{"id":92870,"date":"2026-06-22T16:46:08","date_gmt":"2026-06-22T19:46:08","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/seguranca-o-brasil-que-nao-se-olha-no-espelho\/"},"modified":"2026-06-22T16:46:08","modified_gmt":"2026-06-22T19:46:08","slug":"seguranca-o-brasil-que-nao-se-olha-no-espelho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/seguranca-o-brasil-que-nao-se-olha-no-espelho\/","title":{"rendered":"Seguran\u00e7a: O Brasil que n\u00e3o se olha no espelho"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_5028373416548961426_y.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_5028373416548961426_y.jpg 1024w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_5028373416548961426_y-300x200.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_5028373416548961426_y-768x512.jpg 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_5028373416548961426_y-272x182.jpg 272w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption>Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Ponte Jornalismo<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<p><imgsrc=\"\" width=\"1\" height=\"1\" alt=\".\" border=\"0\">\n<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>Luiz Eduardo Soares<\/strong> soube, antes de quase todo mundo, que a pol\u00edcia do Rio de Janeiro n\u00e3o estava doente: estava funcionando exatamente como fora projetada. Em 17 de mar\u00e7o de 2000, um governador descobriu o pre\u00e7o de ter contratado algu\u00e9m que dizia isso em voz alta.<\/p>\n<p>A cena tem a economia de um roteiro de Padilha. Soares era o Coordenador de Seguran\u00e7a, Justi\u00e7a e Cidadania do governo Anthony Garotinho. Pronunciara, em p\u00fablico, duas palavras que ningu\u00e9m no Pal\u00e1cio Guanabara queria ouvir juntas: <em><strong>banda podre<\/strong><\/em>. Falava dos policiais que cobravam ped\u00e1gio do crime, que protegiam o jogo do bicho, que matavam por encomenda e dormiam tranquilos. Foi exonerado. Amea\u00e7ado de morte, ele e a fam\u00edlia deixaram o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Garotinho n\u00e3o demitiu Soares apesar do que ele denunciava; demitiu-o <em><strong>por causa<\/strong><\/em> do que ele denunciava. A \u201climpeza\u201d anunciada pelo governo \u2014 mil e oitocentos policiais afastados, dezenas de expulsos \u2014 era o teatro; a estrutura era o enredo. Bastaram oito anos para a ironia se fechar.<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/14--34.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/14--34.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/14-1-300x110.png 300w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Em 2008, a Pol\u00edcia Federal prendeu <strong>\u00c1lvaro Lins<\/strong>, o delegado que fora chefe da Pol\u00edcia Civil <em>dos dois<\/em> governos Garotinho (Anthony e Rosinha). A acusa\u00e7\u00e3o: chefiar uma quadrilha armada que loteava delegacias e vendia prote\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00e1fia dos ca\u00e7a-n\u00edqueis controlada pelo bicheiro Rog\u00e9rio Andrade.<\/p>\n<p>Lins foi condenado a vinte e oito anos. E Garotinho, o homem que demitira Soares em nome da moralidade, foi condenado <em>junto<\/em> \u2014 por forma\u00e7\u00e3o de quadrilha \u2014 e depois preso, em 2016, por compra de votos.<\/p>\n<p>O que Soares enxergava j\u00e1 estava escrito na paisagem, para quem soubesse ler. A figura do jagun\u00e7o \u2014 o bra\u00e7o armado do coronel, o matador a soldo do latif\u00fandio no p\u00f3s-escravid\u00e3o \u2014 n\u00e3o era folclore do sert\u00e3o. Era arqu\u00e9tipo vivo, n\u00facleo gravitacional ao qual a sociedade brasileira retorna como a um destino at\u00e1vico.<\/p>\n<p>Antes mesmo do golpe de 1964, o Rio j\u00e1 conhecia os Esquadr\u00f5es da Morte, a Scuderie Le Cocq, o M\u00e3o Branca: grupos de policiais mais not\u00f3rios que qualquer bandido lend\u00e1rio, antepassados diretos das mil\u00edcias.<\/p>\n<p>O regime militar n\u00e3o inventou esse arranjo. Herdou-o, naturalizou-o e o devolveu intacto \u00e0 democracia, decretando a amn\u00e9sia como nova ordem da cultura. \u00c9 a tese que atravessa toda a obra de Soares: o que define o capitalismo brasileiro como autorit\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 o regime de turno, mas sua natureza extraecon\u00f4mica \u2014 a viol\u00eancia que imobiliza o trabalho, ontem pela escravid\u00e3o, hoje pelo veto \u00e0 terra e pela p\u00f3lvora nas favelas.<\/p>\n<p>Em 2003, Lula o chamou para a Secretaria Nacional de Seguran\u00e7a P\u00fablica. Naquele momento, Soares embalou sonhos ampliados, n\u00e3o era mais um ente importante da Federa\u00e7\u00e3o; ele seria o principal formulador de pol\u00edtica p\u00fablica da Uni\u00e3o, de um pa\u00eds castigado pela inseguran\u00e7a que rouba a cidadania. Saiu deste cargo, tamb\u00e9m por press\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>H\u00e1 um Brasil que ele leu melhor que os manuais. O Brasil onde o povo, para nomear o aparelho que o vigia, o explora e ocasionalmente o mata, n\u00e3o diz \u201co Estado\u201d nem \u201ca pol\u00edcia\u201d: diz <em>Eles<\/em>. Pronome vago para uma alteridade poderosa, linguagem lacunar em que se cifra a luta de classes num pa\u00eds de sincretismos que tudo diluem.<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Arte-1_banner-site-outras-palavras_IC-na-Unesp_728x90-6.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Arte-1_banner-site-outras-palavras_IC-na-Unesp_728x90-6.png 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Arte-1_banner-site-outras-palavras_IC-na-Unesp_728x90-300x37.png 300w\" sizes=\"(max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>\u00c9 a mesma intui\u00e7\u00e3o que faz a antropologia s\u00e9ria h\u00e1 um s\u00e9culo: que sociedade alguma \u00e9 primitiva ou atrasada, que cada cultura organiza seu pr\u00f3prio sentido, que o observador que despreza o nativo nada compreende. Soares nunca precisou citar esses mestres para oper\u00e1-los; ele os pensa em portugu\u00eas, com sotaque carioca, diante de favelas cercadas.