{"id":92328,"date":"2026-06-17T17:24:04","date_gmt":"2026-06-17T20:24:04","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/trabalho-um-mercado-ainda-mais-hostil-as-mulheres\/"},"modified":"2026-06-17T17:24:04","modified_gmt":"2026-06-17T20:24:04","slug":"trabalho-um-mercado-ainda-mais-hostil-as-mulheres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/trabalho-um-mercado-ainda-mais-hostil-as-mulheres\/","title":{"rendered":"Trabalho: um mercado ainda mais hostil \u00e0s mulheres"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"534\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/trawjbdfjabfcsd.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/trawjbdfjabfcsd.jpeg 800w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/trawjbdfjabfcsd-300x200.jpeg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/trawjbdfjabfcsd-768x513.jpeg 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/trawjbdfjabfcsd-272x182.jpeg 272w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\"><figcaption>Foto: ONU Mulheres\/Lali Mareco<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<p><imgsrc=\"\" width=\"1\" height=\"1\" alt=\".\" border=\"0\">\n<\/div>\n<\/div>\n<p>A taxa de participa\u00e7\u00e3o feminina no mercado de trabalho brasileiro oscila em torno de 53% desde 2019, sem que a recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica p\u00f3s-pand\u00eamica ou a expans\u00e3o do emprego formal registrada entre 2023 e 2025 tenham produzido altera\u00e7\u00e3o significativa nesse patamar. A PNAD Cont\u00ednua do quarto trimestre de 2024 registrou 48,5 milh\u00f5es de mulheres na for\u00e7a de trabalho, o maior contingente absoluto da s\u00e9rie hist\u00f3rica iniciada em 2012, ao passo que a taxa de participa\u00e7\u00e3o de 53,1% permaneceu inferior ao pico de 54,6% atingido no terceiro trimestre de 2019. A dissocia\u00e7\u00e3o entre o crescimento absoluto da for\u00e7a de trabalho feminina e a estagna\u00e7\u00e3o de sua propor\u00e7\u00e3o relativa imp\u00f5e uma quest\u00e3o anal\u00edtica que transcende o registro descritivo da conjuntura. O que est\u00e1 em jogo n\u00e3o \u00e9 uma insufici\u00eancia tempor\u00e1ria de postos de trabalho, mas a opera\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de mecanismos estruturais que delimitam a inser\u00e7\u00e3o feminina no trabalho remunerado, mecanismos ancorados na divis\u00e3o sexual do trabalho, nas hierarquias raciais, na segmenta\u00e7\u00e3o ocupacional e na precariedade da provis\u00e3o p\u00fablica de cuidados. Esse conjunto de determina\u00e7\u00f5es configura um regime de participa\u00e7\u00e3o feminina que combina inclus\u00e3o quantitativa e subordina\u00e7\u00e3o qualitativa, regime que se reproduz mesmo em contextos de aquecimento do mercado de trabalho.<\/p>\n<p>A compreens\u00e3o desse fen\u00f4meno exige um enquadramento te\u00f3rico que articule, com as tens\u00f5es devidas, as contribui\u00e7\u00f5es da sociologia do trabalho e da economia do trabalho. A teoria do capital humano, formulada por Gary Becker e Jacob Mincer, explicaria os diferenciais de participa\u00e7\u00e3o e rendimento como resultado de \u201cescolhas\u201d racionais de investimento em educa\u00e7\u00e3o e experi\u00eancia, escolhas condicionadas por expectativas de retorno diferenciadas entre homens e mulheres. Essa leitura encontra limites emp\u00edricos severos no caso brasileiro, uma vez que as mulheres apresentam maior escolaridade m\u00e9dia que os homens e, ainda assim, recebem rendimentos inferiores, configura\u00e7\u00e3o que a pr\u00f3pria teoria \u00e9 incapaz de explicar sem recorrer a vari\u00e1veis ex\u00f3genas ao modelo. A teoria da segmenta\u00e7\u00e3o do mercado de trabalho, desenvolvida por Michael Piore e Peter Doeringer, oferece instrumental mais adequado ao demonstrar que o mercado n\u00e3o opera como espa\u00e7o un\u00edvoco de ajuste entre oferta e demanda, mas se organiza em segmentos distintos, prim\u00e1rio e secund\u00e1rio, cujo acesso \u00e9 condicionado por vari\u00e1veis institucionais, raciais e de g\u00eanero. A sociologia do trabalho, por meio das formula\u00e7\u00f5es de Dani\u00e8le Kergoat e Helena Hirata sobre a divis\u00e3o sexual do trabalho, acrescenta que a distribui\u00e7\u00e3o desigual das atividades produtivas e reprodutivas entre os sexos n\u00e3o constitui subproduto de diferen\u00e7as de produtividade, mas rela\u00e7\u00e3o social que organiza simultaneamente a produ\u00e7\u00e3o, a reprodu\u00e7\u00e3o e a hierarquiza\u00e7\u00e3o do valor atribu\u00eddo ao trabalho.