{"id":91791,"date":"2026-06-14T13:30:15","date_gmt":"2026-06-14T16:30:15","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/trump-caca-motivos-para-punir-africa-do-sul-diz-academica-sul-africana\/"},"modified":"2026-06-14T13:30:15","modified_gmt":"2026-06-14T16:30:15","slug":"trump-caca-motivos-para-punir-africa-do-sul-diz-academica-sul-africana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/trump-caca-motivos-para-punir-africa-do-sul-diz-academica-sul-africana\/","title":{"rendered":"\u2018Trump ca\u00e7a motivos para punir \u00c1frica do Sul\u2019, diz acad\u00eamica sul-africana"},"content":{"rendered":"<p>\u201cOs Estados Unidos sob lideran\u00e7a de Donald Trump buscam motivos para punir a \u00c1frica do Sul\u201d, \u00e9 o que afirma a acad\u00eamica Sandy Africa, diretora do Instituto Mapundubwe para Reflex\u00e3o Estrat\u00e9gica (MISTRA), um dos principais de Pret\u00f3ria. Em S\u00e3o Paulo, onde participou de evento acad\u00eamico organizado pela Universidade Federal do ABC (UFABC), Africa conversou com <strong>Opera Mundi<\/strong> sobre o pa\u00eds sul-africano, em particular a pol\u00edtica externa independente do presidente Cyril Ramaphosa.<\/p>\n<p>Em maio do ano passado, o l\u00edder do Congresso Nacional Africano (CNA) e presidente do pa\u00eds desde 2018 foi \u00e0 Casa Branca e passou por um constrangimento diplom\u00e1tico quando Trump mencionou uma falsa persegui\u00e7\u00e3o \u00e0 minoria branca do pa\u00eds. \u201c\u00c9 a fic\u00e7\u00e3o que eles est\u00e3o construindo\u201d, afirmou Africa, que n\u00e3o s\u00f3 militou contra o regime de segrega\u00e7\u00e3o racial do apartheid como esteve \u00e0 frente do setor de seguran\u00e7a do governo da CNA, implementando a transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Em sua avalia\u00e7\u00e3o, a rusga de Trump contra Ramaphosa deve-se \u00e0 pol\u00edtica externa independente de Pret\u00f3ria. Por seu hist\u00f3rico, o pa\u00eds n\u00e3o s\u00f3 vem mantendo rela\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas com a China e R\u00fassia, seus parceiros no BRICS, como decidiu levar Israel ao Tribunal Internacional de Justi\u00e7a (TIJ), acusando o genoc\u00eddio perpetrado pelo premi\u00ea israelense Benjamin Netanyahu contra o povo palestino na Faixa de Gaza.<\/p>\n<p><strong>Leia a entrevista na \u00edntegra:<\/strong><\/p>\n<p><strong>Opera Mundi: Sandy, voc\u00ea participou da luta contra o apartheid na \u00c1frica do Sul e atuou no processo de transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica do pa\u00eds, como foi essa experi\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sandy Africa<\/strong>: eu me envolvi na luta contra o apartheid e no movimento democr\u00e1tico, em particular, com a Frente Democr\u00e1tica Unida (FDU) e o Congresso Nacional Africano (CNA). Uma gera\u00e7\u00e3o inteira de sul-africanos envolveu-se nessa luta. Na \u00e9poca, eu atuava no movimento estudantil e nas organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Em 1990, havia a luta armada e surgiu a oportunidade de um acordo com a transi\u00e7\u00e3o negociada. Eu tive a sorte de participar desses acontecimentos e me envolvi no governo, sendo nomeada diretora-chefe do departamento de Seguran\u00e7a do novo governo.