{"id":93474,"date":"2026-06-26T16:52:29","date_gmt":"2026-06-26T19:52:29","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-som-do-rugido-da-onca-a-contra-historia-de-um-sequestro\/"},"modified":"2026-06-26T16:52:29","modified_gmt":"2026-06-26T19:52:29","slug":"o-som-do-rugido-da-onca-a-contra-historia-de-um-sequestro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-som-do-rugido-da-onca-a-contra-historia-de-um-sequestro\/","title":{"rendered":"O som do rugido da on\u00e7a, a contra-hist\u00f3ria de um sequestro"},"content":{"rendered":"<div>\n<figure><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"700\" height=\"400\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_5041813816622124000_x-2.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_5041813816622124000_x-2.jpg 700w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_5041813816622124000_x-300x171.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 700px) 100vw, 700px\"><figcaption>Imagem: sasha-kasha\/DepositPhotos<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"534\" height=\"800\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_5041813816622124001_x-2-2.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_5041813816622124001_x-2-2.jpg 534w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_5041813816622124001_x-2-200x300.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 534px) 100vw, 534px\"><\/figure>\n<\/div>\n<p><strong>I. <\/strong>Em <em>O som do rugido da on\u00e7a<\/em> (2021), Micheliny Verunschk promove uma contundente releitura cr\u00edtica de um epis\u00f3dio sombrio da hist\u00f3ria colonial brasileira: o sequestro e a morte dos meninos ind\u00edgenas I\u00f1e-e e Juri. A narrativa aborda a expedi\u00e7\u00e3o (1817-1820) dos naturalistas Johann Baptist von Spix e Karl Friedrich von Martius para al\u00e9m do \u00e2mbito propriamente cient\u00edfico, movimentando-se atrav\u00e9s de uma perspectiva que a concebe como uma franca opera\u00e7\u00e3o de desumaniza\u00e7\u00e3o. Deve ser dito, nesse sentido, que a \u201cfigura do \u2018primitivo\u2019, como do animal, sempre foi vista \u00e0 margem da cultura como \u201co outro homem\u201d (DIAS, 2022, p. 124). Ao focar em I\u00f1e-e, a crian\u00e7a da etnia Miranha entregue aos bot\u00e2nicos pelo pr\u00f3prio pai, a autora exp\u00f5e a viol\u00eancia do desenraizamento: levados \u00e0 Alemanha, os jovens seriam exibidos como exemplares da fauna tropical brasileira. O romance denuncia a dimens\u00e3o colonialista da dita ci\u00eancia hist\u00f3rico-antropol\u00f3gica de matriz euroc\u00eantrica que, sob o pretexto civilizat\u00f3rio, converte os corpos origin\u00e1rios em espet\u00e1culo e em curiosidade intelectual. Esse processo promove, por conseguinte, um esvaziamento ontol\u00f3gico e uma classifica\u00e7\u00e3o arbitr\u00e1ria que posiciona o ind\u00edgena como o \u201cn\u00e3o-contempor\u00e2neo\u201d, um ser <em>outrificado<\/em>, inferiorizado pela ideia de humanidade e reduzido, portanto, \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de um objeto. O livro \u00e9 dividido em tr\u00eas momentos: 1) a viagem dist\u00f3pica dos meninos ind\u00edgenas para a Baviera; 2) a apari\u00e7\u00e3o da personagem Josefa, que no Brasil participa de uma exposi\u00e7\u00e3o da Cole\u00e7\u00e3o Brasiliana Ita\u00fa, onde se surpreende com uma litografia de Miranha e de Juri na qual trazia em \u201cletras gra\u00fadas\u201d, a seguinte chamada: \u201cOs \u00edndios vistos como parte da fauna\u201d (VERUNSCHK, 2021, p. 89); 3) a rela\u00e7\u00e3o ancestral da menina I\u00f1e-e com a on\u00e7a, que na mitologia amer\u00edndia aparece como um importante animal xam\u00e2nico, que a acompanha desde muito pequena, quando ela sumiu da sua aldeia e foi encontrada junto ao animal em um ribeira, o que a fez ser considerada pela comunidade como <em>encantada<\/em>, fato que, contudo, fez o seu pai a t\u00ea-la como uma inimiga, motivo que o fez a entreg\u00e1-la aos brancos, embora o seu av\u00f4 Xam\u00e3 considerasse uma \u201cd\u00e1diva\u201d a alian\u00e7a com a on\u00e7a. Ent\u00e3o o seu pai, que buscava emular h\u00e1bitos ocidentalizados, requerendo, inclusive, o nome de Jo\u00e3o Manoel, envolve I\u00f1e-e em uma troca com o grupo liderado pelo bot\u00e2nico Martius. Desse modo, \u201cO pai de I\u00f1e-e e o estrangeiro, que atendia pelo nome de Martius, firmaram acordo sobre a venda de sete crian\u00e7a. Mas o homem branco deixaria o porto dos Miranhas levando consigo oito vidas, I\u00f1e-e lhe fora dada como presente\u201d (VERUNSCHK, 2021, p. 22).<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<p><imgsrc=\"\" width=\"1\" height=\"1\" alt=\".