{"id":94877,"date":"2026-07-09T16:32:01","date_gmt":"2026-07-09T19:32:01","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/terra-poder-e-violencia-a-formacao-dos-latifundios-no-centro-sul-do-parana\/"},"modified":"2026-07-09T16:32:01","modified_gmt":"2026-07-09T19:32:01","slug":"terra-poder-e-violencia-a-formacao-dos-latifundios-no-centro-sul-do-parana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/terra-poder-e-violencia-a-formacao-dos-latifundios-no-centro-sul-do-parana\/","title":{"rendered":"Terra, poder e viol\u00eancia: a forma\u00e7\u00e3o dos latif\u00fandios no Centro-sul do Paran\u00e1"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"764\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-1024x764.jpeg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-300x224.jpeg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-768x573.jpeg 768w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-1536x1146.jpeg 1536w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image.jpeg 1600w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption><em>Foto: Acervo do MIS \u2013 Museu da Imagem e do Som de Cascavel<\/em>\/ <em>Antonio Marcos Ferreira<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Por Juliana Valentini*<br \/><\/em>Do Brasil de Fato PR<\/p>\n<p>Um\u00a0 acordo firmado entre o INCRA, a Uni\u00e3o, a Araupel S.A. e a Rio das Cobras Ltda. determinou a <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/2026\/05\/26\/mst-transforma-um-dos-maiores-latifundios-do-sul-do-brasil-em-territorio-da-reforma-agraria\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">regulariza\u00e7\u00e3o de lotes e a cria\u00e7\u00e3o de tr\u00eas novos assentamentos<\/a>, com a incorpora\u00e7\u00e3o de mais de 54 mil hectares ao por meio do Programa Nacional de Reforma Agr\u00e1ria, na regi\u00e3o centro-sul do Paran\u00e1. A conquista significa o encerramento de uma longa disputa judicial e representando um marco para a luta pela terra no estado.<\/p>\n<p>A primeira ocupa\u00e7\u00e3o vitoriosa em \u00e1reas da antiga madeireira Giacomet-Marodin, atual Araupel, come\u00e7ou em Rio Bonito do Igua\u00e7u, no dia 17 de abril de 1996. Foi a ocupa\u00e7\u00e3o da Fazenda Pinhal Ralo, que resultou na desapropria\u00e7\u00e3o de aproximadamente 27 mil hectares, demonstrando que a repress\u00e3o estatal foi capaz de retardar, mas n\u00e3o impedir, a implementa\u00e7\u00e3o da reforma agr\u00e1ria na regi\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria do desenvolvimento econ\u00f4mico no campo possui uma contraface marcada pela expropria\u00e7\u00e3o dos modos de vida de caboclos, posseiros e povos origin\u00e1rios. Pesquisas recentes, fundamentadas nas teses de Ana Cristina Hammel (2021) e J\u00e9ssica de \u00c1vila Follmann (2025), rastrearam registros cartoriais e identificaram uma s\u00e9rie de irregularidades na transfer\u00eancia de terras do dom\u00ednio p\u00fablico para o privado.<\/p>\n<p>No caso do im\u00f3vel Pinhal Ralo,as pesquisadoras, especialistas e magistrados apontam problemas como sobreposi\u00e7\u00e3o de \u00e1reas, quebra da cadeia dominial e transfer\u00eancias de dom\u00ednio fundamentadas exclusivamente em \u201ccess\u00f5es de direitos heredit\u00e1rios\u201d, instrumento sem efic\u00e1cia jur\u00eddica para transferir a propriedade de terras p\u00fablicas federais. O processo de apropria\u00e7\u00e3o remonta a transa\u00e7\u00f5es posteriormente validadas pelo INCRA e por cart\u00f3rios locais, apesar das restri\u00e7\u00f5es impostas na legisla\u00e7\u00e3o vigente.<\/p>\n<figure><figcaption><em>Foto: Acervo do MIS \u2013 Museu da Imagem e do Som de Cascavel<\/em>\/ <em>Antonio Marcos Ferreira<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"747\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-1-1.