{"id":94420,"date":"2026-07-05T10:00:00","date_gmt":"2026-07-05T13:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/cooperativismo-do-sul-global-modelos-comunais-e-cooperativos-na-venezuela-na-india-e-na-china\/"},"modified":"2026-07-05T10:00:00","modified_gmt":"2026-07-05T13:00:00","slug":"cooperativismo-do-sul-global-modelos-comunais-e-cooperativos-na-venezuela-na-india-e-na-china","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/cooperativismo-do-sul-global-modelos-comunais-e-cooperativos-na-venezuela-na-india-e-na-china\/","title":{"rendered":"Cooperativismo do Sul Global: Modelos Comunais e Cooperativos na Venezuela, na \u00cdndia e na China"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"679\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/20260617_PT.webp\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/20260617_PT.webp 1000w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/20260617_PT-300x204.webp 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/20260617_PT-768x521.webp 768w\" sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\"><figcaption><em>Montagem: Tamayba Lara, para RA\u00cdZES<\/em> \/Reprodu\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p><em><a href=\"https:\/\/www.roots-iapc.org\/pt\">Por RA\u00cdZES<\/a><\/em><\/p>\n<p>O debate sobre as alternativas econ\u00f4micas e pol\u00edticas ao modelo de acumula\u00e7\u00e3o capitalista exige um olhar rigoroso sobre as experi\u00eancias concretas que se gestam a partir do Sul Global. Sob essa premissa geopol\u00edtica, desenvolveu-se a quinta sess\u00e3o do Semin\u00e1rio Internacional organizado pela Associa\u00e7\u00e3o Internacional para a Coopera\u00e7\u00e3o Popular (IAPC), que, junto ao F\u00f3rum Acad\u00eamico do Sul Global da China, \u00e0 Faculdade Josu\u00e9 de Castro do Brasil e \u00e0 Secretaria 24H+ de Gana, que permitiu conectar, de forma simult\u00e2nea, os saberes, as reflex\u00f5es te\u00f3ricas e as pr\u00e1ticas militantes de comunidades que, em distintas latitudes do planeta, compartilham um mesmo horizonte de transforma\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>A sess\u00e3o foi marcada por uma coincid\u00eancia sugestiva: a letra \u201cS\u201d na inicial dos nomes dos palestrantes e da palestrante. Da Am\u00e9rica Latina e do Caribe, Sa\u00fal Osio Pedret exp\u00f4s a profundidade do tecido comunal venezuelano; do sul da \u00c1sia, Subin Dennis detalhou a trajet\u00f3ria hist\u00f3rica do movimento popular no estado indiano de Kerala; e do extremo oriental, a voz de Sun Xiaowei compartilhou a experi\u00eancia da Superliga das Aldeias no condado aut\u00f4nomo de Rongjiang, na prov\u00edncia chinesa de Guizhou. Essa conflu\u00eancia permitiu estruturar um di\u00e1logo intercultural baseado em solu\u00e7\u00f5es reais para problemas comuns gerados pelo grande capital.<\/p>\n<p>A tese central que atravessou o encontro, e que vertebra a presente an\u00e1lise, postula que as cooperativas e as comunas n\u00e3o podem ser concebidas sob a l\u00f3gica instrumental do sistema dominante. Ou seja, n\u00e3o s\u00e3o meras unidades de interc\u00e2mbio econ\u00f4mico subordinadas ao mercado, nem tampouco dispositivos assistenciais ou paliativos de desenvolvimento desenhados para amortecer a pobreza. Pelo contr\u00e1rio, essas experi\u00eancias constituem os alicerces sociais para uma democratiza\u00e7\u00e3o profunda da vida, constru\u00e7\u00e3o material da soberania local e resist\u00eancia ativa frente \u00e0s din\u00e2micas de espolia\u00e7\u00e3o do capitalismo transnacional. A pot\u00eancia dos modelos expostos reside, precisamente, na sua capacidade de mobilizar de forma genu\u00edna as massas populares, conseguindo que o povo se envolva ativamente a partir da defesa de suas paix\u00f5es mais profundas, de suas necessidades materiais cotidianas e de seus interesses hist\u00f3ricos de classe.<\/p>\n<p><strong>Venezuela: A Comuna e a economia comunal<\/strong><\/p>\n<p>Sa\u00fal Osio Pedret \u00e9 vice-ministro de Economia Comunal no Minist\u00e9rio do Poder Popular para as Comunas e Movimentos Sociais da Venezuela. Durante o semin\u00e1rio, ele situa as origens pol\u00edticas da comuna no processo constituinte e revolucion\u00e1rio iniciado em 1999, o qual refundou o Estado, transitando de uma democracia representativa tutelada pelo Ocidente para um modelo soberano de Democracia Participativa e Protag\u00f4nica. Segundo as abordagens do vice-ministro, essa transforma\u00e7\u00e3o apontou para a descoloniza\u00e7\u00e3o de um Estado historicamente extrativista, preso primeiro na l\u00f3gica colonial agr\u00edcola e, depois, na depend\u00eancia do extrativismo petrol\u00edfero que subordinava o pa\u00eds como o quintal de pot\u00eancias estrangeiras. Frente \u00e0 heran\u00e7a representativa, cujo atraso burocr\u00e1tico distanciava as prioridades do governo das necessidades reais da popula\u00e7\u00e3o, Osio assinalou que o modelo comunal recupera o conceito pr\u00e9-marxista da toparquia proposto por Sim\u00f3n Rodr\u00edguez: o governo direto do territ\u00f3rio a partir dos elementos culturais e materiais comuns identificados pela pr\u00f3pria comunidade.