{"id":94244,"date":"2026-07-02T19:00:20","date_gmt":"2026-07-02T22:00:20","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/por-uma-poetica-do-envelhecimento-nas-cidades\/"},"modified":"2026-07-02T19:00:20","modified_gmt":"2026-07-02T22:00:20","slug":"por-uma-poetica-do-envelhecimento-nas-cidades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/por-uma-poetica-do-envelhecimento-nas-cidades\/","title":{"rendered":"Por uma po\u00e9tica do envelhecimento nas cidades"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"1000\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/25-03-26-JHC-Cidade-da-Pessoa-Idosa-Ponta-Grossa-SEMDES-Foto-Itawi-Albuquerque-13-2048x1366.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/25-03-26-JHC-Cidade-da-Pessoa-Idosa-Ponta-Grossa-SEMDES-Foto-Itawi-Albuquerque-13-1500x1000.jpg 1500w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/25-03-26-JHC-Cidade-da-Pessoa-Idosa-Ponta-Grossa-SEMDES-Foto-Itawi-Albuquerque-13-300x200.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/25-03-26-JHC-Cidade-da-Pessoa-Idosa-Ponta-Grossa-SEMDES-Foto-Itawi-Albuquerque-13-768x512.jpg 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/25-03-26-JHC-Cidade-da-Pessoa-Idosa-Ponta-Grossa-SEMDES-Foto-Itawi-Albuquerque-13-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/25-03-26-JHC-Cidade-da-Pessoa-Idosa-Ponta-Grossa-SEMDES-Foto-Itawi-Albuquerque-13-2048x1366.jpg 2048w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/25-03-26-JHC-Cidade-da-Pessoa-Idosa-Ponta-Grossa-SEMDES-Foto-Itawi-Albuquerque-13-272x182.jpg 272w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\"><figcaption>Foto: Itawi Albuquerque\/ Secom Macei\u00f3<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<p><imgsrc=\"\" width=\"1\" height=\"1\" alt=\".\" border=\"0\">\n<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>MAIS<\/strong><br \/>Este texto, cujo t\u00edtulo original \u00e9 \u201cVelhice em ruas que n\u00e3o esperam: mobilidade e exist\u00eancia na Am\u00e9rica Latina\u201d, faz parte da \u00faltima edi\u00e7\u00e3o do Cardernos Metr\u00f3pole, produzido pelo Observat\u00f3rio das Metr\u00f3poles, parceiro editorial do Outras Cidades.<\/p>\n<p>\u201cSer visto e ouvido pelos outros se torna a manifesta\u00e7\u00e3o tang\u00edvel da realidade humana.\u201d Com essa afirma\u00e7\u00e3o, Arendt (2007) oferece uma das mais profundas defini\u00e7\u00f5es do que significa existir politicamente. A cidade, nesse sentido, n\u00e3o \u00e9 apenas um conjunto de edifica\u00e7\u00f5es ou fluxos \u2013 \u00e9 o espa\u00e7o onde nos tornamos vis\u00edveis, onde a vida ganha espessura por meio da a\u00e7\u00e3o e da palavra. Quando algu\u00e9m \u00e9 impedido de aparecer, de circular, de ser escutado, esse sujeito \u00e9 deslocado para fora do mundo comum. A exclus\u00e3o deixa, assim, de ser apenas material: torna-se ontol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, a Am\u00e9rica Latina tem assistido a um acelerado processo de envelhecimento populacional. De acordo com dados da Cepal (2023), estima-se que, at\u00e9 2050, a popula\u00e7\u00e3o com mais de 60 anos duplicar\u00e1 em diversos pa\u00edses da regi\u00e3o. No entanto, essa mudan\u00e7a demogr\u00e1fica tem ocorrido em meio a cidades marcadas por desigualdades hist\u00f3ricas, planejamento fragmentado e pol\u00edticas urbanas que desconsideram as m\u00faltiplas temporalidades da vida. Envelhecer em Bogot\u00e1, Salvador, Quito ou Buenos Aires significa, muitas vezes, ser empurrado para os bastidores da experi\u00eancia urbana.<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/14-1-3.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/14-1-3.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/14-1-300x110.png 300w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>As ruas s\u00e3o estreitas e esburacadas; os transportes p\u00fablicos, inacess\u00edveis; as pra\u00e7as s\u00e3o redesenhadas segundo est\u00e9ticas de mercado que excluem a perman\u00eancia e a lentid\u00e3o. A cidade \u2013 esse espa\u00e7o que deveria garantir o \u201cdireito de aparecer\u201d \u2013 torna-se hostil para aqueles que se deslocam com cautela, que carregam no corpo os sinais do tempo. Os idosos, nesse cen\u00e1rio, n\u00e3o apenas enfrentam dificuldades pr\u00e1ticas: enfrentam uma crise de visibilidade pol\u00edtica, pois a sua presen\u00e7a \u00e9 cada vez menos prevista, menos representada e menos escutada nos projetos urbanos contempor\u00e2neos.<\/p>\n<p>Este artigo parte da premissa de que a exclus\u00e3o da velhice nos centros urbanos n\u00e3o \u00e9 um acidente, mas um sintoma de um modelo de cidade que privilegia a velocidade, a produtividade e a juventude. Para enfrentar esse quadro, propomos um deslocamento epistemol\u00f3gico: em vez de tratar mobilidade e acessibilidade como meras categorias t\u00e9cnicas, vamos abord\u00e1-las como dimens\u00f5es existenciais e pol\u00edticas. A cidade n\u00e3o \u00e9 apenas transitada \u2013 ela \u00e9 habitada, narrada, lembrada. \u00c9 precisamente essa dimens\u00e3o simb\u00f3lica da presen\u00e7a urbana que buscamos resgatar por meio de uma leitura po\u00e9tico-filos\u00f3fica do envelhecimento, mas em di\u00e1logo constante com as quest\u00f5es urbanas, objetivando uma interdisciplinaridade cr\u00edtico-reflexiva.<\/p>\n<p>A escolha de Hannah Arendt como refer\u00eancia central justifica-se n\u00e3o apenas por sua \u00eanfase no espa\u00e7o p\u00fablico e na pluralidade, mas tamb\u00e9m por sua compreens\u00e3o profunda da a\u00e7\u00e3o humana como aquilo que inaugura o novo. Ao incorporar sua filosofia ao debate urbano latino-americano, pretendemos lan\u00e7ar luz sobre a necessidade de repensar a cidade como um espa\u00e7o capaz de acolher distintos ritmos e tempos da vida.<\/p>\n<p>O objetivo deste artigo \u00e9, assim, investigar como a mobilidade urbana \u2013 entendida como possibilidade de aparecer no espa\u00e7o comum \u2013 \u00e9 negada aos idosos nas cidades do Sul Global e o que isso nos diz sobre o projeto pol\u00edtico dessas cidades. Por meio desse di\u00e1logo entre filosofia e urbanismo, propomos tamb\u00e9m caminhos para um urbanismo da presen\u00e7a: uma forma de planejar e viver a cidade que reconhe\u00e7a a velhice n\u00e3o como problema, mas como pot\u00eancia.<\/p>\n<p>Nosso percurso segue, ent\u00e3o, os seguintes passos: ap\u00f3s esta introdu\u00e7\u00e3o, exploramos o referencial te\u00f3rico, com destaque para a filosofia pol\u00edtica de Arendt, as concep\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas de Paul Virilio e David Harvey e os estudos sobre mobilidade, mem\u00f3ria e espa\u00e7o urbano para, na sequ\u00eancia, refletirmos brevemente sobre como uma cidade latino-americana incorpora esses elementos (o <em>corpus<\/em> selecionado foi a cidade de S\u00e3o Paulo) e finalizarmos com a proposta de uma po\u00e9tica do envelhecimento.<\/p>\n<h3><strong>Entre crescimento demogr\u00e1fico e invisibilidade urbana<\/strong><\/h3>\n<p>As cidades latino-americanas est\u00e3o envelhecendo, mas n\u00e3o est\u00e3o se preparando para a velhice. No Brasil, a popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 mais envelhecida e feminina, conforme o Censo de 2022. O Pa\u00eds apresenta um percentual de idosos (15,8%) maior do que a m\u00e9dia da Am\u00e9rica Latina (13,4%). No entanto, dados demogr\u00e1ficos como esse se inscrevem em paisagens urbanas ainda marcadas pela desigualdade, pela precariza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico e pela informalidade. A velhice, nesse cen\u00e1rio, n\u00e3o \u00e9 apenas uma etapa da vida, mas uma condi\u00e7\u00e3o que potencializa a exclus\u00e3o.