{"id":91974,"date":"2026-06-15T16:47:53","date_gmt":"2026-06-15T19:47:53","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/terras-raras-brasil-como-potencia-ou-colonia\/"},"modified":"2026-06-15T16:47:53","modified_gmt":"2026-06-15T19:47:53","slug":"terras-raras-brasil-como-potencia-ou-colonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/terras-raras-brasil-como-potencia-ou-colonia\/","title":{"rendered":"Terras raras: Brasil como pot\u00eancia ou col\u00f4nia?"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"1000\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_5008231205341695082_w-2048x1366.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_5008231205341695082_w-1500x1000.jpg 1500w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_5008231205341695082_w-300x200.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_5008231205341695082_w-768x512.jpg 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_5008231205341695082_w-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_5008231205341695082_w-2048x1366.jpg 2048w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_5008231205341695082_w-272x182.jpg 272w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\"><figcaption>Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Huron Mining<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<p><imgsrc=\"\" width=\"1\" height=\"1\" alt=\".\" border=\"0\">\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Por <strong>Reynaldo Aragon<\/strong>, no <em>C\u00f3digo Aberto<\/em><\/p>\n<h3><strong>Quando um semin\u00e1rio revela uma mudan\u00e7a hist\u00f3rica<\/strong><\/h3>\n<p>H\u00e1 alguns anos venho escrevendo sobre soberania tecnol\u00f3gica, depend\u00eancia econ\u00f4mica, guerra informacional, reindustrializa\u00e7\u00e3o e as transforma\u00e7\u00f5es geopol\u00edticas produzidas pela reorganiza\u00e7\u00e3o das cadeias globais de poder. Sob diferentes formas, todas essas quest\u00f5es conduzem a uma mesma pergunta: quem controlar\u00e1 os recursos, as tecnologias e as infraestruturas que sustentar\u00e3o a economia do s\u00e9culo XXI?<\/p>\n<p>Foi com essa preocupa\u00e7\u00e3o que estive em Bras\u00edlia, nos dias 9 e 10 de junho, para acompanhar o Semin\u00e1rio Internacional de Minerais Cr\u00edticos e Estrat\u00e9gicos, promovido pelo Instituto Brasileiro de Minera\u00e7\u00e3o (IBRAM). Minha presen\u00e7a no evento foi viabilizada gra\u00e7as ao apoio da Rede Lawfare Nunca Mais e da Rede pela Soberania. Mais do que um gesto de apoio individual, essa decis\u00e3o revelou uma compreens\u00e3o estrat\u00e9gica rara sobre a import\u00e2ncia do tema. Em um momento em que boa parte do debate p\u00fablico ainda dedica pouca aten\u00e7\u00e3o aos minerais cr\u00edticos, essas organiza\u00e7\u00f5es compreenderam que a disputa em torno desses recursos influenciar\u00e1 diretamente o desenvolvimento econ\u00f4mico, tecnol\u00f3gico e industrial do Brasil nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas. Registro aqui n\u00e3o apenas meu agradecimento, mas meu reconhecimento pol\u00edtico e intelectual pela lucidez daqueles que entenderam a dimens\u00e3o hist\u00f3rica desse debate.<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/14--23.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/14--23.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/14-1-300x110.png 300w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Eu n\u00e3o fui a Bras\u00edlia para descobrir a import\u00e2ncia dos minerais cr\u00edticos. A relev\u00e2ncia desse tema j\u00e1 se tornou evidente h\u00e1 muito tempo para quem acompanha a disputa global por tecnologia, energia, infraestrutura digital, intelig\u00eancia artificial e capacidade industrial. O que encontrei no semin\u00e1rio foi a confirma\u00e7\u00e3o de que uma quest\u00e3o antes restrita a especialistas, pesquisadores e formuladores de pol\u00edticas p\u00fablicas passou definitivamente a ocupar o centro das disputas estrat\u00e9gicas do nosso tempo.