{"id":91650,"date":"2026-06-12T18:12:47","date_gmt":"2026-06-12T21:12:47","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/na-cultura-a-saida-de-nosso-labirinto\/"},"modified":"2026-06-12T18:12:47","modified_gmt":"2026-06-12T21:12:47","slug":"na-cultura-a-saida-de-nosso-labirinto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/na-cultura-a-saida-de-nosso-labirinto\/","title":{"rendered":"Na Cultura, a sa\u00edda de nosso labirinto?"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1395\" height=\"1500\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Alienation-Acrylic-on-Canvas-90-cm-x-90-cm-Tina-Finch-1904x2048.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Alienation-Acrylic-on-Canvas-90-cm-x-90-cm-Tina-Finch-1395x1500.jpg 1395w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Alienation-Acrylic-on-Canvas-90-cm-x-90-cm-Tina-Finch-279x300.jpg 279w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Alienation-Acrylic-on-Canvas-90-cm-x-90-cm-Tina-Finch-768x826.jpg 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Alienation-Acrylic-on-Canvas-90-cm-x-90-cm-Tina-Finch-1428x1536.jpg 1428w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Alienation-Acrylic-on-Canvas-90-cm-x-90-cm-Tina-Finch-1904x2048.jpg 1904w\" sizes=\"(max-width: 1395px) 100vw, 1395px\"><figcaption>Arte: Tina Finch<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<p><imgsrc=\"\" width=\"1\" height=\"1\" alt=\".\" border=\"0\">\n<\/div>\n<\/div>\n<p>A realidade n\u00e3o se esgota no que j\u00e1 existe, ela transita entre a heran\u00e7a recebida e a antecipa\u00e7\u00e3o do vir-a-ser. No entanto \u00e9 necess\u00e1rio discernir o real e a capacidade de vislumbrar o poss\u00edvel, aquilo ainda n\u00e3o foi parido, mas que pode nascer. Esse \u00e9 o grande desafio do momento hist\u00f3rico atual, caracterizado por um descolamento da no\u00e7\u00e3o de realidade. N\u00e3o se trata apenas de relativiza\u00e7\u00e3o conceitual ou epistemol\u00f3gica, mas de algo mais profundo, como uma fissura na pr\u00f3pria experi\u00eancia hist\u00f3rica. Aquilo que antes se apresentava como mundo vivido, partilhado no tempo e no espa\u00e7o, dissolve-se agora em fluxos de imagens, signos e representa\u00e7\u00f5es. O presente torna-se cont\u00ednuo e sem espessura, como se o tempo tivesse perdido a mem\u00f3ria de si mesmo, da\u00ed a necessidade de distinguir mem\u00f3ria de ilus\u00e3o, reconhecendo na hist\u00f3ria as possibilidades que permanecem abertas em seu interior, de modo a conseguirmos compreender a realidade para transforma-la.<\/p>\n<p>Com a espetaculariza\u00e7\u00e3o da vida, realidade aumentada, as redes sociais alimentadas pelo hedonismo, individualismo e superficialidade, manipula\u00e7\u00e3o algor\u00edtmica, a intelig\u00eancia artificial, e tudo o mais que se soma a esse cen\u00e1rio, o deslocamento da realidade acontece em progress\u00e3o geom\u00e9trica, via bits e bytes. O desafio da Cultura est\u00e1 em auxiliar a humanidade a se assenhorar da realidade, rompendo com a afirma\u00e7\u00e3o da apar\u00eancia de modo a superar esse ambiente triste e opressor. Em tempos de espet\u00e1culo permanente, a verdade raramente se apresenta como evid\u00eancia est\u00e1vel, surgindo apenas como um lampejo que rasga a superf\u00edcie lisa das imagens.<\/p>\n<p>\u201cO espet\u00e1culo domina os homens vivos quando a economia j\u00e1 os dominou totalmente. Ele nada mais \u00e9 que a economia desenvolvendo-se por si mesma. \u00c9 o reflexo fiel da produ\u00e7\u00e3o das coisas, e a objetiva\u00e7\u00e3o infiel dos produtores.\u201d<sup>1<\/sup><\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/14--19.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/14--19.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/14-1-300x110.png 300w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>\u201cTudo o que era vivido diretamente tornou-se representa\u00e7\u00e3o. [\u2026] O espet\u00e1culo em geral, como invers\u00e3o concreta da vida, \u00e9 o movimento aut\u00f4nomo do n\u00e3o-vivo\u201d<sup>2<\/sup>. O livro <em>A sociedade do espet\u00e1culo<\/em>, de Guy Debord, antecipou an\u00e1lises que, na terceira d\u00e9cada do terceiro mil\u00eanio, tornam-se assustadoramente evidentes. A espetaculariza\u00e7\u00e3o da vida consolidou uma vis\u00e3o de mundo que se objetivou na rela\u00e7\u00e3o social mediada por imagens e apar\u00eancias, quando a <em>\u201c\u2026realidade vivida \u00e9 materialmente invadida pela contempla\u00e7\u00e3o do espet\u00e1culo\u201d<sup>3<\/sup>.<\/em> Essa invas\u00e3o n\u00e3o ocorre de forma ruidosa, ao contr\u00e1rio, instala-se de maneira silenciosa, como se fosse natural, produzindo uma aliena\u00e7\u00e3o rec\u00edproca fundada na afirma\u00e7\u00e3o da apar\u00eancia. At\u00e9 que as pessoas j\u00e1 n\u00e3o tenham clareza de como foram coisificadas. \u00c9 o imp\u00e9rio do nada que chega t\u00e3o somente a ele mesmo, criando o <em>\u201cnada idiotizado\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>Um vazio que se multiplica em imagens e ecos de imagens, como se a pr\u00f3pria civiliza\u00e7\u00e3o passasse a contemplar as ru\u00ednas de seu sentido enquanto continua a caminhar. Realiza-se, assim, um Poder Absoluto a gerir uma sociedade aprisionada e incapaz de perceber as paredes de sua pr\u00f3pria pris\u00e3o. O <em>\u201cnada idiotizado\u201d<\/em> produz uma sociedade inapta ao di\u00e1logo e \u00e0 reflex\u00e3o, movida por impulsos e apar\u00eancias. Essa perda de sentido e de unidade do mundo, em que a linguagem comum da separa\u00e7\u00e3o prevalece fabricando a aliena\u00e7\u00e3o em estado concreto. Com isso, a compreens\u00e3o da pr\u00f3pria exist\u00eancia dissolve-se em uma acumula\u00e7\u00e3o que se torna imagem e a grande fonte de reprodu\u00e7\u00e3o do Capital, agora sob a forma de tecnofeudalismo, tamb\u00e9m conhecida como o mundo das BigTechs e do Capitalismo de Plataforma. Nesse regime, o dom\u00ednio n\u00e3o se organiza apenas pela propriedade das f\u00e1bricas, mas pela captura dos fluxos de aten\u00e7\u00e3o, dados e desejos. Ainda em Debord, em texto de 1967:<\/p>\n<p>\u201cAs pessoas admir\u00e1veis em quem o sistema se personifica s\u00e3o conhecidas por aquilo que n\u00e3o s\u00e3o; tornam-se grandes homens ao descer abaixo da realidade da vida individual m\u00ednima. Todos sabem disso.