<\/p>\n<p>As metr\u00f3poles da regi\u00e3o, como Cidade do M\u00e9xico, Buenos Aires, S\u00e3o Paulo e Bogot\u00e1 revelam uma profunda desconex\u00e3o entre o planejamento urbano e as realidades do envelhecimento. Dados e pesquisas recentes corroboram o fato, como veremos a seguir.<\/p>\n<div>\n<div><imgsrc=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/BANNER-outraspalavras-JULHO-corsaria.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/BANNER-outraspalavras-JULHO-corsaria.jpg 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/BANNER-outraspalavras-JULHO-corsaria-300x37.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Um estudo com 32 idosos residentes em S\u00e3o Paulo (Dione dos Santos et al., 2017) constatou que 59% enfrentavam dificuldades para acessar o transporte p\u00fablico, apresentavam risco aumentado de quedas e relatavam impacto significativo na qualidade de vida e na participa\u00e7\u00e3o social. Outra pesquisa baseada em dados da coorte Sa\u00fade, Bem-Estar e Envelhecimento \u2013 Sabe (2000-2015) mostrou que 37% dos idosos relataram dificuldade para acessar servi\u00e7os de sa\u00fade, sendo mais afetadas mulheres, pessoas negras e com baixa escolaridade (Oliveira et al., 2022). Esses dados indicam n\u00e3o apenas limita\u00e7\u00f5es f\u00edsicas, mas barreiras urbanas cr\u00f4nicas que restringem o envelhecimento ativo e a presen\u00e7a p\u00fablica da popula\u00e7\u00e3o idosa.<\/p>\n<p>Em uma an\u00e1lise qualitativa com 22 idosos da Cidade do M\u00e9xico (Villena-S\u00e1nchez e Boschmann, 2024), foi detectado que, apesar da ampla rede de transporte p\u00fablico na regi\u00e3o central, muitos enfrentam experi\u00eancias negativas ao utiliz\u00e1-la: superlota\u00e7\u00e3o, inseguran\u00e7a, conforto inadequado e dificuldade de embarque\/exce\u00e7\u00e3o. Uma pesquisa complementar envolvendo 228 participantes revelou que 46% apresentavam dificuldades significativas no transporte, com queixas sobre falta de rampas, sinaliza\u00e7\u00e3o inapropriada e \u00f4nibus que se movem abruptamente durante o embarque. Mesmo em uma cidade considerada relativamente bem servida, h\u00e1 profundas disparidades entre as zonas centrais \u2013 dotadas de infraestrutura \u2013 e as periferias, onde o acesso se torna privativo ou arriscado.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 cidade de Buenos Aires, dados do governo local reconhecem avan\u00e7os no microcentro, com nivelamento de cal\u00e7adas em mais de 65 quadras e cria\u00e7\u00e3o de esta\u00e7\u00f5es de Metrobus e pra\u00e7as acess\u00edveis. No entanto, in\u00fameras ruas continuam sem rampas adequadas, banheiros acess\u00edveis ficam limitados e estacionamentos de motos bloqueiam passagens (Tomino, 2015). O relato de usu\u00e1rios com mobilidade reduzida (Park, 2018) revela que rampas quebradas e escadas sem alternativa for\u00e7am travessias perigosas nas rodovias urbanas. Essas condi\u00e7\u00f5es mostram uma vis\u00e3o fragmentada do planejamento: havendo investimento pontual, mas n\u00e3o uma pol\u00edtica urbana inclusiva e abrangente.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o raros os estudos comparativos em cidades latino-americanas apontando que \u00e1reas perif\u00e9ricas possuem infraestrutura prec\u00e1ria e reduzido acesso ao transporte formal (Centro de Estudos e Debates Estrat\u00e9gicos da C\u00e2mara Legislativa, 2015). A desigualdade espacial se traduz na dificuldade de acesso a servi\u00e7os urbanos cruciais pelos idosos. Esse padr\u00e3o reflete uma cidade onde os corpos mais fr\u00e1geis s\u00e3o relegados \u00e0 margem, tanto f\u00edsica quanto simbolicamente.<\/p>\n<p>A aus\u00eancia de pol\u00edticas integradas de acessibilidade, o transporte p\u00fablico insens\u00edvel \u00e0s limita\u00e7\u00f5es f\u00edsicas e a viol\u00eancia simb\u00f3lica que afasta os idosos do conv\u00edvio social s\u00e3o sintomas de uma crise mais ampla: a despolitiza\u00e7\u00e3o da velhice. O idoso torna-se sujeito \u00e0 tutela, n\u00e3o ao di\u00e1logo; objeto de assist\u00eancia, n\u00e3o de participa\u00e7\u00e3o. Para ampliar a discuss\u00e3o sobre nosso objeto, tencionando-o a uma an\u00e1lise ontol\u00f3gica, vamos recorrer \u00e0s reflex\u00f5es de Arendt e as suas no\u00e7\u00f5es sobre pluralidade.<\/p>\n<h3><strong>Hannah Arendt e a exclus\u00e3o da pluralidade<\/strong><\/h3>\n<p>Para Arendt, o espa\u00e7o p\u00fablico \u00e9 mais do que um lugar f\u00edsico onde as pessoas se encontram \u2013 \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o para a exist\u00eancia pol\u00edtica propriamente dita. Em A condi\u00e7\u00e3o humana, ela afirma que \u201cpara estar vivo no mundo humano \u00e9 preciso ser visto, ouvido, nomeado\u201d (Arendt, 2007). A cidade, nesse sentido, pode ser compreendida como uma grande arquitetura da visibilidade: um espa\u00e7o onde os sujeitos n\u00e3o apenas transitam, mas se revelam, narram suas hist\u00f3rias e constroem significados coletivos. O urbano, quando funciona como espa\u00e7o p\u00fablico, \u00e9 arena de pluralidade \u2013 conceito central em Arendt, pois \u00e9 na diversidade dos sujeitos, das experi\u00eancias e das apari\u00e7\u00f5es que se funda o mundo comum:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Nascemos neste mundo da pluralidade, em que pai e m\u00e3e est\u00e3o preparados para n\u00f3s, preparados para nos receber e dar as boas-vindas, para nos guiar e demonstrar que n\u00e3o somos estrangeiros. Crescemos para ser como todos os demais, por\u00e9m quanto mais crescemos tanto mais nos tornamos iguais no sentido da unicidade absoluta e insuport\u00e1vel. Logo amamos, e o mundo entre n\u00f3s, o mundo da pluralidade e do sentir-se em casa, estala em chamas, at\u00e9 que n\u00f3s mesmos estamos em condi\u00e7\u00f5es de receber os novos que chegam, os rec\u00e9m-chegados, aos que agora demonstramos aquilo no que j\u00e1 n\u00e3o acreditamos, a saber, que n\u00e3o s\u00e3o estrangeiros. Morremos na singularidade absoluta, estrangeiros, em definitivo, que se despedem depois de uma breve estada em um lugar estranho. O que permanece \u00e9 o mundo da pluralidade. (Arendt, 2007, p. 456)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A pluralidade \u00e9 um dos pilares centrais do pensamento pol\u00edtico de Hannah Arendt. Mais do que uma caracter\u00edstica sociol\u00f3gica da diversidade humana, a pluralidade, para Arendt (2007, p. 7), \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica da exist\u00eancia humana: \u201cos homens, e n\u00e3o o homem, vivem sobre a Terra e habitam o mundo\u201d. Esse enunciado revela n\u00e3o apenas o reconhecimento da diferen\u00e7a, mas a afirma\u00e7\u00e3o de que o mundo s\u00f3 \u00e9 verdadeiramente comum se acolher a presen\u00e7a simult\u00e2nea de sujeitos diferentes, que pensam, agem e falam a partir de lugares \u00fanicos.