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-1-1-1024x747.jpeg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-1-1-300x219.jpeg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-1-1-768x560.jpeg 768w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-1-1-1536x1120.jpeg 1536w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-1-1.jpeg 1600w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption><em>Foto: Acervo do MIS \u2013 Museu da Imagem e do Som de Cascavel<\/em>\/ <em>Antonio Marcos Ferreira<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>A aus\u00eancia de transpar\u00eancia foi agravada pela destrui\u00e7\u00e3o do levantamento original de medi\u00e7\u00e3o da \u00e1rea. Em 27 de setembro de 1989, um inc\u00eandio atingiu o Departamento de Arquivo P\u00fablico do Paran\u00e1, destruindo documentos agr\u00e1rios essenciais. Sem os memoriais descritivos originais, a legitima\u00e7\u00e3o das posses ocorreu em um contexto marcado por incertezas documentais e limitada possibilidade de contesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Situa\u00e7\u00e3o semelhante ocorreu no im\u00f3vel Rio das Cobras. As terras haviam sido originalmente concedidas \u00e0 Companhia Estrada de Ferro S\u00e3o Paulo\u2013Rio Grande, retornando ao patrim\u00f4nio da Uni\u00e3o em raz\u00e3o do descumprimento contratual. Apesar disso, continuaram sendo negociadas por particulares durante d\u00e9cadas. Em 2015, a Justi\u00e7a Federal declarou a nulidade dos t\u00edtulos de propriedade, entendendo que a empresa Araupel\/Giacomet-Marodin n\u00e3o poderia ser indenizada pela desapropria\u00e7\u00e3o de terras que sempre pertenceram \u00e0 Uni\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>Os im\u00f3veis Pinhal Ralo e Rio das Cobras passaram a ser explorados, a partir de 1972, pelos grupos empresariais Maisonnave, Giacomet e Marodin, que atuavam por meio de diferentes raz\u00f5es sociais. A expans\u00e3o de seus dom\u00ednios sobre os chamados \u201cintrusos\u201d e posseiros, muitos estabelecidos na regi\u00e3o havia d\u00e9cadas, ocorreu por meio de uma dupla estrat\u00e9gia: a judicializa\u00e7\u00e3o dos conflitos fundi\u00e1rios e o emprego sistem\u00e1tico da viol\u00eancia no campo, conforme demonstram as investiga\u00e7\u00f5es que desenvolvemos.<\/p>\n<p>Of\u00edcios policiais, processos judiciais e fotografias produzidos nas d\u00e9cadas de 1970 e 1980 documentam a atua\u00e7\u00e3o de vigilantes contratados pelas empresas Maisonnave, Giacomet-Marodin e pela empresa de seguran\u00e7a Wackenhut do Brasil. Entre as pr\u00e1ticas registradas encontram-se altera\u00e7\u00f5es ilegais de divisas, inc\u00eandios de moradias e disparos de arma de fogo com o objetivo de expulsar moradores.<\/p>\n<p>A concentra\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria era t\u00e3o evidente que representantes da pr\u00f3pria pol\u00edtica institucional buscaram, sem sucesso, limitar a expans\u00e3o empresarial. Pedro Alzide Giraldi, ent\u00e3o prefeito de Quedas do Igua\u00e7u e filiado \u00e0 ARENA, encaminhou sucessivos of\u00edcios ao ditador Jo\u00e3o Baptista Figueiredo entre 1980 e 1982. Nos documentos, denunciava que a empresa ocupava \u201cmais da metade dos 1.212 km\u00b2 do munic\u00edpio, manipulava informa\u00e7\u00f5es fornecidas ao Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF) para reduzir a tributa\u00e7\u00e3o e agravava a crise social local\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>No Of\u00edcio n\u00ba 22\/82, Giraldi afirmava:<\/p>\n<p>\u201cRogamos \u00e0 V. Exa. que nos volva seu olhar para Quedas do Igua\u00e7u (\u2026) que a metade [do latif\u00fandio] seja desapropriada, colonizada e vendida a tantas fam\u00edlias sem-terra e sem emprego, que passam at\u00e9 fome (\u2026) O que ser\u00e1 do nosso munic\u00edpio? Com mais da metade de suas terras sem aproveitamento algum na m\u00e3o de um grupo econ\u00f4mico que nem sequer em nosso estado reside\u201d.