{"id":93962,"date":"2026-06-30T17:47:20","date_gmt":"2026-06-30T20:47:20","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/para-entender-a-ultradireita-no-seculo-xxi\/"},"modified":"2026-06-30T17:47:20","modified_gmt":"2026-06-30T20:47:20","slug":"para-entender-a-ultradireita-no-seculo-xxi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/para-entender-a-ultradireita-no-seculo-xxi\/","title":{"rendered":"Para entender a ultradireita no s\u00e9culo XXI"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1128\" height=\"862\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Sem-titulo-9.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Sem-titulo-9.jpeg 1128w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Sem-titulo-9-300x229.jpeg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Sem-titulo-9-768x587.jpeg 768w\" sizes=\"(max-width: 1128px) 100vw, 1128px\"><figcaption>Arte: Max Ernst. The Triumph of Surrealism (1973).<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<p><imgsrc=\"\" width=\"1\" height=\"1\" alt=\".\" border=\"0\">\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Este texto \u00e9 um trecho do livro <strong>Fascismo e liberalismo<\/strong>, de Alvaro Bianchi, publicado pela Editora Boitempo, parceira do Outras Palavras. <strong>Quem apoia nosso jornalismo<\/strong> ganha desconto em todo o site da editora<\/p>\n<div>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"290\" height=\"393\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Screenshot-2026-06-30-at-17-54-47-338808webp-imagem-WEBP-290-420-pixels-1.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Screenshot-2026-06-30-at-17-54-47-338808webp-imagem-WEBP-290-420-pixels-1.png 290w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Screenshot-2026-06-30-at-17-54-47-338808.webp-imagem-WEBP-290-\u00d7-420-pixels-1-221x300.png 221w\" sizes=\"(max-width: 290px) 100vw, 290px\"><\/figure>\n<\/div>\n<p>Nos cap\u00edtulos precedentes discuti as afinidades seletivas existentes entre o liberalismo e o fascismo italiano. Circunscrevi o tema a um per\u00edodo muito limitado \u2013 1922-1925 \u2013, no qual essas aproxima\u00e7\u00f5es pareciam mais fortes. O assunto me parece fascinante, embora eu tenha consci\u00eancia de que pesquisadores e pesquisadoras costumam achar interessantes coisas que as demais pessoas consideram simplesmente entediantes, ou mesmo irrelevantes. A respeito do t\u00e9dio n\u00e3o posso fazer nada. Mas, sobre a relev\u00e2ncia do que escrevi nas p\u00e1ginas precedentes, posso acrescentar uma justificativa: aquelas afinidades que procurei revelar persistem nos movimentos neofascistas e p\u00f3s-fascistas contempor\u00e2neos. Permito-me, assim, dar um enorme salto no tempo para tratar desses novos fen\u00f4menos.<\/p>\n<p>J\u00e1 na introdu\u00e7\u00e3o a este livro apresentei meu \u00e1libi metodol\u00f3gico para este salto. Como disse, meu interesse pol\u00edtico no presente me conduziu \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o do passado. Agora est\u00e1 na hora de reconduzir o argumento para meu pr\u00f3prio tempo, este no qual a ascens\u00e3o das extremas direitas angustia tanta gente. Para evitar mais confus\u00e3o do que j\u00e1 existe a respeito, come\u00e7arei definindo os conceitos-chave para a compreens\u00e3o desse fen\u00f4meno.<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/14--46.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/14--46.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/14-1-300x110.png 300w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>A ascens\u00e3o em todo o mundo de grupos e partidos pol\u00edticos autorit\u00e1rios e antissistema que defendem a restri\u00e7\u00e3o dos direitos dos imigrantes ou de popula\u00e7\u00f5es marginalizadas trouxe consigo um intenso debate conceitual. Na \u00faltima d\u00e9cada, pesquisadores e pesquisadoras recorreram a m\u00faltiplas ideias para definir esses fen\u00f4menos. Termos como \u201cextrema direita\u201d<sup>1<\/sup>, \u201cdireita radical\u201d<sup>2<\/sup>e \u201cdireita populista radical\u201d<sup>3<\/sup>passaram a ser utilizados n\u00e3o apenas nos debates acad\u00eamicos, mas tamb\u00e9m na imprensa cotidiana. Nem sempre a pluralidade de defini\u00e7\u00f5es \u00e9 uma consequ\u00eancia da diversidade do objeto. Muitas vezes o trabalho de conceitualiza\u00e7\u00e3o \u00e9 prec\u00e1rio e, em outras tantas, termos diferentes s\u00e3o utilizados como se fossem intercambi\u00e1veis.<\/p>\n<p>Os conceitos lineares e relacionais baseados no que h\u00e1 de diferente entre direita e esquerda s\u00e3o importantes para definir \u201cfam\u00edlias\u201d de ideologias pol\u00edticas, mas tendem a reunir manifesta\u00e7\u00f5es heterog\u00eaneas. De modo complementar, os conceitos de fascismo, neofascismo e p\u00f3s-fascismo s\u00e3o \u00fateis para a compreens\u00e3o de certos fen\u00f4menos pol\u00edticos cujas caracter\u00edsticas particulares os distinguem de outras manifesta\u00e7\u00f5es antissist\u00eamicas.<\/p>\n<p><strong>Definindo os conceitos<\/strong><\/p>\n<p>Extrema direita \u00e9 um conceito que define uma \u201cfam\u00edlia\u201d de ideologias que se situam em um ponto afastado do centro pol\u00edtico. A distin\u00e7\u00e3o entre direita e esquerda pode ter utilidade anal\u00edtica e pol\u00edtica, mas com frequ\u00eancia gera defini\u00e7\u00f5es relacionais e lineares. Baseando-se nela, o espa\u00e7o ideol\u00f3gico e pol\u00edtico \u00e9 muitas vezes entendido de forma unidimensional, como uma linha em que os movimentos s\u00e3o organizados em uma escala de mais ou de menos. Desse modo, os movimentos estudados passam a ser definidos a partir do ponto em que o objeto se situa em um <em>continuum<\/em> pol\u00edtico-ideol\u00f3gico, em que as posi\u00e7\u00f5es ocupadas s\u00e3o definidas a partir de sua rela\u00e7\u00e3o com posi\u00e7\u00f5es antag\u00f4nicas.<\/p>\n<p>Com frequ\u00eancia, defini\u00e7\u00f5es espaciais e relacionais produzem conceitos nos quais os movimentos s\u00e3o definidos por aquilo que negam. A conhecid\u00edssima defini\u00e7\u00e3o de Norberto Bobbio me permite ilustrar esse procedimento conceitual. O fil\u00f3sofo italiano definiu direita e esquerda como posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas em uma linha estabelecida a partir da dicotomia desigualdade\/igualdade<sup>4<\/sup>. \u00c0 direita est\u00e3o aqueles que defendem a exist\u00eancia de hierarquias entre os indiv\u00edduos e \u00e0 esquerda est\u00e3o aqueles que consideram a igualdade um valor supremo. Essa defini\u00e7\u00e3o \u00e9 facilmente operacionalizada como um espa\u00e7o linear no qual as posi\u00e7\u00f5es se definem como de mais ou de menos igualdade. A primeira quer menos igualdade, j\u00e1 a segunda quer mais. Da\u00ed que os conceitos produzidos tendam a ser negativos. A esquerda \u00e9 anti-hier\u00e1rquica e a direita anti-igualitarista.<\/p>\n<p>Mas o que caracterizaria a extrema direita? A bibliografia tendeu a enumerar um conjunto de atributos que comporiam seu n\u00facleo ideol\u00f3gico. Essas enumera\u00e7\u00f5es variaram muito ente si. Cas Mudde identificou 26 diferentes defini\u00e7\u00f5es, as quais elencavam 58 diferentes caracter\u00edsticas, cinco das quais apareciam em pelo menos metade dos autores: \u201cnacionalismo, racismo, xenofobia, antidemocracia e Estado forte\u201d<sup>5<\/sup>. Em vez de listar um conjunto de caracter\u00edsticas, Piero Ignazi insistiu que o ponto de partida deve ser o car\u00e1ter espacial do conceito: \u201cOs partidos de extrema direita est\u00e3o localizados na extremidade direita do cont\u00ednuo espacial\u201d<sup>6<\/sup>. Conceitos lineares e relacionais s\u00e3o \u00fateis para a identifica\u00e7\u00e3o das \u201cfam\u00edlias\u201d ideol\u00f3gico-pol\u00edticas \u00e0 medida que permitem estabelecer grada\u00e7\u00f5es e desse modo distinguir correntes diferentes que se situam em um mesmo polo do espectro. O conceito de extrema direita aqui utilizado tem a vantagem sobre os concorrentes de definir um espa\u00e7o extremo da pol\u00edtica, no qual uma ideologia se apresenta como a nega\u00e7\u00e3o absoluta \u2013 muitas vezes defendendo o uso da viol\u00eancia f\u00edsica \u2013 do extremo oposto.