{"id":95285,"date":"2026-07-13T16:12:39","date_gmt":"2026-07-13T19:12:39","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/saude-e-digitalizacao-a-tela-como-maquina-de-captura\/"},"modified":"2026-07-13T16:12:39","modified_gmt":"2026-07-13T19:12:39","slug":"saude-e-digitalizacao-a-tela-como-maquina-de-captura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/saude-e-digitalizacao-a-tela-como-maquina-de-captura\/","title":{"rendered":"Sa\u00fade e digitaliza\u00e7\u00e3o: a \u2018tela\u2019 como m\u00e1quina de captura"},"content":{"rendered":"<p><span>A rela\u00e7\u00e3o entre sa\u00fade e digitaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 frequentemente relacionada ao tempo de tela dos usu\u00e1rios. De acordo com o relat\u00f3rio Global Overview Report, publicado pela DataReportal, o brasileiro passa em m\u00e9dia 9 horas e 32 minutos por dia conectado \u00e0 internet \u2013 o segundo maior \u00edndice global, superado apenas pela \u00c1frica do Sul (9h38). Para estabelecermos uma refer\u00eancia, a m\u00e9dia global do tempo de tela \u00e9 de aproximadamente 6h38min. A pesquisa da OCDE\/Cisco, \u201cComo as pessoas vivenciam as novas tecnologias e a IA generativa?\u201d (dezembro de 2024), realizada em 14 pa\u00edses, revelou que 47,8% dos brasileiros passam mais de 5 horas por dia em frente a telas para fins recreativos, colocando o Brasil em segundo lugar nesse quesito (abaixo apenas do M\u00e9xico, com 50,4%).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>Dentre estudos recentes, a revis\u00e3o sistem\u00e1tica de 50 artigos sobre o tema, feita por Santos et al. (2023), concluiu que a maioria encontrou associa\u00e7\u00e3o entre exposi\u00e7\u00e3o \u00e0s telas e problemas de sa\u00fade mental em adolescentes. O uso de redes sociais foi negativamente associado ao bem-estar e, em <\/span><span>meninas<\/span><span>, correlacionado a maior risco de depress\u00e3o. Outro estudo publicado no British Journal of Clinical Psychology (Li et al., 2025) examinou as associa\u00e7\u00f5es transversais e longitudinais entre tempo de tela, depress\u00e3o e ansiedade em adolescentes, identificando que os mecanismos mediadores incluem o deslocamento de comportamentos adaptativos (atividade f\u00edsica, sono, intera\u00e7\u00f5es presenciais), compara\u00e7\u00f5es sociais negativas com padr\u00f5es irreais e exposi\u00e7\u00e3o a conte\u00fados inapropriados. Uma ampla revis\u00e3o narrativa publicada no Frontiers in Public Health (2025), sob o t\u00edtulo \u201cConnected but at Risk: Social Media Exposure and Psychiatric and Psychological Outcomes in Youth\u201d (<\/span><i><span>Conectados mas em risco: exposi\u00e7\u00e3o \u00e0s m\u00eddias sociais e efeitos psiqui\u00e1tricos e psicol\u00f3gicos na juventude)<\/span><\/i><span>, sistematizou estudos de PubMed\/MEDLINE, PsycINFO, Scopus e Web of Science entre 2010 e 2025, e concluiu que o uso de redes sociais est\u00e1 associado a sintomas de depress\u00e3o e ansiedade, idea\u00e7\u00e3o suicida, dist\u00farbios de imagem corporal em crian\u00e7as e adolescentes.\u00a0<\/span><\/p>\n<figure aria-describedby=\"caption-attachment-260184\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/digitalizacao.webp\" alt=\"Cada vez mais, o circuito da cultura industrializada \u2013 e agora digitalizada \u2013 submete gradualmente trabalho e lazer \u00e0 l\u00f3gica do entretenimento e da comodifica\u00e7\u00e3o. &lt;br&gt; (Foto: Cottronbro Studio \/ Pexels)\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/digitalizacao.webp 1024w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/digitalizacao-300x200.webp 300w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/digitalizacao-768x512.webp 