{"id":93297,"date":"2026-06-25T21:05:27","date_gmt":"2026-06-26T00:05:27","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-fetiche-da-mercadoria-a-dura-realidade-e-a-escala-6x1\/"},"modified":"2026-06-25T21:05:27","modified_gmt":"2026-06-26T00:05:27","slug":"o-fetiche-da-mercadoria-a-dura-realidade-e-a-escala-6x1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-fetiche-da-mercadoria-a-dura-realidade-e-a-escala-6x1\/","title":{"rendered":"O fetiche da mercadoria, a dura realidade e\u2026 a escala 6\u00d71!"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"548\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_5035181532418608329_x.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_5035181532418608329_x.jpg 800w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_5035181532418608329_x-300x206.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_5035181532418608329_x-768x526.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\"><figcaption>Imagem: Bumpei Usui<\/figcaption><\/figure>\n<h3><strong>Antes que a cr\u00edtica julgue<\/strong><\/h3>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<p><imgsrc=\"\" width=\"1\" height=\"1\" alt=\".\" border=\"0\">\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Na se\u00e7\u00e3o 4 do primeiro cap\u00edtulo de <em>O Capital<\/em>, Marx define o fetichismo da mercadoria como uma forma de objetiva\u00e7\u00e3o social na qual os produtores privados independentes se veem subordinados a um processo social que se autonomiza diante deles. Como ele observa, a mesma divis\u00e3o do trabalho que transforma os agentes econ\u00f4micos em produtores privados independentes \u201ctamb\u00e9m torna independente deles o processo social de produ\u00e7\u00e3o e as rela\u00e7\u00f5es que nele se estabelecem, de modo que a independ\u00eancia das pessoas umas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras se consuma num sistema de depend\u00eancia material (<em>sachlich<\/em>) universal\u201d (Marx, 2017, v. I, p. 182).<\/p>\n<p>Essa depend\u00eancia material prepara o terreno para a an\u00e1lise do fetichismo da mercadoria e da forma de domina\u00e7\u00e3o impessoal que dele decorre. Para fundamentar sua an\u00e1lise, Marx convida o leitor, no in\u00edcio da se\u00e7\u00e3o 4 do cap\u00edtulo I do Livro I de <em>O Capital<\/em>, a refugiar-se com ele no mundo nebuloso da religi\u00e3o. Nesse mundo, os produtos do c\u00e9rebro humano aparecem como figuras aut\u00f4nomas, dotadas de vida pr\u00f3pria e capazes de se relacionar entre si e com os homens. O mesmo ocorre no mundo das mercadorias: os produtos do trabalho humano assumem a forma de coisas que parecem possuir vida e vontade pr\u00f3prias. Desse modo, as rela\u00e7\u00f5es sociais entre os produtores apresentam-se como propriedades das coisas, que passam a confrontar os indiv\u00edduos como um poder objetivo e impessoal. \u201cA isso\u201d, diz Marx, \u201ceu chamo de fetichismo, que se cola aos produtos do trabalho t\u00e3o logo eles s\u00e3o produzidos como mercadorias e que, por isso, \u00e9 insepar\u00e1vel da produ\u00e7\u00e3o de mercadorias\u201d (Marx, 2017, v. I, pp. 147-148).<\/p>\n<p>\u00c9 essa invers\u00e3o que explica por que o capitalismo \u00e9 marcado por uma invers\u00e3o fundamental: os indiv\u00edduos renunciam \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de sujeitos para se tornarem suportes de rela\u00e7\u00f5es que n\u00e3o dominam. Invers\u00e3o que decorre da primazia do trabalho produtor de valor \u2014 o trabalho abstrato \u2014 sobre os trabalhos concretos, isto \u00e9, sobre os trabalhos produtores de valores de uso. Por essa raz\u00e3o, os indiv\u00edduos s\u00f3 podem usufruir da utilidade de um bem se, antes, pagarem por ele. Em outras palavras, o valor precede socialmente o valor de uso. Preced\u00eancia que se explica pelo fato de que, no capitalismo, o valor de uso, como observa Marx, constitui apenas o suporte material do valor.