<\/p>\n<p>Dentro desse arcabou\u00e7o de governan\u00e7a, o Minist\u00e9rio do Poder Popular para as Comunas, Movimentos Sociais e Agricultura Urbana atua como a autoridade central do gabinete respons\u00e1vel por coordenar o desenvolvimento das comunas em n\u00edvel nacional. O pa\u00eds estabeleceu um sistema de autonomia comunal de massas de cinco n\u00edveis, estruturado de baixo para cima (Conselhos Comunais \u2192 Comunas \u2192 Cidades Comunais \u2192 Federa\u00e7\u00f5es Comunais \u2192 Confedera\u00e7\u00f5es Comunais), o qual opera de forma independente do sistema administrativo municipal tradicional. O Conselho Comunal \u00e9 a unidade b\u00e1sica da organiza\u00e7\u00e3o, concebido como um conjunto de Comit\u00eas de Trabalho onde os cidad\u00e3os se unem com base em sua \u00e1rea de atua\u00e7\u00e3o para resolver problemas espec\u00edficos. A comuna, longe de ser transposi\u00e7\u00e3o ou c\u00f3pia de outras latitudes, nasce por iniciativa pr\u00f3pria quando diversos conselhos comunais identificam, em Assembleia de Cidad\u00e3os e Cidad\u00e3s, continuidades territoriais, eixos vi\u00e1rios, bacias hidrogr\u00e1ficas ou potencialidades produtivas comuns. Essa agrega\u00e7\u00e3o popular delimita seu \u00e2mbito mediante uma poligonal constru\u00edda no calor da discuss\u00e3o coletiva e expressa seus princ\u00edpios em uma Carta Fundacional. Osio enfatizou que o exerc\u00edcio do autogoverno na comuna \u00e9 exercido de maneira assemblear e horizontal, sem estruturas presidencialistas, articulando um processo sustentado de renova\u00e7\u00e3o constante de lideran\u00e7as mediante elei\u00e7\u00f5es peri\u00f3dicas de porta-vozes a cada tr\u00eas anos.<\/p>\n<p>Para o palestrante, a comuna funciona como um ente de governan\u00e7a integral e soberania que materializa os planos de seguran\u00e7a e defesa da na\u00e7\u00e3o em articula\u00e7\u00e3o direta com o alto comando pol\u00edtico da revolu\u00e7\u00e3o, garantindo a estabilidade pol\u00edtica no territ\u00f3rio. Do seu ponto de vista, essa estrutura funciona como um espelho desconcentrado dos cinco poderes p\u00fablicos do Estado venezuelano, exercidos de forma coletiva e por agrega\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de seis inst\u00e2ncias fundamentais detalhadas em sua exposi\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>O Parlamento Comunal: Inst\u00e2ncia que legisla a conviv\u00eancia e a intera\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio mediante a formula\u00e7\u00e3o de \u201ccartas comunais\u201d e planos de desenvolvimento econ\u00f4mico local.<\/p>\n<p>O Conselho Executivo: Inst\u00e2ncia que executa as pol\u00edticas locais, administra os recursos e coordena comit\u00eas essenciais de servi\u00e7os p\u00fablicos, habita\u00e7\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A Controladoria Social: \u00d3rg\u00e3o que exerce a fiscaliza\u00e7\u00e3o, o controle e a vigil\u00e2ncia permanente e transparente da execu\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>A Comiss\u00e3o de Justi\u00e7a e Paz: Inst\u00e2ncia de controle e apela\u00e7\u00e3o do poder judici\u00e1rio local, onde atuam os ju\u00edzes de paz eleitos nas bases para dirimir os conflitos comunit\u00e1rios.<\/p>\n<p>A Comiss\u00e3o Eleitoral: Ente encarregado de ordenar e organizar os diversos processos de consulta e elei\u00e7\u00f5es internas do territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>O Banco da Comuna: Inst\u00e2ncia organizativa que zela pela administra\u00e7\u00e3o e execu\u00e7\u00e3o dos recursos financeiros e n\u00e3o financeiros transferidos. Seu funcionamento quebra as l\u00f3gicas financeiras do Ocidente, garantindo a autonomia local e eliminando a tutela das estruturas estatais.