<\/p>\n<p>A diverg\u00eancia entre essas perspectivas n\u00e3o \u00e9 trivial e possui consequ\u00eancias diretas para a interpreta\u00e7\u00e3o dos dados e para a orienta\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas. Quando a economia ortodoxa trata a diferen\u00e7a de quase 20 pontos percentuais entre a taxa de participa\u00e7\u00e3o masculina (72,7%) e a feminina (53,1%) como reflexo de prefer\u00eancias individuais por lazer ou trabalho dom\u00e9stico, naturaliza como dado o que \u00e9 produto de rela\u00e7\u00f5es sociais historicamente constru\u00eddas. A PNAD Cont\u00ednua, por meio das informa\u00e7\u00f5es sobre motivos da inatividade, permite decompor esse agregado em termos que desautorizam a leitura individualista. Dados compilados pelo escrit\u00f3rio da OIT no Brasil indicam que 31,7% das mulheres em idade ativa fora da for\u00e7a de trabalho declararam como motivo a necessidade de cuidar de afazeres dom\u00e9sticos, filhos ou parentes, ao passo que entre os homens esse percentual era de 3,5%. A for\u00e7a de trabalho potencial feminina, composta por mulheres que gostariam de trabalhar mas n\u00e3o procuram emprego por restri\u00e7\u00f5es objetivas, expressa n\u00e3o uma aus\u00eancia de disposi\u00e7\u00e3o para o trabalho, e sim a impossibilidade concreta de exerc\u00ea-lo dadas as condi\u00e7\u00f5es materiais da reprodu\u00e7\u00e3o social. Essa impossibilidade, como demonstrou Cristina Bruschini em pesquisas hist\u00f3ricas sobre a participa\u00e7\u00e3o feminina na for\u00e7a de trabalho brasileira, n\u00e3o se modificou estruturalmente nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas, apesar do aumento da escolaridade feminina e da redu\u00e7\u00e3o das taxas de fecundidade.<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Prancheta--24.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Prancheta--24.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Prancheta-4-300x110.png 300w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>O trabalho dom\u00e9stico e de cuidados n\u00e3o remunerado constitui a vari\u00e1vel de media\u00e7\u00e3o entre a organiza\u00e7\u00e3o dos domic\u00edlios e a estrutura do mercado de trabalho, e sua distribui\u00e7\u00e3o desigual entre os sexos opera como mecanismo de ajuste silencioso que viabiliza a acumula\u00e7\u00e3o capitalista sem que seus custos apare\u00e7am na contabilidade nacional. Estudo do FGV IBRE, conduzido pela economista Isabela Duarte Kelly, registra que as mulheres brasileiras dedicam em m\u00e9dia 21 horas semanais a tarefas dom\u00e9sticas e de cuidado, contra 11 horas dos homens. Esse diferencial de 10 horas semanais equivale, na pr\u00e1tica, a uma meia jornada de trabalho adicional n\u00e3o remunerada, subtra\u00edda do tempo dispon\u00edvel para atividade econ\u00f4mica. A pesquisadora demonstrou que o aumento da escolaridade feminina reduz o tempo absoluto dedicado por mulheres ao trabalho dom\u00e9stico, por\u00e9m n\u00e3o altera a assimetria em rela\u00e7\u00e3o aos homens, cujo tempo de dedica\u00e7\u00e3o permanece praticamente inalterado independentemente do n\u00edvel de instru\u00e7\u00e3o. Esse achado possui implica\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas que merecem explicita\u00e7\u00e3o: a rigidez do tempo masculino dedicado ao cuidado revela que a divis\u00e3o sexual do trabalho dom\u00e9stico n\u00e3o responde a incentivos educacionais ou econ\u00f4micos da maneira que a teoria do capital humano suporia, funcionando antes como norma social incorporada que se reproduz independentemente de mudan\u00e7as nas vari\u00e1veis de mercado. Hildete Pereira de Melo, Cl\u00e1udio Considera e Alberto Di Sabbato, em trabalho sobre a conta-sat\u00e9lite do trabalho dom\u00e9stico, estimaram que essa produ\u00e7\u00e3o corresponderia a aproximadamente 11% do PIB, dimensionando o montante do subs\u00eddio que as fam\u00edlias, por meio do trabalho gratuito das mulheres, transferem ao sistema produtivo.<\/p>\n<p>A maternidade funciona, no mercado de trabalho brasileiro, como dispositivo de sele\u00e7\u00e3o adversa cujos efeitos n\u00e3o se reduzem ao per\u00edodo gestacional ou \u00e0 licen\u00e7a, mas se prolongam ao longo de toda a trajet\u00f3ria ocupacional. A \u201cpenalidade da maternidade\u201d, conceito mobilizado por La\u00eds Abramo e pela OIT em estudos sobre Am\u00e9rica Latina, abrange interrup\u00e7\u00f5es de carreira, rebaixamento salarial, restri\u00e7\u00e3o de acesso a promo\u00e7\u00f5es e redu\u00e7\u00e3o involunt\u00e1ria de jornada. Esse mecanismo opera de modo diferenciado conforme a posi\u00e7\u00e3o de classe e de ra\u00e7a das mulheres. Trabalhadoras de renda m\u00e9dia e alta podem recorrer a servi\u00e7os privados de cuidado, terceirizando para outras mulheres, quase sempre negras e de baixa remunera\u00e7\u00e3o, o trabalho reprodutivo que a sociedade lhes atribui. Trabalhadoras negras e de baixa renda, por sua vez, dependem de uma infraestrutura p\u00fablica de creches e escolas em tempo integral que permanece insuficiente, de modo que a maternidade as empurra para a informalidade, a subocu\u00e7\u00e3o ou a sa\u00edda completa da for\u00e7a de trabalho. A transfer\u00eancia intrag\u00eanero do trabalho de cuidado, mediada por rela\u00e7\u00f5es de classe e ra\u00e7a, configura o que Nadya Ara\u00fajo Guimar\u00e3es denominou \u201ccircuitos de cuidado\u201d, nos quais a libera\u00e7\u00e3o de algumas mulheres para o mercado se faz \u00e0 custa da precariza\u00e7\u00e3o do trabalho de outras.