{"id":91970,"date":"2026-06-15T16:37:54","date_gmt":"2026-06-15T19:37:54","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/ciencia-caminho-para-enfrentar-a-crise-civilizatoria\/"},"modified":"2026-06-15T16:37:54","modified_gmt":"2026-06-15T19:37:54","slug":"ciencia-caminho-para-enfrentar-a-crise-civilizatoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/ciencia-caminho-para-enfrentar-a-crise-civilizatoria\/","title":{"rendered":"Ci\u00eancia, caminho para enfrentar a crise civilizat\u00f3ria?"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_5010456105775205477_y-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_5010456105775205477_y-1.jpg 1024w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_5010456105775205477_y-300x200.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_5010456105775205477_y-768x512.jpg 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_5010456105775205477_y-272x182.jpg 272w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption>Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Baylor College of Medicine<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<p><imgsrc=\"\" width=\"1\" height=\"1\" alt=\".\" border=\"0\">\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Toda epidemia tem uma geografia, e essa geografia quase nunca \u00e9 obra do acaso. O v\u00edrus chega depois; antes dele v\u00eam o abandono e a longa contabilidade de quem o Estado decidiu proteger e quem deixou entregue \u00e0 pr\u00f3pria sorte.<\/p>\n<p>\u00c9 dessa contabilidade que trata Peter Hotez \u2014 m\u00e9dico, cientista de vacinas e um dos rostos mais visados pela cruzada antici\u00eancia nos Estados Unidos. Sua conversa parte do Texas e do M\u00e9xico e aterrissa, sem escalas, aqui.<\/p>\n<p>Hotez reconstr\u00f3i a hist\u00f3ria de uma fronteira que a Coroa espanhola largou ao l\u00e9u porque n\u00e3o dava prata. No vazio econ\u00f4mico avan\u00e7aram as miss\u00f5es religiosas do s\u00e9culo XVI, e com elas a var\u00edola e o sarampo que despovoaram a regi\u00e3o.<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/14--22.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/14--22.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/14-1-300x110.png 300w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>A li\u00e7\u00e3o \u00e9 dura e n\u00e3o envelheceu: a doen\u00e7a sempre acompanhou o mapa da extra\u00e7\u00e3o e do descaso. O que ele narra no norte do continente, o Brasil conhece pelo avesso. As doen\u00e7as tropicais a que dedicou quarenta anos de pesquisa \u2014 a ancilostom\u00edase entre elas \u2014 nunca foram um destino clim\u00e1tico. Foram, e continuam sendo, enfermidades da desigualdade: prosperam onde falta saneamento, onde falta teto, onde falta quase tudo.<\/p>\n<p>Houve um tempo, h\u00e1 mais de um s\u00e9culo, em que o pa\u00eds encarou esse espelho sem desviar os olhos. Sanitaristas entenderam que o sert\u00e3o adoecido era a pr\u00f3pria na\u00e7\u00e3o inacabada \u2014 que um povo doente jamais seria um povo livre.<\/p>\n<p>Drenaram p\u00e2ntanos, enfrentaram a febre amarela nos portos, ergueram do nada institutos que fabricavam soros e vacinas, deram nome a males que o mundo ainda ignorava. Faziam ci\u00eancia e faziam pa\u00eds no mesmo gesto, convencidos de que sanear era a maneira mais concreta de civilizar.<\/p>\n<p>Essa intui\u00e7\u00e3o demorou d\u00e9cadas para virar direito. Chegou com a redemocratiza\u00e7\u00e3o, quando a Reforma Sanit\u00e1ria inscreveu na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 uma frase que ainda hoje cobra do pa\u00eds que a cumpra: a sa\u00fade \u00e9 direito de todos e dever do Estado, com acesso universal e igualit\u00e1rio (artigo 196).<\/p>\n<p>O Sistema \u00danico de Sa\u00fade nasceu da\u00ed e varreu o entulho do velho INAMPS \u2014 o modelo que s\u00f3 amparava o trabalhador de carteira assinada e relegava o restante \u00e0 caridade ou ao desamparo.<\/p>\n<p>Universalizar o cuidado foi, talvez, a maior conquista civilizat\u00f3ria da nossa hist\u00f3ria recente. Uma sociedade se mede pela resposta que oferece a quem n\u00e3o tem como se defender; aqui, pela primeira vez, a resposta foi: todos.<\/p>\n<p>Hotez enxerga isso com a nitidez de quem nota de fora. Celebra o SUS, a Fiocruz, o Butantan, e aposta que pa\u00edses como o Brasil podem liderar um modelo de ci\u00eancia aberta. N\u00e3o \u00e9 ret\u00f3rica.