{"id":94745,"date":"2026-07-08T04:00:00","date_gmt":"2026-07-08T07:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/confidencial-as-digitais-do-fbi-na-lava-jato-triplo-x\/"},"modified":"2026-07-08T04:00:00","modified_gmt":"2026-07-08T07:00:00","slug":"confidencial-as-digitais-do-fbi-na-lava-jato-triplo-x","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/confidencial-as-digitais-do-fbi-na-lava-jato-triplo-x\/","title":{"rendered":"Confidencial: as digitais do FBI na Lava Jato \u2014 \u201cTriplo X\u201d"},"content":{"rendered":"<p>Come\u00e7amos o epis\u00f3dio entendendo mais sobre os diretores da Petrobras acusados de corrup\u00e7\u00e3o, e todo o impacto que isso gerou na estatal. Alice consegue entrevistar uma fonte que n\u00e3o fala com a imprensa h\u00e1 dez anos, escutamos \u00e1udios vazados entre procuradores que revelam detalhes da parceria com os EUA. Amanda conversa com a defesa do presidente Lula para entender melhor o que \u00e9 lawfare.<\/p>\n<p>Ou\u00e7a agora o epis\u00f3dio 3!<\/p>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div><\/div>\n<h3>Confidencial: as digitais do FBI na Lava Jato<\/h3>\n<div>\n<p>\t\t\t\t\t\t<i><\/i><br \/>\n\t\t\t\t\t\t<i><\/i><\/p>\n<p>\t\t\t\t\t\t<!--<i class=\"fa-solid fa-arrow-right fa-2x\"><\/i>-->\n\t\t\t\t\t<\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div data-init=\"0\" data-id=\"258505\" data-playing=\"0\">\n<p>\t\t\t\t\t<audio src=\"https:\/\/apublica.org\/2026\/07\/confidencial-as-digitais-do-fbi-na-lava-jato-triplo-x\/\" preload=\"none\"><\/audio><\/p>\n<div>\n<div>\n<div>\n<p>\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<i><\/i><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<i><\/i><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/span><\/p><\/div>\n<div>\n<div><\/div>\n<div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span><span>0:00<\/span><\/span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span><span>-:\u2013<\/span><\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t1\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n<div>\n<h4>Epis\u00f3dio 3: Triplo X<\/h4>\n<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<p>\t\t\t\t\t\t\t\t\t<audio src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Episodio-3-Confidencial-as-digitais-do-FBI-na-Lava-Jato-25E225802594-Triplo-X.mp3\" preload=\"none\"><\/audio><\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<h2><strong>Confira abaixo o roteiro do epis\u00f3dio na \u00edntegra<\/strong><\/h2>\n<p><strong>EPIS\u00d3DIO 03: TRIPLO X<\/strong><\/p>\n<p>[Ricardo Terto]<\/p>\n<p>Voc\u00ea est\u00e1 ouvindo uma \u00e1udio s\u00e9rie, Original Audible. Para conhecer mais hist\u00f3rias surpreendentes e imersivas como est\u00e1, acesse o site audible.com.br. Fa\u00e7a sua conta e teste gr\u00e1tis por 30 dias ou por 3 meses, se voc\u00ea for membro Amazon Prime.<\/p>\n<p>Este Original Audible \u00e9 baseado em eventos reais de conhecimento p\u00fablico, documentados em livros publicados, autos de processos judiciais, mat\u00e9rias e apura\u00e7\u00f5es jornal\u00edsticas, entrevistas e pesquisas em documentos p\u00fablicos. As narrativas podem conter refer\u00eancias a terceiros. Os depoimentos e opini\u00f5es s\u00e3o de responsabilidade dos participantes ou especialistas e podem refletir diferentes perspectivas dos eventos.<\/p>\n<p>[material de arquivo]<\/p>\n<p>William Bonner: A Pol\u00edcia Federal prendeu hoje de manh\u00e3 um ex -diretor da Petrobras. Paulo Roberto Costa \u00e9 suspeito de envolvimento em opera\u00e7\u00f5es de lavagem de dinheiro que movimentaram dez bilh\u00f5es de reais. Na casa dele no Rio, os agentes apreenderam 700 mil reais em dinheiro e 200 mil d\u00f3lares. A Pol\u00edcia Federal afirma que Paulo Roberto Costa estava destruindo provas. Ele vai cumprir cinco dias de pris\u00e3o tempor\u00e1ria.<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>Segundo a hist\u00f3ria oficial da Lava Jato, as investiga\u00e7\u00f5es teriam chegado \u00e0 Petrobras quase por acaso. Ao monitorar as conversas dos doleiros, a Pol\u00edcia Federal descobriu que Alberto Youssef havia doado um Land Rover Evoque em maio de 2013 para o ent\u00e3o diretor de abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa, que havia deixado a estatal em abril de 2012. Um presentinho desses, avaliado em 250 mil reais, era ind\u00edcio de corrup\u00e7\u00e3o \u2013 ou, pelo menos, alguma lavagem de dinheiro. No dia em que a opera\u00e7\u00e3o saiu da fase sigilosa e ganhou as ruas, 17 de mar\u00e7o de 2014, c\u00e2meras internas flagraram familiares de Paulo Roberto Costa levando documentos do seu escrit\u00f3rio onde mantinha uma consultoria. Tr\u00eas dias depois, ele foi preso por tentativa de destrui\u00e7\u00e3o de provas. A partir da\u00ed a Lava Jato tomou outra propor\u00e7\u00e3o e logo chacoalharia a Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>[Vinheta de abertura]<\/p>\n<p>Eu sou Natalia Viana, jornalista investigativa e apresentadora da s\u00e9rie \u201cConfidencial: as digitais do FBI na Lava Jato\u201d. No primeiro epis\u00f3dio, encontramos fatos concretos que mostram a coopta\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal brasileira por ag\u00eancias americanas no come\u00e7o dos anos 2000. No segundo, nos aproximamos de personagens quase folcl\u00f3ricos da pol\u00edtica brasileira: os doleiros, que est\u00e3o na origem da Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato. E agora ao lado das jornalistas Amanda Audi e Alice Maciel vamos tentar descobrir em detalhes como foi a coopera\u00e7\u00e3o entre autoridades brasileiras e americanas e quais eram os interesses pol\u00edticos internacionais em jogo.\u00a0<\/p>\n<p>Epis\u00f3dio 03: \u201cTriplo X\u201d<\/p>\n<p>[material de arquivo]\u00a0<\/p>\n<p>Depoimento Paulo Roberto Costa: Desde que eu me conhe\u00e7o como Petrobras, sempre soube que n\u00e3o se chegava \u00e0 diretoria da Petrobras sem apoio pol\u00edtico. Eu entrei na diretoria em 2004, apoiado pelo PP.<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>Esse \u00e9 um trecho do depoimento de Paulo Roberto Costa \u00e0 Justi\u00e7a, dado em 14 de setembro de 2015. Ele foi o primeiro delator da Lava Jato, mas segundo um de seus colegas de cela que ouvimos no outro epis\u00f3dio, o doleiro Carlos Habib Chater, sua dela\u00e7\u00e3o s\u00f3 veio depois de muita press\u00e3o \u2013 a palavra que ele usou foi \u201ctortura\u201d. Na sua dela\u00e7\u00e3o ele detalhou o esquema de corrup\u00e7\u00e3o na Petrobras: em resumo, 3% dos pre\u00e7os de todos os contratos eram superfaturados e devolvidos para partidos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>[material de arquivo]\u00a0<\/p>\n<p>Depoimento Paulo Roberto Costa: os diretores que entraram em 2003, em janeiro de 2003, tamb\u00e9m tinham o apoio de partidos, principalmente do PT e do PMDB. Ent\u00e3o, vamos dizer, a diretoria sempre teve apoio pol\u00edtico, para chegar a [ser] diretor tinha que ter apoio pol\u00edtico, se n\u00e3o, n\u00e3o chegava por m\u00e9ritos pr\u00f3prios. Era assim que funcionava a Petrobras.<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Segundo a Lava Jato, a distribui\u00e7\u00e3o de cargos na diretoria da Petrobras por partidos pol\u00edticos foi um sistema que teria sido estruturado pelo deputado Jos\u00e9 Janene, do PP do Paran\u00e1. Voc\u00ea j\u00e1 ouviu isso anteriormente. Cada partido colocava ali um aliado e esse aliado organizava a contrapartida.<\/p>\n<p>[material de arquivo]\u00a0<\/p>\n<p>Depoimento Paulo Roberto Costa: \u00c9, os partidos pol\u00edticos apoiavam, visando obter algum interesse, em rela\u00e7\u00e3o a algum retorno financeiro para esses partidos. Isso n\u00e3o era apenas na Petrobras, como tamb\u00e9m j\u00e1 declarei v\u00e1rias vezes, isso tamb\u00e9m funcionava em outros \u00f3rg\u00e3os de governo, em outras estatais.<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>Esse esquema era um segredo de polichinelo em Bras\u00edlia \u2013 aquela coisa que todo mundo j\u00e1 ouviu falar, mas ningu\u00e9m comprova. Com a Lava Jato, pela primeira vez ele era minuciosamente exposto numa investiga\u00e7\u00e3o. E o <em>timing<\/em> n\u00e3o poderia ser melhor \u2013 ou pior, dependendo de que lado voc\u00ea est\u00e1 \u2013 porque vinha justamente no momento em que uma disputa comercial acontecia nos bastidores do poder, ap\u00f3s a descoberta do pr\u00e9-sal.<\/p>\n<p>Voc\u00ea que tem me acompanhado nessa jornada j\u00e1 sabe que eu sempre recorro aos documentos vazados pelo WikiLeaks para entender interesses americanos. Desta vez, resolvi buscar no site provas dos interesses sobre a Petrobras. Encontrei uma s\u00e9rie com seis telegramas enviados de Bras\u00edlia entre 2009 e 2010 que detalham como a embaixada e petroleiras americanas faziam lobby contra a lei nacionalista aprovada pelo governo Lula para explora\u00e7\u00e3o do pr\u00e9-sal. Todas as empresas estrangeiras tinham que se associar \u00e0 Petrobras para explorar essas reservas. E elas n\u00e3o gostavam nada disso.<\/p>\n<p>Um documento confidencial, de 2 de dezembro de 2009, relata uma conversa na qual a diretora de rela\u00e7\u00f5es governamentais da Chevron pede para que o embaixador americano atue em favor das petroleiras. Ela fala, abre aspas, que\u00a0 a ind\u00fastria vinha \u201ctravando uma dura batalha\u201d para mudar a legisla\u00e7\u00e3o.