<\/p>\n<p>Nossa miss\u00e3o era reformar o setor e torn\u00e1-lo mais respons\u00e1vel, respeitando os direitos humanos, e colocando sob supervis\u00e3o do Parlamento. Eu participei dos debates sobre como fazer isso acontecer. Depois dessa experi\u00eancia eu entrei na academia e essa experi\u00eancia no \u00e2mbito do Estado e do movimento democr\u00e1tico me ajudou muito. Agora, eu atuo como diretora de pesquisa no think tank MISTRA, ap\u00f3s anos lecionando na Universidade de Pret\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong>O Brasil, assim como a \u00c1frica do Sul, passou pela coloniza\u00e7\u00e3o europeia que nos deixou uma grave heran\u00e7a colonial de racismo e viol\u00eancia. A popula\u00e7\u00e3o negra \u00e9 a que mais \u00e9 presa e morre submetida \u00e0 viol\u00eancia policial. O que a experi\u00eancia sul-africana no setor da seguran\u00e7a pode nos ajudar neste sentido?<\/strong><\/p>\n<p>A maior li\u00e7\u00e3o \u00e9 que a mudan\u00e7a nunca deve ser dada como definitiva. Neste momento, n\u00f3s tamb\u00e9m estamos passando por problemas no setor de seguran\u00e7a. Embora tenhamos introduzido muitas reformas louv\u00e1veis durante a transi\u00e7\u00e3o, ap\u00f3s algum tempo, esses avan\u00e7os come\u00e7aram a ser minados.<br \/>\nIsso se deve, em parte, ao Parlamento que desempenhou o papel que devia. Os partidos pol\u00edticos usaram o setor de seguran\u00e7a como arma em suas disputas pol\u00edticas. Ao mesmo tempo, a sociedade civil tornou-se mais complacente, ao imaginar que por estarmos sob um governo democr\u00e1tico, tudo ocorreria bem.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que n\u00f3s precisamos ter institui\u00e7\u00f5es fortes de fiscaliza\u00e7\u00e3o e de presta\u00e7\u00e3o de contas. O sistema judicial deve ser s\u00f3lido e a sociedade civil, sobretudo, deve permanecer ativamente envolvida na presta\u00e7\u00e3o de contas das institui\u00e7\u00f5es. N\u00f3s tivemos v\u00e1rias comiss\u00f5es na \u00c1frica do Sul que investigara o setor de seguran\u00e7a, expondo muita corrup\u00e7\u00e3o e a captura do Estado. Tem havido uma grande press\u00e3o para que o Estado seja mais responsivo e estamos come\u00e7ando a ver pessoas de alto escal\u00e3o do setor de seguran\u00e7a sendo presas ou investigadas. Esperamos que, no final disso tudo, haja justi\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea v\u00ea a democracia hoje? N\u00e3o apenas na \u00c1frica do Sul, mas no continente em geral?<\/strong><\/p>\n<p>Este \u00e9 o tema de um estudo que o Mistra acaba de lan\u00e7ar (acesse gratuitamente aqui). Estamos muito preocupados com o futuro da democracia. A Constitui\u00e7\u00e3o da \u00c1frica do Sul baseia-se na democracia multipartid\u00e1ria e est\u00e1 escrito que nossos mecanismos de fiscaliza\u00e7\u00e3o devem incluir todos os partidos, portanto, existe uma base constitucional bastante s\u00f3lida. No entanto, se a democracia n\u00e3o cumpre o que promete ao povo \u2014 no nosso caso, isso significa garantia de direitos como liberdade de associa\u00e7\u00e3o, direito a servi\u00e7os b\u00e1sicos, \u00e0 vida, \u00e0 sa\u00fade etc. \u2014, as pessoas ficam muito desiludidas.<\/p>\n<p>\u00c9 o que ocorre em v\u00e1rios pa\u00edses africanos. Na d\u00e9cada de 1990, muitos pa\u00edses passaram do regime militar para a democracia e, agora, eles sentem que foi uma democracia vazia. Houve um per\u00edodo de consolida\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, mas as crises que muitos pa\u00edses enfrentaram, como a financeira de 2008\/2009 e as subsequentes, a da COVID 19 que afetou gravemente as economias, revelaram uma governan\u00e7a deficiente para respond\u00ea-las.