<\/p>\n<p>Apesar de suas vantagens, os limites desses conceitos lineares e relacionais est\u00e3o, justamente, em tornar mais dif\u00edcil identificar certas particularidades pol\u00edtico-ideol\u00f3gicas presentes em uma mesma \u201cfam\u00edlia\u201d<sup>7<\/sup>. Eles tendem a aproximar coisas que n\u00e3o s\u00e3o iguais entre si e, ao mesmo tempo, a ocultar as diferen\u00e7as que permitiriam distinguir uma coisa de outra que est\u00e1 perto. Os movimentos pol\u00edtico-ideol\u00f3gicos fascistas, neofascistas e p\u00f3s-fascistas s\u00e3o formas particulares da extrema direita.<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"\" alt=\"\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Os movimentos fascistas costumam combinar, em diferentes propor\u00e7\u00f5es, uma ideologia ultranacionalista, estat\u00f3latra, antidemocr\u00e1tica e anticomunista. Eles identificam a exist\u00eancia de um decl\u00ednio da na\u00e7\u00e3o ou da civiliza\u00e7\u00e3o na qual se reconhecem e almejam nova ordem pol\u00edtica para promover seu renascimento. Para tal, atribuem \u00e0 viol\u00eancia uma capacidade redentora e purificadora. Essa ideologia encontrou na It\u00e1lia e na Alemanha do entreguerras sua forma mais acabada. Manifesta\u00e7\u00f5es dessa ideologia tamb\u00e9m ocorreram em outros pa\u00edses da Europa, e mesmo na Am\u00e9rica Latina e na \u00c1sia<sup>8<\/sup>.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o dos movimentos fascistas com os neofascistas \u00e9, muitas vezes, de descend\u00eancia direta e de continuidade, como no caso do Movimento Social Italiano (MSI) herdeiro da Rep\u00fablica Social Italiana (RSI) e de seu grupo dirigente. Em outros casos, a rela\u00e7\u00e3o com o passado \u00e9 mediada, e n\u00e3o h\u00e1 uma reivindica\u00e7\u00e3o expl\u00edcita de um passado fascista, como no caso da Frente Nacional, na Fran\u00e7a. Mas, aqui, o que define esses movimentos n\u00e3o \u00e9 uma linha geneal\u00f3gica, e sim uma ideologia. A ideologia neofascista que tem lugar no p\u00f3s-guerra atualiza a precedente no que diz respeito a novas condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas em pelo menos dois aspectos: o ultranacionalismo e a estatolatria.<\/p>\n<p>A ideia de na\u00e7\u00e3o nos movimentos neofascistas deixou de estar associada a um territ\u00f3rio delimitado por fronteiras geogr\u00e1ficas precisas, como a It\u00e1lia e a Alemanha. Nesses novos movimentos, a \u201cna\u00e7\u00e3o\u201d foi desterritorializada e passou a representar uma comunidade cultural ou uma forma civilizacional autorreferenciada, tal como a Europa ou a civiliza\u00e7\u00e3o crist\u00e3<sup>9<\/sup>. J\u00e1 no fim dos anos 1920 era poss\u00edvel identificar a exist\u00eancia no fascismo italiano de uma tend\u00eancia pan-europeia que tomou forma na revista <em>Antieuropa<\/em>, de Asvero Gravelli, e na cria\u00e7\u00e3o dos Comit\u00eas de A\u00e7\u00e3o para a Universalidade de Roma<sup>10<\/sup>. Mas a tens\u00e3o entre nacionalismo e universalismo permaneceu no interior da ideologia fascista, e o insucesso dessas iniciativas \u00e9 um indicador das dificuldades. Com a Guerra Fria, entretanto, esse universalismo encontrou um terreno pol\u00edtico-institucional e ideol\u00f3gico mais favor\u00e1vel. Ocorreu, ent\u00e3o, uma ressignifica\u00e7\u00e3o da ideia de na\u00e7\u00e3o, a qual implicou uma expans\u00e3o da \u201ccomunidade imaginada\u201d que se estendeu al\u00e9m de fronteiras estatais<sup>11<\/sup>. Nesse contexto, ganhou forma um \u201csupernacionalismo\u201d, que se definiu como oposi\u00e7\u00e3o tanto ao capitalismo de Wall Street como ao comunismo de Moscou, apresentando-se como uma <em>terceiravia<\/em><sup>12<\/sup>.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m a concep\u00e7\u00e3o estat\u00f3latra do fascismo original sofreu uma muta\u00e7\u00e3o no p\u00f3s-guerra. Se a defesa da autoridade e da ordem permaneceu central no discurso neofascista, esta passou a se articular contraditoriamente com um discurso antiestatista. Mais uma vez, pode-se afirmar que esse movimento se encontrava prefigurado na pol\u00edtica econ\u00f4mica anti-intervencionista do ministro Alberto de\u2019 Stefani nos primeiros anos do governo Mussolini<sup>13<\/sup>. Entretanto, depois que a austeridade econ\u00f4mica permitiu derrotar o movimento oper\u00e1rio e restabelecer o controle sobre as classes trabalhadoras, essa pol\u00edtica cedeu lugar a forte dirigismo estatal, o qual evidentemente se tornou ainda maior \u00e0 medida que a It\u00e1lia entrava em guerra. Atualmente, entretanto, \u00e9 poss\u00edvel identificar um componente antiestatal no discurso pol\u00edtico e econ\u00f4mico neofascista no qual, com frequ\u00eancia, a cr\u00edtica \u00e0s elites pol\u00edticas caminha ao lado de uma cr\u00edtica ao \u201cgrande governo\u201d e ao intervencionismo econ\u00f4mico. A rela\u00e7\u00e3o desse neofascismo com o liberalismo econ\u00f4mico continua tensa e marcada por idas e vindas, mas a den\u00fancia \u00e0 presen\u00e7a do Estado na regulamenta\u00e7\u00e3o da vida e dos costumes tornou-se preponderante.<\/p>\n<p>A ideologia p\u00f3s-fascista se define por uma perman\u00eancia dos principais tra\u00e7os da ideologia dos movimentos neofascistas, renunciando, entretanto, ao car\u00e1ter redentor da viol\u00eancia promovida por uma elite pol\u00edtica. Ultranacionalismo, autoritarismo e anticomunismo continuam centrais, bem como uma vis\u00e3o de mundo no qual uma comunidade imaginada sitiada necessita renascer purificada. Mas a oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 democracia liberal e a exalta\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia presente no discurso neofascista cedeu lugar a uma ades\u00e3o verbal \u00e0s regras do jogo. A ideologia p\u00f3s-fascista perdeu seu car\u00e1ter revolucion\u00e1rio e, em um movimento an\u00e1logo \u00e0quele do socialismo do in\u00edcio do s\u00e9culo XX, tornou-se reformista.<\/p>\n<p>Essa ades\u00e3o \u00e0s regras do jogo da democracia liberal carrega consigo enormes contradi\u00e7\u00f5es. A aceita\u00e7\u00e3o do pluripartidarismo, da separa\u00e7\u00e3o dos poderes e das elei\u00e7\u00f5es livres como modo de sele\u00e7\u00e3o dos governantes tem como contrapartida uma defini\u00e7\u00e3o restrita do povo, ou seja, do sujeito da democracia, que passa a ser concebido como o conjunto dos membros pertencentes a uma comunidade \u00e9tnica, cultural ou religiosa. O princ\u00edpio de que todos s\u00e3o iguais perante a lei, que ao menos formalmente \u00e9 a base das institui\u00e7\u00f5es da democracia liberal, \u00e9 substitu\u00eddo por outro que estabelece uma hierarquia de direitos que beneficia e protege os membros da comunidade considerados leg\u00edtimos.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil demonstrar que as pr\u00e1ticas pol\u00edticas da extrema direita p\u00f3s-<\/p>\n<p>-fascista conspiram contra a democracia e as institui\u00e7\u00f5es que dizem defender. Exemplos n\u00e3o faltam, e as p\u00e1ginas dos jornais di\u00e1rios est\u00e3o cheias deles. Mas neste livro n\u00e3o estou estudando as pr\u00e1ticas, e sim as ideologias, as ideias \u00e0s quais partidos e movimentos fascistas, neofascistas e p\u00f3s-fascistas recorrem para justificar suas a\u00e7\u00f5es e construir um consenso. Essas ideias s\u00e3o o objeto deste cap\u00edtulo.