{"id":93002,"date":"2026-06-22T23:49:57","date_gmt":"2026-06-23T02:49:57","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/super-el-nino-as-cidades-brasileiras-estao-preparadas\/"},"modified":"2026-06-22T23:49:57","modified_gmt":"2026-06-23T02:49:57","slug":"super-el-nino-as-cidades-brasileiras-estao-preparadas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/super-el-nino-as-cidades-brasileiras-estao-preparadas\/","title":{"rendered":"Super El Ni\u00f1o: As cidades brasileiras est\u00e3o preparadas?"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"700\" height=\"466\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/El-Nino.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/El-Nino.jpg 700w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/El-Nino-300x200.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/El-Nino-272x182.jpg 272w\" sizes=\"(max-width: 700px) 100vw, 700px\"><figcaption>Foto: Andr\u00e9 \u00c1vila\/Ag\u00eancia RBS<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<p><imgsrc=\"\" width=\"1\" height=\"1\" alt=\".\" border=\"0\">\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Das grandes inunda\u00e7\u00f5es \u00e0s secas agravadas por ondas de calor extremo, o pa\u00eds inteiro, de norte a sul, est\u00e1 \u00e0 prova \u2014 e as cidades, na maioria dos casos, seguem despreparadas. Mais de 85% dos munic\u00edpios brasileiros carecem de planos de adapta\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica, revelando a fr\u00e1gil capacidade institucional e legislativa para enfrentar os impactos socioambientais. Apenas cidades mais ricas, e com mais de 500 mil habitantes, formularam pol\u00edticas sobre o tema. Com base em dados do IBGE (2021), pesquisadores calcularam um \u00edndice geral de adapta\u00e7\u00e3o urbana a partir de 25 indicadores \u2014 habita\u00e7\u00e3o, mobilidade, produ\u00e7\u00e3o de alimentos, gest\u00e3o ambiental e riscos clim\u00e1ticos. Entre as capitais, a disparidade \u00e9 expressiva: Curitiba, Bras\u00edlia e S\u00e3o Paulo lideram; Recife, Boa Vista e Aracaju figuram entre as menos preparadas. Por\u00e9m, \u00e9 importante sublinhar, a exist\u00eancia de instrumentos ou pol\u00edticas p\u00fablicas n\u00e3o garante efic\u00e1cia \u2014 tampouco d\u00e1 conta das complexidades e desigualdades territoriais.<\/p>\n<p>Neste cen\u00e1rio, especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria e racismo ambiental caminham de m\u00e3os dadas. O avan\u00e7o da financeiriza\u00e7\u00e3o da moradia empurra popula\u00e7\u00f5es para as bordas das cidades, ocupando \u00e1reas de risco. A verticaliza\u00e7\u00e3o, inclusive, agrava ilhas de calor e compromete sistemas de drenagem e o microclima urbano. Sem op\u00e7\u00e3o habitacional, essas popula\u00e7\u00f5es ocupam \u00e1reas ambientalmente fr\u00e1geis \u2014 beiras de c\u00f3rregos, mananciais e encostas \u2014, com desmatamento e remo\u00e7\u00e3o de vegeta\u00e7\u00e3o. O Servi\u00e7o Geol\u00f3gico do Brasil estima que quase 5 milh\u00f5es de pessoas vivem nessas condi\u00e7\u00f5es. E cerca de 66% das pessoas que residem em \u00e1reas de risco nas cidades brasileiras s\u00e3o negras, de acordo com o relat\u00f3rio \u201cSem Moradia Digna, N\u00e3o H\u00e1 Justi\u00e7a Clim\u00e1tica\u201d, feito pela ONG Habitat \u2014 e que cerca de 2,1 milh\u00f5es de casas foram danificadas por desastres clim\u00e1ticos e 107 mil destru\u00eddas entre 2013 e 2022, por desastres ambientais; a maioria chefiadas por mulheres negras.<\/p>\n<p>Discutir o El Ni\u00f1o a partir da sociologia, inclusive do urbanismo, parece pertinente porque suas influ\u00eancias e efeitos n\u00e3o decorrem apenas de altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, mas da forma como a sociedade brasileira pode produzir e distribuir recursos, solidariedade, danos ambientais, desigualdades e injusti\u00e7as. Afinal, o mesmo fen\u00f4meno que provocou as enchentes hist\u00f3ricas no Rio Grande do Sul em 2024 \u2014 deslocando milhares de pessoas e causando preju\u00edzos bilion\u00e1rios \u2014 tamb\u00e9m contribuiu para secas severas na Amaz\u00f4nia em 2023 e 2024, dificultando ou inviabilizando a navega\u00e7\u00e3o fluvial, o abastecimento de comunidades ribeirinhas e o acesso a servi\u00e7os b\u00e1sicos.