<\/p>\n<p>Para Arendt, a pluralidade \u00e9 o que confere \u00e0 pol\u00edtica seu sentido mais aut\u00eantico. A a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 uma simples administra\u00e7\u00e3o de interesses ou resolu\u00e7\u00e3o de conflitos, mas a capacidade de inaugurar algo novo entre os homens \u2013 e essa inaugura\u00e7\u00e3o s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel porque somos distintos. A pluralidade \u00e9, portanto, a base da liberdade e da a\u00e7\u00e3o, pois se todos f\u00f4ssemos id\u00eanticos, nada de novo poderia emergir; se f\u00f4ssemos absolutamente isolados, n\u00e3o haveria com quem dialogar.<\/p>\n<p>Essa condi\u00e7\u00e3o plural manifesta-se de forma paradigm\u00e1tica no espa\u00e7o p\u00fablico, que Arendt define como o lugar onde os sujeitos aparecem uns aos outros, atuam, falam e s\u00e3o reconhecidos. \u00c9 no espa\u00e7o comum que a pluralidade se transforma em realidade pol\u00edtica, porque ali as diferen\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o apagadas nem privatizadas, mas expostas e escutadas. A cidade, nesse sentido, \u00e9 um palco privilegiado da pluralidade \u2013 desde que n\u00e3o seja convertida em territ\u00f3rio de homogeneiza\u00e7\u00e3o ou segrega\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<blockquote>\n<p>At\u00e9 mesmo a experi\u00eancia do mundo, que nos \u00e9 dado material e sensorialmente, depende do nosso contato com os outros homens, do nosso senso comum que regula e controla todos os outros sentidos, sem o qual cada um de n\u00f3s permaneceria enclausurado em sua pr\u00f3pria particularidade de dados sensoriais, que, em si mesmos, s\u00e3o trai\u00e7oeiros e indignos de f\u00e9. (Arendt, 2012, p. 635)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>No entanto, a pluralidade, para Arendt, n\u00e3o \u00e9 apenas factual \u2013, ela \u00e9 tamb\u00e9m vulner\u00e1vel. O totalitarismo, em suas diversas formas, surge justamente da tentativa de aniquilar a pluralidade, seja pela imposi\u00e7\u00e3o de uma narrativa \u00fanica, pela persegui\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as ou pela destrui\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico. Uma cidade que marginaliza certos corpos, silencia certas vozes ou exclui certas experi\u00eancias est\u00e1, nesse sentido, praticando uma viol\u00eancia contra a pluralidade, e, portanto, contra a pr\u00f3pria possibilidade de pol\u00edtica:<\/p>\n<blockquote>\n<p>O erro b\u00e1sico de todo materialismo em pol\u00edtica \u2013 materialismo este que n\u00e3o \u00e9 de origem marxista nem sequer moderna, mas t\u00e3o antigo quanto a nossa hist\u00f3ria da teoria pol\u00edticas \u2013 \u00e9 ignorar a inevitabilidade com que os homens se desvelam como pessoas distintas e singulares, mesmo quando inteiramente concentrados na obten\u00e7\u00e3o de um objetivo completamente material e mundano. Prescindir esse desvelamento \u2013 se isso de fato fosse poss\u00edvel \u2013 significaria transformar os homens em algo que eles n\u00e3o s\u00e3o; por outro lado, negar que ele \u00e9 real e tem consequ\u00eancias pr\u00f3prias seria simplesmente irrealista. (Arendt, 2020, p. 27)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O escopo do pensamento de Arendt est\u00e1 ligado ao totalitarismo, em especial ao ano de 1933, em que foi obrigada a deixar a Alemanha e se tornou uma ap\u00e1trida. Para a autora, esse movimento (do totalitarismo) \u00e9 exatamente a causa da ru\u00edna do espa\u00e7o p\u00fablico.<\/p>\n<p>O fim do espa\u00e7o p\u00fablico, como consequ\u00eancia do totalitarismo, significa tamb\u00e9m o fim do espa\u00e7o \u201centre\u201d, colocando uma esp\u00e9cie de barreira \u201cque os cinge de tal forma que \u00e9 como se a sua pluralidade se dissolvesse em Um-S\u00f3-Homem de dimens\u00f5es gigantescas\u201d (Arendt, 2012, p. 619). Uma nova regra universalizada \u00e9 imposta, e o fim da singularidade \u00e9 anunciado em um contexto em que o estado \u201cdomina todas as esferas da vida humana, interfere nas atividades dos indiv\u00edduos, sejam p\u00fablicos ou privados, n\u00e3o deixando espa\u00e7o para qualquer manifesta\u00e7\u00e3o marcadamente humana\u201d (Schio, 2012, p. 47).<\/p>\n<p>No contexto contempor\u00e2neo, especialmente nas cidades do Sul Global, a pluralidade continua sendo amea\u00e7ada por processos de gentrifica\u00e7\u00e3o, higieniza\u00e7\u00e3o social, racismo estrutural e envelhecimento invis\u00edvel. A exclus\u00e3o das pessoas idosas do espa\u00e7o urbano \u2013 seja pela inacessibilidade f\u00edsica, seja pela indiferen\u00e7a simb\u00f3lica \u2013 n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de direitos sociais, mas uma nega\u00e7\u00e3o da pluralidade enquanto valor pol\u00edtico. Cada idoso exclu\u00eddo \u00e9 uma hist\u00f3ria que n\u00e3o se conta, uma mem\u00f3ria que n\u00e3o circula, uma perspectiva que se perde. O mundo esfacelado em tempos sombrios \u201c[\u2026] n\u00e3o poderia existir sem destruir a esfera da vida p\u00fablica, isto \u00e9, sem destruir, atrav\u00e9s do isolamento dos homens, as suas capacidades pol\u00edticas\u201d (Arendt, 2012, p. 634).<\/p>\n<p>Assim, desenvolver pol\u00edticas urbanas inspiradas em Arendt significa criar condi\u00e7\u00f5es para que os sujeitos \u2013 todos, e n\u00e3o apenas os produtivos ou os jovens \u2013 possam aparecer no espa\u00e7o comum com dignidade. A pluralidade exige n\u00e3o apenas conviv\u00eancia, mas reconhecimento. E esse reconhecimento passa pelo planejamento dos espa\u00e7os, pela escuta institucional e pela constru\u00e7\u00e3o de cidades onde a diferen\u00e7a n\u00e3o seja um obst\u00e1culo, mas uma possibilidade de mundo.<\/p>\n<p>No entanto, nas cidades latino-americanas contempor\u00e2neas, marcadas por desigualdade estrutural e urbaniza\u00e7\u00e3o fragmentada, a promessa arendtiana do espa\u00e7o p\u00fablico encontra um limite hist\u00f3rico. A exclus\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o idosa, especialmente dos mais pobres, racializados ou perif\u00e9ricos, revela que a visibilidade n\u00e3o \u00e9 um direito universal, mas um privil\u00e9gio espacialmente distribu\u00eddo. A pra\u00e7a restaurada sem bancos, o transporte que desconsidera o corpo fr\u00e1gil, os sem\u00e1foros que cronometram o tempo da pressa \u2013 tudo isso denuncia uma cidade onde o aparecer p\u00fablico \u00e9 seletivo, e onde a velhice \u00e9 frequentemente apagada da narrativa coletiva.<\/p>\n<p>Essa reflex\u00e3o permite uma aproxima\u00e7\u00e3o com a cr\u00edtica de Kohn (2004), para quem o espa\u00e7o p\u00fablico \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o pol\u00edtica cont\u00ednua, sujeita a for\u00e7as de privatiza\u00e7\u00e3o, normatiza\u00e7\u00e3o e silenciamento. Em contextos urbanos do Sul Global, onde o capital e o controle moldam a paisagem, o espa\u00e7o p\u00fablico tende a tornar-se espa\u00e7o de exclus\u00e3o simb\u00f3lica, no qual apenas certos corpos s\u00e3o percebidos como leg\u00edtimos, eficientes ou \u201capresent\u00e1veis\u201d.