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio perfil do evento revelava isso. Reunidos no mesmo espa\u00e7o estavam representantes das maiores mineradoras em opera\u00e7\u00e3o no pa\u00eds, membros do governo federal, parlamentares, bancos p\u00fablicos, universidades, centros de pesquisa, ag\u00eancias reguladoras e institui\u00e7\u00f5es ligadas \u00e0 pol\u00edtica industrial e tecnol\u00f3gica. Raramente atores t\u00e3o distintos convergem em torno de um mesmo tema sem que algo estrutural esteja em movimento.<\/p>\n<p>Talvez essa tenha sido a principal constata\u00e7\u00e3o daqueles dois dias.<\/p>\n<p>Os minerais cr\u00edticos deixaram de ser apenas uma quest\u00e3o mineral. Tornaram-se uma quest\u00e3o de poder.<\/p>\n<p>Est\u00e3o presentes nas cadeias produtivas que sustentam a intelig\u00eancia artificial, os semicondutores, os sistemas avan\u00e7ados de defesa, os ve\u00edculos el\u00e9tricos, as redes de telecomunica\u00e7\u00f5es, os data centers e boa parte das tecnologias que reorganizam a economia mundial. Quem observa apenas a mina v\u00ea apenas uma parte da hist\u00f3ria. Quem observa as cadeias produtivas, os fluxos tecnol\u00f3gicos e os interesses geopol\u00edticos percebe algo maior: estamos diante de uma das mais importantes disputas econ\u00f4micas e estrat\u00e9gicas do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>Por essa raz\u00e3o, este artigo inaugura uma s\u00e9rie dedicada a analisar os debates observados em Bras\u00edlia e suas implica\u00e7\u00f5es para o Brasil. O objetivo n\u00e3o \u00e9 reproduzir palestras nem resumir apresenta\u00e7\u00f5es. \u00c9 compreender o significado hist\u00f3rico de um fen\u00f4meno que atravessa ind\u00fastria, tecnologia, geopol\u00edtica, desenvolvimento e soberania.<\/p>\n<p>A pergunta que orientar\u00e1 toda esta s\u00e9rie \u00e9 simples.<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/14--23.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/14--23.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/14-1-300x110.png 300w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>O Brasil entrou definitivamente na corrida mineral do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>O que permanece em disputa \u00e9 a forma como pretende participar dela.<\/p>\n<h3><strong>Um semin\u00e1rio corporativo diante de uma quest\u00e3o nacional<\/strong><\/h3>\n<p>O primeiro aspecto que chamou aten\u00e7\u00e3o no semin\u00e1rio foi uma aparente contradi\u00e7\u00e3o. Embora organizado pelo Instituto Brasileiro de Minera\u00e7\u00e3o (IBRAM), principal entidade representativa do setor mineral, o evento ultrapassava em muito os limites de uma discuss\u00e3o corporativa. N\u00e3o era dif\u00edcil compreender por qu\u00ea.<\/p>\n<p>As empresas presentes tinham raz\u00f5es evidentes para estar ali. Vale, BHP, Anglo American, CBMM, Serra Verde e outras companhias sabem que a corrida global pelos minerais cr\u00edticos abriu uma das maiores oportunidades econ\u00f4micas das pr\u00f3ximas d\u00e9cadas. A expans\u00e3o dos ve\u00edculos el\u00e9tricos, dos data centers, da intelig\u00eancia artificial, das redes de energia e da ind\u00fastria avan\u00e7ada transformou terras raras, l\u00edtio, cobre, grafita e ni\u00f3bio em ativos cada vez mais valorizados.<\/p>\n<p>Mas seria ingenuidade imaginar que todos os participantes do semin\u00e1rio estavam ali defendendo exatamente os mesmos objetivos.