\u00a0 Diz que at\u00e9 se reuniu com pol\u00edticos importantes da oposi\u00e7\u00e3o, como Jos\u00e9 Serra, do PSDB, que chegou a prometer que iria alterar a lei no futuro, mas reclamou que o partido \u201csimplesmente n\u00e3o apareceu nesse debate\u201d. Ela disse suspeitar que a Petrobras estaria inflando os n\u00fameros dos barris de petr\u00f3leo das reservas do pr\u00e9-sal, e ainda passou uma dica importante: \u201cNa verdade, n\u00e3o acreditamos que a Petrobras est\u00e1 fazendo as coisas como manda o figurino\u201d. No despacho, o diplomata Dennis W. Hearne completou:<\/p>\n<p>Efeito sonoro: alerta para leitura de mensagem<\/p>\n<p>[Leitura na voz de Nat\u00e1lia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>\u201cA Petrobras est\u00e1 atualmente sob investiga\u00e7\u00e3o do Congresso por pr\u00e1ticas fraudulentas \u2014 sonega\u00e7\u00e3o de impostos, superfaturamento de mercadorias e doa\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis a apoiadores de Lula \u2014 mas espera-se que seja inocentada das acusa\u00e7\u00f5es por um comit\u00ea do Senado controlado pela coaliz\u00e3o governista\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>Esses documentos revelam que existia interesse de petroleiras americanas em reverter a lei do pr\u00e9-sal para obter vantagens e lucros na explora\u00e7\u00e3o. E elas contavam com o apoio da embaixada americana. E, nessa guerra comercial, os executivos da empresa e os diplomatas americanos estavam muito atentos \u00e0s quest\u00f5es internas da Petrobras \u2013 inclusive, o tema da corrup\u00e7\u00e3o. Essa rede de interesses estava se desenrolando a portas fechadas, anos antes de a Lava Jato explodir.<\/p>\n<p>Paulo Roberto Costa morreu em 2022, ent\u00e3o n\u00e3o vamos conseguir entrevistar o delator n\u00famero 1 da Lava Jato. Mas, nesta miss\u00e3o de ouvir fontes que viveram essa hist\u00f3ria, conseguimos falar com um ex-colega dos tempos de Petrobras, que logo tamb\u00e9m se tornaria alvo da opera\u00e7\u00e3o. \u00c9 algu\u00e9m que n\u00e3o fala com a imprensa h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada. Mas para isso,\u00a0 Alice precisou fazer uma viagem \u00e0s pressas.<\/p>\n<p>[Sons areporto]<\/p>\n<p>Ambi\u00eancia interna do avi\u00e3o pousando. Aeromo\u00e7a: Chegamos ao Rio de Janeiro, aeroporto Santos Dumont, agora:\u00a0 22 horas e 46 minutos, hor\u00e1rio local. Permane\u00e7am sentados, com os cintos afivelados, at\u00e9 que a aeronave pare completamente.<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>Apesar de Alice ter topado ir at\u00e9 o Rio s\u00f3 para a ocasi\u00e3o, na \u00faltima hora o Nestor decidiu fazer a entrevista online. Ele explicou que, depois da exposi\u00e7\u00e3o da \u00e9poca da Lava Jato, hoje, aos 73 anos de idade, ele prefere levar uma vida discreta. Al\u00e9m disso, como nossa apura\u00e7\u00e3o aqui \u00e9 \u201ccom emo\u00e7\u00e3o\u201d, n\u00e3o foi f\u00e1cil para nossa equipe lidar com os problemas t\u00e9cnicos na hora de gravar.<\/p>\n<p>[conversas bastidores da grava\u00e7\u00e3o]\u00a0<\/p>\n<p>Alice: Se voc\u00ea quiser, ajuda. Eu nunca usei esse programa no celular. Jo\u00e3o Pedro:\u00a0 Ele falou que\u00a0 n\u00e3o t\u00e1 conseguindo. Alice: N\u00e3o t\u00e1 conseguindo? Voc\u00ea mandou o novo? Jo\u00e3o Pedro: Mandei o link. Alice: Ele conseguiria entrar do computador? Sen\u00e3o a gente manda pelo Meet, alguma coisa assim. Jo\u00e3o Pedro fala ao telefone: Oi. Voc\u00ea clica no link e n\u00e3o aparece nada? Alice: Pode ser do celular. Jo\u00e3o Pedro: Ah, tem que botar o nome e apertar <em>joined<\/em>. O seu nome, Nestor. Pode p\u00f4r Nestor. Eu botei o meu Jo\u00e3o Pedro.<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>Alice t\u00e1 aqui tentando ajudar Cerver\u00f3 a usar o programa de grava\u00e7\u00e3o corretamente. Mas enfim, alguns problemas t\u00e9cnicos depois:<\/p>\n<p>[Entrevista Nestor Cerver\u00f3]<br \/>Cerver\u00f3: Bom, eu vou falar, e se voc\u00ea n\u00e3o estiver me ouvindo direito. Voc\u00ea manda um sinal, t\u00e1? Alice: Eu estou te ouvindo, sim. Cerver\u00f3: Faz 10 anos que eu n\u00e3o falo, n\u00e3o dou entrevista. Eu usava muita entrevista, na \u00e9poca em que eu era diretor e depois da Lava Jato para c\u00e1, eu fiz quest\u00e3o de n\u00e3o manifestar.<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>Cerver\u00f3 chegou ao cargo de diretor da \u00e1rea internacional da Petrobras em 2003, com apoio do PT e do PMDB. Ele foi um dos primeiros investigados pela Lava Jato e, j\u00e1 na condi\u00e7\u00e3o de delator, acabou colaborando pessoalmente com os procuradores americanos.<\/p>\n<p>[Entrevista Nestor Cerver\u00f3]<\/p>\n<p>Cerver\u00f3: eu era totalmente controlado. Eu fiquei tr\u00eas anos preso em casa, preso em domic\u00edlio. Ent\u00e3o eu tinha que me submeter\u2026 eu dependia de uma boa vontade, vamos chamar assim, dos procuradores. Isso foi colocado, para continuar essa boa vontade, que de fato nunca houve, mas para n\u00e3o piorar a situa\u00e7\u00e3o era importante que eu participasse e fizesse um depoimento a esse pessoal todo dos Estados Unidos. N\u00e3o tinha muito como me recusar, e dizer \u201cn\u00e3o quero saber, n\u00e3o vou cooperar, n\u00e3o vou fazer depoimento nenhum\u201d, porque houve essa press\u00e3o. Alice: Isso foi falado abertamente? Que fazer a colabora\u00e7\u00e3o com os americanos ajudaria na rela\u00e7\u00e3o aqui no Brasil? Nestor: As coisas n\u00e3o s\u00e3o, desculpa, as coisas n\u00e3o s\u00e3o faladas assim, tipo n\u00e3o foi escrito. Evidentemente que isso n\u00e3o foi. A contrapartida oficial que me foi apresentada, isso sim, foi escrito: que eu n\u00e3o seria processado nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<br \/>Os procuradores dos EUA investigavam a corrup\u00e7\u00e3o na Petrobras, com base numa lei americana que ainda vamos entender mais a fundo nesta s\u00e9rie. O objetivo nesta investiga\u00e7\u00e3o era obter uma multa expressiva, como maneira de dar exemplo. Agora, para muitos investigados na Lava Jato, colaborar com os americanos era ben\u00e9fico, porque eles n\u00e3o queriam ser proibidos de entrar nos EUA. Estamos falando de altos executivos que levavam seus filhos pra viajar pra Disney, alguns tinham casa em Miami, outros at\u00e9 moravam por l\u00e1. Mas como era a aproxima\u00e7\u00e3o entre as autoridades americanas e os investigados brasileiros?\u00a0<\/p>\n<p>Antes mesmo de conseguir falar com Cerver\u00f3, Alice fez a li\u00e7\u00e3o de casa, claro. Dentre as dezenas de pessoas ligadas a essa complexa investiga\u00e7\u00e3o, ela conseguiu conversar em off com algu\u00e9m que integrava a equipe de defesa de alguns dos r\u00e9us, e que participou de v\u00e1rios acordos com os americanos. Essa fonte n\u00e3o p\u00f4de dar entrevista, porque esses acordos s\u00e3o sigilosos. Portanto, n\u00e3o podemos revelar a identidade dessa fonte, mas em <em>off<\/em>, essa pessoa confidenciou \u00e0 Alice como era a negocia\u00e7\u00e3o. Vamos reproduzir aqui o passo a passo, na voz de Alice:\u00a0<\/p>\n<p>[Alice Maciel]<br \/>A primeira etapa era a exist\u00eancia de uma pista sobre o investigado. Como essa pista surgia? Quase sempre \u00e9 porque os procuradores brasileiros j\u00e1 tinham acionado algum \u00f3rg\u00e3o americano, pedindo informa\u00e7\u00f5es. Ent\u00e3o, os americanos estavam ligados que aquela pessoa poderia render algo para investiga\u00e7\u00e3o deles. O pr\u00f3ximo passo, era o contato com o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, avisando que eles tinham interesse em entrevistar o delator, que j\u00e1 estava colaborando com a Lava Jato. Feito o contato com o MPF, os americanos come\u00e7am a negociar diretamente com os advogados dos investigados brasileiros at\u00e9 chegarem num acordo v\u00e1lido nos Estados Unidos.<em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>Tudo muito bonito, no papel. Como j\u00e1 ouvimos com Cerver\u00f3, nessa dan\u00e7a entre\u00a0 Justi\u00e7a americana, Justi\u00e7a brasileira, executivos, doleiros e pol\u00edticos acusados de corrup\u00e7\u00e3o, existiam muitas nuances. Algumas delas s\u00f3 podemos entender apelando pro juridiqu\u00eas. Vamos chegar l\u00e1, mas antes, vale lembrar da entrevista que Amanda e eu fizemos com Jos\u00e9 Eduardo Cardozo, que era ministro da Justi\u00e7a, na mesma \u00e9poca em que Cerver\u00f3 estava, nas suas palavras, sendo pressionado para colaborar com a Justi\u00e7a americana. O ex-ministro nos contou sobre uma visita inesperada de uma delega\u00e7\u00e3o de americanos a Curitiba no ano de 2015.\u00a0<\/p>\n<p>Som de fita rebobinando.<\/p>\n<p>[Entrevista Jos\u00e9 Eduardo Cardozo]<br \/>Natalia: E a primeira vez em que houve ind\u00edcios de que havia conversas com os americanos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Lava Jato, em rela\u00e7\u00e3o a investigar Petrobras, foi naquela visita de Curitiba ou o senhor soube antes que havia tratado isso? Cardozo: Veja, eu nunca fui informado, oficialmente, de que havia algum tipo de troca de informa\u00e7\u00f5es da \u00e1rea de intelig\u00eancia com a Pol\u00edcia Federal e autoridades estrangeiras em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Lava Jato.