<\/p>\n<p><strong>Do Movimento Social Italiano a Irm\u00e3os da It\u00e1lia<\/strong><\/p>\n<p>Na It\u00e1lia, Giorgia Meloni, primeira-ministra empossada em outubro de 2022, fala com desenvoltura de sua hist\u00f3ria nas fileiras da juventude do MSI, fundado no imediato p\u00f3s-guerra por remanescentes da Rep\u00fablica Social Italiana, o regime fascista radical de colabora\u00e7\u00e3o com a ocupa\u00e7\u00e3o nazista<sup>14<\/sup>. Esse partido dificilmente teria sido institu\u00eddo e obtido sua legalidade sem a anistia que extinguiu as penas \u00e0s quais os fascistas haviam sido condenados \u2013 proposta do ministro da Justi\u00e7a, o comunista Palmiro Togliatti, sancionada em junho de 1946<sup>15<\/sup>. Foram, entretanto, a Guerra Fria e a aproxima\u00e7\u00e3o do governo italiano dos Estados Unidos, com a consequente exclus\u00e3o dos comunistas do governo, em maio de 1947, que criaram as condi\u00e7\u00f5es para que o MSI ocupasse um importante espa\u00e7o na vida pol\u00edtica italiana.<\/p>\n<p>Traduzindo o neofascismo na linguagem do anticomunismo, esse partido encontrou seu lugar na democracia liberal italiana e conquistou resultados eleitorais importantes, ampliando sua vota\u00e7\u00e3o em 1972, justamente no auge dos confrontos contra o movimento estudantil e o movimento sindical. Nesse ano, sob a lideran\u00e7a de Giorgio Almirante, o rebatizado Movimento Social Italiano-<\/p>\n<p>-Direita Nacional (MSI-DN) obteve seu maior sucesso eleitoral at\u00e9 ent\u00e3o 8,6% para a C\u00e2mara de Deputados, com 56 mandatos<sup>16<\/sup>. As rela\u00e7\u00f5es desse partido com a democracia liberal na qual prosperava n\u00e3o era, entretanto, livre de contradi\u00e7\u00f5es. Embora Almirante afirmasse verbalmente seu compromisso com a Constitui\u00e7\u00e3o, o partido se apresentava como herdeiro do fascismo, mantendo seus velhos princ\u00edpios<sup>17<\/sup>.<\/p>\n<p>O crescimento do MSI no in\u00edcio dos anos 1970 coincidiu com uma onda de atentados neofascistas protagonizada por organiza\u00e7\u00f5es provenientes de suas fileiras ou com as quais mantinha rela\u00e7\u00f5es, como Frente Nacional, Ordem Nova e Vanguarda Nacional<sup>18<\/sup>. Em mais de uma ocasi\u00e3o, Almirante procurou dissociar o MSI de atentados e ataques promovidos por militantes do partido, com vistas a preservar a estrat\u00e9gia de inser\u00e7\u00e3o na democracia liberal e as rela\u00e7\u00f5es com a Democracia Crist\u00e3 (DC)<sup>19<\/sup>. Ao mesmo tempo, o partido deu guarida a figuras-chave do terrorismo, como Pino Rauti, o qual se elegeu deputado pelo MSI em 1972 e permaneceu nessa posi\u00e7\u00e3o por vinte anos, tornando-se secret\u00e1rio-geral do movimento por um curto per\u00edodo entre 1990 e 1991<sup>20<\/sup>.<\/p>\n<p>Apesar de alguns sucessos, o MSI-DN n\u00e3o conseguiu se afirmar nem como o ponto de conflu\u00eancia das direitas, nem como um parceiro confi\u00e1vel da DC. Os resultados eleitorais oscilaram e chegaram a seu ponto mais baixo nas elei\u00e7\u00f5es regionais da Sic\u00edlia, em 1991, provocando a queda do secret\u00e1rio Rauti. Mas a conjuntura pol\u00edtica mudou muito rapidamente, favorecendo o partido. No in\u00edcio dos nos 1990 o sistema partid\u00e1rio italiano entrou em colapso. No plano nacional, as investiga\u00e7\u00f5es sobre corrup\u00e7\u00e3o, ou opera\u00e7\u00e3o M\u00e3os Limpas, comprometeram fortemente a lideran\u00e7a do Partido Socialista Italiano (PSI) e da DC, baluartes dos governos centristas dos anos precedentes. No plano internacional, a queda do Muro de Berlim, o Tratado de Maastricht e o colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica n\u00e3o apenas afetaram o Partido Comunista Italiano (PCI), como reordenaram a vida pol\u00edtica nacional. Sob a lideran\u00e7a de Gianfranco Fini, o MSI-DN procurou um novo lugar no cen\u00e1rio pol\u00edtico, afastando-se, ao menos verbalmente, de seu passado fascista e procurando apresentar-se como uma for\u00e7a pol\u00edtica democr\u00e1tica, mas de direita, com condi\u00e7\u00f5es de governar<sup>21<\/sup>.<\/p>\n<p>Renomeada Alian\u00e7a Nacional (AN), o partido dirigido por Fini transitou do neofascismo para o p\u00f3s-fascismo, mantendo, entretanto, os aspectos centrais de sua ideologia. Nas \u201cPremissas\u201d \u00e0s teses pol\u00edticas apresentadas no Congresso Nacional do MSI-DN, em 1995, Fini afirmou que, com a cria\u00e7\u00e3o da AN, \u201cdecidimos encerrar uma era da nossa hist\u00f3ria pol\u00edtica. Foi ent\u00e3o que proclamamos solenemente que a AN repudiava todas as formas de ditadura e totalitarismo e acreditava na democracia e na liberdade como valores irreprim\u00edveis\u201d<sup>22<\/sup>. A frase mais discutida naquela tese foi: \u201cO antifascismo foi o momento historicamente essencial para o retorno dos valores democr\u00e1ticos que o fascismo havia pisoteado\u201d<sup>23<\/sup>. Mas, como demonstrou uma pesquisa realizada no congresso missino por Gianfranco Baldini e Rinaldo Vignati, 61,5% dos delegados consideravam que, \u201capesar de algumas decis\u00f5es question\u00e1veis, [o fascismo] foi um bom regime\u201d<sup>24<\/sup>.<\/p>\n<p>A persist\u00eancia de manifesta\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas t\u00edpicas do fascismo no discurso da AN revela os limites do giro pol\u00edtico anunciado por Fini. Not\u00e1vel, por exemplo, era a insist\u00eancia nos mitos de decl\u00ednio e necess\u00e1rio renascimento nacional, que se manifestavam fortemente naquelas teses, as quais anunciavam como miss\u00e3o da AN a promo\u00e7\u00e3o de \u201cuma grande, libert\u00e1ria e pac\u00edfica \u2018revolu\u00e7\u00e3o conservadora\u2019\u201d<sup>25<\/sup>. Depois de expor seu programa, as teses declaravam:<\/p>\n<p>A direita pol\u00edtica e social deve comprometer-se a promover a realiza\u00e7\u00e3o de todos estes objetivos ambiciosos e emocionantes como uma nova for\u00e7a governativa saud\u00e1vel, que quer demonstrar a essencialidade da \u201cprimazia da pol\u00edtica\u201d, n\u00e3o para gerir um poder, como um fim em si mesmo, mas para concretizar <em>as verdadeiras aspira\u00e7\u00f5es<\/em> de renascimento da It\u00e1lia<em>.<\/em><sup>26<\/sup><\/p>\n<p>N\u00e3o era apenas essa ideologia palingen\u00e9tica que conectava a AN \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o fascista. Nas teses, afirmava-se o pertencimento a uma cultura pol\u00edtica da qual tamb\u00e9m fariam parte os fascistas Vilfredo Pareto, Giovanni Gentile, Ugo Spirito, Filippo Tommaso Marinetti, Ardengo Soffici e at\u00e9 mesmo Julius Evola, inspirador de tantos grupos terroristas de extrema direita<sup>27<\/sup>. O fundamento dessa cultura pol\u00edtica seria uma \u201cconjuga\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio da liberdade com o da autoridade. Um sem o outro n\u00e3o pode existir, e vice-versa\u201d, uma f\u00f3rmula que, como visto, pode ser encontrada nos escritos de Giovanni Gentile<sup>28<\/sup>. O resultado da acomoda\u00e7\u00e3o de uma nova profiss\u00e3o de f\u00e9 democr\u00e1tica e liberal com a tradi\u00e7\u00e3o fascista foi o que Griffin denominou de um \u201cfascismo reformista ou democr\u00e1tico\u201d<sup>29<\/sup>.<\/p>\n<p>Os efeitos eleitorais apareceram rapidamente, e o partido liderado por Fini obteve mais de 14% dos votos no pleito de mar\u00e7o de 1994. As cadeiras conquistadas garantiram-lhe um lugar na coaliz\u00e3o governamental liderada pela For\u00e7a It\u00e1lia, de Silvio Berlusconi<sup>30<\/sup>, mas, ao contr\u00e1rio do esperado pelas lideran\u00e7as da AN, o partido n\u00e3o apenas cessou de crescer, como perdeu algumas posi\u00e7\u00f5es nas elei\u00e7\u00f5es subsequentes, deixando cada vez mais distante o sonho de tornar-se a for\u00e7a hegem\u00f4nica de uma coaliz\u00e3o das direitas. Ainda sob a lideran\u00e7a de Fini, a AN terminou por integrar, juntamente com For\u00e7a It\u00e1lia, um novo partido, chamado Povo da Liberdade, uma frente de conservadores, neoliberais e p\u00f3s-fascistas hegemonizada pelo berlusconismo.