\u00a0<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/1-33.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/1-33.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/15-300x110.png 300w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Esses efeitos n\u00e3o podem ser explicados apenas pela climatologia, pois est\u00e3o relacionados \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o de \u00e1reas ecologicamente sens\u00edveis, \u00e0 insufici\u00eancia de infraestrutura urbana adequada, ao desmatamento de biomas estrat\u00e9gicos para a regula\u00e7\u00e3o do ciclo hidrol\u00f3gico e \u00e0s desigualdades sociais que determinam quem possui recursos para se proteger e quem permanece mais exposto \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Este breve artigo convida a um di\u00e1logo, mostrando como a sociologia permite compreender que enchentes, secas e ondas de calor n\u00e3o s\u00e3o apenas eventos naturais, especialmente nas cidades brasileiras, mas processos sociais e formas de rela\u00e7\u00e3o da sociedade com a natureza que produzem efeitos sociais. E mais: como os fen\u00f4menos naturais trazem \u00e0 tona as condi\u00e7\u00f5es (ou a incapacidade) das institui\u00e7\u00f5es e pol\u00edticas p\u00fablicas, no capitalismo contempor\u00e2neo, de responder aos riscos e desastres decorrentes das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, em grande medida produzidas pelo modelo de desenvolvimento social e econ\u00f4mico vigente. Analisar a possibilidade concreta de ocorr\u00eancia de um fen\u00f4meno clim\u00e1tico que, em raz\u00e3o de suas propor\u00e7\u00f5es, tem sido chamado de Super El Ni\u00f1o exige ir al\u00e9m das previs\u00f5es meteorol\u00f3gicas. Implica, sobretudo, compreender por que certos grupos sociais, regi\u00f5es e comunidades s\u00e3o atingidos de forma t\u00e3o desproporcional. Mais do que isso: requer investigar de que modo decis\u00f5es econ\u00f4micas e pol\u00edticas, acumuladas ao longo de d\u00e9cadas, transformam os eventos clim\u00e1ticos extremos de hoje em verdadeiras crises sociais de grande impacto na vida de grande parcela da popula\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p><strong>Compreendendo o Super El Ni\u00f1o<\/strong><\/p>\n<p>O El Ni\u00f1o \u00e9 um fen\u00f4meno clim\u00e1tico decorrente do aquecimento an\u00f4malo das \u00e1guas superficiais do Oceano Pac\u00edfico Equatorial, processo desencadeado pelo enfraquecimento dos ventos al\u00edsios e por perturba\u00e7\u00f5es na circula\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica conhecida como C\u00e9lula de Walker. Embora tenha sua origem no Pac\u00edfico, seus efeitos estendem-se por vastas regi\u00f5es do planeta, alterando regimes de temperatura, precipita\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o de ventos em diferentes continentes. No Brasil, h\u00e1 contornos regionais bem marcados: na Regi\u00e3o Sul, o fen\u00f4meno costuma elevar o volume de chuvas e ampliar o risco de enchentes; j\u00e1 no Norte e em partes do Nordeste, favorece a ocorr\u00eancia de secas prolongadas. Tamb\u00e9m intensifica ondas de calor em diversas \u00e1reas do pa\u00eds.<\/p>\n<p>De acordo com a pesquisadora Luciana Gatti, em entrevista recente, quando esse aquecimento ultrapassa 2\u00b0C da m\u00e9dia hist\u00f3rica do oceano, o fen\u00f4meno passa a ser denominado como \u201cSuper El Ni\u00f1o\u201d \u2014 uma vers\u00e3o muito mais intensa e rara do evento, capaz de amplificar significativamente seus efeitos sociais, econ\u00f4micos e ambientais. O El Ni\u00f1o j\u00e1 come\u00e7ou, aponta a Ag\u00eancia Nacional de Oceanos e Atmosfera dos Estados Unidos (NOAA) \u2014 e a Ag\u00eancia Espacial Europeia (ESA) divulgou um v\u00eddeo que mostra que este fen\u00f4meno poder\u00e1 receber o superlativo.