<\/p>\n<p>O roteiro continuou rodando depois dele, e piorou: Garotinho, condenado e preso. S\u00e9rgio Cabral, sucessor de seus aliados, hoje r\u00e9u condenado em dezessete a\u00e7\u00f5es, com penas que somam mais de duzentos e setenta anos. Pez\u00e3o, o vice que o seguiu, preso ao fim do mandato por receber mesada de propina. Witzel, eleito com o discurso da moralidade e da bala na cabe\u00e7a, afastado em pouco mais de um ano sob acusa\u00e7\u00e3o de desviar verba da sa\u00fade na pandemia.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, o atual flagelo do Estado do Rio: Cl\u00e1udio Castro, que herdou o pal\u00e1cio e, diante dos tiroteios da Avenida Brasil, encontrou a palavra m\u00e1gica \u2014 <em>terrorismo<\/em> \u2014 para rebatizar de guerra o que sempre foi abandono. Todos os governadores eleitos no Rio nos \u00faltimos trinta anos foram presos ou tirados do cargo. De 2003 a 2025, as a\u00e7\u00f5es policiais no estado do Rio mataram 23.159 pessoas. \u00c9 preciso dizer algo mais?<\/p>\n<p>O antrop\u00f3logo Luiz Eduardo Soares, professor na UNICAMP, no IUPERJ e na UERJ, tamb\u00e9m \u00e9 pesquisador visitante em\u00e9rito da FAPERJ e titular da C\u00e1tedra Patr\u00edcia Acioli no Col\u00e9gio Brasileiro de Altos Estudos da UFRJ. \u00c9 autor mais de vinte; dois deles \u2014 <em>Elite da Tropa<\/em> e a continua\u00e7\u00e3o, escritos com Andr\u00e9 Batista e Rodrigo Pimentel \u2014 viraram o cinema de Padilha e entregaram ao pa\u00eds o Capit\u00e3o Nascimento, isto \u00e9, entregaram \u00e0 classe m\u00e9dia a anatomia de uma viol\u00eancia que ela preferiria n\u00e3o nomear.<\/p>\n<p><strong>Eis a entrevista.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Se o Comando Vermelho nasce sob uma m\u00edstica de solidariedade coletiva no c\u00e1rcere da ditadura, o PCC refundou a criminalidade sob a l\u00f3gica da efici\u00eancia corporativa. Como o senhor analisa essa muta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de um <\/strong><em><strong>ethos<\/strong><\/em><strong> de sobreviv\u00eancia reativo para um modelo de governan\u00e7a empresarial transnacional?<\/strong><\/p>\n<p>A pergunta \u00e9 interessant\u00edssima e, a rigor, exigiria centenas de p\u00e1ginas e muita pesquisa emp\u00edrica, n\u00e3o algumas linhas sum\u00e1rias em uma breve entrevista. Portanto, minha resposta \u00e9 uma ousadia desmesurada e corre o risco da simplifica\u00e7\u00e3o e do reducionismo especulativo. Mesmo assim, tomo a liberdade de esbo\u00e7\u00e1-la. Ambos os grupos, CV e PCC, se formaram na pris\u00e3o, o que j\u00e1 indicia um dos paradoxos da tragicom\u00e9dia de erros a que t\u00eam se resumido as chamadas pol\u00edticas de seguran\u00e7a no Brasil: medidas repressivas potencializando os problemas a cuja \u201cresolu\u00e7\u00e3o\u201d supostamente se destinam. Formaram-se num esfor\u00e7o de autodefesa, ante viola\u00e7\u00f5es a seus direitos elementares, que culminaram, em S\u00e3o Paulo, no massacre do Carandiru. O PCC investiu no fortalecimento de la\u00e7os com egressos e suas fam\u00edlias, em pactua\u00e7\u00f5es entre os membros, envolvendo lealdades e obriga\u00e7\u00f5es m\u00fatuas, visando tanto a prote\u00e7\u00e3o aos internos \u2014 por meio do servi\u00e7o de advogados, por exemplo, e da cria\u00e7\u00e3o de sistemas de comunica\u00e7\u00e3o entre unidades \u2014 quanto \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica das fam\u00edlias. Tornou-se crescentemente relevante a ades\u00e3o a uma pauta \u00e9tico-pol\u00edtica que inclu\u00eda valores como fidelidade, orgulho pela autoimagem restaurada, coletivamente sustentada, senso compartilhado de dever, assim como a experi\u00eancia de pertencimento a uma comunidade dotada de identidade. Isso tudo importando em disciplina e um card\u00e1pio determinado de pr\u00e1ticas. Tratava-se de promover a organiza\u00e7\u00e3o (no Rio, presos pol\u00edticos demonstraram sua necessidade aos pioneiros do CV), que envolve ingredientes afetivos e simb\u00f3licos, e ordena o estabelecimento de rela\u00e7\u00f5es, cujas dimens\u00f5es complementares s\u00e3o solidariedade e hierarquia. Participar de um grupo dotado dessas caracter\u00edsticas dissolve, para os pr\u00f3prios membros, os componentes moral e psicologicamente degradantes da a\u00e7\u00e3o individual desviante, intensamente estigmatizada. N\u00e3o h\u00e1 grupo sem os sentimentos de orgulho e honra, esse auto-reasseguramento dialogicamente promovido, que garante a reprodu\u00e7\u00e3o dos la\u00e7os e das pr\u00e1ticas, isto \u00e9, confere estabilidade ao grupo e o dinamiza. A consist\u00eancia das ades\u00f5es passa a integrar a rota normalizada das expectativas, gerando um circuito de profecia autorrealizada.<\/p>\n<p>Aprendemos com Marx, Weber e, depois, Norbert Elias, entre outros autores, que os processos sociais ensejam e, por outro lado, derivam de combina\u00e7\u00f5es espec\u00edficas entre diferentes esferas da vida social \u2014 a economia, a pol\u00edtica, a cultura \u2014, energizadas pelo conflito entre projetos antag\u00f4nicos de poder, com destaque para a luta de classes. A cria\u00e7\u00e3o na Europa dos Estados nacionais gerava uma tra\u00e7\u00e3o centr\u00edpeta pol\u00edtico-econ\u00f4mica que se contrap\u00f4s \u00e0 din\u00e2mica fragment\u00e1ria dos baronatos feudais, cujas armadas se confrontavam com frequ\u00eancia imprevis\u00edvel, absorvendo for\u00e7a de trabalho masculina jovem, bloqueando potenciais de acumula\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, generalizando a viol\u00eancia, fracionando estruturas de poder e limitando a expectativa de vida. Trabalhadores no campo e guerreiros, o horizonte era a permanente amea\u00e7a e o destino prov\u00e1vel \u201ca morte violenta em m\u00e3os alheias\u201d, para usar a express\u00e3o hobbesiana. Entre os valores dispon\u00edveis no repert\u00f3rio cultural, sobressa\u00edam aqueles que se adaptavam \u00e0s exig\u00eancias do tempo, aos dilemas da exist\u00eancia, \u00e0s escassas possibilidades hist\u00f3ricas. As adapta\u00e7\u00f5es entre economia, pol\u00edtica, regimes afetivos, s\u00edmbolos, cren\u00e7as e valores se realizam \u00e0 moda da sele\u00e7\u00e3o natural, por acaso e necessidade, e pela ag\u00eancia humana, sob a forma de acomoda\u00e7\u00f5es rec\u00edprocas sob tens\u00e3o, n\u00e3o por determina\u00e7\u00f5es mec\u00e2nicas de uma infraestrutura dominante, mas pelo jogo de afinidades eletivas, se quisermos aplicar uma leitura evolucion\u00e1ria, por analogia aos ensinamentos da biologia de inspira\u00e7\u00e3o darwiniana, mal lidos como evolucionismo.