<\/p>\n<p>A segrega\u00e7\u00e3o ocupacional horizontal constitui express\u00e3o, no \u00e2mbito do mercado, da l\u00f3gica que preside a divis\u00e3o sexual do trabalho na esfera dom\u00e9stica. Os dados da PNAD Cont\u00ednua e as an\u00e1lises de Kelly (FGV IBRE) mostram que as mulheres est\u00e3o concentradas no setor de servi\u00e7os, especificamente em atividades de alojamento e alimenta\u00e7\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, servi\u00e7os sociais e servi\u00e7o dom\u00e9stico remunerado. Essas atividades comp\u00f5em o que a teoria da segmenta\u00e7\u00e3o classifica como mercado secund\u00e1rio: postos de trabalho com remunera\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas ao piso, alta rotatividade, baixa organiza\u00e7\u00e3o sindical, incid\u00eancia elevada de informalidade e reduzidas possibilidades de progress\u00e3o. A concentra\u00e7\u00e3o feminina nesses segmentos n\u00e3o decorre de diferen\u00e7as de produtividade internas \u00e0s trabalhadoras, como suporia um modelo neocl\u00e1ssico de equil\u00edbrio, mas de processos hist\u00f3ricos de constru\u00e7\u00e3o social das ocupa\u00e7\u00f5es. A pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de \u201cprodutividade\u201d aplicada a esses setores merece interroga\u00e7\u00e3o: atividades de educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e cuidado produzem valor social que n\u00e3o se captura nos indicadores convencionais de produtividade do trabalho, calcados na rela\u00e7\u00e3o entre produto e horas trabalhadas em setores industriais. Maria Rosa Lombardi, em pesquisas sobre feminiza\u00e7\u00e3o de profiss\u00f5es como engenharia e arquitetura, mostrou que a entrada de mulheres em ocupa\u00e7\u00f5es masculinas n\u00e3o elimina os mecanismos de diferencia\u00e7\u00e3o interna, que recriam hierarquias de g\u00eanero dentro de cada campo profissional por meio de especializa\u00e7\u00f5es, \u00e1reas de atua\u00e7\u00e3o e crit\u00e9rios de prest\u00edgio.<\/p>\n<p>A tabela a seguir apresenta dados comparativos sobre a taxa de participa\u00e7\u00e3o feminina e masculina na for\u00e7a de trabalho em pa\u00edses selecionados da Am\u00e9rica Latina, com base no Panorama Laboral 2024 da OIT e na PNAD Cont\u00ednua do IBGE.<\/p>\n<p><strong>Tabela 1. Taxa de participa\u00e7\u00e3o na for\u00e7a de trabalho por sexo em pa\u00edses selecionados da Am\u00e9rica Latina (2024)<\/strong><\/p>\n<figure>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td><strong>Pa\u00eds<\/strong><\/td>\n<td><strong>Taxa participa\u00e7\u00e3o feminina (%)<\/strong><\/td>\n<td><strong>Taxa participa\u00e7\u00e3o masculina (%)<\/strong><\/td>\n<td><strong>Diferen\u00e7a (p.p.)<\/strong><\/td>\n<td><strong>Ano de refer\u00eancia<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Brasil<\/td>\n<td>53,1<\/td>\n<td>72,7<\/td>\n<td>19,6<\/td>\n<td>2024 (4\u00baT)<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Argentina<\/td>\n<td>50,5<\/td>\n<td>69,8<\/td>\n<td>19,3<\/td>\n<td>2024 (2\u00baT)<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Col\u00f4mbia<\/td>\n<td>53,8<\/td>\n<td>75,1<\/td>\n<td>21,3<\/td>\n<td>2024 (2\u00baT)<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>M\u00e9xico<\/td>\n<td>46,7<\/td>\n<td>76,4<\/td>\n<td>29,7<\/td>\n<td>2024 (2\u00baT)<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Chile<\/td>\n<td>52,3<\/td>\n<td>72,0<\/td>\n<td>19,7<\/td>\n<td>2024 (2\u00baT)<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Am\u00e9rica Latina (m\u00e9dia)<\/td>\n<td>52,1<\/td>\n<td>74,3<\/td>\n<td>22,2<\/td>\n<td>2024<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<\/figure>\n<p><em>Fonte: OIT, Panorama Laboral 2024 (dados do 2\u00ba trimestre de 2024, exceto Brasil: PNAD Cont\u00ednua, 4\u00baT\/2024).<\/em><\/p>\n<p>A compara\u00e7\u00e3o latino-americana permite situar a estagna\u00e7\u00e3o brasileira em um padr\u00e3o regional que n\u00e3o se reduz a idiossincrasias nacionais. O Panorama Laboral 2024 da OIT registrou taxa m\u00e9dia de participa\u00e7\u00e3o feminina de 52,1% para a Am\u00e9rica Latina, com diferen\u00e7a m\u00e9dia de 22,2 pontos percentuais em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 masculina. O M\u00e9xico apresenta a maior defasagem (29,7 p.p.), configurando caso em que normas de g\u00eanero se articulam a uma estrutura produtiva com forte presen\u00e7a de ind\u00fastria maquiladora e economia informal rural. A Col\u00f4mbia, apesar de taxa de participa\u00e7\u00e3o feminina levemente superior \u00e0 brasileira (53,8%), exibe diferen\u00e7a de 21,3 pontos percentuais e n\u00edveis de informalidade feminina superiores a 60%. Esses dados sugerem que as economias latino-americanas compartilham uma configura\u00e7\u00e3o estrutural na qual a inser\u00e7\u00e3o feminina no mercado de trabalho permanece condicionada por tr\u00eas fatores interdependentes: a baixa provis\u00e3o p\u00fablica de servi\u00e7os de cuidado, a predomin\u00e2ncia de setores de baixa produtividade na absor\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho feminina e a persist\u00eancia de normas de g\u00eanero que atribuem \u00e0s mulheres a totalidade das responsabilidades reprodutivas. A converg\u00eancia regional nesses indicadores indica que se trata menos de fen\u00f4meno conjuntural do que de caracter\u00edstica estrutural de economias perif\u00e9ricas com padr\u00f5es de desenvolvimento dependente e baixo gasto social em rela\u00e7\u00e3o ao PIB.