<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Prancheta--34.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Prancheta--34.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Prancheta-4-300x110.png 300w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Com efeito, no capitalismo, n\u00e3o \u00e9 a multiplicidade dos trabalhos individuais que vem primeiro, do ponto de vista do valor; n\u00e3o \u00e9 a diversidade concreta que organiza o sistema, mas a unidade \u2013 o trabalho abstrato \u2013 que domina e estrutura essa diversidade. \u00c9 por isso que os trabalhos concretos s\u00f3 \u201cvalem\u201d socialmente quando s\u00e3o reduzidos a trabalho abstrato, isto \u00e9, a trabalho indiferenciado, simples e homog\u00eaneo, que se distingue apenas quantitativamente.<\/p>\n<p>O senso comum v\u00ea tudo isso de ponta-cabe\u00e7a. Percebe, em primeiro lugar, a exist\u00eancia de diferentes indiv\u00edduos produzindo bens para lev\u00e1-los ao mercado e troc\u00e1-los por outros. O processo parece, assim, partir da a\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos, de suas atividades concretas. Contudo, as coisas n\u00e3o s\u00e3o como aparecem \u00e0 primeira vista. Na realidade, a din\u00e2mica \u00e9 inversa: \u00e9 o trabalho abstrato que organiza os diferentes trabalhos. Estes n\u00e3o contam pelo que s\u00e3o em si mesmos, mas pelo fato de serem reconhecidos como produtores de valor, como trabalhos convert\u00edveis em trabalho abstrato.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o, portanto, os indiv\u00edduos que determinam o curso dos acontecimentos. Nem poderiam, pois suas atividades est\u00e3o subordinadas \u00e0 l\u00f3gica do valor, isto \u00e9, \u00e0 l\u00f3gica do trabalho abstrato. Tal subordina\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, n\u00e3o se apresenta como tal. Ao contr\u00e1rio, imp\u00f5e-se aos indiv\u00edduos como uma for\u00e7a externa e objetiva, independentemente de sua vontade e de sua consci\u00eancia. \u00c9 precisamente nesse deslocamento \u2013 em que rela\u00e7\u00f5es sociais aparecem como propriedades das coisas e como pot\u00eancias que dominam os pr\u00f3prios produtores \u2013 que reside o fen\u00f4meno do fetichismo da mercadoria, tal como analisado por Marx.<\/p>\n<p>Diante de tudo isso, o leitor poderia, com raz\u00e3o, perguntar-se se a invers\u00e3o produzida pelo fetichismo \u2013 que reduz os indiv\u00edduos \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de suportes de rela\u00e7\u00f5es sociais que lhes escapam ao controle \u2013 n\u00e3o implicaria a supress\u00e3o de sua ag\u00eancia e de sua capacidade de orientar conscientemente suas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A obje\u00e7\u00e3o \u00e9 pertinente. Importa examinar, portanto, at\u00e9 que ponto essa invers\u00e3o priva os indiv\u00edduos da possibilidade de se comportarem como sujeitos, isto \u00e9, como pessoas dotadas de personalidade jur\u00eddica e capacidade de delibera\u00e7\u00e3o. Em outros termos, em que medida a fetichiza\u00e7\u00e3o impede sua capacidade de agir como portadores de vontade pr\u00f3pria?