<\/p>\n<p>Assim, quando Estados s\u00e3o criados, absorvendo e concentrando (at\u00e9 a monopoliza\u00e7\u00e3o) os meios de for\u00e7a e coer\u00e7\u00e3o, as armas e seu direito de us\u00e1-las s\u00e3o subtra\u00eddos dos poderes locais, os bar\u00f5es feudais s\u00e3o expropriados de suas mil\u00edcias e a nova din\u00e2mica centr\u00edpeta vai configurar nova gravita\u00e7\u00e3o cultural, novos padr\u00f5es de comportamento, novas linguagens valorativas, novos modelos de personalidade, novas modalidades de subjetiva\u00e7\u00e3o. Outras afinidades v\u00e3o eleger outros par\u00e2metros \u00e9ticos, estimulando novos comportamentos, novas dramaturgias cotidianas, novos ritos, posturas, expectativas: mudam os modos na corte, as maneiras de mesa, os h\u00e1bitos populares, as vestes aceit\u00e1veis, os planos para a forma\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos, os recortes entre p\u00fablico e privado, ainda incipientes.<\/p>\n<p>Passamos das exibi\u00e7\u00f5es ostensivas de valentia e coragem \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o da discri\u00e7\u00e3o, das artes da persuas\u00e3o, da capacidade de discernir significados ocultos em mensagens cifradas nos c\u00f3digos pol\u00edticos. Da guerra, passamos \u00e0 pol\u00edtica, do \u00edmpeto, \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o, das aptid\u00f5es f\u00edsicas, \u00e0s artes da articula\u00e7\u00e3o, da bravura, \u00e0s virtudes do negociador. Nascer\u00e3o, com o capitalismo e a supremacia burguesa, as psicologias, os romances policiais investigativos, as etiquetas que mais ocultam do que revelam, as roupas que uniformizam e a grande dissimula\u00e7\u00e3o alienante do fetiche, outro nome para o reino da mercadoria.<\/p>\n<p>De nossa parte, vamos passar, aqui, da grande hist\u00f3ria burguesa, que ser\u00e1 tamb\u00e9m a nossa pela media\u00e7\u00e3o do colonialismo, ao problema do ethos de fac\u00e7\u00f5es criminosas. Lembremo-nos de que estamos falando em capitalismo: a cr\u00f4nica do crime em nosso pa\u00eds \u00e9 a cr\u00f4nica do capital na periferia do ocidente. O salto de um tema a outro deve ser tomado como o tr\u00e2nsito da ilustra\u00e7\u00e3o simplificada de um m\u00e9todo de abordagem \u2013 na an\u00e1lise de rela\u00e7\u00f5es entre diferentes dimens\u00f5es da vida social \u2013 para um ensaio rudimentar de sua aplica\u00e7\u00e3o. A pergunta chave ser\u00e1: no Brasil, qual mudan\u00e7a ter\u00e1 ocorrido no centro de gravita\u00e7\u00e3o que selecionar\u00e1 valores e rotas de comportamento? Qual transforma\u00e7\u00e3o ter\u00e1 acontecido no centro gravitacional produzido pela articula\u00e7\u00e3o entre racionaliza\u00e7\u00e3o das atividades econ\u00f4micas e busca de maximizar poder, prote\u00e7\u00e3o, acumula\u00e7\u00e3o, aflu\u00eancia e estabilidade? Essa mudan\u00e7a se dar\u00e1 no per\u00edodo marcado pelo decl\u00ednio da ditadura, pela emerg\u00eancia de nossa prec\u00e1ria democracia, pela crise econ\u00f4mica legada pelos militares, que acompanha o fim da Guerra Fria, pela afirma\u00e7\u00e3o unilateral do imperialismo estadunidense sob a forma do neoliberalismo globalizado. A coca\u00edna chegar\u00e1 logo ao Brasil, lembremo-nos. Entre n\u00f3s, n\u00e3o haver\u00e1 Justi\u00e7a de transi\u00e7\u00e3o. Pior: a arquitetura institucional da seguran\u00e7a p\u00fablica (em particular o sistema penitenci\u00e1rio e o modelo policial bifronte e militarizado) ser\u00e1 mantida, incorporada e naturalizada pelo novo ecossistema democr\u00e1tico, gerando uma contradi\u00e7\u00e3o estridente de efeitos racistas sanguin\u00e1rios (eu diria, genocidas), sobretudo quando a natureza militar da pol\u00edcia mais numerosa e ativa se mostrar imperme\u00e1vel a controles externos, inclusive do Minist\u00e9rio P\u00fablico.<\/p>\n<p>Ante a falta de tradi\u00e7\u00e3o aut\u00f3ctone de banditismo social, quando o crime viu-se instado a se modernizar, em sintonia com o andamento do pa\u00eds, as pol\u00edcias (antecedendo o empresariado de faro predador) ocuparam o lugar de modelos a emular. Modelos de espolia\u00e7\u00e3o, rapinagem, chantagem, explora\u00e7\u00e3o de oportunidades il\u00edcitas e brutalidade extralegal organizada. Modelos que, entretanto, incorporaram a abertura a alian\u00e7as verticais e horizontais com agentes e institui\u00e7\u00f5es, substituindo ou cooptando mediadores pol\u00edticos locais. Mencionei a falta de tradi\u00e7\u00e3o, porque, j\u00e1 nos anos 1980, os milenarismos estavam perdidos nos cap\u00edtulos quase imemoriais do tempo e as lendas \u00e9picas dos Lampi\u00f5es, reis do canga\u00e7o, haviam se folclorizado no relic\u00e1rio dos regionalismos, enquanto o Brasil era revirado celeremente por migra\u00e7\u00f5es internas em escala dantesca, em cujo ambiente modernizar-se e urbanizar-se brandiam a b\u00edblia do esquecimento \u2014 o golpe de 1964 decretara a amn\u00e9sia hist\u00f3rica como a nova ordem da cultura. Antes de 64 e, ao longo da ditadura, tomando o Rio de Janeiro como refer\u00eancia, mais not\u00f3rios do que Mineirinho, Cara de Cavalo, a Fera da Penha ou o Bandido da Luz Vermelha, eram os grupamentos policiais: os Esquadr\u00f5es da Morte, a Scuderie Le Cock, o M\u00e3o Branca etc., antecessores das mil\u00edcias mafiosas no imagin\u00e1rio e na realidade social do Rio. Contudo, o mais importante n\u00e3o foram os indiv\u00edduos lend\u00e1rios, mas a presen\u00e7a constante e a atua\u00e7\u00e3o de grupos policiais, em geral fi\u00e9is a expectativas sociais forjadas em longa trajet\u00f3ria, que nos remete aos confins mais remotos do Brasil profundo, mas se apresenta pleno no primitivo arranjo republicano.