{"id":92022,"date":"2026-06-16T10:26:15","date_gmt":"2026-06-16T13:26:15","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/quilombo-centenario-no-piaui-e-esquecido-pela-maior-usina-eolica-da-america-do-sul\/"},"modified":"2026-06-16T10:26:15","modified_gmt":"2026-06-16T13:26:15","slug":"quilombo-centenario-no-piaui-e-esquecido-pela-maior-usina-eolica-da-america-do-sul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/quilombo-centenario-no-piaui-e-esquecido-pela-maior-usina-eolica-da-america-do-sul\/","title":{"rendered":"Quilombo centen\u00e1rio no Piau\u00ed \u00e9 esquecido pela maior usina e\u00f3lica da Am\u00e9rica do Sul"},"content":{"rendered":"<p><strong>UMA \u201cZUADA QUE <\/strong><strong><em>NOSSINHORA\u201d<\/em><\/strong>. \u00c9 assim que Firmino Gomes dos Anjos, morador do quilombo Lagoa, em Lagoa do Barro, interior do Piau\u00ed, descreve o conv\u00edvio di\u00e1rio com duas torres e\u00f3licas no territ\u00f3rio da comunidade. As turbinas s\u00e3o da empresa Enel Green Power e fazem parte do Complexo E\u00f3lico Lagoa dos Ventos, instalado entre os munic\u00edpios de Lagoa do Barro do Piau\u00ed, Queimada Nova e Dom Inoc\u00eancio.\u00a0<\/p>\n<p>Faz oito anos que a empresa iniciou a constru\u00e7\u00e3o dos aerogeradores. Na \u00e9poca, as p\u00e1s eram chamadas de \u201ccataventos\u201d e os moradores sabiam pouco ou nada do assunto. O que veio depois foi a implanta\u00e7\u00e3o da maior usina e\u00f3lica da Am\u00e9rica do Sul, que opera dentro de uma comunidade quilombola centen\u00e1ria jamais consultada, ignorada por empresas e \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos \u2014 um s\u00edmbolo da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica injusta.<\/p>\n<p>O megaempreendimento de 280 mil hectares entrou em opera\u00e7\u00e3o em 2021, com 716 MW (megawatts) de pot\u00eancia instalada na primeira fase (Lagoa dos Ventos I e II). Na fase de expans\u00e3o (Lagoa dos Ventos III), foram adicionados mais 396 MW \u2014 tornando o complexo o principal projeto e\u00f3lico da Enel no mundo.<\/p>\n<p>S\u00e3o ao todo 230 turbinas, das quais duas no quilombo Lagoa. As conversas para erguer as estruturas, por\u00e9m, foram feitas apenas com os dois moradores que receberam as torres em seus terrenos, e trataram somente do arrendamento das \u00e1reas. Essas informa\u00e7\u00f5es constam do relat\u00f3rio de identifica\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio, produzido pelo Interpi (Instituto de Regulariza\u00e7\u00e3o Fundi\u00e1ria e Patrim\u00f4nio Imobili\u00e1rio do Piau\u00ed) e publicado em 2024. O \u00f3rg\u00e3o estadual \u00e9 o respons\u00e1vel por regularizar o quilombo, pois parte da \u00e1rea tradicional corresponde a terras p\u00fablicas estaduais \u2014 agora ocupadas pela Enel.\u00a0<\/p>\n<p>A Conven\u00e7\u00e3o 169 da OIT (Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho), ratificada pelo Brasil em 2004, determina que comunidades tradicionais sejam devidamente comunicadas e ouvidas a respeito de atividades econ\u00f4micas em seus territ\u00f3rios. A consulta deve ocorrer antes da instala\u00e7\u00e3o do empreendimento, o que n\u00e3o aconteceu com o quilombo Lagoa.<\/p>\n<p>Cinco anos ap\u00f3s o in\u00edcio das opera\u00e7\u00f5es, os quilombolas relatam danos em seu modo de vida e perdas econ\u00f4micas, como rachaduras em algumas casas. \u201c[Eles] fizeram remendos, mas em alguns casos era para ter derrubado e levantado de novo\u201d, comenta Firmino dos Anjos.