{"id":93808,"date":"2026-06-29T16:26:16","date_gmt":"2026-06-29T19:26:16","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/para-escapar-da-razao-eurocentrica-e-suas-ciladas\/"},"modified":"2026-06-29T16:26:16","modified_gmt":"2026-06-29T19:26:16","slug":"para-escapar-da-razao-eurocentrica-e-suas-ciladas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/para-escapar-da-razao-eurocentrica-e-suas-ciladas\/","title":{"rendered":"Para escapar da raz\u00e3o euroc\u00eantrica e suas ciladas"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"618\" height=\"391\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_5051105458675977247_x.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_5051105458675977247_x.jpg 618w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/photo_5051105458675977247_x-300x190.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 618px) 100vw, 618px\"><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<p><imgsrc=\"\" width=\"1\" height=\"1\" alt=\".\" border=\"0\">\n<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>Enrique Leff<\/strong> em entrevista a <strong>Thiago Gama<\/strong><\/p>\n<p>Enrique Leff chegou \u00e0 ecologia pela porta da engenharia qu\u00edmica \u2014 e essa invers\u00e3o de rota, longe de ser acidente biogr\u00e1fico, \u00e9 a chave de toda a sua obra. Nascido na Cidade do M\u00e9xico em 1946, formou-se pela Universidade Nacional Aut\u00f4noma do M\u00e9xico (UNAM) em 1968 \u2014 o mesmo ano em que estudantes de tr\u00eas continentes sacudiam as institui\u00e7\u00f5es com uma vitalidade que as gera\u00e7\u00f5es anteriores preferiam n\u00e3o compreender.<\/p>\n<p>Foi a Paris aprofundar-se em Economia do Desenvolvimento, na \u00c9cole Pratique des Hautes \u00c9tudes, onde concluiu seu doutorado em 1975. Voltou ao M\u00e9xico carregando um diagn\u00f3stico que levaria d\u00e9cadas para se tornar urg\u00eancia planet\u00e1ria: a crise que se desenhava no horizonte n\u00e3o era t\u00e9cnica nem apenas econ\u00f4mica \u2014 era tamb\u00e9m uma crise do conhecimento. Uma crise nascida do modo como a modernidade aprendeu a ver a natureza: como reservat\u00f3rio, como externalidade, como aquilo que o sistema econ\u00f4mico n\u00e3o precisava contabilizar para continuar funcionando.<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Prancheta--44.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Prancheta--44.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Prancheta-4-300x110.png 300w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Poucos, naquele momento, estavam dispostos a levar essa tese \u00e0s suas \u00faltimas implica\u00e7\u00f5es. Leff o fez \u2014 e o fez com uma paci\u00eancia intelectual que pressup\u00f5e certo dom\u00ednio interior sobre a ansiedade do tempo: essa capacidade rara de habitar uma quest\u00e3o ao longo de d\u00e9cadas sem reduzir o campo de vis\u00e3o. H\u00e1 nessa postura algo que a pressa acad\u00eamica n\u00e3o produz: o tempo longo, o exame que n\u00e3o se contenta com as primeiras respostas, o discernimento que volta ao mesmo ponto at\u00e9 v\u00ea-lo com outros olhos.<\/p>\n<p>Entre 1986 e 2008, como coordenador da Rede de Forma\u00e7\u00e3o Ambiental para a Am\u00e9rica Latina e o Caribe, do Programa das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), Leff construiu uma infraestrutura de saber e forma\u00e7\u00e3o que atravessou fronteiras e gerou gera\u00e7\u00f5es \u2014 n\u00e3o como gesto de poder institucional, mas com a convic\u00e7\u00e3o de quem entende que um campo de conhecimento s\u00f3 ganha corpo quando h\u00e1 pessoas dispostas a habit\u00e1-lo com seus territ\u00f3rios, suas mem\u00f3rias e suas pr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>De volta \u00e0 UNAM em 2008, Leff dedica-se ao ensino de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e \u00e0 pesquisa no Instituto de Investiga\u00e7\u00f5es Sociais. Professor de Ecologia Pol\u00edtica e Pol\u00edticas Ambientais, pesquisador s\u00eanior da institui\u00e7\u00e3o, autor de mais de 25 livros e 180 artigos. Para o leitor brasileiro, sua obra est\u00e1 dispon\u00edvel em edi\u00e7\u00f5es que fazem a travessia do espanhol com rigor: Saber Ambiental: sustentabilidade, racionalidade, complexidade, poder (Vozes, 2001), Epistemologia Ambiental (Cortez, 2001), Racionalidade Ambiental: a reapropria\u00e7\u00e3o social da natureza (Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2006), Ecologia, Capital e Cultura: a territorializa\u00e7\u00e3o da racionalidade ambiental (Vozes, 2009) e Ecologia Pol\u00edtica: da desconstru\u00e7\u00e3o do capital \u00e0 territorializa\u00e7\u00e3o da vida (Editora da Unicamp, 2021).<\/p>\n<p>Cada um desses livros \u00e9 uma entrada diferente no mesmo edif\u00edcio \u2014 constru\u00eddo sem pressa, com a consci\u00eancia de que a urg\u00eancia do mundo n\u00e3o se responde com respostas urgentes.<\/p>\n<p>Sua obra maior em espanhol, El Fuego de la Vida: Heidegger ante la Cuesti\u00f3n Ambiental (Siglo XXI, 2018), aprofunda a interroga\u00e7\u00e3o sobre o que foi esquecido no esquecimento do Ser: a vida, sua iman\u00eancia, sua resist\u00eancia silenciosa \u00e0 racionalidade que a devora.<\/p>\n<p>O que Leff diagnosticou d\u00e9cadas antes de virar emerg\u00eancia clim\u00e1tica ressoa hoje, de forma direta, com aquilo que o Papa Francisco enunciou na enc\u00edclica Laudato Si\u2019 (2015), referindo-se \u00e0 Terra: \u201ccrescemos [e aprendemos] a pensar que \u00e9ramos seus propriet\u00e1rios e dominadores, autorizados a saque\u00e1-la\u201d. Agora, \u201ca viol\u00eancia que est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o humano ferido\u201d vislumbra-se nos sintomas de doen\u00e7a que notamos no solo, na \u00e1gua, no ar e nos seres vivos.<\/p>\n<p>A Laudato Si\u2019 convoca a uma \u201cconvers\u00e3o ecol\u00f3gica\u201d que vai al\u00e9m da gest\u00e3o ambiental. \u00c9 exatamente essa profundidade que a epistemologia ambiental levava adiante muito antes de a enc\u00edclica ser escrita \u2014 com a diferen\u00e7a de que Leff formula esse horizonte a partir do pensamento cr\u00edtico marxista, dos conhecimentos do Sul e do di\u00e1logo com os saberes ancestrais sem jamais perder de vista que, no fundo, trata-se sempre de reaprender a conhecer o que fomos esquecendo.