\" border=\"0\">\n<\/div>\n<\/div>\n<p>A hist\u00f3ria escrita por Verunschk opera atrav\u00e9s das fissuras, das brechas, das pequenas frestas, sendo capaz de instituir \u201crachaduras\u201d no interior dos relatos hegem\u00f4nicos, que sufocaram as vozes ancestrais, como a da menina Miranha. \u00c9 a tentativa de retratar o processo de \u201cdesencantamento\u201d a partir da perspectiva da resist\u00eancia, que evoca um sentimento de destemor ao passo que se lan\u00e7a para a justi\u00e7a hist\u00f3rica: \u201cPara contar esta hist\u00f3ria, de I\u00f1e-e adverte que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ser tolerante. Ademais, usa-se essa voz e essa l\u00edngua porque \u00e9 com ela que se faz poss\u00edvel ferir melhor\u201d (VERUNSCHK, 2021, p. 15). Utiliza-se a raspagem como horizonte de reescrita, em que o passado se apresenta desestabilizado e colocado no lugar de estranhamento, o que leva \u00e0 problematiza\u00e7\u00e3o cr\u00edtica do presente: \u201cEssa \u00e9 a voz do morto, na l\u00edngua do morto, nas letras do morto. Tudo eivado de imperfei\u00e7\u00e3o, \u00e9 verdade, mas o que possa fazer sen\u00e3o contar, entre rachaduras, esta hist\u00f3ria\u201d? \u00c9 uma hist\u00f3ria que busca sair da escurid\u00e3o a que foi destinada, partindo das margens para a cria\u00e7\u00e3o de um novo presente que se quer fazer conscientemente anacr\u00f4nico, desviante de um sentido que coincida com a fatalidade, com a mesmidade, com continuidade imposta pelo fluxo do tempo \u00fanico: \u201cFeito planta que rompe a dureza do tijolo, suas ra\u00edzes caminhando pelo escuro, a for\u00e7a de suas folhas impondo nova paisagem, esta hist\u00f3ria procura o sol\u201d (VERUNSCHK, 2021, p. 15). Os questionamentos de I\u00f1e-e, na viagem que a levou da sua aldeia, d\u00e3o concretude para a desumaniza\u00e7\u00e3o envolvida nessa hist\u00f3ria que pretende ser contada a partir perspectiva da v\u00edtima: \u201cComo pode ser bom algu\u00e9m que compra outras pessoas? Que as leva para longe de seus parentes? Eram as perguntas que I\u00f1e-e remo\u00eda dentro de si mesma\u201d (VERUNSCHK, 2021, p. 28). \u00c9 sintom\u00e1tico, pois, a perda da sua voz, j\u00e1 que n\u00e3o poderia sequer se comunicar com os agressores por desconhecer o nheengatu ou o portugu\u00eas.<\/p>\n<p>A obra deseja dar a ver o imagin\u00e1rio amer\u00edndio como uma contra-hist\u00f3ria, que busca confrontar a narrativa da civiliza\u00e7\u00e3o europeia, por onde se recupera dimens\u00f5es m\u00edticas e de natureza on\u00edrico-especulativo, emergindo, da\u00ed, a coparticipa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o-humanos como esteio para as cosmovis\u00f5es que atravessam a vida social dos povos origin\u00e1rios. Assim, vemos a presen\u00e7a de animais, de plantas, de objetos e de esp\u00edritos que preenchem o cotidiano ancestral, sendo percebidos como agentes e com habilidades pr\u00f3prias, havendo, ent\u00e3o, o processo de antropomorfiza\u00e7\u00e3o, onde se admite a \u201cmetamorfose de corpos da sua condi\u00e7\u00e3o animal para a humana e vice-versa\u201d. Est\u00e1 em jogo o perspectivismo amer\u00edndio, forma de elaborar a realidade em que se coloca em suspenso alguns bin\u00f4mios naturalistas euroc\u00eantricos, tais como natureza e cultura, objetivo e subjetivo, f\u00edsico e moral, iman\u00eancia e transcend\u00eancia (DIAS, 2022, p. 125). Nesse sentido, parece importante resgatar a dram\u00e1tica tentativa do rio de impedir que I\u00f1e-e fosse levada por Martius, o que certamente invoca significa\u00e7\u00f5es importantes para as cosmovis\u00f5es amer\u00edndias, n\u00e3o sendo um mero simbolismo, mas formas de entendimento da realidade, com uma orienta\u00e7\u00e3o que ultrapassa a raz\u00e3o ocidental, sempre no singular:<\/p>\n<blockquote>\n<p>No dia em que I\u00f1e-e deixou a vida que conhecia para tr\u00e1s, ela ouviu a voz do rio, cont\u00ednua e tornada escura pela fric\u00e7\u00e3o com as pedras, com as ra\u00edzes e com a pele corredi\u00e7a dos peixes. P\u00f4de sentir sua teimosia e agastamento, e perceber as tentativas de impedir a sua partida. Assim, o rio jogou barrancos de areia no caminho, enviou troncos para atingir as canoas, assoprou nuvens de insetos. E esbravejava (VERUNSCHK, 2021, p. 39).