\u00a0<\/p>\n<p>Os moradores tamb\u00e9m citam epis\u00f3dios de enjoo, devido ao barulho e ao efeito de luz e sombra, al\u00e9m do inc\u00f4modo com o frequente ligar e desligar das torres. Eles afirmam que as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e a instala\u00e7\u00e3o dos aerogeradores contribu\u00edram para a perda de solo f\u00e9rtil, comprometendo a agricultura de subsist\u00eancia. E apesar de abrigarem um megacomplexo e\u00f3lico, ainda convivem com falhas no fornecimento de energia. Em uma das entrevistas, Firmino relatou que estava sem luz havia seis horas.<\/p>\n<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"885\" height=\"1024\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/mapa-quilombo-piaui.jpg\" alt=\"complexo e\u00f3lico lagoa dos ventos, quilombo lagoa, sumidouro, mapa\" srcset=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/mapa-quilombo-piaui-885x1024.jpg 885w, https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/mapa-quilombo-piaui-259x300.jpg 259w, https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/mapa-quilombo-piaui-768x889.jpg 768w, https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/mapa-quilombo-piaui-1327x1536.jpg 1327w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/mapa-quilombo-piaui.jpg 1620w\" sizes=\"(max-width: 885px) 100vw, 885px\"><figcaption>Mapa: Rodrigo Bento\/Rep\u00f3rter Brasil<\/figcaption><\/figure>\n<h2>\u00c1rea de quilombo ignorado pela Enel foi ocupado na d\u00e9cada de 1930<\/h2>\n<p>O processo de regulariza\u00e7\u00e3o do quilombo Lagoa s\u00f3 teve in\u00edcio ap\u00f3s a usina entrar em opera\u00e7\u00e3o. O incentivo para a formaliza\u00e7\u00e3o veio de familiares do quilombo \u201cirm\u00e3o\u201d, Sumidouro, reconhecido pela Funda\u00e7\u00e3o Cultural Palmares em 2018 e regularizado em maio de 2023 pelo Incra (Instituto Nacional de Coloniza\u00e7\u00e3o e Reforma Agr\u00e1ria).<\/p>\n<p>As \u00e1reas de ambos s\u00e3o ocupadas pela usina e\u00f3lica, mas apenas Sumidouro foi consultado pela Enel. O resultado se v\u00ea pela dist\u00e2ncia dos aerogeradores das casas. Enquanto em Sumidouro as torres est\u00e3o a 1,6 km da \u00faltima resid\u00eancia, em Lagoa est\u00e3o a 500 m.\u00a0<\/p>\n<p>Lagoa, com 437 hectares, e Sumidouro, com 932 hectares, n\u00e3o s\u00e3o \u201cirm\u00e3os\u201d apenas de divisa territorial, mas tamb\u00e9m de fam\u00edlia \u2014 o patriarca de Sumidouro \u00e9 irm\u00e3o do de Lagoa. Os primeiros moradores chegaram \u00e0 regi\u00e3o em meados do s\u00e9culo 19 e, posteriormente, ocuparam o territ\u00f3rio de Lagoa a partir de 1932.\u00a0<\/p>\n<p>Apesar de os quilombolas ocuparem o territ\u00f3rio h\u00e1 quase um s\u00e9culo, o quilombo Lagoa s\u00f3 foi reconhecido pela Funda\u00e7\u00e3o Cultural Palmares em 2021, ano em que as turbinas entraram em opera\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/complexo-lagoa-dos-ventos-reproducao-enel.jpg\" alt=\"O Complexo E\u00f3lico Lagoa dos Ventos \u00e9 apontado pela Enel Green Power como o principal de seu portf\u00f3ligo globalde energia e\u00f3lica (Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Enel)\" srcset=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/complexo-lagoa-dos-ventos-reproducao-enel-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/complexo-lagoa-dos-ventos-reproducao-enel-300x200.jpg 300w, https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/complexo-lagoa-dos-ventos-reproducao-enel-768x513.jpg 768w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/complexo-lagoa-dos-ventos-reproducao-enel.jpg 1251w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption>O Complexo E\u00f3lico Lagoa dos Ventos \u00e9 apontado pela Enel Green Power como o principal de seu portf\u00f3lio global de energia e\u00f3lica (Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Enel)<\/figcaption><\/figure>\n<p>Lagoa tem 140 moradores que vivem da terra. Cultivam mandioca, milho, feij\u00e3o, mamona, algod\u00e3o e criam caprinos, porcos e gado, tanto para consumo quanto como fonte de renda. Devido \u00e0 \u201czuada\u201d das torres, boa parte dos animais foi vendida, conta Firmino dos Anjos. Ele n\u00e3o sabia que as torres ficariam t\u00e3o perto. \u201cEles [Casa dos Ventos] diziam que a torre ia proteger a gente de raios\u201d, recorda.