{"id":92862,"date":"2026-06-22T21:05:31","date_gmt":"2026-06-23T00:05:31","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/retratos-de-cuba-as-vesperas-das-mudancas\/"},"modified":"2026-06-22T21:05:31","modified_gmt":"2026-06-23T00:05:31","slug":"retratos-de-cuba-as-vesperas-das-mudancas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/retratos-de-cuba-as-vesperas-das-mudancas\/","title":{"rendered":"Retratos de Cuba, \u00e0s v\u00e9speras das mudan\u00e7as"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"936\" height=\"624\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_5019343484032322547_y.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_5019343484032322547_y.jpg 936w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_5019343484032322547_y-300x200.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_5019343484032322547_y-768x512.jpg 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_5019343484032322547_y-272x182.jpg 272w\" sizes=\"(max-width: 936px) 100vw, 936px\"><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<p><imgsrc=\"\" width=\"1\" height=\"1\" alt=\".\" border=\"0\">\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Por <strong>J.S. Tennant<\/strong>, na <em>London Review of Books<\/em><strong> <\/strong>| Tradu\u00e7\u00e3o: <strong>Antonio Martins<\/strong><\/p>\n<div>\n<div>\n<div>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"520\" height=\"800\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_5019343484032322556_x.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_5019343484032322556_x.jpg 520w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_5019343484032322556_x-195x300.jpg 195w\" sizes=\"(max-width: 520px) 100vw, 520px\"><\/figure>\n<\/div>\n<p><strong>MAIS:<\/strong><br \/>O autor do texto acaba de lan\u00e7ar livro (<em>Mrs. Gargantua) <\/em>sobre o quotidiano, sonhos e lutas dos cubanos. A obra foi premiada pela Funda\u00e7\u00e3o Gabriel Garcia Marquez com a Bolsa Michael Jacobs, sendo a primeira em l\u00edngua inglesa a receber a distin\u00e7\u00e3o. Uma entrevista de J.S. Tennant ao site da funda\u00e7\u00e3o pode ser lida aqui. A edi\u00e7\u00e3o desta semana de <em>Carta Capital <\/em>traz uma primeira informa\u00e7\u00e3o sobre as mudan\u00e7as econ\u00f4micas profundas lan\u00e7adas em reuni\u00e3o do Comit\u00ea Central do Partido Comunista Cubano em 18\/6<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Quando morei em Cuba, em 2010, mais de 80% da popula\u00e7\u00e3o era empregada pelo Estado. O sal\u00e1rio m\u00e9dio mensal era de 480 pesos cubanos (cerca de US$ 20); a aposentadoria b\u00e1sica era menos da metade disso. N\u00e3o era muito, mas a maioria dos cubanos tinha casa pr\u00f3pria e, at\u00e9 recentemente, quase ningu\u00e9m pagava aluguel. Educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade s\u00e3o gratuitas desde a revolu\u00e7\u00e3o; os servi\u00e7os p\u00fablicos sempre foram fortemente subsidiados (embora os custos tenham aumentado bastante nos \u00faltimos anos). E, por d\u00e9cadas, os pre\u00e7os de certos bens e servi\u00e7os foram mantidos baixos por subs\u00eddios e controles.<\/p>\n<p>A caderneta de racionamento familiar, conhecida como <em>libreta de provision, <\/em>tem sido fundamental para o cotidiano em Cuba desde sua introdu\u00e7\u00e3o como medida tempor\u00e1ria em 1962, quando a escassez de alimentos tornou-se comum ap\u00f3s a revolu\u00e7\u00e3o. Ela fornece produtos b\u00e1sicos a pre\u00e7os extremamente baixos \u2013 geralmente alguns pesos. Mesmo em 2010, as cotas de racionamento garantiam um certo n\u00edvel de ingest\u00e3o cal\u00f3rica e nutricional todos os meses. Cada cidad\u00e3o podia esperar receber meio quilo