{"id":92068,"date":"2026-06-16T13:37:50","date_gmt":"2026-06-16T16:37:50","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/ayahuasca-consumo-ameaca-plantas-e-indigenas-criticam-comercializacao-de-tradicoes\/"},"modified":"2026-06-16T13:37:50","modified_gmt":"2026-06-16T16:37:50","slug":"ayahuasca-consumo-ameaca-plantas-e-indigenas-criticam-comercializacao-de-tradicoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/ayahuasca-consumo-ameaca-plantas-e-indigenas-criticam-comercializacao-de-tradicoes\/","title":{"rendered":"Ayahuasca: consumo amea\u00e7a plantas e ind\u00edgenas criticam comercializa\u00e7\u00e3o de tradi\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p>\u201cUma das maiores farm\u00e1cias do mundo est\u00e1 sendo destru\u00edda\u201d, afirma o l\u00edder ind\u00edgena Benki Piy\u00e3ko, do povo Ashaninka, no Acre. O alerta aponta para as m\u00faltiplas press\u00f5es que avan\u00e7am sobre a Amaz\u00f4nia, mas tamb\u00e9m para um momento de crescente debate e de amea\u00e7as em torno de uma das chamadas \u201cmedicinas da floresta\u201d: a ayahuasca.<\/p>\n<p>A bebida ind\u00edgena, de propriedades psicod\u00e9licas, \u00e9 preparada, em geral, a partir de duas plantas nativas da regi\u00e3o: o cip\u00f3 caapi ou mariri (Banisteriopsis caapi) e as folhas da chacrona (Psychotria viridis), esp\u00e9cies que, segundo relatos de lideran\u00e7as ind\u00edgenas e especialistas, enfrentam press\u00e3o crescente e sinais de escassez em algumas regi\u00f5es.<\/p>\n<p>Denominada kamar\u00e3pe pelo povo Ashaninka, a ayahuasca, usada h\u00e1 s\u00e9culos por ind\u00edgenas da Amaz\u00f4nia, h\u00e1 d\u00e9cadas atravessa fronteiras e deixou de circular exclusivamente em seus contextos origin\u00e1rios. Hoje, est\u00e1 presente em centros religiosos urbanos, retiros terap\u00eauticos e circuitos internacionais de turismo psicod\u00e9lico.<\/p>\n<p>Cientistas e laborat\u00f3rios farmac\u00eauticos tamb\u00e9m voltam sua aten\u00e7\u00e3o \u00e0 bebida ancestral, que j\u00e1 apresenta evid\u00eancias de potencial terap\u00eautico para diferentes transtornos de sa\u00fade mental, como depress\u00e3o e depend\u00eancia qu\u00edmica. Mas, junto com o crescimento do interesse global, v\u00eam tamb\u00e9m as preocupa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que a demanda cresce, a cadeia de circula\u00e7\u00e3o da ayahuasca se expande sem um acompanhamento equivalente em termos de manejo e monitoramento. Em diferentes regi\u00f5es da Amaz\u00f4nia, j\u00e1 h\u00e1 sinais de press\u00e3o sobre as esp\u00e9cies utilizadas no preparo da bebida, em geral coletadas sem planejamento. Ao mesmo tempo, o aumento do consumo fora dos contextos tradicionais levanta preocupa\u00e7\u00f5es sobre a transforma\u00e7\u00e3o de saberes ancestrais em produtos adaptados \u00e0 l\u00f3gica do mercado.<\/p>\n<p>O principal problema parece estar na forma como essa expans\u00e3o se sustenta, a partir de uma cadeia pouco transparente que conecta a floresta a mercados distantes. Cip\u00f3 e folhas s\u00e3o coletados em \u00e1reas muitas vezes sem manejo estruturado, passam por intermedi\u00e1rios e alimentam um fluxo global que, em muitos casos, opera na fronteira da ilegalidade.<\/p>\n<p>Embora o Brasil reconhe\u00e7a o uso religioso da ayahuasca, por meio de resolu\u00e7\u00e3o do Conad (Conselho Nacional de Pol\u00edticas sobre Drogas), a bebida cont\u00e9m DMT (dimetiltriptamina), uma subst\u00e2ncia psicod\u00e9lica controlada tanto pela legisla\u00e7\u00e3o brasileira quanto por tratados internacionais.