<\/p>\n<p>O prefeito tamb\u00e9m denunciou a manobra envolvendo o im\u00f3vel Campo Novo (ou Fazenda S\u00e3o Jorge, outra \u00e1rea ocupada pela empresa), alegando que os empres\u00e1rios haviam transferido as \u00e1reas questionadas para seus pr\u00f3prios diretores \u201caos olhos do INCRA, sem que este nada fizesse\u201d. Ele se referia ao Decreto n\u00ba 84.604, de 31 de mar\u00e7o de 1980, que desapropriou parte dos im\u00f3veis ocupados pela empresa, mas preservou estrategicamente os im\u00f3veis Rio das Cobras e Pinhal Ralo, explorados pela Giacomet-Marodin.\u00a0<\/p>\n<p>Mesmo ap\u00f3s o im\u00f3vel Campo Novo ser reconhecido como patrim\u00f4nio da Uni\u00e3o e declarado de interesse social para fins de reforma agr\u00e1ria, o grupo empresarial fragmentou e comercializou parcelas da \u00e1rea em extens\u00e3o superior \u00e0quela que afirmava documentalmente possuir.<\/p>\n<p>As an\u00e1lises desenvolvidas em pesquisa sobre o im\u00f3vel Campo Novo, em conjunto com os estudos acerca dos im\u00f3veis Rio das Cobras e Pinhal Ralo, sustentam que a expans\u00e3o do latif\u00fandio no Centro-Sul do Paran\u00e1 resultou da combina\u00e7\u00e3o entre viol\u00eancia privada, legitima\u00e7\u00e3o cartorial e atua\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os estatais respons\u00e1veis pela administra\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria e pela seguran\u00e7a nacional.<\/p>\n<p><strong>Viol\u00eancia empresarial-militar no campo paranaense<\/strong><\/p>\n<p>A promulga\u00e7\u00e3o do Decreto n\u00ba <a href=\"https:\/\/www2.camara.leg.br\/legin\/fed\/decret\/1980-1987\/decreto-84604-31-marco-1980-434042-norma-pe.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">84.604\/1980<\/a> n\u00e3o reduziu os conflitos agr\u00e1rios no Centro-Sul do Paran\u00e1. Ao contr\u00e1rio, a ocupa\u00e7\u00e3o dos im\u00f3veis Campo Novo, Pinhal Ralo e Rio das Cobras nos meses subsequentes representou a rea\u00e7\u00e3o de trabalhadores rurais a d\u00e9cadas de sobreposi\u00e7\u00e3o de t\u00edtulos, grilagem, deslocamentos provocados por hidrel\u00e9tricas, mecaniza\u00e7\u00e3o agr\u00edcola e expuls\u00e3o de fam\u00edlias do campo.<\/p>\n<p><strong>O mapa, elaborado pela empresa e constante dos autos, destaca a localiza\u00e7\u00e3o dos acampamentos situados nas \u00e1reas reivindicadas pelos empres\u00e1rios.\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure><figcaption><em>Fonte: Autos 431 e 432 de 1980. Documentos 7 e 8 do processo de Reintegra\u00e7\u00e3o de Posse requerido por Giacomet Marodin Ind\u00fastria de Madeiras S\/A. Marca\u00e7\u00f5es nos originais, reproduzidas digitalmente.<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Entre julho e outubro de 1980, a opera\u00e7\u00e3o de despejo conduzida conjuntamente pela empresa e pelas for\u00e7as policiais removeu centenas de fam\u00edlias, resultando em pris\u00f5es e den\u00fancias de tortura. Relat\u00f3rios do Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00f5es (SNI) registraram a opera\u00e7\u00e3o como um despejo realizado \u201csem resist\u00eancia\u201d. Os autos do inqu\u00e9rito policial preservam documentos cont\u00e1beis da pr\u00f3pria empresa detalhando os gastos destinados ao financiamento da opera\u00e7\u00e3o. Os registros indicam despesas que, atualizadas monetariamente apenas no epis\u00f3dio de 1980, ultrapassam R$ 1,5 milh\u00e3o, incluindo aquisi\u00e7\u00e3o de muni\u00e7\u00f5es destinadas \u00e0s \u201cbatidas na mata\u201d, mais de 3.500 litros de combust\u00edvel, manuten\u00e7\u00e3o de viaturas policiais e ve\u00edculos particulares de policiais militares, alimenta\u00e7\u00e3o, hospedagem para policiais e transporte de pessoas detidas.