\u00a0<\/p>\n<p>A Casa dos Ventos foi a empresa respons\u00e1vel pelo desenvolvimento do projeto, encarregada do mapeamento da \u00e1rea, contato com moradores e licenciamento ambiental. Posteriormente, a Enel assumiu a opera\u00e7\u00e3o e implementou os aerogeradores.\u00a0<\/p>\n<p>Em Sumidouro e em outros quatro quilombos afetados, o acordo foi feito com todos os moradores. Nilson Jos\u00e9 dos Santos, lideran\u00e7a de Sumidouro e primo de Firmino, explica que a comunidade j\u00e1 tinha o relat\u00f3rio antropol\u00f3gico publicado quando a empresa chegou. O reconhecimento favoreceu a elabora\u00e7\u00e3o do Estudo de Impacto Ambiental pela empresa durante o licenciamento ambiental. \u201cA gente conseguiu orientar o PBAQ [Plano B\u00e1sico Ambiental Quilombola, uma das partes do estudo], negociando linha por linha\u201d, relembra.\u00a0<\/p>\n<p>Foram debatidos programas de educa\u00e7\u00e3o, gera\u00e7\u00e3o de renda, fortalecimento territorial e cultural. \u201cA gente sentiu necessidade de estreitar [o contato] e ajustar algumas coisas, porque outras comunidades j\u00e1 haviam sofrido muito preju\u00edzo\u201d, explica. Com o programa de apicultura desenvolvido na comunidade, por exemplo, hoje 64 fam\u00edlias s\u00e3o beneficiadas.<\/p>\n<p>Apesar das medidas de compensa\u00e7\u00e3o, nem todos os detalhes do empreendimento foram esclarecidos \u00e0 comunidade, afirma a lideran\u00e7a de Sumidouro. \u201cN\u00e3o se trata apenas de uma torre, n\u00e9? E tem uma log\u00edstica de instala\u00e7\u00e3o que \u00e9 pesada, abertura e alargamento de estradas. Precisa fazer linha de transmiss\u00e3o\u201d, relata Nilson dos Santos. \u201cIsso gerou uma confus\u00e3o mental nos moradores\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>Em seu site, a Enel Green Power destaca o complexo Lagoa dos Ventos como o \u201cn\u00famero um\u201d em seu portf\u00f3lio e ressalta que o empreendimento evita \u201ca emiss\u00e3o de mais de 1,6 milh\u00e3o de toneladas de CO2 na atmosfera\u201d por ano. Contudo, a empresa n\u00e3o explica se vai abrir conversa com a comunidade Lagoa para reparar os danos causados.<\/p>\n<p>Procurada pela <strong>Rep\u00f3rter Brasil<\/strong>, a Enel afirmou que n\u00e3o tinha conhecimento do quilombo Lagoa quando instalou o empreendimento, pois, segundo diz, os documentos repassados por Incra e Casa dos Ventos n\u00e3o citavam a comunidade.\u00a0<\/p>\n<p>A Enel declarou tamb\u00e9m que n\u00e3o havia responsabilidade da empresa de consultar a comunidade na \u00e9poca da implementa\u00e7\u00e3o, pois ela n\u00e3o era formalizada perante o Estado. Disse ainda que, em todos os processos de licenciamento ambiental, foram realizadas consultas aos \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos para verifica\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia de Comunidades Remanescentes de Quilombo, e que \u201chouve reuni\u00f5es t\u00e9cnicas e valida\u00e7\u00e3o junto a seis comunidades\u201d afetadas pelo empreendimento.<\/p>\n<p>O Incra, contudo, afirmou \u00e0 <strong>Rep\u00f3rter Brasil<\/strong> que apenas cinco terras quilombolas foram consultadas (Tapuio, Sumidouro, Pitombeira, Volta do Riacho, Baixa da On\u00e7a) e que Lagoa n\u00e3o foi inclu\u00eddo nas an\u00e1lises por falta da certifica\u00e7\u00e3o na \u00e9poca junto \u00e0 Funda\u00e7\u00e3o Cultural Palmares.