{"id":92930,"date":"2026-06-23T11:23:16","date_gmt":"2026-06-23T14:23:16","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/enquanto-escolas-do-campo-sao-fechadas-programas-educacionais-do-agronegocio-se-espalham-pelo-pais\/"},"modified":"2026-06-23T11:23:16","modified_gmt":"2026-06-23T14:23:16","slug":"enquanto-escolas-do-campo-sao-fechadas-programas-educacionais-do-agronegocio-se-espalham-pelo-pais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/enquanto-escolas-do-campo-sao-fechadas-programas-educacionais-do-agronegocio-se-espalham-pelo-pais\/","title":{"rendered":"Enquanto escolas do campo s\u00e3o fechadas, programas educacionais do agroneg\u00f3cio se espalham pelo pa\u00eds"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"386\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-15.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-15-1024x386.jpg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-15-300x113.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-15-768x289.jpg 768w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-15-1536x578.jpg 1536w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-15.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption><em>Foto: Vetores Macrovector e O Joio e O Trigo<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Por Julia Dolce<br \/>Do O Joio e O Trigo<\/em><\/p>\n<p>Depois de sete anos resistindo, a Escola Estadual do Campo Manoel Sebasti\u00e3o Gon\u00e7alves, na zona rural de Tomazina (PR), sucumbiu a um destino cada vez mais comum para unidades deste tipo: o fim das atividades. Em dezembro de 2025, a Secretaria da Educa\u00e7\u00e3o do Paran\u00e1 fechou definitivamente a escola, alegando falta de alunos.<\/p>\n<p>Para o professor de hist\u00f3ria Marcos Aur\u00e9lio de Assis, que geriu a institui\u00e7\u00e3o por 18 anos, o fechamento marca o fim de uma longa batalha para manter a educa\u00e7\u00e3o viva no bairro Barro Preto. A fim de evitar esse desfecho, a unidade adotou como estrat\u00e9gia o ensino multisseriado, no qual alunos de diferentes anos estudam na mesma sala. N\u00e3o foi o suficiente.<\/p>\n<p>\u201cO fato \u00e9 que essas escolas s\u00e3o fechadas pensando \u00fanica e exclusivamente na perspectiva num\u00e9rica e nos valores financeiros, n\u00e3o se leva em considera\u00e7\u00e3o o trabalho pedag\u00f3gico e os resultados de aprendizagem e frequ\u00eancia que as escolas do campo t\u00eam, que costumam ser superiores \u00e0s demais\u201d, lamenta o professor.<\/p>\n<p>O caso est\u00e1 longe de ser uma exce\u00e7\u00e3o. A Manoel Sebasti\u00e3o Gon\u00e7alves \u00e9 uma das seis escolas do campo paranaenses fechadas nos \u00faltimos meses. Em 2024, outras 45 escolas do campo j\u00e1 haviam sido fechadas no Paran\u00e1.\u00a0<\/p>\n<p>Esse dado, na verdade, comp\u00f5e um fen\u00f4meno muito maior. O F\u00f3rum Nacional da Educa\u00e7\u00e3o do Campo calcula que 110 mil escolas foram extintas no meio rural brasileiro entre 2000 e 2024.\u00a0<\/p>\n<p>O\u00a0<strong>Joio<\/strong>\u00a0investigou como o agroneg\u00f3cio est\u00e1 por tr\u00e1s desses fechamentos. Quando Assis come\u00e7ou a trabalhar na unidade, por exemplo, o bairro de Barro Preto era formado por agricultores familiares ou por trabalhadores assalariados na agricultura de m\u00e9dio porte local. Mas, com o tempo, grandes produtores de soja, milho e aveia passaram a dominar a regi\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>\u201c\u00c0 medida em que o agroneg\u00f3cio foi se expandindo, foi havendo uma esp\u00e9cie de fagocitose em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras \u00e1reas, as pessoas foram parando a produ\u00e7\u00e3o, arrendando a terra, a popula\u00e7\u00e3o ficou desguarnecida de emprego. Esse \u00e9 um dos elementos que fez com que houvesse a debandada de alunos\u201d, explica.<\/p>\n<h2><strong>Expans\u00e3o do agro, \u00eaxodo rural e nuclea\u00e7\u00e3o escolar<\/strong><\/h2>\n<p>Atualmente, restam cerca de 48 mil escolas no campo brasileiro. No Paran\u00e1, 529 ainda resistem.\u00a0<\/p>\n<p>Essas escolas representam menos de um ter\u00e7o das institui\u00e7\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica no pa\u00eds. Mas o n\u00famero cai bastante quando se trata dos \u00faltimos anos do ensino formal: 94,5% das matr\u00edculas de ensino m\u00e9dio no Brasil est\u00e3o localizadas em escolas urbanas.<\/p>\n<p>A onda de fechamento de escolas do campo integra outro fen\u00f4meno: a nuclea\u00e7\u00e3o escolar, processo pelo qual alunos de diferentes \u00e1reas rurais passam a estudar em uma mesma escola-n\u00facleo, geralmente em \u00e1reas urbanas afastadas de casa.<\/p>\n<p>A escassez de recursos e de infraestrutura, al\u00e9m da redu\u00e7\u00e3o no n\u00famero de alunos matriculados, est\u00e3o entre os argumentos das redes municipais e estaduais de ensino para a nuclea\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>Especialistas em educa\u00e7\u00e3o do campo criticam a medida, que acaba criando mais barreiras para que estudantes frequentem as aulas. Entre elas, jornadas mais longas e exaustivas entre casa e escola.\u00a0<\/p>\n<p>Alguns alunos da Manoel Sebasti\u00e3o Gon\u00e7alves, por exemplo, foram realocados em uma escola do campo a 10 quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia do Barro Preto. Outros foram estudar em uma escola urbana no munic\u00edpio vizinho.<\/p>\n<p>Segundo a ge\u00f3grafa T\u00e1ssia Cordeiro, professora do Instituto Federal Fluminense (IFF), que pesquisa amea\u00e7as \u00e0 educa\u00e7\u00e3o do campo, o agroneg\u00f3cio \u00e9 um fator importante na equa\u00e7\u00e3o do \u00eaxodo rural, e consequentemente, da nuclea\u00e7\u00e3o escolar.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cA diminui\u00e7\u00e3o dos estudantes est\u00e1 articulada a um processo mais amplo de \u00eaxodo rural, e esse \u00eaxodo rural, em grande parte, est\u00e1 relacionado com a expans\u00e3o do agroneg\u00f3cio. Se voc\u00ea n\u00e3o tiver acesso \u00e0 terra, ao emprego, \u00e0 perspectiva de vida no campo, o \u00eaxodo rural vai se manter ou aumentar\u201d, afirma a ge\u00f3grafa.