\u201d<sup>4<\/sup><\/p>\n<p>Atual\u00edssimo. Cabe, ou melhor, caberia, \u00e0 Cultura possibilitar a fus\u00e3o do conhecimento e da a\u00e7\u00e3o, produzindo condi\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas para o florescimento de uma consci\u00eancia coletiva emancipat\u00f3ria. Pessoas s\u00f3 se movimentam no mundo com autonomia e liberdade quando conseguem perceber a realidade em que vivem. A Classe da Consci\u00eancia n\u00e3o constitui uma posi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica determinada e sim uma condi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica alcan\u00e7ada quando indiv\u00edduos e coletividades deixam de viver apenas como objetos dos processos sociais e passam a reconhecer-se como sujeitos da transforma\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata apenas da rela\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica entre detentores dos meios de produ\u00e7\u00e3o e for\u00e7a de trabalho, ela est\u00e1 al\u00e9m, pois ultrapassa essencializa\u00e7\u00f5es e identidades cerradas. Trata-se de uma rela\u00e7\u00e3o mais profunda entre aqueles que ainda conseguem perceber-se como sujeitos da hist\u00f3ria e aqueles que est\u00e3o sendo tragados pelo tsunami da coisifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A ideia de Classe da Consci\u00eancia n\u00e3o nasceu agora, ela me acompanha h\u00e1 d\u00e9cadas, ainda que sob diferentes nomes e formula\u00e7\u00f5es. Em minha disserta\u00e7\u00e3o de mestrado, posteriormente publicada no livro <em>Na Trilha de Macuna\u00edma<\/em>, j\u00e1 estava presente a percep\u00e7\u00e3o de que a emancipa\u00e7\u00e3o humana n\u00e3o depende apenas das condi\u00e7\u00f5es materiais de exist\u00eancia, mas tamb\u00e9m da capacidade de produzir sentido sobre a pr\u00f3pria vida. Ao refletir sobre a redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho compreendi que o Tempo Livre n\u00e3o representa apenas descanso ou lazer, devendo ser entendido como a fresta, o respiro em que as pessoas podem encontrar a possibilidade de elaborar identidades transversais, desenvolvendo sensibilidades, compartilhando experi\u00eancias e transformando viv\u00eancias dispersas em consci\u00eancia coletiva. Mais que no ambiente de trabalho, cada vez mais fragmentado e colonizado por metas, isolamento, cansa\u00e7o e competi\u00e7\u00e3o. Nascida no territ\u00f3rio do tempo livre, a Classe da Consci\u00eancia poder\u00e1 fazer germinar com mais for\u00e7a as lutas sociais, os projetos de futuro e a percep\u00e7\u00e3o que o indiv\u00edduo tem de si como sujeito da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Essa mesma quest\u00e3o reaparece na interpreta\u00e7\u00e3o que fa\u00e7o sobre a obra <em>Macuna\u00edma, <\/em>de M\u00e1rio de Andrade. O embate entre Macuna\u00edma e o Gigante Piaim\u00e3 n\u00e3o pode ser reduzido \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o simplista entre her\u00f3i e vil\u00e3o. Trata-se tamb\u00e9m de um confronto simb\u00f3lico entre a pot\u00eancia criadora da cultura popular e as for\u00e7as que buscam captur\u00e1-la, domestic\u00e1-la ou convert\u00ea-la em objeto de domina\u00e7\u00e3o. Macuna\u00edma vence n\u00e3o pela for\u00e7a bruta, mas pela ast\u00facia, pela imagina\u00e7\u00e3o, pela capacidade de transitar entre mundos e reinventar significados. \u00c9 um combate travado no campo da cultura, da sensibilidade e da intelig\u00eancia coletiva.<\/p>\n<p>Logo ap\u00f3s haver escrito \u201cNa trilha de Macuna\u00edma\u201d fui trabalhar no Minist\u00e9rio da Cultura e, ao formular a Cultura Viva, aprofundei essa intui\u00e7\u00e3o; mais que isso, encontrei e experimentei na pr\u00e1tica. N\u00e3o concebi o conceito de Ponto de Cultura apenas como equipamento, projeto ou pol\u00edtica p\u00fablica de transfer\u00eancia de recursos para organiza\u00e7\u00f5es culturais de base comunit\u00e1ria; reduzi-lo a isso<sup>5<\/sup> n\u00e3o \u00e9 apenas um equ\u00edvoco, como tamb\u00e9m um grave erro, demonstra\u00e7\u00e3o de desprezo com a energia criadora dos povos que, na aparente benevol\u00eancia, mant\u00e9m intocadas as hierarquias culturais. Ponto de Cultura \u00e9 um conceito que transforma benefici\u00e1rios em sujeitos, espectadores em criadores, indiv\u00edduos isolados em comunidades de sentido, um espa\u00e7o de produ\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia, lugar onde pessoas historicamente tratadas como objetos das decis\u00f5es alheias descobrem-se autoras de suas pr\u00f3prias narrativas. O protagonismo cultural \u00e9, antes de tudo, protagonismo existencial.<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/HUCITEC-eticadissidencia-2.