<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/HUCITEC-basaglia4-2.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/HUCITEC-basaglia4-2.png 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/HUCITEC-basaglia4-300x37.png 300w\" sizes=\"(max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Na pandemia, recusou patentes e cedeu sua tecnologia de vacina \u00e0 \u00cdndia e \u00e0 Indon\u00e9sia; o gesto imunizou cem milh\u00f5es de pessoas que a ind\u00fastria farmac\u00eautica havia abandonado.<\/p>\n<p>Eis a prova de que a ci\u00eancia pode ser bem comum, e n\u00e3o a renda de um monop\u00f3lio \u2014 de que existe escolha entre salvar vidas e blindar lucros. Foi o golpe de um estadunidense nas Big Pharma de seu pr\u00f3prio pa\u00eds. N\u00e3o foi trai\u00e7\u00e3o. Foi humanismo.<\/p>\n<p>H\u00e1 um ponto, e um s\u00f3, em que vale ir al\u00e9m do que ele diz. Hotez observa, com raz\u00e3o, que nossas universidades precisam de mais recursos, e lembra o financiamento privado que sustenta Harvard ou Yale.<\/p>\n<p>A filantropia dos bilion\u00e1rios americanos \u00e9, inicialmente, um arranjo tribut\u00e1rio: doa-se porque o imposto perdoa. Num pa\u00eds onde a riqueza se concentra como em pouqu\u00edssimos lugares do planeta, o caminho mais justo n\u00e3o \u00e9 aguardar a generosidade dos muito ricos \u2014 \u00e9 tax\u00e1-la. Tributar grandes fortunas para custear ci\u00eancia p\u00fablica seria a tradu\u00e7\u00e3o brasileira, e bem mais democr\u00e1tica, daquilo que ele defende.<\/p>\n<p>A pandemia n\u00e3o poupou nenhuma dessas verdades. Sem equipamentos de prote\u00e7\u00e3o, sem laborat\u00f3rio pr\u00f3prio, sem vacina soberana, sobraram os caix\u00f5es. Um Estado que abdica da ci\u00eancia n\u00e3o se torna neutro: decide, pela omiss\u00e3o, quem vive e quem \u00e9 empurrado para a morte \u2014 e essa conta recai quase sempre sobre eles.<\/p>\n<p>No Brasil recente, isso teve estatuto de pol\u00edtica. A desinforma\u00e7\u00e3o virou m\u00e9todo de governo, e os n\u00fameros medem o estrago: a cobertura contra a poliomielite, que beirava 98% em 2015, despencou para 67% em 2021; a tr\u00edplice viral caiu de 96% para 71%; as campanhas contra o HPV simplesmente evaporaram.<\/p>\n<p>O sarampo, que hav\u00edamos eliminado em 2016, voltou a circular pelo pa\u00eds. N\u00e3o \u00e9 quest\u00e3o de opini\u00e3o \u2014 aqui, a mentira mata. \u00c9 o mesmo maquin\u00e1rio que Hotez descreve nos Estados Unidos: a antici\u00eancia convertida em identidade pol\u00edtica, irrigada por uma ind\u00fastria do \u201cbem-estar\u201d que vende suplemento no lugar de rem\u00e9dio e mant\u00e9m a popula\u00e7\u00e3o, como ele resume, ignorante e doente. Quem trocou a biblioteca pelo portal conspirat\u00f3rio n\u00e3o ficou mais livre; ficou mais exposto.<\/p>\n<p>O que est\u00e1 em jogo n\u00e3o \u00e9 uma disputa t\u00e9cnica. \u00c9 a escolha entre uma sociedade que se organiza para cuidar e outra que se acostuma a deixar morrer. Hotez fala da for\u00e7a da ci\u00eancia brasileira como um presente que o pa\u00eds tem a dar ao mundo. O Brasil precisa acreditar nisso \u2014 tratar quem fabrica esse presente, dos laborat\u00f3rios \u00e0s salas de aula, como aquilo que de fato \u00e9: a linha de defesa de um povo inteiro.<\/p>\n<p><strong>Eis a entrevista.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Comecemos pelo seu pr\u00f3ximo livro. A fronteira entre o Texas e o M\u00e9xico sempre foi uma regi\u00e3o de migra\u00e7\u00e3o intensa, de ecologia singular e de profundo isolamento econ\u00f4mico. De uma perspectiva hist\u00f3rica, de que modo essa realidade pol\u00edtica influenciou a maneira pela qual a ci\u00eancia m\u00e9dica se aproximou das doen\u00e7as tropicais naquela regi\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 uma boa pergunta. Ap\u00f3s o colapso do Imp\u00e9rio Asteca, no in\u00edcio do s\u00e9culo XVI, aquela regi\u00e3o tornou-se o Reino da Nova Espanha. E a Nova Espanha, naturalmente, era enorme: estendia-se da atual Calif\u00f3rnia, atravessando o Texas, at\u00e9 lugares como a Guatemala. Geograficamente, correspondia a cerca de metade do tamanho da R\u00fassia atual \u2014 essa era a dimens\u00e3o da Nova Espanha.