de a\u00e7\u00facar refinado, dois quilos de a\u00e7\u00facar mascavo, meio quilo de leguminosas secas, meio quilo de feij\u00e3o preto, dois quilos de arroz, 110 gramas de caf\u00e9, 250 ml de \u00f3leo de cozinha, tr\u00eas p\u00e3es e uma caixa de ovos. Al\u00e9m disso, recebiam um quilo de sal a cada tr\u00eas meses e, ocasionalmente, outros itens, incluindo uma cal\u00e7a nova por ano. Por\u00e7\u00f5es de 170 gramas de frango estavam dispon\u00edveis de tempos em tempos e um fil\u00e9 de 170 gramas de peixe oleoso podia ser encontrado com frequ\u00eancia nas bodegas, os dispens\u00e1rios estatais de bairro. Toda crian\u00e7a menor de sete anos recebia um litro de leite em p\u00f3 e alguns copos de iogurte.<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/14--32.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/14--32.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/14-1-300x110.png 300w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Durante as duas d\u00e9cadas e meia em que visitei Cuba, em nenhum momento a <em>libreta <\/em>sozinha foi suficiente para suprir as necessidades b\u00e1sicas. Em 2010, as ra\u00e7\u00f5es mensais duravam, no m\u00e1ximo, doze dias. Os mesmos produtos podiam ser encontrados em bodegas, fora do sistema de racionamento, mas ainda assim com subs\u00eddios consider\u00e1veis (normalmente tr\u00eas vezes o pre\u00e7o da <em>libreta<\/em>). Ou ent\u00e3o, era poss\u00edvel ir a um mercado estatal, embora estes fossem caros demais para a maioria das pessoas. A maioria das importa\u00e7\u00f5es \u2014 incluindo fraldas, l\u00e2minas de barbear, xampu, papel higi\u00eanico e absorventes \u2014 precisava ser comprada com d\u00f3lares em <em>centros comerciais<\/em>, que n\u00e3o existem mais.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que os cubanos dedicam tanto tempo e energia a<em> la lucha<\/em>, a batalha di\u00e1ria para sobreviver. Eles compram produtos b\u00e1sicos no mercado paralelo ou trocam itens obtidos<em> por la izquierda<\/em>, por baixo do pano (muitas vezes desviados de empresas estatais). Em 2010, dados mostraram que um quarto de todas as importa\u00e7\u00f5es era desviado para redistribui\u00e7\u00e3o no mercado clandestino. Enquanto morava em Havana, conheci funcion\u00e1rios p\u00fablicos que apareciam ao meio-dia para almo\u00e7ar de gra\u00e7a no refeit\u00f3rio da empresa e em seguida voltavam para casa. Como dizia a piada, \u201celes fingem nos pagar, e n\u00f3s fingimos trabalhar\u201d. Em 2011, Raul Castro retomou a t\u00edmida liberaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica de 2006-2007, demitindo funcion\u00e1rios p\u00fablicos e conduzindo o pa\u00eds rumo a uma economia mista. A deteriora\u00e7\u00e3o do transporte p\u00fablico nos anos anteriores foi tamanha que, desde o final de 2010, os taxistas foram autorizados a trabalhar por conta pr\u00f3pria. Tornou-se comum encontrar, por exemplo, um ex-cirurgi\u00e3o pedi\u00e1trico ou engenheiro civil que at\u00e9 pouco antes ganhava 17 d\u00f3lares por m\u00eas, e que agora chegava a ganhar 200 d\u00f3lares dirigindo um t\u00e1xi.<\/p>\n<p>O governo vem falando em retirar a <em>libreta <\/em>h\u00e1 dez anos ou mais, mas sabe que isso seria devastador para os cubanos mais pobres: aposentados, funcion\u00e1rios p\u00fablicos sem sorte, contatos ou engenhosidade para complementar sua renda, e aqueles que n\u00e3o recebem remessas de dinheiro de amigos ou parentes no exterior. Ao longo dos anos, observei a redu\u00e7\u00e3o gradual dos estoques de racionamento e o crescente desespero daqueles que dependiam deles. Em 2015, o peixe havia desaparecido da <em>libreta <\/em>e as entregas de carne se tornaram cada vez mais