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Esse movimento n\u00e3o \u00e9 apenas causado pelo agro \u2013\u00a0ele tamb\u00e9m beneficia o avan\u00e7o da fronteira do agroneg\u00f3cio sobre territ\u00f3rios antes habitados por camponeses ou povos e comunidades tradicionais.\u00a0<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>\u00c9 o que explica Clerison Bel\u00e9m, coordenador institucional do Instituto Regional da Pequena Agropecu\u00e1ria Apropriada (Irpaa), organiza\u00e7\u00e3o que tem sede no semi\u00e1rido baiano e tamb\u00e9m atua na educa\u00e7\u00e3o no campo. \u201cQuando o campo est\u00e1 esvaziando, as empresas chegam mais f\u00e1cil\u201d, resume.<\/p>\n<p>Bel\u00e9m ressalta que outro impacto importante da nuclea\u00e7\u00e3o escolar \u2013 do qual o agro tira proveito \u2013 \u00e9 a perda de identidade dos estudantes com o campo, aspecto tamb\u00e9m citado pelo professor Assis.\u00a0<\/p>\n<p>\u201c[Os alunos] chegam na cidade e v\u00e3o morar na periferia. E a leitura do mundo \u00e9 outra. Come\u00e7am a afastar os estudantes da sua realidade do campo, eles se envergonham de ser da ro\u00e7a, querem se adaptar \u00e0 cidade\u201d, afirma.\u00a0<\/p>\n<h2><strong>A constru\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o do campo<\/strong><\/h2>\n<p>A no\u00e7\u00e3o de escolas do campo foi cunhada entre os anos 1980 e 1990 justamente como parte de projeto educacional voltado \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o e \u00e0s especificidades da realidade das comunidades rurais, ou, como tamb\u00e9m \u00e9 chamada, uma educa\u00e7\u00e3o contextualizada.<\/p>\n<p>Cordeiro explica que, antes disso, a chamada \u201ceduca\u00e7\u00e3o rural\u201d no Brasil se baseava em um projeto pedag\u00f3gico urbanoc\u00eantrico. \u201cEra uma vis\u00e3o estereotipada que n\u00e3o incentivava a perspectiva da identidade camponesa, n\u00e3o educava em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s contradi\u00e7\u00f5es, complexidades que essas crian\u00e7as vivenciavam\u201d, completa.<\/p>\n<p>O conceito de educa\u00e7\u00e3o do campo tem origem na pedagogia desenvolvida por movimentos sociais camponeses, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST): a pedagogia do movimento.<\/p>\n<p>\u201cEla nasce junto com a luta pela terra, porque no contexto de acampamentos, e posteriormente de assentamentos, surge a quest\u00e3o do que fazer com essas crian\u00e7as, j\u00e1 que o acesso \u00e0 escolariza\u00e7\u00e3o do campo sempre foi algo complicado\u201d, explica a ge\u00f3grafa.<\/p>\n<p>O MST passou a se organizar e lutar para ter acesso \u00e0s escolas. Em seguida, passaram a reivindicar outro projeto educacional. \u201cPorque n\u00e3o adiantaria conquistar a terra se o modelo de educa\u00e7\u00e3o fosse essa vis\u00e3o de campo estereotipada, que n\u00e3o educasse sobre as complexidades que essas crian\u00e7as vivenciavam\u201d, afirma Cordeiro.<\/p>\n<p>Um marco para a proposta da educa\u00e7\u00e3o do campo foi o 1\u00ba Encontro Nacional de Educadores e Educadoras da Reforma Agr\u00e1ria, o Enera, que aconteceu em 1997. L\u00e1 foi lan\u00e7ado um manifesto em defesa da educa\u00e7\u00e3o do campo.<\/p>\n<p>Com o tempo, as ideias desse embri\u00e3o passaram a ser incorporadas em diretrizes educacionais e legisla\u00e7\u00f5es brasileiras a partir do in\u00edcio dos anos 2000. Mas a educa\u00e7\u00e3o do campo seguiu sofrendo baques importantes nas \u00faltimas d\u00e9cadas, como desmontes or\u00e7ament\u00e1rios e a pr\u00f3pria nuclea\u00e7\u00e3o escolar.\u00a0<\/p>\n<div>\n<h2>Linha do Tempo da Educa\u00e7\u00e3o do Campo no Brasil<\/h2>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<p>      <span>1997<\/span><\/p>\n<div>Lan\u00e7amento do Manifesto das Educadoras e dos Educadores da Reforma Agr\u00e1ria ao Povo Brasileiro. [1]<\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div><\/div>\n<p>      <span>1998<\/span><\/p>\n<div>\n<ul>\n<li>Realiza\u00e7\u00e3o da I Confer\u00eancia Nacional Por uma Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica do Campo. [1]<\/li>\n<li>Cria\u00e7\u00e3o do Programa Nacional de Educa\u00e7\u00e3o na Reforma Agr\u00e1ria (Pronera). [1]<\/li>\n<\/ul><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div><\/div>\n<p>      <span>1999<\/span><\/p>\n<div>Realiza\u00e7\u00e3o do Semin\u00e1rio da Articula\u00e7\u00e3o Nacional por uma Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica do Campo. [1]<\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div><\/div>\n<p>      <span>2002<\/span><\/p>\n<div>Lan\u00e7amento das Diretrizes Operacionais para Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica nas Escolas do Campo. [1]<\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div><\/div>\n<p>      <span>2004<\/span><\/p>\n<div>Realiza\u00e7\u00e3o da II Confer\u00eancia Nacional de Educa\u00e7\u00e3o do Campo e cria\u00e7\u00e3o da Secadi e da Coordena\u00e7\u00e3o de Educa\u00e7\u00e3o do Campo no MEC. [1]<\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div><\/div>\n<p>      <span>2007<\/span><\/p>\n<div>Cria\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o Nacional de Educa\u00e7\u00e3o do Campo (Conec) e do Programa de Apoio \u00e0 Forma\u00e7\u00e3o Superior em Licenciatura em Educa\u00e7\u00e3o do Campo (Procampo). [2]<\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div><\/div>\n<p>      <span>2008<\/span><\/p>\n<div>Lan\u00e7amento das Diretrizes Complementares e chamada p\u00fablica para Cursos de Licenciatura em Educa\u00e7\u00e3o do Campo. [2]<\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div><\/div>\n<p>      <span>2010<\/span><\/p>\n<div>Cria\u00e7\u00e3o do F\u00f3rum Nacional de Educa\u00e7\u00e3o do Campo (Fonec) e da Pol\u00edtica de Educa\u00e7\u00e3o do Campo. [2]<\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div><\/div>\n<p>      <span>2012<\/span><\/p>\n<div>Cria\u00e7\u00e3o do Programa Nacional de Educa\u00e7\u00e3o do Campo (Pronacampo). [2]<\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div><\/div>\n<p>      <span>2013<\/span><\/p>\n<div>Cria\u00e7\u00e3o do Programa Escola da Terra. [3]<\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div><\/div>\n<p>      <span>2014<\/span><\/p>\n<div>Aprova\u00e7\u00e3o da Lei 12.960, que dificulta o fechamento de escolas do campo, ind\u00edgenas e quilombolas sem consulta \u00e0 comunidade. [3]<\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div><\/div>\n<p>      <span>2016<\/span><\/p>\n<div>Forte retra\u00e7\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria p\u00f3s-impeachment; movimentos denunciam enfraquecimento de programas. [3]<\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div><\/div>\n<p>      <span>2017-2018<\/span><\/p>\n<div>Reforma do ensino m\u00e9dio gera cr\u00edticas por padroniza\u00e7\u00e3o curricular e perda de conte\u00fados camponeses. [3]<\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div><\/div>\n<p>      <span>2019-2022<\/span><\/p>\n<div>Extin\u00e7\u00e3o da Secadi e redu\u00e7\u00e3o de investimentos governamentais em programas espec\u00edficos. [3]<\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div><\/div>\n<p>      <span>2020-2021<\/span><\/p>\n<div>Pandemia amplia desigualdades por falta de internet e infraestrutura no campo. [4]<\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div><\/div>\n<p>      <span>2023<\/span><\/p>\n<div>Recria\u00e7\u00e3o da Secadi e da Conec; cria\u00e7\u00e3o da Diretoria de Pol\u00edticas de Educa\u00e7\u00e3o do Campo e Educa\u00e7\u00e3o Ambiental. [4]<\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div><\/div>\n<p>      <span>2025<\/span><\/p>\n<div>Lan\u00e7amento da Pol\u00edtica Nacional de Educa\u00e7\u00e3o do Campo, das \u00c1guas e das Florestas (Novo Pronacampo). [4]<\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<p>Foi somente em julho de 2025 que o governo Lula lan\u00e7ou a Pol\u00edtica Nacional de Educa\u00e7\u00e3o do Campo, das \u00c1guas e das Florestas (Novo Pronacampo), que promete ampliar, qualificar e garantir a oferta e acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o do campo. O primeiro programa do tipo foi lan\u00e7ado em 2012.<\/p>\n<p>O professor Marcos Aur\u00e9lio Assis \u00e9 agente do Pronacampo no Paran\u00e1. Ele conta que o governo do estado demorou alguns meses para aderir ao programa. \u201cTem toda uma quest\u00e3o ideol\u00f3gica que reluta em aderir\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>Os movimentos do campo receberam a pol\u00edtica com esperan\u00e7a. O pedagogo e doutor em educa\u00e7\u00e3o Valter de Jesus Leite, membro do F\u00f3rum Nacional da Educa\u00e7\u00e3o do Campo (Fonec) e do setor de educa\u00e7\u00e3o do MST, acredita que a pol\u00edtica trouxe avan\u00e7os importantes, como o reconhecimento das escolas multisseriadas e a promo\u00e7\u00e3o do ensino da agroecologia.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cO Novo Pronacampo vem para tentar superar os limites de infraestrutura, de forma\u00e7\u00e3o, de material pedag\u00f3gico em termos tecnol\u00f3gicos e tratar os limites existentes na pol\u00edtica p\u00fablica brasileira, quando se pensa a educa\u00e7\u00e3o do campo\u201d, afirma.\u00a0<\/p>\n<p>Mas o lan\u00e7amento tardio do programa trouxe inseguran\u00e7as. \u201cN\u00f3s temos um curto intervalo de tempo para materializar essa pol\u00edtica antes do t\u00e9rmino do governo\u201d, completa Leite.\u00a0<\/p>\n<p>No in\u00edcio do ano, o Fonec publicou uma nota denunciando o fechamento das escolas do campo no Paran\u00e1 e em outros oito estados brasileiros.<\/p>\n<p>Hoje, na teoria, todas as escolas em zonas rurais s\u00e3o consideradas escolas do campo, das \u00e1guas ou das florestas. Mas os movimentos sociais ainda disputam o conceito, entendendo que \u201cescolas do campo\u201d s\u00e3o aquelas cujo projeto pedag\u00f3gico promove um ensino contextualizado.<\/p>\n<p>Era o caso da escola Manoel Sebasti\u00e3o Gon\u00e7alves. Por l\u00e1, atividades da comunidade do pr\u00f3prio bairro aconteciam dentro da escola.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cA escola representava a identidade da comunidade, os elementos de territorialidade deles, at\u00e9 mesmo quest\u00f5es relacionadas \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica. Agora aqueles que tiveram que levar os filhos para a \u00e1rea urbana perdem a identidade com aquele espa\u00e7o\u201d, avalia o professor Assis.<\/p>\n<p>O fechamento da Manoel Sebasti\u00e3o Gon\u00e7alves gerou manifesta\u00e7\u00f5es no bairro Barro Preto. \u201cVimos uma comunidade lutando para a manuten\u00e7\u00e3o da escola. Eu acredito que isso s\u00f3 acontece quando se tem identidade com a escola\u201d, completa o professor.\u00a0<\/p>\n<p>O fortalecimento dessa identidade, por\u00e9m, \u00e9 considerado uma amea\u00e7a para os setores que se beneficiam do \u00eaxodo rural. \u00c9 o que explica a ge\u00f3grafa T\u00e1ssia Cordeiro.<\/p>\n<p>\u201cExistem elementos suficientes para indicar que a ascens\u00e3o do movimento de educa\u00e7\u00e3o do campo pode ter causado preocupa\u00e7\u00e3o no agroneg\u00f3cio. E uma forma de frear essa educa\u00e7\u00e3o \u00e9 n\u00e3o ter escolas no campo\u201d, avalia.\u00a0<\/p>\n<p>Entretanto, outra forma bastante estrat\u00e9gica de frear a educa\u00e7\u00e3o do campo \u00e9 incidir diretamente no projeto pedag\u00f3gico dessas escolas. E o Paran\u00e1 tamb\u00e9m \u00e9 ber\u00e7o de um dos projetos mais bem sucedidos nesse sentido.<\/p>\n<h2><strong>A ofensiva do agro no ensino b\u00e1sico\u00a0<\/strong><\/h2>\n<p>\u2014\u00a0Na cidade me falaram que as fazendas causam muito impacto ambiental.<\/p>\n<p>\u2014 Impacto ambiental?<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Ser\u00e1 que \u00e9 o campo que causa impacto ambiental?<\/p>\n<p>O di\u00e1logo faz parte de um gibi publicado pelo programa Agrinho, criado pelo Servi\u00e7o Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) do Paran\u00e1 em 1995. A pergunta final \u00e9 feita pelo personagem hom\u00f4nimo, um menino chamado Agrinho, que no quadrinho seguinte imagina uma metr\u00f3pole polu\u00edda.