<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/BANNER-Outras-palavras-NOVEMBRO7-3.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/BANNER-Outras-palavras-NOVEMBRO7-3.jpg 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/BANNER-Outras-palavras-NOVEMBRO7-300x37.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Os dados salariais brasileiros revelam um paradoxo que desafia frontalmente a teoria do capital humano e que merece tratamento anal\u00edtico espec\u00edfico. O 3\u00ba Relat\u00f3rio de Transpar\u00eancia Salarial e Crit\u00e9rios Remunerat\u00f3rios, divulgado em abril de 2025 com base na RAIS de 2024, registrou diferen\u00e7a de 20,9% entre a remunera\u00e7\u00e3o m\u00e9dia masculina (R$ 4.745,53) e a feminina (R$ 3.755,01), nos 53.014 estabelecimentos com 100 ou mais empregados analisados. A evolu\u00e7\u00e3o dos tr\u00eas relat\u00f3rios publicados desde 2024 mostra amplia\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o redu\u00e7\u00e3o, da diferen\u00e7a: 19,4% no primeiro, 20,7% no segundo, 20,9% no terceiro. Essa trajet\u00f3ria ascendente em per\u00edodo de aquecimento do mercado de trabalho formal constitui evid\u00eancia robusta de que os mecanismos de discrimina\u00e7\u00e3o salarial n\u00e3o cedem diante da expans\u00e3o do emprego. A economia do trabalho institucionalista, na tradi\u00e7\u00e3o de Piore e Doeringer, fornece instrumental para compreender esse resultado: a discrimina\u00e7\u00e3o salarial de g\u00eanero est\u00e1 incorporada \u00e0s pr\u00e1ticas de gest\u00e3o, aos crit\u00e9rios de promo\u00e7\u00e3o e \u00e0s conven\u00e7\u00f5es que regem a fixa\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rios no interior das firmas, constituindo componente institucional do mercado de trabalho que n\u00e3o se corrige por mecanismos autom\u00e1ticos de oferta e demanda.<\/p>\n<p>O recorte racial exp\u00f5e a dimens\u00e3o mais aguda da desigualdade e n\u00e3o pode ser tratado como mera vari\u00e1vel de controle ou agravante quantitativo de uma situa\u00e7\u00e3o j\u00e1 descrita. A posi\u00e7\u00e3o das mulheres negras no mercado de trabalho brasileiro carrega a heran\u00e7a hist\u00f3rica de um regime escravista que organizou a for\u00e7a de trabalho com base na ra\u00e7a e no g\u00eanero, atribuindo \u00e0s mulheres negras as ocupa\u00e7\u00f5es mais desvalorizadas do sistema produtivo. A aboli\u00e7\u00e3o formal da escravid\u00e3o n\u00e3o rompeu esse padr\u00e3o, que se reproduziu ao longo do s\u00e9culo XX por meio da concentra\u00e7\u00e3o de mulheres negras no trabalho dom\u00e9stico remunerado, nas atividades de limpeza e em servi\u00e7os de baixa remunera\u00e7\u00e3o. Segundo o 3\u00ba Relat\u00f3rio de Transpar\u00eancia Salarial, a remunera\u00e7\u00e3o m\u00e9dia das mulheres negras em 2024 era de R$ 2.864,39, representando 47,5% do sal\u00e1rio m\u00e9dio dos homens n\u00e3o negros, propor\u00e7\u00e3o que se deteriorou em rela\u00e7\u00e3o a 2023 (50,3%). A piora desse indicador em per\u00edodo de expans\u00e3o do emprego formal constitui evid\u00eancia de que o crescimento econ\u00f4mico, por si s\u00f3, n\u00e3o desarticula os mecanismos de discrimina\u00e7\u00e3o racial. Conforme apontou a subsecret\u00e1ria de Estat\u00edsticas do MTE, Paula Montagner, as mulheres negras continuam ganhando menos que os homens negros (cuja m\u00e9dia era de R$ 3.647,97), o que revela uma hierarquiza\u00e7\u00e3o em que ra\u00e7a e g\u00eanero operam como eixos co-constitutivos da desigualdade, e n\u00e3o como dimens\u00f5es sobrepostas e aditivas. A concentra\u00e7\u00e3o de mulheres negras em alojamento e alimenta\u00e7\u00e3o, servi\u00e7os dom\u00e9sticos e atividades classificadas como \u201coutros servi\u00e7os\u201d reproduz, com notavelmente pouca altera\u00e7\u00e3o, a estrutura ocupacional racializada herdada do per\u00edodo p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o, na qual a proximidade dessas ocupa\u00e7\u00f5es com o trabalho servil contribui para sua desvaloriza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e simb\u00f3lica.<\/p>\n<p>A amplia\u00e7\u00e3o da desigualdade salarial nos estratos ocupacionais de maior remunera\u00e7\u00e3o e qualifica\u00e7\u00e3o constitui o ponto em que a tese da educa\u00e7\u00e3o como vari\u00e1vel equalizadora encontra sua refuta\u00e7\u00e3o mais contundente. Dados do 3\u00ba Relat\u00f3rio de Transpar\u00eancia Salarial indicam que mulheres em cargos de dire\u00e7\u00e3o e ger\u00eancia recebem 73,2% do sal\u00e1rio masculino nas mesmas posi\u00e7\u00f5es, e entre profissionais de n\u00edvel superior a propor\u00e7\u00e3o cai para 68,5%. As mulheres brasileiras possuem, em m\u00e9dia, maior escolaridade que os homens: 21,3% delas, com 25 anos ou mais, conclu\u00edram ensino superior, contra 16,8% dos homens (IBGE, Estat\u00edsticas de G\u00eanero, 2024). Estamos diante de uma configura\u00e7\u00e3o em que a credencial educacional produz retornos diferenciados segundo o sexo do portador, o que a economia da discrimina\u00e7\u00e3o, na tradi\u00e7\u00e3o de Barbara Bergmann, interpretaria como evid\u00eancia de \u201ccrowding\u201d, ou seja, o confinamento de mulheres qualificadas em segmentos do mercado de trabalho que oferecem menores retornos. A quest\u00e3o, contudo, vai al\u00e9m da aloca\u00e7\u00e3o desigual. Os crit\u00e9rios de \u201cdedica\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cdisponibilidade\u201d que organizam a progress\u00e3o de carreira nos postos de maior remunera\u00e7\u00e3o s\u00e3o, eles mesmos, constru\u00e7\u00f5es que pressup\u00f5em um trabalhador desincumbido de responsabilidades reprodutivas, um trabalhador que, nas condi\u00e7\u00f5es brasileiras, \u00e9 tipicamente masculino. A segrega\u00e7\u00e3o vertical, conhecida como \u201cteto de vidro\u201d, n\u00e3o \u00e9 mero obst\u00e1culo individual \u00e0 ascens\u00e3o, mas efeito institucional de regras de promo\u00e7\u00e3o que incorporam a divis\u00e3o sexual do trabalho como pressuposto n\u00e3o declarado.<\/p>\n<p>A tabela a seguir sintetiza a desigualdade salarial por grupo ocupacional no Brasil, com base no 3\u00ba Relat\u00f3rio de Transpar\u00eancia Salarial (RAIS 2024), evidenciando como a disparidade se aprofunda nos estratos de maior remunera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Tabela 2. Desigualdade salarial por grupo ocupacional e recorte racial no Brasil (RAIS 2024)<\/strong><\/p>\n<figure>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td><strong>Grupo ocupacional<\/strong><\/td>\n<td><strong>Remunera\u00e7\u00e3o m\u00e9dia homens (R$)<\/strong><\/td>\n<td><strong>Remunera\u00e7\u00e3o m\u00e9dia mulheres (R$)<\/strong><\/td>\n<td><strong>Raz\u00e3o M\/H (%)<\/strong><\/td>\n<td><strong>Diferen\u00e7a mulheres negras vs. homens n\u00e3o negros<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Diretores e gerentes<\/td>\n<td>Maior faixa<\/td>\n<td>73,2% do sal. masc.<\/td>\n<td>73,2<\/td>\n<td>60,0%<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Profissionais de n\u00edvel superior<\/td>\n<td>Maior faixa<\/td>\n<td>68,5% do sal. masc.<\/td>\n<td>68,5<\/td>\n<td>Dado n\u00e3o dispon\u00edvel<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Servi\u00e7os administrativos<\/td>\n<td>Faixa interm.<\/td>\n<td>79,8% do sal. masc.<\/td>\n<td>79,8<\/td>\n<td>Dado n\u00e3o dispon\u00edvel<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>M\u00e9dia geral (todas ocup.)<\/td>\n<td>R$ 4.745,53<\/td>\n<td>R$ 3.755,01<\/td>\n<td>79,1<\/td>\n<td>R$ 2.864,39 (47,5% do h. n\u00e3o negro)<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<\/figure>\n<p><em>Fonte: 3\u00ba Relat\u00f3rio de Transpar\u00eancia Salarial e Crit\u00e9rios Remunerat\u00f3rios (MTE\/Minist\u00e9rio das Mulheres, abril de 2025, base RAIS 2024).<\/em><\/p>\n<p>A informalidade, a subocupa\u00e7\u00e3o por insufici\u00eancia de horas e a vulnerabilidade laboral afetam de maneira desproporcional as mulheres e configuram o terreno emp\u00edrico da segmenta\u00e7\u00e3o. Dados da PNAD Cont\u00ednua indicam que 28% das mulheres ocupadas trabalham em tempo parcial (at\u00e9 30 horas semanais), propor\u00e7\u00e3o quase duas vezes superior \u00e0 dos homens (14,4%). A interpreta\u00e7\u00e3o convencional desse dado como express\u00e3o de \u201cprefer\u00eancia\u201d feminina por jornadas mais curtas confunde efeito com causa: n\u00e3o \u00e9 a prefer\u00eancia que determina a jornada, mas a impossibilidade de transferir as responsabilidades de cuidado que torna invi\u00e1vel a dedica\u00e7\u00e3o a jornadas integrais. Essa din\u00e2mica, analisada por Bila Sorj em pesquisas sobre as interse\u00e7\u00f5es entre g\u00eanero e classe social nas arenas de cuidado, configura trajet\u00f3rias ocupacionais marcadas pela intermit\u00eancia e pela subalternidade funcional, nas quais o trabalho feminino se ajusta \u00e0s demandas da reprodu\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica em detrimento da acumula\u00e7\u00e3o de experi\u00eancia, senioridade e direitos previdenci\u00e1rios. A subocupa\u00e7\u00e3o feminina representa, do ponto de vista macroecon\u00f4mico, subutiliza\u00e7\u00e3o de for\u00e7a de trabalho dispon\u00edvel, com efeitos negativos sobre o produto potencial e sobre a base de arrecada\u00e7\u00e3o da seguridade social, efeitos que s\u00e3o sistematicamente ignorados nas discuss\u00f5es sobre pol\u00edtica fiscal e sustentabilidade previdenci\u00e1ria.<\/p>\n<p>A atua\u00e7\u00e3o do Estado brasileiro na configura\u00e7\u00e3o dessas desigualdades apresenta car\u00e1ter contradit\u00f3rio que exige an\u00e1lise para al\u00e9m do registro descritivo de pol\u00edticas existentes. A legisla\u00e7\u00e3o trabalhista prev\u00ea prote\u00e7\u00f5es relevantes, como a licen\u00e7a-maternidade de 120 dias, a estabilidade gestante e, mais recentemente, a Lei n\u00ba 14.611\/2023, que obriga empresas com mais de 100 empregados a publicar relat\u00f3rios de transpar\u00eancia salarial. A aprova\u00e7\u00e3o da Pol\u00edtica Nacional de Cuidados em 2024 representou avan\u00e7o normativo ao reconhecer o cuidado como responsabilidade compartilhada entre Estado, fam\u00edlias, comunidade e setor privado. A dist\u00e2ncia entre norma e efetividade, por\u00e9m, \u00e9 consider\u00e1vel. A oferta de vagas