<\/p>\n<p>As evid\u00eancias analisadas indicam que a viol\u00eancia de 1980 n\u00e3o constituiu epis\u00f3dio isolado. Desde a d\u00e9cada de 1970, a Giacomet-Marodin estruturou um sistema permanente de controle territorial, instalando postos fixos com guardas ao longo do Rio Igua\u00e7u e nas divisas da propriedade. Nessa perspectiva, a viol\u00eancia n\u00e3o se limitou a excessos individuais, mas integrou um conjunto de pr\u00e1ticas destinadas ao controle do territ\u00f3rio, \u00e0 explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da madeira e \u00e0 repress\u00e3o dos conflitos fundi\u00e1rios. Em depoimentos recolhidos os registros s\u00e3o un\u00e2nimes em afirmar que os guardas da firma eram violentos e, por vezes, surpreendiam pessoas ca\u00e7ando ou transitando pelas \u00e1reas de vigil\u00e2ncia e arredores; costumavam arrebatar o material de ca\u00e7a e espancar os moradores.<\/p>\n<p><strong>Registro de arma apreendida na investiga\u00e7\u00e3o de homic\u00eddio<\/strong><\/p>\n<figure><figcaption><em>Fonte: AUTOS n\u00ba 06\/92. Natureza: pedido de restitui\u00e7\u00e3o de armas.<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Enquanto parte da imprensa reproduzia vers\u00f5es oficiais sobre o despejo das fam\u00edlias, noticiando que estavam sendo levadas para localidades e cidades de origem pelos caminh\u00f5es fornecidos pela empresa, os depoimentos orais coletados na investiga\u00e7\u00e3o revelam outra dimens\u00e3o da repress\u00e3o. Trabalhadores rurais, hoje com cerca de 80 anos, relataram deten\u00e7\u00f5es sem registro formal, priva\u00e7\u00e3o de alimentos, espancamentos, humilha\u00e7\u00f5es e tortura psicol\u00f3gica. Muitos afirmam conviver, at\u00e9 os dias atuais, com sequelas f\u00edsicas e psicol\u00f3gicas permanentes decorrentes da viol\u00eancia a que foram submetidos durante a repress\u00e3o. Essa pol\u00edtica repressiva visava n\u00e3o apenas punir os trabalhadores rurais, mas tamb\u00e9m produzir um trauma coletivo capaz de desestimular novas formas de organiza\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o social. Contudo, a estrat\u00e9gia produziu efeitos distintos dos esperados.\u00a0<\/p>\n<p>A dispers\u00e3o inicial das fam\u00edlias foi gradualmente substitu\u00edda pela organiza\u00e7\u00e3o coletiva. Com apoio de sindicatos rurais e da Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT), os trabalhadores fortaleceram formas permanentes de mobiliza\u00e7\u00e3o que contribu\u00edram para a consolida\u00e7\u00e3o do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Ao longo das d\u00e9cadas de 1980 e 1990, intensificaram-se as lutas dos movimentos sociais pelo acesso \u00e0 terra e o fortalecimento de sua organiza\u00e7\u00e3o. Esse processo culminou nas ocupa\u00e7\u00f5es vitoriosas realizadas a partir de 1996, que resultaram na cria\u00e7\u00e3o de assentamentos nestas \u00e1reas.