\u00a0<\/p>\n<p>O Senar \u00e9 parte do Sistema S, e \u00e9 coordenado pela Confedera\u00e7\u00e3o da Agricultura e Pecu\u00e1ria do Brasil (CNA), topo da cadeia dos sindicatos e federa\u00e7\u00f5es rurais do pa\u00eds, al\u00e9m de uma das principais entidades respons\u00e1veis pela gest\u00e3o do Instituto Pensar Agropecu\u00e1ria (IPA), bra\u00e7o de lobby da bancada ruralista.\u00a0<\/p>\n<p>A g\u00eanese do Agrinho se confunde ainda mais com os poderes institucionais. A fundadora do programa, Patr\u00edcia Lupion Torres, \u00e9 parente de Moys\u00e9s Lupion, ex-governador do Paran\u00e1 com trajet\u00f3ria historicamente ligada \u00e0 grilagem de terras, e de seus descendentes: o neto Abelardo Lupion, ex-deputado federal e ex-presidente da Frente Parlamentar da Agropecu\u00e1ria (FPA), e o bisneto Pedro Lupion, deputado federal e atual l\u00edder da bancada.<\/p>\n<p>O programa oferece material paradid\u00e1tico para estudantes e professores da rede p\u00fablica. Thiara Campanha, professora da rede estadual do Paran\u00e1, pesquisou o Agrinho no mestrado e no doutorado, e chegou a fazer cursos de forma\u00e7\u00e3o para professores promovidos pelo programa.\u00a0<\/p>\n<p>Ela analisa que o conte\u00fado desses cursos vendia uma imagem de um agroneg\u00f3cio \u201csustent\u00e1vel\u201d e supostamente inclusivo, mas que resume a popula\u00e7\u00e3o do campo \u00e0quela que segue a cartilha do \u201cmodelo mercadol\u00f3gico\u201d do agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Atualmente, o Agrinho est\u00e1 espalhado por diferentes estados brasileiros, por meio de conv\u00eanios firmados entre os respectivos Senars e as pastas estaduais de educa\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>Em novembro de 2024, al\u00e9m do Paran\u00e1, o programa j\u00e1 tinha feito conv\u00eanios com outros cinco estados: Goi\u00e1s, Mato Grosso do Sul, Esp\u00edrito Santo, Rond\u00f4nia e Cear\u00e1. \u00c0 \u00e9poca, a popula\u00e7\u00e3o de estudantes atendidos pelo programa foi\u00a0<a href=\"https:\/\/www.sistemafaep.org.br\/programa-agrinho-ultrapassa-fronteiras-do-parana-e-ganha-outros-estados\/\">estimada<\/a>\u00a0em 3,7 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>O crescimento do programa tem se escorado em uma brecha: a necessidade de materiais did\u00e1ticos que respondam \u00e0s demandas da educa\u00e7\u00e3o ambiental<em>,\u00a0<\/em><a href=\"https:\/\/www.gov.br\/mec\/pt-br\/assuntos\/noticias\/2025\/junho\/educacao-ambiental-no-curriculo-e-chave-para-sustentabilidade#:~:text=A%20inser%C3%A7%C3%A3o%2C%20que%20se%20tornou,adolescentes%20para%20as%20quest%C3%B5es%20ambientais.\">obrigat\u00f3ria<\/a>\u00a0no curr\u00edculo da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica brasileira desde 2024.\u00a0<\/p>\n<p>Para T\u00e1ssia Cordeiro, existe um conflito de interesses evidente na escolha do Agrinho para suprir tal conte\u00fado.\u00a0<strong>\u201c<\/strong>Chama muito a aten\u00e7\u00e3o na quest\u00e3o ambiental como um setor que \u00e9 respons\u00e1vel por grande parte dos problemas ambientais do nosso pa\u00eds est\u00e1 \u2018educando\u2019 estudantes sobre o meio ambiente\u201d.<\/p>\n<p>Esses conv\u00eanios costumam ocorrer sem fiscaliza\u00e7\u00e3o adequada nem concorr\u00eancia. No Paran\u00e1, o programa segue sendo renovado h\u00e1 anos. \u201cQuem disputou? S\u00f3 vai se renovando, \u00e9 um conchavo\u201d, denuncia Thiara Campanha.\u00a0<\/p>\n<p>O programa j\u00e1 foi aplicado em todos os munic\u00edpios paranaenses. Em 2017 chegou a ser banido em um deles, Cascavel, onde foi\u00a0<a href=\"https:\/\/www.camaracascavel.pr.gov.br\/comunicacao\/noticias\/agrinho-esta-banido-de-cascavel-para-porto-e-uma-conquista-historica\/\">denunciado<\/a>\u00a0na Comiss\u00e3o de Educa\u00e7\u00e3o da C\u00e2mara de Vereadores por alus\u00e3o ao uso de agrot\u00f3xicos.\u00a0<\/p>\n<p>Mas a apologia segue em alta. Campanha revela que o programa costuma levar drones agr\u00edcolas, utilizados principalmente na pulveriza\u00e7\u00e3o a\u00e9rea de agrot\u00f3xicos, para dentro das salas de aula. Os drones tamb\u00e9m est\u00e3o presentes nos gibis do Agrinho.\u00a0<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"538\" height=\"794\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-14.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-14.jpg 538w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-14-203x300.jpg 203w\" sizes=\"(max-width: 538px) 100vw, 538px\"><\/figure>\n<p>A pulveriza\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos por drones tem se tornado um problema crescente no Brasil, ajudando a elevar as notifica\u00e7\u00f5es de contamina\u00e7\u00e3o por agrot\u00f3xicos. No primeiro trimestre deste ano, por exemplo, o estado do Maranh\u00e3o\u00a0<a href=\"https:\/\/noticias.uol.com.br\/colunas\/carlos-madeiro\/2026\/04\/11\/comunidades-rurais-do-ma-perdem-safras-e-adoecem-por-agrotoxicos-de-drones.htm?cmpid=copiaecola\">contabilizou<\/a>\u00a0222 comunidades rurais atingidas por veneno pulverizado por esses equipamentos.\u00a0<\/p>\n<p>Originalmente, o p\u00fablico-alvo do Agrinho eram justamente as escolas do campo. Segundo o professor Marcos Aur\u00e9lio de Assis, representantes do programa j\u00e1 compareceram repetidas vezes \u00e0 escola Manoel Sebasti\u00e3o Gon\u00e7alves.<\/p>\n<p>\u201cSe pegar o material e n\u00e3o fizer esse filtro, n\u00e3o contextualizar a realidade que voc\u00ea tem, realmente \u00e9 uma proposta que n\u00e3o agrega para o pequeno produtor, para aquela comunidade em si\u201d, avalia.<\/p>\n<p>O carro-chefe do Agrinho, por\u00e9m, s\u00e3o os concursos para estudantes e professores.\u00a0<\/p>\n<p>O programa premia com computadores e tablets as melhores reda\u00e7\u00f5es, desenhos, frases e at\u00e9 mesmo propostas na \u00e1rea da rob\u00f3tica. J\u00e1 os professores dos alunos premiados chegam a ganhar carros e motos.