<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>Essa hist\u00f3ria foi revelada por causa do vazamento dos di\u00e1logos da For\u00e7a-Tarefa em Curitiba, como voc\u00ea sabe, \u00e9 a Vaza Jato. Os di\u00e1logos provavam que uma delega\u00e7\u00e3o de investigadores americanos visitou a sede do MPF em Curitiba para obter informa\u00e7\u00f5es sem seguir o procedimento correto. Todo pedido de coopera\u00e7\u00e3o internacional deve passar pela \u201cautoridade central\u201d, o Departamento de Recupera\u00e7\u00e3o de Ativos e Coopera\u00e7\u00e3o Jur\u00eddica Internacional, ou DRCI, que \u00e9 um \u00f3rg\u00e3o do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a. Ou seja, o nosso entrevistado, que na \u00e9poca era o pr\u00f3prio ministro da Justi\u00e7a, deveria ter sido pelo menos informado com anteced\u00eancia.<\/p>\n<p>[Entrevista Jos\u00e9 Eduardo Cardozo]<\/p>\n<p>Cardozo: Houve algumas situa\u00e7\u00f5es curiosas que me levavam posteriormente \u00e0 ideia de que poderia haver a troca de informa\u00e7\u00f5es? Sim. Me lembro uma vez que os \u00f3rg\u00e3os da Pol\u00edcia Federal me avisaram que havia equipes dos Estados Unidos da Am\u00e9rica em Curitiba, dialogando com o Minist\u00e9rio P\u00fablico, dialogando com autoridades de l\u00e1, que eram afetas \u00e0\u00a0 Justi\u00e7a Federal e \u00e0 Pol\u00edcia Federal. Me perguntaram se eu sabia, se eu tinha sido informado de alguma coisa. Eu falei n\u00e3o, n\u00e3o sabia. Perguntei ao Itamaraty se sabia de alguma coisa, disseram que n\u00e3o. Perguntei ao procurador-geral da Rep\u00fablica se sabia de alguma coisa e ele no primeiro momento disse que n\u00e3o. O Dr. Rodrigo Janot depois me ligou e falou, \u201colha, parece que tem uma equipe que est\u00e1 organizando um semin\u00e1rio de integra\u00e7\u00e3o de pol\u00edcia, etc, etc, no Paran\u00e1\u201d. Eu achei aquilo um pouco estranho, e tamb\u00e9m a pr\u00f3pria dire\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal tamb\u00e9m achou bastante curioso que tivesse uma equipe de 4, 5 pessoas vindo para organizar um semin\u00e1rio. Natalia: Na verdade, isso foi em outubro de 2015, era um grupo de pelo menos 17 americanos que estavam l\u00e1. Cardozo: Eu n\u00e3o sei se \u00e9 desta vez, mas acho poss\u00edvel que seja. Eu n\u00e3o me lembro exatamente quando foi.<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>Na ter\u00e7a-feira, 5 de outubro de 2015, uma delega\u00e7\u00e3o de pelo menos 17 americanos desembarcou na capital paranaense para conversar com membros do MPF e advogados de investigados. Eu obtive os pedidos de visto, ao longo da apura\u00e7\u00e3o e neles, ficava claro o que eles vinham fazer no Brasil: \u201clevantar evid\u00eancias adicionais sobre o caso e conversar com advogados sobre a coopera\u00e7\u00e3o de seus clientes com a investiga\u00e7\u00e3o em curso nos EUA\u201d. Na delega\u00e7\u00e3o estavam procuradores americanos ligados ao Departamento de Justi\u00e7a, o DOJ na sigla em ingl\u00eas, e agentes do FBI, como Leslie Backschies \u2013 voc\u00eas ainda v\u00e3o ouvir falar muito dela. Todas as tratativas ocorreram na sede do MPF em Curitiba. Em quatro dias intensos de trabalho, receberam explica\u00e7\u00f5es detalhadas sobre investigados pelo MPF, como Alberto Youssef e Nestor Cerver\u00f3. Al\u00e9m disso, mantiveram reuni\u00f5es com advogados de 16 delatores que haviam assinado acordos entre o final de 2014 e meados de 2015. Na entrevista, Amanda apertou o ex-ministro Cardozo.<\/p>\n<p>[Entrevista Jos\u00e9 Eduardo Cardozo]\u00a0<\/p>\n<p>Amanda: E s\u00f3 para deixar claro, o senhor tinha que ficar sabendo, deveria ter se comunicado dessa visita? Cardozo: Veja, se s\u00e3o autoridades internacionais que est\u00e3o mantendo uma coopera\u00e7\u00e3o nova, porque veja, aqui n\u00e3o estou falando de acordos j\u00e1 pactuados, n\u00e3o existe um acordo entre Brasil e Estados Unidos para que eles forne\u00e7am qualquer informa\u00e7\u00e3o inteligente em rela\u00e7\u00e3o a crimes nacionais, n\u00e3o. Isso \u00e9 uma ofensa \u00e0 soberania nacional. Qualquer situa\u00e7\u00e3o nova teria que passar pelo ministro da Justi\u00e7a. At\u00e9 porque colabora\u00e7\u00f5es internacionais devem ser feitas por um \u00f3rg\u00e3o do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a, que \u00e9 o departamento respectivo, o DRCI, que faz colabora\u00e7\u00f5es e tudo \u00e9 oficial.<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>No final do dia 6 de outubro de 2015, Deltan Dallagnol foi chamado ao Telegram pelo diretor da Secretaria de Coopera\u00e7\u00e3o Internacional da Procuradoria-Geral da Rep\u00fablica, Vladimir Aras \u2013 voc\u00ea j\u00e1 ouviu falar deste nome. Ele dizia: \u201cDelta, Mensagem do MJ\u201d. O recado era grave. O Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a tinha tomado conhecimento da visita dos americanos pelo Itamaraty \u2013 quando eles j\u00e1 estavam em Curitiba. S\u00f3 depois da meia-noite, j\u00e1 no dia 7 de outubro de 2015, Aras recebeu uma resposta de Deltan Dallagnol. Ele n\u00e3o quis dar detalhes ao Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a, sugerindo a Aras outro caminho.<\/p>\n<p>Efeito sonoro: alerta de mensagem<\/p>\n<p>[Leitura por Ricardo Terto]\u00a0<\/p>\n<p>\u201cEles que consultem o Departamento de Justi\u00e7a Americano, porque eles pediram que mantenhamos confidencial\u201d.<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>Confidencial, n\u00e3o por acaso, \u00e9 o nome da nossa s\u00e9rie.\u00a0 Ou seja, a For\u00e7a-Tarefa da Lava Jato preferiu proteger o relacionamento com os americanos a dar explica\u00e7\u00f5es ao governo brasileiro. Pelas mensagens obtidas com a Vaza Jato fica evidente a desconfian\u00e7a, desprezo e resist\u00eancia da For\u00e7a Tarefa com os \u00f3rg\u00e3os do Poder Executivo. Voc\u00ea deve estar se perguntando, por que um pedido de coopera\u00e7\u00e3o internacional precisa passar pelo Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a? Para responder essa pergunta n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m melhor que o pr\u00f3prio chefe do DRCI.<\/p>\n<p>[Entrevista Rodrigo Sagastume]<br \/>Sagastume: meu nome \u00e9 Rodrigo Sagastume, atualmente eu sou diretor do DRCI. O DRCI \u00e9 o Departamento de Recupera\u00e7\u00e3o de Ativos e Coopera\u00e7\u00e3o Jur\u00eddica Internacional do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a e Seguran\u00e7a P\u00fablica.<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>Viajei at\u00e9 Bras\u00edlia para conseguir essa entrevista, que aconteceu numa manh\u00e3 quente e seca. Fomos para uma sala do anexo do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a, daquelas bem com cara de servi\u00e7o p\u00fablico, com mesas de f\u00f3rmica e persianas brancas na janela, sabe?<\/p>\n<p>[Entrevista Rodrigo Sagastume]<\/p>\n<p>Nat\u00e1lia: E o que \u00e9 o DRCI? Voc\u00ea pode explicar? Para que ele serve?\u00a0 Sagastume: O DRCI, ele \u00e9 a Autoridade Central Brasileira para a Coopera\u00e7\u00e3o Jur\u00eddica Internacional. O que \u00e9 a Autoridade Central? A coopera\u00e7\u00e3o jur\u00eddica \u00e9 a capacidade dos Estados cooperarem para produzirem provas no exterior, falando de uma forma bem simples. Cada pa\u00eds indica um \u00f3rg\u00e3o que vai ser respons\u00e1vel pela tramita\u00e7\u00e3o desses pedidos de coopera\u00e7\u00e3o. No caso do Brasil, o \u00f3rg\u00e3o indicado pelo Estado brasileiro \u00e9 o DRCI.<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que o ent\u00e3o ministro Jos\u00e9 Eduardo Cardozo ficou indignado ao saber que o seu Minist\u00e9rio n\u00e3o foi informado da tal visita. Essa parte deu pra entender, mas pra que afinal precisamos de coopera\u00e7\u00e3o internacional?<\/p>\n<p>[Entrevista Rodrigo Sagastume]<\/p>\n<p>Sagastume: Um processo, muitas vezes demanda a produ\u00e7\u00e3o de uma prova que n\u00e3o est\u00e1 no Brasil, ou vice-versa?\u00a0<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>Agora, por que os americanos n\u00e3o podem vir aqui e pegar provas e informa\u00e7\u00f5es diretamente com os procuradores brasileiros? Ou o contr\u00e1rio, por que o Minist\u00e9rio P\u00fablico n\u00e3o pode cortar caminho e pegar provas e informa\u00e7\u00f5es diretamente l\u00e1 nos EUA se for necess\u00e1rio?<\/p>\n<p>[Entrevista Rodrigo Sagastume]<\/p>\n<p>Sagastume: Olha, a gente costuma dizer primeiro que o Poder Executivo, pela Constitui\u00e7\u00e3o, \u00e9 quem tem o poder de representar o Estado brasileiro internacionalmente. Essa \u00e9 uma compet\u00eancia exclusiva do Poder Executivo, ent\u00e3o por isso que a autoridade central que representa internacionalmente o Brasil deve estar no Poder Executivo. E, ademais, \u00e9 importante colocar que o Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a nunca \u00e9 parte em um processo. Ao contr\u00e1rio, por exemplo, de um Minist\u00e9rio P\u00fablico, da Advocacia-Geral da Uni\u00e3o, da Defensoria P\u00fablica, que atuam diretamente na a\u00e7\u00e3o, o Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a n\u00e3o \u00e9 parte. Ent\u00e3o, a gente tem uma posi\u00e7\u00e3o isenta, pode produzir provas para a defesa, para a promotoria\u2026<\/p>\n<p>[Entrevista Rodrigo Sagastume]<\/p>\n<p>Sagastume: Nem sempre a burocracia existe sem motivo. Numa coopera\u00e7\u00e3o internacional h\u00e1 muitos interesses em jogo e quem tem capacidade de representar o pa\u00eds nesses interesses \u00e9 o Poder Executivo. O governo, eleito pelo povo.