<\/p>\n<p>Isso se soma ao fracasso de alguns Estados mais fr\u00e1geis em resolver conflitos por meio do di\u00e1logo, recorrendo \u00e0 for\u00e7a e \u00e0 escalada de conflitos, que resultaram no deslocamento de milhares de pessoas. Na pr\u00e1tica, esses conflitos tornaram-se uma fonte de renda abrindo uma corrida atr\u00e1s de recursos. Com isso, as pessoas se frustraram com a democracia.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio \u00e9 muito preocupante. Parte da popula\u00e7\u00e3o pensa que se a democracia n\u00e3o cumpre o prometido, talvez dev\u00eassemos seguir o exemplo dos Estados autorit\u00e1rios, acreditando que, pelo menos, as coisas ser\u00e3o feitas. \u201cA democracia est\u00e1 falhando em dar resultados definitivos, ent\u00e3o, talvez apenas seja necess\u00e1rio um homem, porque \u00e9 sempre um homem que governa, para que todos tenhamos oportunidades\u201d. Essa \u00e9 a cren\u00e7a.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 preocupante at\u00e9 mesmo na \u00c1frica do Sul. Um estudo recente do Afrobar\u00f4metro, [rede panafricana que mede as percep\u00e7\u00f5es p\u00fablicas sobre democracia], mostrou que parcela muito significativa da popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 disposta a abrir m\u00e3o de suas liberdades democr\u00e1ticas caso isso signifique atender necessidades b\u00e1sicas, como trabalho, por exemplo. As pessoas est\u00e3o dispostas a sacrificar a democracia.<\/p>\n<p><strong>O governo Trump deu in\u00edcio a uma s\u00e9rie de ataques \u00e0s na\u00e7\u00f5es africanas que v\u00e3o desde restri\u00e7\u00f5es de entrada ao constrangimento diplom\u00e1tico e despeitoso em rela\u00e7\u00e3o ao presidente Ramaphosa. Como voc\u00ea avalia esses epis\u00f3dios?<\/strong><\/p>\n<p>Todos os pa\u00edses africanos, bem como a \u00c1frica do Sul, sabem que os Estados Unidos s\u00e3o uma pot\u00eancia importante. O que tem sido bastante surpreendente \u00e9 que mesmo essas tentativas de aproxima\u00e7\u00e3o feitas pelo presidente Ramaphosa e por seu governo t\u00eam sido recebidas por Washington com muito desd\u00e9m.<\/p>\n<p>\u00c9 como se os Estados Unidos estivessem procurando um motivo para punir a \u00c1frica do Sul pela sua posi\u00e7\u00e3o relativamente independente na pol\u00edtica externa. O pa\u00eds tem assumido essa postura em v\u00e1rias quest\u00f5es, por exemplo, ao insistir em manter rela\u00e7\u00f5es como China e R\u00fassia, seus parceiros no BRICS.<\/p>\n<p>A postura do governo sul-africano em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Gaza \u00e9 outro exemplo. A \u00c1frica do Sul viveu o apartheid e lembra-se de como a comunidade internacional nos apoiou durante determinado per\u00edodo. Com esse passado, o governo sul-africano achou correto levar Israel ao Tribunal Internacional de Justi\u00e7a (TIJ) e apresentou a den\u00fancia de genoc\u00eddio em dezembro de 2023. Os Estados Unidos, definitivamente, n\u00e3o ficaram felizes com isso.<\/p>\n<figure aria-describedby=\"caption-attachment-257447\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/42638b69-22fe-458b-888c-f75408ecc044.