<\/p>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"6a317be9e57c6\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\" data-wp-key=\"6a317be9e57c6\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" data-wp-bind--aria-label=\"state.thisImage.triggerButtonAriaLabel\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.thisImage.buttonRight\" data-wp-style--top=\"state.thisImage.buttonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><figcaption>Benki Piy\u00e3ko, l\u00edder do povo Ashaninka<\/figcaption><\/figure>\n<p>O ponto central da controv\u00e9rsia \u00e9 que, embora o DMT esteja listado como subst\u00e2ncia proibida, as plantas que o cont\u00eam e as prepara\u00e7\u00f5es tradicionais feitas a partir delas, como a ayahuasca, n\u00e3o s\u00e3o explicitamente proibidas, o que cria uma zona cinzenta jur\u00eddica. Na pr\u00e1tica, a interpreta\u00e7\u00e3o varia de pa\u00eds para pa\u00eds, e, em muitos casos, autoridades acabam equiparando a bebida a drogas il\u00edcitas, empurrando sua circula\u00e7\u00e3o para circuitos clandestinos.<\/p>\n<p>Em um cen\u00e1rio de aus\u00eancia de pol\u00edticas de cultivo e prote\u00e7\u00e3o, cresce o temor de que o hype da ayahuasca passe a pressionar a floresta mais rapidamente do que sua capacidade de regenera\u00e7\u00e3o. \u201cO risco \u00e9 a ayahuasca virar mercado\u201d, resume Benki.<\/p>\n<p>\u201cO que vemos hoje \u00e9 gente querendo transformar esse conhecimento em produto\u201d, prossegue o l\u00edder ashaninka, que volta a lembrar que a ayahuasca est\u00e1 inserida em um contexto mais amplo, tamb\u00e9m amea\u00e7ado. \u201cSe voc\u00ea diz que tem espiritualidade, precisa cuidar da terra.\u201d<\/p>\n<p>Para ele, a ayahuasca n\u00e3o pode ser dissociada do conjunto de plantas e rela\u00e7\u00f5es que sustentam a vida na floresta. \u201cN\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a ayahuasca que est\u00e1 em risco. \u00c9 todo um sistema de plantas que est\u00e1 sendo pressionado\u201d. A fala de Benki revela um pouco do princ\u00edpio que orienta seu trabalho.<\/p>\n<p>O l\u00edder ind\u00edgena vive na regi\u00e3o do Alto Juru\u00e1, na fronteira entre Brasil e Peru. Em 2004, deixou seu territ\u00f3rio para assumir a Secretaria de Meio Ambiente do munic\u00edpio de Marechal Thaumaturgo. Tr\u00eas anos depois, formou um grupo de cerca de 80 jovens para trabalhar com t\u00e9cnicas agroflorestais.<\/p>\n<p>A iniciativa evoluiu ao longo dos anos e, em 2018, deu origem ao Instituto Yorenka Tasorentsi, hoje voltado \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o de \u00e1reas degradadas, \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de sistemas agroflorestais e ao fortalecimento da governan\u00e7a ind\u00edgena. Desde ent\u00e3o, o projeto articula jovens, comunidades e territ\u00f3rios em torno de pr\u00e1ticas de reflorestamento e soberania alimentar, tendo j\u00e1 plantado milh\u00f5es de \u00e1rvores na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, seu trabalho passou a dialogar com uma agenda mais ampla: a articula\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7as ind\u00edgenas de diferentes pa\u00edses para discutir o futuro da ayahuasca em um cen\u00e1rio de crescente circula\u00e7\u00e3o global. Ap\u00f3s cinco edi\u00e7\u00f5es das confer\u00eancias ind\u00edgenas sobre a bebida, realizadas no Acre, esse debate ganha escala internacional com o F\u00f3rum Mundial da Ayahuasca, que acontece de 9 a 13 de setembro, em Girona, na Espanha.<\/p>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"6a317be9e5e1a\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\" data-wp-key=\"6a317be9e5e1a\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" data-wp-bind--aria-label=\"state.thisImage.triggerButtonAriaLabel\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.thisImage.buttonRight\" data-wp-style--top=\"state.thisImage.buttonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><figcaption>Cip\u00f3 caapi, ou mariri, (Banisteriopsis caapi), uma das plantas usadas no preparo da ayahuasca<\/figcaption><\/figure>\n<h2><strong>Regula\u00e7\u00e3o sob press\u00e3o<\/strong><\/h2>\n<p>\u201cRepudiamos todas as formas de comercializa\u00e7\u00e3o da ayahuasca que formaram um mercado global fora dos limites \u00e9ticos\u201d, afirma a carta final da quinta edi\u00e7\u00e3o da Confer\u00eancia Ind\u00edgena da Ayahuasca, realizada em janeiro de 2025 no Acre, que reuniu representantes de 34 povos ind\u00edgenas de diferentes pa\u00edses.