<\/p>\n<p>Giorgia Meloni, que desde 1992 fazia parte do movimento, acompanhou Fini nesse caminho, elegendo-se deputada pela primeira vez em 2006, ainda pela AN, e assumindo, em 2008, o Minist\u00e9rio da Juventude do governo Berlusconi. Rompeu com o Povo da Liberdade em 2012 e fundou um novo partido, Irm\u00e3os da It\u00e1lia, o qual pretendia recuperar a tradi\u00e7\u00e3o do MSI e dos primeiros anos da AN<sup>31<\/sup>. A tese program\u00e1tica, aprovada em 2017 no Congresso de Trieste, reverberava uma vis\u00e3o de mundo ultranacionalista, na qual a miss\u00e3o primeira era \u201credescobrir o valor da \u2018P\u00e1tria\u2019 na pol\u00edtica contempor\u00e2nea\u201d e, desse modo, \u201creconstruir a It\u00e1lia \u2013 e, atrav\u00e9s dela, a Europa\u201d<sup>32<\/sup>. N\u00e3o faltava sequer a men\u00e7\u00e3o a Giovanni Gentile, \u201cfil\u00f3sofo do fascismo\u201d e refer\u00eancia intelectual dos antigos missinianos<sup>33<\/sup>.<\/p>\n<p>O ultranacionalismo que exalava da Tese de Trieste se apresentava de modo ainda mais radical que o da antecessora AN. O discurso contra os imigrantes era mais agressivo e propunha at\u00e9 mesmo um \u201cbloqueio naval\u201d no Mediterr\u00e2neo para impedir a \u201cimigra\u00e7\u00e3o ilegal\u201d. Essa radicaliza\u00e7\u00e3o era acompanhada por vivas colora\u00e7\u00f5es palingen\u00e9ticas, as quais se expressavam no uso dos verbos \u201creconstruir\u201d, \u201credescobrir\u201d e \u201cregenerar\u201d. Em s\u00edntese, Irm\u00e3os da It\u00e1lia afirmava: \u201cAtrav\u00e9s da redescoberta da identidade, da recupera\u00e7\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o, do renovado sentido de pertencimento \u00e0 comunidade nacional, trata-se, mais que de regressar \u00e0 origem, de proceder a uma verdadeira regenera\u00e7\u00e3o do valor da p\u00e1tria\u201d<sup>34<\/sup>.<\/p>\n<p>O partido permaneceu como uma for\u00e7a pol\u00edtica menor no espectro da direita radical, at\u00e9 que nas elei\u00e7\u00f5es de 2022 obteve 26% dos votos, passando de 32 deputados a 119 e tornando-se a maioria de um novo governo de extrema direita. Durante a campanha, adotou um discurso identit\u00e1rio e nacionalista. Ao mesmo tempo, seguiu uma pol\u00edtica externa alinhada \u00e0 Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte (Otan) na guerra da Ucr\u00e2nia. Sua postura fortemente antirrussa surpreendeu muitos apoiadores, acostumados com seu euroceticismo dos anos anteriores<sup>35<\/sup>. O programa divulgado por Irm\u00e3os da It\u00e1lia para essas elei\u00e7\u00f5es retomou o discurso radical contra a \u201cimigra\u00e7\u00e3o ilegal\u201d, apresentando-a como uma amea\u00e7a \u00e0 \u201cseguran\u00e7a e \u00e0 qualidade de vida dos cidad\u00e3os\u201d, e recuperou a proposta de \u201ccontrole de fronteiras e bloqueio para impedir os desembarques\u201d<sup>36<\/sup>. Levou a ideologia a um novo patamar dispondo o documento eleitoral como um \u201cprograma para reerguer a It\u00e1lia\u201d. N\u00e3o faltava sequer a ideia de criar \u201cuma nova imagina\u00e7\u00e3o italiana que tamb\u00e9m promova, em especial nas escolas, a hist\u00f3ria dos grandes nomes da It\u00e1lia e as reconstitui\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas\u201d e de \u201cprojetar no futuro o novo Renascimento italiano\u201d<sup>37<\/sup>. O partido de Meloni oscilava, assim, entre o radicalismo e a normaliza\u00e7\u00e3o<sup>38<\/sup>.<\/p>\n<p>Os la\u00e7os com o passado neofascista n\u00e3o foram rompidos com a chegada de Irm\u00e3os da It\u00e1lia ao governo. Embora se apresente como express\u00e3o de uma for\u00e7a pol\u00edtica democr\u00e1tica, as rela\u00e7\u00f5es de Meloni com a hist\u00f3ria do neofascismo italiano e com sua ideologia s\u00e3o muito fortes. Dois meses depois de assumir a chefia do governo, declarou na confer\u00eancia de imprensa de encerramento do ano de 2022 que \u201co Movimento Social Italiano \u00e9 um partido que desempenhou um papel muito importante na hist\u00f3ria republicana de transportar milh\u00f5es de italianos que sa\u00edram derrotados da guerra para a democracia\u201d<sup>39<\/sup>.<\/p>\n<p><strong>Da Frente Nacional ao Reagrupamento Nacional<\/strong><\/p>\n<p>Na Fran\u00e7a, Marine Le Pen disputou o segundo turno das elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2022 pelo Reagrupamento Nacional, partido que sucedeu a Frente Nacional (FN). Na origem da FN est\u00e1 o grupo neofascista Ordem Nova (ON), fortemente inspirado e apoiado pelo MSI de Giorgio Almirante. No fim dos anos 1960, a ON reuniu militantes de diversas correntes da extrema direita, dentre as quais se destacava o coletivo neofascista Ocidente, de onde vieram Fran\u00e7ois Duprat, Alain Robert e Alain Renault<sup>40<\/sup>. Desses agrupamentos, a ON herdou a ideologia nacionalista-revolucion\u00e1ria e a pr\u00e1tica de ataques violentos a militantes de esquerda<sup>41<\/sup>. Combinou, entretanto, sua ideologia e o ativismo radical com uma pol\u00edtica eleitoral que obteve resultados modestos nas elei\u00e7\u00f5es de 1970: 2,6% em Paris; 2,8% em Lille; 7,8% em Amiens; e 22% em Calais, em uma coaliz\u00e3o de direitas<sup>42<\/sup>.<\/p>\n<p>O projeto de reuni\u00e3o do arquip\u00e9lago da extrema direita em uma \u00fanica organiza\u00e7\u00e3o levou a ON a propor a cria\u00e7\u00e3o de uma Frente Nacional, j\u00e1 em 1971. Em dezembro desse ano, a dire\u00e7\u00e3o da ON promoveu uma reuni\u00e3o com o conhecido militante nacionalista Jean-Marie Le Pen para discutir a frente. Distante do ativismo juvenil dos neofascistas, Le Pen havia sido pr\u00f3ximo da A\u00e7\u00e3o Francesa durante seus anos como universit\u00e1rio e colaborou com a Organiza\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito Secreto, o grupo terrorista contr\u00e1rio \u00e0 independ\u00eancia da Arg\u00e9lia. Foi eleito deputado em 1956, na lista da Uni\u00e3o de Defesa dos Comerciantes e Artes\u00e3os, liderada por Pierre Poujade, e, depois de perder seu mandato, apoiou o conservador Jean-Louis Tixier-Vignancour nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 1965. Mas os apelos \u00e0 unidade dos nacionalistas lan\u00e7ados pela ON nos primeiros meses de 1972 n\u00e3o atra\u00edram muita gente.<\/p>\n<p>Apesar disso, a proposta da Frente Nacional pela Unidade Francesa foi lan\u00e7ada oficialmente em junho de 1972, em um ato no qual, ao lado da bandeira da Fran\u00e7a, n\u00e3o faltou a cruz celta, s\u00edmbolo dos neofascistas<sup>43<\/sup>. O movimento assumiu o nome de Frente Nacional em 5 de outubro desse ano e Le Pen passou a ocupar um posto de copresidente. Al\u00e9m de reunir os militantes da ON, foram atra\u00eddos para o novo partido um n\u00famero consider\u00e1vel de colaboracionistas do nazismo, como Pierre Bousquet, Roland Gaucher, Fran\u00e7ois Brigneau, Victor Barth\u00e9lemy e L\u00e9on Gaultier, os dois \u00faltimos muito pr\u00f3ximos do ex-deputado<sup>44<\/sup>.