\u00a0<\/p>\n<p>Ressalta-se que o El Ni\u00f1o de 2026 n\u00e3o deve ser tratado como um evento c\u00edclico estatisticamente mape\u00e1vel, mas como uma altera\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica severa catalisada pelo aquecimento global antropog\u00eanico. A atual \u201crampa de aquecimento\u201d, caracterizada pela velocidade sem precedentes na eleva\u00e7\u00e3o das temperaturas do Oceano Pac\u00edfico, indica altera\u00e7\u00f5es t\u00e9rmicas entre 2,5\u00b0C e 4,0\u00b0C. Para a alta gest\u00e3o, o dado mais cr\u00edtico transcende a m\u00e9dia global: enquanto o Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (IPCC) projeta um aumento m\u00e9dio global de 2,8\u00b0C, a in\u00e9rcia t\u00e9rmica e a menor capacidade t\u00e9rmica continental poderiam resultar em um aquecimento real no Brasil de 3,5\u00b0C a 4,0\u00b0C. Em outras palavras, estamos diante de uma imensa massa de energia que altera a circula\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica de maneira irrevers\u00edvel no curto prazo \u2014 e cujos efeitos, tanto em sua magnitude quanto em seus desdobramentos sociais, n\u00e3o podem ser comparados com fen\u00f4menos anteriores.<\/p>\n<p>Em um contexto de aquecimento global provocado pelas atividades humanas, os efeitos do Super El Ni\u00f1o tornam-se ainda mais alarmantes, pois incidem sobre um planeta j\u00e1 mais quente, potencializando sua frequ\u00eancia e intensidade \u2014 o que se traduz em enchentes, secas, inc\u00eandios florestais, crises h\u00eddricas, perdas agr\u00edcolas e problemas de sa\u00fade p\u00fablica.\u00a0<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/HUCITEC-basaglia4-7.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/HUCITEC-basaglia4-7.png 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/HUCITEC-basaglia4-300x37.png 300w\" sizes=\"(max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>De acordo com o pesquisador Luiz Marques, em entrevista recente, o problema n\u00e3o reside apenas no fen\u00f4meno clim\u00e1tico em si, mas no fato de que ele ocorre em um planeta j\u00e1 aquecido pela acumula\u00e7\u00e3o de gases de efeito estufa. Os oceanos absorvem mais de 90% do excesso de calor gerado pelas atividades humanas, funcionando como uma esp\u00e9cie de reservat\u00f3rio t\u00e9rmico que potencializa os efeitos do El Ni\u00f1o. Outro pesquisador, George Monbiot, em artigo recente, critica o que denomina de uma racionalidade econ\u00f4mica incapaz de reconhecer os limites biof\u00edsicos da Terra ao tratar cen\u00e1rios de aquecimento global em termos de perdas econ\u00f4micas graduais, e descartando a possibilidade de pontos de inflex\u00e3o clim\u00e1tica, como a savaniza\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia ou altera\u00e7\u00f5es na Circula\u00e7\u00e3o Meridional de Revolvimento do Atl\u00e2ntico (AMOC). Em s\u00edntese, o Super El Ni\u00f1o evidencia aquilo que a sociologia ambiental, em di\u00e1logo com a ecologia pol\u00edtica, vem argumentando h\u00e1 d\u00e9cadas: os eventos clim\u00e1ticos extremos n\u00e3o podem ser dissociados dos modelos de desenvolvimento social e econ\u00f4mico vigentes, das emiss\u00f5es de gases de efeito estufa e das escolhas pol\u00edticas assumidas por governos ao redor do mundo \u2014 sobretudo os do Norte global, cuja trajet\u00f3ria hist\u00f3rica de industrializa\u00e7\u00e3o e consumo aprofunda desmedidamente a crise clim\u00e1tica planet\u00e1ria.<\/p>\n<p>Como argumenta Ulrich Beck, os riscos ambientais na atualidade s\u00e3o produzidos pela pr\u00f3pria moderniza\u00e7\u00e3o, fruto da a\u00e7\u00e3o humana ao longo dos \u00faltimos s\u00e9culos. Contudo, autores da ecologia pol\u00edtica, como Enrique Leff, Vandana Shiva e Rob Nixon, mostram que seus efeitos n\u00e3o atingem todos os grupos da mesma forma, mas tendem a recair desproporcionalmente sobre popula\u00e7\u00f5es historicamente marginalizadas. O conceito de justi\u00e7a ambiental, formulado por Robert Bullard, evidencia que comunidades pobres e popula\u00e7\u00f5es negras costumam estar mais expostas a enchentes, secas, contamina\u00e7\u00f5es, desastres e outros riscos socioambientais, ao mesmo tempo em que disp\u00f5em de menor acesso aos recursos necess\u00e1rios para prote\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>No Brasil, h\u00e1 uma distribui\u00e7\u00e3o desigual dos danos ecol\u00f3gicos segundo crit\u00e9rios de classe, ra\u00e7a e territ\u00f3rio, como apontam os pesquisadores Carlos Walter Porto-Gon\u00e7alves e Henri Acselrad. Assim, quando