\u00a0<\/p>\n<p>J\u00e1 a Casa dos Ventos declarou ter conversado com a comunidade antes da execu\u00e7\u00e3o da obra. Os moradores, por\u00e9m, ressaltam que apenas duas fam\u00edlias foram contactadas, somente para tratar do arrendamento dos terrenos \u2014 que ser\u00e3o incorporados ao territ\u00f3rio quilombola ao fim do processo de titula\u00e7\u00e3o. A informa\u00e7\u00e3o \u00e9 confirmada pelo relat\u00f3rio de identifica\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio (RIDT), elaborado pela antrop\u00f3loga Cinthya K\u00f3s e pelo engenheiro agr\u00f4nomo Jos\u00e9 Ant\u00f4nio Brito.<\/p>\n<p>O Interpi, por sua vez, n\u00e3o respondeu se comunicou a Enel Green Power a respeito do processo de titula\u00e7\u00e3o do quilombo Lagoa.\u00a0<\/p>\n<p>O RIDT elaborado pelo \u00f3rg\u00e3o piauiense cita que a \u00e1rea ocupada pela Enel Green Power dever\u00e1 passar pelo processo de desintrus\u00e3o (retirada do territ\u00f3rio). Contudo, ao ser questionado sobre este processo, o Interpi n\u00e3o respondeu. A autarquia disse ser um \u00f3rg\u00e3o t\u00e9cnico e que uma \u201cmanifesta\u00e7\u00e3o judicial compete \u00e0 Procuradoria-Geral do Estado do Piau\u00ed\u201d. O Interpi tamb\u00e9m n\u00e3o respondeu sobre o andamento do processo de titula\u00e7\u00e3o (leia os posicionamentos na \u00edntegra).<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"707\" height=\"421\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/primeira-reumiao-quilom-lagoa-interpi.jpg\" alt=\"Imagem do Relat\u00f3rio de Identifica\u00e7\u00e3o e Delimita\u00e7\u00e3o do Territ\u00f3rio Lagoa mostra a primeira reuni\u00e3o com a comunidade. Processo teve in\u00edcio em outubro de 2022 (Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/RIDT\/Interpi)\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/primeira-reumiao-quilom-lagoa-interpi.jpg 707w, https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/primeira-reumiao-quilom-lagoa-interpi-300x179.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 707px) 100vw, 707px\"><figcaption>Imagem do Relat\u00f3rio de Identifica\u00e7\u00e3o e Delimita\u00e7\u00e3o do Territ\u00f3rio Lagoa mostra a primeira reuni\u00e3o com a comunidade. Processo teve in\u00edcio em outubro de 2022 (Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/RIDT\/Interpi)<\/figcaption><\/figure>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"691\" height=\"487\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/epifanio-dos-santos.jpg\" alt=\"Epif\u00e2nio dos Santos \u00e9 um dos moradores mais antigos da comunidade; nas entrevistas para o processo de identifica\u00e7\u00e3o do territorio, ele contou mem\u00f3rias sobre o trabalho e o lazer, e recordou antigas festas de forr\u00f3 (Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/RIDT\/Interpi)\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/epifanio-dos-santos.jpg 691w, https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/epifanio-dos-santos-300x211.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 691px) 100vw, 691px\"><figcaption>Epif\u00e2nio dos Santos \u00e9 um dos moradores mais antigos da comunidade; nas entrevistas para o processo de identifica\u00e7\u00e3o do territorio, ele contou mem\u00f3rias sobre o trabalho e o lazer, e recordou antigas festas de forr\u00f3 (Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/RIDT\/Interpi)<\/figcaption><\/figure>\n<h2>Falta de reconhecimento oficial n\u00e3o impede consulta a comunidades tradicionais<\/h2>\n<p>O Piau\u00ed tem uma posi\u00e7\u00e3o de destaque na transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, sendo o 1\u00ba no ranking de matriz el\u00e9trica renov\u00e1vel e o 3\u00ba em produ\u00e7\u00e3o e\u00f3lica no pa\u00eds, segundo o governo estadual. Contudo, h\u00e1 in\u00fameros problemas na regulariza\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios tradicionais afetados por esses empreendimentos, afirmam especialistas ouvidos pela <strong>Rep\u00f3rter Brasil<\/strong>.