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/HUCITEC-eticadissidencia-2.png 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/HUCITEC-eticadissidencia-300x37.png 300w\" sizes=\"(max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Dessa trajet\u00f3ria emergiu a no\u00e7\u00e3o de Classe da Consci\u00eancia, que encontrei primeiro como cita\u00e7\u00e3o pouco desenvolvida em Debord e fui aprofundando, ainda que de forma incompleta e inicialmente um tanto quanto intuitiva<sup>6<\/sup>. N\u00e3o uma classe definida pela posi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, ou rela\u00e7\u00e3o com o trabalho, renda ou ocupa\u00e7\u00e3o profissional, mas pela capacidade de reconhecer-se como sujeito da transforma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Uma classe que atravessaria posi\u00e7\u00f5es sociais, territ\u00f3rios, gera\u00e7\u00f5es e identidades, formada quando seres humanos recusam a condi\u00e7\u00e3o de coisa, rompem as amarras da aliena\u00e7\u00e3o e assumem a responsabilidade de interpretar criticamente o mundo para nele agir. N\u00e3o \u00e9 um conceito que substitui as classes sociais duras, nem desconsidera os conflitos materiais que estruturam a sociedade, ao contr\u00e1rio, surge nesse ambiente. Mas procura dar um salto pr\u00e1tico como dimens\u00e3o reflexiva e emancipadora, e pode ser a for\u00e7a motriz presente em todas as lutas que buscam afirmar a dignidade humana, a liberdade e o direito de imaginar futuros diferentes daqueles que o poder considera inevit\u00e1veis. Num mundo em desmaterializa\u00e7\u00e3o, quem sabe n\u00e3o seria essa classe, igualmente imaterial, a classe da emancipa\u00e7\u00e3o no s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>Nem tudo deu certo, talvez nem pudesse dar. O mundo mudou menos do que sonh\u00e1vamos e mais do que imagin\u00e1vamos, algumas conquistas permaneceram, outras se perderam, outro tanto ainda aguardam seu tempo. N\u00e3o h\u00e1 motivo para triunfalismo. Tampouco para desist\u00eancia. O que foi semeado continua vivo, ainda que por vezes quase invis\u00edvel. H\u00e1 \u00e9pocas em que a esperan\u00e7a parece reduzir-se a um fio, mas um fio n\u00e3o \u00e9 nada desprez\u00edvel, com ele se tecem redes, se costuram feridas, se encontra a sa\u00edda dos labirintos. O futuro talvez dependa justamente da capacidade de reconhecer esse fio e segur\u00e1-lo com firmeza quando tudo ao redor convida ao abandono.<\/p>\n<p>Hoje, um explorado tamb\u00e9m pode ser propriet\u00e1rio de parte dos meios de produ\u00e7\u00e3o. O trabalhador por aplicativo possui seu autom\u00f3vel, motocicleta ou bicicleta -ou arrenda-, assume os custos de manuten\u00e7\u00e3o de seus meios de trabalho e submete-se a jornadas estafantes. Ao mesmo tempo em que se sente dono de seu tempo e meios \u00e9 explorado pelo aplicativo que intermedeia a conex\u00e3o e apropria-se da maior parte do valor gerado por seu esfor\u00e7o. \u00c9 burgu\u00eas ou prolet\u00e1rio? O dono de uma cozinha com equipamentos e instala\u00e7\u00f5es, trabalhadores assalariados a seu servi\u00e7o, igualmente dependente das plataformas digitais para vender seus produtos, com ponto comercial, mesas, gar\u00e7ons e servi\u00e7o de entrega, tamb\u00e9m se v\u00ea submetido ao capitalismo de plataforma. O que era um pequeno burgu\u00eas torna-se o que?<\/p>\n<p>Nessas zonas de ambiguidade propriedade dos meios de produ\u00e7\u00e3o e rela\u00e7\u00f5es de trabalho, tamb\u00e9m surge uma nova classe. A classe do cansa\u00e7o? (como desdobramento do que aponta Byung-Chul Han). Entre os demais fazeres e saberes h\u00e1 tamb\u00e9m os descart\u00e1veis e descartados, a classe dos exclu\u00eddos, abandonados e desvalidos. Outros acreditam estar escalando ao topo e, subitamente, percebem-se rolando encosta abaixo. Esse deveria ser tamb\u00e9m o territ\u00f3rio das pol\u00edticas culturais, mas que hoje sequer o tangencia. Tudo o que vemos, ouvimos e sentimos tornou-se relativizado e negado. Nesse terreno inst\u00e1vel, consolidou-se aquilo que aqui pretendo chamar de Poder Absoluto, conforme busco descrever.<\/p>\n<p>O Poder Absoluto n\u00e3o \u00e9 um sujeito oculto, ou um governo secreto ou uma vontade \u00fanica conduzindo a hist\u00f3ria, n\u00e3o se trata de conspiracionismo, mas da converg\u00eancia hist\u00f3rica entre capital financeiro global, plataformas digitais, militarismo e supremacismo, combinados com sistemas algor\u00edtmicos de controle da aten\u00e7\u00e3o e estruturas de produ\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica. Essa fus\u00e3o \u00e9 capaz de moldar percep\u00e7\u00f5es, desejos e comportamentos em escala planet\u00e1ria como um poder difuso. Justamente por isso, mais dif\u00edcil de ser percebido. Um poder que n\u00e3o precisa impor-se pela for\u00e7a direta -mas tamb\u00e9m a utiliza e mata com crueldade, quando preciso-porque coloniza e aprende a habitar a pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o das consci\u00eancias. Ele \u00e9 o resultado hist\u00f3rico da concentra\u00e7\u00e3o sem precedentes dos meios de produzir riqueza, informa\u00e7\u00e3o e sentido. O Poder Absoluto estabelece-se para \u201cdar as cartas\u201d em um jogo que s\u00f3 \u00e9 plenamente real para a microminoria situada no topo das estruturas de poder. A Classe dos multimilion\u00e1rios, alguns, trilion\u00e1rios, essa classe n\u00e3o deveria existir, \u00e9 parasita e cancer\u00edgena, sendo resultado, atrav\u00e9s da a chamada Intelig\u00eancia Artificial, do grande roubo do mundo; ou melhor, pilhagem, saqueio de todos os conhecimentos da humanidade. As Bigtechs deveriam ser expropriadas e transformadas em Bem Comum. Porque se continuarem existindo levar\u00e3o o planeta ao colapso.