<\/p>\n<p>O documento sintetiza um conjunto de preocupa\u00e7\u00f5es que tamb\u00e9m vem ganhando espa\u00e7o no debate institucional no Brasil. No mesmo ano, o estado do Acre aprovou a primeira legisla\u00e7\u00e3o espec\u00edfica do pa\u00eds voltada \u00e0 regulamenta\u00e7\u00e3o da extra\u00e7\u00e3o, transporte e uso das plantas utilizadas no preparo da ayahuasca. Uma iniciativa in\u00e9dita que, no entanto, vem sendo alvo de cr\u00edticas.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 uma apropria\u00e7\u00e3o da medicina da floresta, sem reconhecimento da sua origem e dos povos que det\u00eam esse conhecimento\u201d, afirmou o cacique Ninawa Huni Kuin durante uma audi\u00eancia p\u00fablica do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal do Acre, realizada no final de 2025, pouco depois da divulga\u00e7\u00e3o das novas regras do Estado.<\/p>\n<p>A audi\u00eancia reuniu lideran\u00e7as ind\u00edgenas, pesquisadores e representantes do estado do Acre e acendeu um alerta sobre o crescimento descontrolado da ayahuasca no Brasil, em um cen\u00e1rio marcado pela aus\u00eancia de fiscaliza\u00e7\u00e3o efetiva, lacunas regulat\u00f3rias e avan\u00e7o da comercializa\u00e7\u00e3o fora dos contextos tradicionais e religiosos.<\/p>\n<p>No Acre, considerado a capital brasileira da ayahuasca, a proposta de regula\u00e7\u00e3o aprovada em 2025 estabelece par\u00e2metros diferenciados para grupos religiosos e organiza\u00e7\u00f5es formalizadas. Na pr\u00e1tica, permite a coleta peri\u00f3dica de cip\u00f3 e folhas mediante comunica\u00e7\u00e3o ao \u00f3rg\u00e3o ambiental estadual.<\/p>\n<p>Grupos informais podem retirar at\u00e9 150 quilos de cip\u00f3 e 60 quilos de folhas a cada 120 dias, sem necessidade de personalidade jur\u00eddica. J\u00e1 entidades formalmente constitu\u00eddas t\u00eam acesso a cotas maiores, de at\u00e9 1.000 quilos de cip\u00f3 e 300 quilos de folhas por semestre, desde que comprovem uso ritual e n\u00e3o comercial da bebida.<\/p>\n<p>A iniciativa busca dar alguma previsibilidade a uma atividade que historicamente operou em zonas pouco regulamentadas. Ao mesmo tempo, reflete uma tentativa de conciliar interesses distintos, que v\u00e3o da prote\u00e7\u00e3o ambiental \u00e0 garantia do uso religioso.<\/p>\n<p>Mas a aus\u00eancia de informa\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas sobre a disponibilidade das esp\u00e9cies e o volume real de extra\u00e7\u00e3o imp\u00f5e limites \u00e0 efic\u00e1cia do modelo. \u201cN\u00e3o foram realizados levantamentos sobre o estoque e a explora\u00e7\u00e3o natural dessas esp\u00e9cies\u201d, afirmou o deputado estadual Edvaldo Magalh\u00e3es, autor da lei, ao comentar os dados que embasaram a proposta.<\/p>\n<p>Segundo ele, a iniciativa teve como foco principal atender \u00e0s demandas de entidades religiosas j\u00e1 estabelecidas, muitas das quais mant\u00eam \u00e1reas pr\u00f3prias de cultivo. Ao mesmo tempo, reconhece que n\u00e3o h\u00e1 hoje informa\u00e7\u00f5es consolidadas sobre a circula\u00e7\u00e3o da bebida ou sobre a press\u00e3o efetiva sobre as plantas.<\/p>\n<p>As limita\u00e7\u00f5es da lei n\u00e3o passaram despercebidas nem pelo pr\u00f3prio \u00f3rg\u00e3o ambiental do estado. Em um relat\u00f3rio t\u00e9cnico publicado em janeiro de 2026, o Imac (Instituto de Meio Ambiente do Acre) apontou inconsist\u00eancias relevantes na norma e poss\u00edveis conflitos com a legisla\u00e7\u00e3o federal.<\/p>\n<p>Entre os principais pontos, o documento destaca que a lei n\u00e3o estabelece crit\u00e9rios b\u00e1sicos para a coleta sustent\u00e1vel das esp\u00e9cies, como per\u00edodos adequados de extra\u00e7\u00e3o, matura\u00e7\u00e3o das plantas ou t\u00e9cnicas que garantam sua regenera\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m chama aten\u00e7\u00e3o para o fato de que a simples comunica\u00e7\u00e3o ao \u00f3rg\u00e3o ambiental, prevista na nova regra, n\u00e3o substitui a exig\u00eancia de licenciamento ambiental pr\u00e9vio, como determina a legisla\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>Outro ponto cr\u00edtico \u00e9 a possibilidade de regulariza\u00e7\u00e3o posterior de cargas durante a\u00e7\u00f5es de fiscaliza\u00e7\u00e3o, o que, segundo a an\u00e1lise t\u00e9cnica, pode abrir brechas para a circula\u00e7\u00e3o de material de origem incerta. Nesse cen\u00e1rio, o pr\u00f3prio \u00f3rg\u00e3o reconhece a necessidade de revis\u00e3o da lei para adequa\u00e7\u00e3o aos par\u00e2metros ambientais e jur\u00eddicos vigentes.