raras. Longas filas do lado de fora do mercadinho podiam sinalizar a chegada de sab\u00e3o indon\u00e9sio, mas, na maioria das vezes, significavam a chegada de frango importado do Brasil ou dos EUA (o embargo comercial americano, em vigor desde 1962, isentava alimentos e medicamentos desde 2000). As prote\u00ednas animais eram frequentemente restritas a tra\u00e7os em <em>picadinho mo\u00eddo <\/em>ou <em>frango surpresa<\/em>, com um recheio misterioso que o governo chama <em>de objeto comest\u00edvel n\u00e3o identificado <\/em>(uma pasta de soja texturizada). O caf\u00e9 de bodega come\u00e7ou a ser misturado com ervilha partida em p\u00f3, e o arroz passou a ser mesclado com amido de milho.<\/p>\n<p>Cuba agora importa a maior parte de seus alimentos. A produ\u00e7\u00e3o estatal despencou desde a d\u00e9cada de 1990, devido a uma combina\u00e7\u00e3o de desindustrializa\u00e7\u00e3o, inefici\u00eancias do planejamento central e da agricultura coletiva, e incapacidade do pa\u00eds de pagar por importa\u00e7\u00f5es cruciais, como fertilizantes e ra\u00e7\u00e3o para aves. O embargo dos EUA \u2013 o mais longo desse tipo na era moderna \u2013 limita a capacidade de Cuba de comerciar, acessar os mercados financeiros globais e obter empr\u00e9stimos. Foi flexibilizado durante o governo Obama e endurecido durante o primeiro mandato de Trump, levando a uma redu\u00e7\u00e3o na ajuda e limitando as remessas de dinheiro dos EUA. No in\u00edcio da d\u00e9cada de 2020, com o turismo congelado pela Covid-19, Cuba consumiu grande parte de suas reservas vitais de moeda estrangeira. Uma reforma monet\u00e1ria mal planejada no in\u00edcio de 2021, que eliminou o sistema de dupla moeda, levou a uma infla\u00e7\u00e3o galopante (a taxa de c\u00e2mbio foi fixada em 24 pesos por d\u00f3lar; na realidade, agora est\u00e1 mais pr\u00f3xima de 630 pesos). Em julho de 2021, protestos eclodiram por todo o pa\u00eds, na mais significativa onda de agita\u00e7\u00e3o civil desde a revolu\u00e7\u00e3o. O governo antecipou planos para flexibilizar os controles sobre a economia e, em poucos meses, foi aprovada a cria\u00e7\u00e3o de micro, pequenas e m\u00e9dias empresas privadas (MPYMEs). Elas podem empregar at\u00e9 cem pessoas. A maioria s\u00e3o empreendimentos de importa\u00e7\u00e3o, e seus produtos podem ser encontrados em barracas em quase todas as ruas. Em todos os anos que tenho ido a Cuba, nunca vi tanta comida e mercadorias \u00e0 venda como quando visitei o pa\u00eds em 2024 e no in\u00edcio deste ano. O problema n\u00e3o \u00e9 a disponibilidade, mas o custo: muito poucos cubanos podem compr\u00e1-los.<\/p>\n<p>Em minhas visitas anteriores a Cuba, frequentemente via pessoas carregando bandejas de ovos racionados \u2013 conhecidos como <em>salvavidas<\/em>. Eram distribu\u00eddos na propor\u00e7\u00e3o de um por dia, depois um a cada tr\u00eas dias e, ao fim, apenas cinco por m\u00eas, antes de praticamente desaparecerem d<em>a<\/em><em> libreta<\/em><em> <\/em>no ano passado. Ovos da Rep\u00fablica Dominicana s\u00e3o ocasionalmente encontrados em bodegas, mas a pre\u00e7os apenas ligeiramente inferiores aos do mercado paralelo (US$ 0,40 cada). Em compara\u00e7\u00e3o, a pens\u00e3o b\u00e1sica equivale atualmente a US$ 6,50 pela taxa de c\u00e2mbio n\u00e3o oficial. O sal\u00e1rio m\u00e9dio dos funcion\u00e1rios p\u00fablicos gira em torno de US$ 10. Um propriet\u00e1rio da MIPYME com quem conversei recentemente estimou que o sal\u00e1rio m\u00e9dio no setor privado esteja entre US$ 24 e US$ 45. Dados confi\u00e1veis s\u00e3o dif\u00edceis de encontrar, mas parece que a propor\u00e7\u00e3o de trabalhadores no setor privado \u2013 tanto formal quanto informal \u2013 agora ultrapassa os 50%. Alguns neg\u00f3cios independentes est\u00e3o prosperando; as principais vantagens de trabalhar para o Estado s\u00e3o o acesso a moeda forte e a possibilidade de lucrar com suprimentos desviados.