<\/p>\n<p>A forma hist\u00f3rica do Poder Absoluto n\u00e3o se apresenta com rosto \u00fanico nem ocupa um trono identific\u00e1vel, mas constitui uma arquitetura de poder que arromba fronteiras, governos e institui\u00e7\u00f5es. Seu car\u00e1ter absoluto n\u00e3o deriva da onipot\u00eancia, mas da pretens\u00e3o de converter tudo em mercadoria, subjetividades em dado e imagens, e fluxo em acumula\u00e7\u00e3o. \u00c9 nesse terreno que a realidade passa a ser administrada como representa\u00e7\u00e3o e a experi\u00eancia humana, em todas as suas dimens\u00f5es \u00e9 convertida em ativo econ\u00f4mico via coisifica\u00e7\u00e3o. Ou quase todas as dimens\u00f5es, porque h\u00e1 uma fresta, um tambor de dentro, um fio de esperan\u00e7a, que vai nos dar for\u00e7a para derrotar o Gigante Piaim\u00e3, como na alegoria de Macuna\u00edma \u2013 ao menos quero crer, pois a esperan\u00e7a est\u00e1 por um fio, mas ainda resiste.<\/p>\n<p>A complexidade dessas rela\u00e7\u00f5es afeta a consci\u00eancia para al\u00e9m de momentos mais estruturados da hist\u00f3ria. As pessoas, n\u00f3s, eu, voc\u00ea, est\u00e3o em desarmonia consigo mesmas; vive-se de um jeito, trabalha-se de outro, pensa-se de forma diferente daquela com que se age. \u00c9 um sentir, pensar e agir em permanente contradi\u00e7\u00e3o. Inclusive na rela\u00e7\u00e3o com a pr\u00f3pria exist\u00eancia. A humanidade do s\u00e9culo XXI est\u00e1 sendo expropriada do sentido do real e devorada no labirinto do Minotauro de forma espetacularmente banal. E esse labirinto j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 apenas arquitetura, tornou-se Sistema em que cada corredor conduz a outro espelho, e cada espelho a outra imagem, at\u00e9 que a sa\u00edda desaparece na multiplica\u00e7\u00e3o das passagens. A autonomiza\u00e7\u00e3o da esfera cultural sob a sociedade do espet\u00e1culo \u00e9 chave para compreender a l\u00f3gica de acumula\u00e7\u00e3o tecnofeudal, pois esses Senhores da Guerra (em sentido literal), da vida e da morte (igualmente em sentido literal) recorreram a D\u00e9dalo para a constru\u00e7\u00e3o de labirintos infinitos, com entradas e sa\u00eddas m\u00faltiplas. Mas cuja sa\u00edda jamais \u00e9 encontrada.<\/p>\n<p>Sob esse admir\u00e1vel mundo novo, simultaneamente avan\u00e7ado e regressivo, a atividade central da acumula\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o depende da aquisi\u00e7\u00e3o real dos produtos, mas da sensa\u00e7\u00e3o de prazer produzida pela imagem do produto. Em muitos casos o produto sequer precisa existir plenamente, basta sua representa\u00e7\u00e3o. Como num grande mercado de espectros, o desejo passa a circular antes do objeto. Muitas vezes sem ele, porque seguir um influencer pode bastar.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse contexto que a Cultura e a Arte precisam recolocar-se como guias para a condu\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade. O fen\u00f4meno contempor\u00e2neo da ascens\u00e3o da extrema direita est\u00e1 profundamente ligado a esse deslocamento da no\u00e7\u00e3o de realidade. Sua estrat\u00e9gia central consiste em atacar os pr\u00f3prios sentidos que nos permitem reconhecer o real. Para isso utilizam tr\u00eas instrumentos fundamentais: guerra cultural, ret\u00f3rica do \u00f3dio e negacionismo.<\/p>\n<p>N\u00e3o por acaso come\u00e7am atacando as artes. Espet\u00e1culos de teatro e dan\u00e7a, exposi\u00e7\u00f5es em museus, obras liter\u00e1rias, escolas e universidades tornam-se alvos. Professores s\u00e3o amea\u00e7ados, Institui\u00e7\u00f5es s\u00e3o desacreditadas e o conhecimento baseado em fatos \u00e9 sistematicamente confrontado. Tudo come\u00e7a com o baralhamento narrativo. Narrativa \u00e9 a forma pelo qual uma hist\u00f3ria se organiza e se torna intelig\u00edvel, mais do que o evento em si, \u00e9 o modo como ele \u00e9 contado que orienta a percep\u00e7\u00e3o coletiva do real. Sempre haver\u00e1 um narrador e toda narrativa pode incluir recortes, \u00eanfases, imagens e omiss\u00f5es. Da\u00ed a necessidade de distinguir narrativa e verdade. Nem toda narrativa \u00e9 falsa, ou verdadeira. Algumas s\u00e3o constru\u00eddas a partir de meias verdades ou distor\u00e7\u00f5es deliberadas. Quando isso ocorre, instala-se uma situa\u00e7\u00e3o em que as pessoas passam a desconfiar da verdade e a acreditar na mentira. Uma Pol\u00edtica Cultural Emancipadora tem por miss\u00e3o auxiliar as pessoas e os grupos sociais a comparar hist\u00f3rias narradas, exercitando observa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica, confronto com fatos, consulta a fontes confi\u00e1veis e ativa\u00e7\u00e3o de todas as intelig\u00eancias sensoriais e reflexivas do ser humano. Harmonizar essas intelig\u00eancias significa limpar camadas, confrontar vers\u00f5es, examinar coer\u00eancias entre discurso e pr\u00e1tica. \u00c9 assim que se produz an\u00e1lise cr\u00edtica, e \u00e9 por meio dessa an\u00e1lise que se distingue uma narrativa falsa de uma narrativa verdadeira.<\/p>\n<p>Certo dia, voltando \u00e0 minha vida interiorana e pr\u00f3ximo ao mato, encontrei um vizinho de fala segura e ambi\u00e7\u00e3o declarada, desses que parecem sempre a um passo de enriquecer, ainda que a realidade insista em adiar o desejo. Em conversa, ele disse estudar metaf\u00edsica para orientar decis\u00f5es em investimentos no chamado \u201cmercado\u201d. Curioso, propus, com a devida dose de ironia, a cria\u00e7\u00e3o de um clube de filosofia pr\u00e1tica. Sugeri, ent\u00e3o, uma aula inaugural sobre a diferen\u00e7a entre metaf\u00edsica e materialismo, a ser realizada numa curva movimentada da rodovia Anhanguera, n\u00e3o t\u00e3o distante de onde moro. O experimento seria simples: os participantes deveriam permanecer no meio da pista, confiando que, pela for\u00e7a do pensamento ou da inten\u00e7\u00e3o, n\u00e3o seriam atingidos por ve\u00edculos em alta velocidade. Se sa\u00edssem ilesos, ter\u00edamos um triunfo da vontade sobre a mat\u00e9ria; se n\u00e3o, a realidade material imporia seus pr\u00f3prios limites, independentemente das cren\u00e7as. N\u00e3o chegamos a realizar a aula, o que, convenhamos, preservou tanto a vida, quanto o argumento. Ainda assim, essa pequena f\u00e1bula ilustra, por contraste, uma distin\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica da filosofia ocidental. Enquanto a metaf\u00edsica tende a atribuir primazia \u00e0s ideias, \u00e0 consci\u00eancia ou a princ\u00edpios n\u00e3o materiais na constitui\u00e7\u00e3o do real, o materialismo insiste que o mundo existe e opera segundo determina\u00e7\u00f5es objetivas, que n\u00e3o se alteram por ades\u00e3o subjetiva. Desde ent\u00e3o o vizinho n\u00e3o me procurou mais, e pude caminhar em paz no bosque e o canto dos p\u00e1ssaros que n\u00e3o vejo em meio \u00e0 mata que arrodeia minha casa, esse sim, \u00e9 real.