa casa, devemos nos proteger tanto do obscurantismo alheio quanto de n\u00f3s mesmos, de nossas pr\u00f3prias limita\u00e7\u00f5es pouco esclarecidas.<\/p>\n<p>A conjun\u00e7\u00e3o \u00e9 adversativa, mas n\u00e3o repulsiva. Al\u00e9m disso, \u00e9 essencial para situarmos esses dois projetos de Estado (e, queremos crer, de um Estado democr\u00e1tico) na longa dura\u00e7\u00e3o, ou seja, projetos que n\u00e3o se medem pelo imediato. Essa liga\u00e7\u00e3o entre filosofia e universidade, longe de ser absurda, prenuncia o la\u00e7o entre seres definidos pela mesma temporalidade. Como t\u00eam esse horizonte comum, n\u00e3o guardam a incompatibilidade incontorn\u00e1vel dos centauros, dos quais asseverara Lucr\u00e9cio: \u201cN\u00e3o houve centauros nem podem em tempo algum existir conjuntos de dupla natureza e de dois corpos, formados de membros d\u00edspares, nem haver for\u00e7as desiguais\u201d.<sup> <\/sup><sup>3<\/sup><\/p>\n<p>Filosofia e universidade (permito-me acrescentar, as humanidades, as artes, as ci\u00eancias e a universidade) n\u00e3o s\u00e3o imisc\u00edveis, como o seriam o corpo do homem e o do cavalo, definidos por temporalidades distintas, sendo adulto em um ano um cavalo mas n\u00e3o um homem. Ao contr\u00e1rio, s\u00e3o projetos que t\u00eam em comum a longa dura\u00e7\u00e3o. Em sendo assim, nossa tarefa como animais universit\u00e1rios \u00e9 permanente, sobretudo quando, al\u00e9m de ensino, pesquisa e extens\u00e3o, tamb\u00e9m nos comprometemos com a representa\u00e7\u00e3o do interesse coletivo.<\/p>\n<p>Nesse caso, nunca podemos esquecer e repetimos. Nenhuma representa\u00e7\u00e3o se completa ou se faz sem a renova\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a, nem pode falar de um lugar abstrato, que representasse por si a raz\u00e3o. Tal lugar puro seria falso e mesmo ultrajante, face nossa realidade e nossa hist\u00f3ria. Logo, n\u00e3o havendo mesmo um sujeito universal, ningu\u00e9m encarna a realidade por completo, cabendo ao representante que se importe com sua pr\u00f3pria legitimidade, renovar os votos a cada instante, lavar suas guias, negar-se para enfim manter a aposta origin\u00e1ria.<\/p>\n<p>N\u00e3o se abrevia o tempo, nem se reduz a longa dura\u00e7\u00e3o. O tempo da universidade n\u00e3o se reduz a documentos sem vida, a normas nunca seguidas, nem se aninha nas restri\u00e7\u00f5es or\u00e7ament\u00e1rias. O tempo da universidade, se relevante a institui\u00e7\u00e3o, mede-se por um n\u00e3o ser, ou seja, por conhecimentos ainda n\u00e3o adquiridos e em vidas por serem ainda transformadas. A n\u00f3s, profissionais da filosofia, das artes e das ci\u00eancias, cabe apenas a tarefa simples de cria\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es que nos permitam, por nossas a\u00e7\u00f5es comuns, confiar-nos ao tempo.<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p>1 GIANNOTTI, J. A. Filosofia mi\u00fada e demais aventuras. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1985, p. 12.<\/p>\n<p>2 GIANNOTTI, J. A. Filosofia mi\u00fada e demais aventuras, p. 15.<\/p>\n<p>3 LUCR\u00c9CIO. <em>Da Natureza<\/em>. Porto Alegre: Globo, 1962, p. 168.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Mas algo os une: interrogar o presente em busca de conhecimentos a serem constru\u00eddos e vidas por transformar. Este di\u00e1logo \u00e9 essencial para forjar um projeto de longo prazo diante dos desmontes<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/alemdamercadoria\/filosofia-e-universidade-para-uma-sintonia-possivel\/\">Filosofia e Universidade: para uma sintonia poss\u00edvel<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":91624,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[6188,67412,67413,67414,58641,36363,8619,40,13097,67415,41895,67416,67417,67418,67419,67420,23308,867,67421,6108,1066],"tags":[],"class_list":["post-91623","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-alem-da-mercadoria","category-beletrismo","category-ciencias-e-artes","category-coisa-universitaria","category-comunidade-cientifica","category-conhecimento","category-ensino","category-europa","category-filosofia","category-futuro-da-filosofia","category-gestao-universitaria","category-identidade-precaria-da-filosofia","category-instituicoes-vivas","category-interrogacao-filosofica","category-papers","category-paradoxo","category-pensamento","category-pesquisa","category-tempo-da-universidade","category-ufba","category-universidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/91623","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=91623"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/91623\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/91624"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=91623"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=91623"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=91623"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}