<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"\" alt=\"\" width=\"2162\" height=\"268\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Enrique Leff \u00e9 doutor em Economia do Desenvolvimento pela \u00c9cole Pratique des Hautes \u00c9tudes (Paris), professor de Ecologia Pol\u00edtica na Universidade Nacional Aut\u00f4noma do M\u00e9xico (UNAM) e pesquisador s\u00eanior do Instituto de Investiga\u00e7\u00f5es Sociais da mesma institui\u00e7\u00e3o. \u00c9 um dos principais pensadores do ambientalismo cr\u00edtico latino-americano e autor de mais de 25 livros, parte dos quais segue infelizmente in\u00e9dita no Brasil.<\/p>\n<p><strong>Eis a entrevista.<\/strong><\/p>\n<p><strong>O senhor sustenta que a crise ambiental \u00e9, em sua raiz, uma crise do conhecimento. No contexto atual de negacionismo clim\u00e1tico e de ofensiva da extrema-direita contra a ci\u00eancia, como defende o \u201csaber ambiental\u201d como uma forma de resist\u00eancia epist\u00eamica e pol\u00edtica?<\/strong><\/p>\n<p>A epistemologia ambiental foi formulada como uma primeira rea\u00e7\u00e3o ao \u201cnegacionismo\u201d do colapso ecol\u00f3gico em marcha no processo civilizat\u00f3rio da humanidade \u2014 guiado, promovido, estruturado e destinado dentro da ordem ontol\u00f3gica da modernidade, do esquema te\u00f3rico-epistemol\u00f3gico da ci\u00eancia moderna e do regime tecno-econ\u00f4mico do capital.<\/p>\n<p>O saber ambiental emerge como resposta ao negacionismo do mundo estabelecido imp\u00f4s a si mesmo. Ele tornou-se reativo a entender e assimilar a cr\u00edtica que o colapso ecol\u00f3gico encerra ao processo civilizat\u00f3rio da humanidade. Sobretudo aquele que, fundado no pensamento euroc\u00eantrico, transformou-se num regime global e hegem\u00f4nico em n\u00edvel planet\u00e1rio.<\/p>\n<p>A crise ambiental \u00e9 uma crise civilizat\u00f3ria e, no fundo, uma crise do conhecimento; ou, melhor dizendo, do desconhecimento das condi\u00e7\u00f5es da vida no planeta Terra. Na Confer\u00eancia de Estocolmo, realizada em 1972, quando a crise ambiental come\u00e7ou a tornar-se evidente, o ambiente foi definido de maneira reativa, como uma \u201cexternalidade\u201d do sistema econ\u00f4mico. E, de fato, o ambiente era o incab\u00edvel, o n\u00e3o considerado. Ea o que n\u00e3o contribu\u00eda para a forma\u00e7\u00e3o de valor; \u00e9 a res extensa que sofre os avatares da res cogitans codificada pela raz\u00e3o econ\u00f4mica que domina o mundo e degrada a vida ao operar uma redu\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica de tudo o que existe ao valor econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>O ambiente, dizemos desde sempre, \u00e9 o campo de exterioridade da racionalidade da modernidade; \u00e9 o \u201coutro\u201d \u2014 o absolutamente Outro \u2014 do logocentrismo da ci\u00eancia. \u00c9 desse ponto que emerge o saber ambiental como um campo de resist\u00eancia epist\u00eamica e pol\u00edtica ao regime de dom\u00ednio e exterm\u00ednio da vida pr\u00f3prio da racionalidade da modernidade.<\/p>\n<p>O saber ambiental n\u00e3o \u00e9 apenas o \u201cincab\u00edvel\u201d pelo conhecimento objetivador da ci\u00eancia e pela puls\u00e3o da acumula\u00e7\u00e3o destrutiva do capital. O saber ambiental articula-se nos diversos modos de compreens\u00e3o da vida que os povos ancestrais praticaram. Hoje ele reemerge de suas cinzas, como a ave f\u00eanix, como um impulso emancipador da vida, reivindicando a partir de seus saberes tradicionais outros modos de compreens\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es da vida \u2014 termodin\u00e2micas, ecol\u00f3gicas, simb\u00f3licas, culturais, \u00e9ticas, pol\u00edticas e inconscientes \u2014, encarnando nos imagin\u00e1rios e nas pr\u00e1ticas de vida de povos e comunidades para enraizar-se em novos territ\u00f3rios de vida.<\/p>\n<p><strong>O senhor \u00e9 uma refer\u00eancia do pensamento ambiental latino-americano. O que essa tradi\u00e7\u00e3o pode oferecer ao debate global que o ambientalismo do Norte n\u00e3o consegue articular, especialmente no que se refere aos saberes ind\u00edgenas e camponeses?<\/strong><\/p>\n<p>O pensamento ambiental latino-americano traz ao debate global sobre a sustentabilidade da vida aquilo que, como voc\u00ea bem diz, o ambientalismo do Norte n\u00e3o consegue articular.<\/p>\n<p>As vozes do Sul emitem sinais impens\u00e1veis no cerco da racionalidade do mundo global. \u00c9 o impens\u00e1vel no pensamento euroc\u00eantrico, mesmo em suas correntes mais cr\u00edticas, que permanecem aprisionadas naquilo que Weber chamou de \u201cjaula de racionalidade da modernidade\u201d, do regime ontol\u00f3gico do mundo que a sociologia anglo-sax\u00e3 e euroc\u00eantrica define como \u201cmoderniza\u00e7\u00e3o reflexiva\u201d. Trata-se de um processo de retroa\u00e7\u00f5es do sistema sobre seus eixos constitutivos de racionalidade te\u00f3rica, instrumental, econ\u00f4mica e jur\u00eddica. Nesse universo, a desconstru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica consegue apenas compreender sua constitui\u00e7\u00e3o inapel\u00e1vel, mas n\u00e3o sua des-constru\u00e7\u00e3o, seu desmantelamento. Vigora um idealismo transcendental, que n\u00e3o chega a pensar a transi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica rumo a um mundo sustent\u00e1vel, um mundo constru\u00eddo na iman\u00eancia e nas condi\u00e7\u00f5es da vida.<\/p>\n<p>\u00c9 para essa ruptura hist\u00f3rica \u2014 neste ponto de satura\u00e7\u00e3o e de n\u00e3o retorno rumo \u00e0s fontes da vida, da physis origin\u00e1ria e da produtividade neguentr\u00f3pica da vida \u2014 que aponta a categoria de racionalidade ambiental. \u00c9 um \u201csilogismo disjuntivo\u201d que abre o mundo a outro mundo, fundado em tr\u00eas princ\u00edpios: um processo civilizat\u00f3rio fundado na evolu\u00e7\u00e3o criativa da vida, na diversidade biocultural da biosfera terrestre; uma pol\u00edtica da diferen\u00e7a; e uma \u00e9tica da alteridade. S\u00e3o esses outros modos de compreens\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de sustentabilidade da vida o que a racionalidade ambiental busca articular, abrindo os horizontes da hist\u00f3ria da vida por meio de um di\u00e1logo de saberes.