<\/p>\n<p>Ao abordar a escala material desse projeto, o vice-ministro ofereceu n\u00fameros que demonstram seu avan\u00e7o real: a Venezuela conta com um universo total de aproximadamente 49.000 conselhos comunais, dos quais 40.000 j\u00e1 avan\u00e7aram em sua matura\u00e7\u00e3o organizativa e encontram-se plenamente agrupados dentro das 4.092 comunas legalmente estabelecidas com todas as suas inst\u00e2ncias operativas. Embora o rentismo petrol\u00edfero tenha gerado um \u00eaxodo hist\u00f3rico que concentra 60% das comunas em \u00e1reas urbanas, Osio argumentou que o impulso da economia comunal nas zonas rurais est\u00e1 disputando a soberania a partir do territ\u00f3rio. Atrav\u00e9s da transfer\u00eancia estatal de terras, insumos e compet\u00eancias em servi\u00e7os p\u00fablicos, as comunidades organizadas constroem um m\u00fasculo financeiro que busca consolidar uma economia comunal produtiva, capaz de romper com a l\u00f3gica rentista e suas distor\u00e7\u00f5es burocr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>De acordo com Osio, essa pot\u00eancia financeira se materializa em Empresas de Propriedade Social Direta Comunal (EPSDC) que administram os meios de produ\u00e7\u00e3o sob um regime de propriedade comunal coletiva. Neste ponto, o palestrante enfatizou uma distin\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e pol\u00edtica crucial entre esse modelo e o cooperativismo tradicional: diferentemente da propriedade cooperativa, que \u00e9 coletiva mas beneficia de maneira direta os seus associados, a propriedade comunal pertence \u00e0 Assembleia de Cidad\u00e3os e Cidad\u00e3s, o que obriga a que os excedentes do processo produtivo sejam distribu\u00eddos e investidos coletivamente em benef\u00edcio de todo o \u00e2mbito territorial da comuna.<\/p>\n<p>O Plano Comunal do Caf\u00e9 ilustra de forma n\u00edtida a disputa que a economia comunal coloca frente \u00e0s cadeias capitalistas de valor. Ao abordar esse setor de longa tradi\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, Osio explicou que, enquanto as fam\u00edlias camponesas mant\u00eam a propriedade familiar de seus cafezais, a propriedade comunal controla estrategicamente os elos-chave de valoriza\u00e7\u00e3o. O processamento e a torrefa\u00e7\u00e3o s\u00e3o executados em plantas industriais administradas coletivamente pelas comunas rurais. Para o per\u00edodo 2024-2025, o palestrante destacou que esse esfor\u00e7o alcan\u00e7ou um marco in\u00e9dito com a primeira exporta\u00e7\u00e3o direta de caf\u00e9 gerida por uma comuna, permitindo que os excedentes em divisas retornem ao territ\u00f3rio para potencializar as capacidades produtivas e resolver os problemas priorizados em assembleia.<\/p>\n<p>Sob o lema de que \u201co povo salva o povo\u201d, Osio descreveu como o circuito do Arroz e do Milho tamb\u00e9m avan\u00e7ou entre 2025 e 2026 no controle da agroind\u00fastria, historicamente monopolizada por elites econ\u00f4micas. Detalhou que as comunas rurais assumiram a administra\u00e7\u00e3o direta do armazenamento em silos e do processamento industrial do arroz, conectando-se diretamente com as comunas urbanas encarregadas da distribui\u00e7\u00e3o planejada. Com essa engrenagem, transforma-se de maneira profunda a intermedia\u00e7\u00e3o nos canais de comercializa\u00e7\u00e3o, diminuindo o pre\u00e7o final para o consumidor popular.<\/p>\n<p>Finalmente, o vice-ministro assinalou que o Plano Agroalimentar Comunal expande atualmente esse desenho para o milho amarelo e para a produ\u00e7\u00e3o de sementes de soja para substituir o componente importado na ra\u00e7\u00e3o balanceada para animais. Para Osio, a transfer\u00eancia da infraestrutura produtiva do Estado para as comunidades por agrega\u00e7\u00e3o permite que o Poder Popular sustente hoje um n\u00edvel de abastecimento nacional de 98%, com mais de 70% dos alimentos produzidos internamente em solo venezuelano.<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"724\" height=\"1024\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/word-image.webp\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/word-image-724x1024.webp 724w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/word-image-212x300.webp 212w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/word-image-768x1086.webp 768w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/word-image.webp 1000w\" sizes=\"(max-width: 724px) 100vw, 724px\"><figcaption><em>Mapa da Rep\u00fablica Bolivariana da Venezuela com exemplifica\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica do sistema de agrega\u00e7\u00e3o comunal. Fonte: Lei Org\u00e2nica das Comunas\/Tamayba Lara<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Podemos dizer que, embora os conselhos comunais e as comunas desempenhem hoje um papel fundamental na governan\u00e7a e na estabiliza\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio, abrigam em seu seio uma contradi\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica. Ao colocar como horizonte estrat\u00e9gico a edifica\u00e7\u00e3o de um Estado Comunal para uma sociedade socialista, essas experi\u00eancias formulam um questionamento direto ao poder das estruturas do Estado atual. Portanto, as comunas n\u00e3o atuam como meros instrumentos da gest\u00e3o p\u00fablica, mas configuram-se, fundamentalmente, como um germe vivo de transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>\u00cdndia: O enfoque da esquerda sobre as cooperativas em Kerala<\/strong><\/p>\n<p>A segunda interven\u00e7\u00e3o do semin\u00e1rio esteve a cargo do economista e ativista Subin Dennis, que centrou sua an\u00e1lise na experi\u00eancia do estado de Kerala, localizado na regi\u00e3o sul da \u00cdndia. Com uma popula\u00e7\u00e3o de aproximadamente 35 milh\u00f5es de habitantes, este territ\u00f3rio unificou-se em 1956 agrupando as regi\u00f5es de l\u00edngua malaiala \u2014 Travancore, Cochim e Malabar \u2014 que, durante a era colonial brit\u00e2nica, mantinham alian\u00e7as subsidi\u00e1rias. Dennis contextualizou que o movimento de esquerda em Kerala cresceu com for\u00e7a entre as d\u00e9cadas de 1930 e 1940 atrav\u00e9s de lutas anti feudais, movimentos de reforma social e da luta anti-imperialista pela independ\u00eancia nacional. No plano eleitoral, ap\u00f3s a cria\u00e7\u00e3o do estado, o Partido Comunista da \u00cdndia obteve a maioria legislativa em 1957, o que impulsionou reformas agr\u00e1rias e fundou m\u00faltiplas institui\u00e7\u00f5es educativas p\u00fablicas.<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"819\" height=\"1024\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/word-image-venez.webp\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/word-image-venez.webp 819w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/word-image-venez-240x300.webp 240w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/word-image-venez-768x960.webp 768w\" sizes=\"(max-width: 819px) 100vw, 819px\"><figcaption><em>Cartaz sobre os trabalhadores da Cooperativa Udayapuram, 2025. Fonte: Tricontinental\/Vanshika Babbar (Jovens Artistas Socialistas)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>A partir da d\u00e9cada de 1980, consolidou-se a altern\u00e2ncia de duas grandes coaliz\u00f5es na assembleia legislativa estadual. O palestrante destacou o papel da Frente Democr\u00e1tica de Esquerda \u2014 liderada pelo Partido Comunista da \u00cdndia (Marxista) \u2014, a qual encabe\u00e7ou o governo nos per\u00edodos de 1957-1959, 1967-1969, 1980-1981, 1987-1991, 1996-2001, 2006-2011 e de 2016 at\u00e9 abril de 2026. De acordo com Dennis, esse processo sustentado de democratiza\u00e7\u00e3o profunda e implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas agr\u00e1rias, de sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica situou Kerala com os indicadores sociais mais elevados de toda a na\u00e7\u00e3o, registrando o n\u00edvel mais alto de alfabetiza\u00e7\u00e3o, os sal\u00e1rios mais altos, a expectativa de vida mais elevada e as taxas de mortalidade infantil e materna mais baixas da \u00cdndia.<\/p>\n<p>Para abordar metodologicamente esse entrela\u00e7amento, Dennis prop\u00f4s uma an\u00e1lise fundamentada no Volume III de O Capital de Karl Marx (1894\/2017). Partindo de tais postulados, o palestrante assinalou que as f\u00e1bricas cooperativas geridas pelas e pelos pr\u00f3prios trabalhadores representam, dentro da velha forma, os primeiros brotos do novo, superando a ant\u00edtese entre o capital e o trabalho ao permitir-lhes usar os meios de produ\u00e7\u00e3o para empregar a sua pr\u00f3pria for\u00e7a de trabalho. No entanto, o palestrante advertiu sobre as contradi\u00e7\u00f5es e os limites objetivos desse modelo ao operar dentro dos limites do capitalismo. Ao n\u00e3o suprimir a produ\u00e7\u00e3o de mercadorias nem a concorr\u00eancia de mercado, as cooperativas podem provocar a fragmenta\u00e7\u00e3o e minar a unidade da classe oper\u00e1ria. Da mesma forma, ao n\u00e3o se integrarem em uma economia socialista planejada, n\u00e3o eliminam o desemprego de forma estrutural e correm o risco latente de que algumas empresas prosperem enquanto outras entrem em fal\u00eancia ou passem a depender cronicamente de subs\u00eddios estatais.<\/p>\n<p>Apesar desses desafios hist\u00f3ricos, o cooperativismo em Kerala surgiu como uma resposta organizada da classe trabalhadora e do movimento campon\u00eas frente a situa\u00e7\u00f5es de crise material e exclus\u00e3o social. Dennis ofereceu uma radiografia dos modelos de vanguarda do estado, que conta com um universo total de 23.167 cooperativas:<\/p>\n<p>ULCCS (Uralungal Labour Contract Cooperative Society): Fundada em 1925 como resposta \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o do sistema de castas, constitui hoje a maior cooperativa de trabalhadores da constru\u00e7\u00e3o civil da \u00c1sia e ocupa o terceiro lugar no ranking cooperativo mundial. Sua junta diretiva \u00e9 eleita democraticamente pelas e pelos oper\u00e1rios e seus dirigentes recebem o mesmo sal\u00e1rio que um trabalhador de base.