<\/p>\n<p>Para as grandes corpora\u00e7\u00f5es mineradoras, o desafio central consiste em ampliar investimentos, acelerar projetos e garantir condi\u00e7\u00f5es regulat\u00f3rias favor\u00e1veis para disputar mercados globais em r\u00e1pida expans\u00e3o. Para setores do Estado, da pesquisa cient\u00edfica e da pol\u00edtica industrial, a quest\u00e3o \u00e9 mais complexa. O que estava em discuss\u00e3o n\u00e3o era apenas como extrair mais, mas como evitar que uma riqueza estrat\u00e9gica produzisse, mais uma vez, benef\u00edcios desproporcionais para agentes privados enquanto os maiores ganhos tecnol\u00f3gicos, industriais e econ\u00f4micos fossem apropriados em outras etapas das cadeias globais de valor.<\/p>\n<p>Essa tens\u00e3o raramente aparecia de forma aberta nos discursos. Mas estava presente no ambiente. E ajuda a explicar por que um semin\u00e1rio sobre minera\u00e7\u00e3o acabou se transformando, na pr\u00e1tica, em um debate sobre desenvolvimento, poder econ\u00f4mico e futuro nacional.<\/p>\n<p>Afinal, quando se fala em minerais cr\u00edticos, n\u00e3o se est\u00e1 discutindo apenas minera\u00e7\u00e3o. Est\u00e1-se discutindo quem controlar\u00e1 os benef\u00edcios econ\u00f4micos, tecnol\u00f3gicos e produtivos associados a recursos que se tornaram essenciais para a reorganiza\u00e7\u00e3o da economia mundial.<\/p>\n<p>Foi essa tens\u00e3o que transformou o semin\u00e1rio em algo muito maior do que um encontro empresarial.<\/p>\n<p>Por tr\u00e1s das apresenta\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas, dos pain\u00e9is e dos debates regulat\u00f3rios, o que se observava era o encontro entre diferentes projetos para o futuro desses recursos estrat\u00e9gicos. Um debate que, embora ainda pouco vis\u00edvel para a maior parte da sociedade brasileira, tende a influenciar decis\u00f5es econ\u00f4micas, industriais e tecnol\u00f3gicas que ultrapassar\u00e3o em muito os limites do setor mineral.<\/p>\n<h3><strong>O novo mapa material do poder<\/strong><\/h3>\n<p>Durante boa parte do s\u00e9culo XX, compreender a geopol\u00edtica mundial significava compreender o petr\u00f3leo. A localiza\u00e7\u00e3o das reservas, o controle das rotas mar\u00edtimas, os oleodutos, as refinarias e os grandes produtores influenciaram guerras, alian\u00e7as internacionais, crises econ\u00f4micas e estrat\u00e9gias nacionais durante d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo XXI, essa equa\u00e7\u00e3o tornou-se mais complexa.<\/p>\n<p>O petr\u00f3leo continua importante, mas uma nova camada de recursos estrat\u00e9gicos passou a ocupar posi\u00e7\u00e3o central na economia mundial. Terras raras, l\u00edtio, cobre, grafita, n\u00edquel, sil\u00edcio e outros minerais deixaram de ser insumos industriais relativamente especializados para se transformar em componentes indispens\u00e1veis das tecnologias que estruturam a nova fase do desenvolvimento global.<\/p>\n<p>Essa transforma\u00e7\u00e3o ocorreu porque a economia contempor\u00e2nea passou a depender de sistemas f\u00edsicos muito mais sofisticados do que aqueles que marcaram os ciclos anteriores da industrializa\u00e7\u00e3o. Um ve\u00edculo el\u00e9trico demanda quantidades significativas de minerais estrat\u00e9gicos. Uma turbina e\u00f3lica depende deles. Um semicondutor depende deles. Um data center depende deles. Um sat\u00e9lite depende deles. Uma rede de telecomunica\u00e7\u00f5es depende deles.<\/p>\n<p>At\u00e9 mesmo a intelig\u00eancia artificial, frequentemente apresentada como uma tecnologia abstrata e imaterial, depende de uma infraestrutura f\u00edsica gigantesca. Servidores, chips avan\u00e7ados, sistemas de armazenamento de energia, redes el\u00e9tricas e centros de processamento de dados s\u00e3o constru\u00eddos sobre cadeias produtivas intensivas em minerais cr\u00edticos.