<\/p>\n<h3><strong>Fetichismo e luta de classes<\/strong><\/h3>\n<p>A resposta a essa quest\u00e3o depende de saber at\u00e9 que ponto a depend\u00eancia material que caracteriza a sociedade produtora de mercadorias compromete a capacidade dos indiv\u00edduos de agir como sujeitos de direito. Uma primeira aproxima\u00e7\u00e3o desse problema pode ser encontrada em <em>Hist\u00f3ria e consci\u00eancia de classe<\/em>. Nessa obra de 1923, Luk\u00e1cs inicia, no cap\u00edtulo \u201cA reifica\u00e7\u00e3o e a consci\u00eancia do proletariado\u201d, sua an\u00e1lise do fetichismo chamando a aten\u00e7\u00e3o para o fato de que ele constitui \u201cuma quest\u00e3o espec\u00edfica da nossa \u00e9poca e do capitalismo moderno\u201d (Luk\u00e1cs, 1974, p. 97).<\/p>\n<p>Para demonstrar que o fetichismo \u00e9 um fen\u00f4meno singular da \u00e9poca burguesa, Luk\u00e1cs recorre a Marx. Encontra em <em>Para a cr\u00edtica da economia pol\u00edtica<\/em> a confirma\u00e7\u00e3o de sua tese e cita uma longa passagem em que Marx mostra que, nas sociedades anteriores ao capitalismo, \u201co valor de troca n\u00e3o tem ainda forma independente, est\u00e1 ainda diretamente ligado ao valor de uso. Isso se manifesta de dois modos. A pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o est\u00e1 toda ela organizada em fun\u00e7\u00e3o do valor de uso e n\u00e3o do valor de troca; unicamente quando os valores de uso ultrapassam a medida em que s\u00e3o necess\u00e1rios para o consumo, cessam de ser valores de uso e se convertem em meios de troca: em mercadorias\u201d (Marx apud Luk\u00e1cs, 1974, p. 98).<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"\" alt=\"\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>A partir dessa distin\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, Luk\u00e1cs adverte que as implica\u00e7\u00f5es do predom\u00ednio da forma mercadoria sobre a estrutura da sociedade n\u00e3o deve ser avaliadas em termos meramente quantitativos, isto \u00e9, como simples medida da maior ou menor extens\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o voltada para o mercado. A diferen\u00e7a decisiva \u00e9, antes de tudo, de natureza qualitativa. Nas palavras do pr\u00f3prio autor, \u201ca diferen\u00e7a entre uma sociedade em que a forma mercantil \u00e9 a forma dominante, exercendo uma influ\u00eancia decisiva sobre todas as manifesta\u00e7\u00f5es da vida, e uma sociedade em que ela aparece apenas episodicamente, \u00e9 antes de tudo uma diferen\u00e7a qualitativa; com efeito, conforme essa diferen\u00e7a, o conjunto dos fen\u00f4menos subjetivos e objetivos das sociedades em quest\u00e3o assume formas de objetividade qualitativamente distintas\u201d (Luk\u00e1cs, 1974, p,98).<\/p>\n<p>Para Luk\u00e1cs, o fetichismo n\u00e3o se restringe \u00e0 esfera econ\u00f4mica, mas permeia o conjunto da vida social, alcan\u00e7ando o direito, o Estado, a burocracia, a cultura e a pr\u00f3pria subjetividade. Por essa raz\u00e3o, nenhuma forma de rela\u00e7\u00e3o humana permanece inteiramente imune \u00e0 sua influ\u00eancia. A abrang\u00eancia desse processo \u00e9 tal que seus efeitos podem ser observados at\u00e9 mesmo na esfera das rela\u00e7\u00f5es conjugais. Mesmo que limitado pelas antinomias da incognoscibilidade da coisa em si, Kant foi capaz de entender o casamento como uma comunidade sexual, isto \u00e9, como o \u201cuso rec\u00edproco que um ser humano faz dos \u00f3rg\u00e3os e das faculdades sexuais de um outro ser humano [\u2026] O casamento [\u2026] \u00e9 a uni\u00e3o de duas pessoas de sexo diferente, com vista \u00e0 posse rec\u00edproca e por toda a vida, das suas propriedades sexuais\u201d (Kant apud Luk\u00e1cs, 1974, p. 115).