<\/p>\n<p><strong>A COP30 realizou-se em Bel\u00e9m do Par\u00e1, no cora\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia. A partir de seu conceito de \u201cracionalidade ambiental\u201d, \u00e9 poss\u00edvel uma pol\u00edtica clim\u00e1tica global que n\u00e3o questione a racionalidade econ\u00f4mica capitalista, ou as c\u00fapulas est\u00e3o condenadas a ser um teatro de solu\u00e7\u00f5es de mercado?<\/strong><\/p>\n<p>A COP30 foi uma nova decep\u00e7\u00e3o para o ambientalismo cr\u00edtico e para a parcela da humanidade que v\u00ea agravarem-se suas condi\u00e7\u00f5es de vida pela crise clim\u00e1tica.<\/p>\n<p>Era uma decep\u00e7\u00e3o anunciada para n\u00f3s. Mas ainda abrig\u00e1vamos uma pequena dose de esperan\u00e7a de que, na Amaz\u00f4nia \u2014 territ\u00f3rio nevr\u00e1lgico para o equil\u00edbrio ecol\u00f3gico planet\u00e1rio \u2014, se modificassem as coordenadas, os crit\u00e9rios e imperativos que, codificam as decis\u00f5es. Imagin\u00e1vamos acordos rumo a a\u00e7\u00f5es mais efetivas para frear ou, no melhor dos casos, tentar reverter as in\u00e9rcias do processo econ\u00f4mico rumo ao desarranjo do metabolismo da biosfera e \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o ambiental. Basta observar que, nestes \u00faltimos anos, foram ultrapassados os<\/p>\n<p>limiares cr\u00edticos apontados como limites para a seguran\u00e7a clim\u00e1tica no Acordo de Paris, mal iniciado o caminho da Agenda 2030.<\/p>\n<p>Os fen\u00f4menos hidrometeorol\u00f3gicos gerados em todas as latitudes do planeta \u2013 como em Porto Alegre em Bah\u00eda Blanca, os efeitos do furac\u00e3o John ou o fen\u00f4meno meteorol\u00f3gico DANA (\u201cDepress\u00e3o Isolada em N\u00edveis Altos\u201d) \u2013 ultrapassaram as capacidades de predi\u00e7\u00e3o do IPCC e da ci\u00eancia do clima, assim como os sistemas de alerta precoce e de resposta a desastres dos governos. Estamos diante de fatos que, mais do que serem nomeados como uma policrise, s\u00e3o sinais do desarranjo do metabolismo da biosfera, do desconhecimento da ci\u00eancia e da inefic\u00e1cia dos sistemas de gest\u00e3o de riscos e da vida p\u00fablica.<\/p>\n<p>Cinquenta e quatro anos de reflex\u00f5es e a\u00e7\u00f5es diante da crise ambiental, desde a Confer\u00eancia de Estocolmo, foram insuficientes para gerar uma compreens\u00e3o da radicalidade do processo hist\u00f3rico que conduziu ao colapso ecol\u00f3gico do planeta vivo que habitamos.<\/p>\n<p>A comunidade internacional teve uma a\u00e7\u00e3o reativa, quando n\u00e3o passiva, privilegiando a expans\u00e3o do sistema econ\u00f4mico acima do imperativo da sustentabilidade da vida. A geopol\u00edtica do desenvolvimento sustent\u00e1vel, com seu \u201cmecanismo de desenvolvimento limpo\u201d, suas \u201ceconomias verdes\u201d e demais simula\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas, simplesmente fracassou.<\/p>\n<p>Basta ver o fracasso do Protocolo de Kyoto, evid\u00eancia de que o controle das emiss\u00f5es de gases de efeito estufa n\u00e3o pode ser relegado \u00e0 atua\u00e7\u00e3o dos mecanismos do mercado; de que a esperan\u00e7a de uma \u201cdesmaterializa\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o\u201d era e \u00e9 uma ideia falaz e um desprop\u00f3sito, quando segue imperando a reprodu\u00e7\u00e3o ampliada do capital sobre a base de uma acumula\u00e7\u00e3o destrutiva e por espolia\u00e7\u00e3o que supera os limites planet\u00e1rios.<\/p>\n<p>Mais de meio s\u00e9culo de experi\u00eancia \u00e9 tempo suficiente para corroborar que o regime totalit\u00e1rio do capital n\u00e3o \u00e9 capaz de ecologizar-se, que \u00e9 necess\u00e1rio pensar as vias de transi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica rumo \u00e0 sustentabilidade da vida dentro de outros princ\u00edpios. \u00c9 o que prop\u00f5e a Racionalidade Ambiental.<\/p>\n<p><strong>O senhor se inscreve na tradi\u00e7\u00e3o ecomarxista. Como v\u00ea o fen\u00f4meno atual do \u201ccapitalismo verde\u201d e a coopta\u00e7\u00e3o do discurso ambiental por corpora\u00e7\u00f5es que impulsionam mercados de carbono enquanto mant\u00eam o extrativismo? Seria a \u201cambientaliza\u00e7\u00e3o\u201d uma nova fase de acumula\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 verdade que me inscrevo na tradi\u00e7\u00e3o do pensamento cr\u00edtico marxista e na nova vertente ecomarxista, nascida nos anos 1980. Mas \u00e9 preciso esclarecer de que maneira pulsa o marxismo, naquilo que penso.<\/p>\n<p>Marx foi o primeiro grande desconstrutor do regime do capital, que se havia constitu\u00eddo e amadurecia na segunda metade do s\u00e9culo XIX. Mostrou sua estrutura essencial e condensou nos conceitos de valor e mais-valia seu modo de opera\u00e7\u00e3o, de dom\u00ednio e explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho. N\u00e3o chegou a vislumbrar como o sistema avan\u00e7aria \u2014 por meio da reprodu\u00e7\u00e3o ampliada do capital \u2014 at\u00e9 converter-se no motor da destrui\u00e7\u00e3o da vida no planeta.<\/p>\n<p>Minha cr\u00edtica ecol\u00f3gica ao marxismo ortodoxo devia-se justamente ao fato de que a natureza permanecia exclu\u00edda do n\u00facleo da racionalidade que conduzia o processo de explora\u00e7\u00e3o, acumula\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o. Por isso, ele n\u00e3o p\u00f4de prever o que mais adiante se tornou manifesto: a capitaliza\u00e7\u00e3o da natureza e da pr\u00f3pria vida em todos os seus modos existenciais.<\/p>\n<p>O discurso e a geopol\u00edtica do \u201cdesenvolvimento sustent\u00e1vel\u201d s\u00e3o consequ\u00eancia de um processo de simula\u00e7\u00e3o no qual a natureza, objetivada pela ci\u00eancia e pela tecnologia, foi disposta para a apropria\u00e7\u00e3o destrutiva do capital. Gerou-se n\u00e3o apenas um processo de escassez global, mas de degrada\u00e7\u00e3o do metabolismo da biosfera, que conduzi \u00e0 entropiza\u00e7\u00e3o do planeta. O aquecimento global \u00e9 um de seus signos mais eloquentes e letais.