<\/p>\n<p>A press\u00e3o por mudan\u00e7as tamb\u00e9m vem dos territ\u00f3rios. O Instituto Yorenka Tasorentsi, liderado por Benki Piy\u00e3ko, solicitou formalmente a revis\u00e3o e at\u00e9 a nulidade da legisla\u00e7\u00e3o, argumentando que sua elabora\u00e7\u00e3o n\u00e3o respeitou o direito \u00e0 consulta pr\u00e9via dos povos ind\u00edgenas, conforme previsto em acordos internacionais dos quais o Brasil \u00e9 signat\u00e1rio. Entre recomenda\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas e contesta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, a lei que pretendia organizar o uso da ayahuasca no Acre passa agora a ser questionada em sua pr\u00f3pria base.<\/p>\n<h2><strong>Sem dados, sem controle<\/strong><\/h2>\n<p>A fragilidade da base t\u00e9cnica e cient\u00edfica sobre a qual se constr\u00f3i esse debate \u00e9 um dos pontos mais sens\u00edveis. Hoje, n\u00e3o h\u00e1 informa\u00e7\u00f5es seguras sobre a distribui\u00e7\u00e3o, a abund\u00e2ncia ou o volume de explora\u00e7\u00e3o das principais esp\u00e9cies utilizadas no preparo da ayahuasca na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Segundo o pesquisador Eufran Ferreira do Amaral, da Embrapa Acre, essa lacuna come\u00e7a j\u00e1 no n\u00edvel mais b\u00e1sico: o mapeamento das plantas. \u201cSeguimos sem dados consolidados, uma vez que o foco dos invent\u00e1rios tem sido das esp\u00e9cies madeireiras e, eventualmente, de esp\u00e9cies n\u00e3o madeireiras com valor econ\u00f4mico\u201d, afirma.<\/p>\n<p>A aus\u00eancia de informa\u00e7\u00f5es se estende tamb\u00e9m \u00e0 pr\u00f3pria ocorr\u00eancia das esp\u00e9cies. O cip\u00f3 Banisteriopsis caapi e a folha Psychotria viridis se desenvolvem em ambientes distintos dentro da floresta amaz\u00f4nica, o que dificulta estimativas mais amplas sobre sua distribui\u00e7\u00e3o. Sem esse tipo de dado, torna-se dif\u00edcil estabelecer par\u00e2metros seguros para extra\u00e7\u00e3o ou mesmo avaliar o impacto da crescente demanda.<\/p>\n<p>Do ponto de vista ecol\u00f3gico, os sinais de press\u00e3o j\u00e1 come\u00e7am a aparecer. \u201cCom o aumento do desmatamento e da extra\u00e7\u00e3o sem conhecimento da densidade das esp\u00e9cies, as buscas est\u00e3o cada vez mais distantes e a disponibilidade vem reduzindo em \u00e1reas onde antes a presen\u00e7a das esp\u00e9cies era maior\u201d, diz.<\/p>\n<p>A falta de monitoramento territorial tamb\u00e9m impede qualquer estimativa confi\u00e1vel sobre o volume de produ\u00e7\u00e3o ou circula\u00e7\u00e3o da bebida psicod\u00e9lica no pa\u00eds. Ao mesmo tempo, o crescimento de f\u00e1bricas de ayahuasca com estruturas que operam em maior escala acende um alerta adicional. \u201c\u00c9 um risco ambiental, ecol\u00f3gico e cultural, uma vez que contribuem para a retirada de grandes quantidades sem manejo, sem avalia\u00e7\u00e3o de impactos e sem reposi\u00e7\u00e3o\u201d, afirma o pesquisador.<\/p>\n<p>Apesar do cen\u00e1rio de incerteza, experi\u00eancias pontuais apontam poss\u00edveis caminhos. Algumas organiza\u00e7\u00f5es religiosas t\u00eam investido em plantios pr\u00f3prios, buscando reduzir a press\u00e3o sobre popula\u00e7\u00f5es nativas. Para Amaral, esse modelo poderia ser ampliado. \u201cEstar\u00edamos trabalhando com plantios associados \u00e0 restaura\u00e7\u00e3o florestal, em sistemas agroflorestais medicinais e protegendo a floresta remanescente\u201d, diz.