<\/p>\n<p>No entanto, por mais abrangente que seja o fetichismo, ele n\u00e3o constitui uma necessidade absoluta a ponto de eliminar a capacidade dos indiv\u00edduos de agir segundo seus pr\u00f3prios interesses e objetivos. O capitalista, por exemplo, decide investir, contratar trabalhadores ou ampliar seus neg\u00f3cios, ainda que suas decis\u00f5es sejam condicionadas por for\u00e7as sociais que escapam ao seu controle, como a concorr\u00eancia, as crises e as oscila\u00e7\u00f5es do mercado. Do mesmo modo, o trabalhador conserva uma margem de iniciativa pr\u00e1tica: pode procurar emprego, mudar de atividade, buscar qualifica\u00e7\u00e3o profissional ou engajar-se em formas coletivas de organiza\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Em ambos os casos, a a\u00e7\u00e3o individual \u00e9 condicionada pelas estruturas sociais, mas n\u00e3o inteiramente determinada por elas. O fetichismo n\u00e3o transforma os indiv\u00edduos em meros suportes passivos de rela\u00e7\u00f5es objetivadas; ao contr\u00e1rio, eles continuam a atuar como sujeitos dotados de vontade e consci\u00eancia, ainda que em circunst\u00e2ncias que n\u00e3o escolheram e sobre as quais exercem controle apenas limitado.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significa, entretanto, que capitalistas e trabalhadores se relacionem da mesma maneira com as formas fetichizadas da vida social. Embora vivam sob a mesma ordem social, cada um experimenta os efeitos do fetichismo de modo distinto. O capitalista, por exemplo, sente-se plenamente integrado a essa ordem, pois sua pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o depende de um mundo fragmentado e atomizado. Sua experi\u00eancia \u00e9 moldada pela propriedade privada e pela circula\u00e7\u00e3o mercantil, que constituem, para ele, n\u00e3o apenas o mundo efetivamente existente, mas tamb\u00e9m o horizonte ideal de sua sociabilidade.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia do proletariado, por\u00e9m, \u00e9 inteiramente diversa. Onde o capitalista v\u00ea lucro, o trabalhador vivencia explora\u00e7\u00e3o; onde o primeiro enxerga o desemprego como simples resposta \u00e0 retra\u00e7\u00e3o da atividade econ\u00f4mica, o segundo percebe a amea\u00e7a concreta da fome e da mis\u00e9ria. Por isso, o trabalhador n\u00e3o apenas reage de modo distinto aos efeitos de um mundo fragmentado e atomizado, mas constitui tamb\u00e9m a \u00fanica classe capaz de superar as formas de domina\u00e7\u00e3o produzidas pelo fetichismo, uma vez que ocupa uma posi\u00e7\u00e3o singular na sociedade capitalista: \u00e9 objeto das rela\u00e7\u00f5es sociais existentes e portador da possibilidade de sua transforma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>A ideia de que o proletariado ocupa uma posi\u00e7\u00e3o singular na sociedade capitalista desempenha papel central na interpreta\u00e7\u00e3o de Luk\u00e1cs. O autor encontra o fundamento dessa tese na obra juvenil de Marx dedicada \u00e0 <em>Cr\u00edtica da filosofia pol\u00edtica de Hegel<\/em>. Segundo a leitura apresentada em <em>Hist\u00f3ria e Consci\u00eancia de Classe<\/em>, Marx j\u00e1 teria reconhecido no proletariado uma classe que figura simultaneamente como objeto das rela\u00e7\u00f5es sociais vigentes e sujeito potencial de sua transforma\u00e7\u00e3o. Da\u00ed a afirma\u00e7\u00e3o de Luk\u00e1cs de que \u201co conhecimento de si \u00e9, pois, para o proletariado, o conhecimento objetivo da ess\u00eancia da sociedade\u201d (Luk\u00e1cs, 1974, p. 168).<\/p>\n<p>Eis a\u00ed o n\u00facleo em torno do qual giram os argumentos desenvolvidos por Luk\u00e1cs em <em>Hist\u00f3ria e Consci\u00eancia de Classe<\/em>. A tese do proletariado como sujeito-objeto id\u00eantico da hist\u00f3ria constitui uma nega\u00e7\u00e3o direta da ideia de que o fetichismo retira dos indiv\u00edduos sua capacidade de agir. No caso do proletariado, em contraste com a burguesia, essa tese revela mais do que uma simples rea\u00e7\u00e3o do trabalhador nos limites de uma consci\u00eancia fragmentada: ela exprime o car\u00e1ter revolucion\u00e1rio capaz de conduzir \u00e0 supera\u00e7\u00e3o da reifica\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, do pr\u00f3prio fetichismo.