<\/p>\n<p><strong>Vivemos uma policrise: clim\u00e1tica, pol\u00edtica, epist\u00eamica. Para o senhor, que dedicou sua vida a construir um pensamento ambiental cr\u00edtico, qual \u00e9 a responsabilidade inegoci\u00e1vel do intelectual p\u00fablico hoje, quando o \u201climite do crescimento\u201d j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 uma previs\u00e3o, mas uma realidade?<\/strong><\/p>\n<p>Nossa responsabilidade incontorn\u00e1vel e irrenunci\u00e1vel \u00e9 seguir pensando criticamente a condi\u00e7\u00e3o de nosso mundo, da vida e da humanidade. A crise ambiental \u00e9 efeito do esquecimento da vida, da incompreens\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es da vida.<\/p>\n<p>O colapso ecol\u00f3gico \u00e9 produto do pensamento humano: do logos humano, do eidos, do ego cogito, da racionalidade. N\u00e3o poder\u00e1 ser solucionado sem que o pensamento humano consiga superar seus impens\u00e1veis\u2026 A menos que assumamos que a humanidade fracassou diante da vida e que a vida, voltada para suas origens mais at\u00f4micas e moleculares, haja de reconstituir-se pelas mesmas for\u00e7as que conduziram a physis do cosmos a gerar a vida nesta Terra h\u00e1 quase quatro \u00e9ons.<\/p>\n<p>Esta humanidade j\u00e1 n\u00e3o estar\u00e1 aqui para ver se as novas formas de vida lograr\u00e3o gerar novas formas de intelig\u00eancia mais condizentes, mais harm\u00f4nicas e emp\u00e1ticas com a pr\u00f3pria vida, em sintonia com a iman\u00eancia da vida.<\/p>\n<p>Voc\u00ea alude aos \u201climites do crescimento\u201d, o lema que, desprendendo-se do t\u00edtulo de uma obra publicada pelo MIT e pelo Clube de Roma, acendeu a chama e difundiu em escala global a consci\u00eancia ecol\u00f3gica da humanidade ap\u00f3s a Confer\u00eancia de Estocolmo sobre o Meio Ambiente Humano, em Estocolmo.<\/p>\n<p>O establishment da mal chamada \u201ccomunidade internacional\u201d buscou por todos os meios dissimular a radicalidade da quest\u00e3o ambiental e exorcizar a fatalidade do malef\u00edcio que o or\u00e1culo aquela obra anunciava. Ela mostra-se hoje tragicamente vis\u00edvel e contundente em processos que, para al\u00e9m de todo c\u00e1lculo e gest\u00e3o do risco, se abatem sobre a degrada\u00e7\u00e3o e a extin\u00e7\u00e3o da vida no planeta.<\/p>\n<p>O colapso ecol\u00f3gico que hoje se torna manifesto com a crise ambiental e clim\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 uma cat\u00e1strofe propriamente ecol\u00f3gica. A vida n\u00e3o \u00e9 culpada deste destino. A humanidade teria de superar aquilo que a constitui como a esp\u00e9cie inteligente, o que conduziu o homo sapiens-sapiens \u00e0 insipi\u00eancia da vida. A responsabilidade diante do colapso ecol\u00f3gico n\u00e3o \u00e9 da vida org\u00e2nica, mas das desraz\u00f5es que dela emergiram no Logos humano e conduziram o processo civilizat\u00f3rio, ao longo da hist\u00f3ria da metaf\u00edsica, rumo \u00e0 configura\u00e7\u00e3o e institui\u00e7\u00e3o da racionalidade da modernidade que sequestrou a vida.<\/p>\n<p>A crise ambiental confronta a humanidade com o maior enigma da vida: o fato de que a ordem simb\u00f3lica que caracteriza o g\u00eanero humano \u2014 a linguagem, o eidos, o logos, a raz\u00e3o \u2014, emergindo da vida org\u00e2nica, tenha-se constitu\u00eddo em uma ag\u00eancia degradadora da vida.<\/p>\n<p>A humanidade ter\u00e1 de reinventar os modos pelos quais a ordem simb\u00f3lica se codificou na psique humana, gerando uma vontade de poder, uma for\u00e7a de dom\u00ednio sobre a vida, que<\/p>\n<p>constitu\u00edram uma racionalidade que governa o mundo destruindo suas bases ecol\u00f3gicas de sustentabilidade e se aninharam no inconsciente humano como puls\u00f5es ecocidas.<\/p>\n<p>O impens\u00e1vel no Norte \u00e9 a possibilidade de recriar o mundo na iman\u00eancia da vida, a partir da pot\u00eancia ecol\u00f3gica e da produtividade neguentr\u00f3pica dos ecossistemas, e da criatividade cultural dos povos e comunidades. A partir de suas tradi\u00e7\u00f5es, eles recriam seus modos de produ\u00e7\u00e3o. Essas s\u00e3o as vias abertas do poss\u00edvel da vida que o pensamento ambiental latino-americano promove.<\/p>\n<p>Parece haver em seu texto um desejo sublinhar por seu car\u00e1ter decisivo: quando o senhor afirma que o saber ambiental \u201creemerge de suas cinzas, como a ave f\u00eanix\u201d, n\u00e3o recorre a uma met\u00e1fora piedosa, mas assinala uma condi\u00e7\u00e3o epist\u00eamica precisa.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de que os saberes ancestrais tenham sobrevivido como f\u00f3sseis, mas de que a pr\u00f3pria devasta\u00e7\u00e3o \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o de sua reemerg\u00eancia. Essa ideia de que a exterioridade n\u00e3o \u00e9 um fora pr\u00edstino, e sim um campo produzido pela mesma racionalidade que o nega, possui uma pot\u00eancia te\u00f3rica extraordin\u00e1ria; talvez fosse poss\u00edvel explicitar ainda mais esse v\u00ednculo em que a espolia\u00e7\u00e3o se converte no solo f\u00e9rtil da insurg\u00eancia da vida. As observa\u00e7\u00f5es que voc\u00ea faz nos oferecem a oportunidade de indagar e desentranhar de maneira mais sutil e, ao mesmo tempo, mais profunda, os enigmas da trag\u00e9dia e da responsabilidade que a humanidade vive diante de seu \u201cesquecimento da vida\u201d.<\/p>\n<p>Quando afirmo que o ambiente designa o \u201ccampo de exterioridade da racionalidade da modernidade\u201d, n\u00e3o se trata de assinalar um nada, uma morte sem retorno, mas justamente de nomear a pot\u00eancia da vida que resiste, dessa pot\u00eancia imanente que o logos e a racionalidade humana n\u00e3o souberam captar, mas que segue ali presente, como uma pot\u00eancia c\u00f3smica encarnada nos imagin\u00e1rios e nas pr\u00e1ticas dos povos ancestrais; ao menos nas mentalidades e espiritualidades n\u00e3o sequestradas, n\u00e3o aniquiladas por essa racionalidade na qual n\u00e3o cabe a compreens\u00e3o da vida, mas onde se acende o fogo da vida, pulsa o sangue dos povos e vibra o canto da Terra.