<\/p>\n<p>A Declara\u00e7\u00e3o de Inten\u00e7\u00e3o da Frente Nacional, divulgada em 1972, anunciava a exist\u00eancia de uma crise \u201cmoral e pol\u00edtica\u201d e uma \u201cdecad\u00eancia intelectual, moral e f\u00edsica\u201d que oprimia a Fran\u00e7a<sup>45<\/sup>. Dentre as causas dessa crise estava a imigra\u00e7\u00e3o, que amea\u00e7ava a identidade nacional: \u201cNada resultar\u00e1 de proteger as fronteiras, se uma invas\u00e3o pac\u00edfica e legal mudar a natureza e a particularidade da popula\u00e7\u00e3o francesa\u201d<sup>46<\/sup>. A declara\u00e7\u00e3o, vazada em tons ultranacionalistas e autorit\u00e1rios, tamb\u00e9m transpirava uma \u201cprofunda hostilidade contra a subvers\u00e3o comunista e seu desvio esquerdista\u201d, bem como a \u201coposi\u00e7\u00e3o ao regime atual\u201d<sup>47<\/sup>. A ideia de uma crise moral e pol\u00edtica foi constitutiva do discurso eleitoral de Jean-Marie Le Pen nas elei\u00e7\u00f5es legislativas de 1973. Seu programa, intitulado <em>D\u00e9fendre les Fran\u00e7ais <\/em>[Defender os franceses], protestava contra \u201ca injusti\u00e7a administrativa e a opress\u00e3o fiscal\u201d, \u201ca tirania dos tecnocratas e da m\u00e1 gest\u00e3o\u201d, \u201co poder total do dinheiro\u201d, \u201ca pornografia, as drogas e a criminalidade\u201d. Tamb\u00e9m radicalizava o discurso xen\u00f3fobo exigindo a \u201cexpuls\u00e3o imediata dos imigrantes condenados por delitos comuns, dos \u2018desempregados permanentes\u2019 e estrangeiros envolvidos na agita\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d<sup>48<\/sup>. Os resultados eleitorais de mar\u00e7o foram decepcionantes (apenas 1,3%), apesar do apoio econ\u00f4mico dos neofascistas ita-lianos<sup>49<\/sup>. Enquanto os militantes da ON reagiram propondo uma intensifica\u00e7\u00e3o do ativismo e terminaram por retirar-se da FN, Le Pen e seus partid\u00e1rios apostaram no fortalecimento do partido e na via eleitoral.<\/p>\n<p>O programa eleitoral de 1974 consolidou esse novo perfil. Le Pen se apresentou como \u201ccandidato da direita social, popular e nacional\u201d, fortemente anti-comunista e antigaullista. A crise \u201cmoral e c\u00edvica\u201d mencionada na elei\u00e7\u00e3o anterior era mais uma vez denunciada. Le Pen afirmava ser uma for\u00e7a pol\u00edtica capaz de enfrentar \u201cesta decad\u00eancia da qual a opini\u00e3o p\u00fablica, h\u00e1 muito anestesiada, come\u00e7a a tomar consci\u00eancia\u201d e contra a qual s\u00f3 haveria \u201cum recurso: a cria\u00e7\u00e3o de um misticismo de salva\u00e7\u00e3o p\u00fablica, com novos homens e novos m\u00e9todos\u201d<sup>50<\/sup>. Sem a presen\u00e7a da ON na campanha, alguns pendores liberais apareceram no programa, o qual propunha uma redu\u00e7\u00e3o do lugar do Estado na economia, \u201cdesnacionalizar o que pode ser desnacionalizado, reduzir a for\u00e7a de trabalho inchada no setor p\u00fablico e semip\u00fablico\u201d<sup>51<\/sup>. No entanto, Le Pen obteve apenas 0,7% dos votos.<\/p>\n<p>Foi Fran\u00e7ois Duprat, um escritor com fortes simpatias pelo nazismo e auto-denominado nacionalista-revolucion\u00e1rio, o respons\u00e1vel pelo realinhamento pol\u00edtico da FN, combinando um discurso fortemente antidemocr\u00e1tico com uma t\u00e1tica de colabora\u00e7\u00e3o eleitoral com os partidos da direita tradicional. Os resultados eleitorais, entretanto, continuaram p\u00edfios. Com a morte de Duprat, v\u00edtima de um atentado que explodiu seu carro, em 1978, a FN passou a assumir cada vez mais um perfil nacionalista reacion\u00e1rio, enfatizando o anticomunismo, o antiestatismo, a defesa da pena de morte e a oposi\u00e7\u00e3o ao aborto na Fran\u00e7a. Rapidamente as alas mais ativistas e militantes do neofascismo e do neonazismo come\u00e7aram a ser exclu\u00eddas do partido ou se afastaram dele<sup>52<\/sup>. Essa mudan\u00e7a de perfil coincidiu, tamb\u00e9m, com o ingresso de Jean-Pierre Stirbois e sua corrente \u201csolidarista\u201d em 1977<sup>53<\/sup>.<\/p>\n<p>Esses foram anos de marginalidade pol\u00edtica para a FN. Foi nesse momento que o partido aprofundou sua ideologia anti-imigrantes, a qual passou a ocupar um lugar cada vez mais importante em seu programa. Ap\u00f3s a \u201ctravessia do deserto\u201d, como Le Pen chamou aqueles anos, o programa pol\u00edtico come\u00e7ou a dar seus frutos, em um contexto marcado pela crise econ\u00f4mica e pela pol\u00edtica migrat\u00f3ria do socialista Fran\u00e7ois Mitterrand<sup>54<\/sup>. Nas elei\u00e7\u00f5es municipais de 1983, Le Pen obteve 11,3% dos votos no XX <em>arrondissement<\/em> de Paris e Jean-Pierre Stirbois, com 16,7% dos votos, foi eleito vereador na comuna de Dreux. No ano seguinte, a FN conquistou 11,2% nas elei\u00e7\u00f5es europeias; em 1986, 9,7% nas legislativas; nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 1988, 14,4% dos votos; e nas legislativas do mesmo ano, 9,7%<sup>55<\/sup>. Na d\u00e9cada de 1990, o partido cresceu de modo lento, mas consistente, chegando a 15,2% nas elei\u00e7\u00f5es legislativas de 1997.<\/p>\n<p>Os anos seguintes seriam de crises e conflitos internos, os quais culminaram com a expuls\u00e3o de Bruno M\u00e9gret, o estrategista do partido e l\u00edder da ala moderada, no fim de 1998. A divis\u00e3o contribuiu para o fraco desempenho eleitoral em 1999, mas, nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2002, Le Pen conquistou 16,2% dos sufr\u00e1gios e disputou o segundo turno. Foi nesse contexto que sua filha, Marine Le Pen, come\u00e7ou a ganhar proje\u00e7\u00e3o no partido e a defender uma estrat\u00e9gia de <em>d\u00e9diabolization<\/em> da FN, o que permitiu uma moderniza\u00e7\u00e3o de seu discurso pol\u00edtico. Gradativamente o programa do partido passou a combinar antigas reivindica\u00e7\u00f5es contra os imigrantes e a inseguran\u00e7a p\u00fablica com um programa mais popular de combate ao desemprego e aumento dos sal\u00e1rios.<\/p>\n<p>Em 2011, Marine Le Pen foi eleita presidente da FN, sucedendo seu pai. Para chegar a essa posi\u00e7\u00e3o precisou confrontar o poderoso Bruno Gollnisch, que se apresentava como defensor das tradi\u00e7\u00f5es da FN e era apoiado por militantes da Obra Francesa, a organiza\u00e7\u00e3o neofascista e antissemita liderada por Pierre Sidos, a qual desde 2007 encontrava-se aninhada na FN<sup>56<\/sup>. Estabelecida no comando do partido, Marine Le Pen procurou aprofundar as mudan\u00e7as na agremia\u00e7\u00e3o e colheu rapidamente os resultados.<\/p>\n<p>Nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2012 a FN obteve 18% dos votos e nas legislativas do mesmo ano, 13,8%. Esses foram os primeiros pleitos nos quais a FN conseguiu avan\u00e7ar sobre o eleitorado feminino, os votantes das regi\u00f5es rurais e dos sub\u00farbios das grandes cidades, grupos tradicionalmente refrat\u00e1rios ao partido<sup>57<\/sup>. Essa trajet\u00f3ria ganhou ainda mais for\u00e7a em 2014, nas elei\u00e7\u00f5es europeias, quando a FN obteve 25% dos votos, conquistando a primeira coloca\u00e7\u00e3o entre os parti-dos franceses e tornando-se a maior agremia\u00e7\u00e3o europeia da extrema direita<sup>58<\/sup>.<\/p>\n<p>Os ganhos eleitorais expressavam a mudan\u00e7a do discurso pol\u00edtico, com tons mais personalistas, destacando a figura de Marine Le Pen, em vez do partido, ao mesmo tempo que adotava um perfil antielitista e antimundialista. No livro que lan\u00e7ou naquele ano para divulgar sua candidatura, Marine Le Pen denunciava \u201cuma minoria cada vez menor e cada vez mais rica\u201d que tinha \u201csal\u00e1rios extraordin\u00e1rios, b\u00f4nus escandalosos, ganhos de capital isentos de impostos\u201d e \u201ccada vez mais poder e riqueza\u201d<sup>59<\/sup>. E dizia que os \u201cesquecidos por quem luto s\u00e3o os pequenos assalariados, os empregados, os funcion\u00e1rios p\u00fablicos, os oper\u00e1rios, as classes m\u00e9dias, os aposentados, os jovens e os idosos desempregados\u201d<sup>60<\/sup>. Ao mesmo tempo, a FN procurava conciliar essas mudan\u00e7as com o nacionalismo, a xenofobia, o autoritarismo e o perfil de partido \u201cantissistema\u201d que caracterizaram sua trajet\u00f3ria. N\u00e3o faltavam sequer as teorias conspirat\u00f3rias, que viam a imigra\u00e7\u00e3o como \u201cuma arma econ\u00f4mica a servi\u00e7o do grande patronato\u201d<sup>61<\/sup>. O programa de 2012 tamb\u00e9m recorria aos mitos de renascimento nacional. De acordo com Le Pen: \u201cConduzir o povo franc\u00eas no caminho do renascimento \u00e9 a raz\u00e3o da minha candidatura \u00e0s elei\u00e7\u00f5es presidenciais e de toda a minha luta pol\u00edtica\u201d<sup>62<\/sup>.