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A opera\u00e7\u00e3o de Verunschk caminha no sentido de n\u00e3o transformar a mat\u00e9ria mitol\u00f3gica como forma de abordar a realidade em algo menor, como se fosse uma express\u00e3o \u201cpr\u00e9-racional\u201d e, portanto, \u201cincompleta\u201d. Como bem nota Guilherme Bianchi (2019, p. 278), ao retomar as reflex\u00f5es de Hans Blumenberg, a disposi\u00e7\u00e3o m\u00edtica \u00e9 melhor compreendida como \u201cpergunta viva\u201d, o que faz dela uma maneira de tornar o mundo significativo. \u201cO mito explica, mas n\u00e3o define. Sua recusa ao fechamento se expressa pela sua tentativa org\u00e2nica de pertencer ao mundo que est\u00e1 envolto, um mundo que nunca est\u00e1 encerrado sobre si\u201d. Se o mito se relaciona com os fatos dados, isso n\u00e3o quer dizer, de outro modo, que se limita a represent\u00e1-los por meio de uma perspectiva mim\u00e9tico-factualista. \u00c9 dial\u00e9tico os movimentos interativos entre os mitos e os fatos, sendo que o modo como \u00e0queles apresentam a institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o, necessariamente, um decalque do seu funcionamento, havendo em muitas situa\u00e7\u00f5es, como demonstra Bianchi, a apresenta\u00e7\u00e3o do oposto das institui\u00e7\u00f5es de fato. Assim, as mitologias amer\u00edndias, da forma como representadas por Verunschk, apresentam-se como express\u00f5es leg\u00edtimas de postulados sobre o mundo, tendo em vista que as verdades m\u00edticas se mostram como narrativas sobre a hist\u00f3ria, ainda que n\u00e3o sejam, propriamente, narrativas hist\u00f3ricas (BIANCHI, 2019, p. 279). Os mitos devem ser considerados como proposi\u00e7\u00f5es sobre o real, n\u00e3o sendo poss\u00edvel que sejam analisados pelos eixos de julgamento do discurso cient\u00edfico, na medida em que as suas fun\u00e7\u00f5es s\u00e3o outras. \u201cAs verdades m\u00edticas pertencem mais a um universo moral de significado do que em um universo natural de significado (o mundo \u00fanico das ci\u00eancias da natureza ou a ideia de Hist\u00f3ria como singular coletivo das ci\u00eancias humanas)\u201d (BIANCHI, 2019, p. 279).<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/1-40.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/1-40.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/15-300x110.png 300w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p><strong>II. <\/strong>A obra empenha-se em romper com a concep\u00e7\u00e3o de um tempo \u00fanico e unificador (singular coletivo \u2013 a Hist\u00f3ria), forjado pela universaliza\u00e7\u00e3o da perspectiva europeia de domina\u00e7\u00e3o. Esse paradigma, manifesto na ci\u00eancia de Spix e de Martius, n\u00e3o se limita a subjugar os corpos ind\u00edgenas, pois ele captura os seus modos de ser e os seus percursos de exist\u00eancia, integrando-os a um suposto \u201cprocesso civilizador\u201d que, por defini\u00e7\u00e3o, suprime a pluralidade das culturas origin\u00e1rias. Verunschk confronta essa vis\u00e3o totalizante, desarticulando as narrativas modernas que classificam e homogene\u00edzam a alteridade sob o triunfo da raz\u00e3o. Nesse contexto, o sequestro das crian\u00e7as ind\u00edgenas \u00e9 retratado como a apropria\u00e7\u00e3o arbitr\u00e1ria de todo um universo de significados por um vi\u00e9s narrativo unidimensional. Ao ampliar o olhar sobre o passado, <em>O som do rugido da on\u00e7a<\/em> promove a liberta\u00e7\u00e3o de vis\u00f5es que testemunham as engrenagens de poder implicadas em seus pr\u00f3prios apagamentos. No limite, a escritora pernambucana evidencia que essas opera\u00e7\u00f5es s\u00e3o constru\u00e7\u00f5es sociais derivadas de \u201clugares epist\u00eamicos\u201d espec\u00edficos, instigando o leitor e a leitora a questionarem como tais narrativas s\u00e3o \u201cselecionadas, perpetuadas e por quem s\u00e3o contadas em nosso sistema social\u201d (BESS, 2024, p. 4).<\/p>\n<p>A expedi\u00e7\u00e3o de Spix e de Martius, e o consequente sequestro de I\u00f1e-e e Juri, s\u00e3o examinados sob a lente do pretenso universalismo moderno. Tal paradigma estabelece o Ocidente como o motor da ilustra\u00e7\u00e3o e o detentor da raz\u00e3o, forjando a justificativa moral para o empreendimento colonialista. O que subjaz a esse triunfo da racionalidade \u00e9, em \u00faltima caso, o etnocentrismo, \u201cem que os valores de uma pequena parte do mundo s\u00e3o extrapolados em um modelo aplic\u00e1vel para todos\u201d (BESS, 2024, p. 4). Essa orienta\u00e7\u00e3o de mundo n\u00e3o pode ser tratada apenas como uma perspectiva entre outras qualquer, uma vez que \u00e9 capaz de instaurar mecanismos de poder que legitimam e que justificam a subjuga\u00e7\u00e3o de toda alteridade. Ao classificar o \u201coutro\u201d como \u201cex\u00f3tico\u201d, \u201cn\u00e3o-contempor\u00e2neo\u201d ou \u201cselvagem\u201d, o dom\u00ednio euroc\u00eantrico tem em vista capturar e invalidar as dimens\u00f5es do pensar, do sentir e do existir origin\u00e1rios, cristalizando, dessa forma, uma hierarquia que autoriza a viol\u00eancia em nome de fatores como o Estado-Na\u00e7\u00e3o moderno, o progresso ou a racionalidade cient\u00edfica (SETH, 2013). Nesse sentido, a recupera\u00e7\u00e3o das formas origin\u00e1rias de apreender a exist\u00eancia emerge como estrat\u00e9gia para desestabilizar a hist\u00f3ria \u00fanica de matriz euroc\u00eantrica. A obra permite a reinscri\u00e7\u00e3o das suas cosmovis\u00f5es, das suas mitologias e das suas percep\u00e7\u00f5es on\u00edrico-sensoriais em narrativas mais plurais e mais inclusivas, elementos cujo apagamento serviu historicamente como pretexto para a explora\u00e7\u00e3o, para a subjuga\u00e7\u00e3o e mesmo para o exterm\u00ednio. A inclus\u00e3o de agentes n\u00e3o-humanos no romance, tamb\u00e9m eles v\u00edtimas do colonialismo da raz\u00e3o, revela uma resson\u00e2ncia simb\u00f3lico-material que amplifica as leituras da vida social. Ao evocar essas presen\u00e7as, Micheliny Verunschk desmonta os dispositivos de poder eurocentrados, reabilita ontologias marginalizadas e viabiliza a imagina\u00e7\u00e3o de outros mundos poss\u00edveis.