<\/p>\n<p>Sim, a domina\u00e7\u00e3o dos povos, a devasta\u00e7\u00e3o de seus ecossistemas e a subjuga\u00e7\u00e3o de seus saberes atuam como limiares da resist\u00eancia da vida diante da morte da vida. \u00c9 outra manifesta\u00e7\u00e3o do conflito entre eros e t\u00e2natos, que atua como um impulso em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 reinven\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es da vida.<\/p>\n<p>Por isso a racionalidade ambiental nomeia essa confronta\u00e7\u00e3o radical com a racionalidade da modernidade. \u00c9 o que se manifesta nas comunidades das reservas extrativistas na Amaz\u00f4nia e em outros ecossistemas brasileiros, como os seringueiros, que reinventaram suas identidades e suas pr\u00e1ticas produtivas em uma economia sustent\u00e1vel, aproveitando a produtividade neguentr\u00f3pica da vida da biodiversidade como coletores solares, transformando, a partir do fen\u00f4meno fotossint\u00e9tico, a energia solar em biomassa, e esta em bens que satisfazem necessidades humanas.<\/p>\n<p>Nesse sentido, \u201ca espolia\u00e7\u00e3o se converte no solo f\u00e9rtil da insurg\u00eancia da vida\u201d. Mas devemos admitir que esses saberes ambientais, tanto os ancestrais quanto os contaminados e pervertidos pela modernidade, n\u00e3o s\u00e3o saberes \u201cpr\u00edstinos\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de saberes l\u00facidos, e menos ainda que aspirem a emular o \u201ciluminismo da raz\u00e3o\u201d. N\u00e3o s\u00e3o saberes a priori ecologizados. As for\u00e7as entr\u00f3picas e neguentr\u00f3picas da natureza n\u00e3o<\/p>\n<p>transparecem de maneira di\u00e1fana nos saberes tradicionais e nos imagin\u00e1rios dos povos da Terra.<\/p>\n<p>O grande desafio humano \u00e9 desenvolver uma techn\u00e9 em harmonia e capaz de estender a pot\u00eancia produtiva da physis, na iman\u00eancia da vida, contrariando a ordem da t\u00e9cnica e do capital, que avan\u00e7am aniquilando a vida.<\/p>\n<p>No entanto, todo saber da vida debate-se com a realidade e com suas obscuridades \u2014 como reconheciam tanto Her\u00e1clito quanto as cosmogonias de povos ancestrais como os zapotecas1.<\/p>\n<p>O saber corre sempre atr\u00e1s da vida, buscando compreend\u00ea-la para subsumir-se em sua iman\u00eancia e condi\u00e7\u00f5es. Isso implica disposi\u00e7\u00e3o para compreender as estruturas e codifica\u00e7\u00f5es da psique humana e as forma\u00e7\u00f5es do inconsciente. Ali se configura aquilo que Nietzsche chamava de vontade de poder, e Freud, de puls\u00f5es tan\u00e1ticas do inconsciente. Ou seja, \u00e9 preciso penetrar nas obscuridades da alma humana para conter seus impulsos ecocidas e etnocidas; para aprender a conviver com suas insab\u00edveis alteridades.<\/p>\n<p>Acende-se, assim, a chama do desafio \u00e9tico de uma transi\u00e7\u00e3o civilizat\u00f3ria que n\u00e3o pode internalizar a raz\u00e3o dominante da modernidade ocidental, mas que ainda pulsa no cora\u00e7\u00e3o dos povos da Terra.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 segunda resposta, sua desconstru\u00e7\u00e3o da geopol\u00edtica do desenvolvimento sustent\u00e1vel \u00e9 cir\u00fargica. Ao qualificar as \u201ceconomias verdes\u201d como \u201csimula\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas\u201d, o senhor introduz um conceito que transborda a mera farsa para constituir-se em uma opera\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica: aquela que produz um efeito de realidade \u2014 um capitalismo que finge \u201cecologizar-se\u201d \u2014 sem alterar sua matriz destrutiva.<\/p>\n<p>Pergunto-lhe se essa simula\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9, a rigor, mais letal do que o negacionismo aberto, na medida em que anestesia a urg\u00eancia da transi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica que o senhor prop\u00f5e com o \u201csilogismo disjuntivo\u201d da Racionalidade Ambiental.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 minha cr\u00edtica ao discurso e \u00e0 geopol\u00edtica do desenvolvimento sustent\u00e1vel, voc\u00ea afirma que realizo uma \u201copera\u00e7\u00e3o cir\u00fargica\u201d. Talvez a observa\u00e7\u00e3o seja justa, se considerarmos que minha inten\u00e7\u00e3o vai al\u00e9m dos devaneios de muitas cr\u00edticas profundas, por\u00e9m afinal superficiais\u2026 ainda que o que ali afirmo pare\u00e7a uma contradi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o me refiro apenas a tanto trabalho acad\u00eamico que se mant\u00e9m no n\u00edvel da cr\u00edtica ao \u201cmodelo\u201d, inclusive ao racionalismo cr\u00edtico que tenta avan\u00e7ar dentro dos c\u00e2nones da mesma racionalidade, como o fizeram os te\u00f3ricos da Escola de Frankfurt. Horkheimer, Adorno, Marcuse, Habermas buscaram compreender a sociedade moderna, revelar seus mecanismos de domina\u00e7\u00e3o e abrir possibilidades de emancipa\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o lograram, afinal, transcender seu cerco de racionalidade. Este tamb\u00e9m tem sido o caso de Anthony Giddens, Ulrick Beck ou Scott Lash, que n\u00e3o foram al\u00e9m de apregoar uma \u201cmoderniza\u00e7\u00e3o reflexiva\u201d.<\/p>\n<p>Tomemos o caso paradigm\u00e1tico de Nicholas Georgescu-Roegen, que estabeleceu uma cr\u00edtica radical ao processo econ\u00f4mico ao conect\u00e1-lo \u00e0 lei da entropia, denominando-a \u201cBioeconomia\u201d. Ainda assim, considero que tal pensamento se inscreve naquilo que chamo de \u201cteoria negativa\u201d, no sentido de que demarca os limites do processo econ\u00f4mico, mas n\u00e3o<\/p>\n<p>reconstr\u00f3i o processo econ\u00f4mico como uma bioeconomia propriamente dita, a partir dos pr\u00f3prios princ\u00edpios da vida, como um processo neguentr\u00f3pico.