<\/p>\n<p>Ao afirmar a import\u00e2ncia da realidade material n\u00e3o estou negando a dimens\u00e3o simb\u00f3lica, espiritual ou metaf\u00edsica da exist\u00eancia humana. Tampouco proponho uma redu\u00e7\u00e3o da vida \u00e0 mat\u00e9ria entendida como mecanismo cego. A quest\u00e3o \u00e9 outra. Toda experi\u00eancia humana acontece simultaneamente em m\u00faltiplos planos, na exist\u00eancia material, biol\u00f3gica, afetiva, simb\u00f3lica, cultural e espiritual, negar qualquer uma dessas dimens\u00f5es da episteme empobrece a compreens\u00e3o da realidade. A cr\u00edtica que apresento dirige-se a uma tend\u00eancia crescente de substituir a realidade concreta por constru\u00e7\u00f5es abstratas que passam a \u201cexistir\u201d independentemente dos fatos e evid\u00eancias. Em tempos de desinforma\u00e7\u00e3o, negacionismo clim\u00e1tico, manipula\u00e7\u00e3o algor\u00edtmica e fabrica\u00e7\u00e3o industrial de cren\u00e7as, tornou-se necess\u00e1rio reafirmar algo aparentemente simples: o mundo existe.<\/p>\n<p>Os corpos existem, assim como os rios e suas curvas, as florestas e desertos. A fome e desigualdades existem, as explora\u00e7\u00f5es e opress\u00f5es, mudan\u00e7as clim\u00e1ticas tamb\u00e9m. Podemos interpret\u00e1-las de formas distintas, mas n\u00e3o podemos elimin\u00e1-las por decreto, cren\u00e7a ou narrativa. O fil\u00f3sofo Baruch Spinoza, que eu utilizei muito na formula\u00e7\u00e3o de conceitos para a Cultura Viva e os Pontos de Cultura, oferece uma contribui\u00e7\u00e3o importante para essa reflex\u00e3o; para ele, pensamento e extens\u00e3o n\u00e3o constituem mundos separados, mas express\u00f5es diferentes de uma mesma realidade. O ser humano n\u00e3o est\u00e1 fora da natureza, \u00e9 parte dela. N\u00e3o existe oposi\u00e7\u00e3o absoluta entre mat\u00e9ria e esp\u00edrito, ambos participam da mesma subst\u00e2ncia infinita da qual fazemos parte. Essa compreens\u00e3o ajuda a superar uma falsa escolha frequentemente apresentada entre materialismo e espiritualidade. A realidade pode possuir profundidades que escapam \u00e0 percep\u00e7\u00e3o imediata, mesmo assim n\u00e3o deixa de ser real.<\/p>\n<p>Outro autor que muito me influenciou para que alcan\u00e7asse proposi\u00e7\u00f5es expressas desde o in\u00edcio na Cultura Viva, foi Merleau-Ponty, especificamente com a \u201cFenomenologia da Percep\u00e7\u00e3o\u201d<sup>7<\/sup>. Com essa obra, ele recoloca o corpo e a experi\u00eancia vivida no centro da rela\u00e7\u00e3o com o real. Nossa rela\u00e7\u00e3o com o mundo n\u00e3o ocorre por meio de abstra\u00e7\u00f5es desencarnadas, mas atrav\u00e9s do corpo vivido, conhecemos o mundo porque estamos inseridos nele, da\u00ed a proposi\u00e7\u00e3o de conceitos como \u201cencantamento social\u201d e \u201cteia\u201d, presentes na Cultura Viva. N\u00e3o observamos a realidade de fora, participamos dela. A floresta n\u00e3o \u00e9 apenas um conceito, \u00e9 sombra, cheiro, textura, umidade, biodiversidade e experi\u00eancia sens\u00edvel, \u00e9 o jardim amaz\u00f4nico e suas terras pretas, s\u00e3o os seres que a habitam e as intera\u00e7\u00f5es que acontecem no conv\u00edvio com a floresta. A cultura nasce exatamente dessa rela\u00e7\u00e3o corp\u00f3rea entre seres humanos e mundo.<\/p>\n<p>Por outro lado, a cr\u00edtica ao idealismo absoluto possui longa tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica, e me incluo nela. Karl Marx demonstrou que as ideias n\u00e3o flutuam acima da hist\u00f3ria, elas emergem de condi\u00e7\u00f5es concretas de exist\u00eancia. N\u00e3o significa que a consci\u00eancia seja irrelevante, mas sim que a consci\u00eancia vive em corpos, comunidades, territ\u00f3rios e rela\u00e7\u00f5es sociais. N\u00e3o h\u00e1 cultura sem pessoas, nem pessoas sem vida material, que por sua vez, sem a natureza, inexiste. Mas a cr\u00edtica ao idealismo n\u00e3o precisa conduzir a um materialismo estreito, pois a realidade cont\u00e9m possibilidades ainda n\u00e3o percebidas, sequer realizadas. O mundo n\u00e3o \u00e9 apenas o que \u00e9, ele cont\u00e9m tamb\u00e9m aquilo que pode vir a ser. Sonhos, utopias e imagina\u00e7\u00e3o participam da constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da realidade. Se com o materialismo hist\u00f3rico aprendi a compreender as estruturas hist\u00f3ricas que condicionam a exist\u00eancia, com Merleau-Ponty descobri como essa exist\u00eancia \u00e9 efetivamente vivida pelos corpos concretos.