um Super El Ni\u00f1o provoca enchentes no Sul brasileiro, secas na Amaz\u00f4nia ou crises h\u00eddricas no Semi\u00e1rido, n\u00e3o est\u00e1 em jogo apenas a intensidade das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, mas tamb\u00e9m a exposi\u00e7\u00e3o das consequ\u00eancias de d\u00e9cadas de urbaniza\u00e7\u00e3o desigual, concentra\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria, desmatamento, aus\u00eancia de planejamento territorial e exclus\u00e3o social. Sob essa perspectiva, os eventos clim\u00e1ticos extremos tornam vis\u00edveis processos de racismo ambiental pelos quais determinados grupos sociais s\u00e3o sistematicamente mais vulner\u00e1veis aos riscos clim\u00e1ticos e, ao mesmo tempo, menos contemplados por pol\u00edticas p\u00fablicas de preven\u00e7\u00e3o, mitiga\u00e7\u00e3o, reconstru\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>As pedras no meio do caminho<\/strong><\/p>\n<p>A realidade chocante de que 85% dos munic\u00edpios brasileiros sequer possuem planos de adapta\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica \u2014 como j\u00e1 mencionado \u2014 n\u00e3o \u00e9 fruto do acaso nem da falta de informa\u00e7\u00e3o. \u00c9, antes, o resultado de tr\u00eas fatores estruturais que paralisam a cria\u00e7\u00e3o e a implanta\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas na \u00e1rea.<\/p>\n<p>O primeiro \u00e9 o or\u00e7amento p\u00fablico destinado \u00e0 mitiga\u00e7\u00e3o dos impactos socioambientais. Foram criados o Fundo Clima (BNDES), a Plataforma Brasil de Investimentos Clim\u00e1ticos e para a Transforma\u00e7\u00e3o Ecol\u00f3gica (Minist\u00e9rio da Fazenda) e a\u00a0 Pol\u00edtica Nacional sobre Mudan\u00e7a do Clima (PNMC). Mas \u00e9 necess\u00e1rio aten\u00e7\u00e3o: o Brasil ainda investe relativamente pouco em clima. O gasto clim\u00e1tico representou apenas <strong>0,23% do PIB em 2023<\/strong> e <strong>0,35% do PIB em 2024<\/strong> (cerca de 150,7 bilh\u00f5es); cresceu, claro, mas os valores s\u00e3o considerados modestos diante da magnitude dos riscos clim\u00e1ticos enfrentados pelo pa\u00eds. E, se pensarmos somente sob uma l\u00f3gica economicista, destaca-se ainda que o Brasil perdeu cerca de R$110 bilh\u00f5es por ano (entre 2000-2023) do PIB devido a eventos clim\u00e1ticos extremos, como secas e chuvas intensas, de acordo com o Relat\u00f3rio \u201cImpactos econ\u00f4micos de eventos extremos no Brasil e o custo das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas\u201d do Centro Celso Furtado.\u00a0<\/p>\n<p>O segundo \u00e9 a desarticula\u00e7\u00e3o do Estado brasileiro. A adapta\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica deveria se tornar uma das dimens\u00f5es centrais da gest\u00e3o p\u00fablica no Brasil e no mundo. Entretanto, nenhuma dessas medidas ter\u00e1 efetividade se o pa\u00eds n\u00e3o conseguir, de fato, operacionalizar seu pacto federativo e superar a cultura pol\u00edtica de tomada de decis\u00e3o baseada no <em>Modelo da Lata de Lixo<\/em> (Garbage can) \u2014 ou seja, solu\u00e7\u00f5es j\u00e1 prontas em busca de desafios para justificar a\u00e7\u00f5es, com a participa\u00e7\u00e3o dos atores estatais e da sociedade inconstante e, claro, sem um plano claro e concreto; ou seja: ao final, todas as nuances estrat\u00e9gicas acabam jogadas num mesmo recipiente, de forma desorganizada. Isto caracteriza, historicamente, grande parte da gest\u00e3o p\u00fablica nacional. A emerg\u00eancia clim\u00e1tica exige pol\u00edticas de Estado com coordena\u00e7\u00e3o permanente entre Uni\u00e3o, estados e munic\u00edpios, compartilhamento sistem\u00e1tico de informa\u00e7\u00f5es e defini\u00e7\u00e3o clara de responsabilidades \u2014 inclusive de atos de improbidade administrativa. Nesse sentido, cabe uma pergunta inc\u00f4moda, mas necess\u00e1ria: quantos(as) candidatos(as) incluem, de fato, a adapta\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica e as pol\u00edticas ambientais como prioridade em seus planos de governo e de legislatura?