<\/p>\n<p>\u201cSe o processo [de regulariza\u00e7\u00e3o territorial] acontece em \u00e1reas sem e\u00f3lica, minera\u00e7\u00e3o ou fazenda, o Interpi atua de forma c\u00e9lere. Sen\u00e3o, ele age morosamente\u201d, declara Judson da Silva, pesquisador da UESPI (Universidade Estadual do Piau\u00ed), que acompanhou a titula\u00e7\u00e3o de um dos maiores quilombos do pa\u00eds, o Lagoas (com \u201cs\u201d no final), tamb\u00e9m no Piau\u00ed.<\/p>\n<p>A opini\u00e3o \u00e9 compartilhada pelo defensor p\u00fablico federal Benoni Moreira, que participou do processo de formaliza\u00e7\u00e3o do quilombo Sumidouro. \u201cO que o Interpi deveria fazer \u00e9 delimitar o territ\u00f3rio tradicionalmente ocupado pela comunidade, delimitar a parte p\u00fablica estadual e passar a outra parte para o Incra. S\u00f3 que isso n\u00e3o \u00e9 feito\u201d, afirma.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cA comunidade fica com um territ\u00f3rio pequeno, sofrendo, impactada\u201d, continua Moreira, destacando que o interesse do estado \u00e9 facilitar a instala\u00e7\u00e3o dos empreendimentos.<\/p>\n<p>O governo piauiense mapeia territ\u00f3rios com potencial de gera\u00e7\u00e3o e\u00f3lica desde o in\u00edcios dos anos 2000, afirma Jo\u00e3o Victor Ven\u00e2ncio, pesquisador e advogado popular da CPT (Comiss\u00e3o Pastoral da Terra). \u201cTodo esse subs\u00eddio t\u00e9cnico foi entregue para as empresas e grandes corpora\u00e7\u00f5es do setor energ\u00e9tico. E praticamente todos os empreendimentos instalados s\u00e3o financiados com dinheiro p\u00fablico\u201d, diz. \u201cSomente entre 2015 e 2022, foram investidos mais de R$ 37 bilh\u00f5es do BNDES para financiamento de empreendimentos de energia e\u00f3lica no Nordeste\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p>O Piau\u00ed tamb\u00e9m possui uma lei que isenta estabelecimentos geradores de energia e\u00f3lica do ICMS (Imposto sobre Circula\u00e7\u00e3o de Mercadorias e Servi\u00e7os), al\u00e9m de um programa de incentivo a energias limpas (o Propidel). O Complexo E\u00f3lico Lagoa dos Ventos conta ainda com isen\u00e7\u00e3o de impostos federais (PIS\/PASEP e COFINS) na aquisi\u00e7\u00e3o de bens e servi\u00e7os destinados \u00e0 infraestrutura.<\/p>\n<p>O mesmo empenho do poder p\u00fablico, no entanto, n\u00e3o se verifica no reconhecimento e na prote\u00e7\u00e3o das comunidades tradicionais impactadas pelos empreendimentos, segundo as fontes ouvidas.<\/p>\n<p>O defensor Benoni Moreira destaca que a Consulta Livre Pr\u00e9via e Informada (CLPI), prevista na Conven\u00e7\u00e3o 169 da OIT, se aplica a todas as comunidades tradicionais, independentemente do est\u00e1gio de regulariza\u00e7\u00e3o ou do reconhecimento oficial pelo estado. \u201cSe a comunidade n\u00e3o estava reconhecida como quilombola e n\u00e3o tinha a certid\u00e3o da Palmares, isso por si s\u00f3 n\u00e3o retira dela a caracter\u00edstica de ser uma comunidade tradicional. A consulta deveria ter acontecido\u201d, explica.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/rachadura-quilombo-2.