<\/p>\n<p>Arendt (2007) distingue, ainda, tr\u00eas dimens\u00f5es da vida ativa: labor, trabalho e a\u00e7\u00e3o. Se o labor est\u00e1 associado \u00e0 sobreviv\u00eancia e o trabalho \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de objetos dur\u00e1veis, a a\u00e7\u00e3o \u00e9 o modo de ser plenamente humano \u2013 pois nela o sujeito aparece diante dos outros, inaugura o novo e funda a pol\u00edtica. Assim, negar \u00e0 popula\u00e7\u00e3o idosa a oportunidade de agir \u2014 de ser escutada, de interferir no mundo \u2013 \u00e9 negar sua humanidade em sentido arendtiano. A velhice, ent\u00e3o, n\u00e3o representa o fim da vida ativa, mas a possibilidade de reinscrev\u00ea-la de outra forma, desde que o espa\u00e7o permita tal reinscri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esse argumento ganha for\u00e7a se lido em conjunto com a ideia de narrativa em Arendt. Em <em>Entre o passado e o futuro<\/em>, ela defende que a vida humana exige uma hist\u00f3ria para ser compreendida (Arendt, 2001). Sem o contar e o ser contado, o sujeito se dissolve no anonimato. No contexto urbano, a presen\u00e7a da velhice \u00e9 presen\u00e7a narrativa: carrega a mem\u00f3ria do bairro, do banco da pra\u00e7a, do mercado que j\u00e1 n\u00e3o existe. A sua exclus\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m exclus\u00e3o da mem\u00f3ria do espa\u00e7o \u2013 e, portanto, despolitiza\u00e7\u00e3o da cidade.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o aparecimento p\u00fablico implica reciprocidade. N\u00e3o basta estar presente \u2013 \u00e9 preciso que essa presen\u00e7a seja reconhecida. Butler (2018), ao discutir a vulnerabilidade dos corpos no espa\u00e7o p\u00fablico, retoma Arendt ao afirmar que somos corpos cuja pol\u00edtica se joga na capacidade de aparecer. E quem define quem aparece? Nas cidades onde o desenho urbano privilegia o deslocamento r\u00e1pido, o consumo e a vigil\u00e2ncia, os corpos lentos, fr\u00e1geis ou silenciosos s\u00e3o os primeiros a desaparecer \u2013 mesmo estando ali:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Isolamento e solid\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o a mesma coisa. Posso estar isolado \u2013 isto \u00e9, numa situa\u00e7\u00e3o em que n\u00e3o posso agir porque n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m para agir comigo \u2013 sem que esteja solit\u00e1rio; e posso estar solit\u00e1rio \u2013 isto \u00e9, numa situa\u00e7\u00e3o em que, como pessoa, me sinto completamente abandonado por toda companhia humana \u2013 sem estar isolado. O isolamento \u00e9 aquele impasse no qual os homens se veem quando a esfera pol\u00edtica de suas vidas, onde agem em conjunto na realiza\u00e7\u00e3o de um interesse comum, \u00e9 destru\u00edda. (Arendt, 2012, p. 633)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Portanto, \u00e9 poss\u00edvel afirmar que a aus\u00eancia de infraestrutura acess\u00edvel, de escuta institucional e de participa\u00e7\u00e3o efetiva das pessoas idosas no planejamento urbano constitui n\u00e3o apenas uma falha log\u00edstica, mas uma nega\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico como fundamento da pol\u00edtica. A cidade, longe de ser neutra, age como filtro de quem pode ou n\u00e3o exercer sua condi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Retomar Arendt no contexto latino-americano implica resgatar a cidade como espa\u00e7o de pluralidade concreta. \u00c9 afirmar que toda pol\u00edtica urbana deve se perguntar: quem tem o direito de aparecer aqui? Quem pode narrar sua vida entre os outros? E quem est\u00e1 sendo exclu\u00eddo do mundo comum sem que percebamos?<\/p>\n<p>Nesse sentido, um urbanismo arendtiano n\u00e3o \u00e9 apenas uma engenharia de infraestrutura, mas uma engenharia da presen\u00e7a, que projeta espa\u00e7os onde todos possam ser vistos, ouvidos e, sobretudo, existir. Vamos, ent\u00e3o, colocar em di\u00e1logo a quest\u00e3o do urbanismo da presen\u00e7a a partir de reflex\u00f5es contempor\u00e2neas.<\/p>\n<h3><strong>Mobilidade, tempo e exist\u00eancia<\/strong><\/h3>\n<p>Nas sociedades contempor\u00e2neas, a mobilidade \u00e9 frequentemente tratada como uma quest\u00e3o t\u00e9cnica: deslocamento entre pontos, efici\u00eancia log\u00edstica e infraestrutura f\u00edsica. Contudo, sob uma lente filos\u00f3fica e pol\u00edtica \u2013 como prop\u00f5em a pr\u00f3pria Arendt (2007), Tuan (1997) e Casey (2000) \u2013 a mobilidade \u00e9 muito mais do que circula\u00e7\u00e3o: \u00e9 a possibilidade de habitar o mundo com sentido. Em outras palavras, mover-se pela cidade n\u00e3o \u00e9 apenas ir de um lugar a outro; \u00e9 aparecer no espa\u00e7o comum, inscrever-se na vida coletiva, manter ativa a pr\u00f3pria exist\u00eancia.<\/p>\n<p>No contexto do envelhecimento urbano nas cidades latino-americanas, essa mobilidade torna-se uma dimens\u00e3o ontol\u00f3gica. Como argumenta Casey (1997), a mem\u00f3ria est\u00e1 profundamente ligada ao lugar e ao movimento. Os idosos n\u00e3o apenas carregam mem\u00f3rias \u2013 eles caminham por elas. Cada rua, pra\u00e7a ou banco p\u00fablico \u00e9 um ponto de ancoragem narrativa. Impedir ou dificultar esse movimento \u00e9 negar ao sujeito o direito de ser inteiro em sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Esse ponto se intensifica ao dialogarmos com Arendt (2007). Para ela, como vimos, o mundo comum se forma onde os humanos aparecem uns aos outros em liberdade e pluralidade. Quando o corpo envelhecido n\u00e3o consegue mais se mover \u2013 seja por escadas intranspon\u00edveis, \u00f4nibus sem rampa ou cal\u00e7adas esburacadas \u2013, ele n\u00e3o perde apenas o deslocamento, mas a chance de continuar aparecendo. A cidade torna-se, assim, um dispositivo de silenciamento progressivo.<\/p>\n<p>Paul Virilio, fil\u00f3sofo e urbanista franc\u00eas, dedicou boa parte de sua obra para analisar as implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, sociais e existenciais da velocidade sobre a vida contempor\u00e2nea. Criador da chamada dromologia \u2013 o estudo da velocidade como for\u00e7a estruturante da cultura \u2013, Virilio argumenta que o poder moderno est\u00e1 cada vez mais vinculado \u00e0 capacidade de deslocamento r\u00e1pido, de compress\u00e3o do tempo e de acelera\u00e7\u00e3o das experi\u00eancias. Em obras como <em>A velocidade de liberta\u00e7\u00e3o<\/em> e <em>O espa\u00e7o cr\u00edtico<\/em>, ele prop\u00f5e que a velocidade deixe de ser apenas uma caracter\u00edstica dos meios de transporte e passe a ser uma l\u00f3gica civilizat\u00f3ria, que reorganiza profundamente as cidades, os corpos e as subjetividades (Virilio, 1995, 2001).<\/p>\n<p>No contexto urbano, essa l\u00f3gica manifesta-se na prioriza\u00e7\u00e3o de fluxos cont\u00ednuos: o autom\u00f3vel, o trem de alta velocidade, o aplicativo de mobilidade, o \u201ctempo real\u201d. A cidade contempor\u00e2nea, para Virilio, torna-se menos espa\u00e7o de conviv\u00eancia e mais corredor de passagem, onde a perman\u00eancia \u00e9 indesej\u00e1vel, e a lentid\u00e3o \u00e9 tratada como disfun\u00e7\u00e3o. Nesse modelo, tudo o que n\u00e3o pode seguir o ritmo da acelera\u00e7\u00e3o \u2013 como o corpo envelhecido, o passo hesitante, a contempla\u00e7\u00e3o demorada \u2013 transforma-se em obst\u00e1culo urbano:<\/p>\n<blockquote>\n<p>O que \u00e9 decisivo na hist\u00f3ria moderna n\u00e3o \u00e9 mais a guerra, nem a economia, nem mesmo a pol\u00edtica, mas a velocidade. A pol\u00edtica se torna, a partir de agora, uma quest\u00e3o de controle da velocidade, do ritmo, da acelera\u00e7\u00e3o dos acontecimentos. A velocidade n\u00e3o \u00e9 simplesmente uma medida f\u00edsica do movimento, mas um fator determinante das rela\u00e7\u00f5es de poder. (Virilio, 1997, p. 17)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Virilio (2018), em entrevista a Ant\u00f3nio Covas, afirma que:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Vivemos na era da cronopol\u00edtica, em pleno culto da velocidade-luz, numa verdadeira corrida contra o tempo. A velocidade das transa\u00e7\u00f5es excede o tempo da pol\u00edtica, tornando o Estado-na\u00e7\u00e3o uma figura cada vez mais decorativa. A velocidade das transa\u00e7\u00f5es consente e garante a hegemonia da especula\u00e7\u00e3o sobre as necessidades reais da economia. A velocidade \u00e9 uma esp\u00e9cie de embriaguez que deixa para tr\u00e1s o mundo sens\u00edvel e a sensibilidade.