<\/p>\n<p>Em 17 de mar\u00e7o de 2024, protestos contra a escassez de alimentos e os cortes de energia espalharam-se pelas prov\u00edncias do leste. Cheguei a Santiago de Cuba, a segunda maior cidade da ilha, alguns dias depois. Nos bairros de Mariana de la Torre e Veguita de Galo, alguns dos envolvidos nos protestos me explicaram como tudo come\u00e7ou. A energia el\u00e9trica estava cortada havia dois dias e foi restabelecida por apenas duas horas antes de cair novamente. As ra\u00e7\u00f5es deveriam ter sido distribu\u00eddas nos armaz\u00e9ns no in\u00edcio do m\u00eas, mas at\u00e9 17 de mar\u00e7o ainda n\u00e3o haviam chegado. Naquele dia, um grupo de vinte mulheres se reuniu em frente \u00e0 casa do delegado local do partido, exigindo o direito de alimentar seus filhos. Logo, centenas de vizinhos se juntaram a elas, gritando <em>Comida y curriente<\/em> (\u201cComida e eletricidade\u201d). Os manifestantes s\u00f3 se acalmaram quando, em tr\u00eas horas, barracas de comida gratuita foram montadas em uma pra\u00e7a pr\u00f3xima e todos os armaz\u00e9ns locais foram reabastecidos. (Durante os apag\u00f5es, o governo, temendo agravar a situa\u00e7\u00e3o, tentou garantir que os cortes de energia nunca coincidissem com as transmiss\u00f5es noturnas de <em>Segundo Sol<\/em>, uma telenovela brasileira extremamente popular.)<\/p>\n<p>Essa resposta conciliat\u00f3ria representou uma mudan\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 abordagem do governo em julho de 2021, quando 1.400 manifestantes foram detidos e centenas foram presos, alguns por at\u00e9 25 anos. Mesmo assim, o r\u00e1pido aparecimento de comida s\u00f3 irritou as pessoas: confirmou que os recursos podiam ser disponibilizados quando convinha \u00e0s autoridades. Um morador local me contou que viu agentes de seguran\u00e7a do Estado \u00e0 paisana \u2013 identific\u00e1veis pela apar\u00eancia desleixada e pelos sapatos pretos de couro padr\u00e3o \u2013 na multid\u00e3o em 17 de mar\u00e7o, tirando fotos com seus celulares. O homem trabalhava como professor universit\u00e1rio, ganhando US$ 22 por m\u00eas \u2013 menos do que ganhava consertando panelas de arroz nas horas vagas.<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"\" alt=\"\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Naquela visita, as ra\u00e7\u00f5es mensais em Santiago de Cuba, quando chegaram, limitavam-se a um quilo e meio de a\u00e7\u00facar bruto, meio litro de \u00f3leo de cozinha, dois quilos de arroz de arroz e trezentos gramas de feij\u00e3o preto, al\u00e9m de um p\u00e3ozinho por dia. Quando voltei \u00e0 cidade em fevereiro deste ano, elas haviam sido reduzidas para um quilo de arroz e um pequeno p\u00e3ozinho por dia. Meio quilo de a\u00e7\u00facar bruto estava programado para entrega, mas n\u00e3o todos os meses; \u00f3leo de cozinha, ervilhas partidas e sal deveriam chegar a cada dois ou tr\u00eas meses. Quatro ma\u00e7os de cigarros ainda estavam dispon\u00edveis por pessoa, independentemente de fumarem ou n\u00e3o (a maioria das pessoas tenta revend\u00ea-los ou troc\u00e1-los). Dois anos antes, um mercado estatal no centro da cidade estava repleto de frutas e verduras, embora vazio de clientes (os abacaxis locais estavam sendo vendidos por 500 pesos cada); agora, s\u00f3 havia piment\u00f5es dispon\u00edveis. Amigos em Santiago de Las Vegas, uma cidade nos arredores de Havana, me disseram que n\u00e3o comiam carne havia um ano (o frango custa pelo menos mil pesos por quilo e a carne de porco, 2600 pesos). Outras pessoas que conheci apresentavam sinais de desnutri\u00e7\u00e3o. Nas esquinas de todo o pa\u00eds, <em>catadores<\/em> percorriam enormes montes de lixo n\u00e3o recolhido, em busca de restos de comida. Desde que voltei de Cuba, ouvi de contatos na cidade de Guant\u00e1namo que os mercadinhos locais n\u00e3o tinham um \u00fanico item em estoque durante abril e maio.