<\/p>\n<p>O padr\u00e3o policial violento que perdura, atravessando mudan\u00e7as de regime e de Constitui\u00e7\u00f5es, s\u00f3 alcan\u00e7a estabilidade quase atemporal porque boa parte da sociedade (naturalizando desigualdades e racismo) manteve aberto esse lugar, mesmo depois dos anos de chumbo da ditadura de 64, recusando-se inclusive a adotar universalmente os princ\u00edpios ditados pela Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, em cujos termos seguran\u00e7a corresponde \u00e0 garantia de direitos, o que significa que aos profissionais da seguran\u00e7a p\u00fablica compete o dever de servir \u00e0 cidadania, independentemente de cor, ra\u00e7a, territ\u00f3rio ou classe social. \u00c9 verdade que este \u00e9 o lado escuro da lua, pois as institui\u00e7\u00f5es policiais vivem tensionadas pelo choque entre a heran\u00e7a que se prolonga, relan\u00e7ada ao futuro como sinistra voca\u00e7\u00e3o, e o compromisso constitucional, que engaja a outra parte dos profissionais. Essa divis\u00e3o, entretanto, \u00e9 neutralizada pela predomin\u00e2ncia do vi\u00e9s soturno na rela\u00e7\u00e3o com as classes subalternizadas.<\/p>\n<p>Quando me reporto \u00e0 longa tradi\u00e7\u00e3o, que nos remete aos confins mais remotos do Brasil profundo, mas se apresenta plena no primitivo arranjo republicano, me refiro \u00e0 pregn\u00e2ncia hist\u00f3rica do coronelismo como estrutura de governan\u00e7a local, em que se destacava a figura do jagun\u00e7o (mercen\u00e1rio ou miliciano), membro da tropa privada do patr\u00e3o (latifundi\u00e1rio, senhor de Engenho), bra\u00e7o armado coercitivo do mandonismo rural, no imediato p\u00f3s-escravismo da primeira Rep\u00fablica, que restou para a posteridade como sinaliza\u00e7\u00e3o arquet\u00edpica, n\u00facleo gravitacional que atrai repeti\u00e7\u00e3o obsessiva, origem a que se retorna compulsivamente, como um destino at\u00e1vico. Uma variante do jagun\u00e7o ser\u00e1 o matador a soldo, fiel a um senhor ou livre no mercado como empreendedor independente. N\u00e3o deve nos surpreender o fato de que a seguran\u00e7a privada serviu \u00e0s classes dominantes ao longo do s\u00e9culo, atravessando distra\u00edda as fronteiras complacentes da legalidade \u2014 legalidade, diga-se, cambiante, embora predominantemente c\u00famplice da explora\u00e7\u00e3o do trabalho e do dom\u00ednio de classe. Vamos flagrar a r\u00e9plica tardia do modelo, por exemplo, no apoio armado \u00e0 supremacia pol\u00edtico-econ\u00f4mica dos bicheiros na Baixada Fluminense, que permanece vigente, intangida pela transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, depois de ter se associado \u00e0 ditadura. O apoio armado envolvia muitas vezes dupla jornada, pois a seguran\u00e7a dos criminosos locais era frequentemente realizada por profissionais das pol\u00edcias que, via de regra, ganhavam mais no segundo emprego.<\/p>\n<p>Quando o crime se organiza pela primeira vez em escala significativa no Rio de Janeiro, no come\u00e7o dos anos 1980, aproveitando as oportunidades oferecidas pelo neg\u00f3cio das subst\u00e2ncias il\u00edcitas (sobretudo pela chegada da coca\u00edna, no momento em que a atmosfera cultural girava do modo Hippie para a onda Yuppie, no embalo da mar\u00e9 ultra individualista e produtivista neoliberal), seu espelho, do qual extrair\u00e1 as sementes de seu ethos, n\u00e3o ser\u00e3o os partidos clandestinos da resist\u00eancia pol\u00edtica \u2014 o conv\u00edvio com presos pol\u00edticos na Ilha Grande apenas mostrou a import\u00e2ncia da solidariedade como autodefesa contra as viola\u00e7\u00f5es perpetradas pelo Estado \u2014, mas a pol\u00edcia. N\u00e3o se trata de qualquer pol\u00edcia, mas de uma ag\u00eancia que traz consigo o peso devastador de uma hist\u00f3ria brutal, de vi\u00e9s racista e de classe, hist\u00f3ria que se define a partir do polo essencialmente autorit\u00e1rio de nosso capitalismo. Explico: o que caracteriza como autorit\u00e1rio o capitalismo brasileiro, conforme nos ensinou Otavio Velho (<em>Capitalismo autorit\u00e1rio e campesinato<\/em>; SP: Difel, 1976), independentemente do regime pol\u00edtico, \u00e9 sua natureza extraecon\u00f4mica, jur\u00eddico-pol\u00edtica, uma vez que sua condi\u00e7\u00e3o de possibilidade, desde a origem, foi a imobiliza\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho, seja pela escravid\u00e3o, seja pelo bloqueio do acesso \u00e0 terra e o veto \u00e0 reforma agr\u00e1ria. A pol\u00edtica, expressiva de interesse de classe, dita a Lei, cuja vig\u00eancia requer coer\u00e7\u00e3o, delegada aos operadores da for\u00e7a, sendo que o exerc\u00edcio da for\u00e7a, no mundo descentralizado dos coron\u00e9is, prescindia de media\u00e7\u00f5es institucionais, assim como jagun\u00e7os prescindiam da ins\u00edgnia do Estado.<\/p>\n<p><em>Ethos<\/em> s\u00e3o valores, ligados a cren\u00e7as, que orientam comportamentos, dirigem pr\u00e1ticas, ordenam subjetividades em torno de regimes afetivos e autoimagens, tecidas coletiva e individualmente na experi\u00eancia comum do pertencimento a corpora\u00e7\u00f5es, grupos, subgrupos, fam\u00edlias etc. Orientam e s\u00e3o orientados: o fluxo formador e transformador admite din\u00e2micas diversas (evito aqui o adjetivo \u201cdial\u00e9ticas\u201d porque n\u00e3o se trata, de fato, de um processo desse tipo \u2014 ali\u00e1s, tampouco se trata de um \u00fanico tipo). Para simplificar, diria que fundamental \u00e9 o apre\u00e7o que se devota \u00e0 for\u00e7a, como base autossuficiente da legitimidade do poder que se exerce ao mobiliz\u00e1-la, real ou potencialmente. For\u00e7a traduzida no recurso \u00e0 arma, o que delineia um perfil guerreiro, qualificado pela coragem reconhecida e a lealdade ao grupo de refer\u00eancia. Outros elementos n\u00e3o entram no julgamento, n\u00e3o se trata de justi\u00e7a, ainda que a avalia\u00e7\u00e3o da moralidade das a\u00e7\u00f5es eventualmente considere o respeito a alguns limites, mas n\u00e3o necessariamente.