<\/p>\n<p>O terceiro fator \u2014 talvez o mais perverso de todos \u2014 \u00e9 o negacionismo clim\u00e1tico que, sobretudo a partir do governo Bolsonaro, tomou conta do Estado brasileiro e segue entranhado em v\u00e1rias prefeituras e governos estaduais. Como demonstram Naomi Oreskes e Erik M. Conway, no livro <em>Mercadores da D\u00favida<\/em>, a produ\u00e7\u00e3o organizada da d\u00favida cient\u00edfica atende frequentemente a interesses econ\u00f4micos e pol\u00edticos que buscam evitar regula\u00e7\u00f5es ambientais e favorecer modelos de desenvolvimento predat\u00f3rios e intensivos em emiss\u00f5es de carbono, deslocando o debate p\u00fablico da adapta\u00e7\u00e3o e da mitiga\u00e7\u00e3o para falsas pol\u00eamicas e controv\u00e9rsias em torno da pr\u00f3pria exist\u00eancia da crise clim\u00e1tica. Os efeitos do negacionismo, portanto, v\u00e3o al\u00e9m da esfera discursiva, produzindo consequ\u00eancias concretas sobre pol\u00edticas p\u00fablicas e capacidades institucionais. Ao enfraquecer a legitimidade da ci\u00eancia e relativizar os impactos do desmatamento, da destrui\u00e7\u00e3o de ecossistemas e da expans\u00e3o desordenada das cidades, ele reduz a press\u00e3o por investimentos em preven\u00e7\u00e3o, infraestrutura resiliente, monitoramento ambiental e prote\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es historicamente mais expostas a riscos clim\u00e1ticos: comunidades pobres, perif\u00e9ricas, ind\u00edgenas, quilombolas<\/p>\n<p><strong>E as pol\u00edticas p\u00fablicas?<\/strong><\/p>\n<p>Esta quest\u00e3o \u00e9 t\u00e3o complexa quanto urgente \u2014 e deve enfrentar estes fatores estruturais que emperram a justi\u00e7a socioclim\u00e1tica. Mas h\u00e1, antes de tudo, um aspecto central que n\u00e3o pode ser negligenciado: o governo federal, na gest\u00e3o de Lula 3, precisa superar a l\u00f3gica reativa que, historicamente, marca a gest\u00e3o dos desastres ambientais no Brasil e assumir, de fato, uma pol\u00edtica nacional de adapta\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica baseada no planejamento de longo prazo, na coordena\u00e7\u00e3o federativa e na justi\u00e7a ambiental. Isso implicaria fortalecer efetivamente as institui\u00e7\u00f5es cient\u00edficas e os sistemas de monitoramento clim\u00e1tico; ampliar investimentos em infraestrutura resiliente; recuperar biomas estrat\u00e9gicos como a Amaz\u00f4nia e o Cerrado; seguir combatendo o desmatamento e as queimadas ilegais; e, por mais que pare\u00e7a ut\u00f3pico, integrar as pol\u00edticas ambiental, agr\u00edcola, energ\u00e9tica, urbana e de desenvolvimento regional. Isto, claro, implica or\u00e7amento p\u00fablico, mas tamb\u00e9m horizontes pol\u00edticos\u2026\u00a0<\/p>\n<p>Recentemente, o governo federal anunciou a cria\u00e7\u00e3o de uma sala de situa\u00e7\u00e3o e de um grupo permanente de especialistas com a miss\u00e3o de acompanhar semanalmente a evolu\u00e7\u00e3o do El Ni\u00f1o e seus potenciais impactos sobre o territ\u00f3rio nacional. A iniciativa re\u00fane representantes do Minist\u00e9rio do Meio Ambiente, do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (CEMADEN), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), de universidades e de outros \u00f3rg\u00e3os federais. O objetivo \u00e9 integrar informa\u00e7\u00f5es cient\u00edficas, elaborar cen\u00e1rios de risco e articular a\u00e7\u00f5es preventivas junto a estados e munic\u00edpios. Tamb\u00e9m foi retomada a Sala de Situa\u00e7\u00e3o sobre Inc\u00eandios Florestais \u2014 movimento que, ainda que em ano eleitoral e a meses da poss\u00edvel ocorr\u00eancia do Super El Ni\u00f1o, sinaliza uma tentativa de superar a l\u00f3gica reativa de sempre. Ap\u00f3s ter destinado cerca de R$ 60 bilh\u00f5es em resposta \u00e0 cat\u00e1strofe clim\u00e1tica no Rio Grande do Sul, n\u00e3o seria hora de a\u00e7\u00f5es preventivas e mais estruturais?