<\/p>\n<p>O centro do imp\u00e9rio da Nova Espanha era, evidentemente, a Cidade do M\u00e9xico \u2014 uma cidade poliglota e multicultural nos s\u00e9culos XVI e XVII. Mas o objetivo central da Nova Espanha era gerar receita, enviar riquezas de volta \u00e0 Espanha e \u00e0 Europa. Havia, portanto, uma \u00eanfase acentuada na extra\u00e7\u00e3o da prata, remetida das minas de Potos\u00ed e de Durango \u00e0 Espanha. O problema do territ\u00f3rio que viria a se tornar a prov\u00edncia do Texas, no s\u00e9culo XVI e ainda no XVII, era que ali n\u00e3o havia prata \u2014 n\u00e3o havia nada capaz de gerar receita para a Espanha. Assim, a regi\u00e3o foi praticamente abandonada.<\/p>\n<p>Era habitada sobretudo por popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas. Chamavam-na, de fato, de Fronteira Nordeste da Nova Espanha. Era um territ\u00f3rio desolado: viviam talvez 40 mil pessoas em toda aquela regi\u00e3o do mundo. Ent\u00e3o come\u00e7aram as incurs\u00f5es da Fran\u00e7a, interessada na \u00e1rea, e a expans\u00e3o dos Estados Unidos. Foi nesse momento que se estabeleceram as miss\u00f5es franciscanas na Fronteira Nordeste. Os frades franciscanos passaram a fundar essas miss\u00f5es \u2014 e, infelizmente, foi quando as epidemias come\u00e7aram a chegar, como a var\u00edola e o sarampo, provocando uma severa despovoa\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>O que conhecemos como Texas \u2014 nome derivado dos \u00edndios Caddo \u2014 foi intensamente despovoado ao longo do s\u00e9culo XVIII, a ponto de o governo da Nova Espanha precisar de gente. Foi isso que trouxe os anglo-americanos para a col\u00f4nia de Austin. E ent\u00e3o come\u00e7amos a ver a mal\u00e1ria, a c\u00f3lera e outras doen\u00e7as disseminadas pelo tr\u00e1fego comercial \u2014 e a febre amarela.<\/p>\n<p><strong>O seu livro, mais uma vez, conecta a hist\u00f3ria \u00e0 nossa crise presente. Em sua avalia\u00e7\u00e3o, o isolamento hist\u00f3rico dessa regi\u00e3o criou as condi\u00e7\u00f5es para o atual movimento antici\u00eancia, ou estamos diante de um fen\u00f4meno inteiramente novo?<\/strong><\/p>\n<p>Ao longo das centenas de anos da hist\u00f3ria do Texas \u2014 depois que o Texas se tornou um pa\u00eds independente, em 1836, e, em seguida, um estado \u2014, a regi\u00e3o foi profundamente marcada pelas enfermidades. Doen\u00e7as como a mal\u00e1ria e a c\u00f3lera mudaram completamente o curso da hist\u00f3ria texana, e \u00e9 sobre isso que estou escrevendo. Mas, agora, algumas dessas doen\u00e7as est\u00e3o retornando.<\/p>\n<p>Com a moderniza\u00e7\u00e3o, a preval\u00eancia diminuiu. Agora, por\u00e9m, elas voltam \u2014 e voltam em raz\u00e3o de for\u00e7as pr\u00f3prias do s\u00e9culo XXI, como a mudan\u00e7a clim\u00e1tica e a urbaniza\u00e7\u00e3o. \u00c9 por isso que come\u00e7amos a ver, evidentemente, fen\u00f4menos como a covid-19, mas tamb\u00e9m o retorno das doen\u00e7as transmitidas por carrapatos. Assistimos ao retorno do tifo ao Texas; ao retorno de infec\u00e7\u00f5es virais transmitidas por mosquitos, como a dengue \u2014 quase como no Brasil. Come\u00e7amos a ver a mal\u00e1ria retornar ao Texas. E penso que os vetores desse processo s\u00e3o a mudan\u00e7a clim\u00e1tica e a urbaniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Agora, temos um terceiro problema. N\u00e3o se trata apenas da mudan\u00e7a clim\u00e1tica e da urbaniza\u00e7\u00e3o, mas das for\u00e7as anticient\u00edficas, que bloqueiam a nossa capacidade de resposta. Esse ser\u00e1 o grande ponto de interroga\u00e7\u00e3o sobre o que o futuro reserva ao Texas como consequ\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Para compreender esta crise: onde come\u00e7ou o moderno movimento antivacina nos Estados Unidos? Ele foi, desde a origem, um instrumento pol\u00edtico, ou tornou-se pol\u00edtico ao longo do tempo?<\/strong><\/p>\n<p>Escrevi sobre isso em um livro anterior, <em>Science Under Siege<\/em> (Ci\u00eancia sob cerco), com Michael Mann, em 2025. O movimento antivacina come\u00e7ou a se acelerar em torno das falsas alega\u00e7\u00f5es de que as vacinas causariam autismo \u2014 isso teve in\u00edcio por volta de 1998, e esse fio condutor jamais desapareceu. H\u00e1 cerca de doze ou treze anos, por\u00e9m, o movimento tornou-se mais pol\u00edtico, articulado em torno dos conceitos de \u201cliberdade sanit\u00e1ria\u201d e de \u201cliberdade m\u00e9dica\u201d, e passou a receber dinheiro pol\u00edtico. Come\u00e7amos, ent\u00e3o, a ver candidatos concorrendo com plataformas antivacina. Essa foi a vers\u00e3o 2.0: o autismo foi a vers\u00e3o 1.0; a inflex\u00e3o pol\u00edtica, a vers\u00e3o 2.0.