\u00a0<\/p>\n<p>[Entrevista Rodrigo Sagastume]<\/p>\n<p>Sagastume: Isso de voc\u00ea trazer uma prova \u00e0 margem da coopera\u00e7\u00e3o jur\u00eddica tem um jarg\u00e3o que a gente usa que \u00e9 \u201ccoopera\u00e7\u00e3o selvagem\u201d, que acontece sem nenhuma base jur\u00eddica, t\u00e1? O DRCI existe para garantir a produ\u00e7\u00e3o leg\u00edtima da prova a gente sempre alerta \u00e0s autoridades que requerem as provas, dizendo, \u201colha, tem que tramitar pelo DRCI para n\u00e3o correr o risco de nulidade eventualmente apontada, ou pela defesa, por quem quer que seja, no processo\u201d.<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>\u201cCoopera\u00e7\u00e3o Selvagem\u201d, parece nome de filme duvidoso da <em>Sess\u00e3o da Tarde<\/em>, mas foi o que aconteceu na visita de outubro de 2015. Na sanha de lutar contra a corrup\u00e7\u00e3o, procuradores da Lava Jato cruzaram limites legais na coopera\u00e7\u00e3o internacional, explorando a troca informal ou selvagem de informa\u00e7\u00e3o, ou seja, a nossa j\u00e1 famosa intelig\u00eancia ou intel. A visita dos americanos nunca foi esclarecida. Com a Vaza Jato, eu tive acesso aos nomes dos 17 americanos que estiveram nessa visita e fiz uma lista dos agentes do FBI. Nomes como George \u201cRen\u201d McEachern, Leslie Backschies, David Williams. Sei que vou precisar ir atr\u00e1s deles. Mas de volta a 2015, o Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a acabou sendo driblado.<\/p>\n<p>[Entrevista Jos\u00e9 Eduardo Cardozo]\u00a0<\/p>\n<p>Cardozo: Se eu tivesse algum ind\u00edcio de abusividade, eu teria mandado abrir uma sindic\u00e2ncia, mas efetivamente ali tinha uma informa\u00e7\u00e3o que eram pessoas que estavam fazendo uma visita de cortesia e que era um semin\u00e1rio. Amanda: E olhando hoje para isso? Jos\u00e9 Eduardo: Hoje eu tenho l\u00e1 minhas suspeitas. Um dia eu gostaria muito que a hist\u00f3ria as confirmasse ou as desconfirmasse. Natalia: Mas a hist\u00f3ria n\u00e3o, o jornalismo investigativo. N\u00f3s estamos aqui para isso, essa s\u00e9rie \u00e9 para isso.\u00a0<\/p>\n<p>Cardozo: Eu acho que \u00e9 uma tarefa para voc\u00eas. A minha pergunta: ser\u00e1 que houve alguma troca de informa\u00e7\u00f5es entre os \u00f3rg\u00e3os de intelig\u00eancia dos Estados Unidos? Essa \u00e9 a minha d\u00favida.\u00a0<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<br \/>Como voc\u00ea j\u00e1 percebeu, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil conseguir as respostas que precisamos, e por isso fui em busca de algu\u00e9m de dentro da PF, da \u00e9poca, para entender melhor o contexto. Cheguei enfim a uma fonte que ocupava uma posi\u00e7\u00e3o de alto escal\u00e3o durante a Lava Jato. Mas nossa primeira conversa n\u00e3o saiu como o esperado.\u00a0<\/p>\n<p>Ambienta\u00e7\u00e3o sonora do escrit\u00f3rio<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<br \/>Nos encontramos num elegante escrit\u00f3rio de advocacia,\u00a0 com salas de reuni\u00e3o com paredes de vidro, poltronas de madeira estofadas de linho e uma mesa com caf\u00e9s especiais, ch\u00e1s e biscoitinhos para os visitantes. A fonte n\u00e3o fez muita quest\u00e3o de privacidade, conversamos ali mesmo no meio da sala, e essa pessoa avisou logo \u201ctudo que vamos falar vai ser em off\u201d. A tal conversa me pareceu uma grande enrola\u00e7\u00e3o. Sabe quando voc\u00ea tem a sensa\u00e7\u00e3o que a pessoa est\u00e1 te escondendo alguma coisa?\u00a0 Sa\u00ed de l\u00e1 frustrada, com a sensa\u00e7\u00e3o de tempo perdido.<br \/>Mas, como costuma ser nesses casos, nosso pr\u00f3ximo papo foi bem mais interessante. Fomos para a sala de reuni\u00e3o, dessa vez a portas fechadas, em suas palavras, \u201ccom mais privacidade\u201d.<\/p>\n<p>A fonte me disse: \u201cesse \u00e9 um caso que deveria ser ensinado na academia da PF de como n\u00e3o fazer coopera\u00e7\u00e3o\u201d. E me contou que em todas as investiga\u00e7\u00f5es internacionais em que atuou, s\u00f3 dava informa\u00e7\u00f5es se recebesse informa\u00e7\u00f5es em troca. \u201cIntel\u201d por \u201cintel\u201d. `Para essa pessoa, a coopera\u00e7\u00e3o internacional tem \u00e1reas cinzentas, como essa. Esse era um caso errado,\u00a0 uma vergonha, mas tamb\u00e9m n\u00e3o era ilegal.<\/p>\n<p>Falando em zonas cinzentas, em outro di\u00e1logo, no dia em que os americanos deixaram Curitiba, em outubro de 2015, o procurador da PGR Vladimir Aras, que estava de f\u00e9rias na Alemanha, saiu do descanso e mudou o tom da conversa com Dallagnol. Sua preocupa\u00e7\u00e3o era evidente, a suposta visita de cortesia j\u00e1 era uma etapa da investiga\u00e7\u00e3o em curso nos EUA. Portanto, precisaria de autoriza\u00e7\u00e3o do governo. O Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores entrou no meio, disse ele, e j\u00e1 se falava at\u00e9 em abalo das rela\u00e7\u00f5es bilaterais entre o Brasil e os EUA. Mais um clim\u00e3o diplom\u00e1tico. Ainda assim, a visita era vista com entusiasmo pelos membros da For\u00e7a-Tarefa de Curitiba, que at\u00e9 enviaram um email de agradecimento para os gringos. O rascunho foi enviado pelo procurador Orlando Martello para Dallagnol poucos dias depois.<\/p>\n<p>Efeito sonoro: alerta de mensagem<br \/>[Leitura por Ricardo Terto]\u00a0<\/p>\n<p>Mensagem de Orlando Martello para Deltan Dallagnol: Foi muito interessante e \u00fatil para n\u00f3s trabalhar com voc\u00eas e sua equipe na semana passada. Pudemos entender melhor os procedimentos nos EUA, assim como aprender sobre sua expertise em acordos. Com esse conhecimento, agora n\u00f3s temos mais uma maneira de convencer empresas e indiv\u00edduos a revelar fatos: amea\u00e7ar informar \u2018as autoridades americanas\u2019 sobre corrup\u00e7\u00e3o e delitos internacionais\u2026 (risos)\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>Em seguida e em tom mais s\u00e9rio, ele orientava aos procuradores americanos como deveriam proceder para interrogar os acusados brasileiros, evitando que o Supremo Tribunal Federal achasse isso uma viola\u00e7\u00e3o da nossa soberania. O rascunho do email entusiasmou o chefe da Lava Jato, que respondeu: <em>\u201cT\u00e1 t\u00e3o lindo que se eu tivesse a\u00ed te dava umas 8 lambidas kkkkk\u201d<\/em>, ao que Martello retrucou: <em>\u201cDa pr\u00f3xima vez fa\u00e7o pior ent\u00e3o\u201d.<\/em> Os americanos seguiram \u00e0 risca os conselhos da Lava Jato. Estava armada a confus\u00e3o.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>A possibilidade de os delatores colaborarem com os americanos foi assunto de diversas trocas de mensagem entre Vladimir Aras e membros da for\u00e7a-tarefa. Nelas, se nota a constante preocupa\u00e7\u00e3o do ex-diretor da Secretaria de Coopera\u00e7\u00e3o Internacional e uma tens\u00e3o com Dallagnol. Em 30 de novembro, ou seja, mais de um m\u00eas ap\u00f3s a primeira grande visita, o Dallagnol avisa a Aras que os americanos j\u00e1 \u201cest\u00e3o ouvindo colaboradores\u201d. Aras reage com surpresa e Deltan responde.<\/p>\n<p>Efeito sonoro: alerta de mensagem<br \/>[Leitura por Ricardo Terto]<\/p>\n<p>Mensagem de Deltan Dallagnol para Vladimir Aras: \u201cN\u00e3o temos controle sobre as oitivas porque s\u00e3o uns 10 colaboradores que j\u00e1 est\u00e3o em tratativas de acordos, ou acordos feitos. EUA est\u00e3o com faca e queijo na m\u00e3o para ouvirem\u201d.<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>Com acesso direto aos delatores, os americanos estavam com a faca e o queijo na m\u00e3o, ou seja, conseguiriam tocar o processo nos EUA sem depender do Minist\u00e9rio P\u00fablico ou da Pol\u00edcia Federal. Era a grande ficha caindo na For\u00e7a-Tarefa em Curitiba de que os americanos estavam desde o in\u00edcio agindo por interesse pr\u00f3prio. A tens\u00e3o s\u00f3 crescia. Eles continuam a conversa:<\/p>\n<p>Efeito sonoro: alerta de mensagem<\/p>\n<p>[Leitura por Ricardo Terto]\u00a0<\/p>\n<p>Aras: \u201cQuando eles far\u00e3o pedido formal de oitivas?\u201d. Deltan: \u201cN\u00e3o precisam fazer. Ouvir\u00e3o nos EUA os que est\u00e3o soltos e podem viajar.\u201d Aras: \u201cOs advogados concordaram? Eles v\u00e3o viajar sem salvo-conduto????? Loucura\u201d.<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>Eles v\u00e3o viajar sem salvo-conduto? Vladimir Aras faz essa pergunta usando cinco vezes o ponto de interroga\u00e7\u00e3o. Afinal, se eles fossem detidos l\u00e1, isso tamb\u00e9m ia atrapalhar a investiga\u00e7\u00e3o brasileira e os acordos firmados aqui. E n\u00f3s sabemos que, como o tema era sens\u00edvel, tamb\u00e9m poderia gerar problemas internacionais. Essa hist\u00f3ria n\u00e3o termina a\u00ed, tem mais.<\/p>\n<p>[Ricardo Terto]<\/p>\n<p>Voc\u00ea est\u00e1 ouvindo uma \u00e1udio s\u00e9rie, Original Audible. Para conhecer mais hist\u00f3rias surpreendentes e imersivas como est\u00e1, acesse o site audible.com.br\u00a0 Fa\u00e7a sua conta e teste gr\u00e1tis por 30 dias ou por 3 meses, se voc\u00ea for membro Amazon Prime.<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>Inclusive eu tentei muito conversar com o pr\u00f3prio Vladimir Aras pra essa s\u00e9rie, mas ele n\u00e3o topou falar. Mas com os documentos obtidos com a Opera\u00e7\u00e3o Spoofing descobrimos que a visita de outubro de 2015 n\u00e3o foi a \u00fanica.<\/p>\n<p>[Efeito sonoro: alerta recebimento de mensagem]<br \/>Alice: Oi gente, eu estava fazendo uma pesquisa nas mensagens da Opera\u00e7\u00e3o Spoofing e eu encontrei um documento que \u00e9 uma pauta de uma reuni\u00e3o dos procuradores com os americanos, em 2016, que me parece que era uma reuni\u00e3o que a gente n\u00e3o tinha mapeado, que foi em janeiro de 2016.