<\/p>\n<p>Com esse desfecho, pode-se retomar a quest\u00e3o que abriu esta se\u00e7\u00e3o: saber se o fetichismo e a reifica\u00e7\u00e3o retiram dos indiv\u00edduos a possibilidade de se comportarem como sujeitos. A resposta \u00e9 negativa. Embora o fetichismo condicione profundamente a vida social, ele n\u00e3o elimina por completo a capacidade de a\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos. Para Luk\u00e1cs, essa conclus\u00e3o alcan\u00e7a sua express\u00e3o m\u00e1xima no proletariado, \u00fanica classe que, em virtude de sua posi\u00e7\u00e3o na sociedade capitalista, pode transformar a experi\u00eancia da reifica\u00e7\u00e3o em fundamento de uma pr\u00e1tica revolucion\u00e1ria orientada para a supera\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria ordem existente.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o aspecto mais inovador e revolucion\u00e1rio de <em>Hist\u00f3ria e Consci\u00eancia de Classe<\/em>. Resta examinar, contudo, o outro lado da quest\u00e3o: os impasses pol\u00edticos e as fragilidades te\u00f3ricas que decorrem da pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o lukacsiana. Politicamente, a tese do proletariado sujeito-objeto id\u00eantico, de extra\u00e7\u00e3o hegeliana, peca por seu car\u00e1ter excessivamente espontane\u00edsta da consci\u00eancia prolet\u00e1ria. Como bem observa Frederico, a teoria lukacsiana \u201cda consci\u00eancia contrariava, no plano da pol\u00edtica e da organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, a teoria desenvolvida por L\u00eanin no livro <em>Que fazer?<\/em>, aceita pelo setor majorit\u00e1rio do movimento comunista internacional\u201d (Frederico,1997, p,13).<\/p>\n<p>As implica\u00e7\u00f5es voluntaristas da posi\u00e7\u00e3o lukacsiana n\u00e3o passaram despercebidas aos seus contempor\u00e2neos. Antes mesmo da publica\u00e7\u00e3o de <em>Hist\u00f3ria e Consci\u00eancia de Classe<\/em>, L\u00eanin j\u00e1 dirigia cr\u00edticas severas a essa orienta\u00e7\u00e3o. Em seu coment\u00e1rio ao artigo \u201c<em>Zur Frage des Parlamentarismus<\/em>\u201d (\u201c<em>Sobre a quest\u00e3o do parlamentarismo<\/em>\u201d), publicado por Luk\u00e1cs na revista <em>Kommunismus<\/em> em 1920, L\u00eanin acusava-o de formular um marxismo excessivamente abstrato, incapaz de realizar a an\u00e1lise concreta das situa\u00e7\u00f5es concretas. Segundo ele, a distin\u00e7\u00e3o entre t\u00e1ticas defensivas e ofensivas era meramente imagin\u00e1ria, ao passo que a tarefa fundamental do movimento comunista \u2013 conquistar todas as esferas de atua\u00e7\u00e3o em que a burguesia exerce influ\u00eancia sobre as massas \u2013 permanecia fora de considera\u00e7\u00e3o (L\u00eanin apud Frederico, 1997, p.11).<\/p>\n<p>Para al\u00e9m de suas limita\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, a formula\u00e7\u00e3o lukacsiana incorre em um problema te\u00f3rico fundamental ao conceber o trabalho abstrato como produto da racionaliza\u00e7\u00e3o do trabalho concreto. Tal interpreta\u00e7\u00e3o, segundo Celso Frederico, afasta-se do n\u00facleo da cr\u00edtica marxiana da economia pol\u00edtica, na medida em que substitui \u201ca centralidade do valor e de sua realiza\u00e7\u00e3o em Marx [\u2026] pelo nost\u00e1lgico apego ao trabalho concreto\u201d (Frederico, 