<\/p>\n<p>De maneira igualmente cr\u00edtica, a epistemologia do saber ambiental vai al\u00e9m dos esfor\u00e7os da filosofia e da ci\u00eancia por responder \u00e0 crise da raz\u00e3o articulando um pensamento hol\u00edstico, um pensamento complexo. S\u00e3o ci\u00eancias da complexidade, ou uma biotermodin\u00e2mica, que n\u00e3o conseguem desprender-se do cerco de racionalidade e objetividade cient\u00edfica, do \u201clogocentrismo da ci\u00eancia\u201d, de seu voluntarismo totalizante por meio da articula\u00e7\u00e3o interdisciplinar de paradigmas, disciplinas e saberes, sem uma cr\u00edtica radical ao conhecimento racional, sem abrir-se \u00e0 alteridade do insab\u00edvel de todo saber.<\/p>\n<p>Ou questionemos o pr\u00f3prio campo da ecologia pol\u00edtica, centrado em uma sociografia de conflitos ambientais que dessangram povos e comunidades, ou em um discurso do decrescimento, sem encaminhar-se a um pensamento estrat\u00e9gico sobre as vias poss\u00edveis de desconstru\u00e7\u00e3o da racionalidade econ\u00f4mica e a transi\u00e7\u00e3o rumo a um mundo sustent\u00e1vel fundado nos princ\u00edpios de uma racionalidade ambiental.<\/p>\n<p>Voc\u00ea me coloca a quest\u00e3o de se as simula\u00e7\u00f5es do capitalismo verde, mas tamb\u00e9m essas reformas da racionalidade instaurada como o modo inelut\u00e1vel de ser do mundo humano, n\u00e3o s\u00e3o, a rigor, \u201cmais letais do que o negacionismo aberto, na medida em que anestesiam a urg\u00eancia da transi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica que o silogismo disjuntivo da Racionalidade Ambiental prop\u00f5e\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o poderia sen\u00e3o concordar com isso. Sua perversidade reside no fato de que tal simula\u00e7\u00e3o normaliza o estado de degrada\u00e7\u00e3o como uma condi\u00e7\u00e3o inelut\u00e1vel para a humanidade.<\/p>\n<p>Da\u00ed que o discurso e as pol\u00edticas do \u201cdesenvolvimento sustent\u00e1vel\u201d apregoem a adapta\u00e7\u00e3o e, conforme o caso, a mitiga\u00e7\u00e3o da mudan\u00e7a clim\u00e1tica como um fato irrevers\u00edvel, anestesiando a capacidade humana e a possibilidade que emerge da pr\u00f3pria physis de dar um giro hist\u00f3rico rumo a modos de apropria\u00e7\u00e3o da natureza condizentes com as condi\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas do planeta.<\/p>\n<p>O maior enigma e desafio da humanidade neste momento \u00e9 o de sua poss\u00edvel emancipa\u00e7\u00e3o da \u201cjaula de racionalidade\u201d da modernidade; saber se ainda \u00e9 capaz de assumir sua responsabilidade hist\u00f3rica diante da crise civilizat\u00f3ria do antropoceno, se entendermos esta era como aquela em que o logos humano se converte na principal for\u00e7a motriz que mobiliza o metabolismo da vida na biosfera.<\/p>\n<p>A racionalidade ambiental n\u00e3o apenas esgrime argumentos cr\u00edticos sobre a insustentabilidade do regime do capital e da racionalidade da Modernidade, mas prop\u00f5e novas bases conceituais, princ\u00edpios e crit\u00e9rios para a constru\u00e7\u00e3o de outros mundos poss\u00edveis fundados nas condi\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas do planeta e nos princ\u00edpios jur\u00eddicos, pol\u00edticos e \u00e9ticos que guiam a transi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica rumo \u00e0 sustentabilidade da vida. Na terceira resposta, o senhor abre um veio que me interpela diretamente: ao postular que o impens\u00e1vel no Norte \u00e9 \u201ca possibilidade de recriar o mundo na iman\u00eancia da vida\u201d, formula uma tese que transcende a cartografia para situar-se na ontologia.<\/p>\n<p>A Amaz\u00f4nia n\u00e3o \u00e9 o Sul Global por uma coordenada geogr\u00e1fica, mas por ser o lugar onde a iman\u00eancia da vida transborda a racionalidade que pretende administr\u00e1-la. Talvez seja poss\u00edvel afiar essa distin\u00e7\u00e3o entre o Sul geogr\u00e1fico e o Sul ontol\u00f3gico na vers\u00e3o final.<\/p>\n<p>Mais adiante, voc\u00ea me diz que minha proposta \u201ctranscende a cartografia para situar-se na ontologia\u201d, j\u00e1 que \u201ca Amaz\u00f4nia n\u00e3o \u00e9 o Sul Global por uma coordenada geogr\u00e1fica, mas por ser o lugar onde a iman\u00eancia da vida transborda a racionalidade que pretende administr\u00e1-la\u201d, estabelecendo uma distin\u00e7\u00e3o entre o Sul geogr\u00e1fico e o Sul ontol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Essa observa\u00e7\u00e3o me leva a esclarecer a radicalidade da racionalidade ambiental, enraizada para al\u00e9m do sul geogr\u00e1fico no \u201csul ontol\u00f3gico\u201d; ou, para al\u00e9m desse sintagma, em um pensamento do sul para al\u00e9m de toda ontologia.<\/p>\n<p>Explico-me: para come\u00e7ar, haveremos de assumir que o pensamento ambiental latino-americano, pensamento do Sul, tem uma ancoragem territorial e cultural. Pensar em outra economia fundada na produtividade neguentr\u00f3pica teve sua origem no reconhecimento da pot\u00eancia ecol\u00f3gica dos tr\u00f3picos e de nosso continente.<\/p>\n<p>Articular a ela o princ\u00edpio de produtividade cultural proveio do reconhecimento da riqueza biocultural de nossa Abya Yala. Mas a radicalidade da categoria de racionalidade ambiental n\u00e3o prov\u00e9m apenas de atribuir um valor e um direito existencial \u00e0s cosmogonias dos povos ancestrais; de ver em sua disposi\u00e7\u00e3o para reinventar seus modos de produ\u00e7\u00e3o e de vida a partir das condi\u00e7\u00f5es da vida o \u00faltimo basti\u00e3o de resist\u00eancia diante da acumula\u00e7\u00e3o expansionista, destrutiva e por espolia\u00e7\u00e3o sem limites do capital.<\/p>\n<p>Os princ\u00edpios radicais da racionalidade ambiental configuram-se em uma transla\u00e7\u00e3o do pensamento desconstrucionista cr\u00edtico e radical euroc\u00eantrico para os territ\u00f3rios ecol\u00f3gicos do sul \u2014 a ontologia da multiplicidade da vida de Deleuze e Guattari, o princ\u00edpio desconstrucionista da difer\u00e2ncia de Derrida, as estrat\u00e9gias de poder no saber de Foucault, a \u00e9tica da diferen\u00e7a de L\u00e9vinas \u2014 ao di\u00e1logo de saberes.