em creches p\u00fablicas atende parcela limitada da demanda, e a educa\u00e7\u00e3o em tempo integral permanece distante da cobertura universal. A capacidade de implementa\u00e7\u00e3o da Pol\u00edtica Nacional de Cuidados depende de arranjos federativos e fontes de financiamento que ainda n\u00e3o est\u00e3o assegurados, sobretudo em contexto de restri\u00e7\u00e3o fiscal e de disputas por aloca\u00e7\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria. A Lei n\u00ba 14.611, embora tenha ampliado a transpar\u00eancia, carece de san\u00e7\u00f5es proporcionais \u00e0 magnitude do problema e de mecanismos de fiscaliza\u00e7\u00e3o que ultrapassem a mera publica\u00e7\u00e3o de dados. Lena Lavinas argumentou, em estudos sobre pol\u00edtica social e g\u00eanero, que a aus\u00eancia de uma rede p\u00fablica robusta de cuidados n\u00e3o configura lacuna passiva, mas opera como mecanismo ativo de transfer\u00eancia do \u00f4nus da reprodu\u00e7\u00e3o social para as fam\u00edlias, e dentro delas para as mulheres, funcionando como pol\u00edtica impl\u00edcita de barateamento da reprodu\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho. A extens\u00e3o da licen\u00e7a-paternidade, debatida mas n\u00e3o aprovada, \u00e9 outra pe\u00e7a ausente, cuja inexist\u00eancia refor\u00e7a a norma de que o cuidado \u00e9 atribui\u00e7\u00e3o feminina.<\/p>\n<p>A concentra\u00e7\u00e3o feminina em ocupa\u00e7\u00f5es historicamente desvalorizadas exige discuss\u00e3o sobre os mecanismos que articulam constru\u00e7\u00e3o social das qualifica\u00e7\u00f5es, composi\u00e7\u00e3o setorial e fixa\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rios. O servi\u00e7o dom\u00e9stico remunerado, o cuidado de idosos e crian\u00e7as e as atividades de limpeza e alimenta\u00e7\u00e3o concentram contingentes femininos expressivos e operam com remunera\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas ao sal\u00e1rio m\u00ednimo, alta informalidade e cobertura previdenci\u00e1ria prec\u00e1ria. A desvaloriza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica dessas atividades n\u00e3o resulta de sua baixa \u201cprodutividade\u201d em sentido t\u00e9cnico, mas da constru\u00e7\u00e3o social que trata como n\u00e3o qualifica\u00e7\u00e3o as compet\u00eancias mobilizadas no cuidado, no atendimento e na organiza\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica. Kergoat formulou esse fen\u00f4meno como \u201cnaturaliza\u00e7\u00e3o das compet\u00eancias femininas\u201d, processo pelo qual habilidades adquiridas na socializa\u00e7\u00e3o de g\u00eanero s\u00e3o tratadas como atributos inatos, desqualificadas como trabalho e, por consequ\u00eancia, mal remuneradas. A economia do trabalho convencional, ao mensurar produtividade pelo valor adicionado por hora trabalhada em termos monet\u00e1rios, incorpora acriticamente essa constru\u00e7\u00e3o social, pois o baixo pre\u00e7o de mercado dos servi\u00e7os de cuidado n\u00e3o mede o valor de uso produzido, mas reflete a posi\u00e7\u00e3o subordinada das mulheres na negocia\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os e sal\u00e1rios. A estrutura setorial da economia brasileira, marcada pela hipertrofia de servi\u00e7os de baixo valor agregado, aprofunda esse quadro ao concentrar a expans\u00e3o do emprego feminino em segmentos nos quais os mecanismos de desvaloriza\u00e7\u00e3o operam com maior intensidade.<\/p>\n<p>A dimens\u00e3o macroecon\u00f4mica da desigualdade de g\u00eanero no mercado de trabalho raramente recebe a aten\u00e7\u00e3o anal\u00edtica que merece. Segundo estimativas do MTE, a equaliza\u00e7\u00e3o salarial entre homens e mulheres nas mesmas fun\u00e7\u00f5es teria injetado aproximadamente R$ 95 bilh\u00f5es na economia brasileira em 2024, o equivalente a 9% da massa total de rendimentos do trabalho. Esse n\u00famero representa n\u00e3o apenas perda de renda individual das trabalhadoras, mas contra\u00e7\u00e3o da demanda agregada com efeitos multiplicadores sobre consumo, arrecada\u00e7\u00e3o e crescimento. A participa\u00e7\u00e3o feminina na massa total de rendimentos evoluiu de 35,7% em 2015 para 37,4% em 2024, crescimento modesto diante da incorpora\u00e7\u00e3o de 6 milh\u00f5es de mulheres ao emprego no per\u00edodo. Essa despropor\u00e7\u00e3o entre expans\u00e3o da ocupa\u00e7\u00e3o feminina e quase estabilidade de sua participa\u00e7\u00e3o na massa salarial demonstra que a incorpora\u00e7\u00e3o ocorre predominantemente nos estratos inferiores de remunera\u00e7\u00e3o, reproduzindo a segmenta\u00e7\u00e3o do mercado. A distribui\u00e7\u00e3o funcional da renda, pensada em termos de g\u00eanero, revela que o trabalho feminino contribui proporcionalmente mais para a gera\u00e7\u00e3o de valor e proporcionalmente menos para a apropria\u00e7\u00e3o de rendimentos, transfer\u00eancia que se soma \u00e0 produ\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica gratuita e configura um regime de explora\u00e7\u00e3o espec\u00edfico, cuja l\u00f3gica n\u00e3o se reduz \u00e0 extra\u00e7\u00e3o de mais-valor no sentido cl\u00e1ssico, mas incorpora a mobiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o