\u00a0<\/p>\n<p>Para participar dos concursos, as escolas t\u00eam que aderir \u00e0 proposta pedag\u00f3gica do Agrinho. Os temas s\u00e3o estabelecidos pelas entidades que gerem o programa, e geralmente endossam um suposto papel do agroneg\u00f3cio na preserva\u00e7\u00e3o ambiental, ou em uma sustentabilidade voltada \u00e0s mudan\u00e7as comportamentais individuais.\u00a0<\/p>\n<p>Em 2018, por exemplo, o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.sed.ms.gov.br\/agrinho-2018-levara-a-estudantes-da-rede-publica-conhecimento-sobre-preservacao-das-aguas\/\">tema<\/a>\u00a0do concurso de reda\u00e7\u00f5es do Agrinho Mato Grosso do Sul foi \u201cProduzindo \u00e1gua no campo: o agro preservando o maior bem da terra\u201d. Vale lembrar que o setor \u00e9 respons\u00e1vel pelo consumo de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2020\/07\/30\/aguas-cercadas-como-o-agronegocio-e-a-mineracao-secam-rios-no-brasil\/\">70%<\/a>\u00a0da \u00e1gua consumida no pa\u00eds.<\/p>\n<p>As premia\u00e7\u00f5es juntam centenas de estudantes e professores, que viajam do interior \u00e0s capitais para o evento. Eles costumam acontecer nas sedes das federa\u00e7\u00f5es de agricultura e pecu\u00e1ria, e contam com a presen\u00e7a de empres\u00e1rios do agro. Em 2023, foram\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=sd_eqekL3pI\">mais de 1 milh\u00e3o de trabalhos inscritos<\/a>.\u00a0<\/p>\n<p>Segundo o ge\u00f3grafo Daniel Monteiro, que pesquisa o Agrinho do Mato Grosso do Sul e entrevistou professores que participaram do programa, embora a aplica\u00e7\u00e3o dos conte\u00fados n\u00e3o seja obrigat\u00f3ria, existe receio de persegui\u00e7\u00e3o caso se recusem a utiliz\u00e1-los.<\/p>\n<p>\u201cHoje, grande parte dos professores desses munic\u00edpios n\u00e3o s\u00e3o concursados, ent\u00e3o t\u00eam menos estabilidade e autonomia. Ficam \u00e0 merc\u00ea daquilo, porque acreditam que se n\u00e3o participarem do projeto podem ser demitidos\u201d, explica.\u00a0<\/p>\n<p>O ge\u00f3grafo ouviu tamb\u00e9m professores que, sobrecarregados, afirmaram valorizar os planos de aula e material paradid\u00e1tico disponibilizados pelo programa. \u201cEles acreditam que o material ajuda, que \u00e9 l\u00fadico, consegue atrair os alunos para os assuntos e, embora a maior parte dos estudantes da rede p\u00fablica n\u00e3o seja ligada ao agroneg\u00f3cio, eles acabam se sentindo pertencentes\u201d, completa Monteiro.<\/p>\n<p>O Agrinho \u00e9 um dos mais antigos programas do agroneg\u00f3cio para a educa\u00e7\u00e3o, mas passa longe de ser a \u00fanica investida do setor nas escolas. Valter de Jesus Leite pesquisou esse fen\u00f4meno na sua tese de doutorado e listou onze exemplos de projetos do tipo, criados por entidades privadas vinculadas ao patronato rural. Metade deles \u00e9 vinculada \u00e0 ind\u00fastria de agrot\u00f3xicos.<\/p>\n<p>Alguns exemplos s\u00e3o o projeto Escola no Campo, da Syngenta, o projeto Agora, ligado \u00e0 Bayer, o projeto Comunidade Educativa, ligado \u00e0 Bunge, a Andefino na Escola \u2013 criada pela antiga Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Defesa Vegetal (Andef) que, em 2019, se juntou a outras associa\u00e7\u00f5es do setor e se tornou a Croplife Brasil, bra\u00e7o nacional da maior organiza\u00e7\u00e3o internacional do setor, bem como a DuPont na Escola e a Corteva Escola, cujos nomes j\u00e1 referenciam diretamente as corpora\u00e7\u00f5es em quest\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cEssa ind\u00fastria tem, ao longo das \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas, desenvolvido projetos de educa\u00e7\u00e3o ambiental como formas de se relacionar com o entorno, como uma esp\u00e9cie de repara\u00e7\u00e3o. O problema \u00e9 que essa repara\u00e7\u00e3o \u00e9 falsa e danosa\u201d, afirma Leite.\u00a0<\/p>\n<p>A maior parte desses projetos atuam de forma regionalizada. Alguns tamb\u00e9m utilizam a estrat\u00e9gia dos concursos, como o programa Agroneg\u00f3cio na Escola, da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira do Agroneg\u00f3cio Ribeir\u00e3o Preto (Abag) e do IPA \u2013 o bra\u00e7o de lobby da bancada ruralista.<\/p>\n<p>O programa teve in\u00edcio no n\u00edvel municipal em 2001 e hoje j\u00e1 est\u00e1 presente em 25 estados, como informam dados do seu\u00a0<a href=\"https:\/\/www.abagrp.org.br\/programa-educacional-agronegocio-na-escola\">site<\/a>. Ele premia estudantes com viol\u00f5es, skates, telesc\u00f3pios e at\u00e9 mesmo \u201ckits para\u00a0<em>youtuber<\/em>\u201c.\u00a0<\/p>\n<p>As reda\u00e7\u00f5es premiadas pelo Agroneg\u00f3cio na Escola, diferentemente do Agrinho, s\u00e3o mais focadas na defesa do setor. O programa valoriza frases de efeito que enaltecem e simplificam as contradi\u00e7\u00f5es do agro.<\/p>\n<figure><figcaption><em>Alguns trechos de reda\u00e7\u00f5es premiadas pelo programa Agroneg\u00f3cio na Escola \u2013 Cr\u00e9dito: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<h2>De Olho no Material Escolar<\/h2>\n<p>A partir de 2021, o agroneg\u00f3cio passou a investir capital em uma organiza\u00e7\u00e3o voltada especificamente para melhorar a imagem do setor na educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica: a De Olho no Material Escolar (Donme).\u00a0<\/p>\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o surgiu como um projeto do movimento \u2018M\u00e3es do Agro\u2019, formado por empres\u00e1rias do agroneg\u00f3cio, que se surpreenderam com cr\u00edticas ao setor nos livros did\u00e1ticos e trabalhos escolares de seus filhos. Como o nome revela, a Donme veio para patrulhar esses conte\u00fados.<\/p>\n<p>Mas a organiza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m tem parentesco com a ind\u00fastria de agrot\u00f3xicos. O ex-presidente da Croplife Brasil, Christian Lohbauer, saiu da associa\u00e7\u00e3o internacional em 2023 direto para a vice-presid\u00eancia da Donme, cargo que ocupou por dois anos.