<\/p>\n<p>E agora temos uma vers\u00e3o 3.0, que \u00e9 a ind\u00fastria dos influenciadores de sa\u00fade e bem-estar \u2014 suplementos e vitaminas. Eles vendem ivermectina, ou vendem hidroxicloroquina, como substitutos de interven\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas reais, e isso tamb\u00e9m est\u00e1 provocando um enorme problema. Temos, portanto, tr\u00eas componentes no movimento antivacina: o autismo, iniciado em 1998; o componente pol\u00edtico, de cerca de doze anos atr\u00e1s; e, agora, a ind\u00fastria dos influenciadores de bem-estar.<\/p>\n<p><strong>Hoje assistimos a uma transforma\u00e7\u00e3o massiva em Washington: a sa\u00edda dos Estados Unidos da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade, os cortes \u00e0 USAID, com Donald Trump e Robert Kennedy Jr. agora \u00e0 frente da pol\u00edtica de sa\u00fade. Qu\u00e3o perigoso \u00e9 este momento para a ci\u00eancia global?<\/strong><\/p>\n<p>A grande preocupa\u00e7\u00e3o, agora, \u00e9 que o mesmo fen\u00f4meno que ocorre no Texas e no M\u00e9xico \u2014 o retorno dessas amea\u00e7as pand\u00eamicas \u2014 est\u00e1 acontecendo em escala global, e com vetores semelhantes: a mudan\u00e7a clim\u00e1tica e a urbaniza\u00e7\u00e3o. As pr\u00f3ximas d\u00e9cadas ser\u00e3o as d\u00e9cadas das amea\u00e7as pand\u00eamicas. J\u00e1 tivemos tr\u00eas epidemias e pandemias de coronav\u00edrus: a SARS, depois a SARS-2, depois a MERS. E, agora, tr\u00eas grandes epidemias de ebola: em 2014, em 2019 e em 2026.<sup>1<\/sup> O nosso novo normal s\u00e3o essas pandemias.<\/p>\n<p>Agora, mais do que nunca, \u00e9 importante apoiar os nossos virologistas e os nossos epidemiologistas. Porque, do contr\u00e1rio, n\u00e3o apenas os Estados Unidos, mas pa\u00edses do mundo inteiro enfrentar\u00e3o uma crise real diante dessas amea\u00e7as pand\u00eamicas.<\/p>\n<p>O livro que escrevi com Michael Mann no ano passado dizia, em ess\u00eancia, que temos tr\u00eas amea\u00e7as existenciais \u00e0 humanidade. A primeira s\u00e3o as pandemias; a segunda \u00e9 a mudan\u00e7a clim\u00e1tica. Mas agora h\u00e1 uma terceira: a m\u00e1 informa\u00e7\u00e3o e a desinforma\u00e7\u00e3o, que bloqueiam a nossa capacidade de responder adequadamente. \u00c9 isso que precisamos resolver.<\/p>\n<p><strong>Doutor Hotez, o senhor escreveu que Trump criou uma identidade pol\u00edtica baseada na rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 ci\u00eancia. Trata-se de um fen\u00f4meno singularmente estadunidense, ou j\u00e1 estamos diante de uma ideologia antici\u00eancia global, com Trump em seu centro?<\/strong><\/p>\n<p>Penso que n\u00e3o \u00e9 correto atribuir a culpa a Trump em si. Na verdade, esse processo se acelerou, em muitos aspectos, fora de Trump. N\u00e3o que ele esteja ajudando \u2014 mas trata-se de um problema muito maior do que o presidente. Tornou-se um fen\u00f4meno anticient\u00edfico globalizado. \u00c9 pol\u00edtico, sem d\u00favida; mas \u00e9 tamb\u00e9m fortemente alimentado por muito dinheiro, vindo da ind\u00fastria do bem-estar e dos influenciadores.<\/p>\n<p>Por isso considero um tanto equivocado concentrar o foco no presidente Trump. Penso que precisamos encarar isso como um fen\u00f4meno que observamos com mais frequ\u00eancia entre regimes autorit\u00e1rios \u2014 e foi por isso que o vimos no Brasil, com Bolsonaro, por exemplo. Esse \u00e9 um caso. E agora o vemos inclusive em partidos pol\u00edticos de extrema direita na Alemanha, como a AfD, a Alternativa para a Alemanha. Vemos esse fen\u00f4meno despontar at\u00e9 mesmo na Am\u00e9rica Latina \u2014 no M\u00e9xico, por exemplo, come\u00e7amos a ver for\u00e7as anticient\u00edficas. \u00c9 um fen\u00f4meno multidimensional, mas muito poderoso. Sou frequentemente atacado por causa dele \u2014 e \u00e9 muito perigoso.<\/p>\n<p><strong>Quando os Estados Unidos cortam os fundos internacionais destinados \u00e0 sa\u00fade, qual \u00e9 o impacto sobre o Sul Global? Estamos contemplando um futuro de novas pandemias sem controle?