2010, p. 173). Assim, ao deslocar a an\u00e1lise do valor para a problem\u00e1tica da racionaliza\u00e7\u00e3o, Luk\u00e1cs deixou em segundo plano um aspecto decisivo da cr\u00edtica marxiana: o fato de que, na esfera imediata da produ\u00e7\u00e3o, onde as rela\u00e7\u00f5es sociais ainda se apresentam de forma relativamente simples, as conex\u00f5es internas do processo de valoriza\u00e7\u00e3o se imp\u00f5em diretamente aos agentes econ\u00f4micos nela envolvidos. Da\u00ed por que, como observa Marx, a \u201cintensa luta em torno dos limites da jornada de trabalho\u201d constitui uma \u201cprova decisiva\u201d (Marx, 2017, III, p. 889).<\/p>\n<p>Com isso, Marx demonstra que o fetichismo n\u00e3o exclui a luta de classes nem priva os indiv\u00edduos de sua capacidade de agir como sujeitos conscientes, ainda que suas a\u00e7\u00f5es se desenvolvam nos limites objetivos impostos pela din\u00e2mica do capital. Essa tese reaparece de forma particularmente expl\u00edcita em <em>Sal\u00e1rio, Pre\u00e7o e Lucro<\/em>, texto apresentado ao Conselho Geral da Associa\u00e7\u00e3o Internacional dos Trabalhadores em 1865. Ali, Marx sustenta que a classe trabalhadora n\u00e3o pode renunciar \u00e0 resist\u00eancia contra os abusos do capital, pois, se abdicasse dessa luta, os trabalhadores \u201cver-se-iam degradados a uma massa informe de homens famintos e arrasados, sem possibilidade de salva\u00e7\u00e3o\u201d. N\u00e3o por acaso, conclui que \u201cas lutas da classe oper\u00e1ria em torno do padr\u00e3o de sal\u00e1rios s\u00e3o epis\u00f3dios insepar\u00e1veis de todo o sistema do salariado\u201d (Marx, 1982, p. 184).<\/p>\n<p>A din\u00e2mica contradit\u00f3ria dessa luta manifesta-se na pr\u00f3pria compra e venda da for\u00e7a de trabalho. \u00c9 a\u00ed que capitalistas e trabalhadores se confrontam como pessoas conscientes de seus interesses e de seus direitos. Cada uma das partes procura fazer valer as prerrogativas que lhe s\u00e3o asseguradas pela rela\u00e7\u00e3o de troca. Como observa Marx, \u201co capitalista faz valer seus direitos como comprador quando tenta prolongar o m\u00e1ximo poss\u00edvel a jornada de trabalho e transformar, onde for poss\u00edvel, uma jornada de trabalho em duas. Por outro lado [\u2026], o trabalhador faz valer seu direito como vendedor quando quer limitar a jornada de trabalho a uma dura\u00e7\u00e3o normal determinada. Tem-se aqui, portanto, uma antinomia, um direito contra outro direito, ambos igualmente apoiados na lei da troca de mercadorias. Entre direitos iguais, quem decide \u00e9 a for\u00e7a. E assim a regulamenta\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho se apresenta, na hist\u00f3ria da produ\u00e7\u00e3o capitalista, como uma luta em torno dos limites da jornada de trabalho \u2013 uma luta entre o conjunto dos capitalistas, i.e., a classe capitalista, e o conjunto dos trabalhadores, i.e., a classe trabalhadora (Marx,2017, I, p,309).<\/p>\n<p>Ainda que a luta pelos limites da jornada de trabalho represente, nas palavras de Marx, apenas uma \u201cluta de guerrilha contra os efeitos do sistema\u201d, e n\u00e3o um movimento dirigido \u00e0 supera\u00e7\u00e3o do trabalho assalariado, ela revela com clareza que a forma fetichizada das rela\u00e7\u00f5es sociais n\u00e3o anula a capacidade de a\u00e7\u00e3o consciente dos indiv\u00edduos. No interior dessas rela\u00e7\u00f5es, trabalhadores e capitalistas se confrontam como sujeitos de direito, dotados de vontade e consci\u00eancia, engajados numa disputa em torno de interesses antag\u00f4nicos.<\/p>\n<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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