<\/p>\n<p>Na leitura da autora, a expedi\u00e7\u00e3o de Spix e de Martius converte o territ\u00f3rio brasileiro em objeto a ser prescrutado, rotulado e catalogado. A ci\u00eancia moderna opera aqui como um dispositivo de controle que hierarquiza o real a partir de uma escala evolutiva pretensamente universal. Esse sistema produz socialmente a no\u00e7\u00e3o do \u201cinferior\u201d, submetendo a natureza, os demais seres e os humanos situados fora do eixo euro-ocidental a uma l\u00f3gica de subalternidade. Essa arquitetura de saber, bastante presente nas narrativas oitocentistas, \u00e9 desvelada por meio de um detalhe que a Verunschk explora com precis\u00e3o: as rasuras nos di\u00e1rios de Martius sobre a captura dos jovens ind\u00edgenas. Tais emendas revelam o esfor\u00e7o do naturalista em salvaguardar o seu lugar epist\u00eamico de homem branco, cientista e civilizado. Ao rasurar as a\u00e7\u00f5es em torno daquele epis\u00f3dio, Martius busca meios de justificar o ato, transformando-o em uma miss\u00e3o de progresso que, supostamente, resgataria I\u00f1e-e, Juri e os outros de um universo selvagem e perigoso. O di\u00e1rio transita, portanto, do estatuto de testemunho para o de um franco artefato ideol\u00f3gico, em que a rasura aparece como um mecanismo de legitima\u00e7\u00e3o discursiva, transformando toda a viol\u00eancia colonialista daquele sequestro em uma suposta narrativa de filantropia civilizat\u00f3ria. Vejamos as palavras de Verunschk (2021, p. 33):<\/p>\n<blockquote>\n<p>Martius rasura. Omite o destino do menino. Precisa apagar rastros, estabelecer o lugar do corte entre o vivido e aquilo que gostaria que tivesse acontecido. Ou dar apenas aquilo que as pessoas precisam saber, parca ra\u00e7\u00e3o da verdade. Toda rasura \u00e9 uma edi\u00e7\u00e3o. Sem d\u00favida o ato \u00e9 em si mesmo um fracasso, e o cientista sabe disso, mas como se perceber aos olhos dos outros, sem a marca do hero\u00edsmo incontest\u00e1vel?<\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>III. <\/strong>A \u201calteriza\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 produzida por meio de processos relacionais que visam delimitar posi\u00e7\u00f5es hier\u00e1rquicas, operando como uma estrat\u00e9gia discursiva fundamental para a emerg\u00eancia das chamadas escalas civilizat\u00f3rias. Nesse cen\u00e1rio, manifesta-se um flagrante movimento de \u201coutrifica\u00e7\u00e3o\u201d, quer dizer, o diferente \u00e9 confinado a um estatuto essencialista e naturalizado que, longe de constituir uma descri\u00e7\u00e3o neutra, atua como um dispositivo de poder. Trata-se de uma opera\u00e7\u00e3o de \u201cviol\u00eancia epist\u00eamica\u201d que, ao instituir a colonialidade, oblitera a validade de ontologias e de epistemologias diversas, convertendo a diferen\u00e7a em uma marca de inferioridade irremedi\u00e1vel. A raz\u00e3o eurocentrada, fio condutor de diferentes matrizes de saber na modernidade, n\u00e3o se limita a definir os contornos da humanidade \u201ccivilizada\u201d, dado que ela estabelece, primordialmente, os crit\u00e9rios de exclus\u00e3o. Ao determinar quais indiv\u00edduos, grupos ou seres habitam a zona do \u201cn\u00e3o-ser\u201d, essa racionalidade pavimenta o caminho para discursos ideol\u00f3gicos de domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e de expropria\u00e7\u00e3o. Esse movimento culmina no <em>epistemic\u00eddio<\/em>, uma vez que o sistema de saber ocidental arroga para si o monop\u00f3lio da validade, depreciando sistematicamente qualquer forma de organiza\u00e7\u00e3o de mundo que n\u00e3o seja cingida pelos par\u00e2metros da raz\u00e3o pr\u00e1tico-instrumental universalizada. A tese de que os povos origin\u00e1rios eram anacr\u00f4nicos e pertenciam a um est\u00e1gio pret\u00e9rito, ainda que habitassem o presente, constitu\u00eda \u201co principal modo pelo qual a raz\u00e3o do n\u00e3o-ocidental era declarada como inferior\u201d (SETH, 2013, p. 174). Verunschk problematiza esse uso colonialista da raz\u00e3o e busca destituir o seu car\u00e1ter universalista ao insistir na exist\u00eancia de <em>tradi\u00e7\u00f5es de racioc\u00ednio<\/em>. Essa formula\u00e7\u00e3o de Sanjay Seth, quando projetada ao livro, permite apreender como a autora restitui dignidade \u00e0s formas origin\u00e1rias de conceber o mundo. Tal gesto configura uma postura de resist\u00eancia e de enfrentamento pol\u00edtico frente \u00e0s viol\u00eancias colonialistas e aos seus sistem\u00e1ticos apagamentos hist\u00f3ricos, condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para a constru\u00e7\u00e3o de um presente pluralista, democr\u00e1tico e inclusivo.