<\/p>\n<p>Kerala Dinesh Beedi: Formada em 1969 como trincheira de resist\u00eancia frente ao locaute das f\u00e1bricas privadas de cigarros tradicionais, cujos donos preferiram fechar as instala\u00e7\u00f5es antes de conceder sal\u00e1rios dignos e seguridade social.<\/p>\n<p>Rubco: Cooperativa constitu\u00edda em 1997 para amortecer o impacto da queda dr\u00e1stica dos pre\u00e7os internacionais da borracha natural na economia agr\u00edcola.<\/p>\n<p>Milma: Federa\u00e7\u00e3o de Cooperativas de Leite de Kerala, encarregada da coleta e distribui\u00e7\u00e3o de latic\u00ednios sob o lema comunit\u00e1rio: \u201cO povo de Kerala acorda com o que h\u00e1 de bom na Milma\u201d.<\/p>\n<p>Um pilar de import\u00e2ncia estrat\u00e9gica dentro dessa estrutura \u00e9 o setor banc\u00e1rio cooperativo, o qual libertou as fam\u00edlias pobres rurais da usura financeira. Tradicionalmente organizado em um sistema de tr\u00eas n\u00edveis \u2014 sociedades agr\u00edcolas prim\u00e1rias de cr\u00e9dito, bancos distritais e o banco estatal \u2014, o setor se reestruturou em 2019 mediante a fus\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es distritais para fundar o Banco de Kerala. Esse instrumento financeiro conta atualmente com 3.481 ag\u00eancias em todos os vilarejos do estado. Dennis ilustrou o peso material dessa rede assinalando que as 1.607 sociedades de cr\u00e9dito agr\u00edcola prim\u00e1rias de Kerala representam apenas 1,5% do total das sociedades da \u00cdndia, mas concentram 17% do n\u00famero nacional de poupadores e 24% do total dos membros tomadores de empr\u00e9stimo no pa\u00eds at\u00e9 o ano de 2022.<\/p>\n<p>Frente \u00e0 interroga\u00e7\u00e3o se as cooperativas surgem unicamente em regi\u00f5es onde o movimento comunista tem uma presen\u00e7a forte, Dennis respondeu de forma negativa. O palestrante contrastou a experi\u00eancia de Kerala com a de Bengala Ocidental, um estado onde a esquerda governou por d\u00e9cadas, mas n\u00e3o conseguiu desenvolver um movimento cooperativo de for\u00e7a compar\u00e1vel. Para Dennis, a constru\u00e7\u00e3o e a consolida\u00e7\u00e3o do tecido cooperativo n\u00e3o s\u00e3o um resultado autom\u00e1tico, mas uma quest\u00e3o de vontade pol\u00edtica, prioridades institucionais e enfoque metodol\u00f3gico.<\/p>\n<p>No entanto, o caminho dessas experi\u00eancias enfrenta s\u00e9rios desafios diante do avan\u00e7o da globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal. Dennis explicou que cooperativas como a Kerala Dinesh Beedi garantem aos seus integrantes sal\u00e1rios e direitos avan\u00e7ados \u2014 seguro m\u00e9dico, f\u00e9rias pagas e compensa\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas e dominicais \u2014, o que situa seu sal\u00e1rio m\u00e9dio em 530 rupias por cada mil cigarros produzidos. Em contraste, os fabricantes privados dentro de Kerala pagam menos de 200 rupias e, nos estados vizinhos, a remunera\u00e7\u00e3o cai para valores entre 100 e 180 rupias. Essa assimetria eleva os custos operacionais da cooperativa e dificulta sua capacidade de competir no mercado aberto, o que explica por que quase 24% das cooperativas sob o Registrador estatal encontram-se inativas, n\u00e3o operativas ou em processos de liquida\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A esse cen\u00e1rio mercantil soma-se uma ofensiva geopol\u00edtica e institucional por parte da direita. O palestrante alertou que organiza\u00e7\u00f5es de extrema-direita controlam setores cooperativos em estados como Maharashtra e Gujarat, e que atualmente o governo central da \u00cdndia criou um Minist\u00e9rio da Coopera\u00e7\u00e3o em n\u00edvel estatal com o prop\u00f3sito expl\u00edcito de intervir e disputar o controle do din\u00e2mico setor de Kerala. Diante dessas amea\u00e7as, Dennis destacou o papel do Kudumbashree, um movimento comunit\u00e1rio baseado em princ\u00edpios cooperativos que agrupa mais de 4 milh\u00f5es de mulheres. Para mar\u00e7o de 2025, essa rede sustentava cerca de 157.900 microempresas coletivas (empregando mais de 318.000 pessoas) que abrangem a confec\u00e7\u00e3o de roupas, restaurantes, academias, creches e unidades de agricultura coletiva (Sangha krishi), onde as mulheres arrendam e cultivam terras em comum com o apoio governamental.