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o fundamental n\u00e3o \u00e9 escolher entre mat\u00e9ria e sentido, mas sim o entendimento de que o sentido emerge da pr\u00f3pria experi\u00eancia da vida. A tradi\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica tamb\u00e9m produziu contribui\u00e7\u00f5es fundamentais \u00e0 compreens\u00e3o humana, o problema surge quando constru\u00e7\u00f5es conceituais passam a reivindicar autonomia completa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 experi\u00eancia, aos fatos e \u00e0s consequ\u00eancias concretas da vida. Ernst Bloch chamou aten\u00e7\u00e3o para essa dimens\u00e3o ainda n\u00e3o realizada da realidade. Para ele, a hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 composta apenas pelo que existe, mas tamb\u00e9m pelo que est\u00e1 em processo de vir a ser. H\u00e1 um \u201cainda-n\u00e3o\u201d inscrito no mundo, uma reserva de possibilidades que se manifesta nos sonhos, nas utopias, na arte, nos desejos de justi\u00e7a e nas antecipa\u00e7\u00f5es do futuro presentes nas culturas populares. N\u00e3o se trata de fantasia desligada da vida concreta, mas de uma pot\u00eancia real que habita a pr\u00f3pria mat\u00e9ria hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>\u201cA nossa \u00e9poca \u00e9 a primeira a possuir os pressupostos socioecon\u00f4micos para uma teoria do ainda-n\u00e3o-consciente e do que est\u00e1 relacionado a ele no que-ainda-n\u00e3o-veio-a-ser do mundo. O marxismo, sobretudo, foi o pioneiro em proporcionar ao mundo um conceito de saber que n\u00e3o tem mais como refer\u00eancia essencial aquilo que foi ou existiu, mas a tend\u00eancia do que \u00e9 ascendente. Ele introduz o futuro na nossa abordagem te\u00f3rica e pr\u00e1tica da realidade\u201d <sup>8<\/sup><\/p>\n<p>As grandes transforma\u00e7\u00f5es humanas come\u00e7am quando as pessoas conseguem perceber, no interior do presente, sinais de um futuro poss\u00edvel. A esperan\u00e7a, nessa perspectiva, n\u00e3o \u00e9 espera passiva, \u00e9 uma forma de conhecimento capaz de identificar tend\u00eancias, potencialidades e caminhos de realiza\u00e7\u00e3o ainda ocultos sob as apar\u00eancias do mundo. A\u00ed reside a for\u00e7a da Cultura Viva, uma pol\u00edtica p\u00fablica que n\u00e3o nasceu de postulados tecnocr\u00e1ticos, nem materialismo mecanicista ou reducionismo cient\u00edfico, nem idealismo abstrato, mas sim de um entendimento que parte da filosofia da vida real, relacional e criadora, preservando o rigor diante do negacionismo contempor\u00e2neo sem empobrecer a riqueza simb\u00f3lica, espiritual e po\u00e9tica, aspectos mormente desprezados na formula\u00e7\u00e3o e pr\u00e1tica em assuntos de Estado.<\/p>\n<p>A esperan\u00e7a que apresento n\u00e3o \u00e9 consolo nem resigna\u00e7\u00e3o, \u00e9 movimento de uma humanidade que carrega consigo uma consci\u00eancia antecipadora capaz de perceber aquilo que ainda n\u00e3o existe plenamente, mas que j\u00e1 pulsa<sup>9<\/sup> como possibilidade. O novo nasce primeiro como intui\u00e7\u00e3o, desejo, sonho acordado, imagina\u00e7\u00e3o compartilhada. Antes de transformar a realidade, toda mudan\u00e7a habita o territ\u00f3rio do poss\u00edvel, a esperan\u00e7a \u00e9 a centelha que permite reconhecer essas possibilidades at\u00e9 desencadear a a\u00e7\u00e3o para realiz\u00e1-las. Sem a esperan\u00e7a a hist\u00f3ria se fecha sobre si mesma, com a esperan\u00e7a, o futuro volta a respirar.<\/p>\n<p>A cultura acontece exatamente nesse encontro entre o concreto e o imaginado, entre aquilo que somos e aquilo que aspiramos ser. A defesa da realidade material n\u00e3o representa uma rejei\u00e7\u00e3o da metaf\u00edsica e sim a recusa em abandonar o ch\u00e3o da exist\u00eancia concreta. Podemos discutir o significado do rio, mas primeiro precisamos reconhecer que o rio existe, pois, se ele secar, nenhuma teoria ser\u00e1 capaz de faz\u00ea-lo voltar a correr com suas \u00e1guas. \u00c9 onde entra a dimens\u00e3o da Arte.<\/p>\n<p>Pela Arte se sonha acordado e os sonhos, ao serem confrontados com a fantasia, transformam-se em possibilidades concretas atrav\u00e9s da vida real examinada pelas nervuras dos sentidos -todos os sentidos e percep\u00e7\u00f5es. \u00c9 um devaneio criativo, mas n\u00e3o uma desconex\u00e3o da realidade. O contr\u00e1rio do que se convencionou definir como disson\u00e2ncia cognitiva, como um aprisionamento da pessoa a mentiras, tornando-a incapaz de distinguir fantasia e realidade. Nesta situa\u00e7\u00e3o instala-se um desconforto mental e emocional por conta do desalinho entre cren\u00e7as e atitudes. \u00c9 quando a pessoa sente de uma forma, pensa de outra e age de maneira ainda diferente; algo mais que comum no mundo contempor\u00e2neo. Com isso podem ocorrer atitudes que em outras circunst\u00e2ncias pareceriam impens\u00e1veis e a aliena\u00e7\u00e3o deixa de ser apenas econ\u00f4mica para tornar-se tamb\u00e9m cognitiva e afetiva.<\/p>\n<p>A disson\u00e2ncia cognitiva, no entanto, n\u00e3o surge apenas como conflito interno entre cren\u00e7as e atitudes, em determinadas condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas ela se converte em falsa consci\u00eancia. Karl Marx demonstrou que as rela\u00e7\u00f5es sociais podem aparecer de forma invertida aos pr\u00f3prios sujeitos que as produzem. O trabalhador imagina ser plenamente livre mesmo quando sua liberdade \u00e9 condicionada por estruturas que n\u00e3o controla; da mesma forma, o consumidor acredita escolher autonomamente quando, em realidade, seus desejos s\u00e3o permanentemente modelados. \u00c9 o que ocorre quando o eleitor se sente soberano em sua decis\u00e3o, quando, em realidade, reproduz ideias que refor\u00e7am sua pr\u00f3pria submiss\u00e3o. A falsa consci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 simples ignor\u00e2ncia, \u00e9 uma forma socialmente produzida de perceber o mundo de maneira invertida. Enquanto a disson\u00e2ncia cognitiva opera no plano subjetivo, a falsa consci\u00eancia revela as condi\u00e7\u00f5es objetivas que tornam essa disson\u00e2ncia funcional \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o do poder. Por isso a necessidade de examinar a vida real sempre a partir de uma atitude \u00e9tica rigorosa. Para evitar esse colapso interno, uma a\u00e7\u00e3o cultural transformadora se faz necess\u00e1ria, permitindo que a arte assuma papel emancipador, de modo a possibilitar que as pessoas acreditem em seus sonhos sem jamais se afastarem da \u00e9tica que os orienta e do mundo que os realiza.