\u00a0<\/p>\n<p>Durante a pesquisa, tive a oportunidade de visitar, pela primeira vez, muitas dessas regi\u00f5es, n\u00e3o pude deixar de registrar o impacto causado pela precariedade das condi\u00e7\u00f5es de acesso a grande parte das \u00e1reas que hoje constituem os assentamentos. As dificuldades v\u00e3o al\u00e9m das estradas em m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es. A aus\u00eancia de investimentos p\u00fablicos tamb\u00e9m se revela na infraestrutura escolar, na car\u00eancia de pol\u00edticas habitacionais para as fam\u00edlias assentadas e na limita\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os essenciais. S\u00e3o desafios que permanecem e em muitos aspectos, a sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 de que parte do poder p\u00fablico (especialmente o local e estadual) se retirou do territ\u00f3rio juntamente com a empresa, deixando para os trabalhadores o \u00f4nus de enfrentar, quase sozinhos, problemas hist\u00f3ricos que ainda aguardam solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o pude deixar de refletir sobre o impacto social causado pelas d\u00e9cadas que a empresa se apropriou dessas \u00e1reas, o deslocamento for\u00e7ado de fam\u00edlias camponesas, \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o de modos de vida, \u00e0 pr\u00e1tica de pris\u00f5es arbitr\u00e1rias, torturas e outras formas de viol\u00eancia empregadas para assegurar o controle do territ\u00f3rio. Nessa perspectiva, a hist\u00f3ria agr\u00e1ria brasileira n\u00e3o pode ser dissociada da hist\u00f3ria das viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos no campo. A an\u00e1lise desses processos evidencia que a concentra\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria foi sustentada n\u00e3o apenas por mecanismos jur\u00eddicos e cartoriais, mas tamb\u00e9m por pr\u00e1ticas repressivas que contaram com diferentes graus de participa\u00e7\u00e3o ou omiss\u00e3o do Estado e de seus agentes.<\/p>\n<p>A <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/2026\/07\/03\/com-presenca-de-autoridades-mst-realiza-festa-historica-de-criacao-de-assentamentos-em-rio-bonito-iguacu-pr\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">conquista dos assentamentos<\/a> representa, para as fam\u00edlias dos trabalhadores rurais, a possibilidade de garantir o trabalho, a produ\u00e7\u00e3o e a uma vida digna. Organizados por meio de cooperativas, associa\u00e7\u00f5es e agroind\u00fastrias, esses territ\u00f3rios produzem uma ampla diversidade de alimentos, fortalecem as economias regionais, geram emprego e renda, estimulam o cooperativismo e contribuem para a perman\u00eancia das fam\u00edlias no campo. Os assentamentos constituem territ\u00f3rios que floresceram a partir de d\u00e9cadas de mobiliza\u00e7\u00e3o, resist\u00eancia e esperan\u00e7a, materializando um sonho coletivo cultivado por in\u00fameras fam\u00edlias que lutaram pelo direito \u00e0 terra. Representam a concretiza\u00e7\u00e3o de uma hist\u00f3rica reivindica\u00e7\u00e3o por justi\u00e7a social, expressando a trajet\u00f3ria de luta, organiza\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o social constru\u00edda ao longo do tempo.\u00a0<\/p>\n<p>*<em>Juliana Valentini \u00e9 professora do Instituto Federal do Paran\u00e1 (IFPR) e doutoranda no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria da Universidade Estadual do Oeste do Paran\u00e1 (UNIOESTE). Integra a Red Internacional de Procesos Represivos, Empresas, Trabajadores\/as y Sindicatos en Am\u00e9rica Latina (RIProR). <\/em><\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/2026\/07\/09\/terra-poder-e-violencia-a-formacao-dos-latifundios-no-centro-sul-do-parana\/\">Terra, poder e viol\u00eancia: a forma\u00e7\u00e3o dos latif\u00fandios no Centro-sul do Paran\u00e1<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/\">MST<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/ccj-aprova-relatorio-de-jaques-wagner-que-torna-salvador-sede-do-governo-federal-a-cada-2-de-julho\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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