<\/p>\n<p>Mas, falando em \u201cSul ontol\u00f3gico\u201d, n\u00e3o posso deixar de trazer \u00e0 cola\u00e7\u00e3o a seguinte anedota, que d\u00e1 sentido a essa alocu\u00e7\u00e3o para desloc\u00e1-la: em algum ponto de minha reflex\u00e3o cr\u00edtica sobre a obsess\u00e3o heideggeriana com o SER e sobre o legado do pensamento ontol\u00f3gico, ocorreu-me escrever, a respeito da transi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica rumo a um mundo sustent\u00e1vel: \u201cn\u00e3o \u00e9 desde o Ser, mas desde o Sul\u201d.<\/p>\n<p>Esse dictum foi o piv\u00f4 que deu corda a longas disquisi\u00e7\u00f5es com meu amigo Jos\u00e9 Luis Grosso sobre a \u201cdesontologiza\u00e7\u00e3o\u201d do pensamento ambiental latino-americano. Este se configura nos imagin\u00e1rios culturais e se territorializa no Sul geogr\u00e1fico, mas n\u00e3o \u00e9 propriamente um \u201cSul ontol\u00f3gico\u201d. A racionalidade ambiental n\u00e3o \u00e9 uma nova ontologia, n\u00e3o \u00e9 um pensamento do Ser, mas da Vida. Reconhecer que a natureza foi exclu\u00edda do n\u00facleo da racionalidade no marxismo ortodoxo \u00e9 um ato de rigor que poucos se permitem a partir da tradi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica.<\/p>\n<p>Sobre sua f\u00f3rmula acerca o capital como \u201cmotor da hist\u00f3ria destruidora da vida\u201d pergunto-me se essa \u201cambientaliza\u00e7\u00e3o\u201d do capital n\u00e3o obriga a repensar a categoria de \u201creprodu\u00e7\u00e3o\u201d. Se o capital se reproduz destruindo suas pr\u00f3prias condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia, j\u00e1 n\u00e3o estamos diante de uma crise c\u00edclica, mas de uma muta\u00e7\u00e3o autol\u00edtica da acumula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Voc\u00ea adverte, com raz\u00e3o, que poucos marxistas se permitiram, a partir da tradi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica, reconhecer que a natureza foi exclu\u00edda do n\u00facleo da racionalidade do capital.<\/p>\n<p>Autores que se reivindicam ecomarxistas optaram antes por atribuir a Marx um ecologismo impl\u00edcito em sua teoria, seja em seu conceito de stoffwechsel como \u201cmetabolismo material\u201d que mobiliza o processo de produ\u00e7\u00e3o, seja na fratura ecol\u00f3gica que provoca.<\/p>\n<p>Certamente o processo de acumula\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o do capital converteu-se no motor da hist\u00f3ria e na maior for\u00e7a que mobiliza o metabolismo da biosfera, em um processo crescente de degrada\u00e7\u00e3o da vida, que conduz \u00e0 morte entr\u00f3pica do planeta.<\/p>\n<p>Este seria o ecologismo negativo de Marx. Nesse sentido, na reprodu\u00e7\u00e3o do capital n\u00e3o h\u00e1 um processo rumo \u00e0 sua ecologiza\u00e7\u00e3o, mas uma evolu\u00e7\u00e3o centr\u00edpeta em dire\u00e7\u00e3o a seu pr\u00f3prio n\u00facleo de racionalidade, que transborda no aniquilamento da vida.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 no capital uma capacidade de reconstitui\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica ou de modera\u00e7\u00e3o de sua puls\u00e3o ecocida; n\u00e3o h\u00e1, em sua constitui\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica, uma disposi\u00e7\u00e3o para uma muta\u00e7\u00e3o poss\u00edvel rumo \u00e0 iman\u00eancia da vida. Uma de suas respostas me comoveu: ao dizer que a crise ambiental confronta a humanidade com o enigma de \u201cuma ordem simb\u00f3lica convertida em ag\u00eancia degradadora\u201d, o senhor formulou uma tese que \u00e9, simultaneamente, ecol\u00f3gica, filos\u00f3fica e psicanal\u00edtica.<\/p>\n<p>A responsabilidade do intelectual que o senhor define \u2014 superar os \u201cimpens\u00e1veis\u201d \u2014 est\u00e1 encarnada nesse enigma. Se o julgar pertinente, poderia acrescentar-se uma linha sobre a dimens\u00e3o pedag\u00f3gica dessa responsabilidade diante das novas gera\u00e7\u00f5es que j\u00e1 habitam o colapso como horizonte vital.<\/p>\n<p>Encarar de frente o enigma de que da vida tenha irrompido a ordem simb\u00f3lica que caracteriza o g\u00eanero humano e que esta se tenha convertido em uma ag\u00eancia degradadora da vida produz um efeito cegante e paralisante. \u00c9 a maior cr\u00edtica \u00e0 arrog\u00e2ncia da supremacia do ser humano na ordem da vida.<\/p>\n<p>\u00c9 um enigma que nem a ci\u00eancia nem a t\u00e9cnica resolvem; menos ainda a economia; tampouco a termodin\u00e2mica da vida. N\u00e3o h\u00e1 psican\u00e1lise que cure essas puls\u00f5es ecocidas e etnocidas instauradas na racionalidade tecnoecon\u00f4mica do capital.<\/p>\n<p>\u00c9 um enigma que convoca \u00e0 mod\u00e9stia e apela \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o \u00e9tica para com a vida; que deveria ter um efeito pedag\u00f3gico conducente a aprender a habitar o planeta nas condi\u00e7\u00f5es da vida.<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Brevi\u00e1rio conceitual:<\/strong><\/p>\n<p>Abya Yala \u2014 Denomina\u00e7\u00e3o dada pelos povos Kuna (Panam\u00e1 e Col\u00f4mbia) ao continente americano antes da coloniza\u00e7\u00e3o europeia. Adotada pelo movimento ind\u00edgena latino-americano como afirma\u00e7\u00e3o de soberania territorial e simb\u00f3lica, recusando o nome \u201cAm\u00e9rica\u201d como imposi\u00e7\u00e3o colonial.<\/p>\n<p>Campo de exterioridade \u2014 Categoria central na epistemologia de Leff: o conjunto de saberes, pr\u00e1ticas e condi\u00e7\u00f5es da vida que a racionalidade da modernidade produziu como seu \u201cfora\u201d \u2014 n\u00e3o um exterior pr\u00edstino, mas um espa\u00e7o gerado pela mesma l\u00f3gica que o exclui e nega.<\/p>\n<p>Desontologiza\u00e7\u00e3o \u2014 Categoria elaborada por Leff com o fil\u00f3sofo Jos\u00e9 Luis Grosso para nomear o desligamento do pensamento ambiental latino-americano da tradi\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica ocidental centrada no Ser. A racionalidade ambiental n\u00e3o \u00e9 um pensamento do Ser, mas da Vida.<\/p>\n<p>Eidos \/ Ego cogito \u2014 O eidos aristot\u00e9lico-plat\u00f4nico reduz a realidade ao que a raz\u00e3o pode representar e calcular; o ego cogito cartesiano instaura a separa\u00e7\u00e3o radical entre sujeito racional e natureza objetificada. Juntos, nomeiam a estrutura cognitiva que a racionalidade ambiental precisa desconstruir.