<\/p>\n<p>O custo da mudan\u00e7a, entretanto, foi elevado. Em 2015, o bir\u00f4 pol\u00edtico da FN expulsou Jean-Marie Le Pen do partido, alegando as reiteradas declara\u00e7\u00f5es antissemitas do fundador da FN. As disputas internas n\u00e3o impediram que a FN continuasse a crescer eleitoralmente. Nos anos seguintes, Marine Le Pen disputou duas vezes seguidas o segundo turno das elei\u00e7\u00f5es presidenciais: a primeira vez em 2017, depois de obter 21,3% no primeiro turno; a segunda em 2022, com a legenda agora rebatizada de Reagrupamento Nacional, quando conquistou 23,2 % do eleitorado no primeiro escrut\u00ednio.<\/p>\n<p>O programa de 2022 tentava apresentar \u201cum caminho razo\u00e1vel para garantir aos franceses a prote\u00e7\u00e3o leg\u00edtima da Na\u00e7\u00e3o\u201d<sup>63<\/sup>. Tratava-se de uma via que implicaria a pr\u00f3pria refunda\u00e7\u00e3o do Estado: \u201cNosso pa\u00eds \u00e9 \u00fanico porque foi o Estado que fez a Na\u00e7\u00e3o. \u00c9, portanto, atrav\u00e9s da refunda\u00e7\u00e3o do Estado, nas suas miss\u00f5es e no seu exerc\u00edcio, que est\u00e1 o caminho para a renova\u00e7\u00e3o\u201d, afirmava a candidata<sup>64<\/sup>. Segundo o programa, eram as pr\u00f3prias ra\u00edzes da civiliza\u00e7\u00e3o \u00e0 qual a Fran\u00e7a pertencia que se encontrariam amea\u00e7adas: \u201cO que est\u00e1 em jogo hoje, no estado em que o nosso pa\u00eds se encontra, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 uma escolha social, mas sim uma quest\u00e3o civilizacional\u201d<sup>65<\/sup>. Da\u00ed a import\u00e2ncia de uma \u201crefunda\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para reconectar-se com a voca\u00e7\u00e3o da Fran\u00e7a, exemplo para o resto do mundo e p\u00e1tria de um povo que mais uma vez se tornou dono de seu destino\u201d<sup>66<\/sup>.<\/p>\n<p>As propostas contra os imigrantes parecem ter assumido contornos ainda mais extremos, com a defesa de uma reforma constitucional e um <em>referendum <\/em>para impedir \u201cqualquer forma pol\u00edtica populacional que vise alterar a identidade da Fran\u00e7a\u201d e permitir \u201ca expuls\u00e3o de estrangeiros delinquentes ou criminosos, bem como a interdi\u00e7\u00e3o judicial do territ\u00f3rio franc\u00eas\u201d<sup>67<\/sup>. Em particular tornou-se forte a islamofobia, tema ausente no programa de 2012. Em 2022, propunha a ado\u00e7\u00e3o de uma legisla\u00e7\u00e3o exclusiva para as \u201cideologias isl\u00e2micas, que constituem a verdadeira amea\u00e7a totalit\u00e1ria dos tempos modernos\u201d<sup>68<\/sup>. E definia como objetivo \u201cerradicar o islamismo\u201d<sup>69<\/sup>.<\/p>\n<p><strong>Rupturas e continuidades<\/strong><\/p>\n<p>Piero Ignazi e Colette Ysmal argumentaram que o MSI e a FN representavam dois tipos de partidos de extrema direita diferentes e que apenas o primeiro poderia ser definido como neofascista<sup>70<\/sup>. As raz\u00f5es para tal eram as diferentes hist\u00f3rias dos partidos, a rela\u00e7\u00e3o desses com os sistemas pol\u00edticos nacionais e as diferentes ideologias e v\u00ednculos com refer\u00eancias culturais. A hist\u00f3ria desses partidos e de seus herdeiros, Irm\u00e3os da It\u00e1lia e Reagrupamento Nacional, permite identificar seus v\u00ednculos com organiza\u00e7\u00f5es fascistas e neofascistas precedentes e a exist\u00eancia de uma ideologia comum.<\/p>\n<p>A exposi\u00e7\u00e3o dessas trajet\u00f3rias hist\u00f3ricas e a pesquisa documental que sustentaram o argumento at\u00e9 aqui permitem inferir que ambas as organiza\u00e7\u00f5es partilham uma identidade ideol\u00f3gica comum, definida como p\u00f3s-fascista. Em particular os documentos program\u00e1ticos desses partidos expressam uma ideologia ultranacionalista e xen\u00f3foba, na qual os mitos de crise e decad\u00eancia, reconstru\u00e7\u00e3o e renascimento civilizacional ocupam um lugar de destaque. As formas de concre\u00e7\u00e3o nacional dessa ideologia s\u00e3o diferentes. As causas da crise, os inimigos anunciados e as refer\u00eancias hist\u00f3ricas que informam o tipo de renascimento nacional desejado s\u00e3o distintas em ambos os pa\u00edses. E permanece uma tens\u00e3o entre o discurso ultranacionalista e a refer\u00eancia \u00e0 Europa como unidade cultural. Ainda assim, manifesta-se uma forte analogia entre as formas de compreender os problemas nacionais e de ver o mundo.<\/p>\n<p>Intencionalmente n\u00e3o explorei as conex\u00f5es pol\u00edticas e org\u00e2nicas entre o MSI e a FN, primeiro, e Irm\u00e3os da It\u00e1lia e Reagrupamento Nacional, agora. Os nexos entre os movimentos neofascistas italiano e franc\u00eas, bem como a circula\u00e7\u00e3o de ideias, militantes e recursos entre esses pa\u00edses foram estudados por Andrea Mammone, que argumentou de modo convincente a respeito da exist\u00eancia de um \u201cneofascismo transnacional\u201d. Optou-se, aqui, por outra via de investiga\u00e7\u00e3o. Em vez de estudar os fluxos que aproximariam um movimento de outro, eles foram analisados como dois casos de uma mesma manifesta\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Esses dois casos permitiram, por sua vez, testar a capacidade heur\u00edstica dos conceitos de neofascismo e p\u00f3s-fascismo aqui apresentados. Compreendidos como manifesta\u00e7\u00f5es particulares no interior de uma \u201cfam\u00edlia\u201d pol\u00edtico-<\/p>\n<p>-ideol\u00f3gica de extrema direita, esses conceitos permitiram destacar aquilo que pode distinguir Irm\u00e3os da It\u00e1lia e Reagrupamento Nacional de outras manifesta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e, ao mesmo tempo, evidenciar o n\u00facleo ideol\u00f3gico comum dessas organiza\u00e7\u00f5es. Partindo de posi\u00e7\u00f5es neofascistas, nas quais as pr\u00f3prias institui\u00e7\u00f5es da democracia liberal eram questionadas e a a\u00e7\u00e3o redentora da viol\u00eancia n\u00e3o era exclu\u00edda, os partidos que antecederam essas agremia\u00e7\u00f5es \u2013 MSI-DN e FN \u2013 transitaram em dire\u00e7\u00e3o a uma ideologia p\u00f3s-fascista. As mudan\u00e7as de nome que essas organiza\u00e7\u00f5es promoveram marca um novo momento no qual o ultranacionalismo, o autoritarismo, o anticomunismo e os mitos de decl\u00ednio e renascimento foram conciliados de modo contradit\u00f3rio com os princ\u00edpios da soberania popular, da regra da maioria, da altern\u00e2ncia dos partidos e da separa\u00e7\u00e3o dos poderes. Mas o recrudescimento da xenofobia e do discurso contra os imigrantes por parte desses partidos de extrema direita mostra os limites dessa concilia\u00e7\u00e3o e a persist\u00eancia de valores que conspiram contra a pr\u00f3pria ideia de democracia.