<\/p>\n<p>\u201c<em>\u2013 Sonhos, acredite neles!\u201d <\/em>Algu\u00e9m disse. E fez.<\/p>\n<p>Mas enquanto n\u00e3o acreditamos nos sonhos a ret\u00f3rica do \u00f3dio aproveita-se da disson\u00e2ncia cognitiva convertendo-se em falsa consci\u00eancia. Essa ret\u00f3rica utiliza linguagem inflamada, desumanizante e discriminat\u00f3ria para mobilizar emo\u00e7\u00f5es e consolidar agendas ideol\u00f3gicas, religiosas ou pol\u00edticas. Manifesta-se de muitas formas, atrav\u00e9s de discursos de \u00f3dio, agress\u00f5es cotidianas, ataques a institui\u00e7\u00f5es e religi\u00f5es, programas de r\u00e1dio ou TV que disseminam medo e viol\u00eancia, falsifica\u00e7\u00f5es em redes sociais, edi\u00e7\u00e3o manipulada de imagens e falas. Por conta da ret\u00f3rica do \u00f3dio, amizades se desfazem, fam\u00edlias se dividem, na\u00e7\u00f5es entram em guerra e povos s\u00e3o dizimados. A hist\u00f3ria j\u00e1 mostrou muitas vezes o caminho que come\u00e7a na palavra desumanizante e termina na viol\u00eancia organizada.<\/p>\n<p>Ao longo da hist\u00f3ria sempre houve ret\u00f3rica do \u00f3dio e teorias conspirat\u00f3rias, o que diferencia o presente \u00e9 a velocidade de propaga\u00e7\u00e3o. Elas se espalham em progress\u00e3o geom\u00e9trica pela infraestrutura das redes digitais. Tudo que \u00e9 diferente passa a ser percebido como amea\u00e7a, n\u00e3o h\u00e1 mais advers\u00e1rios, apenas inimigos a serem eliminados. A desumaniza\u00e7\u00e3o do \u201cOutro\u201d abre caminho para viol\u00eancias cotidianas e para atrocidades hist\u00f3ricas, com assassinatos, massacres, genoc\u00eddios. Essa tamb\u00e9m \u00e9 uma express\u00e3o cultural do nosso tempo e \u00e9 preciso coragem para desarm\u00e1-la. Quem se habilita?<\/p>\n<p>Em meio a esse cen\u00e1rio, a guerra cultural combina baralhamento narrativo, disson\u00e2ncia cognitiva, ret\u00f3rica do \u00f3dio e teorias conspirat\u00f3rias para produzir as mais estapaf\u00fardias interpreta\u00e7\u00f5es do mundo. Terra plana e seres reptilianos s\u00e3o apenas o pr\u00f3logo para algo mais grave, que \u00e9 o negacionismo cient\u00edfico e hist\u00f3rico. Um circuito fechado de cren\u00e7as que aprisiona as pessoas em um labirinto interpretativo sem sa\u00edda, o objetivo n\u00e3o \u00e9 conhecer o mundo, mas produzir uma falsa consci\u00eancia em looping. At\u00e9 que tudo passa a ser relativizado, inclusive o horror. Quando tudo se torna relativo, tudo se torna poss\u00edvel. Nesse terreno f\u00e9rtil florescem discursos e pr\u00e1ticas de exterm\u00ednio que fazem brotar o horror.<\/p>\n<p>\u2013 O horror!<\/p>\n<p>\u00c9 o que pode advir ao mundo. Processos patol\u00f3gicos n\u00e3o se instalam apenas nos indiv\u00edduos, mas tamb\u00e9m nos sistemas de comunica\u00e7\u00e3o dos quais participam. Uma sociedade submetida a mensagens contradit\u00f3rias, est\u00edmulos permanentes e rela\u00e7\u00f5es fundadas na fragmenta\u00e7\u00e3o tende a perder refer\u00eancias comuns para interpretar a realidade. O problema deixa de ser apenas o erro de uma pessoa e passa a residir nos padr\u00f5es coletivos de percep\u00e7\u00e3o que produzem erro em escala social. Quando isso acontece, a pr\u00f3pria cultura pode tornar-se um labirinto de espelhos onde cada imagem confirma a anterior, afastando progressivamente a experi\u00eancia vivida do mundo real. Mas se \u00e9 assim, como enfrentar o desfazimento do real que se propaga em progress\u00e3o geom\u00e9trica? Como dar conta da intelig\u00eancia artificial e da manipula\u00e7\u00e3o algor\u00edtmica?<\/p>\n<p>Talvez o problema n\u00e3o esteja apenas nas m\u00e1quinas que criamos, mas na maneira como passamos a enxergar o mundo atrav\u00e9s delas. Quando descolada da realidade, a cultura torna-se morta, nociva e violenta. Gramsci compreendeu que o poder n\u00e3o se alicer\u00e7a apenas pela for\u00e7a econ\u00f4mica ou coercitiva. Sustenta-se pela capacidade de produzir consenso, fazendo com que uma vis\u00e3o particular de mundo seja percebida como natural por toda a sociedade. A guerra cultural contempor\u00e2nea atua exatamente no terreno que disputa o senso comum, reorganiza afetos e redefine aquilo que pode ou n\u00e3o ser percebido como realidade. Por isso deveria ser encarada como a batalha de todas as batalhas. Mas n\u00e3o \u00e9, principalmente pelo chamado campo \u00e0 esquerda, infelizmente. Da\u00ed as derrotas pol\u00edticas e simb\u00f3licas.<\/p>\n<p>Para transformar o mundo \u00e9 preciso primeiro interpret\u00e1-lo e para interpret\u00e1-lo \u00e9 preciso reconhecer a realidade. Haver\u00e1 tempo para barrar o pavor sem fim?<\/p>\n<p>N\u00e3o sei. Mas tenho esperan\u00e7a. E mesmo quando a esperan\u00e7a falha, ainda assim, n\u00e3o h\u00e1 outra alternativa. \u00c9 preciso esperan\u00e7ar para conter o medo e agir. Agir com senso de urg\u00eancia hist\u00f3rica. A quem pegar este gr\u00e3o, por favor, n\u00e3o vacile. N\u00e3o perca a capacidade de indigna\u00e7\u00e3o. Tenha coragem, criatividade e generosidade. Generosidade, porque sem ela todas as demais qualidades da vida perdem sentido. Criatividade pela capacidade de realizar conex\u00f5es sens\u00edveis com aquilo que aparentemente n\u00e3o conseguimos resolver, mas que come\u00e7a a se revelar quando enfrentamos os problemas. Coragem, porque mudar o mundo n\u00e3o \u00e9 fantasia, \u00e9 necessidade. E indigna\u00e7\u00e3o, porque aceitar o mundo tal como est\u00e1 \u00e9 aceitar tamb\u00e9m suas injusti\u00e7as, render-se. Quando generosidade, criatividade, coragem e indigna\u00e7\u00e3o se encontram, a esperan\u00e7a retorna. E quando a esperan\u00e7a retornar n\u00e3o haver\u00e1 Poder Absoluto capaz de det\u00ea-la. Esse \u00e9 o poder da Cultura e da Arte.