<\/p>\n<p>A Donme logo\u00a0<a href=\"https:\/\/deolhonosruralistas.com.br\/2021\/05\/06\/lobby-do-agronegocio-se-organiza-para-fiscalizar-material-escolar\/\">conquistou espa\u00e7o<\/a>\u00a0nas discuss\u00f5es do Programa Nacional do Livro Did\u00e1tico (PNLD) do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o (MEC) do governo Bolsonaro. Tamb\u00e9m se inseriu na bancada ruralista, com um lobby que rendeu emendas em projetos de lei e\u00a0<a href=\"https:\/\/sem-paywall.com\/api\/clean\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/painel\/2025\/08\/bancada-ruralista-quer-retirar-mencoes-pejorativas-ao-agro-em-livros-didaticos.shtml\">articula\u00e7\u00f5es parlamentares<\/a>\u00a0no MEC.<\/p>\n<p>E foi bem sucedida.\u00a0<\/p>\n<p>Como revelou\u00a0<a href=\"https:\/\/www.aosfatos.org\/noticias\/pressao-do-agro-altera-conteudos-de-livros-escolares-denunciam-editores\/\">reportagem<\/a>\u00a0da organiza\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica\u00a0<em>Aos Fatos<\/em>, dedicada ao combate \u00e0 desinforma\u00e7\u00e3o e \u00e0 checagem de fatos, a press\u00e3o feita pela Donme conquistou altera\u00e7\u00f5es nos conte\u00fados de diversas editoras: desde mudan\u00e7as de termos \u2013 como os agrot\u00f3xicos, que passaram a ser referidos como \u201cdefensivos agr\u00edcolas\u201d, termo de prefer\u00eancia do agro \u2013 at\u00e9 uma redu\u00e7\u00e3o na abordagem de temas relativos aos conflitos fundi\u00e1rios.\u00a0<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 uma agenda hoje muito volumosa, agressiva, perigosa, pois vai eliminando o pensamento cr\u00edtico sobre o campo brasileiro\u201d, afirma Valter de Jesus Leite.\u00a0<\/p>\n<p>Para tanto, a Donme tamb\u00e9m ampliou seu escopo de atua\u00e7\u00e3o. Criou uma \u201c<a href=\"https:\/\/deolhonomaterialescolar.com.br\/agroteca\/\">Agroteca<\/a>\u201d em parceria com a\u00a0<a href=\"https:\/\/ojoioeotrigo.com.br\/2025\/04\/privatizacao-privilegio-racismo-e-perseguicoes-conheca-a-esalq-que-forma-quem-defende-o-agro\/\">Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq)<\/a>, campus de ci\u00eancias agr\u00e1rias da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), e passou a adotar um discurso focado em uma suposta defesa da ci\u00eancia e da neutralidade.\u00a0<\/p>\n<p>O argumento da organiza\u00e7\u00e3o \u00e9 que os conte\u00fados que relacionam o agroneg\u00f3cio aos seus impactos socioambientais hist\u00f3ricos, ou mesmo aos impactos clim\u00e1ticos que j\u00e1 s\u00e3o consensos cient\u00edficos, seriam enviesados e atrasados.\u00a0<\/p>\n<p>A acusa\u00e7\u00e3o \u00e9 embasada em um estudo sem car\u00e1ter acad\u00eamico encomendado pela Donme \u00e0 Funda\u00e7\u00e3o Instituto de Administra\u00e7\u00e3o (FIA). O relat\u00f3rio final aponta que apenas 12 dos 345 textos que mencionam o agroneg\u00f3cio analisados pela consultoria seriam considerados \u201ccient\u00edficos\u201d. A maioria foi classificada como \u201cautoral\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>Mas os pr\u00f3prios conte\u00fados da Agroteca divulgam dados forjados pelo setor que, checados tamb\u00e9m em\u00a0<a href=\"https:\/\/www.aosfatos.org\/noticias\/area-total-de-pastagens-nao-afasta-responsabilidade-da-pecuaria-por-desmatamento\/\">reportagem<\/a>\u00a0do\u00a0<em>Aos Fatos<\/em>, foram considerados falsos ou distorcidos. Este\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=6agg5dtvkWw\">v\u00eddeo<\/a>, encomendado pela organiza\u00e7\u00e3o, distorce fatos para tentar limpar a barra da pecu\u00e1ria como\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.mapbiomas.org\/2023\/12\/08\/pecuaria-e-o-principal-vetor-de-perda-de-vegetacao-em-metade-da-america-do-sul\/\">principal setor<\/a>\u00a0respons\u00e1vel pela perda de florestas.\u00a0<\/p>\n<p>Outra frente de atua\u00e7\u00e3o da Donme s\u00e3o as excurs\u00f5es escolares a feiras do agroneg\u00f3cio, fazendas ou instala\u00e7\u00f5es industriais do setor, por meio de seu projeto \u201cVivenciando a Pr\u00e1tica\u201d. Os dados divulgados pelo programa informam que ele j\u00e1 atendeu 63 mil alunos em 14 estados.<\/p>\n<p>Para Wheisenhower Resende Campelo, que pesquisou Vivenciando a Pr\u00e1tica em seu mestrado em Geografia, as excurs\u00f5es s\u00e3o focadas em esbanjar a tecnologia de ponta do setor e, assim, descol\u00e1-lo de impactos considerados retr\u00f3grados.<\/p>\n<p>\u201cA Donme leva os alunos para eventos de grandes produtores e empresas do agro para construir um imagin\u00e1rio extremamente positivo na cabe\u00e7a dos estudantes, de que n\u00e3o existiria mais aquele agro que escravizou pessoas, que desmatou, que polui rio\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>O Vivenciando a Pr\u00e1tica tamb\u00e9m depende de conv\u00eanios com redes estaduais e municipais de ensino. \u201cOs vereadores ligados ao agro fazem essa ponte\u201d, afirma Campelo. Recentemente, o programa tamb\u00e9m come\u00e7ou a utilizar a modalidade dos concursos,\u00a0<a href=\"https:\/\/deolhonomaterialescolar.com.br\/vivenciando\/concursos\/\">premiando<\/a>\u00a0reda\u00e7\u00f5es e v\u00eddeos referentes \u00e0s excurs\u00f5es realizadas.\u00a0<\/p>\n<p>Embora os representantes da Donme deixem claro que o objetivo central da organiza\u00e7\u00e3o \u00e9 mudar a imagem que estudantes urbanos t\u00eam do campo, Campelo explica que, devido \u00e0 proximidade com os locais visitados, um p\u00fablico importante do programa s\u00e3o os pr\u00f3prios estudantes de escolas p\u00fablicas do campo.\u00a0<\/p>\n<p>Mas o p\u00fablico-alvo desses maquin\u00e1rios car\u00edssimos das feiras n\u00e3o s\u00e3o exatamente as fam\u00edlias desses estudantes, e sim grandes empres\u00e1rios do agroneg\u00f3cio.\u00a0<\/p>\n<p>Por\u00e9m, para a presidente do programa, a pecuarista Let\u00edcia Jacintho, essa diferen\u00e7a n\u00e3o existe. Em uma\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=U1YCzc-SgyA\">entrevista<\/a>\u00a0dada \u00e0\u00a0<em>Revista Oeste<\/em>, em 2023, ela afirmou acreditar que agricultura familiar e empres\u00e1rios do agro s\u00e3o \u201ca mesma coisa\u201d. \u201cTem coisas sendo divididas a\u00ed que n\u00e3o deveriam, \u00e9 o agroneg\u00f3cio brasileiro como um todo\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>Essas diferen\u00e7as s\u00e3o homogeneizadas de forma estrat\u00e9gica pelo setor por meio do balaio gen\u00e9rico da categoria \u201cprodutor rural\u201d. Nos programas do agroneg\u00f3cio para a educa\u00e7\u00e3o, essa homogeneiza\u00e7\u00e3o fica evidente.