<\/strong><\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma grande preocupa\u00e7\u00e3o. Por causa do imp\u00e9rio da desinforma\u00e7\u00e3o, somado aos cortes globais, estamos hoje menos preparados para responder a pandemias do que est\u00e1vamos antes. Estou extremamente preocupado, por exemplo, com a perigos\u00edssima epidemia de ebola na Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo: algumas proje\u00e7\u00f5es de modelagem sugerem que ela pode assumir grandes propor\u00e7\u00f5es \u2014 talvez t\u00e3o extensas quanto as da epidemia de 2014. E, quando isso come\u00e7a a acontecer, h\u00e1 transbordamento para outros pa\u00edses.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 que, se olharmos para os \u00faltimos vinte ou vinte e cinco anos, vemos agora uma esp\u00e9cie de cad\u00eancia regular, uma sequ\u00eancia de pandemias e epidemias. Podemos percorr\u00ea-la: em 2002, a SARS original; em 2012, a S\u00edndrome Respirat\u00f3ria do Oriente M\u00e9dio; em 2014, o ebola na \u00c1frica Ocidental; em 2016, a zika, que emergiu do Brasil e do Caribe e alcan\u00e7ou o sul do Texas e o sul da Fl\u00f3rida; em 2019, uma enorme epidemia de ebola no leste da Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo \u2014 e, tamb\u00e9m em 2019, evidentemente, a covid-19.<sup>2<\/sup> E agora temos o H5N1, que nos preocupa muito, e uma terceira grande epidemia de ebola. A mensagem \u00e9 clara: isso se tornou algo regular. Veremos essas epidemias e pandemias em bases regulares.<\/p>\n<p>Precisamos, antes de tudo, oferecer melhor sustenta\u00e7\u00e3o \u00e0 Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade \u2014 e o apoio do governo estadunidense precisa, agora, alinhar-se mais estreitamente \u00e0 OMS. Isso precisa ser corrigido. Os perigos da retirada dos Estados Unidos do financiamento global tamb\u00e9m nos fizeram reconhecer que precisamos que as demais economias do G20 \u2014 o grupo das vinte maiores economias \u2014 ampliem o seu apoio \u00e0 sa\u00fade global.<\/p>\n<p>Sempre estivemos em perigo, porque nos torn\u00e1ramos, desde o in\u00edcio, dependentes demais dos Estados Unidos. Agora a mensagem \u00e9 clara: \u00e9 disso que precisamos. Quais s\u00e3o os pa\u00edses do G20 na Am\u00e9rica Latina? A Argentina, o Brasil, o M\u00e9xico. S\u00e3o pa\u00edses ricos, em certos aspectos, e precisamos que eles avancem \u2014 tanto oferecendo apoio quanto oferecendo inova\u00e7\u00f5es. Precisamos de mais apoio global, vindo de lugares como a \u00cdndia, a China e o Jap\u00e3o, da \u00c1sia e, evidentemente, da Uni\u00e3o Europeia. Porque, do contr\u00e1rio, continuaremos enfrentando esse decl\u00ednio regular por causa das pandemias.<\/p>\n<p><strong>Durante a covid, o senhor e a sua equipe desenvolveram uma vacina livre de patentes, disponibilizada aos pa\u00edses de baixa renda. Foi um ato pol\u00edtico consciente, ou uma decis\u00e3o cient\u00edfica que teve consequ\u00eancias pol\u00edticas?<\/strong><\/p>\n<p>Foi, na verdade, ambas as coisas. Criamos, no Baylor College of Medicine, um centro singular, no Texas Children\u2019s Hospital. Era uma vis\u00e3o que eu alimentava desde que conclu\u00ed o meu duplo doutorado, em Medicina e em Ci\u00eancias, nos anos 1980. Foi quando decidi que queria usar a ci\u00eancia em favor da humanidade; queria encontrar um modo de fazer ci\u00eancia interessante, mas tamb\u00e9m de produzir vacinas que as grandes companhias farmac\u00eauticas n\u00e3o produziriam. Passei a vida desenvolvendo uma vacina de baixo custo contra a anemia por ancilostom\u00edase. A ancilostom\u00edase \u00e9 uma doen\u00e7a importante em lugares como o Brasil, a Venezuela e a Am\u00e9rica Central; \u00e9 tamb\u00e9m um grande problema na \u00cdndia e no continente africano. E agora, quarenta anos depois, demonstramos que ela funciona.<\/p>\n<p>Usamos essa mesma tecnologia para produzir vacinas de baixo custo contra coronav\u00edrus, inclusive contra a covid. E, quando o fizemos \u2014 porque havia pessoas morrendo no mundo inteiro por n\u00e3o terem acesso \u00e0 vacina de RNA mensageiro \u2014, decidimos ceder a nossa tecnologia vacinal minimizando as condicionalidades, e o fizemos sem patentes. Licenciamos a tecnologia para a \u00cdndia e para a Indon\u00e9sia.