<\/p>\n<p>Ao n\u00edvel regional, enfrentar o Super El Ni\u00f1o n\u00e3o exigiria, necessariamente, uma agenda<em> super<\/em>. Seria necess\u00e1rio\u00a0 ampliar os mecanismos de prote\u00e7\u00e3o social capazes de reduzir a vulnerabilidade das popula\u00e7\u00f5es expostas a secas, enchentes e ondas de calor, reconhecendo que a crise clim\u00e1tica tende a aprofundar desigualdades hist\u00f3ricas. Tudo isto baseado numa pol\u00edtica de seguran\u00e7a nacional \u2014 afinal, os impactos do que se anuncia podem comprometer a produ\u00e7\u00e3o de alimentos, o abastecimento de \u00e1gua, a gera\u00e7\u00e3o de energia e a pr\u00f3pria estabilidade econ\u00f4mica do pa\u00eds. Nesse sentido, a heterogeneidade do territ\u00f3rio brasileiro demanda uma an\u00e1lise de riscos que, embora integrada, seja necessariamente diferenciada por regi\u00e3o, uma vez que os ativos de infraestrutura ser\u00e3o submetidos a extremos opostos de estresse h\u00eddrico e t\u00e9rmico.<\/p>\n<p>Novamente, o Rio Grande do Sul \u00e9 ilustrativo: embora o estado tenha acumulado experi\u00eancia significativa com o desastre de 2024, quando registrou precipita\u00e7\u00f5es de 600 mm em 24 horas (uma chuva forte numa grande cidade fica entre 50 e 120 mm no mesmo intervalo de tempo), as proje\u00e7\u00f5es para o pr\u00f3ximo trimestre de 2026 concentram os principais riscos agora no Paran\u00e1. Nesse contexto, os governos estaduais ocupam uma posi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica, uma vez que s\u00e3o respons\u00e1veis por articular as diretrizes nacionais \u00e0s realidades territoriais regionais. Caberia a eles, portanto, desenvolver sistemas permanentes de gest\u00e3o de riscos clim\u00e1ticos e realizar investimentos maci\u00e7os em educa\u00e7\u00e3o ambiental, no fortalecimento das Defesas Civis, nos \u00f3rg\u00e3os ambientais e em redes de monitoramento hidrometeorol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, os estados precisam investir na adapta\u00e7\u00e3o de setores sens\u00edveis, como agricultura, recursos h\u00eddricos, sa\u00fade p\u00fablica e infraestrutura log\u00edstica. No Sul, por exemplo, isso significaria ampliar a capacidade de preven\u00e7\u00e3o e conten\u00e7\u00e3o de enchentes e, especialmente, fortalecer o sistema de saneamento; no Norte e no Nordeste, consolidar pol\u00edticas de conviv\u00eancia com a seca e proteger as bacias hidrogr\u00e1ficas; e, em todo o territ\u00f3rio nacional, expandir programas de restaura\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica e preven\u00e7\u00e3o de inc\u00eandios florestais. Mais do que responder a emerg\u00eancias \u2014 ainda que isso pare\u00e7a evidente \u2014 os estados precisariam incorporar a vari\u00e1vel clim\u00e1tica em seus planos de desenvolvimento, reconhecendo que eventos extremos deixar\u00e3o de ser exce\u00e7\u00f5es para se tornar cada vez mais frequentes na vida social, econ\u00f4mica e pol\u00edtica brasileira.<\/p>\n<p>Os governos municipais, por sua vez, constituem \u2014 em tese \u2014 a linha de frente da adapta\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica. Para exercerem efetivamente esse papel, seria necess\u00e1rio revisar os modelos de gest\u00e3o urbana, restringir a ocupa\u00e7\u00e3o de \u00e1reas sujeitas a enchentes e deslizamentos, ampliar investimentos em drenagem, saneamento e infraestrutura verde, al\u00e9m de fortalecer sistemas locais de alerta e resposta r\u00e1pida. Al\u00e9m disso, seria preciso preparar os servi\u00e7os de sa\u00fade para atender ao aumento de doen\u00e7as associadas a ondas de calor, \u00e0 polui\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica e \u00e0 prolifera\u00e7\u00e3o de vetores. Num cen\u00e1rio de intensifica\u00e7\u00e3o dos eventos clim\u00e1ticos extremos, a capacidade dos munic\u00edpios de planejar o territ\u00f3rio, proteger popula\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis e construir cidades mais resilientes ser\u00e1 decisiva para reduzir perdas humanas, sociais e econ\u00f4micas.<\/p>\n<p>Cabe lembrar que as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas s\u00e3o consideradas tamb\u00e9m um grande risco \u00e0 soberania nacional no s\u00e9culo XXI. De acordo com Paulo Artacho (IPCC\/USP), em entrevista recente, a eleva\u00e7\u00e3o da temperatura entre 2,8\u00b0C e 4\u00b0C n\u00e3o \u00e9 apenas uma m\u00e9trica clim\u00e1tica e ambiental \u2014 pode se tornar um gatilho de instabilidade social e econ\u00f4mica. A poss\u00edvel ina\u00e7\u00e3o dos governos diante desse cen\u00e1rio afetar\u00e1, ao menos, dois pilares cr\u00edticos da economia capitalista no Brasil: o agroneg\u00f3cio, dependente da estabilidade