<\/p>\n<p>Cada \u00e9poca acredita dominar seus instrumentos, at\u00e9 perceber que tamb\u00e9m foi moldada por eles. No entanto, mesmo no interior do espet\u00e1culo, fragmentos de experi\u00eancia resistem com restos de realidade, pequenas centelhas de verdade. A cultura vive nesses fragmentos. Quando algu\u00e9m os recolhe, num gesto de mem\u00f3ria, cria\u00e7\u00e3o ou indigna\u00e7\u00e3o, o tempo interrompe por um instante sua marcha autom\u00e1tica. Nesse instante compreendemos que o labirinto nunca foi nem ser\u00e1 eterno. Ele apenas aguarda quem tenha a coragem de procurar a sa\u00edda. \u00c0s vezes basta um fio para reencontrarmos a porta e o real voltar\u00e1 a aparecer. O fio de Ariadne do s\u00e9culo XXI n\u00e3o est\u00e1 na tecnologia nem nos algoritmos, est\u00e1 na capacidade humana de reconstruir v\u00ednculos de sentido, mem\u00f3ria e solidariedade. A Cultura n\u00e3o elimina o labirinto, mas permite que a humanidade saia dele.<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p>1 DEBORD, Guy \u2013 A sociedade do espet\u00e1culo, pgs. 17\/18 \u2013 Ed. Contraponto, 2004<\/p>\n<p>2 Idem, pg. 13<\/p>\n<p>3 Idem, pg 15<\/p>\n<p>4 Idem, pg. 41<\/p>\n<p>5 Como considero que est\u00e1 acontecendo atualmente<\/p>\n<p>6 Pretendo aprofundar o conceito em reflex\u00e3o futura, que nasce da converg\u00eancia entre Marx, M\u00e1rio de Andrade, Debord, a experi\u00eancia da Cultura Viva e a reflex\u00e3o sobre o Tempo Livre como espa\u00e7o de forma\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia. Nesse trabalho, que j\u00e1 iniciei a escrita, tamb\u00e9m irei aprofundar os conceitos de Poder Absoluto, classe do cansa\u00e7o e classe dos descart\u00e1veis (e mat\u00e1veis). Tamb\u00e9m trato do conceito no poema \u201cA era das indigna\u00e7\u00f5es\u201d (in. FIOS DA HIST\u00d3RIA \u2013 ed Cl\u00f3e)<\/p>\n<p>7 Destaco a \u201cFenomenologia da Percep\u00e7\u00e3o\u201d porque nessa obra Merleau-Ponty questiona a tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica que separa rigidamente sujeito e objeto, consci\u00eancia e mundo. A percep\u00e7\u00e3o n\u00e3o aparece como simples recep\u00e7\u00e3o passiva de informa\u00e7\u00f5es nem como constru\u00e7\u00e3o puramente mental, mas como uma rela\u00e7\u00e3o origin\u00e1ria de participa\u00e7\u00e3o no real. O mundo n\u00e3o \u00e9 algo exterior que observamos \u00e0 dist\u00e2ncia, \u00e9 o horizonte dentro do qual existimos e adquirimos sentido. A percep\u00e7\u00e3o antecede muitas das abstra\u00e7\u00f5es que utilizamos para explicar a vida., pois antes de interpretar, j\u00e1 estamos mergulhados no real. Essa perspectiva ajuda a compreender por que o deslocamento contempor\u00e2neo da no\u00e7\u00e3o de realidade representa mais do que uma crise de informa\u00e7\u00e3o ou de conhecimento, trata-se tamb\u00e9m de uma crise da experi\u00eancia vivida e dos modos pelos quais os seres humanos reconhecem a si mesmos, aos outros e ao mundo que compartilham. MERLEAU-PONTY, Maurice \u2013 FENOMENOLOGIA DA PERCEP\u00c7\u00c3O, Martins Fontes, 1999.<\/p>\n<p>8 BLOCH, Ernest \u2013 O PRINC\u00cdPIO DA ESPERAN\u00c7A, pg 141 \u2013 Ed. Contraponto, 2005<\/p>\n<p>9 Presente na pr\u00f3pria logomarca da Cultura Viva e do Ponto de Cultura.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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N\u00e3o h\u00e1 mais Hist\u00f3ria nem Futuro, sob o neoliberalismo \u2013 s\u00f3 lampejos, hedonismo e depress\u00e3o. Como a produ\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, que reconecta com valores antissist\u00eamicos, pode resgatar a cr\u00edtica e transforma\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/na-cultura-a-saida-de-nosso-labirinto\/\">Na Cultura, a sa\u00edda de nosso labirinto?<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":91651,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[6803,597,5511,978,67457,67458,67459,67460,2687,309,632,98,67461,21911,67462,8244,6219,67463,19458,16063,31635,18928,67464,2044,67465,56987,10599,67466,6970,15076,1977,67467],"tags":[],"class_list":["post-91650","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-alienacao","category-big-techs","category-capa","category-capitalismo","category-classe-da-consciencia","category-classe-da-emancipacao","category-classses-sociais","category-consciencia-coletivo","category-crise-civilizatoria","category-cultura","category-cultura-popular","category-desigualdades","category-espetacularizacao-da-vida","category-espetaculo","category-existencia","category-guy-debord","category-ia","category-idealismo-absoluto","category-identidades","category-inteligencia-coletiva","category-liberdade","category-macunaima","category-nada-idiotizado","category-negacionismo-climatico","category-pequeno-burgues","category-ponto-de-cultura","category-realidade","category-relativizacao-conceitual","category-tecnofeudalismo","category-territorios","category-trabalhador","category-triunfalismo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/91650","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=91650"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/91650\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/91651"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=91650"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=91650"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=91650"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}