<\/p>\n<p>Disso resultaram, na verdade, duas vacinas: a Corbevax, fabricada pela Biological E, uma grande produtora de vacinas da \u00cdndia, e a IndoVac, da grande produtora de vacinas da Indon\u00e9sia. O aspecto interessante da IndoVac \u00e9 que, por n\u00e3o conter c\u00e9lulas animais nem c\u00e9lulas humanas \u2014 \u00e9 uma tecnologia vegana \u2014, ela recebeu a designa\u00e7\u00e3o halal. Foi a vacina halal contra a covid tamb\u00e9m para o mundo mu\u00e7ulmano \u2014 algo que eu n\u00e3o havia antecipado fazer, mas foi assim que as coisas se desdobraram. Como consequ\u00eancia, 100 milh\u00f5es de pessoas foram imunizadas. Foi muito bom oferecer essa contribui\u00e7\u00e3o. E ela forneceu uma prova de conceito: n\u00e3o \u00e9 preciso ser uma grande companhia farmac\u00eautica para realizar coisas importantes no campo das vacinas.<\/p>\n<p><strong>Doutor Hotez, o Brasil possui um sistema p\u00fablico de sa\u00fade muito forte, o SUS, e institui\u00e7\u00f5es como a Fiocruz e o Butantan. O senhor acredita que pa\u00edses como o Brasil podem liderar um novo modelo de ci\u00eancia aberta, livre de patentes, capaz de desafiar o sistema tradicional de patentes das grandes farmac\u00eauticas?<\/strong><\/p>\n<p>Sim \u2014 embora eu colocasse a quest\u00e3o de um modo um pouco diferente. N\u00e3o se trata apenas das patentes, nem apenas das vacinas. N\u00e3o \u00e9 somente uma quest\u00e3o de patentes e de propriedade intelectual, porque o decisivo \u00e9 o conhecimento t\u00e9cnico e a capacidade de produzir em escala, sob controle e garantia de qualidade. E n\u00e3o h\u00e1 muitos grandes pa\u00edses de renda m\u00e9dia capazes disso. Quem pode faz\u00ea-lo? A \u00cdndia pode. A Indon\u00e9sia pode. E penso que \u00e9 preciso acrescentar o Brasil. O futuro do mundo depende, realmente, de pa\u00edses como o Brasil oferecerem essa inova\u00e7\u00e3o e assumirem esse papel mais global.<\/p>\n<p>Estou muito entusiasmado, por exemplo, com o que est\u00e1 acontecendo agora no Butantan, com a sua nova vacina contra a dengue \u2014 que foi licenciada dos Institutos Nacionais de Sa\u00fade dos Estados Unidos [NIH]. Parece uma vacina bastante promissora. Precisamos de mais iniciativas assim. Eu gostaria de ver o Brasil tornar-se o foco da inova\u00e7\u00e3o para o mundo, como a \u00cdndia tem sido. E n\u00e3o apenas o Brasil: a Argentina precisa avan\u00e7ar nesse sentido; o M\u00e9xico tamb\u00e9m. Eu gostaria de ver at\u00e9 pa\u00edses menores, como o Panam\u00e1 \u2014 o Panam\u00e1 poderia se tornar a Singapura da Am\u00e9rica Latina. Precisamos de mais dessa inova\u00e7\u00e3o vinda dos pa\u00edses latino-americanos.<\/p>\n<p>Penso, por\u00e9m, que, para que isso aconte\u00e7a, n\u00e3o bastam as f\u00e1bricas, n\u00e3o bastam os produtores de vacinas: \u00e9 preciso apoio \u00e0s universidades, \u00e0 forma\u00e7\u00e3o da pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o de cientistas \u2014 lugares como a Universidade de S\u00e3o Paulo ou a Universidade Federal de Minas Gerais. Penso que precisamos v\u00ea-las receber um n\u00edvel mais alto de apoio. Uma das coisas que noto nas universidades brasileiras \u00e9 a falta de apoio privado. Nos Estados Unidos, se olharmos para as grandes universidades \u2014 como Harvard, Yale, a Universidade da Pensilv\u00e2nia e a Johns Hopkins \u2014, elas recebem muito apoio privado. Recebem tamb\u00e9m apoio governamental, dos NIH, mas recebem muito de indiv\u00edduos de alt\u00edssimo patrim\u00f4nio. H\u00e1 muita gente rica no Brasil, e precisamos que essas pessoas avancem e comecem realmente a apoiar as nossas universidades. Porque, hoje, se olharmos globalmente para as cem melhores universidades do mundo, o que vemos? Vemos Harvard, Caltech, MIT, Oxford, Cambridge. E onde est\u00e3o as universidades brasileiras? H\u00e1 muitos professores e estudantes brilhantes, mas a diferen\u00e7a \u00e9 que elas n\u00e3o disp\u00f5em desse n\u00edvel de apoio privado. Isso ser\u00e1 decisivo.