<\/p>\n<p>Minha visita em fevereiro ocorreu algumas semanas ap\u00f3s o in\u00edcio do bloqueio petrol\u00edfero dos EUA. A maior parte do petr\u00f3leo do pa\u00eds vinha anteriormente da Venezuela e do M\u00e9xico, mas, ap\u00f3s o sequestro de Nicol\u00e1s Maduro em 3 de janeiro e a subsequente amea\u00e7a de Trump de impor san\u00e7\u00f5es aos pa\u00edses que forneciam petr\u00f3leo a Cuba, essas entregas foram interrompidas. Ao percorrer a ilha nos dois meses seguintes, testemunhei os efeitos devastadores do bloqueio, que especialistas em direitos humanos da ONU descreveram como uma viola\u00e7\u00e3o do direito internacional. O transporte p\u00fablico parou por completo e a gasolina tornou-se praticamente inacess\u00edvel para a popula\u00e7\u00e3o em geral. Era poss\u00edvel comprar apenas vinte litros por vez, com filas se formando durante a noite nos poucos postos de gasolina com estoque. Um <em>cambista <\/em>com quem conversei estava cobrando US$ 50 para guardar lugar na fila at\u00e9 o amanhecer. A escassez de combust\u00edvel foi amenizada em certa medida no final de fevereiro, quando os EUA concordaram em permitir a importa\u00e7\u00e3o privada de combust\u00edvel para que as micro, pequenas e m\u00e9dias empresas (MPYMEs) pudessem continuar operando, sob a condi\u00e7\u00e3o de que o fornecimento n\u00e3o acabasse nas m\u00e3os do governo (apesar de muitas das maiores MPYMEs serem supostamente controladas por funcion\u00e1rios do governo). Empregados dos postos de gasolina estatais terceirizados para micro, pequenas e m\u00e9dias empresas (MPYMEs) me falaram de uma \u201chora de ouro\u201d antes das 7h (quando os fiscais chegavam), durante a qual a gasolina era vendida clandestinamente, sem restri\u00e7\u00f5es. Outras empresas privadas foram coagidas a desviar seu combust\u00edvel para entidades governamentais por meio de uma rede de empresas de fachada. Em Havana, os pre\u00e7os no mercado paralelo atingiram o pico de US$ 12 por litro no final de fevereiro e agora se estabilizaram em torno de US$ 9. No in\u00edcio de janeiro, chegaram a custar apenas US$ 1,30.<\/p>\n<p>A falta de transporte era especialmente acentuada em Havana. A situa\u00e7\u00e3o em outras cidades tamb\u00e9m era cr\u00edtica, mas n\u00e3o significativamente pior do que quando visitei o pa\u00eds em 2024, um m\u00eas depois de o governo ter aumentado o pre\u00e7o da gasolina em 500% da noite para o dia. Ap\u00f3s essa crise, muitos taxistas converteram seus carros para motores a diesel. H\u00e1 alguns meses, no entanto, o governo retirou abruptamente o diesel de circula\u00e7\u00e3o, reservando os estoques para uso militar e oficial. Mas em Cuba sempre h\u00e1 solu\u00e7\u00f5es alternativas. Encontrei taxistas sobrevivendo com diesel retirado de caminh\u00f5es de coleta de lixo e at\u00e9 mesmo de viaturas policiais. E em um pa\u00eds com taxas relativamente baixas de propriedade de carros, existem preocupa\u00e7\u00f5es maiores do que como se locomover. As usinas termel\u00e9tricas de Cuba funcionam a petr\u00f3leo, o que significa um aumento acentuado na frequ\u00eancia e dura\u00e7\u00e3o dos apag\u00f5es, que agora ultrapassam regularmente 24 horas, mesmo em Havana. As esta\u00e7\u00f5es de bombeamento n\u00e3o t\u00eam pot\u00eancia suficiente para levar \u00e1gua \u00e0s resid\u00eancias.