<\/p>\n<p>Foi essa mudan\u00e7a que reposicionou esses recursos no centro das aten\u00e7\u00f5es de governos, ind\u00fastrias e centros de pesquisa ao redor do mundo.<\/p>\n<p>Existe uma ironia pouco percebida nessa transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Durante anos, a economia digital foi apresentada como uma esp\u00e9cie de supera\u00e7\u00e3o da economia material. Falava-se em plataformas, algoritmos, intelig\u00eancia artificial, computa\u00e7\u00e3o em nuvem e virtualiza\u00e7\u00e3o de processos como se o futuro estivesse cada vez menos dependente de recursos f\u00edsicos.<\/p>\n<p>O que a corrida pelos minerais cr\u00edticos est\u00e1 demonstrando \u00e9 exatamente o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Quanto mais digital se torna a economia, mais ela depende de infraestrutura material. Quanto mais avan\u00e7ados se tornam os algoritmos, maior \u00e9 a necessidade de energia, servidores, chips, redes el\u00e9tricas, centros de processamento de dados e sistemas industriais capazes de sustentar essa arquitetura tecnol\u00f3gica. E tudo isso come\u00e7a muito antes dos laborat\u00f3rios de software. Come\u00e7a na minera\u00e7\u00e3o, no processamento mineral, na metalurgia e na manufatura avan\u00e7ada.<\/p>\n<p>Sob esse aspecto, os minerais cr\u00edticos est\u00e3o produzindo uma esp\u00e9cie de reencontro entre geologia e geopol\u00edtica. O debate sobre intelig\u00eancia artificial, transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica e ind\u00fastria avan\u00e7ada volta a depender de quest\u00f5es que pareciam pertencer ao passado: recursos naturais, capacidade produtiva, infraestrutura f\u00edsica e planejamento estrat\u00e9gico.<\/p>\n<p>Talvez seja essa a principal mudan\u00e7a hist\u00f3rica em curso.<\/p>\n<p>O s\u00e9culo XXI n\u00e3o est\u00e1 substituindo a economia material.<\/p>\n<p>Est\u00e1 reconstruindo-a sobre novas bases.<\/p>\n<p>O petr\u00f3leo moveu a economia do s\u00e9culo XX. Os minerais cr\u00edticos alimentam as infraestruturas que sustentar\u00e3o o s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<h3><strong>Da mina ao \u00edm\u00e3: onde a riqueza realmente aparece<\/strong><\/h3>\n<p>Uma das contribui\u00e7\u00f5es mais interessantes do semin\u00e1rio foi deslocar o debate da extra\u00e7\u00e3o para a transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Durante d\u00e9cadas, a discuss\u00e3o sobre minera\u00e7\u00e3o no Brasil esteve concentrada na descoberta de reservas, na abertura de minas e no aumento da produ\u00e7\u00e3o. Os minerais cr\u00edticos introduzem uma l\u00f3gica diferente. A pergunta relevante j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 apenas quem possui os recursos, mas quem domina as etapas capazes de transform\u00e1-los em produtos de alto valor agregado.<\/p>\n<p>Foi justamente nesse ponto que alguns dos projetos apresentados em Bras\u00edlia se tornaram particularmente reveladores.<\/p>\n<p>O exemplo mais impressionante apresentado durante o semin\u00e1rio foi o MAGBRAS. \u00c0 primeira vista, trata-se de um projeto voltado \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de \u00edm\u00e3s permanentes de terras raras. Na pr\u00e1tica, por\u00e9m, representa algo muito maior: uma tentativa de reconstruir, dentro do territ\u00f3rio brasileiro, etapas tecnol\u00f3gicas que hoje permanecem concentradas em um n\u00famero reduzido de pa\u00edses.