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A velhice, portanto, n\u00e3o \u00e9 exclu\u00edda apenas por neglig\u00eancia ou preconceito: ela \u00e9 tamb\u00e9m uma incompatibilidade sist\u00eamica com a cidade da velocidade. A acelera\u00e7\u00e3o do tempo urbano n\u00e3o admite o trope\u00e7o, a pausa ou a espera como partes leg\u00edtimas da experi\u00eancia urbana. O idoso, nesse contexto, \u00e9 um corpo que \u201catrasa\u201d, que desafia o cronograma do capital, que recorda a finitude no meio de um espa\u00e7o desenhado para o consumo imediato.<\/p>\n<p>Virilio (1997b) nos ajuda a perceber que a acessibilidade urbana n\u00e3o se limita \u00e0 infraestrutura: ela envolve tamb\u00e9m uma \u00e9tica do tempo. Quando um sem\u00e1foro fecha r\u00e1pido demais para um idoso atravessar, quando um transporte coletivo n\u00e3o oferece tempo suficiente para embarque com seguran\u00e7a, ou quando um banco \u00e9 removido de uma pra\u00e7a \u201crevitalizada\u201d, estamos diante de atos de exclus\u00e3o temporal. N\u00e3o h\u00e1 lugar para o que n\u00e3o acelera. A exclus\u00e3o da velhice, ent\u00e3o, \u00e9 uma forma de eugenia simb\u00f3lica: ela opera n\u00e3o por elimina\u00e7\u00e3o direta, mas por esvaziamento de presen\u00e7a.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica de Virilio oferece, assim, uma lente importante para a an\u00e1lise cr\u00edtica das cidades latino-americanas, onde a moderniza\u00e7\u00e3o urbana frequentemente se traduz em acelera\u00e7\u00e3o desigual. Enquanto algumas zonas s\u00e3o equipadas com novas vias r\u00e1pidas, outras mal possuem cal\u00e7amento adequado. E mesmo nos centros reformados, os idosos \u2013 como vimos nos fragmentos etnogr\u00e1ficos deste artigo \u2013 seguem sendo os primeiros a desaparecer, n\u00e3o pela aus\u00eancia, mas pela inadequa\u00e7\u00e3o ao ritmo esperado.<\/p>\n<p>Enfrentar essa l\u00f3gica exige mais do que rampas e sem\u00e1foros adaptados: exige um repensar profundo da cidade como lugar onde todos os tempos possam coexistir. Contra o urbanismo da velocidade, propomos um urbanismo da perman\u00eancia \u2013 onde a lentid\u00e3o seja n\u00e3o apenas tolerada, mas celebrada como forma leg\u00edtima de existir no espa\u00e7o p\u00fablico. Um tal urbanismo da perman\u00eancia, seria um urbanismo que questionaria a pr\u00f3pria t\u00e9cnica:<\/p>\n<blockquote>\n<p>A t\u00e9cnica coloniza o corpo do homem como ele colonizou o corpo da Terra. As estradas, ferrovias e companhias a\u00e9reas colonizaram, organizando-a, o corpo territorial. Hoje, o amea\u00e7ado pela coloniza\u00e7\u00e3o das microm\u00e1quinas \u00e9 o corpo animal. (Virilio, 1997a, p. 56)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Fazendo coro a Virilio (1997), Harvey (1973, 2014), uma das vozes mais influentes na cr\u00edtica marxista ao urbanismo contempor\u00e2neo, tamb\u00e9m apresenta vis\u00e3o cr\u00edtica e contundente em rela\u00e7\u00e3o ao contexto urbano contempor\u00e2neo. Em obras como <em>Social justice and the city<\/em>, <em>Spaces of hope<\/em> e <em>Rebel cities<\/em>, Harvey prop\u00f5e que a cidade n\u00e3o deve ser vista apenas como um cen\u00e1rio para a vida social, mas como um produto social e pol\u00edtico profundamente marcado pelas rela\u00e7\u00f5es de classe, capital e poder. Nesse sentido, o espa\u00e7o urbano \u00e9 tanto consequ\u00eancia quanto instrumento da reprodu\u00e7\u00e3o das desigualdades estruturais. O que est\u00e1 em disputa nas cidades n\u00e3o \u00e9 apenas o territ\u00f3rio, mas a forma como a vida \u00e9 organizada, valorada e distribu\u00edda.<\/p>\n<p>O conceito de justi\u00e7a espacial, central na obra de Harvey (2014), parte da ideia de que a localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica das oportunidades e dos recursos determina em larga medida as possibilidades de vida dos sujeitos. A desigualdade, portanto, n\u00e3o se manifesta apenas na renda ou na propriedade, mas na forma como o espa\u00e7o p\u00fablico \u00e9 acessado \u2013 ou negado \u2013 a diferentes grupos. Sob essa \u00f3tica, a cidade capitalista n\u00e3o \u00e9 neutra: ela \u00e9 planejada de modo a favorecer fluxos de capital e mobilidade para a elite, enquanto empurra popula\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis para as bordas \u2013 f\u00edsicas e simb\u00f3licas \u2013 do espa\u00e7o urbano.<\/p>\n<p>Ao incorporar essa perspectiva \u00e0 an\u00e1lise da velhice nas cidades latino-americanas, observamos um fen\u00f4meno ainda pouco discutido: a marginaliza\u00e7\u00e3o espacial da experi\u00eancia do envelhecimento. Os idosos raramente s\u00e3o inclu\u00eddos nos processos decis\u00f3rios sobre mobilidade, infraestrutura e espa\u00e7o p\u00fablico. Suas necessidades s\u00e3o tratadas como exce\u00e7\u00e3o; suas rotinas, como atraso; seus corpos, como \u201ccusto\u201d para o modelo de cidade \u00e1gil, jovem e competitiva. O resultado \u00e9 uma exclus\u00e3o estrutural: rampas inexistentes, cal\u00e7adas hostis, transportes inadequados, inseguran\u00e7a e invisibilidade.<\/p>\n<p>Harvey (2014) nos ajuda a ver que isso n\u00e3o \u00e9 falha de planejamento, mas consequ\u00eancia de um projeto urbano informado pelo neoliberalismo, onde o espa\u00e7o \u00e9 mercadoria, onde tudo o que n\u00e3o gera lucro \u00e9 relegado \u00e0 invisibilidade. Nessa l\u00f3gica, o corpo envelhecido \u2013 que n\u00e3o produz, que anda devagar, que exige cuidado \u2013 \u00e9 economicamente desinteressante e, portanto, urbanisticamente exclu\u00eddo. O autor argumentou no F\u00f3rum Social Mundial em 2009:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Eu entendo que o Direito \u00e0 Cidade significa o direito de todos n\u00f3s a criarmos cidades que satisfa\u00e7am as necessidades humanas, as nossas necessidades. O Direito \u00e0 Cidade n\u00e3o \u00e9 o direito de ter \u2013 e eu vou usar uma express\u00e3o do ingl\u00eas \u2013 \u201cas migalhas que caem da mesa dos ricos\u201d. Todos devemos ter os mesmos direitos de construir os diferentes tipos de cidades que n\u00f3s queremos que existam. O Direito \u00e0 Cidade n\u00e3o \u00e9 simplesmente o direito ao que j\u00e1 existe na cidade, mas o direito de transformar a cidade em algo radicalmente diferente. [\u2026] Assim, nessa luta pelo Direito \u00e0 Cidade haver\u00e1 tamb\u00e9m uma luta contra o capital. (Harvey, 2014)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Ao reivindicar o direito \u00e0 cidade, Harvey (2014) prop\u00f5e uma invers\u00e3o radical dessa l\u00f3gica. O direito \u00e0 cidade n\u00e3o \u00e9 apenas o direito de acessar servi\u00e7os urbanos, mas o direito de participar na defini\u00e7\u00e3o de como a cidade deve ser vivida. Trata-se de um direito coletivo, insurgente e transformador \u2013 que exige reimaginar o espa\u00e7o urbano como bem comum, e n\u00e3o como produto de mercado. Nesse sentido, garantir o direito \u00e0 cidade para a popula\u00e7\u00e3o idosa \u00e9 reconhecer sua autoridade narrativa, sua capacidade de contribuir com vis\u00f5es outras de tempo, de espa\u00e7o e de vida.