\u00a0<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>Aquela nova reuni\u00e3o, desta vez, contou com a presen\u00e7a tanto de Vladimir Aras quanto de Deltan Dallagnol e de outros procuradores da For\u00e7a-Tarefa de Curitiba. Eles trataram mais uma vez de v\u00e1rias linhas investigativas, com destaque para a corrup\u00e7\u00e3o na Petrobras, mas especificamente a compra de uma refinaria em Pasadena, nos EUA. Ainda em meados de 2016, a delega\u00e7\u00e3o americana voltou, dessa vez seguindo o procedimento legal, para ouvir cinco alvos da Lava Jato. Entre eles, Nestor Cerver\u00f3.\u00a0<\/p>\n<p>[Entrevista Nestor Cerver\u00f3]\u00a0<\/p>\n<p>Cerver\u00f3: A press\u00e3o que eles fizeram para que houvesse essa participa\u00e7\u00e3o. Esses depoimentos do Paulo Roberto e meu e mais, eu n\u00e3o me lembro mais quem foi pressionado a depor. Ent\u00e3o, para o depoimento, foi montado todo um circo. Vamos chamar, assim, aqui na Procuradoria, aqui no Rio, e que vieram dois ou tr\u00eas representantes do DOJ, vieram dois do FBI, veio uma tradutora e com a participa\u00e7\u00e3o dos procuradores aqui do Rio. Come\u00e7ou de manh\u00e3 e terminou no final da tarde. E sempre com a preocupa\u00e7\u00e3o de demonstrar que tanto eu, que era diretor, e depois o Paulo que tamb\u00e9m me contou isso, que a Petrobras n\u00e3o tinha atuado de maneira a corrigir, ou seja, para criar uma s\u00e9rie de fatores que implicassem e que realmente implicaram a Petrobras e que permitiu ao estabelecimento, que a Petrobras teve que fazer um acordo, e pagar 2 bilh\u00f5es de d\u00f3lares.<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>\u00c9 evidente, mas n\u00e3o custa dizer, que os americanos estavam focados no interesse deles. Ou seja: queriam incriminar a Petrobras. Importante: isso era diferente da abordagem da investiga\u00e7\u00e3o brasileira, em que a petroleira era considerada v\u00edtima de um esquema de corrup\u00e7\u00e3o e n\u00e3o a grande culpada.\u00a0<\/p>\n<p>Entrevista Nestor Cerver\u00f3: (\u2026) o que ficou evidente \u00e9 que eles queriam detalhes de como funcionava, como tinham sido feitos os acordos, os neg\u00f3cios que faziam parte do meu depoimento. [41:15] Como foi feito com Paulo Roberto tamb\u00e9m, [41:19] ou seja, eles queriam criar um processo [41:28] dentro dos padr\u00f5es americanos, [41:30] que foi o que permitiu, esses depoimentos nossos, foi o que permitiu[41:35] que a Justi\u00e7a americana [41:38] processasse a Petrobras por descumprimento de uma s\u00e9rie de regras americanas, de leis americanas. Entendeu? Ent\u00e3o o que eles precisavam colocar o foco era esse, porque uma coisa \u00e9 pegar um documento em portugu\u00eas [41:51] feito no estilo da Pol\u00edcia Federal, dos procuradores aqui, e traduzir para o ingl\u00eas, outra \u00e9 pegar o depoimento em ingl\u00eas feito de perguntas com o foco [42:04] da Justi\u00e7a americana, ou seja, o procurador que me perguntava fazia uma pergunta sobre um determinado assunto, ele j\u00e1 fazia para direcionar aquela responsabilidade dentro da \u00f3tica americana. [42:16] Isso que ficou evidente.\u00a0<\/p>\n<p>No interrogat\u00f3rio de Nestor Cerver\u00f3 um destes temas era, mais uma vez, Pasadena:<\/p>\n<p>Entrevista Nestor Cerver\u00f3: [1:00:42] Eu fui o principal respons\u00e1vel pelo processo de aquisi\u00e7\u00e3o e negocia\u00e7\u00e3o de Pasadena (\u2026) a responsabilidade pela compra (\u2026)[1:01:24] como qualquer compra de ativos na Petrobras pertencia ao conselho de administra\u00e7\u00e3o e surpreendentemente o TCU nunca condenou nenhum membro do conselho (\u2026) [1:01:52] S\u00f3 foram responsabilizados os diretores e o presidente na \u00e9poca(\u2026)\u00a0<\/p>\n<p>A refinaria de Pasadena, localizada na cidade de mesmo nome no Texas, foi adquirida de uma empresa belga pela Petrobras em 2006. Foi um mau neg\u00f3cio, que levou a um preju\u00edzo de centenas de milh\u00f5es de d\u00f3lares. Os investigadores americanos queriam saber se houve propina no meio da compra e tinha outro fator de enorme interesse: a ent\u00e3o presidente do Brasil Dilma Rousseff \u2014 a mesma que foi v\u00edtima da espionagem americana em 2013 \u2014 era presidente do Conselho da Petrobras na \u00e9poca da compra, o que lhe rendeu uma investiga\u00e7\u00e3o na Lava Jato, contribuindo em seu processo de impeachment.\u00a0 Ali\u00e1s, vale ler um trecho do pedido que embasou o impeachment dela, em 2016:<\/p>\n<p>Efeito sonoro: alerta para leitura\u00a0<\/p>\n<p>\u201cCom efeito, a m\u00e1scara da compet\u00eancia fora primeiramente arranhada no epis\u00f3dio envolvendo a compra da refinaria em Pasadena pela Petrobras. (\u2026)\u00a0 Na oportunidade, a presidente da Rep\u00fablica era presidente do Conselho da estatal e deu como desculpa um equ\u00edvoco relativo a uma cl\u00e1usula contratual. \u00c0 \u00e9poca, muitos indagaram se essa suposta falha n\u00e3o infirmaria a fama de compet\u00eancia e expertise na seara de energia, por\u00e9m, ningu\u00e9m teve a aud\u00e1cia de desconfiar da probidade da presidente. Mas, como se diz popularmente, Pasadena foi apenas a ponta do \u2018iceberg\u2019\u201d<\/p>\n<p>Posteriormente, Dilma Rousseff seria absolvida de todas as acusa\u00e7\u00f5es. Em sua dela\u00e7\u00e3o premiada, Nestor admitiu que houve pagamento de propina para funcion\u00e1rios da Petrobras e para funcion\u00e1rios da empresa belga que vendeu a refinaria. Mas, na entrevista para Alice, ele explicou que Pasadena, na verdade, n\u00e3o era uma opera\u00e7\u00e3o para gerar dinheiro de corrup\u00e7\u00e3o. Fazia parte de um plano estrat\u00e9gico, um plano que deveria ampliar o perfil internacional da Petrobras.\u00a0<\/p>\n<p>Entrevista Nestor Cerver\u00f3: [1:02:33] (\u2026) O plano estrat\u00e9gico da Petrobras quando n\u00f3s entramos na diretoria, n\u00f3s t\u00ednhamos esse objetivo que era adquirir refino no exterior, adquirir capacidade de refino no exterior, ent\u00e3o n\u00f3s seguimos, [1:02:49] eu segui esse objetivo, fazia parte do processo de internacionaliza\u00e7\u00e3o da Petrobras (\u2026) [1:03:33] A capacidade de refino no mercado americano [1:03:36] estava muito valorizada [1:03:37] e foi comprada dentro do estudo econ\u00f4mico aprovado pelo Citibank, foi conduzido pelo Citibank, foi conduzido por empresas especializadas.\u00a0<\/p>\n<p>Entrar no mercado de refino de petr\u00f3leo americano, como voc\u00eas podem imaginar, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. \u00c9 uma briga de cachorro grande e inclui interesses geopol\u00edticos, tamb\u00e9m. Para chegar at\u00e9 l\u00e1, a Petrobras passou por uma investiga\u00e7\u00e3o l\u00e1 nos EUA, isso em conformidade com a lei.\u00a0<\/p>\n<p>Entrevista Nestor Cerver\u00f3: [22:02] No momento que a gente comprou a refinaria a gente (\u2026) [22:07] (\u2026) foi alvo de uma intensa investiga\u00e7\u00e3o de todas as atividades que a gente j\u00e1 desenvolvia nos Estados Unidos (\u2026) [22:23] (\u2026) Tivemos que ir a Washington, pedir uma licen\u00e7a de imprimir. [22:31] N\u00e3o foi simples. [22:32] O nosso pessoal passou v\u00e1rias reuni\u00f5es no Departamento de Estado e tal, porque a\u00ed sim a\u00ed entrou sobre um crivo muito mais severo de empresa estrangeira trabalhando nos Estados Unidos. [22:45] Mas isso foi feito oficialmente, quer dizer, n\u00e3o era o monitoramento secreto. Isso foi necess\u00e1rio para poder obter a permiss\u00e3o de refinar petr\u00f3leo nos Estados Unidos.\u00a0<\/p>\n<p>Mas a quest\u00e3o que fica \u00e9: durante a Lava Jato o interesse americano era realmente o combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o internacional ou havia tamb\u00e9m interesses econ\u00f4micos? As circunst\u00e2ncias indicam que sim, como j\u00e1 vimos pelos relatos do embaixador. Agora, ser\u00e1 que para al\u00e9m dos interesses econ\u00f4micos existiam tamb\u00e9m interesses na pol\u00edtica interna brasileira?<\/p>\n<p>Entrevista Nestor Cerver\u00f3: [24:59] Mas desde o come\u00e7o, Alice, ficou evidente que isso era uma opera\u00e7\u00e3o armada e depois, ent\u00e3o, que eu convivi com o pessoal l\u00e1 dentro. Eu tive que fazer in\u00fameros depoimentos [25:11] e conversas com os procuradores e com o juiz, com o juiz Moro\u00a0 e tudo isso. Ficou evidente que era um objetivo de derrubar o governo, ou seja, tirar o PT e acabar com isso (\u2026) [25:33] Todos os procuradores faziam quest\u00e3o de me perguntar dez vezes o que que eu sabia do envolvimento do presidente Lula, do Lula nas opera\u00e7\u00f5es da Petrobras. Qualquer assunto que desviasse desse foco [25:46] n\u00e3o interessava.\u00a0<\/p>\n<p>Vale lembrar que essa \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o de Nestor Cerver\u00f3, ex-diretor da Petrobras, que recebeu apoio do PT para assumir o cargo. Mesmo assim, sua desconfian\u00e7a merece ser contemplada. At\u00e9 agora, n\u00e3o encontramos ind\u00edcios que o vi\u00e9s pol\u00edtico na investiga\u00e7\u00e3o se deve a alguma influ\u00eancia internacional. O que podemos afirmar, pelas mensagens obtidas pela Vaza Jato, \u00e9 que al\u00e9m do interesse na compra da refinaria de Pasadena, havia interesse dos agentes do FBI e do Departamento de Justi\u00e7a americano, o DOJ, nas investiga\u00e7\u00f5es relativas \u00e0 Opera\u00e7\u00e3o Triplo X, que mirou a empresa de offshores Mossack Fonseca, sediada no Panam\u00e1, e o tr\u00edplex no Guaruj\u00e1 atribu\u00eddo ao ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva. Mas antes vamos relembrar essa investiga\u00e7\u00e3o que tem como foco um apartamento de cobertura com vista pro mar.