<\/p>\n<p>Ainda assim, qualquer estrat\u00e9gia de longo prazo dependeria de uma base t\u00e9cnica e cient\u00edfica hoje inexistente. Entre as medidas necess\u00e1rias, ele aponta a realiza\u00e7\u00e3o de invent\u00e1rios florestais, o acompanhamento do crescimento das esp\u00e9cies em ambiente natural e o monitoramento de \u00e1reas de cultivo. Sem isso, o risco \u00e9 que a expans\u00e3o da ayahuasca continue avan\u00e7ando mais r\u00e1pido do que a capacidade de compreens\u00e3o sobre seus impactos.<\/p>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"6a317be9e69f6\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\" data-wp-key=\"6a317be9e69f6\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" data-wp-bind--aria-label=\"state.thisImage.triggerButtonAriaLabel\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.thisImage.buttonRight\" data-wp-style--top=\"state.thisImage.buttonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><figcaption>Folhas de chacrona (Psychotria viridis), uma das plantas usadas no preparo da ayahuasca<\/figcaption><\/figure>\n<h2><strong>Na fronteira da ilegalidade<\/strong><\/h2>\n<p>A expans\u00e3o da ayahuasca para al\u00e9m da Amaz\u00f4nia n\u00e3o se d\u00e1 apenas sob tens\u00e3o ambiental, mas tamb\u00e9m sob um cen\u00e1rio jur\u00eddico fragmentado e, muitas vezes, contradit\u00f3rio. Em diferentes pa\u00edses, a bebida circula em uma zona cinzenta, marcada por interpreta\u00e7\u00f5es divergentes sobre sua legalidade.<\/p>\n<p>Segundo o advogado Jes\u00fas Alonso Olamendi, do ADF (Ayahuasca Defense Fund), programa ligado ao Iceers (sigla em ingl\u00eas para Centro Internacional de Educa\u00e7\u00e3o, Pesquisa e Servi\u00e7o Etnobot\u00e2nico), sediado na Espanha, a situa\u00e7\u00e3o na Europa \u00e9 hoje \u201cincerta\u201d. Em alguns pa\u00edses, como a Espanha, decis\u00f5es judiciais recentes passaram a distinguir a DMT sint\u00e9tica, controlada internacionalmente, da DMT presente naturalmente em plantas e prepara\u00e7\u00f5es tradicionais como a ayahuasca. Ainda assim, essa diferencia\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 consenso.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, explica, predomina uma tend\u00eancia de equiparar a bebida a subst\u00e2ncias il\u00edcitas, ignorando seu contexto cultural e ritual. \u201cEssa equipara\u00e7\u00e3o \u00e9 um erro do ponto de vista legal e farmacol\u00f3gico\u201d, afirma. \u201cMas, para muitas autoridades, \u00e9 a sa\u00edda mais simples.\u201d<\/p>\n<p>Esse cen\u00e1rio tem se traduzido em um aumento de apreens\u00f5es e deten\u00e7\u00f5es, especialmente \u00e0 medida que pr\u00e1ticas com ayahuasca se expandem para regi\u00f5es onde h\u00e1 pouco conhecimento sobre seu uso tradicional. \u201cTemos visto cada vez mais integrantes de comunidades ind\u00edgenas viajarem para pa\u00edses onde essas plantas s\u00e3o tratadas simplesmente como drogas\u201d, diz.<\/p>\n<p>Os impactos recaem diretamente sobre essas lideran\u00e7as. Segundo o advogado, muitos acabam detidos ao tentar ingressar em territ\u00f3rio europeu ou durante a realiza\u00e7\u00e3o de cerim\u00f4nias, enfrentando processos que podem durar meses. \u201cEm muitos casos, ficam submetidos a pris\u00e3o preventiva ou domiciliar por um ano ou mais\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Dados reunidos pela ADF indicam a dimens\u00e3o do fen\u00f4meno. Nos \u00faltimos dez anos, a organiza\u00e7\u00e3o acompanhou cerca de 500 casos de apreens\u00e3o e deten\u00e7\u00e3o em 47 pa\u00edses envolvendo plantas de uso tradicional das Am\u00e9ricas, incluindo a ayahuasca. O n\u00famero n\u00e3o representa o total de ocorr\u00eancias, mas aponta para uma tend\u00eancia clara: a bebida j\u00e1 circula globalmente, muitas vezes em contextos de risco jur\u00eddico.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, o avan\u00e7o de pol\u00edticas mais restritivas refor\u00e7a um paradoxo. Enquanto cresce o interesse cient\u00edfico e terap\u00eautico por subst\u00e2ncias psicod\u00e9licas, esse movimento tende a privilegiar compostos isolados em detrimento das plantas e dos sistemas de conhecimento que lhes d\u00e3o origem. \u201cH\u00e1 uma pequena toler\u00e2ncia para a pesquisa, mas quase sempre restrita a subst\u00e2ncias sint\u00e9ticas\u201d, afirma.