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"682\" srcset=\"https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/42638b69-22fe-458b-888c-f75408ecc044-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/42638b69-22fe-458b-888c-f75408ecc044-300x200.jpg 300w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/42638b69-22fe-458b-888c-f75408ecc044-768x512.jpg 768w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/42638b69-22fe-458b-888c-f75408ecc044-1536x1023.jpg 1536w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/42638b69-22fe-458b-888c-f75408ecc044-150x100.jpg 150w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/42638b69-22fe-458b-888c-f75408ecc044-750x500.jpg 750w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/42638b69-22fe-458b-888c-f75408ecc044-1140x760.jpg 1140w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/42638b69-22fe-458b-888c-f75408ecc044.jpg 1600w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption>\u2018Trump busca motivos para punir \u00c1frica do Sul\u2019, diz acad\u00eamica sul-africana<br \/>Arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>Outra \u00e1rea com a qual os norte-americanos n\u00e3o est\u00e3o satisfeitos diz respeito \u00e0s pol\u00edticas adotadas pelo governo sul-africano para corrigir as injusti\u00e7as do passado, incluindo pol\u00edticas de diversidade, equidade e inclus\u00e3o na \u00e1rea do trabalho. Essa \u00e9 a nossa posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, mas eles criticaram argumentando que as empresas dos Estados Unidos investem no pa\u00eds e n\u00e3o deveriam estar sujeitas a essas pol\u00edticas. Elon Musk \u00e9 um bom exemplo disso.<\/p>\n<p>A \u00c1frica do Sul vem sem mantendo firme, portanto, em seu posicionamento frente a essas quest\u00f5es. Ao mesmo tempo, o governo Ramaphosa tem sido muito cuidadoso em n\u00e3o prejudicar as rela\u00e7\u00f5es com os Estados Unidos em outras esferas.<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea avalia a situa\u00e7\u00e3o do multilateralismo hoje no mundo, em meio aos ataques de Trump?<\/strong><\/p>\n<p>O multilateralismo continua sendo muito importante para a \u00c1frica e para o mundo. Brasil e \u00c1frica do Sul apoiam os processos de reforma dessas institui\u00e7\u00f5es multilaterais, como a ONU, criada ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, mas que continua tendo um papel importante a desempenhar. N\u00e3o h\u00e1 nada como a ONU.<\/p>\n<p>N\u00f3s precisamos da reforma no Conselho de Seguran\u00e7a das Na\u00e7\u00f5es Unidas at\u00e9 porque muitos pa\u00edses n\u00e3o estavam presentes em sua forma\u00e7\u00e3o e continuam exclu\u00eddos e sem direito de veto. Ao mesmo tempo, n\u00e3o podemos subestimar a import\u00e2ncia das institui\u00e7\u00f5es que est\u00e3o sendo formadas, como o BRICS que est\u00e1 se expandido, e de outros f\u00f3runs onde a press\u00e3o por mudan\u00e7as ainda \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso tamb\u00e9m ser realista em rela\u00e7\u00e3o ao G20, uma extens\u00e3o do G7. Recentemente, o G20 desconvidou a \u00c1frica do Sul\u00a0sob press\u00e3o de Trump. De qualquer forma, \u00e9 bom que exista essa plataforma. De forma geral, embora haja certo poder de influ\u00eancia nessas entidades, muitas vezes os compromissos assumidos n\u00e3o se traduzem em a\u00e7\u00f5es concretas. No entanto, elas s\u00e3o importantes como plataformas de comunica\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o necessariamente para a tomada de decis\u00f5es.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 preciso entender que um multilateralismo forte depende igualmente de bases internas s\u00f3lidas nos diversos pa\u00edses. Eles precisam garantir que sua popula\u00e7\u00e3o seja bem cuidada. De nada adianta que as lideran\u00e7as tenham popularidade no exterior se, internamente, elas deixarem suas popula\u00e7\u00f5es passando dificuldades e carecendo do b\u00e1sico.