\u00a0<\/p>\n<p>O Agrinho, por exemplo, embora j\u00e1 tenha se inserido em pelo menos\u00a0<a href=\"https:\/\/agrinhoms.com.br\/noticias\/em-ano-que-comemora-uma-decada-programa-agrinho-bate-recorde-com-602-escolas\">24 escolas ind\u00edgenas<\/a>\u00a0no Mato Grosso do Sul, um dos estados\u00a0<a href=\"https:\/\/cimi.org.br\/2025\/07\/relatorioviolencia2024\/#:~:text=racismo%20e%20desumaniza%C3%A7%C3%A3o.-,Mais%20de%2030%20ataques%20contra%20comunidades%20ind%C3%ADgenas%20foram%20registrados%20no,bala%20alojada%20em%20sua%20cabe%C3%A7a.\">l\u00edderes<\/a>\u00a0em conflitos entre fazendeiros e povos ind\u00edgenas, n\u00e3o aborda a exist\u00eancia ind\u00edgena em seus conte\u00fados, como revela Campanha.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o aborda os povos das florestas, das \u00e1guas, os territ\u00f3rios da reforma agr\u00e1ria, como esses povos produzem, quais s\u00e3o as pr\u00e1ticas de viv\u00eancia\u201d, afirma a ge\u00f3grafa.<\/p>\n<p>Um ensino cr\u00edtico sobre o protagonismo do agroneg\u00f3cio na viol\u00eancia contra povos ind\u00edgenas, ali\u00e1s, foi a gota d\u2019\u00e1gua que fez Let\u00edcia Jacintho criar a Donme, como ela j\u00e1 revelou em outra\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=y3CpvA8l4c8\">entrevista<\/a>. Nela, a pecuarista descreve um trabalho escolar feito pela sua filha, que na \u00e9poca tinha 10 anos, e que lhe causou um \u201cimpacto grande\u201d.<\/p>\n<p>\u201cNessa tarefa era demandado a ela que se colocasse no lugar dos ind\u00edgenas e que os produtores rurais destru\u00edram as suas terras. E ela tinha que usar palavras muito fortes\u201d, afirmou.<a href=\"https:\/\/ojoioeotrigo.com.br\/contribua\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><\/a><\/p>\n<h2>A \u201camea\u00e7a\u201d do ensino contextualizado<\/h2>\n<p>Um dos materiais presentes na Agroteca da Donme \u00e9 o gibi\u00a0<em>A Hist\u00f3ria da Soja<\/em>, produzido pela organiza\u00e7\u00e3o Agroligadas, formado por mulheres do agroneg\u00f3cio. Na historinha, a personagem Sojinha ressalta supostas maravilhas do plantio de soja no Brasil.<\/p>\n<p>\u201cSabia que os agricultores usam pr\u00e1ticas sustent\u00e1veis para cultivar a soja?\u201d afirma o gr\u00e3o, vestindo uma capa de super-her\u00f3i.<\/p>\n<figure><figcaption><em>Capa do Gibi dispon\u00edvel na Agroteca da Donme\/Esalq<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>A afirma\u00e7\u00e3o passa longe da experi\u00eancia vivida pelos estudantes da escola do campo Vitalina Motta, no munic\u00edpio paraense de Belterra, que margeia a BR-163, conhecida como a \u201cestrada da soja\u201d. O munic\u00edpio \u00e9 vizinho de Santar\u00e9m, onde fica um dos maiores portos de escoamento do gr\u00e3o do pa\u00eds.\u00a0<\/p>\n<p>A escola j\u00e1 foi alvo de pulveriza\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos por um vizinho sojeiro algumas vezes. Em 12 de junho de 2024, crian\u00e7as e funcion\u00e1rios passaram mal com sintomas de contamina\u00e7\u00e3o pelo veneno e tiveram que ser atendidos na Unidade B\u00e1sica de Sa\u00fade (UBS) mais pr\u00f3xima. Na ocasi\u00e3o, foram\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/06\/15\/pela-3-vez-alunos-e-professores-sao-contaminados-por-agrotoxicos-em-escola-da-zona-rural-no-para\/\">registradas<\/a>\u00a014 ocorr\u00eancias de intoxica\u00e7\u00e3o por agrot\u00f3xicos.\u00a0<\/p>\n<figure><figcaption><em>Alunos da escola Vitalina Motta sendo atendidos em UBS, em 2024 \u2013 Foto: Arquivo Pessoal<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Desde 2023, quando as primeiras pulveriza\u00e7\u00f5es em hor\u00e1rio letivo aconteceram, os professores j\u00e1 haviam denunciado a situa\u00e7\u00e3o para o Minist\u00e9rio P\u00fablico Estadual do Par\u00e1 (MPE-PA), que entrou com uma a\u00e7\u00e3o contra o propriet\u00e1rio da fazenda.<\/p>\n<p>No mesmo ano, o\u00a0Ibama\u00a0descobriu uma s\u00e9rie de irregularidades no uso e no armazenamento de agrot\u00f3xicos pelo sojeiro, e aplicou uma multa de R$ 1 milh\u00e3o. Mas a situa\u00e7\u00e3o s\u00f3 teve fim em dezembro de 2025, quando uma decis\u00e3o judicial suspendeu a aplica\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos na \u00e1rea, que tem outras 15 escolas pr\u00f3ximas.\u00a0<\/p>\n<p>Por\u00e9m, em janeiro deste ano, Heloise Rocha, professora da escola e uma das principais vozes por tr\u00e1s das den\u00fancias contra a fazenda vizinha, foi informada que seria afastada da unidade. A justificativa da Prefeitura de Belterra \u00e9 que a escola seria fechada tamb\u00e9m por falta de alunos.<\/p>\n<p>\u201cPor que n\u00e3o tem aluno? Ser\u00e1 que foi s\u00f3 porque sa\u00edram mesmo? Ou porque foram expulsos por conta do agroneg\u00f3cio?\u201d, questiona a professora. Heloise conta que muitos pais t\u00eam optado por tirar seus filhos das escolas do campo de Belterra, ou mesmo por se mudar para outras regi\u00f5es, devido \u00e0s contamina\u00e7\u00f5es constantes.<\/p>\n<figure><figcaption><em>Escola Vitalina Motta cercada por campos de soja em Belterra. Foto: Arquivo pessoal<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>\u201cA soja est\u00e1 expulsando as pessoas das comunidades rurais. Comunidades que existiam h\u00e1 15, 20 anos, n\u00e3o existem mais, porque foram engolidas pelo agroneg\u00f3cio, s\u00e3o hoje comunidades fantasmas com escolas fantasmas. E a agricultura familiar tamb\u00e9m n\u00e3o tem mais espa\u00e7o, est\u00e1 sufocada\u201d, afirma.\u00a0<\/p>\n<p>Assim como a Vitalina Motta, diferentes escolas do campo pelo Brasil j\u00e1 foram atingidas pela pulveriza\u00e7\u00e3o por agrot\u00f3xicos em hor\u00e1rio letivo. Outras, s\u00e3o alvo de ataques ainda mais diretos.\u00a0<\/p>\n<p>\u00c9 o caso da Escola Municipal de Ensino Fundamental Paulo Anacleto, localizada no assentamento Dorothy Stang, no munic\u00edpio de Anapu, tamb\u00e9m no Par\u00e1. Ela j\u00e1 sofreu dois atentados por parte de pistoleiros, um em 2022 e outro em 2024. Em ambos os casos, a escola foi incendiada.