<\/p>\n<h2><strong>Resposta ind\u00edgena ganha escala global<\/strong><\/h2>\n<p>Diante de um cen\u00e1rio marcado por expans\u00e3o global, criminaliza\u00e7\u00e3o e disputas jur\u00eddicas, lideran\u00e7as ind\u00edgenas v\u00eam buscando construir uma resposta pr\u00f3pria, capaz de reposicionar o debate em torno da ayahuasca a partir de seus territ\u00f3rios e sistemas de conhecimento.<\/p>\n<p>Um dos principais desdobramentos desse processo \u00e9 o F\u00f3rum Mundial da Ayahuasca, previsto para setembro, em Girona, na Espanha. O encontro nasce da articula\u00e7\u00e3o entre o Instituto Yorenka Tasorentsi, liderado por Benki Piy\u00e3ko, e o Iceers.<\/p>\n<p>Mais do que um simples evento, o F\u00f3rum se apresenta como uma plataforma de governan\u00e7a ind\u00edgena, e pela primeira vez com protagonismo dos povos origin\u00e1rios de todo o planeta. O encontro pretende discutir os impactos da expans\u00e3o da ayahuasca e de outras plantas psicod\u00e9licas no mundo, da regula\u00e7\u00e3o ao extrativismo cultural, passando pela biomedicaliza\u00e7\u00e3o e pela mercantiliza\u00e7\u00e3o de saberes tradicionais.<\/p>\n<p>\u201cO f\u00f3rum tem como objetivo abrir um di\u00e1logo com o mundo cient\u00edfico, acad\u00eamico e tamb\u00e9m econ\u00f4mico, para que essas medicinas possam ser compreendidas sem que se perca a forma como n\u00f3s, povos ind\u00edgenas, preservamos e usamos\u201d, afirma o l\u00edder ind\u00edgena Nixiwaka Yawanaw\u00e1, um dos fundadores da Confer\u00eancia Ind\u00edgena da Ayahuasca e que tamb\u00e9m participa da constru\u00e7\u00e3o do evento em Girona.<\/p>\n<p>Segundo ele, a proposta n\u00e3o \u00e9 apenas cr\u00edtica, mas tamb\u00e9m propositiva. \u201cN\u00e3o queremos s\u00f3 apontar problemas. Queremos construir uma grande alian\u00e7a\u201d, diz. Entre os objetivos est\u00e1 a cria\u00e7\u00e3o de um conselho internacional de lideran\u00e7as espirituais ind\u00edgenas, capaz de atuar de forma coordenada na defesa das medicinas tradicionais e dos conhecimentos associados.<\/p>\n<p>Essa articula\u00e7\u00e3o ganhou visibilidade recentemente ao ser apresentada, em janeiro deste ano, no F\u00f3rum Econ\u00f4mico Mundial de Davos, na Su\u00ed\u00e7a, onde o cacique Nixiwaka lan\u00e7ou as bases de uma alian\u00e7a global voltada \u00e0 prote\u00e7\u00e3o dos sistemas de conhecimento ligados \u00e0s plantas medicinais e \u00e0s contribui\u00e7\u00f5es que esses saberes podem oferecer para enfrentar os grandes desafios da humanidade.<\/p>\n<p>A proposta de cria\u00e7\u00e3o de um conselho global, por vezes descrita por seus articuladores como uma esp\u00e9cie de \u201cONU ind\u00edgena\u201d, surge como resposta \u00e0 expans\u00e3o internacional das plantas psicod\u00e9licas, em um cen\u00e1rio no qual medicinas como a ayahuasca circulam globalmente, mas raramente sob controle ou protagonismo dos povos que desenvolveram esse conhecimento. Trata-se de uma inst\u00e2ncia de governan\u00e7a espiritual articulada por guardi\u00f5es dos conhecimentos ancestrais.<\/p>\n<p>Para o l\u00edder ashaninka Benki, que tamb\u00e9m participa dessa articula\u00e7\u00e3o, o desafio \u00e9 evitar que a ayahuasca siga o mesmo caminho de outras plantas que perderam seu contexto original ao serem incorporadas ao mercado global. Em diferentes momentos da entrevista, ele chamou aten\u00e7\u00e3o para os riscos desse processo, alertando para a transforma\u00e7\u00e3o de saberes tradicionais em produtos desvinculados da floresta.<\/p>\n<p>\u201cLideran\u00e7as como Nixiwaka Yawanaw\u00e1 e Benki Piy\u00e3ko v\u00eam mostrando ao mundo a import\u00e2ncia desses conhecimentos para enfrentar os grandes desafios do nosso tempo\u201d, afirma o antrop\u00f3logo peruano Claude Guislain, membro do comit\u00ea organizador do F\u00f3rum Mundial da Ayahuasca.