<\/p>\n<p>As pessoas ficam impacientes quando veem que voc\u00ea est\u00e1 mais preocupado com a situa\u00e7\u00e3o do mundo do que com a situa\u00e7\u00e3o dos cidad\u00e3os. \u00c9 a\u00ed que ocorre a mudan\u00e7a de poder, porque as pessoas querem algo diferente. As institui\u00e7\u00f5es s\u00e3o importantes, mas, no final das contas, os cidad\u00e3os est\u00e3o preocupados com sua situa\u00e7\u00e3o e como ela pode ser transformada a partir de uma pol\u00edtica dom\u00e9stica sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>Em termos dom\u00e9sticos, como est\u00e1 a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as pol\u00edticas no pa\u00eds? Aqui no Brasil n\u00f3s estamos sob a emerg\u00eancia de uma extrema direita profundamente antidemocr\u00e1tica e alinhada aos interesses de Washington.<\/strong><\/p>\n<p>Infelizmente, a sociedade sul-africana tamb\u00e9m est\u00e1 dividida. H\u00e1 uma pequena minoria, especialmente entre os que historicamente tiveram privil\u00e9gios, como os africanos brancos, que se identificam com os conservadores. N\u00e3o s\u00e3o todos, \u00e9 importante dizer. Mas h\u00e1 aqueles que t\u00eam liga\u00e7\u00f5es com essa direita nos Estados Unidos e que realmente ganharam for\u00e7a este ano.<\/p>\n<p>Donald Trump acha isso muito conveniente e sua fala com Ramaphosa sobre o ataque \u00e0s minorias brancas sinaliza justamente para sua base MAGA. \u00c9 o que explica por que, ao mesmo tempo em que fecha suas fronteiras para os que realmente precisam de ref\u00fagio, Trump as abre para os africanos brancos que est\u00e3o promovendo a fic\u00e7\u00e3o de que s\u00e3o v\u00edtimas de persegui\u00e7\u00e3o. Ele est\u00e1, na verdade, promovendo a vitimiza\u00e7\u00e3o dos brancos, permitindo a entrada deles em grande n\u00famero, enquanto fecha as portas para quem realmente precisa de abrigo porque est\u00e1 fugindo de circunst\u00e2ncias dif\u00edceis em seu pa\u00eds de origem.<\/p>\n<p><strong>Essa quest\u00e3o \u00e9 discutia da m\u00eddia?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, muito. Isso est\u00e1 gerando um debate na \u00c1frica e na \u00c1frica do Sul, embora as pessoas descartem a exist\u00eancia de um genoc\u00eddio contra os brancos, o que \u00e9 absolutamente falso. O governo Ramaphosa teve de encontrar um equil\u00edbrio delicado porque o Congresso Nacional Africano (CNA) n\u00e3o \u00e9 mais o \u00fanico partido no governo. Nas elei\u00e7\u00f5es de 2024, pela primeira vez, ele n\u00e3o obteve maioria e precisou compor uma coaliz\u00e3o com outros partidos. E nem todos concordam entre si.<\/p>\n<p>O maior partido sul-africano depois do CNA \u00e9 a Alian\u00e7a Democr\u00e1tica (AD), historicamente, um partido liberal branco, mas os negros est\u00e3o se envolvendo cada vez mais nele. O ANC e a AD discordam em muitas frentes e isso tem a ver com suas respectivas bases. H\u00e1 um certo cuidado nesse aspecto.<\/p>\n<p>H\u00e1 outros partidos mais conservadores nessa coaliz\u00e3o, chamada de governo da Unidade Nacional, que tamb\u00e9m discordam das pol\u00edticas adotadas pelo governo. \u00c9 um momento dif\u00edcil e n\u00f3s vamos acompanhar como isso se refletir\u00e1 no comportamento dos eleitores que tamb\u00e9m vem mudando.<\/p>\n<p>Em novembro, a \u00c1frica do Sul ter\u00e1 elei\u00e7\u00e3o para os governos locais. Elas costumam antecipar tend\u00eancias das elei\u00e7\u00f5es nacionais, que est\u00e3o programadas para 2029. \u00c9 preciso, portanto, acompanh\u00e1-las com muita aten\u00e7\u00e3o neste ano.<\/p>\n<p><strong>Como est\u00e1 a situa\u00e7\u00e3o de Julius Malema, recentemente condenado por porte de armas?