<\/p>\n<p>Um dos modos de captarmos a tradi\u00e7\u00e3o de racioc\u00ednio que se liga \u00e0 I\u00f1e-e \u00e9 por meio do di\u00e1logo que ela estabelece com outras ag\u00eancias que permeiam a narrativa, outras vozes ou formas de dar significado ao mundo, todos eles apagados pelo universalismo de tipo iluminista, como o rio Paran\u00e1huaz\u00fa, que atravessa a sua aldeia de origem e cujo significado do seu nome \u00e9 <em>Deus que fala todas as l\u00ednguas<\/em>, mas tamb\u00e9m o rio Isar, em Munique, para onde ela aporta. Este \u00e9 um rio f\u00eamea que oferece a ela um modo de compreens\u00e3o sobre a civiliza\u00e7\u00e3o europeia, informando \u00e0 pequena ind\u00edgena os mais variados tipos de tempo, de espa\u00e7os e de pessoas. Diz o rio: \u201cEu nada creio, sou um rio. Eu vou e volto, conhe\u00e7o o ch\u00e3o e o c\u00e9u, compartilho a l\u00edngua comum a todas as \u00e1guas. Sei dos animais tristes que s\u00e3o os homens\u201d (VERUNSCHK, 2021, p. 60). Claro \u00e9 que n\u00e3o se pode tomar essa mensagem a partir dos paradigmas logoc\u00eantricos de matriz moderna, mas como um complexo de signos com materialidade comunicativa, logo, capaz de imprimir sentido por meio da mat\u00e9ria mitol\u00f3gica, que \u00e9 uma forma poss\u00edvel de oferecer concretude para o real, j\u00e1 que o on\u00edrico-especulativo, nas cosmologias amer\u00edndias, possuem ag\u00eancia. A fala do rio com a crian\u00e7a Miranha \u00e9 uma forma de subvers\u00e3o da l\u00f3gica euroc\u00eantrica, instituindo todo um racioc\u00ednio que pluraliza o entendimento da realidade, n\u00e3o mais pass\u00edvel de uma simples adequa\u00e7\u00e3o entre forma e conte\u00fado, modo restritivo de encarar a exist\u00eancia, mas que se universalizou por aparecer como esteio da raz\u00e3o. A sabedoria de Isar relata \u00e0 I\u00f1e-e as origens da cidade de Munique, que fora constru\u00edda atrav\u00e9s de muitas mortes, como a de um menino que fora vitimado na constru\u00e7\u00e3o de uma ponte, mas que ainda estava presente na cidade na forma de esp\u00edrito, estando junto com as crian\u00e7as ind\u00edgenas que morreram na expedi\u00e7\u00e3o de Spix e de Martius e que continuavam presas a eles. A conversa entre Isar e I\u00f1e-e, que abre margem para que compreendamos a perspectiva amer\u00edndia sobre os acontecimentos narrados, d\u00e1 noticias dos reis e dos seus castelos, edificados da mesma forma como se fazia necess\u00e1rio, enquanto s\u00edmbolo de poder, empreender guerras e a ci\u00eancia: \u201cO poder de um rei, embora dito natural, n\u00e3o \u00e9 fluido; necessita de mecanismos, arruelas e encaixes. (VERUNSCHK, 2021, p. 65). Percebe-se, assim, como Verunschk vai dando forma a um modo pr\u00f3prio de pensar e de se comunicar, constituindo uma <em>tradi\u00e7\u00e3o de racioc\u00ednio <\/em>espec\u00edfica capaz de oferecer forma para todo um entendimento de mundo. A sabedoria do rio Isar \u00e9 capaz de oferecer uma hist\u00f3ria como <em>palimpsesto<\/em>, isto \u00e9, uma hist\u00f3ria que ao ser escavada revela camadas que foram apagadas, o que n\u00e3o deixa de ser uma met\u00e1fora estendida para o tipo de hist\u00f3ria que Verunschk pretende contar, em que se busca justamente dar a ver o que foi encoberto e silenciado. Por isso a senten\u00e7a do rio Isar: \u201cA ru\u00edna tem muitas configura\u00e7\u00f5es. Ademais, todo castelo guarda em si t\u00famulo e pris\u00e3o\u201d (VERUNSCHK, 2021, p, 66).<\/p>\n<p>No castelo do rei Maximiliano I da Baviera I\u00f1e-e n\u00e3o mais consegue se comunicar com o rio Isar, sendo aquele mundo de corte intraduz\u00edvel para ela. Ao lado de Juri s\u00e3o expostos \u00e0 curiosidade dos olhos da nobreza e \u00e0 toda forma de \u201coutrifica\u00e7\u00e3o\u201d, o que a deixa sem voz e a\u00e7\u00e3o novamente. I\u00f1e-e e Juri servem, ent\u00e3o, de brinquedos para as filhas mais novas do rei, momento em que a escritora Micheliny Verunschk consegue captar o sentimento de ingenuidade da crian\u00e7a ind\u00edgena, que compreende as bonecas como meninas que n\u00e3o se mexem e em miniatura. As filhas do rei tratam os ind\u00edgenas brasileiros como as bonecas: tentam pente\u00e1-los e repetem palavras com a esperan\u00e7a de se fazerem entendidas \u2013 sem sucesso. Como as bonecas, I\u00f1e-e n\u00e3o reage, diferente de Juri que chega