<\/p>\n<p>Para Guislain, essa atua\u00e7\u00e3o ganha ainda mais relev\u00e2ncia em um contexto de press\u00e3o crescente sobre os territ\u00f3rios e os modos de vida tradicionais. \u201cEm um momento em que as press\u00f5es do nosso mundo continuam a amea\u00e7ar o deles, apontam um caminho em que a forma mais profunda de resist\u00eancia \u00e9 oferecer o melhor de seus saberes para contribuir com o futuro comum da humanidade\u201d, afirma.<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os pr\u00f3prios de articula\u00e7\u00e3o, como o F\u00f3rum Mundial da Ayahuasca e a Alian\u00e7a Global, aponta para uma tentativa de reequilibrar esse cen\u00e1rio, reposicionando os povos ind\u00edgenas no centro das decis\u00f5es n\u00e3o apenas sobre o futuro da ayahuasca, mas sobre o papel mais amplo desses conhecimentos em um mundo cada vez mais interessado em seus efeitos, por\u00e9m ainda pouco comprometido com suas origens.<\/p>\n<p>A partir da expans\u00e3o da circula\u00e7\u00e3o da bebida amaz\u00f4nica pelo mundo, cresce tamb\u00e9m a percep\u00e7\u00e3o de que esses povos det\u00eam saberes que v\u00e3o al\u00e9m do uso ritual, abrangendo vis\u00f5es sobre sa\u00fade, meio ambiente e a rela\u00e7\u00e3o entre sociedade e natureza, com potencial de contribuir para desafios que ultrapassam o campo das medicinas tradicionais.<\/p>\n<h2><strong>Caminhos sustent\u00e1veis<\/strong><\/h2>\n<p>Em meio a esse cen\u00e1rio de press\u00e3o crescente e aus\u00eancia de dados, algumas iniciativas no Brasil buscam estruturar formas de manejo mais alinhadas com os ciclos da floresta. No LIS (Lar e Integra\u00e7\u00e3o do Ser), dedicado ao vegetalismo (conjunto de saberes ancestrais do Alto Amazonas peruano), o cultivo das plantas utilizadas nos rituais segue princ\u00edpios que combinam conhecimentos tradicionais e acompanhamento cont\u00ednuo.<\/p>\n<p>No espa\u00e7o, localizado em Areal, na Regi\u00e3o Serrana do Rio de Janeiro, o trabalho \u00e9 baseado na rela\u00e7\u00e3o com as chamadas plantas maestras, como o cip\u00f3 caapi e a chacrona, utilizadas no preparo da ayahuasca. \u201cA primeira coisa que fizemos nesse territ\u00f3rio foi come\u00e7ar a plantar\u201d, afirma a psic\u00f3loga Karla Perdig\u00e3o, cofundadora do centro, pioneiro no Brasil. A iniciativa, sem fins lucrativos, foi desenvolvida em parceria com a Novo Humano, organiza\u00e7\u00e3o que apoia projetos voltados a transforma\u00e7\u00f5es individuais e coletivas, com foco em impacto socioambiental.<\/p>\n<p>Segundo Karla, todas as plantas maestras (esp\u00e9cies consideradas, nas tradi\u00e7\u00f5es amaz\u00f4nicas, como fontes de aprendizado espiritual e conhecimento) utilizadas no trabalho s\u00e3o cultivadas no pr\u00f3prio espa\u00e7o, com acompanhamento desde o plantio at\u00e9 a colheita, incluindo cuidados de ordem espiritual.<\/p>\n<p>Para a psic\u00f3loga, o aumento da demanda por ayahuasca tem causado efeitos preocupantes. \u201cEsse crescimento do consumo est\u00e1 gerando um impacto significativo na sustentabilidade, no plantio e no respeito ao tempo da planta\u201d, diz. Parte do problema, prossegue ela, est\u00e1 na desconex\u00e3o entre o uso e os contextos que historicamente orientam esse conhecimento. \u201cIsso coloca em risco essas plantas\u201d, afirma. \u201cA gente vem percebendo um tipo de \u2018extrativismo espiritual\u2019.\u201d<\/p>\n<h2><strong>\u2018Maior tesouro da Amaz\u00f4nia \u00e9 sua diversidade biol\u00f3gica e cultural\u2019<\/strong><\/h2>\n<p>Na Amaz\u00f4nia peruana, onde a ayahuasca atravessa gera\u00e7\u00f5es e territ\u00f3rios, os efeitos dessa expans\u00e3o s\u00e3o percebidos no cotidiano. Em Iquitos, um dos principais polos de circula\u00e7\u00e3o da bebida na regi\u00e3o, o engenheiro florestal Jos\u00e9 Torres V\u00e1zquez acompanha h\u00e1 d\u00e9cadas as transforma\u00e7\u00f5es em torno das plantas e dos conhecimentos associados a elas. Para ele, o crescimento da demanda, impulsionado pelo turismo e pelo interesse internacional, j\u00e1 produz impactos concretos.<\/p>\n<p>\u201cCom o boom da ayahuasca, naturalmente h\u00e1 depreda\u00e7\u00e3o\u201d, afirma. Sem pol\u00edticas estruturadas de manejo ou incentivo ao cultivo, o avan\u00e7o do consumo tende a deslocar a coleta para \u00e1reas cada vez mais distantes. \u201cSe n\u00e3o h\u00e1 plantios nem esfor\u00e7o, seja privado ou p\u00fablico, para manter as condi\u00e7\u00f5es das plantas, naturalmente elas tendem a desaparecer\u201d, diz.