<\/p>\n<p>Epistemologia ambiental \u2014 Campo inaugurado por Leff que investiga os limites e as condi\u00e7\u00f5es de possibilidade do conhecimento sobre o ambiente, questionando os fundamentos da ci\u00eancia moderna e propondo articula\u00e7\u00f5es com saberes n\u00e3o hegem\u00f4nicos. \u00c9, ao mesmo tempo, cr\u00edtica radical e proposta construtiva.<\/p>\n<p>Logocentrismo \u2014 Termo da filosofia desconstrucionista de Derrida para designar a primazia do logos \u2014 raz\u00e3o, palavra, presen\u00e7a \u2014 na metaf\u00edsica ocidental. Leff o utiliza para nomear a tend\u00eancia constitutiva da ci\u00eancia moderna de reduzir tudo ao que \u00e9 racionaliz\u00e1vel, objetiv\u00e1vel e mensur\u00e1vel, excluindo a alteridade da vida.<\/p>\n<p>Moderniza\u00e7\u00e3o reflexiva \u2014 Conceito de Ulrich Beck, Anthony Giddens e Scott Lash para descrever uma fase do capitalismo em que a modernidade se torna objeto de sua pr\u00f3pria cr\u00edtica, gerando consci\u00eancia dos riscos que ela mesma produziu. Leff reconhece o diagn\u00f3stico e critica seu limite: n\u00e3o prop\u00f5e ruptura com a racionalidade que critica.<\/p>\n<p>Ontologia da multiplicidade (Deleuze e Guattari) \u2014 Filosofia que recusa a ideia de uma ess\u00eancia \u00fanica e est\u00e1vel do ser, afirmando a pluralidade irredut\u00edvel das formas de exist\u00eancia e as diferen\u00e7as como condi\u00e7\u00e3o positiva da realidade. Leff a convoca para fundamentar a abertura da racionalidade ambiental \u00e0 diversidade biocultural dos povos da Terra.<\/p>\n<p>Stoffwechsel \u2014 Termo alem\u00e3o empregado por Marx no Capital para designar o \u201cmetabolismo material\u201d entre humanidade e natureza mediado pelo processo de trabalho. Os ecomarxistas contempor\u00e2neos retomaram o conceito para construir, a partir da pr\u00f3pria obra marxiana, uma cr\u00edtica ecol\u00f3gica ao capitalismo.<\/p>\n<p>Sul ontol\u00f3gico \u2014 Categoria desenvolvida no di\u00e1logo entre Leff e o fil\u00f3sofo Jos\u00e9 Luis Grosso: o \u201cSul\u201d n\u00e3o como localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica, mas como posi\u00e7\u00e3o de pensamento que recusa a ontologia do Ser da tradi\u00e7\u00e3o ocidental e se ancora na iman\u00eancia da vida, nas cosmogonias ancestrais e na produtividade neguentr\u00f3pica dos ecossistemas tropicais. O pr\u00f3prio Leff o distingue de uma \u201cnova ontologia\u201d: a racionalidade ambiental n\u00e3o \u00e9 um pensamento do Ser, mas da Vida.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Sem publicidade ou patroc\u00ednio, dependemos de voc\u00ea. Fa\u00e7a parte do nosso grupo de apoiadores e ajude a manter nossa voz livre e plural: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post Para escapar da raz\u00e3o euroc\u00eantrica e suas ciladas appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/senador-rogerio-destaca-impacto-geopolitico-de-tarifaco-dos-eua-e-defende-soberania-do-brasil\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Senador Rog\u00e9rio destaca impacto geopol\u00edtico de tar...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/industria-brasileira-impulsiona-empregos-e-salarios-mais-altos\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Ind\u00fastria brasileira impulsiona empregos e sal\u00e1rio...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/ministra-visita-obras-do-orion-e-acompanha-expansao-do-sirius-em-campinas\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/image-3-150x150.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Ministra visita obras do Orion e acompanha expans\u00e3...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/zema-e-caiado-isolam-flavio-bolsonaro-e-expoem-racha-na-direita\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/romeu-zema-flavio-bolsonaro-ronaldo-caiado-1110x550-1-150x150.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Zema e Caiado isolam Fl\u00e1vio Bolsonaro e exp\u00f5em rac...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pensador ecossocialista mexicano sustenta: l\u00f3gica dominante na Modernidade comanda, al\u00e9m da produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, a do pr\u00f3prio conhecimento. A ruptura precisa construir um <i>saber ambiental<\/i>, cujo esbo\u00e7o est\u00e1 presente em vozes do Sul<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/descolonizacoes\/para-escapar-da-razao-eurocentrica-e-suas-ciladas\/\">Para escapar da raz\u00e3o euroc\u00eantrica e suas ciladas<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":93809,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[71982,347,5511,23517,71983,36363,2519,205,2687,71984,5599,7218,71985,423,10412,71986,71987,2044,71988,71989,71990,71991,71992,1005],"tags":[],"class_list":["post-93808","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ambientalismo-critico","category-america-latina","category-capa","category-capitalismo-verde","category-colapso-ecologico","category-conhecimento","category-cop30","category-crise-ambiental","category-crise-civilizatoria","category-crise-de-conhecimento","category-descolonizacoes","category-desenvolvimento-sustentavel","category-enrique-leff","category-extrema-direita","category-humanidade","category-infraestrutura-do-saber","category-logocentrismo-da-ciencia","category-negacionismo-climatico","category-pennsamento-ambiental","category-protocolo-de-kyoto","category-regime-do-capital","category-regime-global","category-saber-ambiental","category-sustentabilidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/93808","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=93808"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/93808\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/93809"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=93808"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=93808"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=93808"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}