pluviom\u00e9trica, e a seguran\u00e7a energ\u00e9tica, ancorada na hidrografia. Para al\u00e9m disso, o pa\u00eds poder\u00e1 enfrentar uma crise demogr\u00e1fica com a emerg\u00eancia de <em>refugiados clim\u00e1ticos<\/em> internos, especialmente diante da desertifica\u00e7\u00e3o da bacia do Rio S\u00e3o Francisco e da transforma\u00e7\u00e3o do Semi\u00e1rido nordestino em uma zona \u00e1rida inabit\u00e1vel. Esta trag\u00e9dia se intensifica no planeta: s\u00e3o 123 milh\u00f5es de deslocados \u00e0 for\u00e7a no mundo, 90 milh\u00f5es vivem em pa\u00edses com alto ou extremo risco clim\u00e1tico \u2014 um aumento de 5 milh\u00f5es apenas entre 2023 e 2024, segundo o relat\u00f3rio \u201cSem escapat\u00f3ria: na linha de frente das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, conflitos e deslocamento for\u00e7ado\u201d.<\/p>\n<p>Ou seja: sem comprometimento administrativo para antecipar riscos, planejamento continuado, pol\u00edticas p\u00fablicas orientadas por evid\u00eancias e coopera\u00e7\u00e3o federativa efetiva, permaneceremos presos a um ciclo recorrente de trag\u00e9dias anunciadas, reconstru\u00e7\u00f5es custosas e amplia\u00e7\u00e3o das desigualdades sociais e das injusti\u00e7as ambientais.<\/p>\n<p><strong>O que o povo pode fazer?<\/strong><\/p>\n<p>Preparar-se para um poss\u00edvel Super El Ni\u00f1o n\u00e3o \u00e9 alarmismo. Por isso, o alerta para 2026 e parte de 2027 (at\u00e9 julho) deve ser compreendido como uma oportunidade de antecipa\u00e7\u00e3o e planejamento, ainda que sem suporte do poder p\u00fablico. Mesmo que os cen\u00e1rios mais severos n\u00e3o se confirmem a partir de julho pr\u00f3ximo, sobretudo a partir de novembro, os investimentos que ser\u00e3o feitos em preven\u00e7\u00e3o, monitoramento e adapta\u00e7\u00e3o n\u00e3o fortalecer\u00e3o efetivamente a capacidade da sociedade de enfrentar possibilidades de secas, enchentes, ondas de calor e outros eventos que far\u00e3o parte da realidade clim\u00e1tica brasileira.<\/p>\n<p>A crise clim\u00e1tica n\u00e3o ser\u00e1 enfrentada e nem superada apenas pelo tecnicismo, \u00e9 importante sublinhar. Novas tecnologias ou obras de infraestrutura s\u00e3o limitadas diante da for\u00e7a da natureza. \u00c9 preciso uma educa\u00e7\u00e3o socioambiental nas cidades, a partir da solidariedade e constru\u00e7\u00e3o de la\u00e7os comunit\u00e1rios robustos \u2014 e que, diante da neglig\u00eancia de gest\u00f5es p\u00fablicas, hoje \u00e9 encampada principalmente pelos movimentos sociais. Isso significa acompanhar informa\u00e7\u00f5es de fontes p\u00fablicas com base em dados, divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica promovida por universidades nos territ\u00f3rios, conhecer os riscos espec\u00edficos da regi\u00e3o onde se vive \u2014 e at\u00e9 elaborar planos familiares de emerg\u00eancia, como rotas de evacua\u00e7\u00e3o, contatos de emerg\u00eancia, guardar documentos importantes e ter estoques b\u00e1sicos de \u00e1gua, alimentos e medicamentos. Em um pa\u00eds marcado por profundas desigualdades, a resili\u00eancia clim\u00e1tica depender\u00e1 tanto da prepara\u00e7\u00e3o material quanto da capacidade de construir formas de prote\u00e7\u00e3o social e coopera\u00e7\u00e3o entre as comunidades e as institui\u00e7\u00f5es. O trabalho \u00e9 \u00e1rduo: afinal, apenas 6 em cada 10 brasileiros associam as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas \u00e0 a\u00e7\u00e3o humana \u2014 ainda que 9 em cada 10 j\u00e1 tenham sentido seus efeitos no dia a dia, como chuvas torrenciais, ondas de calor, alta nos alimentos e na energia. A desinforma\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica \u00e9 alarmante: a conta chega para todos, mas as causas seguem obscuras para muitos.