<\/p>\n<p>O projeto re\u00fane mineradoras, universidades, institutos de pesquisa e empresas industriais em uma cadeia que come\u00e7a na extra\u00e7\u00e3o mineral e percorre sucessivas etapas de transforma\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. O min\u00e9rio extra\u00eddo em Minas Gerais segue para processamento e separa\u00e7\u00e3o qu\u00edmica, passa por centros tecnol\u00f3gicos no Rio de Janeiro e em S\u00e3o Paulo, incorpora conhecimento cient\u00edfico desenvolvido por institui\u00e7\u00f5es como o CETEM, o IPT e a UFSC e retorna \u00e0 ind\u00fastria na forma de componentes de alta complexidade tecnol\u00f3gica. Empresas como a WEG participam da etapa de aplica\u00e7\u00e3o industrial desses materiais.<\/p>\n<p>O que torna essa iniciativa t\u00e3o relevante \u00e9 que ela revela algo frequentemente ignorado no debate p\u00fablico: entre a mina e o produto final existe um universo inteiro de ci\u00eancia, engenharia, tecnologia, propriedade intelectual e capacidade industrial. \u00c9 nesse espa\u00e7o que surgem os empregos mais qualificados, os maiores ganhos econ\u00f4micos e as compet\u00eancias tecnol\u00f3gicas que diferenciam pa\u00edses capazes de produzir tecnologia daqueles que apenas fornecem insumos para que outros a produzam.<\/p>\n<p>Em outras palavras, o verdadeiro salto econ\u00f4mico n\u00e3o ocorre quando o min\u00e9rio sai do solo. O salto ocorre quando conhecimento, pesquisa e capacidade produtiva s\u00e3o incorporados \u00e0 mat\u00e9ria-prima e a transformam em tecnologia.<\/p>\n<p>Esse detalhe \u00e9 fundamental porque ajuda a compreender onde a riqueza realmente \u00e9 gerada.<\/p>\n<p>Em geral, a etapa de extra\u00e7\u00e3o representa apenas uma fra\u00e7\u00e3o do valor econ\u00f4mico associado aos minerais cr\u00edticos. \u00c0 medida que o material avan\u00e7a pelas diferentes etapas de processamento, incorpora\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e transforma\u00e7\u00e3o industrial, seu valor cresce de forma exponencial. \u00c9 por isso que pa\u00edses industrializados raramente disputam apenas minas. O objetivo \u00e9 controlar as etapas que concentram conhecimento, tecnologia, propriedade intelectual e capacidade produtiva.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia internacional oferece exemplos claros. A China n\u00e3o se tornou refer\u00eancia global em terras raras apenas porque possui reservas significativas. Sua posi\u00e7\u00e3o foi constru\u00edda ao longo de d\u00e9cadas de investimentos em refino, processamento qu\u00edmico, engenharia de materiais e manufatura avan\u00e7ada. O mesmo racioc\u00ednio pode ser observado em setores estrat\u00e9gicos desenvolvidos por Jap\u00e3o, Coreia do Sul e Alemanha, pa\u00edses que compreenderam que a riqueza associada aos recursos naturais depende menos da extra\u00e7\u00e3o e mais da capacidade de transformar mat\u00e9ria-prima em produtos complexos.<\/p>\n<p>Foi exatamente essa l\u00f3gica que apareceu diversas vezes ao longo do semin\u00e1rio. Quando pesquisadores discutiam separa\u00e7\u00e3o de \u00f3xidos, quando engenheiros apresentavam solu\u00e7\u00f5es para materiais avan\u00e7ados ou quando empresas demonstravam aplica\u00e7\u00f5es industriais para terras raras e ni\u00f3bio, o debate j\u00e1 n\u00e3o era sobre minera\u00e7\u00e3o. Era sobre tecnologia.<\/p>\n<p>Talvez essa seja uma das principais li\u00e7\u00f5es dos minerais cr\u00edticos.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo XXI, possuir recursos naturais continua sendo importante. Mas cada vez mais decisivo \u00e9 possuir a capacidade cient\u00edfica, tecnol\u00f3gica e industrial necess\u00e1ria para transform\u00e1-los em conhecimento, produtos e riqueza.