<\/p>\n<p>A inseguran\u00e7a constante, agravada pelas san\u00e7\u00f5es americanas contra a Venezuela, e os cortes cont\u00ednuos em benef\u00edcios sociais e previdenci\u00e1rios t\u00eam afastado muitos cubanos do Estado. A apatia e o cinismo s\u00e3o generalizados, e o comportamento dos respons\u00e1veis n\u00e3o tem ajudado. Desde que Ra\u00fal Castro assumiu a presid\u00eancia em 2008, ap\u00f3s liderar as For\u00e7as Armadas de Cuba por meio s\u00e9culo, muitas das empresas mais lucrativas do Estado \u2013 casas de c\u00e2mbio, supermercados, postos de gasolina, a principal rede hoteleira estatal, telecomunica\u00e7\u00f5es, algumas opera\u00e7\u00f5es portu\u00e1rias \u2013 foram colocadas sob o controle do Grupo de Gesti\u00f3n Empresarial SA (GAESA), um conglomerado militar opaco criado em 1995. A GAESA foi administrada durante anos por seu genro, Luis Alberto Rodr\u00edguez L\u00f3pez-Calleja, e generais leais foram colocados no comando de v\u00e1rios de seus neg\u00f3cios. (Miguel D\u00edaz-Canel \u00e9 presidente desde 2018, mas todo cubano sabe que, mesmo aos 95 anos, Ra\u00fal ainda \u00e9 <em>el que corta el bacalao <\/em>\u2013 aquele que manda.) A GAESA parece n\u00e3o estar sujeita \u00e0 supervis\u00e3o do governo nem pagar impostos. Documentos vazados sugerem que seus lucros brutos chegam a quase 40% do PIB de Cuba e sua receita \u00e9 mais de tr\u00eas vezes maior que o or\u00e7amento do Estado.<\/p>\n<p>As previs\u00f5es de mudan\u00e7a ou colapso de regime partem do pressuposto da exist\u00eancia de uma \u00fanica base de poder. Tamb\u00e9m partem do pressuposto de que os membros do <em>establishment<\/em> s\u00e3o t\u00e3o afetados pelas san\u00e7\u00f5es e pelo colapso econ\u00f4mico gradual quanto o resto da popula\u00e7\u00e3o. O Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores respondeu \u00e0 diplomacia das canhoneiras de Washington sinalizando que acolheria a participa\u00e7\u00e3o dos EUA na \u201ctransforma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica\u201d de Cuba, mas descartou mudan\u00e7as pol\u00edticas. Caso o \u201cnovo amanhecer\u201d de Trump assuma a forma de uma abertura comercial, como na Venezuela, isso apenas consolidar\u00e1 o poder e a riqueza dos generais. Mesmo uma interven\u00e7\u00e3o militar \u2013 a captura de figuras importantes, nos moldes da opera\u00e7\u00e3o em Caracas \u2013 provavelmente resultaria em pouco mais do que uma reorganiza\u00e7\u00e3o da lideran\u00e7a, dada a aus\u00eancia de uma oposi\u00e7\u00e3o organizada.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1950, Fulgencio Batista acolheu de bra\u00e7os abertos o investimento estrangeiro, enriquecendo a si mesmo e aos seus ministros no processo. Um \u201cplano diretor\u201d urbano de 1958 \u2013 n\u00e3o concretizado antes da queda de Batista no ano seguinte \u2013 prometia expandir a \u201cfun\u00e7\u00e3o tur\u00edstica e recreativa de Havana\u201d atrav\u00e9s da demoli\u00e7\u00e3o de edif\u00edcios baixos ao longo da orla mar\u00edtima da capital e da constru\u00e7\u00e3o de uma \u201cilha-cassino\u201d na costa. Meio s\u00e9culo depois, a Organiza\u00e7\u00e3o Trump solicitou o registro de sua marca em Cuba, com a inten\u00e7\u00e3o de investir em hot\u00e9is, im\u00f3veis, campos de golfe e cassinos. Na medida em que a tenha, a vis\u00e3o de Trump para a ilha \u2013 que n\u00e3o possui as reservas minerais e petrol\u00edferas da Venezuela \u2013 prev\u00ea que Cuba volte a ser um estado cliente, uma oportunidade de investimento e um destino tur\u00edstico para os norte-americanos.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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