<\/p>\n<p>Thomas Isaac conceitualiza tr\u00eas pap\u00e9is fundamentais para o cooperativismo em Kerala: o bem-estar social b\u00e1sico para a reorganiza\u00e7\u00e3o agr\u00edcola e industrial, a reestrutura\u00e7\u00e3o banc\u00e1ria para mobilizar recursos rumo ao desenvolvimento e o investimento em macroestrutura mediante ag\u00eancias \u00e9ticas e democr\u00e1ticas como a ULCCS. No entanto, a experi\u00eancia concreta no territ\u00f3rio revela uma tens\u00e3o permanente entre esses horizontes planejados e a realidade material do mercado. Embora o segundo e o terceiro papel tenham alcan\u00e7ado um sucesso not\u00e1vel mediante a consolida\u00e7\u00e3o do Banco de Kerala e a execu\u00e7\u00e3o transparente de obras p\u00fablicas em tempo recorde, a moderniza\u00e7\u00e3o cooperativa da agricultura e das ind\u00fastrias tradicionais segue enfrentando barreiras severas devido \u00e0 escassez cr\u00f4nica de recursos e \u00e0s press\u00f5es competitivas da globaliza\u00e7\u00e3o. Esse contraste demonstra que, enquanto o Estado indiano permanecer ancorado em estruturas capitalistas, as cooperativas locais operar\u00e3o como trincheiras de resist\u00eancia e bem-estar para a classe trabalhadora, mas ver\u00e3o limitado o seu potencial de transforma\u00e7\u00e3o integral se n\u00e3o forem assumidas de maneira sustentada como um projeto pol\u00edtico de longo f\u00f4lego.<\/p>\n<p>A partir da densa caracteriza\u00e7\u00e3o exposta pelo palestrante, \u00e9 poss\u00edvel deduzir que o cooperativismo em Kerala opera sob uma dupla condi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Por um lado, configura-se como uma das conquistas materiais mais avan\u00e7adas da classe oper\u00e1ria organizada, capaz de blindar o tecido social e redistribuir a renda rural mediante o controle do cr\u00e9dito e da obra p\u00fablica. Por outro, ao carecer de um arcabou\u00e7o macroecon\u00f4mico de planejamento socialista centralizado em n\u00edvel de toda a \u00cdndia, o modelo v\u00ea-se obrigado a travar uma extenuante guerra de posi\u00e7\u00f5es defensiva contra o mercado desregulamentado e o ass\u00e9dio institucional do governo central de direita. Sua persist\u00eancia, portanto, n\u00e3o depende da in\u00e9rcia institucional, mas sim da mobiliza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica de suas bases.<\/p>\n<p><strong>China (Guizhou): A Superliga das Aldeias, a paix\u00e3o pelo futebol e a prosperidade coletiva<\/strong><\/p>\n<p>A terceira apresenta\u00e7\u00e3o do semin\u00e1rio, proferida por Sun Xiaowei, ofereceu um panorama sobre a profunda integra\u00e7\u00e3o local da cultura, do esporte e do turismo na Rep\u00fablica Popular da China. Sun contextualizou sua pr\u00f3pria trajet\u00f3ria como o reflexo vivo de uma pol\u00edtica institucional de quadros (o \u201cSistema de Assist\u00eancia de Emparelhamento de Unidades Centrais\u201d): originalmente quadro da Administra\u00e7\u00e3o Nacional de Ferrovias na capital, Pequim, ela foi temporariamente designada como vice-diretora do Departamento de Cultura, Esportes, R\u00e1dio, Televis\u00e3o e Turismo no condado de Rongjiang, pertencente \u00e0 prov\u00edncia de Guizhou, no sudoeste do pa\u00eds. Segundo ela, essa pr\u00e1tica estatal busca submergir de maneira direta os quadros t\u00e9cnicos nas realidades das bases para fechar as lacunas de desigualdade entre as zonas ricas e pobres, assegurando que as pol\u00edticas p\u00fablicas sejam formuladas e ganhem ra\u00edzes a partir das experi\u00eancias vividas pelas comunidades locais.<\/p>\n<p>Rongjiang, detalhou Sun, era historicamente um dos condados mais pobres da China e constituiu um dos \u00faltimos territ\u00f3rios a erradicar formalmente a pobreza extrema no final de 2020. A partir de 2021, o governo local e as comunidades come\u00e7aram a debater e pesquisar diversas alternativas estrat\u00e9gicas baseadas no potencial da popula\u00e7\u00e3o para dinamizar a economia local. O objetivo era encontrar uma atividade de participa\u00e7\u00e3o massiva e sustent\u00e1vel que pudesse ser desenvolvida durante todo o ano. A resposta das bases foi o futebol, uma paix\u00e3o comunit\u00e1ria amadora que, ap\u00f3s o isolamento e o confinamento da pandemia de COVID-19, canalizou o entusiasmo e a necessidade de encontro de todo o povo. Foi assim que em 2023 se popularizou e viralizou de forma massiva nas redes sociais a Superliga das Aldeias (\u201cCunchao\u201d), um torneio autogestionado que transformou o tr\u00e1fego e a visibilidade digital em crescimento econ\u00f4mico real.<\/p>\n<p>A palestrante relatou uma experi\u00eancia de a\u00e7\u00e3o coletiva popular ocorrida em junho de 2025, quando o condado sofreu uma severa inunda\u00e7\u00e3o que cobriu as moradias at\u00e9 o terceiro andar e deixou o est\u00e1dio central inutiliz\u00e1vel sob camadas de barro e lama. Devido ao reconhecimento e \u00e0 solidariedade que a Superliga das Aldeias j\u00e1 inspirava, milhares de volunt\u00e1rios locais e de diversas regi\u00f5es do mundo mobilizaram-se de forma imediata. Em apenas um m\u00eas, a a\u00e7\u00e3o coletiva conseguiu limpar a cidade, cozinhar coletivamente, restaurar o est\u00e1dio e reativar as partidas de futebol em tempo recorde, demonstrando a capacidade do povo para se sobrepor \u00e0s dificuldades e aos desastres naturais mediante a organiza\u00e7\u00e3o a partir de baixo.