a esbo\u00e7ar alguma forma de contato. Eles, ent\u00e3o, ser\u00e3o batizados com os nomes de Isabella e de Johann. Verunschk n\u00e3o deixa de sinalizar para viol\u00eancia do gesto: \u201cO certo \u00e9 que para seus captores s\u00f3 interessa saber que \u00e9 Johann, do povo juri, e ela, Isabella, do povo miranha. Ou t\u00e3o somente Miranha e Juri, dois rostos sem corpo, dois nomes sem hist\u00f3ria\u201d. O que se v\u00ea nesses gestos \u00e9, tamb\u00e9m, o processo de reifica\u00e7\u00e3o, visto que o batismo for\u00e7ado e a redu\u00e7\u00e3o dos ind\u00edgenas a brinquedos funcionam como uma coisifica\u00e7\u00e3o do Outro. Despidos das suas identidades originais e de sua conex\u00e3o com a natureza, Juri e I\u00f1e-e s\u00e3o integrados \u00e0 l\u00f3gica de posse da corte n\u00e3o mais como seres humanos, mas como simulacros e fetiches coloniais, destitu\u00eddos de passado e congelados em uma alteridade decorativa.<\/p>\n<p>A morte do menino Juri \u00e9 narrada com grande dramaticidade, podendo ser acompanhado os seus \u00faltimos momentos em que ele mergulha oniricamente nos signos que fazem parte do seu mundo mitol\u00f3gico. O seu nome \u00e9 ent\u00e3o revelado pela narradora: Caracara-\u00ed, que faz alus\u00e3o a sua conforma\u00e7\u00e3o como peixe. Ele falece no dia 11 de junho de 1821, consequ\u00eancia de uma pneumonia cr\u00f4nica devido ao estranhamento do clima, segundo relato jornal\u00edstico. O destino do seu corpo \u00e9 de extrema viol\u00eancia e espetaculariza\u00e7\u00e3o, na medida que \u00e9 que \u00e9 dissecado na universidade e apartado da cabe\u00e7a, mergulhada no formol. A morte de I\u00f1e-e \u00e9 retratada a partir das medidas para o seu funeral, sendo ela enterrada ao lado do menino Juri, momento em que parece haver, atrav\u00e9s das a\u00e7\u00f5es da rainha Karoline, algum sentido de remorso entre os naturalistas, mas nada que pudesse suplantar aquele horror, havendo mesmo um sentimento de cumplicidade diante daquelas mortes. O remorso da rainha Karoline exp\u00f5e a hipocrisia de uma suposta benevol\u00eancia imperial: concede-se um funeral crist\u00e3o a I\u00f1e-e na mesma corte que autoriza a profana\u00e7\u00e3o cient\u00edfica do cad\u00e1ver de Juri. Muito longe de ser uma repara\u00e7\u00e3o, a compaix\u00e3o da monarca funciona como mero al\u00edvio de consci\u00eancia, ou um verniz moral, para uma barb\u00e1rie que aquela Coroa financiou, chancelou e consumou.<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/BANNER-Outras-palavras-NOVEMBRO7-8.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/BANNER-Outras-palavras-NOVEMBRO7-8.jpg 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/BANNER-Outras-palavras-NOVEMBRO7-300x37.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p><strong>IV. <\/strong>O romance adota uma postura que, atrav\u00e9s de diferentes maneiras, dialoga com o pensamento do fil\u00f3sofo Walter Benjamin (2005), dado que se orienta atrav\u00e9s do imperativo \u00e9tico de honrar os \u201cvencidos\u201d, quer dizer, aqueles sistematicamente exclu\u00eddos, marginalizados, silenciados pelas artimanhas das mem\u00f3rias oficiais estabelecidas pelos saberes modernos. A obra assume a responsabilidade de redimir as v\u00edtimas do passado, resgatando as suas trajet\u00f3rias como uma esp\u00e9cie de \u201crel\u00e2mpago\u201d no presente, conferindo aos mortos, dessa maneira, uma voz ativa na (re)constru\u00e7\u00e3o do passado. Essa premissa fundamenta a jornada de Josefa, personagem que, ao se deparar com as imagens das crian\u00e7as ind\u00edgenas naquela exposi\u00e7\u00e3o em S\u00e3o Paulo, reconhece a sua pr\u00f3pria ascend\u00eancia e confronta os mecanismos de apagamento e de oblitera\u00e7\u00e3o da sua hist\u00f3ria. Nesse ambiente \u201cass\u00e9ptico\u201d da exposi\u00e7\u00e3o, a personagem passa a refletir sobre a sua pr\u00f3pria ancestralidade e as formas como elas foram eliminadas da sua identidade. Atrav\u00e9s dessa busca por pertencimento, Josefa, ent\u00e3o, se p\u00f5e a redescrever a sua hist\u00f3ria enquanto modo de resist\u00eancia n\u00e3o apenas simb\u00f3lica, mas existencial. A personagem se reconhece em I\u00f1e-e, buscando imaginar-se em sua posi\u00e7\u00e3o, com todas as consequ\u00eancias poss\u00edveis desse gesto, caminhando para o \u00e2mbito da necessidade da verdadeira repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. A sua presen\u00e7a na narrativa n\u00e3o \u00e9 apenas uma maneira da narradora do livro recontar a hist\u00f3ria das crian\u00e7as ind\u00edgenas junto \u00e0 atualidade, t\u00e3o pouco tem uma import\u00e2ncia t\u00e3o somente individual para Josefa, mas representa toda uma forma de reconhecimento social das identidades amer\u00edndias silenciadas, atacadas e expropriadas pela conquista colonial europeia. A