<\/p>\n<p><strong>Falemos da internet. Dia ap\u00f3s dia, as plataformas digitais propagam mensagens anticient\u00edficas. Como a comunidade cient\u00edfica pode responder, quando essas empresas de tecnologia lucram com a desinforma\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Penso que voc\u00ea tem raz\u00e3o, e penso que esse \u00e9 um problema enorme. Uma das coisas que noto \u00e9 que, quando sou atacado \u2014 porque sou cientista \u2014, as pessoas que me atacam deixaram de frequentar a biblioteca. N\u00e3o est\u00e3o mais lendo livros: extraem todo o seu conte\u00fado de portais conspirat\u00f3rios. E isso mudou algo \u2014 penso que reconfigurou. N\u00e3o sei se reconfigura o c\u00e9rebro ou o qu\u00ea, mas precisamos reconstruir as habilidades de pensamento cr\u00edtico e levar as pessoas de volta \u00e0 biblioteca, de volta \u00e0 leitura de livros. Se voc\u00ea observar as minhas redes sociais, falo muito de livros, porque penso que essa \u00e9 a chave: precisamos de uma for\u00e7a de trabalho educada.<\/p>\n<p>O que aconteceu, penso eu, \u00e9 que esses magnatas da tecnologia que querem dominar \u2014 o modo pelo qual controlam as pessoas \u00e9 torn\u00e1-las est\u00fapidas e torn\u00e1-las doentes. Est\u00fapidas no sentido de que as pessoas n\u00e3o est\u00e3o lendo livros, est\u00e3o recorrendo a portais conspirat\u00f3rios; e doentes porque est\u00e3o rejeitando a medicina cient\u00edfica em favor da ind\u00fastria do bem-estar e dos influenciadores. Isso est\u00e1 enriquecendo uns poucos, mas est\u00e1 tornando o mundo est\u00fapido e doente \u2014 e precisamos encontrar um modo de reverter tudo isso. N\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil: precisamos de vontade pol\u00edtica para que aconte\u00e7a, e precisamos apoiar melhor os nossos professores, tanto no ensino fundamental quanto no ensino m\u00e9dio.<\/p>\n<p><strong>Se o senhor me permite, tenho uma pergunta pessoal. A Lancet noticiou os intensos ataques que o senhor e a sua fam\u00edlia sofrem da parte desses grupos radicais. Onde o senhor encontra a energia psicol\u00f3gica e moral para continuar essa luta todos os dias?<\/strong><\/p>\n<p>Bem, eu me canso, \u00e0s vezes. Parte do que me sustenta \u00e9 encontrar pessoas como voc\u00ea, que se importam, e organiza\u00e7\u00f5es como a sua, e programas como o seu. H\u00e1 muita gente boa no mundo, e procuro me manter otimista \u2014 mas h\u00e1 dias muito sombrios, em que se atravessam per\u00edodos de ataque continuado. Infelizmente, os m\u00e9todos empregados pelos grupos antici\u00eancia est\u00e3o se tornando mais sofisticados. Veremos. Para mim, o que d\u00e1 sentido \u00e9 criar interven\u00e7\u00f5es, como as vacinas, e escrever livros \u2014 isso ainda \u00e9 muito significativo para mim. Amo ser professor de uma escola de medicina, e continuarei a s\u00ea-lo enquanto puder. Mas n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que o mundo est\u00e1 se tornando, em muitos aspectos, um lugar mais sombrio.<\/p>\n<p><strong>Tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, alguns grupos religiosos conservadores converteram-se em centros de propaganda antivacina. Como dialogar com essas comunidades religiosas sem criar uma divis\u00e3o ainda mais profunda nas na\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p>Se pensarmos bem, n\u00e3o h\u00e1 \u2014 nos tempos modernos, ao menos \u2014 proibi\u00e7\u00f5es religiosas contra as vacinas ou contra a ci\u00eancia. N\u00e3o h\u00e1 nada no cristianismo que seja contr\u00e1rio \u00e0s vacinas ou \u00e0 ci\u00eancia; n\u00e3o h\u00e1 nada no isl\u00e3 que seja contr\u00e1rio \u00e0s vacinas e \u00e0 ci\u00eancia; n\u00e3o h\u00e1 nada no juda\u00edsmo que seja contr\u00e1rio \u00e0s vacinas e \u00e0 ci\u00eancia. E, no entanto, toda religi\u00e3o tem grupos dissidentes, grupos pequenos, que transformam a antici\u00eancia em arma \u2014 n\u00e3o para ganho religioso, mas para ganho pol\u00edtico. E esse \u00e9 o ponto importante a sublinhar: em todas as grandes religi\u00f5es do mundo \u2014 o hindu\u00edsmo, o isl\u00e3, o cristianismo, o juda\u00edsmo, e a lista continua \u2014, os l\u00edderes religiosos de todos esses grupos, seja o Papa, seja qualquer outro, apoiam fortemente a ci\u00eancia. S\u00e3o os pequenos grupos isolados que, de tempos em tempos, a transformam em arma. Mas \u00e9 muito importante reafirmar que n\u00e3o se trata de nada inerente \u00e0 religi\u00e3o enquanto tal: o que existe s\u00e3o pequenos grupos que a instrumentalizam.<\/p>\n<p><strong>Muito obrigado, professor Hotez. A \u00faltima e derradeira pergunta: a elite intelectual e a comunidade cient\u00edfica do Brasil o leem neste momento. Qual \u00e9 a sua mensagem central ao povo brasileiro que luta, agora, pela ci\u00eancia e pela sa\u00fade p\u00fablica neste pa\u00eds?