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos arqu\u00e9tipos com os quais inconscientemente se identificam os que internalizam (e metabolizam) o ethos da nova criminalidade armada e organizada, espelhando-se no exemplo oferecido por institui\u00e7\u00f5es do Estado, outros tr\u00eas fatores tamb\u00e9m atuam como guias formativos da subjetividade protot\u00edpica: (1) A estrutura patriarcal, que \u00e9 social, cultural e ps\u00edquica (sabendo-se que mais do que v\u00ednculo externo entre masculinidade e viol\u00eancia, os la\u00e7os s\u00e3o internos e constitutivos, a tal ponto que n\u00e3o seria exagero afirmar que masculinidade tem sido uma modula\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia em nossa sociedade, e n\u00e3o apenas). (2) O fen\u00f4meno que denomino dupla mensagem da cultura brasileira: as balizas formais do Estado democr\u00e1tico de direito proclamam a igualdade; o dia a dia da sociedade brasileira reitera, substantivamente, as desigualdades, manchando a forma com o verniz do cinismo. Sabemos que a dupla mensagem na forma\u00e7\u00e3o familiar \u201cenlouquece\u201d a crian\u00e7a. No Brasil, desnorteia as v\u00edtimas das iniquidades, abrindo caminho para apropria\u00e7\u00f5es igualmente c\u00ednicas da estrutura ambivalente. Se o cinismo d\u00e1 o tom no comportamento das elites (da meritocracia \u00e0s manipula\u00e7\u00f5es judiciais), por que o crime n\u00e3o se sentiria liberado para rezar pela mesma cartilha? (3) E o impulso produzido pela racionaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica das atividades criminais, em sinergia com o processo de desenvolvimento do capitalismo -e aqui o caminho se bifurca entre Rio e S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p><strong>A literatura cl\u00e1ssica pensava a pris\u00e3o como espa\u00e7o de exclus\u00e3o e controle total do Estado, mas hoje ela funciona como o verdadeiro QG regulador do mercado criminal externo. O fracasso estrutural do sistema carcer\u00e1rio brasileiro foi, na verdade, a pr\u00e9-condi\u00e7\u00e3o para o sucesso dessa gest\u00e3o monopolista das fac\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o sei se pr\u00e9-condi\u00e7\u00e3o seria a categoria correta, porque talvez exigisse que consider\u00e1ssemos o contrafactual como refer\u00eancia comparativa, sob a forma da pergunta: n\u00e3o houvesse este sistema carcer\u00e1rio, as fac\u00e7\u00f5es existiriam como hoje existem, com voca\u00e7\u00f5es monopolistas, isto \u00e9, disputando o mercado do crime com vistas a monopoliz\u00e1-lo? Como n\u00e3o podemos recorrer ao contrafactual, o melhor provavelmente seria apenas dizer que o sistema carcer\u00e1rio foi um fator relevante para a forma\u00e7\u00e3o e o fortalecimento das fac\u00e7\u00f5es. Isso me parece ineg\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>Investiga\u00e7\u00f5es recentes mostram fac\u00e7\u00f5es controlando centenas de postos de combust\u00edveis e mot\u00e9is, movimentando bilh\u00f5es no mercado legal. Diante desse \u201ccapitalismo de fachada\u201d, ainda faz sentido cindir a economia entre legal e ilegal, ou o crime organizado j\u00e1 se tornou s\u00f3cio indissoci\u00e1vel da acumula\u00e7\u00e3o de capital no pa\u00eds?<\/strong><\/p>\n<p>As duas coisas, concordo com ambas as hip\u00f3teses. Elas n\u00e3o se excluem. Por um lado, o crime organizado j\u00e1 integra as din\u00e2micas do capital, e n\u00e3o s\u00f3 no Brasil. H\u00e1 duas d\u00e9cadas, os dados internacionais j\u00e1 demonstravam que praticamente todos os setores da economia incorporavam recursos de origem criminosa. Dos shoppings aos transportes de todos os tipos, das finan\u00e7as ao turismo, da constru\u00e7\u00e3o civil ao petr\u00f3leo, das armas aos servi\u00e7os, tudo que se mostrava rent\u00e1vel recebia investimentos na procura por lavar dinheiro e multiplic\u00e1-lo. O caminho natural do capital \u00e9 buscar o lucro, onde quer que ele esteja. Nada mais conveniente ao capital indiferente \u00e0 legalidade do que a circula\u00e7\u00e3o globalizada numa economia desregulada. Ou seja, tanto quanto os para\u00edsos fiscais, o neoliberalismo \u00e9 o mundo ideal do crime de alto calibre. Por outro lado, ainda acho que continua valendo a pena n\u00e3o aben\u00e7oar a hibridiza\u00e7\u00e3o definitiva e irrevers\u00edvel entre o legal e o ilegal, ao menos como tipos ideais, autorizando a resist\u00eancia da sociedade civil democr\u00e1tica. Sabemos que n\u00e3o h\u00e1 assepsia absoluta, mas nem por isso dever\u00edamos aceitar que cirurgias se fa\u00e7am no p\u00e2ntano. O capitalismo \u00e9 a\u00e9tico, n\u00e3o tem qualquer compromisso com democracia ou justi\u00e7a, entretanto, politicamente, continua sendo importante denunciar a coaliza\u00e7\u00e3o entre setores do empresariado e as elites do crime, at\u00e9 mesmo como recurso para expor as contradi\u00e7\u00f5es do <em>status quo<\/em> e para indicar a necessidade de supera\u00e7\u00e3o da ordem do capital.<\/p>\n<p><strong>O cidad\u00e3o perif\u00e9rico hoje n\u00e3o lida apenas com a aus\u00eancia do Estado, mas com uma sobreposi\u00e7\u00e3o cotidiana de soberanias: a mil\u00edcia, o tr\u00e1fico e a letalidade policial. De que maneira essa fragmenta\u00e7\u00e3o do monop\u00f3lio da viol\u00eancia reconfigura a pr\u00f3pria experi\u00eancia de cidadania e a subjetividade urbana no Rio?