sua viagem para Munique configura-se como um gesto impregnado de pot\u00eancia pol\u00edtica: o resgate simb\u00f3lico de I\u00f1e-e opera toda uma forma de reinscri\u00e7\u00e3o cr\u00edtica dos passados ind\u00edgenas no <em>corpo do tempo<\/em>. Esse modo de justi\u00e7a p\u00f3stuma permite a Josefa reconfigurar os seus itiner\u00e1rios de vida, uma vez que ao honrar I\u00f1e-e ela redime a mem\u00f3ria da sua pr\u00f3pria av\u00f3, mulher ind\u00edgena, segundo ela, \u201cca\u00e7ada a la\u00e7o\u201d. Trata-se, em \u00faltimo caso, de preencher e de pluralizar o passado atrav\u00e9s das perspectivas origin\u00e1rias, que interrogam os seus silenciamentos como forma de interromper as din\u00e2micas de poder que geraram toda sorte de sofrimento e de iniquidade, n\u00e3o deixando de ser uma forma de <em>politiza\u00e7\u00e3o do tempo<\/em>. Esta reflex\u00e3o de Josefa \u00e9 capaz de nos fazer ver os modos como ela busca mergulhar naquele passado, em um movimento que n\u00e3o quer recuperar uma dimens\u00e3o \u201cessencialista\u201d do mesmo, mas, pelo contr\u00e1rio, quer encontrar nele mat\u00e9ria viva para o elaborar da sua pr\u00f3pria exist\u00eancia, efetuando todo um processo conjugado de atualiza\u00e7\u00e3o e de ressignifica\u00e7\u00e3o, implicando uma forma de se localizar no tempo capaz de imprimir justi\u00e7a ao que se foi, de trazer visibilidade de outros mundos ao presente e de invocar uma esperan\u00e7a redentora por meio de outras realidades poss\u00edveis no futuro, efetuando, assim, todo um modo de articula\u00e7\u00e3o de identidade a partir de um jogo plural de temporalidades. N\u00e3o se quer a mesmidade do passado, se deseja, de outra maneira, transform\u00e1-lo, tornando a busca por reconhecimento um processo din\u00e2mico e pol\u00edtico:<\/p>\n<blockquote>\n<p>A mulher faz planos de voltar a sua cidade natal, levando a imagem de duas crian\u00e7as, e de l\u00e1 se internar na mata at\u00e9 o leito do rio Japur\u00e1, no Amazonas, e \u00e0s suas margens, dentro de uma urna, dar um descanso simb\u00f3lico que seja \u00e0queles pequenos seres extraviados e tamb\u00e9m a ela mesma. Uma imagem de sonho, pensa. (VERUNSCHK, 2021, p. 115)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Nesse momento da narrativa, em que vemos Josefa com uma c\u00f3pia da imagem das crian\u00e7as em Munique, ouve-se um trov\u00e3o: \u00e9 o som do rugido da menina on\u00e7a Uaara-I\u00f1e-e, que vem redimir o passado no presente a partir de uma \u201crachadura\u201d que se abre sobre o tempo hegem\u00f4nico e \u00fanico que sufocou a sua voz, aparecendo, correlatamente, na forma de uma pot\u00eancia capaz de estabelecer n\u00e3o apenas uma hist\u00f3ria diferente, mas um modo de energiza\u00e7\u00e3o da vida, que vem a ser um s\u00edmbolo para o reconhecimento da identidade de Josefa a partir de uma forma n\u00e3o est\u00e1tica de se situar no tempo \u2013 como uma constru\u00e7\u00e3o que busca agir junto aos modos de estar no mundo e de se perceber como sujeito hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>O desfecho do livro conta com o encantamento de I\u00f1e-e como Uaara-I\u00f1e-e, que se apresenta como a on\u00e7a alada capaz de cruzar todos os horizontes do conhecido, que se move para vingar a morte da menina e, tamb\u00e9m, libertar os esp\u00edritos dos mortos que com ela est\u00e3o. A vingan\u00e7a localiza-se num plano temporal e espacial m\u00e1gico, por onde se pode revelar as verdades que Von Martius procurou esconder, um ocultamento que \u00e9 visibilizado como forma de den\u00fancia, por onde se pode ver os sentidos da viol\u00eancia colonialista no tempo. I\u00f1e-e \u201con\u00e7ada\u201d representa a\u00e7\u00e3o junto ao passado, ao presente e ao futuro, uma vez que a vingan\u00e7a opera a partir da l\u00f3gica da canaliza\u00e7\u00e3o da revolta e da perspectiva da justi\u00e7a hist\u00f3rica, articulando o que Benjamin (2005) concebe como a reden\u00e7\u00e3o dos \u201cvencidos\u201d atrav\u00e9s do estilha\u00e7amento do tempo linear para escavar o passado e libertar os mortos da sua opress\u00e3o cont\u00ednua. Ao se transformar em Uaara-I\u00f1e-e, a menina performa a m\u00e1xima do perspectivismo amer\u00edndio conforme elaborado por Eduardo Viveiros de Castro (1996), onde a metamorfose animal n\u00e3o \u00e9 uma mera met\u00e1fora, mas a assun\u00e7\u00e3o de uma ag\u00eancia cosmol\u00f3gica e de uma pol\u00edtica radical. Sob a pele da on\u00e7a alada, o sujeito subalternizado retoma, ent\u00e3o, o territ\u00f3rio da hist\u00f3ria, transformando a mem\u00f3ria traum\u00e1tica em for\u00e7a de combate e provando que, enquanto houver encantamento, o passado colonial permanecer\u00e1 aberto, inconcluso e sujeito \u00e0 revolta.