<\/p>\n<p>Esse direito tamb\u00e9m implica reconhecer que o envelhecimento n\u00e3o \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o dos outros, mas de todos. A forma como a cidade trata seus idosos hoje \u00e9 o espelho da cidade que estamos construindo para o futuro. Uma cidade que silencia a velhice silencia tamb\u00e9m a escuta, a mem\u00f3ria e a possibilidade de aprender com o tempo.<\/p>\n<p>Integrar Harvey (2014) ao pensamento de Arendt permite conjugar a cr\u00edtica estrutural \u00e0 exclus\u00e3o urbana com a defesa ontol\u00f3gica da pluralidade e da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Arendt nos ensina que o mundo s\u00f3 existe onde h\u00e1 presen\u00e7a e escuta; Harvey nos mostra que esse mundo est\u00e1 sendo sistematicamente expropriado dos que n\u00e3o se ajustam ao ritmo do capital.<\/p>\n<p>O desafio, portanto, \u00e9 duplo: desmercantilizar o espa\u00e7o e repolitizar a presen\u00e7a. Ou, em termos mais concretos, construir cidades que n\u00e3o apenas incluam os corpos envelhecidos, mas os reconhe\u00e7am como fundamentais para a constru\u00e7\u00e3o de um mundo mais justo, mais plural e mais habit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Nesse ponto, cabe ainda invocar Tuan (1977), que diferencia \u201cespa\u00e7o\u201d de \u201clugar\u201d. Espa\u00e7o \u00e9 extens\u00e3o abstrata; lugar \u00e9 espa\u00e7o vivido, marcado pela experi\u00eancia e pela rela\u00e7\u00e3o afetiva. O idoso que caminha at\u00e9 a pra\u00e7a onde sempre se sentou, ou at\u00e9 a feira onde conversa com os mesmos rostos h\u00e1 d\u00e9cadas, est\u00e1 fazendo muito mais do que se deslocar: est\u00e1 atualizando um lugar de pertencimento. Retirar-lhe essa possibilidade, por aus\u00eancia de infraestrutura ou viol\u00eancia simb\u00f3lica, \u00e9 retir\u00e1-lo do mundo.<\/p>\n<p>Portanto, mobilidade e acessibilidade precisam ser pensadas como condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de exist\u00eancia. Rampas, tempos de sem\u00e1foro, corrim\u00f5es, bancos, sombras \u2013 n\u00e3o s\u00e3o apenas comodidades. S\u00e3o dispositivos de visibilidade, de perman\u00eancia e de escuta. S\u00e3o formas de garantir que a cidade permane\u00e7a sendo espa\u00e7o de todos os tempos e de todos os corpos.<\/p>\n<p>Essa perspectiva permite propor o que podemos chamar de urbanismo da presen\u00e7a: uma forma de planejar e viver a cidade que privilegie n\u00e3o a velocidade, mas a densidade humana; que respeite o tempo da vida em sua diversidade; que permita \u00e0 velhice continuar a existir publicamente, n\u00e3o como exce\u00e7\u00e3o, mas como parte constitutiva do tecido urbano.<\/p>\n<h3><strong>S\u00e3o Paulo: movimento e velhice<\/strong><\/h3>\n<p>Entre corredores expressos, ciclovias apressadas e plataformas sobrecarregadas, S\u00e3o Paulo se apresenta como paradigma da metr\u00f3pole latino-americana tensionada entre moderniza\u00e7\u00e3o e desigualdade. Sua vastid\u00e3o territorial e complexidade social a tornam campo f\u00e9rtil para observar as formas sutis \u2013 e n\u00e3o t\u00e3o sutis \u2013 de exclus\u00e3o que recaem sobre o corpo envelhecido. O que est\u00e1 em jogo n\u00e3o \u00e9 apenas a infraestrutura, mas a concep\u00e7\u00e3o de cidade que ela traduz: quem tem direito de ocupar, circular e permanecer no espa\u00e7o urbano?<\/p>\n<p>Selecionamos a capital paulista para uma breve an\u00e1lise pela sua relev\u00e2ncia e complexidade paradigm\u00e1tica aos estudos urbanos, al\u00e9m de possibilitar uma an\u00e1lise mais pragm\u00e1tica ao nosso estudo. Uma pesquisa realizada em 2017 com 32 idosos da capital paulista, com idade m\u00e9dia de 75,5 anos, revelou que dificuldades de acesso ao transporte p\u00fablico, quedas recorrentes e barreiras arquitet\u00f4nicas comprometem diretamente a qualidade de vida e a participa\u00e7\u00e3o social dessa popula\u00e7\u00e3o (Rodrigues et al., 2017). Mais do que n\u00fameros, esses relatos sinalizam que o corpo idoso \u00e9 continuamente desautorizado a existir com autonomia na cidade. A isso soma-se o dado da pesquisa Sabe (2000-2015), que aponta o aumento das limita\u00e7\u00f5es funcionais com a idade, agravadas por dor, inseguran\u00e7a e falta de renda (Coelho et al., 2022).<\/p>\n<p>Esse quadro remete diretamente \u00e0 cr\u00edtica de Paul Virilio. Em sua an\u00e1lise sobre a dromologia \u2013 a l\u00f3gica da velocidade que estrutura a modernidade \u2013, Virilio (1995) nos adverte: a cidade contempor\u00e2nea n\u00e3o \u00e9 feita para acolher, mas para fluir. O espa\u00e7o p\u00fablico torna-se um campo de acelera\u00e7\u00e3o constante, onde o corpo lento se transforma em obst\u00e1culo. Em S\u00e3o Paulo, isso se manifesta nos sem\u00e1foros que fecham r\u00e1pido demais para quem caminha com cautela; nos \u00f4nibus que arrancam antes que o passageiro se estabilize; nas cal\u00e7adas esburacadas, onde a lentid\u00e3o pode ser fatal. A cidade, sob essa perspectiva, n\u00e3o espera \u2013 e quem n\u00e3o acompanha, desaparece.<\/p>\n<p>Harvey (2014), por sua vez, fornece o quadro estrutural dessa exclus\u00e3o. Em sua concep\u00e7\u00e3o de justi\u00e7a espacial, o direito \u00e0 cidade est\u00e1 diretamente ligado \u00e0 possibilidade de moldar, com presen\u00e7a e voz, os processos que configuram o urbano. No entanto, em S\u00e3o Paulo, a l\u00f3gica da renova\u00e7\u00e3o urbana prioriza corredores vi\u00e1rios, investimentos em zonas centrais e privatiza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico, sem escutar os corpos que habitam o tempo com outros ritmos. O idoso torna-se, nesse contexto, um sujeito espacialmente desautorizado, cuja presen\u00e7a parece n\u00e3o justificar investimento \u2013 afinal, ele \u201cn\u00e3o produz\u201d, \u201cn\u00e3o consome o suficiente\u201d, \u201canda devagar\u201d.<\/p>\n<p>A intersec\u00e7\u00e3o dessas cr\u00edticas se resolve, ou se intensifica, na leitura de Arendt (2007), para quem a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica exige a condi\u00e7\u00e3o de \u201caparecer diante dos outros\u201d. Negar o espa\u00e7o urbano \u00e0 velhice \u00e9 negar-lhe tamb\u00e9m a possibilidade de continuar agindo, narrando, participando. \u00c9 negar a pluralidade. E \u00e9, portanto, negar o mundo comum.<\/p>\n<p>Virilio (1995) afirma que o poder \u00e9 sempre o poder de se mover mais r\u00e1pido. Da antiguidade aos dias atuais, imp\u00e9rios e ex\u00e9rcitos vitoriosos s\u00e3o aqueles que se movem mais rapidamente. Essa l\u00f3gica dromol\u00f3gica se aplica n\u00e3o apenas \u00e0 guerra, mas tamb\u00e9m \u00e0 pol\u00edtica, \u00e0 economia e \u00e0 cultura. Nessa l\u00f3gica, o idoso \u00e9 um corpo que j\u00e1 n\u00e3o existe, \u00e9 um tra\u00e7o de algo que j\u00e1 n\u00e3o produz (na din\u00e2mica tecnicista), que apenas incomoda. Na cidade que nunca dorme, o envelhecimento se torna um empecilho.