<\/strong><\/p>\n<p>Julius Malema liderou um partido dissidente, o Combatentes da Liberdade Econ\u00f4mica (EFF), formado por jovens e militantes que se afastaram do ANC. Mas veja a for\u00e7a da democracia na \u00c1frica do Sul. Eles n\u00e3o entraram em conflitos armados e sim optaram pela pol\u00edtica. Agora eles est\u00e3o concorrendo no Parlamento e para o governo local. Ele est\u00e1 disputando, portanto, dentro de um sistema constitucional.<\/p>\n<p>O mesmo ocorre com outros partidos que se separaram. Na \u00faltima elei\u00e7\u00e3o, Jacob Zuma, ex-presidente do ANC, fundou o MK (uMkhonto weSizwe) que obteve 15% dos votos, permanecendo atr\u00e1s do ANC (40%) e da AD que teve 20 e poucos. Ele conseguiu mais votos do que o EFF. Somados, esses tr\u00eas partidos controlam uma grande parte dos votos. O CNA se fragmentou nessas fac\u00e7\u00f5es e se encontra dividido. O MK e EFF criticam as pol\u00edticas do CNA de n\u00e3o serem progressistas o suficiente e alinhadas \u00e0s solu\u00e7\u00f5es neoliberais.<\/p>\n<p>Eles pressionam por reformas mais estruturais e defendem a nacionaliza\u00e7\u00e3o do Banco da Reserva, reforma agr\u00e1ria mais abrangente e at\u00e9 a nacionaliza\u00e7\u00e3o da riqueza mineral, al\u00e9m de pol\u00edticas mais justas. Agora, eles est\u00e3o mais alinhados com algumas das federa\u00e7\u00f5es sindicais.<\/p>\n<p>Na semana passada, houve uma confer\u00eancia da esquerda que reuniu, segundo eles, cerca de 300 pessoas, com forte participa\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es e movimentos civis e sindicais, al\u00e9m do Partido Comunista e legendas dissidentes do CNA. Todos insatisfeitos com este governo de coaliz\u00e3o, principalmente com AD e outros partidos menores.<\/p>\n<p>Eles alegam que esses partidos quase liberais est\u00e3o minando as perspectivas de uma transforma\u00e7\u00e3o genu\u00edna da sociedade sul-africana e dizem que v\u00e3o aumentar a press\u00e3o sobre o governo.<\/p>\n<p><strong>Africa, como voc\u00ea analisa os conflitos na regi\u00e3o do Sahel?<\/strong><\/p>\n<p>Estamos preocupados com esses acontecimentos na regi\u00e3o do Sahel e na L\u00edbia, porque h\u00e1 cada vez mais um retorno ao regime militar ou a governo de l\u00edderes autorit\u00e1rios. As popula\u00e7\u00f5es desses territ\u00f3rios s\u00e3o as que mais sofrem.<\/p>\n<p>Como nosso ex-presidente Thabo Mbeki (1999 a 2018) dizia, n\u00f3s precisamos entender o que est\u00e1 impulsionando o ressurgimento desses grupos paramilitares. As pessoas est\u00e3o ficando frustradas e, por isso, est\u00e1 aumentando a toler\u00e2ncia por formas n\u00e3o democr\u00e1ticas, inclusive, pelas elites nessas regi\u00f5es.<\/p>\n<p>As v\u00e1rias miss\u00f5es das Na\u00e7\u00f5es Unidas n\u00e3o conseguiram alterar essa situa\u00e7\u00e3o a um ponto em que as pessoas pudessem continuar com suas vidas de forma normal. Frente a isso, muitos optam em dar uma chance a l\u00edderes militares pensando que, talvez, se eles trouxerem algum tipo de disciplina, isso possa lhes dar uma chance melhor.