<\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia de prosperidade compartilhada de Guizhou combina de forma virtuosa a difus\u00e3o nas novas m\u00eddias, o turismo, o esporte e a cultura \u00e9tnica. Sun explicou que foram impulsionadas capacita\u00e7\u00f5es massivas para que as e os camponeses utilizassem seus telefones celulares e c\u00e2meras como ferramentas e novos meios de produ\u00e7\u00e3o. Essa democratiza\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o permitiu que as av\u00f3s e os jovens se tornassem embaixadores de seu pr\u00f3prio territ\u00f3rio, comercializando diretamente seus alimentos e os t\u00eaxteis tradicionais das cooperativas de vestu\u00e1rio, superando as cadeias tradicionais de intermedia\u00e7\u00e3o comercial.<\/p>\n<p>O futebol atua assim como o eixo vertebrador de um ecossistema socioecon\u00f4mico e cultural onde o povo \u00e9 o protagonista irrenunci\u00e1vel. Durante os intervalos das partidas, o campo de futebol se transforma em um palco p\u00fablico onde se apresentam as dan\u00e7as tradicionais e desfiles de roupas aut\u00f3ctones, unindo comunidades que antes viviam isoladas. A chegada massiva de turistas alavancou o consumo local em gastronomia e hospedagem; o condado passou de contar com apenas um hotel para possuir mais de oito complexos hoteleiros de quatro estrelas, duplicando o n\u00famero de leitos dispon\u00edveis de 5.900 para 12.800. Para proteger esse fluxo, a pr\u00f3pria comunidade se organizou para evitar a especula\u00e7\u00e3o financeira, mantendo pre\u00e7os est\u00e1veis e razo\u00e1veis no buffet e no transporte. Essa reputa\u00e7\u00e3o de hospitalidade garantiu uma alta taxa de retorno dos visitantes e atraiu empresas de alta tecnologia (drones e ve\u00edculos avan\u00e7ados) interessadas em publicitar suas inova\u00e7\u00f5es no est\u00e1dio.<\/p>\n<p>Um recurso primordial dessa experi\u00eancia tem sido a gest\u00e3o e o retorno do talento. Por ser Rongjiang uma regi\u00e3o remota, a juventude com habilidades extraordin\u00e1rias costumava migrar para as grandes cidades, deixando um vazio demogr\u00e1fico de crian\u00e7as e idosos. A Superliga das Aldeias reverteu essa tend\u00eancia ao certificar e valorizar os saberes locais, tornando-se uma plataforma atrativa que convocou e trouxe de volta o talento jovem para liderar os projetos de suas aldeias. Na atualidade, o torneio se projeta em uma estrat\u00e9gia de tr\u00eas passos: consolidar as partidas locais, realizar encontros amistosos nacionais e, de olho no futuro, inspirar comunidades de todo o mundo a trazer suas culturas ao est\u00e1dio.<\/p>\n<p>Este ecossistema econ\u00f4mico se sustenta sobre um modelo cooperativo estrito de reparti\u00e7\u00e3o de lucros gerados pela marca comercial da Village Super League. Os ganhos obtidos em opera\u00e7\u00f5es com empresas externas entram em uma corpora\u00e7\u00e3o de propriedade estatal e s\u00e3o distribu\u00eddos sob uma f\u00f3rmula de propriedade coletiva:<\/p>\n<p>O 51% dos lucros: Destina-se de maneira direta a fortalecer a economia coletiva da aldeia e expandir o capital operacional das cooperativas rurais.<\/p>\n<p>O 49% dos lucros: S\u00e3o reinvestidos no financiamento das atividades esportivas, treinamentos t\u00e9cnicos, compra de uniformes e log\u00edstica das equipes juvenis e das animadoras de torcida (l\u00edderes de torcida).<\/p>\n<p>A Cooperativa Feminina Sunshine representa um exemplo vivo dessa diversifica\u00e7\u00e3o de renda: as mulheres atuam como agricultoras durante o dia, gerindo suas vendas agroecol\u00f3gicas por canais digitais, e \u00e0 noite se transformam em unidades de gastronomia coletiva dentro do est\u00e1dio, enriquecendo cultural e economicamente a vida comunit\u00e1ria. Essa engrenagem implicou uma reconvers\u00e3o do governo local, quetransitou de uma fun\u00e7\u00e3o tradicional de controle burocr\u00e1tico para um papel de guia ativo e provedor de servi\u00e7os p\u00fablicos essenciais. O Estado assegurou o marco material da infraestrutura (est\u00e1dio, estacionamentos, banheiros, plataformas de com\u00e9rcio eletr\u00f4nico) e coordenou redes de transporte mediante \u00f4nibus (shuttle buses) vindos das montanhas distantes, garantindo que os benef\u00edcios retornem diretamente \u00e0 base social. \u00c9 um modelo que, nas palavras de Sun, funciona sob quatro pilares integrados: \u201cO Governo \u00e9 eficaz, o Mercado funciona, o Povo demonstra afeto e a Tecnologia empodera\u201d.