\u00a0<\/p>\n<p>PF indicia ex-presidente Lula no caso do triplex em Guaruj\u00e1_TV Brasil: \u201ca pol\u00edcia federal indiciou o ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva e a mulher dele, Marisa Let\u00edcia, no caso do triplex em Guaruj\u00e1, no litoral paulista. O processo corre em segredo de justi\u00e7a, mas o jornal <em>O Estado de S. Paulo<\/em> divulgou o documento na \u00edntegra. Lula foi indiciado por corrup\u00e7\u00e3o passiva, lavagem de dinheiro e falsidade ideol\u00f3gica, Marisa por corrup\u00e7\u00e3o e lavagem. Segundo a Pol\u00edcia Federal, o casal foi benefici\u00e1rio de vantagens il\u00edcitas por parte da OAS em valores que alcan\u00e7aram dois milh\u00f5es e quatrocentos mil reais, referentes \u00e0s obras de reforma no apartamento do balne\u00e1rio paulista. O ex-presidente nega que seja o dono do im\u00f3vel\u201d<\/p>\n<p>Ambi\u00eancia de praia + trilha sonora<\/p>\n<p>A acusa\u00e7\u00e3o era que o apartamento e a reforma seriam uma esp\u00e9cie de \u201cpropina\u201d como retribui\u00e7\u00e3o a contratos firmados entre a OAS e a Petrobras \u2013 n\u00e3o um contrato em espec\u00edfico, mas o \u201cconjunto da obra\u201d. O escrit\u00f3rio de advocacia panamenho especializado na cria\u00e7\u00e3o de empresas offshore, Mossack Fonseca, tamb\u00e9m entrou na investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Fim da ambi\u00eancia de praia, trilha sonora continua<\/p>\n<p>O que a Mossack fazia era abrir empresas em para\u00edsos fiscais, muitas vezes em nome de laranjas. O objetivo quase sempre era esconder dinheiro dos verdadeiros donos da grana. A Mossack Fonseca, entrou na investiga\u00e7\u00e3o por ter um apartamento vizinho \u00e0quele atribu\u00eddo a Lula no mesmo edif\u00edcio e claro, por ter aberto offshores para v\u00e1rios investigados pela Lava Jato. Suas a\u00e7\u00f5es eram de enorme interesse do governo americano. Em abril de 2016, o mesmo escrit\u00f3rio estava no centro de mais um grande vazamento de informa\u00e7\u00f5es, conhecido como Panam\u00e1 Papers. Basicamente o que ficou comprovado \u00e9 que a Mossack Fonseca era uma das maiores criadoras de empresas de fachada do mundo.<\/p>\n<p>Fim da trilha sonora\u00a0<\/p>\n<p>Longe da praia, de volta \u00e0 Curitiba, m\u00eas de dezembro de 2015, essas investiga\u00e7\u00f5es est\u00e3o em curso quando a Pol\u00edcia Federal recebe um pedido de compartilhamento de provas vindo do FBI.\u00a0<\/p>\n<p>Efeito sonoro : alerta de mensagem<\/p>\n<p>17 de dezembro de 2015, 22:17, de J\u00falio Noronha para Deltan Dallagnol: \u201cNaquele caso do escrit\u00f3rio de offshores, a PF pediu (hoje, no final da tarde) para compartilharmos provas com o FBI, e o Ju\u00edzo pediu para manifestarmos at\u00e9 amanh\u00e3 na hora do almo\u00e7o (para decidir antes do recesso)\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>A quest\u00e3o era a seguinte: o FBI estava pedindo provas diretamente \u00e0 PF sobre o caso das offshores, ou seja, provas relacionadas ao escrit\u00f3rio Mossack Fonseca. O correto, novamente, seria\u00a0 seguir o caminho formal que j\u00e1 explicamos aqui, acionar o DRCI, do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a, e fazer o pedido de coopera\u00e7\u00e3o internacional, ou poderiam partir para \u201ccoopera\u00e7\u00e3o selvagem\u201d e liberar as provas. Adivinha qual foi o caminho escolhido? Deltan Dallagnol deu sinal verde ao colega.<\/p>\n<p>Efeito sonoro : alerta de mensagem<\/p>\n<p>17 de dezembro de 2015, 22:20, de Deltan Dallagnol para J\u00falio Noronha: \u201cSe o FBI entender desnecess\u00e1rio e houver decis\u00e3o judicial, eu n\u00e3o teria receio em compartilhar\u2026\u201d<\/p>\n<p>Trilha sonora clima de suspense<\/p>\n<p>Passado o recesso de fim de ano, a Opera\u00e7\u00e3o Triplo X foi deflagrada no dia 27 de janeiro de 2016. O objetivo, oficialmente, era descobrir se a Mossack Fonseca tinha aberto empresas offshores para esconder a propriedade dos apartamentos do Guaruj\u00e1 e se o empreendimento imobili\u00e1rio foi, abre aspas, \u201cutilizado pela empreiteira para repassar vantagens indevidas a agentes envolvidos no esquema criminoso da Petrobras\u201d. A opera\u00e7\u00e3o tinha outro objetivo, na verdade. A Lava Jato n\u00e3o mencionou nenhuma vez, mas o alvo era Lula.<\/p>\n<p>Apresenta\u00e7\u00e3o PowerPoint [06:03 \u2013 06:33] (\u2026). Hoje, o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal acusa o senhor Luiz In\u00e1cio Lula da Silva como comandante m\u00e1ximo do esquema de corrup\u00e7\u00e3o identificado na Lava Jato.<\/p>\n<p>A Opera\u00e7\u00e3o Triplo X, que teve interesse dos americanos, levou \u00e0 descoberta do contrato de ades\u00e3o firmado pela ex-primeira-dama Marisa Let\u00edcia com a Bancoop para comprar o apartamento 141, depois trocado pelo 164-A. O contrato foi visto como uma \u201cbala de prata\u201d pelos procuradores. Em pouco tempo, a Lava Jato apertaria o cerco ao ex-presidente Lula.\u00a0<\/p>\n<p>Efeito sonoro: fita rebobinando\u00a0<\/p>\n<p>\u00c1udio celular Deltan_221554: [00:00] O presidente j\u00e1 se trocou e est\u00e1 assinando o mandado de condu\u00e7\u00e3o coercitiva e mandado de busca, recebendo a sua vi,a e est\u00e1 aguardando a posi\u00e7\u00e3o do advogado dele, j\u00e1 ciente de que n\u00f3s vamos conduzi-lo.<\/p>\n<p>Lembra? No epis\u00f3dio anterior ouvimos esse \u00e1udio do policial federal que foi at\u00e9 a casa do Lula para fazer a condu\u00e7\u00e3o coercitiva do ex-presidente, em mar\u00e7o de 2016, criando uma cena que foi acompanhada por todo o pa\u00eds pela TV.\u00a0<\/p>\n<p>Efeito sonoro: apertando bot\u00e3o\u00a0<\/p>\n<p>Dia 14 de outubro de 2016, quase um ano depois da primeira visita dos americanos a Curitiba, e tendo as provas da Mossack Fonseca j\u00e1 compartilhadas\u00a0 com o FBI, e sete meses depois da condu\u00e7\u00e3o coercitiva do Lula, chegamos a um grande dia para a Lava Jato.\u00a0<\/p>\n<p>Apresenta\u00e7\u00e3o PowerPoint: (\u2026) Al\u00e9m do esquema de corrup\u00e7\u00e3o, \u00e9 denunciado o esquema de lavagem de dinheiro envolvendo o ex-presidente Lula. O que se constatou foi o repasse de recursos, a partir dessa empresa OAS, para o ex-presidente Lula, por meio de um upgrade de um apartamento de um im\u00f3vel, [09:45 \u2013 10:12] um triplex em Guaruj\u00e1, por meio da reforma desse triplex, por meio da decora\u00e7\u00e3o desse triplex, e por meio de um contrato, um contrato de armazenamento de bens pessoais, um contrato milion\u00e1rio firmado para armazenamento, um contrato falso firmado pela OAS, como se os bens fossem dela e n\u00e3o do ex-presidente. Os valores das vantagens indevidas, os valores das propinas, assim transmitidas para o ex-presidente Lula, somam mais de tr\u00eas milh\u00f5es de reais.\u00a0<\/p>\n<p>Esta foi a coletiva de imprensa em que Deltan Dallagnol apresentou a den\u00fancia contra Lula, usando um recurso visual no m\u00ednimo controverso, o famoso powerpoint.\u00a0 A defesa alegava que Lula e a sua esposa Marisa Let\u00edcia desistiram da compra e jamais usufru\u00edram ou foram donos do apartamento. Mas, na vers\u00e3o do MPF:\u00a0<\/p>\n<p>Apresenta\u00e7\u00e3o powerpoint: [13:04 \u2013 13:31]. Essas provas demonstram que Lula era o grande general, [13:31 \u2013 13:57] que comandou a realiza\u00e7\u00e3o e a continuidade da pr\u00e1tica dos crimes, com poderes para determinar o funcionamento e, se quisesse, para determinar a sua interrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Trilha sonora \u201cleve\u201d, momento explica\u00e7\u00e3o\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>E assim Deltan chegava no ponto mais dram\u00e1tico da sua apresenta\u00e7\u00e3o. No centro do slide o nome de Lula em um c\u00edrculo azul e, em volta, quatorze outros c\u00edrculos com palavras-chave como \u201cmensal\u00e3o\u201d , \u201cpetrol\u00e3o e propinocracia\u201d , \u201cperpetua\u00e7\u00e3o criminosa no poder\u201d, \u201cpoder de decis\u00e3o\u201d. E de cada um deles uma seta apontando para o centro, para o nome de Lula, uma coisa como um \u201cpoderoso chef\u00e3o\u201d do crime. Depois da apresenta\u00e7\u00e3o de Deltan, o ex-presidente foi denunciado por conta n\u00e3o desse emaranhado de palavras-chave, mas pela suposta compra do tr\u00edplex no Guaruj\u00e1. \u00a0S\u00f3 que toda essa estrat\u00e9gia visual foi um tiro no p\u00e9 na Lava Jato. Primeiro, o powerpoint foi imortalizado pelos memes na internet e anos depois Deltan foi condenado a pagar 75 mil reais a Lula por danos morais pela acusa\u00e7\u00e3o descuidada.\u00a0<\/p>\n<p>Fim da trilha sonora\u00a0<\/p>\n<p>S\u00f3 que voc\u00ea n\u00e3o vai acreditar: o pol\u00eamico powerpoint \u00e9 quase um pl\u00e1gio. Foi inspirado justamente em um caso americano. Em 2015, a Suprema Corte de l\u00e1 j\u00e1 tinha anulado este julgamento por considerar que a a\u00e7\u00e3o dos procuradores tinha violado o princ\u00edpio da ampla defesa, e que os slides s\u00f3 serviam para inflamar preconceitos e paix\u00f5es. Aqui no Brasil, voc\u00ea j\u00e1 sabe mas n\u00e3o custa recapitular: num primeiro momento, Lula foi condenado em tempo recorde pela acusa\u00e7\u00e3o do caso tr\u00edplex, foi preso e n\u00e3o p\u00f4de concorrer \u00e0s elei\u00e7\u00f5es de 2018, embora fosse favorito nas pesquisas de opini\u00e3o. O STF, na \u00e9poca, proibiu o ex-presidente at\u00e9 de dar entrevistas durante a campanha de 2018. Como sabemos, o ex-militar Jair Bolsonaro saiu vencedor.