<\/p>\n<p>A velocidade se torna um fator estrat\u00e9gico, inclusive na produ\u00e7\u00e3o de conhecimento. Virilio (1997b) v\u00ea, nas tecnologias modernas (trens, autom\u00f3veis, internet, sat\u00e9lites), um processo cont\u00ednuo de acelera\u00e7\u00e3o que transforma nossa percep\u00e7\u00e3o de tempo e espa\u00e7o. Ele chama isso de desequil\u00edbrio entre velocidade e percep\u00e7\u00e3o \u2013 o mundo se move mais r\u00e1pido do que podemos processar, logo, aquilo que n\u00e3o est\u00e1 relacionado a essa l\u00f3gica torna-se obsoleto ainda mais rapidamente. A sensa\u00e7\u00e3o de anacronia tamb\u00e9m se torna mais veloz, e se busca o novo incessantemente.<\/p>\n<p>Para Virilio (2001), cada nova inven\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica carrega seu pr\u00f3prio acidente: inventar o trem tamb\u00e9m inventa o descarrilamento; inventar o avi\u00e3o tamb\u00e9m inventa o acidente; inventar a internet tamb\u00e9m inventa o colapso informacional (ou ciberterrorismo). Essa tese filos\u00f3fica \u2013 chamada de \u201cacidente integral\u201d \u2013 est\u00e1 diretamente ligada \u00e0 velocidade: quanto mais r\u00e1pido o sistema, mais catastr\u00f3fica sua falha potencial.<\/p>\n<p>Virilio (2001) convida a filosofia a refletir sobre a \u00e9tica da velocidade. N\u00e3o basta pensar no que fazemos com a tecnologia, mas tamb\u00e9m no ritmo em que vivemos. A filosofia, nesse sentido, deve ser um gesto de resist\u00eancia ao tempo t\u00e9cnico, \u00e0 acelera\u00e7\u00e3o indiscriminada e a favor de uma temporalidade humana, vivida e compartilhada.<\/p>\n<p>Em S\u00e3o Paulo, assim como em outras grandes cidades latino-americanas, somente um urbanismo \u00e9tico, um urbanismo da escuta, que valorizasse em algumas camadas o sil\u00eancio, a desacelera\u00e7\u00e3o e a mem\u00f3ria, poderia inspirar pol\u00edtica p\u00fablicas realmente eficientes, que pensassem a quest\u00e3o do envelhecimento no contexto urbano.<\/p>\n<p>No caso paulistano, pensar pol\u00edticas p\u00fablicas eficazes passa por reconhecer que as solu\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas n\u00e3o s\u00e3o neutras: toda rampa, todo banco, todo tempo de sem\u00e1foro \u00e9 uma decis\u00e3o \u00e9tica e pol\u00edtica sobre quem deve ou n\u00e3o habitar o espa\u00e7o p\u00fablico. Criar uma cidade justa para os idosos n\u00e3o \u00e9 uma concess\u00e3o assistencial, mas um gesto de reconstru\u00e7\u00e3o do pacto social urbano. Integrar S\u00e3o Paulo a essa reflex\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas denunciar sua exclus\u00e3o estrutural \u2013, \u00e9 reconhecer seu potencial de transforma\u00e7\u00e3o. Porque onde h\u00e1 corpo, h\u00e1 presen\u00e7a. E onde h\u00e1 presen\u00e7a, h\u00e1 possibilidade de recome\u00e7o.<\/p>\n<h3><strong>Eticidade do espa\u00e7o e responsabilidade intergeracional<\/strong><\/h3>\n<p>Pensar a cidade a partir da velhice \u00e9, acima de tudo, um gesto \u00e9tico. Implica reconhecer que o espa\u00e7o urbano n\u00e3o \u00e9 neutro, mas express\u00e3o concreta de valores, prioridades e silenciamentos. A forma como planejamos ruas, transportes, pra\u00e7as e edif\u00edcios revela o que consideramos digno de perman\u00eancia, de aten\u00e7\u00e3o e de cuidado. Nesse sentido, o apagamento da velhice no espa\u00e7o urbano latino-americano denuncia n\u00e3o apenas uma crise de infraestrutura, mas uma crise moral: estamos a construir cidades que recusam o tempo, a mem\u00f3ria e a lentid\u00e3o \u2013 e, com isso, recusam a si mesmas.<\/p>\n<p>Arendt (2007) recorda que a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica exige responsabilidade, pois todo ato inaugura um novo mundo e carrega consequ\u00eancias que nos ultrapassam. Jonas (2006), ao propor o \u201cprinc\u00edpio responsabilidade\u201d, argumenta que a \u00e9tica contempor\u00e2nea deve incluir a preocupa\u00e7\u00e3o com os efeitos em longo prazo das nossas decis\u00f5es, especialmente sobre as gera\u00e7\u00f5es futuras. Essa ideia pode ser ressignificada para incluir tamb\u00e9m a rela\u00e7\u00e3o com as gera\u00e7\u00f5es mais velhas. Cuidar do envelhecimento urbano \u00e9 cuidar do futuro \u2013 n\u00e3o apenas porque todos envelheceremos, mas porque uma cidade que acolhe a velhice \u00e9 uma cidade que reconhece a sua pr\u00f3pria finitude e complexidade.<\/p>\n<p>A \u00e9tica urbana intergeracional exige uma pol\u00edtica de escuta, na qual o planejamento urbano seja dialogado com quem j\u00e1 acumulou tempo de cidade. Isso implica a inclus\u00e3o sistem\u00e1tica de conselhos de idosos nas decis\u00f5es sobre mobilidade, habita\u00e7\u00e3o e espa\u00e7os p\u00fablicos. Implica tamb\u00e9m reconhecer que o idoso n\u00e3o \u00e9 um problema a ser resolvido, mas uma presen\u00e7a que pode orientar caminhos mais justos, sustent\u00e1veis e humanos. Ao silenciar essas vozes, n\u00e3o apenas apagamos experi\u00eancias, mas tamb\u00e9m negamos a continuidade simb\u00f3lica da cidade.<\/p>\n<p>A eticidade do espa\u00e7o urbano manifesta-se, por exemplo, na decis\u00e3o de manter um banco em uma pra\u00e7a mesmo que n\u00e3o combine com o novo projeto paisag\u00edstico; ou em permitir que o sem\u00e1foro demore o suficiente para que todos atravessem com dignidade. Pequenos gestos, como esses, s\u00e3o formas de garantir que o mundo continue comum. Eles expressam o que Arendt (2007) chama de amor mundi: o cuidado pelo mundo como espa\u00e7o partilhado entre gera\u00e7\u00f5es, entre diferen\u00e7as, entre ritmos.<\/p>\n<h3><strong>Po\u00e9ticas do envelhecer: velhice como pot\u00eancia urbana<\/strong><\/h3>\n<p>Nas esquinas lentas da cidade, onde o tempo parece hesitar antes de continuar, habitam as po\u00e9ticas do envelhecer. Ali, entre a sombra de uma \u00e1rvore antiga e o banco gasto de uma pra\u00e7a esquecida, a velhice inscreve outra cartografia \u2013 n\u00e3o da pressa, mas da perman\u00eancia. Se a cidade moderna \u00e9 constru\u00edda para a velocidade, o corpo envelhecido convida ao desvio, \u00e0 observa\u00e7\u00e3o, \u00e0 escuta. E, nesse convite, revela uma pot\u00eancia: a de fazer da cidade um lugar mais habit\u00e1vel para todos.<\/p>\n<p>Benjamin (1989), ao descrever o <em>fl\u00e2neur<\/em> \u2013 aquele que vagueia pela cidade atento aos seus detalhes esquecidos \u2013, talvez sem saber, descrevia a experi\u00eancia da velhice urbana. O idoso que percorre o mesmo trajeto h\u00e1 d\u00e9cadas carrega uma cidade que j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 nos mapas. Suas mem\u00f3rias s\u00e3o camadas invis\u00edveis do espa\u00e7o, vozes que resistem ao apagamento acelerado da paisagem. Como dizia Bachelard (1993), o espa\u00e7o \u00e9 feito tamb\u00e9m de sonhos, de lembran\u00e7as e de intimidades. A velhice \u00e9, assim, uma forma de sustentar o espa\u00e7o como lugar habitado, e n\u00e3o apenas atravessado.<\/p>\n<p>Na Am\u00e9rica Latina, onde tantas cidades foram constru\u00eddas sobre feridas coloniais, desigualdades e sil\u00eancios, a velhice pode ser tamb\u00e9m ato de contramem\u00f3ria. O corpo que permanece \u2013 mesmo exclu\u00eddo \u2013 diz: \u201ca cidade n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 de quem corre\u201d. A av\u00f3 que conta hist\u00f3rias no alpendre, o av\u00f4 que observa a rua em sil\u00eancio, os idosos que jogam domin\u00f3 na cal\u00e7ada \u2013, todos eles s\u00e3o, \u00e0 sua maneira, poetas urbanos. N\u00e3o escrevem com tinta, mas com presen\u00e7a. E presen\u00e7a, como diria Arendt (2007), \u00e9 a mat\u00e9ria-prima do mundo comum. \u00c9 a narrativa sendo constru\u00edda, e a mem\u00f3ria se materializando.