<\/p>\n<h3><strong>Quando a disputa chega ao Congresso<\/strong><\/h3>\n<p>Em algum momento, toda transforma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica relevante produz uma disputa pol\u00edtica correspondente.<\/p>\n<p>Os minerais cr\u00edticos n\u00e3o s\u00e3o exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que governos, empresas, centros de pesquisa e investidores passaram a reconhecer a import\u00e2ncia estrat\u00e9gica desses recursos, tornou-se inevit\u00e1vel a necessidade de construir regras capazes de orientar sua explora\u00e7\u00e3o, seu financiamento e sua inser\u00e7\u00e3o nas cadeias produtivas nacionais. \u00c9 nesse contexto que surge o Projeto de Lei 2780\/2024, que institui a Pol\u00edtica Nacional de Minerais Cr\u00edticos e Estrat\u00e9gicos.<\/p>\n<p>O aspecto mais importante do projeto, por\u00e9m, n\u00e3o est\u00e1 em seus dispositivos espec\u00edficos.<\/p>\n<p>Est\u00e1 no fato de que ele se transformou em um espa\u00e7o de disputa entre diferentes interesses econ\u00f4micos e diferentes vis\u00f5es sobre o papel que esses recursos dever\u00e3o desempenhar no futuro do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Ao longo do semin\u00e1rio, essa tens\u00e3o apareceu diversas vezes, ainda que nem sempre de forma expl\u00edcita.<\/p>\n<p>De um lado, representantes do setor mineral defendiam a necessidade de ampliar a competitividade brasileira diante de uma corrida global cada vez mais acelerada. O argumento central \u00e9 conhecido: excesso de condicionantes, demora regulat\u00f3ria e inseguran\u00e7a jur\u00eddica poderiam afastar investimentos e reduzir a capacidade do pa\u00eds de aproveitar uma oportunidade hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Do outro lado, representantes de institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, centros de pesquisa e setores ligados \u00e0 pol\u00edtica industrial demonstravam preocupa\u00e7\u00e3o com uma quest\u00e3o diferente: como garantir que a corrida pelos minerais cr\u00edticos produza benef\u00edcios duradouros para o pa\u00eds e n\u00e3o apenas a amplia\u00e7\u00e3o das exporta\u00e7\u00f5es de recursos estrat\u00e9gicos.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia internacional mostra que momentos como este costumam produzir consequ\u00eancias que ultrapassam em muito o setor que lhes deu origem. As regras estabelecidas nos per\u00edodos iniciais de uma nova fronteira econ\u00f4mica frequentemente condicionam, por d\u00e9cadas, a distribui\u00e7\u00e3o dos investimentos, das capacidades produtivas e dos benef\u00edcios associados a ela.<\/p>\n<p>Um aspecto particularmente revelador do semin\u00e1rio n\u00e3o foi apenas aquilo que apareceu nos debates, mas tamb\u00e9m aquilo que permaneceu ausente deles.<\/p>\n<p>Ao longo de dois dias de discuss\u00f5es, falou-se muito sobre investimentos, competitividade, expans\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o, cadeias produtivas e oportunidades econ\u00f4micas associadas aos minerais cr\u00edticos. No entanto, temas relacionados ao papel do Estado na coordena\u00e7\u00e3o desse processo, \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de instrumentos p\u00fablicos permanentes de governan\u00e7a ou mesmo propostas como a Terrabras apareceram de forma marginal ou simplesmente n\u00e3o apareceram.<\/p>\n<p>Essa aus\u00eancia chama aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As experi\u00eancias internacionais mais bem-sucedidas na constru\u00e7\u00e3o de setores estrat\u00e9gicos raramente foram resultado exclusivo das for\u00e7as de mercado. Dos Estados Unidos \u00e0 China, passando por Jap\u00e3o, Coreia do Sul e Uni\u00e3o Europeia, a consolida\u00e7\u00e3o de cadeias produtivas consideradas estrat\u00e9gicas esteve associada, em diferentes graus, \u00e0 a\u00e7\u00e3o coordenadora do Estado, ao financiamento p\u00fablico, ao planejamento de longo prazo e \u00e0 defini\u00e7\u00e3o de objetivos nacionais claros.