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise das trajet\u00f3rias do MSI e da FN, bem como de seus sucessores, Irm\u00e3os da It\u00e1lia e Reagrupamento Nacional, revela a complexidade das transforma\u00e7\u00f5es da extrema direita europeia nas \u00faltimas d\u00e9cadas. A transi\u00e7\u00e3o do neofascismo para o p\u00f3s-fascismo n\u00e3o significou a ruptura com os valores fundamentais dessas tradi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, mas sim a adapta\u00e7\u00e3o de seu discurso e estrat\u00e9gias \u00e0s condi\u00e7\u00f5es impostas pela democracia liberal. A persist\u00eancia de um n\u00facleo ideol\u00f3gico ultranacionalista, xen\u00f3fobo e autorit\u00e1rio, combinado com uma ret\u00f3rica de crise e renascimento, indica que essas for\u00e7as pol\u00edticas continuam a representar um desafio \u00e0s institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas. Se, por um lado, elas procuram legitimar-se dentro do jogo democr\u00e1tico, por outro, sua pr\u00f3pria identidade ideol\u00f3gica carrega contradi\u00e7\u00f5es que questionam os fundamentos do pluralismo e da conviv\u00eancia democr\u00e1tica. Assim, mais do que casos isolados, Irm\u00e3os da It\u00e1lia e Reagrupamento Nacional devem ser compreendidos como express\u00f5es contempor\u00e2neas de uma tradi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de extrema direita que, longe de desaparecer, encontra novas formas de se renovar e influenciar o debate p\u00fablico.<\/p>\n<hr>\n<ol>\n<li>Ver, por exemplo, Sarah Harrison e Michael Bruter, <em>Mapping Extreme Right Ideology: An Empirical Geography of the European Extreme Right<\/em> (Nova York, Palgrave Macmillan, 2011).<\/li>\n<li>Ver, por exemplo, Manuela Caiani e Ond\u0159ej C\u00edsa\u0159, <em>Radical Right: Movement Parties in Europe<\/em> (Abingdon\/Nova York, Oxon\/Routledge, 2019).<\/li>\n<li>Ver, por exemplo, Cas Mudde, <em>Populist Radical Right Parties in Europe<\/em> (Cambridge, Cambridge University Press, 2007).<\/li>\n<li>Norberto Bobbio, <em>Direita e esquerda: raz\u00f5es e significados de uma distin\u00e7\u00e3o pol\u00edtica<\/em> (trad. Marco Aur\u00e9lio Nogueira, S\u00e3o Paulo, Editora Unesp, 1995), p. 95.<\/li>\n<li>Cas Mudde, <em>The Ideology of the Extreme Right<\/em> (Manchester, Manchester University Press, 2002), p. 11.<\/li>\n<li>Piero Ignazi, <em>Extreme Right Parties in Western Europe<\/em> (Oxford\/Nova York, Oxford University Press, 2003), p. 31.<\/li>\n<li>Ver <em>ibidem<\/em>, p. 63.<\/li>\n<li>Para os casos europeus do entreguerras, ver o levantamento de Stanley G. Payne, <em>A History of Fascism, 1914-1945<\/em> (Londres, Routledge\/University of Wisconsin Press, 1996). Discuti os fascismos no Sul global em Alvaro Bianchi e Demian Melo, \u201cFascisms: a View from the South\u201d, em Rosana Pinheiro-Machado e Tatiana Vargas-Maia (orgs.), <em>The Rise of the Radical Right in the Global South<\/em> (Nova York, Routledge, 2023), p. 15-35.<\/li>\n<li>Ver, a respeito, Nigel Copsey, \u201cNeo-Fascism: A Footnote to the Fascist Epoch?\u201d, em Constantin Iordachi e Aristotle Kallis (orgs.), <em>Beyond the Fascist Century: Essays in Honour of Roger Grin<\/em> (Cham, Springer International, 2020), p. 101-21.<\/li>\n<li>Ver Marco Cuzzi, <em>L\u2019internazionale delle camicie nere: i CAUR, Comitati d\u2019azione per l\u2019universalit\u00e0 di Roma, 1933-1939<\/em> (Mil\u00e3o, Mursia, 2005).<\/li>\n<li>Sobre a na\u00e7\u00e3o como uma \u201ccomunidade imaginada\u201d ver Benedict Anderson, <em>Imagined Communities: Reflections on the Origin and Spread of Nationalism<\/em> (Londres, Verso, 2016) [ed. bras.: <em>Comunidades imaginadas<\/em>, trad. Denise Bottmann, S\u00e3o Paulo, Companhia das Letras, 2008].<\/li>\n<li>Nigel Copsey, \u201cNeo-Fascism\u201d, cit., p. 108.<\/li>\n<li>Ver o recente estudo de Clara E. Mattei, <em>A ordem do capital: como economistas inventaram a austeridade e abriram caminho para o fascismo<\/em> (trad. Heci Regina Candiani, S\u00e3o Paulo, Boitempo, 2023).<\/li>\n<li>A RSI recuperou o programa do fascismo antes de 1922, com algumas colora\u00e7\u00f5es anticapitalistas ou socializantes, ao mesmo tempo que incorporou forte antissemitismo. Ver Mimmo Franzinelli, <em>Storia della Repubblica sociale italiana, 1943-1945<\/em> (Bari, Laterza, 2020).<\/li>\n<li>Sobre a hist\u00f3ria do MSI, ver Davide Conti, <em>L\u2019anima nera della Repubblica: storia del MSI<\/em> (Roma, Laterza, 2013); Gregorio Sorgon\u00e0, <em>La scoperta della destra: il Movimento Sociale Italiano e gli Stati Uniti<\/em> (Roma, Viella, 2019); Piero Ignazi, <em>Il polo escluso: la fiamma che non si spegne: da Almirante a Meloni<\/em> (3. ed., Bolonha, Il Mulino, 2023).<\/li>\n<li>O partido adquiriu o novo nome depois de uma fus\u00e3o com o Partido Democr\u00e1tico Italiano de Unidade Mon\u00e1rquica.<\/li>\n<li>Piero Ignazi, \u201cFrom Neo-Fascists to Post-Fascists? The Transformation of the MSI into the AN\u201d, <em>West European Politics<\/em>, v. 19, n. 4, 1996, p. 697.<\/li>\n<li>Sobre o terrorismo neofascista no p\u00f3s-guerra, ver Jeffrey M. Bale, <em>The Darkest Sides of Politics: Postwar Fascism, Covert Operations, and Terrorism<\/em> (Abingdon\/Nova York, Routledge, 2018), cap. 4-7.<\/li>\n<li>Ver Piero Ignazi, <em>Il polo escluso<\/em>, cit., p. 167 e seg.<\/li>\n<li>Sobre o papel de Rauti nos atentados de 1969, ver Davide Conti, <em>L\u2019anima nera della Repubblica<\/em>, cit., p. 85 e seg.<\/li>\n<li>Sobre a transforma\u00e7\u00e3o do MSI-DN em Alian\u00e7a Nacional ver Piero Ignazi, <em>Extreme Right Parties in Western Europe<\/em>, cit., p. 44-5; Davide Conti, <em>L\u2019anima nera della Repubblica<\/em>, cit., cap. 5.3.<\/li>\n<li>MSI-DN, <em>Pensiamo l\u2019Italia, il domani c\u2019\u00e8 gi\u00e0: valori, idee e progetti per l\u2019Alleanza Nazionale<\/em> ([S. l.], Alleanza Nazionale, 1995), p. 4.<\/li>\n<li>Idem.<\/li>\n<li>Piero Ignazi, \u201cFrom Neo-Fascists to Post-Fascists?\u201d, cit., p. 705 e 711.<\/li>\n<li>MSI-DN, <em>Pensiamo l\u2019Italia, il domani c\u2019\u00e8 gi\u00e0<\/em>, cit., p. 10.<\/li>\n<li><em>Ibidem<\/em>, p. 46. Grifos do autor.<\/li>\n<li><em>Ibidem<\/em>, p. 9.<\/li>\n<li><em>Ibidem<\/em>, cap. 2-3.<\/li>\n<li>Roger Griffin, \u201cThe \u2018Post-Fascism\u2019 of the Alleanza Nazionale: A Case Study in Ideological Morphology\u201d, <em>Journal of Political Ideologies<\/em>, v. 1, n. 2, 1996, p. 142.<\/li>\n<li>Essa foi a primeira vez que os herdeiros do fascismo italiano entraram em um governo nacional.<\/li>\n<li>Entre 2014 e 2017 o pr\u00f3prio logotipo de Irm\u00e3os da It\u00e1lia trazia inscritos os nomes da AN com seu s\u00edmbolo, a chama tricolor, e do MSI. Ainda hoje a chama \u00e9 parte da identidade visual do partido.<\/li>\n<li>Fratelli d\u2019Italia, \u201cLe tesi di Trieste per il movimento dei patrioti\u201d, <em>Giorgia Meloni<\/em> (blog), 3 jan. 2018. Dispon\u00edvel on-line.<\/li>\n<li>Ver os coment\u00e1rios \u00e0 Tese de Leonardo Puleo e Gianluca Piccolino, \u201cBack to the Post-Fascist Past or Landing in the Populist Radical Right? The Brothers of Italy Between Continuity and Change\u201d, <em>South European Society and Politics<\/em>, v. 27, n. 3, 2022, p. 359-83.<\/li>\n<li>Fratelli d\u2019Italia, \u201cLe tesi di Trieste per il movimento dei patrioti\u201d, cit.<\/li>\n<li>Ver Piero Ignazi, <em>Il polo escluso<\/em>, cit., p. 445.<\/li>\n<li>Fratelli d\u2019Italia. <em>Il programma per risollevare l\u2019Italia<\/em> ([S. l.: s. n.], 2022), p. 31-2.<\/li>\n<li><em>Ibidem<\/em>, p. 22.<\/li>\n<li>Ver Leonardo Puleo e Gianluca Piccolino, \u201cBack to the Post-Fascist Past or Landing in the Populist Radical Right? The Brothers of Italy Between Continuity and Change\u201d, cit.<\/li>\n<li>Giorgia Meloni, \u201cConferenza stampa di fine anno del Presidente Meloni\u201d, <em>Presidenza del Consiglio dei Ministri<\/em>, 29 dez. 2022. Dispon\u00edvel on-line.<\/li>\n<li>Sobre Ordem Nova e Frente Nacional, ver Nicolas Lebourg, Jonathan Preda e Joseph Beauregard, <em>Aux racines du FN: L\u2019histoire du mouvement Ordre nouveau<\/em> (Paris, Fondation Jean Jaur\u00e8s, 2014); sobre a FN e o fascismo, ver Pierre Milza, <em>Fascisme fran\u00e7ais: pass\u00e9 et pr\u00e9sent<\/em> (Paris, Flammarion, 1987), cap. 8.<\/li>\n<li>\u201cEntre 2 de janeiro de 1971 e 12 de maio de 1973, ON esteve implicada em 82 atos de viol\u00eancia p\u00fablica recenseados pelas for\u00e7as de seguran\u00e7a.