remunerada do trabalho reprodutivo como condi\u00e7\u00e3o de possibilidade da acumula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas capazes de enfrentar esse quadro requer diagn\u00f3stico que supere a l\u00f3gica de interven\u00e7\u00f5es pontuais e reconhe\u00e7a a interdepend\u00eancia entre as esferas produtiva e reprodutiva. A amplia\u00e7\u00e3o da oferta de creches, a universaliza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o em tempo integral e a implementa\u00e7\u00e3o da Pol\u00edtica Nacional de Cuidados constituem condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias, por\u00e9m insuficientes se desacompanhadas de transforma\u00e7\u00f5es na estrutura ocupacional e nos mecanismos de fixa\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rios. A experi\u00eancia dos pa\u00edses n\u00f3rdicos, frequentemente invocada como modelo, mostra que mesmo avan\u00e7os expressivos na provis\u00e3o p\u00fablica de cuidados n\u00e3o eliminaram a segrega\u00e7\u00e3o ocupacional, que se reproduz por vias mais sutis. No contexto brasileiro, o desafio \u00e9 agravado pela heterogeneidade federativa, pela insufici\u00eancia cr\u00f4nica de recursos para pol\u00edticas sociais em munic\u00edpios de pequeno porte e pela aus\u00eancia de mecanismos efetivos de fiscaliza\u00e7\u00e3o da igualdade salarial. A Lei n\u00ba 14.611\/2023, ao exigir relat\u00f3rios de transpar\u00eancia, representou avan\u00e7o ao tornar vis\u00edvel a desigualdade, por\u00e9m a mera visibilidade n\u00e3o altera as pr\u00e1ticas se n\u00e3o acompanhada de san\u00e7\u00f5es, incentivos e regras de promo\u00e7\u00e3o que desconstituam os mecanismos discriminat\u00f3rios incorporados \u00e0 gest\u00e3o de pessoal das empresas. A extens\u00e3o da licen\u00e7a-paternidade e a cria\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os p\u00fablicos de cuidado de idosos representam eixos de interven\u00e7\u00e3o com potencial redistributivo elevado, por\u00e9m esbarram em restri\u00e7\u00f5es fiscais e em resist\u00eancias culturais e empresariais que n\u00e3o devem ser subestimadas.<\/p>\n<p>A estagna\u00e7\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o feminina no mercado de trabalho brasileiro, analisada \u00e0 luz dos dados da PNAD Cont\u00ednua, dos Relat\u00f3rios de Transpar\u00eancia Salarial e do Panorama Laboral da OIT, n\u00e3o configura falha tempor\u00e1ria de um mercado em processo de ajuste, mas express\u00e3o de um regime de inser\u00e7\u00e3o feminina que combina inclus\u00e3o subordinada e reprodu\u00e7\u00e3o da desigualdade. A persist\u00eancia e o aprofundamento da desigualdade salarial, inclusive em per\u00edodo de expans\u00e3o do emprego formal, demonstram que os mecanismos de discrimina\u00e7\u00e3o est\u00e3o inscritos na estrutura institucional do mercado de trabalho, nos crit\u00e9rios de promo\u00e7\u00e3o, na organiza\u00e7\u00e3o setorial e na distribui\u00e7\u00e3o do trabalho de cuidado. A situa\u00e7\u00e3o das mulheres negras, cuja remunera\u00e7\u00e3o m\u00e9dia representa menos da metade do sal\u00e1rio dos homens n\u00e3o negros e se deteriorou entre 2023 e 2024, revela que ra\u00e7a n\u00e3o opera como vari\u00e1vel secund\u00e1ria, mas como eixo constitutivo da desigualdade, enraizado na heran\u00e7a escravista e na divis\u00e3o racial do trabalho que organiza a economia brasileira desde suas origens. O fato de mulheres com maior escolaridade enfrentarem disparidades salariais mais acentuadas do que as de menor qualifica\u00e7\u00e3o invalida a tese de que o investimento em capital humano \u00e9 condi\u00e7\u00e3o suficiente para a equaliza\u00e7\u00e3o de rendimentos, e aponta para a necessidade de teorias que incorporem a divis\u00e3o sexual e racial do trabalho como determinantes end\u00f3genos da forma\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rios, e n\u00e3o como res\u00edduos inexplicados de modelos econom\u00e9tricos. Compreender a experi\u00eancia das trabalhadoras brasileiras como experi\u00eancia de classe mediada por g\u00eanero e ra\u00e7a, e n\u00e3o como anomalia de um mercado em desequil\u00edbrio passageiro, constitui ponto de partida para pol\u00edticas p\u00fablicas que enfrentem simultaneamente a segmenta\u00e7\u00e3o, a desvaloriza\u00e7\u00e3o do trabalho reprodutivo e a discrimina\u00e7\u00e3o salarial, reconhecendo que a desigualdade de g\u00eanero no mercado de trabalho n\u00e3o \u00e9 dist\u00farbio a ser corrigido, mas modo de funcionamento a ser transformado.<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>ABRAMO, La\u00eds. <em>Trabalho decente e igualdade de g\u00eanero na Am\u00e9rica Latina<\/em>. Bras\u00edlia: OIT, 2007.<\/p>\n<p>BERGMANN, Barbara. The effect on white incomes of discrimination in employment. <em>Journal of Political Economy<\/em>, Chicago, v. 79, n. 2, p. 294-313, mar.\/abr. 1971.<\/p>\n<p>BRASIL. Minist\u00e9rio do Trabalho e Emprego. <em>3\u00ba Relat\u00f3rio de Transpar\u00eancia Salarial e Crit\u00e9rios Remunerat\u00f3rios<\/em>. Bras\u00edlia: MTE\/Minist\u00e9rio das Mulheres, 2025.