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de defender modelos espec\u00edficos nem de ignorar o papel da iniciativa privada. Trata-se de registrar uma quest\u00e3o que permaneceu relativamente fora do centro dos debates: se existe consenso sobre a import\u00e2ncia estrat\u00e9gica dos minerais cr\u00edticos, ainda permanece aberta a discuss\u00e3o sobre quais instrumentos institucionais ser\u00e3o necess\u00e1rios para garantir que essa riqueza seja administrada de acordo com interesses de longo prazo do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Talvez justamente por tocar em temas mais sens\u00edveis, essa tenha sido uma das aus\u00eancias mais eloquentes observadas ao longo do semin\u00e1rio. Em um encontro dedicado a discutir recursos considerados estrat\u00e9gicos para o futuro econ\u00f4mico e tecnol\u00f3gico do pa\u00eds, o relativo sil\u00eancio em torno dos instrumentos de coordena\u00e7\u00e3o estatal acabou se tornando, paradoxalmente, uma das informa\u00e7\u00f5es mais relevantes produzidas pelo pr\u00f3prio evento<\/p>\n<p>\u00c9 justamente por isso que o debate sobre minerais cr\u00edticos ultrapassa os limites da minera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que est\u00e1 sendo discutido n\u00e3o \u00e9 apenas uma pol\u00edtica setorial.<\/p>\n<p>\u00c9 a forma como o Brasil pretende administrar um conjunto de recursos que passou a ocupar posi\u00e7\u00e3o central na reorganiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>Talvez essa seja a principal raz\u00e3o pela qual o PL 2780 desperta tanto interesse.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o responde sozinho \u00e0s quest\u00f5es colocadas pelos minerais cr\u00edticos. Mas ajudar\u00e1 a definir as condi\u00e7\u00f5es sob as quais essas quest\u00f5es ser\u00e3o enfrentadas nos pr\u00f3ximos anos. E, em momentos hist\u00f3ricos como este, as regras importam tanto quanto os recursos.<\/p>\n<h3><strong>A escolha brasileira<\/strong><\/h3>\n<p>Ao final dos dois dias de debates em Bras\u00edlia, ficou evidente que os minerais cr\u00edticos representam muito mais do que uma nova fronteira econ\u00f4mica. Eles se transformaram em um teste hist\u00f3rico para a capacidade brasileira de formular um projeto nacional compat\u00edvel com as transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas, energ\u00e9ticas e geopol\u00edticas em curso no s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>A relev\u00e2ncia dessa discuss\u00e3o n\u00e3o decorre apenas da exist\u00eancia de reservas minerais expressivas em territ\u00f3rio nacional. Outros pa\u00edses tamb\u00e9m possuem recursos estrat\u00e9gicos. A diferen\u00e7a est\u00e1 na capacidade de transformar riqueza geol\u00f3gica em riqueza econ\u00f4mica, capacidade cient\u00edfica, poder industrial e autonomia tecnol\u00f3gica.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria internacional oferece exemplos eloquentes. H\u00e1 pa\u00edses que permaneceram presos \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de exportadores de mat\u00e9rias-primas mesmo dispondo de recursos abundantes. H\u00e1 outros que utilizaram seus recursos estrat\u00e9gicos para construir ind\u00fastria, tecnologia, infraestrutura, conhecimento e poder econ\u00f4mico. Em geral, a diferen\u00e7a n\u00e3o esteve no subsolo. Esteve nas decis\u00f5es pol\u00edticas tomadas acima dele.