<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"563\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/word-image-china.webp\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/word-image-china.webp 1000w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/word-image-china-300x169.webp 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/word-image-china-768x432.webp 768w\" sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\"><figcaption><em>Em 2023, a \u201cSuperliga Popular\u201d, ou \u201cCun Chao\u201d, tornou-se uma sensa\u00e7\u00e3o nacional. Fonte: ChinaDaily\/Xinhua<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>A experi\u00eancia chinesa traz uma li\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica fundamental sobre o desenvolvimento rural na transi\u00e7\u00e3o socialista. O sucesso do modelo n\u00e3o reside na simples inje\u00e7\u00e3o de capital ou de assist\u00eancia t\u00e9cnica vertical, mas na capacidade de identificar e ativar o potencial afetivo e cultural das massas \u2014 neste caso, a paix\u00e3o popular pelo futebol \u2014 como o motor dinamizador das for\u00e7as produtivas locais. Ao subordinar o mercado \u00e0s necessidades da comunidade e democratizar os meios de comunica\u00e7\u00e3o digitais para eliminar a intermedia\u00e7\u00e3o, a cooperativiza\u00e7\u00e3o em Rongjiang demonstra que o lazer, a identidade \u00e9tnica e a produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica coletiva podem se fundir organicamente para edificar uma territorialidade soberana que prefigura novas formas de vida comunit\u00e1ria.<\/p>\n<p><strong>Conclus\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>Durante a sess\u00e3o de encerramento do semin\u00e1rio, Nitheesh Narayan, um dos moderadores do evento, apresentou um resumo anal\u00edtico orientado a identificar os pontos de encontro pol\u00edticos e metodol\u00f3gicos entre as palestras. Em seu balan\u00e7o geral, ele destacou de forma contundente que, apesar de os projetos apresentados provirem de geografias distantes, trajet\u00f3rias hist\u00f3ricas distintas e arcabou\u00e7os institucionais sumamente diversos, as tr\u00eas experi\u00eancias compartilham uma mesma ess\u00eancia transformadora. A pr\u00e1tica cooperativa, quando assumida a partir de uma perspectiva integral e n\u00e3o meramente mercantil, contribui de maneira direta para a democratiza\u00e7\u00e3o profunda da sociedade, devolvendo \u00e0s maiorias populares o controle sobre as decis\u00f5es que definem sua exist\u00eancia material e espiritual.<\/p>\n<p>Ao detalhar o caso da Venezuela, a modera\u00e7\u00e3o ressaltou que o modelo comunal traz uma confirma\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica de como a participa\u00e7\u00e3o local e o autogoverno territorial transformam a tomada de decis\u00f5es em uma pr\u00e1tica soberana cotidiana, o que se evidencia tangivelmente na industrializa\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o direta do caf\u00e9 nas m\u00e3os das e dos produtores camponeses. Quanto \u00e0 Superliga das Aldeias na China, o balan\u00e7o sublinhou que a organiza\u00e7\u00e3o cooperativa em Rongjiang demonstra como um catalisador cultural e esportivo de profundo enraizamento afetivo como o futebol pode articular as for\u00e7as produtivas locais e o turismo, garantindo que o povo se aproprie coletivamente de todas as dimens\u00f5es da vida digna. Finalmente, a respeito da experi\u00eancia de Kerala na \u00cdndia, as conclus\u00f5es enfatizaram como o seu robusto setor cooperativo e de cr\u00e9dito rural \u2014 que hoje sustenta os indicadores sociais mais elevados do pa\u00eds \u2014 \u00e9 o resultado hist\u00f3rico direto de d\u00e9cadas de acumula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e lutas oper\u00e1rias contra o feudalismo, o colonialismo e o sistema de castas.<\/p>\n<p>Finalmente, o semin\u00e1rio encerrou sua quinta sess\u00e3o englobando essas tr\u00eas vis\u00f5es n\u00e3o como receitas est\u00e1ticas ou modelos fechados para serem imitados acriticamente, mas como um mapa de alternativas soberanas e um farol conceitual para as lutas dos povos do Sul Global. A articula\u00e7\u00e3o dessas experi\u00eancias de resist\u00eancia e criatividade popular estende, desde j\u00e1, uma s\u00f3lida ponte internacionalista rumo \u00e0 sexta sess\u00e3o do semin\u00e1rio, a qual manter\u00e1 viva a chama do debate e da constru\u00e7\u00e3o coletiva ao centrar seu olhar nas ricas e complexas experi\u00eancias das lutas populares em Gana.<\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/2026\/07\/05\/cooperativismo-do-sul-global-modelos-comunais-e-cooperativos-na-venezuela-na-india-e-na-china\/\">Cooperativismo do Sul Global: Modelos Comunais e Cooperativos na Venezuela, na \u00cdndia e na China<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/\">MST<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/terceirizada-que-manteve-200-trabalhadores-em-condicao-de-escravidao-e-multada-em-r-3-milhoes\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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