<\/strong><\/p>\n<p>Penso que a mensagem \u00e9 recordar ao povo brasileiro a for\u00e7a da ci\u00eancia brasileira. A ci\u00eancia brasileira \u00e9 muito forte, em muitos aspectos. Todos os dias, no meu laborat\u00f3rio, h\u00e1 cientistas brasileiros \u2014 e a minha experi\u00eancia n\u00e3o \u00e9 \u00fanica. A chave est\u00e1 em os l\u00edderes pol\u00edticos do Brasil reconhecerem que a ci\u00eancia \u00e9 o presente do Brasil ao mundo \u2014 certamente o presente \u00e0 Am\u00e9rica Latina, mas o presente ao mundo.<\/p>\n<p>E, para ser uma grande na\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso ser forte em suas universidades de pesquisa. Isso significa a continuidade do apoio governamental \u00e0s universidades e \u00e0s institui\u00e7\u00f5es de pesquisa. Ao mesmo tempo, por\u00e9m, penso ser muito importante que o Brasil angarie mais apoio privado para as suas universidades. Voc\u00eas t\u00eam muito a seu favor, mas, com toda a franqueza, a Universidade de S\u00e3o Paulo, a de Campinas ou a de Minas Gerais \u2014 essas deveriam estar entre as melhores universidades do mundo. E n\u00e3o est\u00e3o, hoje. S\u00e3o muito boas, mas n\u00e3o disp\u00f5em do apoio financeiro privado que as levaria a esse patamar. Elas n\u00e3o podem depender apenas do governo: precisam do investimento privado nas universidades brasileiras. Essa \u00e9, talvez, a mensagem mais importante.<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p>1 No original, o entrevistado enumera tr\u00eas grandes epidemias de ebola, datando-as de 2014, 2019 e 2026. Na resposta 6, a mesma sequ\u00eancia reaparece \u2014 a epidemia de 2014 situada na \u00c1frica Ocidental e a de 2019 no leste da Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo \u2014, ao passo que a terceira, correspondente ao surto ent\u00e3o em curso na RDC, \u00e9 referida sem data. Preserva-se a formula\u00e7\u00e3o do entrevistado, sem harmoniza\u00e7\u00e3o. [N.E.]<\/p>\n<p>2 O entrevistado situa em 2019 tanto a grande epidemia de ebola no leste da Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo quanto a covid-19. Convencionalmente, a emerg\u00eancia da covid-19 \u00e9 datada da virada de 2019 para 2020. Mant\u00e9m-se a data\u00e7\u00e3o tal como enunciada na entrevista. [N.E.]<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Esmiu\u00e7a os impactos da sa\u00edda dos EUA da OMS no Sul global \u2013 e o potencial de inova\u00e7\u00e3o do Brasil na sa\u00fade. E aponta: ind\u00fastria dos influenciadores de bem-estar \u00e9 nova face da antici\u00eancia<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/ciencia-caminho-para-enfrentar-a-crise-civilizatoria\/\">Ci\u00eancia, caminho para enfrentar a crise civilizat\u00f3ria?<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":91971,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[68184,21525,9370,6793,2687,2276,68185,17045,68186,2520,68187,68188,68189,2831,1002,1569,68190,4360,68191,126,1256,9569,52003,68192,33417,2387,5414,68193],"tags":[],"class_list":["post-91970","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ameacas-pandemicas","category-big-pharma","category-butantan","category-ciencia-brasileira","category-crise-civilizatoria","category-desigualdade","category-e-epidemiologistas","category-estado","category-falta-de-saneamento","category-fiocruz","category-imperio-asteca","category-inamps","category-industria-do-bem-estar","category-investimento-privado","category-mudanca-climatica","category-pandemia","category-peter-hotez","category-redemocratizacao","category-sanitaristas","category-saude","category-sus","category-texas","category-thiago-gama","category-tributar-fortunas","category-universidades-brasileiras","category-urbanizacao","category-vacinas","category-virologistas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/91970","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=91970"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/91970\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/91971"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=91970"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=91970"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=91970"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}