<\/strong><\/p>\n<p>A resposta exige um livro, mas vamos l\u00e1. O antrop\u00f3logo brit\u00e2nico Edmund Leach se antepunha \u00e0 rigidez que via no estruturalismo franc\u00eas, propondo a \u201cTopologia\u201d como refer\u00eancia. Imaginemos uma superf\u00edcie el\u00e1stica, feita de borracha, por exemplo. Se desenharmos na superf\u00edcie pontos e linhas que os relacionem, a estrutura se manter\u00e1, a despeito da reconfigura\u00e7\u00e3o da forma, provocada pelas dobras e por nossos pux\u00f5es na borracha. Teremos uma geometria em movimento e o desafio ser\u00e1 descobrir a estrutura nas transforma\u00e7\u00f5es, ou a estrutura das transforma\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O fen\u00f4meno fluminense (e n\u00e3o s\u00f3) talvez seja an\u00e1logo, em alguma medida. O Estado \u2014 seus bra\u00e7os policiais, institucionais, o sistema de justi\u00e7a, que inclui as unidades penitenci\u00e1rias, os par\u00e2metros normativos formais e as pr\u00e1ticas cotidianas \u2014 \u00e9 um Outro, relativamente \u00e0 experi\u00eancia di\u00e1ria das comunidades \u2014 dos bairros, das vizinhan\u00e7as, das favelas, da cidade, da sociedade. Um Outro que se teme e despreza, ou do qual se demanda ordem e prote\u00e7\u00e3o, ou um m\u00ednimo de justi\u00e7a, cuja m\u00e1scara muda conforme conjunturas e momentos hist\u00f3ricos, mas que n\u00e3o perde sua natureza ex\u00f3gena. \u00c9 sempre um Outro que responde, em \u00faltima inst\u00e2ncia, a mecanismos distantes e incontrol\u00e1veis, submetidos a interesses pr\u00f3prios \u2014 em meu livro <em>O Brasil e seu Duplo<\/em> (Todavia, 2019), digo que a popula\u00e7\u00e3o usa o pronome \u201cEles\u201d para designar essa nebulosa alteridade. Esta \u00e9 a linguagem lacunar em que se expressa a luta de classes no pa\u00eds dos sincretismos diluidores.<\/p>\n<p>Se o Estado monopolizasse o uso leg\u00edtimo dos meios de for\u00e7a ou coer\u00e7\u00e3o, o estranhamento persistiria, a desidentifica\u00e7\u00e3o cidad\u00e3 permaneceria, mas teria contornos diferentes dos que se apresentam para n\u00f3s, uma vez que, na realidade, esse monop\u00f3lio nunca existiu plenamente. Sempre foi perme\u00e1vel a disputas e negocia\u00e7\u00f5es com agentes seus \u2014 que se autonomizam \u2014 ou alheios, sempre foi vazado por dom\u00ednios privados \u2014 ou que se desgarram da estrutura do Estado e se privatizam, se autonomizam, no processo dessas disputas pelo exerc\u00edcio do poder local. A consequ\u00eancia \u00e9 que a experi\u00eancia fluminense n\u00e3o \u00e9 a do choque ou a da perplexidade com a perda da \u201csoberania\u201d do Estado, mas a da progressiva extens\u00e3o do elenco das elites autoerigidas em despotismos locais, a da expans\u00e3o da elasticidade das formas de media\u00e7\u00e3o pelas quais se afirmam os mandonismos centr\u00edfugos. O que compensa a extens\u00e3o el\u00e1stica, bloqueando a ruptura definitiva que desmembraria o territ\u00f3rio em arquip\u00e9lagos balcanizados, \u00e9 o movimento centr\u00edpeto encetado pelas fac\u00e7\u00f5es criminosas (traficantes ou milicianas), que sinalizam a exist\u00eancia de uma dimens\u00e3o de unidade, nem que seja incerta e porosa, armada pelo guarda-chuva simb\u00f3lico da constela\u00e7\u00e3o tot\u00eamica: quem \u201c\u00e9\u201d do comando tal ou qual, que espa\u00e7o \u201cpertence\u201d a um ou outro etc. H\u00e1, portanto, v\u00e1rios Outros, que ora entram em confronto, ora se aliam, mas replicam a mesma l\u00f3gica: constituem polos armados contra os quais se afirma uma comunidade. Por\u00e9m, essa afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 antes negativa do que positiva, a identidade \u00e9 contrastiva, o que esvazia seu potencial pol\u00edtico e refrata, enfraquecendo-o, seu protagonismo. As a\u00e7\u00f5es coletivas tendem a ser reativas, a se despolitizar, dificilmente escalam a um plano superior na luta por outro mundo. \u201cEles\u201d \u00e9 nome vago da alteridade poderosa, que n\u00e3o suporta um n\u00f3s antag\u00f4nico substancial. \u201cEles\u201d n\u00e3o serve s\u00f3 para nomear a alteridade estatal. Aplica-se genericamente ao espectro fantasmal, o Outro, que parasita a vitalidade comunit\u00e1ria e drena vontade e consci\u00eancia pol\u00edtica do ator coletivo popular.<\/p>\n<p><strong>Quando o governador Cl\u00e1udio Castro rotula tiroteios na Avenida Brasil como \u201catos terroristas\u201d, ele tensiona a seguran\u00e7a em confrontos urbanos pesados que vitimam inocentes. Esse espet\u00e1culo de guerra aberta \u00e9 uma estrat\u00e9gia deliberada de marketing pol\u00edtico ou a confiss\u00e3o \u00faltima da impot\u00eancia institucional do Estado?<\/strong><\/p>\n<p>De novo, respondo: as duas coisas. Ambas est\u00e3o certas. Trata-se de marketing pol\u00edtico e confiss\u00e3o de impot\u00eancia, ao mesmo tempo. Eis a\u00ed outra modalidade da dupla mensagem, \u201cenlouquecendo\u201d a popula\u00e7\u00e3o. O governador est\u00e1 convocando a sociedade para celebrar a morte no rito canibal que prop\u00f5e, exaltando o \u00f3dio vingador, num festival de sangue e fogo. Ele quer ati\u00e7ar o \u00f3dio e aliar-se ao \u00f3dio, fazer-se canal de manifesta\u00e7\u00e3o da repulsa popular ao crime. Mas todo mundo sabe, ou intui, que o espet\u00e1culo justiceiro n\u00e3o tem a mais remota rela\u00e7\u00e3o com resolver problemas. Nada, relativo aos problemas do crime, foi sequer tangenciado. O aspecto mais perverso desse jogo \u00e9 triplo: perpetra carnificinas; aprofunda a confus\u00e3o entre justi\u00e7a e vingan\u00e7a; e intensifica o racismo e os preconceitos de classe, na medida em que as incurs\u00f5es policiais apontam para a favela como sede do mal. Opera\u00e7\u00f5es militarizadas em favelas s\u00e3o o endere\u00e7amento pol\u00edtico da abje\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p><strong>A press\u00e3o pol\u00edtica para classificar grandes fac\u00e7\u00f5es brasileiras como \u201cgrupos terroristas\u201d avan\u00e7a no debate p\u00fablico. O senhor enxerga nisso um ganho real de ferramentas de intelig\u00eancia ou um atalho ret\u00f3rico perigoso que visa apenas justificar o estado de exce\u00e7\u00e3o permanente e o exterm\u00ednio nas favelas?