\u201d Ver Nicolas Lebourg, Jonathan Preda e Joseph Beauregard, <em>Aux racines du FN<\/em>, cit., p. 97.<\/li>\n<li><em>Ibidem<\/em>, p. 56.<\/li>\n<li><em>Ibidem<\/em>, p. 78.<\/li>\n<li>Ver <em>ibidem<\/em>, p. 76; Gr\u00e9goire Kauffmann, \u201cLes origines du Front national\u201d, <em>Pouvoirs<\/em>, v. 157, n. 2, 2016, p. 8, 10, 12.<\/li>\n<li>Ordre Nouveau, <em>D\u00e9claration d\u2019intention du Front National<\/em> ([S. l.: s. n.], 1972), p. 1. Dispon\u00edvel on-line.<\/li>\n<li><em>Ibidem<\/em>, p. 5.<\/li>\n<li><em>Ibidem<\/em>, p. 6.<\/li>\n<li>Jean-Marie Le Pen, <em>\u00c9lections l\u00e9gislatives de 1973, Paris \u2013 75, circonscription n\u00b015: profession de foi de Jean-Marie Le Pen au tour 1<\/em> ([S. l.: s. n.], 1973). Dispon\u00edvel on-line.<\/li>\n<li>De acordo com Kauffman, os cartazes da campanha de Le Pen foram impressos pelo MSI (ver Gr\u00e9goire Kauffmann, <em>Les origines du Front national<\/em>, cit., p. 11).<\/li>\n<li>Jean-Marie Le Pen, <em>\u00c9lection pr\u00e9sidentielle de 1974: profession de foi de Jean-Marie Le Pen au tour 1<\/em> ([S. l.: s. n.], 1974). Dispon\u00edvel on-line.<\/li>\n<li>Idem.<\/li>\n<li>Pierre Milza, <em>Fascisme fran\u00e7ais<\/em>, cit., p. 346.<\/li>\n<li>A partir de 1967 se desenvolveu uma corrente \u201csolidarista\u201d na extrema direita francesa que se opunha tanto ao individualismo liberal como ao coletivismo socialista, e tinha como programa uma \u201cterceira via\u201d oposta ao \u201cmarxismo totalit\u00e1rio\u201d da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e ao \u201ccapitalismo internacional\u201d dos Estados Unidos. Os solidaristas agruparam-se ao longo dos anos 1960 e 1970 em v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es, como o Movimento Jovem Revolu\u00e7\u00e3o, o Movimento Solidarista Franc\u00eas, A\u00e7\u00e3o Popular e Grupos A\u00e7\u00e3o Jovem. Criada em 1975, a Uni\u00e3o Solidarista, dirigida por Stirbois e Michel Collinot, caracterizava-se por um forte antiatlantismo, desconfian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao neoliberalismo, acentuado racismo e a recusa em formar coaliz\u00f5es com outras for\u00e7as da direita. Ver Jean-Yves Camus, \u201cOrigine et formation du Front national (1972-1981)\u201d, em Nonna Mayer e Pascal Perrineau (orgs.), <em>Le Front National \u00e0 d\u00e9couvert<\/em> (Paris, Fondation Nationale des Sciences Politiques, 1996), p. 33-4.<\/li>\n<li>Sobre a \u201ctravers\u00e9e du d\u00e9sert\u201d ver Erwan Lecoeur, <em>Un n\u00e9o-populisme \u00e0 la fran\u00e7aise: trente ans de Front national<\/em> (Paris, La D\u00e9couverte, 2003), p. 29-47.<\/li>\n<li>Daniel Stockemer, <em>The Front National in France: Continuity and Change under Jean-Marie Le Pen and Marine Le Pen<\/em> (Cham, Springer, 2017), p. 16 e seg.<\/li>\n<li>Jean-Yves Camus e Nicolas Lebourg, <em>Far-Right Politics in Europe<\/em> (Cambridge, Harvard University Press, 2017), p. 158-9.<\/li>\n<li>Ver Nonna Mayer, \u201cFrom Jean-Marie to Marine Le Pen: Electoral Change on the Far Right\u201d, <em>Parliamentary Affairs<\/em>, v. 66, n. 1, 2013, p. 160-78; Daniel Stockemer e Mauro Barisione, \u201cThe \u2018New\u2019 Discourse of the Front National under Marine Le Pen: A Slight Change with a Big Impact\u201d, <em>European Journal of Communication<\/em>, v. 32, n. 2, 2017, p. 100-15.<\/li>\n<li>Daniel Stockemer, <em>The Front National in France<\/em>, cit., p. 25.<\/li>\n<li>Marine Le Pen, <em>Pour que vive la France<\/em> (Paris, Grancher, 2012), p. 10.<\/li>\n<li><em>Ibidem<\/em>, p. 18.<\/li>\n<li><em>Ibidem<\/em>, p. 81; ver coment\u00e1rios de Jean-Yves Camus, \u201cLe Front national fran\u00e7ais: entre projet de normalisation d\u00e9mocratique et positionnement anti-syst\u00e8me\u201d, <em>Anuario del Conflicto Social<\/em>, n. 2, 2013, p. 501-8; Gilles Ivaldi e Pascal Delwit, \u201cPermanences et \u00e9volutions de l\u2019id\u00e9ologie frontiste\u201d, em <em>Le Front national: Mutations de l\u2019extr\u00eame droite fran\u00e7aise<\/em> (Bruxelas, Universit\u00e9 de Bruxelles, 2012), p. 95-112.<\/li>\n<li>Marine Le Pen, <em>Pour que vive la France<\/em>, cit., p. 8.<\/li>\n<li>Idem, <em>M la France: mon projet pr\u00e9sidentiel<\/em> ([S. l.: s. n.], 2022), p. 3. Dispon\u00edvel on-line.<\/li>\n<li><em>Ibidem<\/em>, p. 4.<\/li>\n<li><em>Ibidem<\/em>, p. 34.<\/li>\n<li><em>Ibidem<\/em>, p. 31.<\/li>\n<li><em>Ibidem<\/em>, p. 8; ver a proposta de legisla\u00e7\u00e3o em Marine Le Pen, <em>M contr\u00f4ler l\u2019immigration<\/em> ([S. l.: s. n.], 2022), p. 41-4. Dispon\u00edvel on-line.<\/li>\n<li>Marine Le Pen, <em>M la France<\/em>, cit., p. 9.<\/li>\n<li>Idem, <em>M contr\u00f4ler l\u2019immigration<\/em>, cit., p. 18.<\/li>\n<li>Piero Ignazi e Colette Ysmal, \u201cNew and Old Extreme Right Parties\u201d, <em>European Journal of Political Research<\/em>, v. 22, n. 1, 1992, p. 101-21.<\/li>\n<\/ol>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. Se voc\u00ea valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o, seja nosso apoiador e fortale\u00e7a o jornalismo cr\u00edtico: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post Para entender a ultradireita no s\u00e9culo XXI appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/eua-ameacam-brasil-apos-moraes-prender-bolsonaro-lindbergh-reage-e-cita-eduardo\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">EUA amea\u00e7am Brasil ap\u00f3s Moraes prender Bolsonaro; ...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/arminio-fraga-que-na-presidencia-do-bc-de-fernando-henrique-jogou-os-juros-a-45-diz-que-a-economia-do-governo-lula-esta-na-uti\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Arm\u00ednio Fraga, que na presid\u00eancia do BC de Fernand...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/sao-paulo-confirma-18a-morte-em-decorrencia-de-temporais-mg-soma-26-vitimas\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">S\u00e3o Paulo confirma 18\u00aa morte em decorr\u00eancia de tem...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/marcha-global-pelo-clima-reune-70-mil-pessoas-em-belem-e-cobra-justica-climatica-a-resposta-somos-nos\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Marcha Global pelo Clima re\u00fane 70 mil pessoas em B...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que \u00e9 a corrente pol\u00edtica que amea\u00e7a a Am\u00e9rica do Sul. Quais suas rela\u00e7\u00f5es com o fascismo do s\u00e9culo passado. Por que tornou-se anti-Estado e passou a denunciar \u201ccrise moral e pol\u00edtica\u201d. Como passa do discurso liberal ao ataque \u00e0 democracia<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/direita-assanhada\/para-entender-ultradireita-no-seculo-xxi\/\">Para entender a ultradireita no s\u00e9culo XXI<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":93963,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[3024,5511,23100,7052,423,1819,72337,5111,54880,22976],"tags":[],"class_list":["post-93962","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-autoritarismo","category-capa","category-crise-da-democracia","category-direita-assanhada","category-extrema-direita","category-fascismo","category-governos-extremistas","category-neofascismo","category-pos-fascismo","category-ultranacionalismo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/93962","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=93962"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/93962\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/93963"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=93962"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=93962"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=93962"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}