<\/p>\n<p>Nos munic\u00edpios, especialmente em cidades sujeitas a enchentes, deslizamentos e ilhas de calor, s\u00e3o fundamentais a\u00e7\u00f5es para evitar a ocupa\u00e7\u00e3o de \u00e1reas de risco e cobrar dos governos investimentos em drenagem urbana, saneamento b\u00e1sico, conten\u00e7\u00e3o de encostas, recupera\u00e7\u00e3o de \u00e1reas degradadas e preven\u00e7\u00e3o de desastres. Contudo, o problema n\u00e3o se resume \u00e0 localiza\u00e7\u00e3o das moradias. As vulnerabilidades clim\u00e1ticas s\u00e3o produzidas por modelos de urbaniza\u00e7\u00e3o marcados pela desigualdade social, pela especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, pela impermeabiliza\u00e7\u00e3o excessiva do solo, pela supress\u00e3o da vegeta\u00e7\u00e3o e pela aus\u00eancia de planejamento territorial de longo prazo. Em muitas cidades brasileiras, popula\u00e7\u00f5es de baixa renda tendem a ser empurradas para encostas, margens de rios e \u00e1reas ambientalmente fr\u00e1geis, enquanto os setores mais valorizados concentram infraestrutura e prote\u00e7\u00e3o. Enfrentar os impactos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas exigiria repensar o pr\u00f3prio modelo de desenvolvimento urbano, ampliando investimentos em habita\u00e7\u00e3o social com localiza\u00e7\u00e3o apropriada, infraestrutura verde, parques urbanos, corredores ecol\u00f3gicos, renaturaliza\u00e7\u00e3o de rios, sistemas sustent\u00e1veis de drenagem e amplia\u00e7\u00e3o massiva da arboriza\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m ser\u00e1 cada vez mais importante adaptar resid\u00eancias \u00e0s novas condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, com sistemas de capta\u00e7\u00e3o e drenagem de \u00e1gua da chuva, melhoria da ventila\u00e7\u00e3o dos im\u00f3veis, utiliza\u00e7\u00e3o de materiais mais adequados ao conforto t\u00e9rmico e outras medidas voltadas ao enfrentamento dos per\u00edodos de calor extremo.<\/p>\n<p>Nas regi\u00f5es rurais, agricultores e comunidades tradicionais precisam investir em diversifica\u00e7\u00e3o produtiva, armazenamento de \u00e1gua, recupera\u00e7\u00e3o de solos, sistemas agroflorestais e pr\u00e1ticas ecol\u00f3gicas que aumentem a resist\u00eancia \u00e0s secas e \u00e0s irregularidades clim\u00e1ticas. Essa adapta\u00e7\u00e3o torna-se ainda mais necess\u00e1ria diante dos impactos associados \u00e0 expans\u00e3o de monoculturas intensivas, que frequentemente reduzem a biodiversidade, ampliam o desgaste dos solos e tendem a\u00a0 aumentar a vulnerabilidade dos territ\u00f3rios aos eventos clim\u00e1ticos extremos.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia internacional demonstra que comunidades organizadas respondem melhor \u00e0s crises socioambientais. Associa\u00e7\u00f5es de bairro, cooperativas, organiza\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias, universidades, sindicatos e movimentos sociais podem desempenhar papel fundamental na dissemina\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es, na constru\u00e7\u00e3o de redes de solidariedade e na press\u00e3o por pol\u00edticas p\u00fablicas adequadas \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Mas impera a l\u00f3gica reativa \u2013 e o negacionismo acossa munic\u00edpios. Caminho para evitar o ciclo de trag\u00e9dias anunciadas passa por outros paradigmas de articula\u00e7\u00e3o na esfera p\u00fablica e organiza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/outras-cidades\/super-el-nino-as-cidades-estao-preparadas\/\">Super El Ni\u00f1o: As cidades brasileiras est\u00e3o preparadas?<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":93003,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[70238,154,3016,70239,70240,30105,5872,140,70241,1112,70242,51726],"tags":[],"class_list":["post-93002","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cidades-e-clima","category-crise-climatica","category-el-nino","category-enchentes-no-brasil","category-ocupacao-de-areas-de-risco","category-outras-cidades","category-planejamento-urbano","category-racismo-ambiental","category-refugiados-do-clima","category-saneamento-basico","category-secas-no-brasil","category-super-el-nino"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/93002","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=93002"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/93002\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/93003"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=93002"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=93002"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=93002"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}