<\/strong><\/p>\n<p>Esse tipo de classifica\u00e7\u00e3o \u00e9 exclusivamente pol\u00edtico e prov\u00e9m do repert\u00f3rio da extrema-direita. Quando proposto por vozes brasileiras, antes da era Trump, tinha o objetivo de abrir espa\u00e7o ao envolvimento das For\u00e7as Armadas na seguran\u00e7a p\u00fablica, por meio da multiplica\u00e7\u00e3o de GLOs. Quando decretado pelo governo Trump, tem a finalidade de amea\u00e7ar a soberania do Brasil, erguendo a espada de D\u00e2mocles sobre o pa\u00eds, uma vez que a legisla\u00e7\u00e3o interna dos EUA, em sua not\u00f3ria autossufici\u00eancia imperial, autoriza interven\u00e7\u00e3o em qualquer territ\u00f3rio extranacional se a finalidade for a pris\u00e3o (o sequestro internacional) ou a neutraliza\u00e7\u00e3o (a execu\u00e7\u00e3o) de indiv\u00edduos ou grupos terroristas. Trata-se de uma carta branca para a mais despudorada pirataria.<\/p>\n<p><strong>A recente classifica\u00e7\u00e3o do PCC e do CV como organiza\u00e7\u00f5es terroristas globais por Marco Rubio, sob a administra\u00e7\u00e3o Trump, opera um corte geopol\u00edtico n\u00edtido ao omitir as mil\u00edcias. Como o senhor interpreta esse sil\u00eancio anal\u00edtico norte-americano sobre os grupos paraestatais profundamente infiltrados na m\u00e1quina p\u00fablica nacional?<\/strong><\/p>\n<p>A categoria pol\u00edtica \u201cterrorista\u201d qualifica operadores de crimes em escala transnacional, cuja din\u00e2mica possa afetar os EUA, direta ou indiretamente. Por ora, as mil\u00edcias n\u00e3o t\u00eam esse potencial. Mas \u00e9 claro que elas estar\u00e3o implicadas (assim como o sistema banc\u00e1rio), na medida em que se associarem ao CV e ao PCC. De todo modo, tudo isso n\u00e3o passa de teatro para fornecer, ao arb\u00edtrio do governo dos EUA, os meios legais (e pol\u00edticos) para eventual interven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Ao internacionalizar o conflito dom\u00e9stico, o enquadramento de Washington abre precedentes para san\u00e7\u00f5es severas e bloqueios de ativos que atingem o sistema financeiro nacional. Quais s\u00e3o os riscos reais de essa din\u00e2mica de exce\u00e7\u00e3o transnacional desorganizar o pacto federativo e fraturar o Estado por dentro?<\/strong><\/p>\n<p>Os riscos s\u00e3o reais, o que n\u00e3o significa que a interven\u00e7\u00e3o ser\u00e1 efetivada. Tudo vai depender das condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e dos interesses dos EUA. Eles agora t\u00eam, al\u00e9m das tarifas, mais um instrumento de chantagem, que pode ser usado para reduzir nossos la\u00e7os com a China, com os BRICS, e assim por diante. De resto, a fratura interna j\u00e1 existe, tornou-se ostensiva no impeachment de Dilma Rousseff. O bolsonarismo exibiu a profundidade da ruptura do pacto constitucional, retirando a camuflagem do racha que j\u00e1 era fratura exposta desde o golpe, capitaneado por Eduardo Cunha e Michel Temer, sob as b\u00ean\u00e7\u00e3os do general Vilas-Boas. O Estado democr\u00e1tico de direito est\u00e1 atravessado pelo tensionamento pol\u00edtico-ideol\u00f3gico que Lula esfor\u00e7ou-se por suturar, mas que continua amea\u00e7ando irromper em crise radical. As institui\u00e7\u00f5es s\u00e3o campos de batalha. O equil\u00edbrio \u00e9 prec\u00e1rio. A hegemonia neoliberal jogou o capitalismo contra o pacto social-democrata, consagrado na Carta de 1988, abrindo espa\u00e7o para a emerg\u00eancia do neofascismo bolsonarista, cujo projeto (antissistema) aponta para o encerramento do ciclo democr\u00e1tico, inaugurado pela chamada Nova Rep\u00fablica.<\/p>\n<p><strong>O senhor cunhou o termo \u201cenclaves institucionais\u201d para definir corpora\u00e7\u00f5es policiais refrat\u00e1rias ao controle civil republicano. Como quebrar o cord\u00e3o umbilical de propinas e cumplicidades que conecta setores dessas for\u00e7as de seguran\u00e7a \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o financeira de complexos criminosos?<\/strong><\/p>\n<p>Vejo as pol\u00edcias como enclaves institucionais, refrat\u00e1rios \u00e0 autoridade civil pol\u00edtica e \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o, embora haja varia\u00e7\u00f5es no tempo e no espa\u00e7o, de acordo com as diferentes tradi\u00e7\u00f5es corporativas regionais e com as conjunturas pol\u00edticas. A rigor, ouso sustentar que nenhum governador comandou suas pol\u00edcias, no sentido forte do verbo. A autonomiza\u00e7\u00e3o ilegal se mostra tamb\u00e9m na ponta do controle externo, porque o Minist\u00e9rio P\u00fablico n\u00e3o cumpre seu dever constitucional de exerc\u00ea-lo, tornando-se c\u00famplice, no m\u00ednimo por omiss\u00e3o, do verdadeiro genoc\u00eddio de jovens negros e pobres, moradores dos territ\u00f3rios vulnerabilizados. De 2003 a 2025, no estado do Rio, houve 23.159 mortes provocadas por a\u00e7\u00f5es policiais. \u00c9 preciso dizer algo mais? Por isso, quando pensamos em d\u00e9ficit de soberania do Estado em raz\u00e3o do dom\u00ednio territorial imposto por grupos armados \u2014 traficantes e milicianos, cada vez mais parecidos \u2014, devemos estender a preocupa\u00e7\u00e3o \u00e0 autonomiza\u00e7\u00e3o inconstitucional, experimentada pelos enclaves policiais. Essa problem\u00e1tica \u00e9 a contraface da corrup\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o ser\u00e1 detida com a mera puni\u00e7\u00e3o de desvios de conduta individuais. No Rio de Janeiro, embora haja milhares de profissionais honestos e honrados, que arriscam suas vidas por sal\u00e1rios injustos, o n\u00edvel de promiscuidade com o crime provocou verdadeira degrada\u00e7\u00e3o institucional. Para reverter esse quadro, ser\u00e1 preciso um esfor\u00e7o de refunda\u00e7\u00e3o, que acabe com o enclave e inscreva as corpora\u00e7\u00f5es, n\u00e3o apenas formalmente, no Estado democr\u00e1tico de direito. A deteriora\u00e7\u00e3o se d\u00e1 sobretudo por duas vias: (1) a ado\u00e7\u00e3o de execu\u00e7\u00f5es extrajudiciais como pol\u00edtica, isto \u00e9, a autoriza\u00e7\u00e3o para matar (n\u00e3o me refiro \u00e0 leg\u00edtima defesa, \u00e9 claro); (2) e a \u201cvista grossa\u201d para o envolvimento dos policiais