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/rachadura-quilombo-2-1024x768.jpeg 1024w, https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/rachadura-quilombo-2-300x225.jpeg 300w, https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/rachadura-quilombo-2-768x576.jpeg 768w, https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/rachadura-quilombo-2-1536x1152.jpeg 1536w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/rachadura-quilombo-2.jpeg 1600w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><\/figure>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/rachadura-quilombo-1.jpeg\" alt=\"\nImagens dos moradores mostram rachaduras nas casas do quilombo Lagoa causadas pela opera\u00e7\u00e3o do megacomplexo e\u00f3lico da Enel, instalado no sert\u00e3o do Piau\u00ed sem consentimento da comunidade (Foto: Arquivo Pessoal)\" srcset=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/rachadura-quilombo-1-1024x768.jpeg 1024w, https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/rachadura-quilombo-1-300x225.jpeg 300w, https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/rachadura-quilombo-1-768x576.jpeg 768w, https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/rachadura-quilombo-1-1536x1152.jpeg 1536w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/rachadura-quilombo-1.jpeg 1600w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption>Imagens dos moradores mostram rachaduras nas casas do quilombo Lagoa causadas pela opera\u00e7\u00e3o do megacomplexo e\u00f3lico da Enel, instalado no sert\u00e3o do Piau\u00ed sem consentimento da comunidade (Foto: Arquivo Pessoal)<\/figcaption><\/figure>\n<p>Para o pesquisador e advogado R\u00e1risson Sampaio, do Inesc (Instituto de Estudos Socioecon\u00f4micos), o Brasil ainda precisa aprimorar seu quadro normativo para garantir maiores salvaguardas socioambientais aos territ\u00f3rios. \u201cO di\u00e1logo entre o Incra e \u00f3rg\u00e3os licenciadores possui muitos ru\u00eddos, sobretudo quanto ao entendimento do perfil das comunidades que seriam beneficiadas pela CLPI\u201d, defende.<\/p>\n<p>Enquanto isso, no quilombo Lagoa, al\u00e9m da presen\u00e7a constante do zumbido dos aerogeradores, os moradores dizem que o \u00fanico rastro da Enel Green Power \u00e9 um funcion\u00e1rio que aparece ocasionalmente de moto para manuten\u00e7\u00e3o das torres.<\/p>\n<p>A comunidade tamb\u00e9m n\u00e3o possui rede de esgoto nem \u00e1gua encanada, depende de cisternas e queima todo o lixo produzido. \u201cAs pessoas acham que a \u00e1rea n\u00e3o tem valor econ\u00f4mico. S\u00f3 quem tem informa\u00e7\u00e3o privilegiada sabe, n\u00e9?\u201d, reflete Nilson dos Santos.<\/p>\n<p>Dados do Observat\u00f3rio da Transi\u00e7\u00e3o Energ\u00e9tica, plataforma da <strong>Rep\u00f3rter Brasil<\/strong>, do Inesc e do grupo de pesquisa PoEMAS que monitora os impactos das energias renov\u00e1veis, aponta que a Enel Green Power planeja instalar usinas solares na regi\u00e3o dos quilombos Sumidouro e Lagoa, o que pode ampliar os impactos j\u00e1 enfrentados pelas comunidades.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Godoy, procurador da Rep\u00fablica, defende ser um direito da comunidade compartilhar dos ganhos dos empreendimentos. \u201cA Conven\u00e7\u00e3o 169 garante aos povos tradicionais o direito \u00e0s suas terras. Ao utilizar recursos naturais como sol e vento, que pertencem ao povo, \u00e9 preciso pagar uma retribui\u00e7\u00e3o justa. E isso n\u00e3o ocorre\u201d, salienta.<\/p>\n<div data-elementor-type=\"section\" data-elementor-id=\"129686\" data-elementor-post-type=\"elementor_library\">\n<div>\n<div data-id=\"e5e1762\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"image.default\">\n<div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"360\" height=\"300\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/apoie--12.webp\" alt=\"Apoie a Rep\u00f3rter Brasil\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/apoie--12.webp 360w, https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/apoie-1-300x250.webp 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 360px) 100vw, 360px\">\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<p><strong>25 anos investigando para mudar.