<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p>BESS, Giana Antunes. O som do rugido da on\u00e7a: reescrever a hist\u00f3ria pelo encantamento do mundo. <em>Literatura e autoritarismo<\/em>, n. 43, e86746, 2024.<\/p>\n<p>BIANCHI, Guilherme. Arquivo hist\u00f3rico e diferen\u00e7a ind\u00edgena: repensando os outros da imagina\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica ocidental. <em>Revista de Teoria da Hist\u00f3ria<\/em>, vol. 22, n. 2, 2019.<\/p>\n<p>DIAS, \u00c2ngela Maria. A hist\u00f3ria pelo retrovisor: o legado da espolia\u00e7\u00e3o e a on\u00e7a m\u00edtica em <em>O som do rugido da on\u00e7a <\/em>de Micheliny Verunschk. <em>ALEA<\/em>, vol. 24, n. 3, 2022.<\/p>\n<p>L\u00d6WY, Michel. <em>Walter Benjamin<\/em>: aviso de inc\u00eandio: uma leitura das teses \u201cSobre o conceito de hist\u00f3ria\u201d. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2005.<\/p>\n<p>SETH, Sanjay, Raz\u00e3o ou racioc\u00ednio? Clio ou Shiva? <em>Hist\u00f3ria da historiografia<\/em>, n. 11, 2013.<\/p>\n<p>VERUNSCHK, Micheliny. <em>O som do rugido da on\u00e7a<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2021.<\/p>\n<p>VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Os pronomes cosmol\u00f3gicos e o perspectivismo amer\u00edndio. <em>Mana<\/em>, 2 (2), 1996.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. Se voc\u00ea valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o, seja nosso apoiador e fortale\u00e7a o jornalismo cr\u00edtico: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post &lt;i&gt;O som do rugido da on\u00e7a&lt;\/i&gt;, a contra-hist\u00f3ria de um sequestro appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/brasil-chile-colombia-e-mexico-pedem-em-declaracao-acoes-para-evitar-escalada-na-ucrania\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Brasil, Chile, Col\u00f4mbia e M\u00e9xico pedem em declara\u00e7...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/novo%f0%9f%93%bb-%f0%9f%9a%a9%f0%9f%8e%99%ef%b8%8f-entrevista-com-o-deputado-pedro-uczai\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">NOVO\ud83d\udcfb \ud83d\udea9\ud83c\udf99\ufe0f- Entrevista com o Deputado Pedro Uczai...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/mais-de-10-dias-apos-rompimento-na-lagoa-do-nado-em-belo-horizonte-ainda-nao-se-sabe-o-impacto-exato\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Mais de 10 dias ap\u00f3s rompimento na Lagoa do Nado, ...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/centro-historico-cultural-santa-casa-amplia-editais-e-reforca-papel-no-fomento-a-arte\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Centro Hist\u00f3rico Cultural Santa Casa amplia editai...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Romance de Micheliny Verunschk joga luz \u00e0 hist\u00f3ria de duas crian\u00e7as ind\u00edgenas traficadas \u00e0 Europa. Ao focar na vis\u00e3o de I\u00f1e-e, exp\u00f5e a viol\u00eancia do desenraizamento, sem recusar a perspectiva m\u00edtica amer\u00edndia, que a \u201cci\u00eancia\u201d euroc\u00eantrica tentou sufocar<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/poeticas\/o-som-do-rugido-da-onca-a-contra-historia-de-um-sequestro-2\/\">&lt;i&gt;O som do rugido da on\u00e7a&lt;\/i&gt;, a contra-hist\u00f3ria de um sequestro<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":93475,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[9937,71272,71273,79,71274,31873,71275,39690,57130,71276,71277,71278,2960,71279,71280,71281,71282,71283,16979,5499,71284,71285,71286,9201,54057,71287,71288,77],"tags":[],"class_list":["post-93474","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-aldeia","category-alterizacao","category-antropomorfizacao","category-colonialismo","category-cosmovisoes-amerindias","category-desumanizacao","category-dimensao-colonialista","category-enfrentamento-politico","category-epistemicidio","category-figura-do-primitivo","category-historia-colonial-brasileira","category-imaginario-amerindio","category-livro","category-matriz-eurocentrica","category-mitologia-amerindia","category-mitologias-amerindias","category-o-som-do-rugido-da-onca","category-oncada","category-perspectivismo-amerindio","category-poeticas","category-razao-eurocentrada","category-razao-ocidental","category-releitura-critica","category-romance","category-territorio-brasileiro","category-verdades-miticas","category-verunschk","category-violencia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/93474","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=93474"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/93474\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/93475"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=93474"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=93474"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=93474"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}