<\/p>\n<p>A Uni\u00e3o Africana (UA) e a Comunidade Econ\u00f4mica dos Estados da \u00c1frica Ocidental (CEDEAO) precisam ter muito cuidado ao avaliar se, para o bem do progresso, \u00e9 melhor isolar completamente esses governantes militares ou, contrariamente, vale tentar um acordo para pression\u00e1-los a, pelo menos, retornar ao regime democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>Este \u00e9 um territ\u00f3rio totalmente inexplorado. Antigamente, era mais f\u00e1cil condenar e isolar, mas parece que a toler\u00e2ncia a esses governos est\u00e1 crescendo. A Comunidade de Desenvolvimento da \u00c1frica Austral (SADC), por exemplo, n\u00e3o condenou os golpes, em uma tentativa de levar as partes para a mesa de negocia\u00e7\u00f5es. Essa \u00e9 uma estrat\u00e9gia, no entanto, que pode n\u00e3o ser eficaz nessas situa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Isso diz muito sobre o futuro e a fragilidade da democracia na \u00c1frica. Na verdade, \u00e9 uma fragilidade global, por isso, \u00e9 importante a uni\u00e3o dos pa\u00edses que tem a democracia como valor central em seus sistemas pol\u00edticos, como a \u00c1frica do Sul e o Brasil. Ali\u00e1s, foi por isso que o presidente Ramaphosa foi \u00e0 Espanha participar da Mobiliza\u00e7\u00e3o Progressista Global, em abril. Ele teve um papel de destaque. A ideia \u00e9 reunir os governos progressistas, que acreditam na democracia, em torno de uma agenda comum para defender um conjunto de valores.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea est\u00e1 acompanhando a situa\u00e7\u00e3o do ebola na Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo?<\/strong><\/p>\n<p>A epidemia est\u00e1 concentrada no centro do Congo e em Uganda. Esperamos que n\u00e3o se espalhe, mas h\u00e1 uma dificuldade de controle na circula\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o. Ruanda imp\u00f4s medidas mais rigorosas de controle de fronteiras, mas h\u00e1 muitos deslocamentos, as pessoas entram em um avi\u00e3o e transitam. Por enquanto, a variante n\u00e3o se espalhou.<\/p>\n<p>Os pa\u00edses africanos det\u00eam capacidades de vigil\u00e2ncia eficazes. A propaga\u00e7\u00e3o seria detectada se espalhasse, por exemplo, para lugares regi\u00f5es distantes e, nesta altura, a maioria dos pa\u00edses ativou seus sistemas de controle e detec\u00e7\u00e3o para responderem a novos casos. Al\u00e9m disso, pa\u00edses com infraestrutura de pesquisa mais robustas est\u00e3o engajados na identifica\u00e7\u00e3o de vacinas para lidar com essa variante.<\/p>\n<p><strong>A ONU declarou recentemente que a escraviza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o africana, durante o per\u00edodo colonial, \u00e9 o mais s\u00e9rio crime contra a humanidade que j\u00e1 existiu. Como est\u00e1 esse movimento por repara\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p>A Uni\u00e3o Africana teve as repara\u00e7\u00f5es como tema recentemente, o que \u00e9 muito importante, mas isso ainda est\u00e1 na ret\u00f3rica porque a entidade n\u00e3o tem autoridade, n\u00e3o \u00e9 um \u00f3rg\u00e3o intergovernamental, ent\u00e3o, embora haja reconhecimento, as repara\u00e7\u00f5es n\u00e3o aconteceram. Os pa\u00edses t\u00eam dificuldades em colocar isso em pr\u00e1tica porque as repara\u00e7\u00f5es precisam ser incorporadas \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o nacional. Em casos mais isolados, onde h\u00e1 campanhas e engajamento da sociedade civil, essa quest\u00e3o consegue empreender apelo junto \u00e0 antiga pot\u00eancia colonial, a\u00ed vemos algumas a\u00e7\u00f5es acontecendo.<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea as rela\u00e7\u00f5es Brasil-\u00c1frica do Sul sob o governo Lula?<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 uma forte e longa hist\u00f3ria de solidariedade entre os dois pa\u00edses. Muitos l\u00edderes africanos consideram encorajador que o governo Lula venha tentado recuperar as rela\u00e7\u00f5es perdidas durante a gest\u00e3o anterior, de Jair Bolsonaro. N\u00f3s acompanhamos com muito interesse o que vai acontecer neste ano no Brasil.