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, a expans\u00e3o da ayahuasca tamb\u00e9m altera din\u00e2micas sociais e econ\u00f4micas na regi\u00e3o. Em um cen\u00e1rio marcado pela informalidade, parte significativa dos centros que oferecem experi\u00eancias com a bebida opera sem regula\u00e7\u00e3o clara, e a distribui\u00e7\u00e3o de renda gerada por esse mercado \u00e9 desigual. \u201cMuitos ind\u00edgenas recebem poucos soles [moeda peruana], enquanto os turistas pagam muitos d\u00f3lares\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Para Torres, esse processo ocorre em paralelo a um movimento mais amplo de enfraquecimento das pr\u00e1ticas tradicionais entre as novas gera\u00e7\u00f5es. \u201cOs jovens [ind\u00edgenas] est\u00e3o se afastando da ayahuasca, influenciados pelo mundo ocidental\u201d, diz. Sem transmiss\u00e3o cont\u00ednua, o risco n\u00e3o \u00e9 apenas ambiental, mas tamb\u00e9m cultural.<\/p>\n<p>A escassez de informa\u00e7\u00f5es agrava o cen\u00e1rio. N\u00e3o h\u00e1 estimativas consistentes sobre o volume de extra\u00e7\u00e3o das plantas nem sobre a extens\u00e3o de sua ocorr\u00eancia na floresta. \u201cMuito pouca informa\u00e7\u00e3o. Esse \u00e9 um dos grandes problemas que temos\u201d, resume.<\/p>\n<p>No Peru, assim como no Brasil, entre press\u00f5es ambientais, lacunas regulat\u00f3rias e disputas em torno do uso e do controle da ayahuasca, o desafio \u00e9 evitar que a expans\u00e3o global da bebida se desconecte das condi\u00e7\u00f5es que a tornam poss\u00edvel. Na base desse sistema est\u00e1 um conhecimento constru\u00eddo ao longo de gera\u00e7\u00f5es, profundamente ligado \u00e0 floresta e aos modos de vida dos povos que a habitam.<\/p>\n<p>Algumas dessas press\u00f5es, ali\u00e1s, n\u00e3o s\u00e3o novas. \u201cTodo conhecimento tradicional sempre esteve amea\u00e7ado, em todas as partes do mundo. E, no caso da ayahuasca, uma das primeiras amea\u00e7as foram os grupos religiosos\u201d, afirma. Segundo ele, ainda hoje h\u00e1 comunidades onde o uso da bebida \u00e9 desencorajado ou proibido, muitas vezes com base em desinforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Torres relata um epis\u00f3dio que, para ele, revela a profundidade desse processo. Ao final de uma confer\u00eancia sobre bot\u00e2nica e plantas sagradas em uma universidade intercultural na regi\u00e3o de Ucayali, na Amaz\u00f4nia peruana, ele convidou os estudantes, em sua maioria ind\u00edgenas, para uma cerim\u00f4nia com ayahuasca. \u201cHavia mais de 200 jovens. Convidei todos. E sabe quantos apareceram? Nenhum\u201d, conta. No dia seguinte, ao perguntar o motivo, ouviu a explica\u00e7\u00e3o: a forte presen\u00e7a de grupos religiosos na regi\u00e3o havia levado ao abandono da pr\u00e1tica entre os mais jovens.<\/p>\n<p>\u201cO maior tesouro que temos na Amaz\u00f4nia \u00e9 sua diversidade biol\u00f3gica e sua diversidade cultural\u201d, diz Torres. \u201cDentro disso, a cosmovis\u00e3o dos povos origin\u00e1rios e sua rela\u00e7\u00e3o com a ayahuasca e as plantas maestras.\u201d<\/p>\n<p>Para Torres, o que est\u00e1 em jogo vai al\u00e9m da preserva\u00e7\u00e3o de uma esp\u00e9cie ou de uma pr\u00e1tica. \u201cO ser humano n\u00e3o percebe que \u00e9 parte da natureza\u201d, diz. Em um mundo que avan\u00e7a sobre a floresta enquanto busca nela respostas para suas pr\u00f3prias crises, a ayahuasca exp\u00f5e um paradoxo: ao mesmo tempo em que se globaliza, corre o risco de perder as condi\u00e7\u00f5es que sustentam sua exist\u00eancia: a floresta, os territ\u00f3rios e os conhecimentos que lhe d\u00e3o sentido.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/rede-de-mulheres-no-sul-da-bahia-une-fe-territorio-e-educacao-contra-avanco-conservador\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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