<\/p>\n<p>Essa talvez seja a principal reflex\u00e3o que emerge do semin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Os minerais cr\u00edticos n\u00e3o produzir\u00e3o desenvolvimento por conta pr\u00f3pria. N\u00e3o criar\u00e3o ind\u00fastria por in\u00e9rcia. N\u00e3o fortalecer\u00e3o a posi\u00e7\u00e3o internacional do Brasil apenas porque existem em abund\u00e2ncia no territ\u00f3rio nacional. Recursos naturais s\u00e3o potencial. Transformar potencial em desenvolvimento depende de estrat\u00e9gia, planejamento, coordena\u00e7\u00e3o institucional e, sobretudo, de uma clara defini\u00e7\u00e3o dos interesses nacionais que devem orientar esse processo.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente por isso que o debate sobre minerais cr\u00edticos ultrapassa os limites da minera\u00e7\u00e3o. O que est\u00e1 em jogo n\u00e3o \u00e9 apenas a explora\u00e7\u00e3o de determinadas reservas. O que est\u00e1 em disputa \u00e9 a capacidade do Brasil de utilizar uma riqueza que pertence \u00e0 na\u00e7\u00e3o para fortalecer sua base produtiva, ampliar sua capacidade tecnol\u00f3gica e construir uma inser\u00e7\u00e3o menos subordinada na economia mundial.<\/p>\n<p>Foi essa a principal impress\u00e3o que trouxe de Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>A corrida global pelos minerais cr\u00edticos j\u00e1 come\u00e7ou. Governos, corpora\u00e7\u00f5es e centros industriais ao redor do mundo compreenderam que esses recursos ocupar\u00e3o posi\u00e7\u00e3o central na reorganiza\u00e7\u00e3o das cadeias produtivas das pr\u00f3ximas d\u00e9cadas. O Brasil entrou nessa corrida com vantagens que poucos pa\u00edses possuem. Mas vantagem geol\u00f3gica n\u00e3o garante vit\u00f3ria hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>A verdadeira disputa come\u00e7a agora.<\/p>\n<p>O semin\u00e1rio revelou apenas a camada mais vis\u00edvel desse processo. Por tr\u00e1s dos debates t\u00e9cnicos, das apresenta\u00e7\u00f5es corporativas e das discuss\u00f5es regulat\u00f3rias existe uma disputa muito maior envolvendo Estados, corpora\u00e7\u00f5es, cadeias produtivas globais, estrat\u00e9gias industriais e diferentes projetos de desenvolvimento.<\/p>\n<p>Nos pr\u00f3ximos artigos desta s\u00e9rie, aprofundaremos justamente aquilo que apareceu apenas parcialmente em Bras\u00edlia. Investigaremos a corrida internacional pelas terras raras, os movimentos de China, Estados Unidos e Uni\u00e3o Europeia sobre o subsolo brasileiro, as disputas em torno do PL 2780, os limites e possibilidades da industrializa\u00e7\u00e3o nacional e o papel que minerais cr\u00edticos passaram a desempenhar nas cadeias de intelig\u00eancia artificial, defesa, energia e tecnologia avan\u00e7ada.<\/p>\n<p>Porque a quest\u00e3o central nunca foi apenas mineral.<\/p>\n<p>A disputa do s\u00e9culo XXI n\u00e3o ocorre apenas sobre jazidas, territ\u00f3rios ou reservas naturais. Ela ocorre sobre os fluxos que conectam recursos, conhecimento, tecnologia, ind\u00fastria e poder. Extrair min\u00e9rio gera riqueza. Controlar as cadeias que transformam esse min\u00e9rio em tecnologia gera algo muito maior: capacidade de definir quem captura essa riqueza e quem permanece dependente dela.<\/p>\n<p>Os minerais cr\u00edticos s\u00e3o apenas o ponto de partida.<\/p>\n<p>A verdadeira discuss\u00e3o \u00e9 sobre desenvolvimento, soberania e o lugar que o Brasil pretende ocupar na nova geografia do poder mundial.<\/p>\n<p>E essa hist\u00f3ria est\u00e1 apenas come\u00e7ando.<\/p>\n<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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H\u00e1 tens\u00e3o sobre duas perspectivas opostas. Empresas querem extrair e exportar r\u00e1pido. 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