<\/p>\n<p>N\u00f3s vivemos em um mundo globalizado e parte do sucesso das rela\u00e7\u00f5es bilaterais consiste em garantir negocia\u00e7\u00f5es comerciais fortes, para que as na\u00e7\u00f5es sejam globalmente competitivas. No caso dos nossos pa\u00edses, historicamente marginalizados, \u00e9 preciso atuar conjuntamente em busca de benef\u00edcios m\u00fatuos na arena internacional.<\/p>\n<p>Alguns avaliam que alguns pa\u00edses africanos est\u00e3o sofrendo desvantagens diante do agroneg\u00f3cio brasileiro. A \u00c1frica do Sul \u00e9 um deles, mas havido conversas entre os respectivos ministros da Agricultura para estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o comercial mais equilibrada, de modo que haja benef\u00edcios m\u00fatuos. Isso sempre ocorre com os pequenos produtores que tentam entrar nesse setor.<\/p>\n<p>Por um lado, os governos dizem que devemos fortalecer pequenas e m\u00e9dias empresas, mas s\u00e3o as grandes empresas, de ambos os lados do oceano, que mais se beneficiam das rela\u00e7\u00f5es comerciais. Como uma pequena processadora agr\u00edcola, por exemplo, poder\u00e1 sobreviver nessa economia globalmente competitiva? \u00c9 o desafio que precisa ser enfrentado.<\/p>\n<p><strong>Em rela\u00e7\u00e3o aos minerais cr\u00edticos?<\/strong><\/p>\n<p>Essa quest\u00e3o est\u00e1 na agenda de pesquisa do Mistra. N\u00f3s estamos muito preocupados com a competi\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica por minerais cr\u00edticas e que a \u00c1frica passe por uma segunda corrida explorat\u00f3ria por suas riquezas naturais por parte das grandes pot\u00eancias.<\/p>\n<p>As pessoas que vivem nesses territ\u00f3rios ricos em minerais cr\u00edticos est\u00e3o sendo deslocadas. Suas vidas est\u00e3o sendo perturbadas, estradas est\u00e3o sendo constru\u00eddas, por exemplo, e elas n\u00e3o tem influ\u00eancia sobre isso. Como o Brasil tamb\u00e9m tem reservas imensas de minerais cr\u00edticos, \u00e9 importante que haja uma estrat\u00e9gia comum entre os nossos pa\u00edses. Isso tamb\u00e9m precisa ser levado ao BRICS.<\/p>\n<p>Outra quest\u00e3o importante \u00e9 a transi\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica. A \u00c1frica do Sul pode aprender muito com o Brasil como bloquear os interesses dos grandes atores globais e as formas de fazer e implementar uma transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica justa. H\u00e1 coopera\u00e7\u00e3o nesse sentido.<\/p>\n<p>De forma geral, existem muitas semelhan\u00e7as nas trajet\u00f3rias do Brasil e \u00c1frica do Sul, sobretudo enfrentamos problemas muito parecidos historicamente. Mesmo que estejam distantes geograficamente, ambos os pa\u00edses se beneficiam ao manter uma rela\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima e de apoio m\u00fatuo para aprender com o sucesso um do outro e tamb\u00e9m com os erros cometidos.<\/p>\n<p>O post \u2018Trump ca\u00e7a motivos para punir \u00c1frica do Sul\u2019, diz acad\u00eamica sul-africana apareceu primeiro em Opera Mundi.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/jornaloes-disparam-contra-manobra-golpista-de-tarcisio-para-anistiar-bolsonaro\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Bolsonaro-e-tarcisio-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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