<\/strong><\/p>\n<p><strong>A Rep\u00f3rter Brasil j\u00e1 ajudou a impulsionar leis, fortalecer direitos e combater o trabalho escravo.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Em 2026, fazemos 25 anos \u2014 e vem muito mais por a\u00ed!<\/strong><\/p>\n<div data-elementor-type=\"container\" data-elementor-id=\"75228\" data-elementor-post-type=\"elementor_library\">\n<div data-id=\"5e8db1e6\" data-element_type=\"container\" data-e-type=\"container\">\n<div>\n<div data-id=\"36eb6c91\" data-element_type=\"container\" data-e-type=\"container\">\n<div>\n<div data-id=\"6f52f515\" data-element_type=\"container\" data-e-type=\"container\">\n<div data-id=\"65d9f401\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"divider.default\">\n<div>\n<div>\n\t\t\t<span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t<\/span>\n\t\t<\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div data-id=\"134a1245\" data-element_type=\"container\" data-e-type=\"container\">\n<div>\n<div data-id=\"10fe55fe\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n<div>\n<p>Leia tamb\u00e9m<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div data-id=\"3c9495ae\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-settings='{\"template_id\":\"75221\",\"columns\":1,\"row_gap\":{\"unit\":\"px\",\"size\":10,\"sizes\":[]},\"_skin\":\"post\",\"columns_tablet\":\"2\",\"columns_mobile\":\"1\",\"edit_handle_selector\":\"[data-elementor-type=\"loop-item\"]\",\"row_gap_tablet\":{\"unit\":\"px\",\"size\":\"\",\"sizes\":[]},\"row_gap_mobile\":{\"unit\":\"px\",\"size\":\"\",\"sizes\":[]}}' data-widget_type=\"loop-grid.post\">\n<div>\n<div>\n\t\t<\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<p>The post Quilombo centen\u00e1rio no Piau\u00ed \u00e9 esquecido pela maior usina e\u00f3lica da Am\u00e9rica do Sul appeared first on Rep\u00f3rter Brasil.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/www.pragmatismopolitico.com.br\/2025\/11\/tio-de-michelle-bolsonaro-e-preso-por-integrar-quadrilha-de-furto-de-veiculos.html\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/www.pragmatismopolitico.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/michellebolsonarotio.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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comunidade relata perdas econ\u00f4micas e danos a seu modo de vida, enquanto luta pelo reconhecimento do territ\u00f3rio<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/2026\/06\/quilombo-centenario-piaui-esquecido-maior-usina-eolica-america-do-sul\/\">Quilombo centen\u00e1rio no Piau\u00ed \u00e9 esquecido pela maior usina e\u00f3lica da Am\u00e9rica do Sul<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/\">Rep\u00f3rter Brasil<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":92023,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[13690,5879,1640,40599,26378,937,34,5799,553],"tags":[],"class_list":["post-92022","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-_destaque-da-home-1","category-conteudo-original-em-portugues","category-energia-eolica","category-observatorio-da-transicao-energetica","category-observatorio-das-renovaveis","category-piaui","category-quilombolas","category-reportagens","category-transicao-energetica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/92022","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=92022"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/92022\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/92023"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=92022"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=92022"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=92022"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}