com o mercado da seguran\u00e7a privada ilegal e informal. Vejamos a primeira via: quando o superior d\u00e1 ao policial na ponta autoriza\u00e7\u00e3o para matar, d\u00e1-lhe tamb\u00e9m, tacitamente, autoriza\u00e7\u00e3o para negociar a sobreviv\u00eancia do suspeito. Isso gera um mercado clandestino que tende a se racionalizar sob a forma de pactos, os \u201carregos\u201d, associando segmentos policiais a grupos criminosos. Pode-se deduzir os desdobramentos. Quanto \u00e0 segunda via, a seguran\u00e7a privada informal, observe-se que por mais que haja profissionais que se envolvem porque precisam completar a renda e mant\u00eam postura honesta, mesmo atuando fora da lei (que pro\u00edbe aos policiais esse trabalho, a n\u00e3o ser excepcionalmente), n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil entender como muitos outros v\u00e3o al\u00e9m, gerando inseguran\u00e7a para promover a venda de seguran\u00e7a. Tamb\u00e9m se deduz o que vem na sequ\u00eancia. Por esse motivo, digo que as mil\u00edcias s\u00e3o filhas bastardas da seguran\u00e7a privada informal.<\/p>\n<p><strong>Em suas reflex\u00f5es, o senhor aponta para a urg\u00eancia de uma \u201cescuta intergeracional\u201d para reconstruir v\u00ednculos sociais dilacerados. Diante de uma m\u00e1quina econ\u00f4mico-religiosa-criminal t\u00e3o entranhada na base da sociedade, por onde come\u00e7amos a tecer essa alternativa sem cair no messianismo punitivo?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o sei por onde come\u00e7amos. Minha inten\u00e7\u00e3o era sugerir o di\u00e1logo aberto entre gera\u00e7\u00f5es de militantes e intelectuais socialistas, porque me parecia, e ainda parece, que parte do contencioso, das diverg\u00eancias e at\u00e9 dos antagonismos derive de mal-entendidos, de preconceitos, da falta de interlocu\u00e7\u00e3o. N\u00e3o me referia a di\u00e1logos intergeracionais na sociedade, de um modo geral, embora di\u00e1logos costumem ser experi\u00eancias produtivas para todos, havendo disposi\u00e7\u00e3o para escutar. Quanto ao punitivismo, \u00e9 uma tradi\u00e7\u00e3o lament\u00e1vel que confunde puni\u00e7\u00e3o com vingan\u00e7a, lament\u00e1vel, mas plenamente compreens\u00edvel em uma sociedade habituada a tantas iniquidades, fundada na viol\u00eancia, estruturada por desigualdades. O messianismo tamb\u00e9m costuma grassar no v\u00e1cuo democr\u00e1tico. Sendo fruto do terreno est\u00e9ril de nosso autoritarismo, n\u00e3o ser\u00e1 um meio eficaz para fertilizar a cidadania.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. Se voc\u00ea valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o, seja nosso apoiador e fortale\u00e7a o jornalismo cr\u00edtico: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post Seguran\u00e7a: O Brasil que n\u00e3o se olha no espelho appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/lula-e-xi-jinping-se-encontram-em-brasilia-para-fortalecer-parceria\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/54153150046_ce79b9bdfe_k-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Lula e Xi Jinping se encontram em Bras\u00edlia para fo...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/fake-news-afetam-uso-do-pix-e-geram-queda-recorde-nas-transacoes-em-janeiro\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/16788914336411d9a9c7887_1678891433_3x2_lg-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Fake news afetam uso do Pix e geram queda recorde ...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/trump-cai-nas-pesquisas-de-opiniao-nos-estados-unidos-enquanto-impoe-tarifa-sobre-brasil\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Trump cai nas pesquisas de opini\u00e3o nos Estados Uni...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/conflito-entre-israel-e-ira-pode-afetar-preco-dos-combustiveis-no-brasil-aponta-economista\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Conflito entre Israel e Ir\u00e3 pode afetar pre\u00e7o dos ...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antrop\u00f3logo Luiz Eduardo Soares analisa a fal\u00eancia de pol\u00edticas de seguran\u00e7a e como as fac\u00e7\u00f5es se integraram \u00e0 economia formal. Mostra como \u201cenclaves policiais\u201d acossam a democracia. E aponta para caminhos refundar institui\u00e7\u00f5es, a partir de alternativas ao punitivismo<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-brasileira\/seguranca-o-brasil-que-nao-se-olha-no-espelho\/\">Seguran\u00e7a: O Brasil que n\u00e3o se olha no espelho<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":92871,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[69917,45,12584,69918,3003,7293,22125,1428,6007,98,2293,17528,17045,69919,69920,2464,2145,1614,5651,17837,69921,49,69922,73,12284,2243,77],"tags":[],"class_list":["post-92870","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-autoritario","category-brasil","category-capitalismo-brasileiro","category-cidadao-periferico","category-claudio-castro","category-comando-vermelho","category-comunidade","category-crime-organizado","category-crise-brasileira","category-desigualdades","category-drogas","category-economia-nacional","category-estado","category-ethos","category-historia-burguesa","category-jogo-do-bicho","category-militares","category-pcc","category-policia-civil","category-punitivismo","category-quadrilha-armada","category-rio-de-janeiro","category-secretaria-nacional-de-seguranca-publica","category-seguranca-publica","category-soberania-brasileira","category-terrorismo","category-violencia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/92870","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=92870"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/92870\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/92871"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=92870"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=92870"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=92870"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}