<\/p>\n<p>Propor uma po\u00e9tica do envelhecer \u00e9 propor que a cidade abrace a diversidade dos tempos. Que tenha lugares onde parar n\u00e3o seja sin\u00f4nimo de obst\u00e1culo, mas de contempla\u00e7\u00e3o. Que reconhe\u00e7a no gesto repetido do idoso uma forma de cuidado com o espa\u00e7o. Que aceite ser tamb\u00e9m lenta, tamb\u00e9m silenciosa, tamb\u00e9m antiga. Porque s\u00f3 uma cidade que sabe envelhecer pode ser verdadeiramente nova \u2013 capaz de acolher o que nasce, sem apagar o que permaneceu.<\/p>\n<h3><strong>Considera\u00e7\u00f5es finais<\/strong><\/h3>\n<p>Envelhecer nas cidades latino-americanas \u00e9, frequentemente, enfrentar uma sucess\u00e3o de silenciamentos: do corpo que j\u00e1 n\u00e3o se encaixa na arquitetura urbana, da palavra que n\u00e3o encontra espa\u00e7o nos conselhos de planejamento, da mem\u00f3ria que n\u00e3o \u00e9 mais considerada fonte de saber. Este artigo procurou questionar esse sil\u00eancio, abordando o envelhecimento como presen\u00e7a pol\u00edtica, como experi\u00eancia urbana situada e como ato de resist\u00eancia cotidiana.<\/p>\n<p>A partir da filosofia pol\u00edtica de Hannah Arendt, propusemos pensar o espa\u00e7o urbano n\u00e3o apenas como estrutura f\u00edsica, mas como palco de visibilidade existencial. O direito de aparecer \u2013 de ser visto, escutado, reconhecido \u2013 \u00e9 o fundamento da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, e sua nega\u00e7\u00e3o, mesmo que n\u00e3o dita, \u00e9 um gesto de exclus\u00e3o. As cidades, quando desenhadas segundo os ritmos da efici\u00eancia e da produtividade, tornam-se dispositivos de apagamento das subjetividades que n\u00e3o se alinham a esses valores \u2013 especialmente, as da velhice.<\/p>\n<p>Ao ampliarmos o olhar sobre mobilidade e acessibilidade, propusemos uma abordagem que vai al\u00e9m da t\u00e9cnica. Caminhar, esperar, sentar-se, atravessar: cada gesto do idoso \u00e9, na verdade, um modo de afirmar-se no espa\u00e7o, de dizer \u201cainda estou aqui\u201d. Esses gestos tornam-se, no contexto urbano atual, atos de resist\u00eancia \u00e9tica. Um banco mantido na pra\u00e7a, uma rampa que respeita o corpo, um tempo de sem\u00e1foro que considera a lentid\u00e3o \u2013, tudo isso comp\u00f5e uma pol\u00edtica da presen\u00e7a.<\/p>\n<p>Reivindicamos, assim, um urbanismo da escuta: um modo de conceber e organizar a cidade que parta n\u00e3o da idealiza\u00e7\u00e3o do sujeito produtivo, mas da pluralidade concreta dos corpos que a habitam. Isso implica n\u00e3o apenas infraestrutura acess\u00edvel, mas tamb\u00e9m dispositivos de escuta p\u00fablica, processos de decis\u00e3o intergeracionais e uma \u00e9tica do cuidado que reconhe\u00e7a na velhice um tempo necess\u00e1rio \u00e0 cidade.<\/p>\n<p>Propusemos tamb\u00e9m compreender a velhice como pot\u00eancia urbana. N\u00e3o como nostalgia de um passado, mas como capacidade de ver o que a pressa esconde, de lembrar o que foi esquecido, de permanecer onde tudo \u00e9 fluxo. Essa presen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 ru\u00eddo: \u00e9 forma de sabedoria espacial. A velhice ensina a cidade a durar.<\/p>\n<p>A contribui\u00e7\u00e3o deste trabalho \u00e9, portanto, dupla: te\u00f3rica, ao propor uma articula\u00e7\u00e3o entre Arendt, mobilidade urbana e envelhecimento no Sul Global, e pol\u00edtica, ao indicar que cidades justas n\u00e3o s\u00e3o apenas aquelas que transportam corpos, mas aquelas que os acolhem com tempo, com espa\u00e7o e com escuta. Como horizonte \u00e9tico, defendemos que toda cidade deve ser pensada desde o corpo mais fr\u00e1gil \u2013, pois \u00e9 esse corpo que revela se o mundo ainda \u00e9 partilh\u00e1vel.<\/p>\n<p>Realizamos uma breve abordagem de S\u00e3o Paulo, \u00e0 luz dos apontamentos trazidos, e podemos concluir que a capital paulistana traz ecos profundos da exclus\u00e3o estrutural vivida nas cidades latino-americanas. Uma etnografia aplicada \u00e0s pessoas idosas e seus relatos poderia incorporar substratos que serviriam de contraponto \u00e0s l\u00f3gicas que comp\u00f5em o tecido da realidade urbana para milh\u00f5es de pessoas que envelhecem em lugares que n\u00e3o as reconhecem mais. Ao transformar esses relatos em linguagem, dar\u00edamos a eles o estatuto pol\u00edtico de narrativa, como prop\u00f5e Arendt (2007): aquilo que s\u00f3 se realiza quando compartilhado no espa\u00e7o p\u00fablico.<\/p>\n<p>Para futuras pesquisas, recomendamos tamb\u00e9m a amplia\u00e7\u00e3o desse olhar para temas como o envelhecimento interseccional (ra\u00e7a, g\u00eanero, defici\u00eancia), os impactos da crise clim\u00e1tica sobre idosos urbanos e as experi\u00eancias inovadoras de urbanismo participativo com sujeitos idosos como protagonistas.<\/p>\n<p>Talvez o maior desafio seja fazer com que a cidade, ao envelhecer junto a seus habitantes, aprenda tamb\u00e9m a recordar, a cuidar e a escutar. S\u00f3 ent\u00e3o o espa\u00e7o urbano deixar\u00e1 de ser obst\u00e1culo, e voltar\u00e1 a ser mundo.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Como, ent\u00e3o, garantir transporte p\u00fablico, pra\u00e7as e ruas adequadas aos idosos? Uma pista: um urbanismo onde a lentid\u00e3o seja celebrada como forma plural de habitar o espa\u00e7o p\u00fablico. Reflex\u00f5es a partir de Hannah Arendt<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/outras-cidades\/por-uma-poetica-do-envelhecimento-nas-cidades\/\">Por uma &lt;i&gt;po\u00e9tica do envelhecimento&lt;\/i&gt; nas cidades<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":94245,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[347,72870,72871,72872,72873,72874,1555,4098,35088,10500,8512,72875,2542,72876,62913,662,30105,12226,132,501,72877,36230,72878,345,19354,72879],"tags":[],"class_list":["post-94244","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-america-latina","category-areas-perifericas","category-cidades-latino-americanas","category-crescimento-demografico","category-desigualdade-espacial","category-desmercantilizacao","category-direito-a-cidade","category-envelhecimento","category-espaco-publico","category-gentrificacao","category-hannah-arendt","category-higienizacao-social","category-idosos","category-invisibilidade-urbana","category-materialismo","category-mobilidade-urbana","category-outras-cidades","category-pluralidade","category-politica","category-privatizacao","category-ruas-pecarias","category-totalitarismo","category-transporte-inacessivel","category-transporte-publico","category-velhice","category-virilio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/94244","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=94244"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/94244\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/94245"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=94244"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=94244"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=94244"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}