<\/p>\n<p>Trilha sonora clima de suspense<\/p>\n<p>Era um momento de grande crise para o presidente e seus advogados. Mas entre a acusa\u00e7\u00e3o, a pris\u00e3o e as elei\u00e7\u00f5es de 2018, a atua\u00e7\u00e3o da Lava Jato come\u00e7ou a levantar tantas suspeitas na turma do Lula que sua defesa criou uma tese nova para fundamentar o caso, usando a teoria do <em>lawfare<\/em>, que significa \u201cguerra jur\u00eddica\u201d. A palavra pegou tanto que foi parar at\u00e9 na boca do papa Francisco, um velho conhecido de Lula. Em uma entrevista a um site argentino, ele citou o caso do Lula e disse que a Lawfare abre caminho nos meios de comunica\u00e7\u00e3o, e disse, entre aspas, \u201cdesqualificam, metem a suspeita de um delito, ent\u00e3o se faz um grande processo e para conden\u00e1-lo basta o volume do processo\u201d.<\/p>\n<p>Em resumo, ele diz que no caso Lula, o lawfare usou os meios de comunica\u00e7\u00e3o, por que era preciso impedir que ele chegasse novamente \u00e0 Presid\u00eancia. Mas claro que n\u00e3o vamos ficar s\u00f3 na explica\u00e7\u00e3o do papa, que \u00e9 uma autoridade religiosa e n\u00e3o jur\u00eddica. Aqui na nossa investiga\u00e7\u00e3o, quem ficou com a\u00a0 miss\u00e3o de procurar os autores da tese, ou seja, a defesa do presidente Lula, foi Amanda Audi.\u00a0<\/p>\n<p>Entrevista Rafael Valim [00:00] Amanda: Chegando Stela: chegando onde? Amanda: est\u00e1 chegando no escrit\u00f3rio do Walfrido Warde aqui, que trabalha o Rafael Valim que \u00e9 nosso entrevistado de hoje, ele foi um dos advogados da defesa do Lula, ele vai falar sobre lawfare com a gente. [00:24] (caminha at\u00e9 a portaria) Amanda: A gente vai no escrit\u00f3rio do Rafael Valim.\u00a0<\/p>\n<p>Amanda foi acompanhada pela nossa produtora de \u00e1udio, Stela Diogo, at\u00e9 o escrit\u00f3rio em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Entrevista Rafael Valim [16:09] Amanda: Certo, ent\u00e3o s\u00f3 para antes de come\u00e7ar para contextualizar (\u2026) a gente t\u00e1 no seu escrit\u00f3rio numa sala de reuni\u00f5es aqui no centro de S\u00e3o Paulo aqui? Rafael: N\u00e3o, aqui \u00e9 Jardins. Amanda: Pr\u00f3ximo da avenida Paulista, mais ou menos, ent\u00e3o tem v\u00e1rios ru\u00eddos da rua que podem aparecer aqui, s\u00f3 para enfim explicar o que t\u00e1 acontecendo. [16:37] Amanda: Ent\u00e3o, Rafael. Queria ver se voc\u00ea poderia me contar um pouquinho dos bastidores de como foi o formular essa tese e tudo que envolveu a defesa do Lula [18:48] (\u2026) Rafael: Eu me envolvi nesse tema do lawfare [17:05] por influ\u00eancia do casal Cristiano Zanin Martins e da Valeska Teixeira Martins que \u00e0 \u00e9poca estavam completamente tomados pela defesa do presidente Lula (\u2026) [18:06] (\u2026) tinha um fen\u00f4meno que a gente examinava, que a gente via que era completamente diferente de outros conceitos que estavam \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o, e esse termo parece que traduzia aquilo que n\u00f3s v\u00edamos acontecer no Brasil naquele momento Amanda: Voc\u00ea pode resumir o que que \u00e9 mais ou menos? [18:53] Rafael: Lawfare? (\u2026) [19:05] No nosso caso a gente atribuiu o seguinte sentido: lawfare pra n\u00f3s, \u00e9 uso estrat\u00e9gico do direito para fins de prejudicar, deslegitimar ou aniquilar o inimigo. [23:39] (\u2026) E claro, notadamente, o caso Lula (\u2026) foi um epis\u00f3dio de lawfare que mudou o rumo do pa\u00eds (\u2026) [24:17] (\u2026)\u00a0<\/p>\n<p>Ou seja: o lawfare \u00e9 o uso deturpado das regras do direito \u2013 um bolol\u00f4, uma gambiarra jur\u00eddica \u2013 para tirar algu\u00e9m do jogo pol\u00edtico. Para os advogados de Lula, \u00e9 tamb\u00e9m um modelo explicativo para entender todo o contexto da Lava Jato. S\u00f3 que mais uma vez, isso n\u00e3o responde \u00e0 pergunta: os Estados Unidos est\u00e3o por tr\u00e1s da Lava Jato ou isso \u00e9 s\u00f3 uma teoria da conspira\u00e7\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>Entrevista Rafael Valim Eu me lembro quando a gente estava em 2015, 2016, a gente falava da participa\u00e7\u00e3o, por exemplo, dos Estados Unidos na Lava Jato, e as pessoas a primeira coisa falavam, olha isso \u00e9 uma teoria da conspira\u00e7\u00e3o, vixe, ouvi isso muit\u00edssimas vezes[34:18] (\u2026) ent\u00e3o eu confesso que eu me irrito um pouco, quando que \u00e9, por exemplo, que a participa\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos na Lava Jato \u00e9 a teoria da conspira\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o n\u00e3o leu nada sobre isso, ent\u00e3o voc\u00ea tem um relat\u00f3rio recente do CNJ declarando com todas as letras que houve essa interlocu\u00e7\u00e3o fora das normas jur\u00eddicas, fora das regras do Brasil entre a for\u00e7a-tarefa da Lava Jato e o DOJ as autoridades americanas, tem v\u00eddeos falando disso, do ponto de vista comercial\u00a0 [35:18] (\u2026) a abertura do pr\u00e9-sal em 2016 \u00e9 uma consequ\u00eancia direta da Lava Jato, a queda da presidenta Dilma Rousseff \u00e9 uma consequ\u00eancia direta da Lava Jato, presidenta Dilma, que era por assim dizer uma guardi\u00e3 do pr\u00e9-sal, a\u00ed ent\u00e3o logo [que] ela ela cai o ex-presidente Michel Temer corre para aprovar essa lei que abre o mercado para as petroleiras [36:19] estrangeiras. Enfim, ent\u00e3o negar essa participa\u00e7\u00e3o, o benef\u00edcio que decorreu da Lava Jato em favor das pot\u00eancias estrangeiras, notadamente nos Estados Unidos, \u00e9 um erro, n\u00e3o digo, n\u00e3o \u00e9 nenhuma quest\u00e3o de interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 um seria um erro hist\u00f3rico de gente que n\u00e3o t\u00e1 lendo o que t\u00e1 acontecendo e as informa\u00e7\u00f5es que est\u00e3o dispon\u00edveis hoje depois de tudo que a gente j\u00e1 viu a respeito da Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato<\/p>\n<p>Pausa \u201csil\u00eancio\u201d + Trilha sonora clima de suspense<\/p>\n<p>Claro, num mundo perfeito, depois dessa entrevista com o advogado daquele que foi sem d\u00favida o preso considerado o maior trof\u00e9u da Lava Jato, a gente falaria direto com o Lula. S\u00f3 que, dando um pulo de 2018 para 2024, quando estamos nesta investiga\u00e7\u00e3o, o roteirista do Brasil caprichou e a Lava Jato caiu por terra, Sergio Moro foi considerado um juiz parcial pelo STF, a condena\u00e7\u00e3o de Lula foi anulada pelo Supremo, saiu da cadeia, e foi eleito presidente da Rep\u00fablica em 2022, derrotando o Bolsonaro\u2026, Ufa. Em 2020 a gente at\u00e9 conseguiu entrevistar o Lula:<\/p>\n<p>Entrevista de Lula Para P\u00fablica: \u201cA\u00ed o juiz vai me julgar e diz \u201cele cometeu um crime de fato indeterminado, n\u00f3s n\u00e3o sabemos, \u00e9 segredo o crime\u201d. A\u00ed vai o procurador, depois de contar uma hora e meia de mentira da forma mais canalha poss\u00edvel \u2013 esse cidad\u00e3o deveria ter sido exonerado no dia depois do PowerPoint \u2013, faz uma hora e meia de acusa\u00e7\u00e3o, cria uma fantasia \u2013 parecia um desenho da Disney \u2013 e diz o seguinte: n\u00e3o me pe\u00e7am provas, eu s\u00f3 tenho convic\u00e7\u00e3o. E esse cidad\u00e3o est\u00e1 a\u00ed, ganhando dinheiro e roubando, fazendo instituto para lesar e roubar a Petrobras, para roubar as empreiteiras com dela\u00e7\u00e3o. Eu fico hiper irritado, mas de bom humor, um irritado mas calmo.\u201d<\/p>\n<p>Mas agora, com ele presidente, a coisa \u00e9 mais complicada. N\u00e3o sei se voc\u00ea j\u00e1 tentou entrevistar um presidente da Rep\u00fablica. Ent\u00e3o, achei que o melhor caminho seria entrevistar uma pessoa que conhece Lula talvez melhor que ele pr\u00f3prio: seu bi\u00f3grafo, o escritor Fernando Morais.<\/p>\n<p>Efeito sonoro: som externo, rua<\/p>\n<p>Entrevista Fernando Morais. [00:00] Deixa eu pegar aqui o endere\u00e7o. A gente vai no apartamento 09? Aqui \u00e9 1\u2026 97. Isso mesmo, apartamento 09 (\u2026)O Fernando Morais est\u00e1 esperando a gente.<\/p>\n<p>Mais uma vez, quem me acompanhou foi nossa diligente Stela Diogo:<\/p>\n<p>Entrevista Fernando Morais [37:11] (\u2026) Natalia: (\u2026) ent\u00e3o especificamente sobre a sua impress\u00e3o, e eu sei que, ou seja, o Lula e o pr\u00f3prio Zanin, o Zanin tem a tese do lawfare, a tese de que por tr\u00e1s da Lava Jato havia um interesse norte-americano. Voc\u00ea partilha dessa vis\u00e3o? [39:50] Fernando: Sim, eu tenho certeza absoluta. Tenho certeza absoluta. As visitas do Moro ao FBI, visitas p\u00fablicas, sabe? As pessoas brincavam, [40:04] o Requi\u00e3o aqui do Brasil brincava dizendo o seguinte, na hora que o Moro entra no FBI, a senha dele apita, j\u00e1 est\u00e1 t\u00e3o acostumado que j\u00e1 entra e ela [40:22] buzina, ent\u00e3o eu, sabe, n\u00e3o tenho d\u00favidas, o que o Moro foi fazer l\u00e1 tem que explicar, eles v\u00e3o ter que explicar, ele veio aqui fazer isso, isso e aquilo.