<\/p>\n<figure><figcaption><em>Escola Paulo Anacleto em mar\u00e7o de 2023, entre os dois inc\u00eandios promovidos por pistoleiros. Foto: Julia Dolce<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Anapu \u00e9 um dos munic\u00edpios com maior hist\u00f3rico de viol\u00eancia em conflitos fundi\u00e1rios no pa\u00eds.\u00a0<\/p>\n<p>Basta destacar que tanto o nome do assentamento quanto o da escola em quest\u00e3o homenageiam defensores de direitos humanos assassinados nas \u00faltimas d\u00e9cadas \u2013\u00a0a mission\u00e1ria que lutou pela reforma agr\u00e1ria, e um assistente social que lutou pela constru\u00e7\u00e3o da escola em quest\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>Para Aguinaldo Costa Lima, agricultor assentado no Dorothy Stang e pai de duas crian\u00e7as que frequentavam a escola na \u00e9poca dos inc\u00eandios, a unidade n\u00e3o est\u00e1 na mira de pistoleiros \u00e0 toa. O territ\u00f3rio, um\u00a0<a href=\"https:\/\/apublica.org\/2023\/09\/mesmo-ameacados-pelo-agronegocio-agricultores-criam-oasis-agroflorestal-no-para\/\">o\u00e1sis agroecol\u00f3gico<\/a>\u00a0cercado por pasto, \u00e9 disputado por pecuaristas da regi\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cEles n\u00e3o queriam que essa escola existisse porque imaginam que uma escola em um assentamento muda muita coisa, tira mais a for\u00e7a deles porque passa a ter o apoio da Prefeitura, do Minist\u00e9rio P\u00fablico\u201d, avalia. Para ele, os inc\u00eandios foram uma forma de pressionar os agricultores para que desistissem da terra.<\/p>\n<p>Hoje, aproximadamente 11% das escolas do campo ficam dentro de assentamentos. Segundo Valter de Jesus Leite, do Fonec e do MST, a localiza\u00e7\u00e3o em territ\u00f3rios disputados pelo agroneg\u00f3cio est\u00e1 por tr\u00e1s dos ataques \u00e0s escolas do campo em diferentes partes do pa\u00eds.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cQuando as mil\u00edcias armadas associadas em conluio com o agroneg\u00f3cio trabalham pelo despejo dessas \u00e1reas, um dos primeiros locais que atacam s\u00e3o as escolas\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>Ele destaca que o car\u00e1ter contextualizado do projeto pedag\u00f3gico das escolas do campo \u00e9 central para essa escolha.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cQuando o MST ocupa uma terra que incorre sobre algum crime ou que \u00e9 caracterizada como improdutiva, a comunidade j\u00e1 ocupa pensando nos seus espa\u00e7os sociais e de viv\u00eancia, e a escola \u00e9 um dos primeiros espa\u00e7os a serem constru\u00eddos. Porque h\u00e1 um valor social, formativo e humano na escola, ela \u00e9 vida na comunidade\u201d, relata.<\/p>\n<p>A escola Vitalina Motta, por exemplo, tamb\u00e9m aplicava um curr\u00edculo contextualizado \u00e0 realidade camponesa e amaz\u00f4nica das crian\u00e7as. \u201cA gente falava de quest\u00f5es como os agrot\u00f3xicos, o desmatamento, a partir da quest\u00e3o espacial amaz\u00f4nica, do local onde a gente vive\u201d, lembra a professora Heloise Rocha.\u00a0<\/p>\n<p>Para ela, esses temas podem ser vistos como amea\u00e7as para o agroneg\u00f3cio. \u201cO objetivo deles \u00e9 fazer com que as crian\u00e7as percam a identidade com o territ\u00f3rio, com o espa\u00e7o\u201d.<\/p>\n<p>Um exemplo emblem\u00e1tico de ensino contextualizado \u00e9 o das Escolas Fam\u00edlias Agr\u00edcolas (EFAs), uma das experi\u00eancias mais antigas da educa\u00e7\u00e3o do campo no pa\u00eds. Elas t\u00eam origem na Fran\u00e7a e foram trazidas ao Brasil na d\u00e9cada de 1960 pela Igreja Cat\u00f3lica.\u00a0<\/p>\n<p>As EFAs s\u00e3o entidades privadas sem fins lucrativos com uma natureza comunit\u00e1ria, sendo geridas por associa\u00e7\u00f5es de fam\u00edlias do campo. Hoje, elas sobrevivem com subs\u00eddio p\u00fablico e privado e existem em 22 estados brasileiros.\u00a0<\/p>\n<p>Elas s\u00e3o mais presentes no Nordeste, onde a organiza\u00e7\u00e3o de Clerison Bel\u00e9m, o Irpaa, tamb\u00e9m atua na sua gest\u00e3o. Um exemplo \u00e9 a EFA Sobradinho, localizada no semi\u00e1rido baiano, \u00e0s margens do rio S\u00e3o Francisco.\u00a0<\/p>\n<p>N\u00e1dia Nauanda se formou na escola em 2025 e conta que sua rotina envolvia uma s\u00e9rie de atividades e disciplinas voltadas \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o dos modos de vida no campo.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cSou filha de uma comunidade rural. Eu tenho ali meu contexto todo de mexer com animais, mexer com plantas, com vegeta\u00e7\u00e3o distinta. E eu vou aprendendo de acordo com a minha realidade. A gente aprende sobre os nossos direitos, sobre os direitos dos jovens do campo\u201d.<\/p>\n<p>O sonho de N\u00e1dia \u00e9 permanecer no territ\u00f3rio, atuando como pedagoga e psic\u00f3loga em escolas do campo. Mas ela conta que, antes de estudar na EFA, cursou o ensino fundamental em uma escola do campo sem conte\u00fado contextualizado, e que a maior parte dos colegas planejava deixar o campo.\u00a0<\/p>\n<p>Para Clerison Bel\u00e9m, o trabalho das EFAs e do ensino contextualizado de modo geral ajuda a manter a juventude no campo. \u201cBuscam fazer com que os jovens acessem pol\u00edticas p\u00fablicas, cr\u00e9dito, terra, \u00e1gua, condi\u00e7\u00f5es para continuar vivendo no campo com dignidade\u201d.\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/2026\/06\/23\/enquanto-escolas-do-campo-sao-fechadas-programas-educacionais-do-agronegocio-se-espalham-pelo-pais\/\">Enquanto escolas do campo s\u00e3o fechadas, programas educacionais do agroneg\u00f3cio se espalham pelo pa\u00eds<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/\">MST<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/vorcaro-e-bolsonaro-inflexao-na-conjuntura\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/mg_9637-150x150.webp') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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