<\/p>\n<p>BRUSCHINI, Cristina. Trabalho feminino no Brasil: novas conquistas ou persist\u00eancia da discrimina\u00e7\u00e3o? <em>Cadernos de Pesquisa<\/em>, S\u00e3o Paulo, n. 95, p. 13-18, nov. 1995.<\/p>\n<p>DOERINGER, Peter; PIORE, Michael. <em>Internal labor markets and manpower analysis<\/em>. Lexington: D. C. Heath, 1971.<\/p>\n<p>GUIMAR\u00c3ES, Nadya Ara\u00fajo. <em>Caminhos cruzados: estrat\u00e9gias de empresas e trajet\u00f3rias de trabalhadores<\/em>. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2004.<\/p>\n<p>HIRATA, Helena; KERGOAT, Dani\u00e8le. Novas configura\u00e7\u00f5es da divis\u00e3o sexual do trabalho. <em>Cadernos de Pesquisa<\/em>, S\u00e3o Paulo, v. 37, n. 132, p. 595-609, set.\/dez. 2007.<\/p>\n<p>IBGE. <em>Estat\u00edsticas de g\u00eanero: indicadores sociais das mulheres no Brasil<\/em>. 3. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2024.<\/p>\n<p>IBGE. <em>Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios Cont\u00ednua: 4\u00ba trimestre de 2024<\/em>. Rio de Janeiro: IBGE, 2025.<\/p>\n<p>KELLY, Isabela Duarte. Participa\u00e7\u00e3o feminina no mercado de trabalho: estagna\u00e7\u00e3o e desafios. <em>Blog do IBRE<\/em>, Rio de Janeiro: FGV, 2025. Dispon\u00edvel em: https:\/\/blogdoibre.fgv.br. Acesso em: 6 abr. 2026.<\/p>\n<p>LAVINAS, Lena. G\u00eanero, cidadania e pol\u00edticas urbanas. In: RIBEIRO, Luiz Cesar de Queiroz; SANTOS JUNIOR, Orlando Alves dos (org.). <em>Globaliza\u00e7\u00e3o, fragmenta\u00e7\u00e3o e reforma urbana<\/em>. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1997. p. 169-187.<\/p>\n<p>LOMBARDI, Maria Rosa. Engenheiras brasileiras: inser\u00e7\u00e3o e limites de g\u00eanero no campo profissional. <em>Cadernos de Pesquisa<\/em>, S\u00e3o Paulo, v. 36, n. 127, p. 173-202, jan.\/abr. 2006.<\/p>\n<p>MELO, Hildete Pereira de; CONSIDERA, Cl\u00e1udio; DI SABBATO, Alberto. Os afazeres dom\u00e9sticos contam. <em>Economia e Sociedade<\/em>, Campinas, v. 16, n. 3, p. 435-454, dez. 2007.<\/p>\n<p>OIT. <em>Panorama Laboral 2024 da Am\u00e9rica Latina e Caribe<\/em>. Lima: OIT\/Escrit\u00f3rio Regional para Am\u00e9rica Latina e Caribe, 2025.<\/p>\n<p>PIORE, Michael. The dual labor market: theory and implications. In: GORDON, David (ed.). <em>Problems in political economy<\/em>. Lexington: D. C. Heath, 1971. p. 90-94.<\/p>\n<p>SORJ, Bila. Arenas de cuidado nas interse\u00e7\u00f5es entre g\u00eanero e classe social no Brasil. <em>Cadernos de Pesquisa<\/em>, S\u00e3o Paulo, v. 43, n. 149, p. 478-491, maio\/ago. 2013.<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Sugest\u00f5es de aprofundamento<\/strong><\/p>\n<p>BIROLI, Fl\u00e1via. <em>G\u00eanero e desigualdades: limites da democracia no Brasil<\/em>. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2018.<\/p>\n<p>IPEA. <em>Retrato das desigualdades de g\u00eanero e ra\u00e7a<\/em>. 5. ed. Bras\u00edlia: IPEA\/ONU Mulheres\/SPM, 2017.<\/p>\n<p>HIRATA, Helena (org.). <em>Cuidado e cuidadoras: as v\u00e1rias faces do trabalho do care<\/em>. S\u00e3o Paulo: Atlas, 2012.<\/p>\n<p>PINHEIRO, Luana Sim\u00f5es et al. Mulheres e trabalho: breve an\u00e1lise do per\u00edodo 2004-2014. <em>Nota T\u00e9cnica IPEA<\/em>, Bras\u00edlia, n. 24, mar. 2016.<\/p>\n<p>CEPAL; OIT. <em>Conjuntura Laboral na Am\u00e9rica Latina e no Caribe: evolu\u00e7\u00e3o e perspectivas da participa\u00e7\u00e3o laboral feminina<\/em>. Santiago: CEPAL, 2019.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Elas possuem maior escolaridade, mas s\u00e3o submetidas a ocupa\u00e7\u00f5es desvalorizadas e de alta rotatividade. E restri\u00e7\u00f5es ao trabalho  s\u00e3o tratadas como \u201cprefer\u00eancias individuais\u201d<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/trabalhoeprecariado\/trabalho-um-mercado-ainda-mais-hostil-as-mulheres\/\">Trabalho: um mercado ainda mais hostil \u00e0s mulheres<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":92329,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[28892,68729,5300,59207,20018,68730,68731,6358,1031,2267,1969,68732,4176,1094,56278,1865,68733,68734,37752,4141,5834],"tags":[],"class_list":["post-92328","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-capital-humano","category-dados-salariais-brasileiros","category-desigualdade-salarial","category-economia-do-trabalho","category-forca-de-trabalho","category-inclusao-quantitativa","category-insercao-feminina","category-maternidade","category-mercado-de-trabalho","category-mulheres-negras","category-oit","category-oucpacoes-desvalorizadas","category-participacao-feminina","category-pnad","category-postos-de-trabalho","category-precarizacao","category-rendimentos-inferiores","category-subocupacao-feminina","category-trabalho-de-cuidado","category-trabalho-domestico","category-trabalho-e-precariado"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/92328","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=92328"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/92328\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/92329"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=92328"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=92328"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=92328"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}