\u00a0<\/p>\n<p>Voc\u00ea pode achar que sou uma pessoa obcecada, e acho que sou mesmo. Al\u00e9m das reportagens com os documentos vazados pela Vaza Jato, tamb\u00e9m fiz uma reportagem com base em diversos registros p\u00fablicos de reuni\u00f5es, mostrando que quando Moro era ministro da Justi\u00e7a, ele abriu as portas para o FBI no Brasil.<\/p>\n<p>Trilha sonora \u201cinterfer\u00eancia\u201d<\/p>\n<p>Foram repetidas\u00a0 reuni\u00f5es com agentes do FBI no Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a, mais do que qualquer governo anterior. Moro tamb\u00e9m assinou acordos para compartilhar informa\u00e7\u00f5es biom\u00e9tricas de cidad\u00e3os brasileiros e concluiu a cria\u00e7\u00e3o de um Centro Integrado de Opera\u00e7\u00f5es na Tr\u00edplice Fronteira, um projeto dos sonhos da embaixada americana, que h\u00e1\u00a0 anos pressionava o governo brasileiro para investigar suspeitas de atividades terroristas na regi\u00e3o \u2013 como j\u00e1 falamos.\u00a0 Al\u00e9m disso, tem a cerejinha do bolo: pouco depois da Vaza Jato, quando estava sob ataque pela primeira vez desde o come\u00e7o da opera\u00e7\u00e3o, Moro tirou, do nada, uma \u201clicen\u00e7a n\u00e3o remunerada\u201d para uma semana de \u201cf\u00e9rias\u201d com a esposa. O casal passou quatro dias em Washington, capital dos Estados Unidos, tirando fotos diante da Casa Branca e demais pontos tur\u00edsticos e postando nas redes com aquele sorriso amarelo de \u201cestou de f\u00e9rias no meio da maior crise da minha carreira pol\u00edtica\u201d. Na \u00e9poca, fiz um pedido pela Lei de Acesso \u00e0 Informa\u00e7\u00e3o, ou <em>Freedom of Information Act<\/em> nos EUA, que permite a qualquer pessoa pedir informa\u00e7\u00f5es oficiais, perguntando se Moro teve encontro com representantes do FBI. Sabe o que o FBI respondeu? \u201cN\u00e3o confirma, nem nega\u201d. Pra bom entendedor, meia palavra basta.\u00a0<\/p>\n<p>Fim da trilha sonora\u00a0<\/p>\n<p>\u00c9 extremamente incomum que o ministro da Justi\u00e7a de um pa\u00eds visite a sede da pol\u00edcia de outra na\u00e7\u00e3o, ainda mais de forma n\u00e3o oficial. Fato \u00e9 que quatro dias depois do retorno de Moro, o hacker que tinha obtido os di\u00e1logos do celular de Deltan Dallagnol foi preso pela PF, na famosa Opera\u00e7\u00e3o Spoofing que voc\u00eas j\u00e1 ouviram por aqui\u2026 Ser\u00e1 que chegou alguma \u201cintelig\u201d, ou informa\u00e7\u00e3o de intelig\u00eancia, para o ent\u00e3o ministro da Justi\u00e7a l\u00e1 em Washington sobre como achar o hacker?\u00a0<\/p>\n<p>Entrevista Fernando Morais: Natalia: [40:38] Mas voc\u00ea acha ent\u00e3o que foi uma arma\u00e7\u00e3o pra qu\u00ea? Pra tirar o Lula?[40:43] Fernando: O Lula, acho que tudo isso foi feito pra tirar o Lula, a Dilma foi degolada como parte do processo para derrubar o Lula, para afastar o Lula da vida p\u00fablica. Natalia: [40:58] E por que era t\u00e3o importante afastar o Lula da vida p\u00fablica? Fernando: [41:01] Porque o Lula \u00e9 a figura de esquerda mais importante da Am\u00e9rica Latina, sabe? Voc\u00ea pode dizer que \u00e9 muito de esquerda, pouco de esquerda, n\u00e3o importa, n\u00e3o importa, ele \u00e9 visto [41:15] pelos \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a norte-americanos como uma figura de esquerda mais importante da Am\u00e9rica Latina. Voc\u00ea vai dizer \u201cah n\u00e3o, mas o Raul Castro, \u00e9 mais importante\u201d, sim, s\u00f3 que Cuba tem o PIB da Daslu, sabe? E o Brasil tem 250 [41:32] milh\u00f5es de habitantes. Ent\u00e3o, \u201cah, n\u00e3o, mas tem a Venezuela, tem o Maduro\u201d. Sim, mas a Venezuela tem 40 milh\u00f5es de habitantes, sabe? Eu estou convencido de que era para [41:45] tirar o Lula, era para tirar o Lula.\u00a0<\/p>\n<p>Fernando Morais aguarda o recebimento de documentos que podem adicionar provas objetivas \u00e0 sua an\u00e1lise. Ele solicitou, via lei de acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o, a diversas ag\u00eancias dos EUA registros sobre Lula. E j\u00e1 descobriu que existem no total 613 documentos sobre seu biografado. O simples fato de esses documentos existirem demonstram que a figura de Lula despertava interesse por parte das ag\u00eancias americanas, e que ele foi monitorado desde a \u00e9poca em que era sindicalista.\u00a0<\/p>\n<p>Entrevista Fernando Morais: [13:21] (\u2026) Natalia: por que voc\u00ea e o Lula acreditavam que era importante saber como os EUA estavam vendo o Lula? Fernando: Porque os EUA vigiam o mundo, n\u00e3o deixariam de vigiar um cara que estava surgindo como os lideran\u00e7a internacional de esquerda, desde o per\u00edodo [14:00] que ele era sindicalista, lideran\u00e7a das greves. Por exemplo, um neg\u00f3cio que me interessa muito, como \u00e9 que eles estavam monitorando a atividade dele [14:14] durante as greves, sobretudo a greve de 80, que foi aquela greve intermin\u00e1vel, 40 dias, 40 noites, que acabaram prendendo o Lula. [14:27] Me interessava isso e me interessavam sobretudo os governos dele, os dois governos, qual era o interesse, porque na verdade n\u00e3o era tanto o que eles registraram, mas no que eles estavam interessados? Qual era exatamente o tema em que eles debru\u00e7aram?\u00a0<\/p>\n<p>Fernando Morais acredita que a Lava Jato tinha Lula como um alvo pr\u00e9 determinado, mas temos evid\u00eancias suficientes para afirmar que o governo americano est\u00e1 por tr\u00e1s da Lava Jato? Podemos nos convencer s\u00f3 com circunst\u00e2ncias ou precisamos de provas?\u00a0<\/p>\n<p>Entrevista Fernando Morais [42:45] (\u2026) Fernando: n\u00e3o, se n\u00e3o tiver [43:01] informa\u00e7\u00e3o eu fico sempre com o p\u00e9 atr\u00e1s com o neg\u00f3cio de ser paranoia, teoria da conspira\u00e7\u00e3o, n\u00e9, que isso tem agora, os [43:16] caras grampearam a presidente da Petrobras, grampearam a presidente da Rep\u00fablica que tinha sido conselheira da Petrobras antes que ela era ministra. Depois que \u00e9 anunciada a descoberta do pr\u00e9-sal, sabe, \u00e9 uma dedu\u00e7\u00e3o mais ou menos \u00f3bvia, sabe.<\/p>\n<p>Pausa, sil\u00eancio\u00a0<\/p>\n<p>Fernando \u00e9 um grande jornalista que conhece a trajet\u00f3ria do ex-presidente como ningu\u00e9m, mas \u00e9 amigo e bi\u00f3grafo de Lula. Por isso, eu queria ouvir a perspectiva de uma outra grande jornalista que admiro muito. Ela conhece em profundidade a hist\u00f3ria de outro grande nome da Lava Jato, a empreiteira Odebrecht. Para isso, precisei pegar mais uma ponte a\u00e9rea e viajei at\u00e9 o Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Ambi\u00eancia: aeroporto, viagem para o Rio\u00a0<\/p>\n<p>Malu Gaspar \u00e9 autora do livro <em>A Organiza\u00e7\u00e3o<\/em>, uma reportagem profunda sobre a hist\u00f3ria da Odebrecht e, claro, dos esquemas de corrup\u00e7\u00e3o em que esteve envolvida. Ela \u00e9 acusada por muita gente de ser \u201clavajatista\u201d, mas \u00e9 uma jornalista exemplar. N\u00e3o \u00e9 pouco trabalho contar a hist\u00f3ria daquela que foi durante d\u00e9cadas a maior empreiteira do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Entrevista Malu Gaspar[1:18:03] Natalia: Quando eu te chamei para fazer essa entrevista, voc\u00ea fez um coment\u00e1rio. Eu acho a vis\u00e3o de que os Estados Unidos est\u00e3o por tr\u00e1s da Lava Jato \u00e9 uma vis\u00e3o simplista. Explica qual \u00e9 a sua vis\u00e3o sobre a participa\u00e7\u00e3o dos americanos (\u2026)Como \u00e9 que voc\u00ea v\u00ea? Malu: [1:18:23] Olha, eu acho realmente muito simplista. Desde o come\u00e7o, quando eu comecei a ouvir as hist\u00f3rias de que estudaram nos Estados Unidos, ent\u00e3o a CIA inoculou no Sergio Moro e no Deltan Dallagnol o v\u00edrus da [1:18:36] Lava Jato. Eu acho isso muito\u2026 Chega a ser pat\u00e9tico. \u00c9 rid\u00edculo isso. At\u00e9 porque isso\u2026 Eu tenho para mim que a Lava Jato em algum momento ia acontecer. Outras opera\u00e7\u00f5es foram abortadas e em alguma hora isso ia acabar [1:18:50] acontecendo por conta de que quem investiga aprende a driblar tamb\u00e9m os estratagemas dos criminosos. \u00c9 assim que funciona. Esse \u00e9 o ciclo hist\u00f3rico. Ent\u00e3o, eu acho isso muito simplista e at\u00e9 meio rom\u00e2ntico.[1:19:02] Coisa de quem v\u00ea filme ruim da <em>Sess\u00e3o da Tarde<\/em>.<\/p>\n<p>Trilha sonora da s\u00e9rie\u00a0<\/p>\n<p>Rom\u00e2ntica, talvez seja eu, que no fim deste terceiro epis\u00f3dio tenho apenas duas certezas: a primeira, que estamos avan\u00e7ando e j\u00e1 temos na nossa bagagem algumas descobertas importantes sobre a influ\u00eancia americana na Lava Jato. E, a segunda: que s\u00f3 o jornalismo investigativo pode nos ajudar a chegar do outro lado.<\/p><\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/espanha-desmente-casa-branca-sobre-suposta-cooperacao-na-guerra-contra-ira\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/albares-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Espanha desmente Casa Branca sobre suposta coopera...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/porto-alegre-declara-situacao-de-emergencia-devido-a-epidemia-de-dengue\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Porto Alegre declara situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia devido...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/sabemos-como-superar-isso-o-mentor-e-bolsonaro-e-ele-tem-que-ser-preso\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">\u201cSabemos como superar isso. 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