768w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/digitalizacao-150x100.webp 150w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/digitalizacao-750x500.webp 750w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption>Cada vez mais, o circuito da cultura industrializada \u2013 e agora digitalizada \u2013 submete gradualmente trabalho e lazer \u00e0 l\u00f3gica do entretenimento e da comodifica\u00e7\u00e3o. <br \/>(Foto: Cottronbro Studio \/ Pexels)<\/figcaption><\/figure>\n<p><span>O debate sobre uso excessivo das redes e exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 telas frequentemente passa pelo enquadramento do v\u00edcio ou da \u201cadic\u00e7\u00e3o digital\u201d, com a literatura neurocient\u00edfica convergindo, nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas, para um modelo centrado no sistema dopamin\u00e9rgico. Apesar desses estudos serem importantes para a an\u00e1lise dos efeitos e implica\u00e7\u00f5es neuronais, a quest\u00e3o central aqui \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre campos de pesquisa e regimes epistemol\u00f3gicos: esse tipo de an\u00e1lise mais <\/span><i><span>descreve<\/span><\/i><span> a fisiologia dos processos de adic\u00e7\u00e3o do que explica o \u201cporqu\u00ea\u201d de sua exist\u00eancia. Uma explica\u00e7\u00e3o para tais fen\u00f4menos requer a amplitude das implica\u00e7\u00f5es e contextos dessas ocorr\u00eancias, que abarque tanto a dimens\u00e3o ontol\u00f3gica de tais dispositivos quanto sua exist\u00eancia inscrita em determinado regime\/totalidade social.<\/span><\/p>\n<p><span>Geralmente utilizada como recorte, a exposi\u00e7\u00e3o \u00e0s telas acaba por reduzir o todo a uma parte ilustrativa, mas que precisa ser compreendida em sua complexidade. A \u201ctela\u201d \u00e9 algo amplo e com diversos modos de uso. O que chamamos aten\u00e7\u00e3o aqui \u00e9 para a arquitetura e design das plataformas, sua interface, e suas implica\u00e7\u00f5es nos modos de distribui\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o e dos conte\u00fados, que \u00e9 uma din\u00e2mica n\u00e3o apenas alienada, mas automatizada por din\u00e2micas algor\u00edtmicas com finalidades mercadol\u00f3gicas, media\u00e7\u00f5es opacas e efeitos formadores. O impacto desses efeitos nas camadas mais jovens revela uma dupla converg\u00eancia: s\u00e3o tanto as gera\u00e7\u00f5es nascidas na \u201cera digital\u201d consolidada, quanto tamb\u00e9m formam o extrato da popula\u00e7\u00e3o de maior interesse econ\u00f4mico e pol\u00edtico das Big Techs.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>Primeiro, existe uma dificuldade qualitativa hoje em estabelecer a distin\u00e7\u00e3o entre uso recreativo e laboral da esfera digital, especialmente na medida em que, dependendo da \u00e1rea profissional, as rela\u00e7\u00f5es entre uso de plataformas para lazer e trabalho se confundem \u2013 assim como existe tamb\u00e9m um debate sobre o trabalho n\u00e3o pago no simples uso das plataformas (em que n\u00e3o vamos adentrar aqui). A fragmenta\u00e7\u00e3o da fronteira entre trabalho e lazer (ou descanso) \u00e9 uma tend\u00eancia que j\u00e1 fora percebida por te\u00f3ricos como Adorno e Horkheimer, ao analisarem o sistema da ind\u00fastria cultural. A dilui\u00e7\u00e3o dessa distin\u00e7\u00e3o, em curso ao menos desde o final da primeira metade do s\u00e9culo passado, ganha uma din\u00e2mica in\u00e9dita com a digitaliza\u00e7\u00e3o. Cada vez mais, o circuito da cultura industrializada \u2013 e agora digitalizada \u2013 submete gradualmente trabalho e lazer \u00e0 l\u00f3gica do entretenimento e da comodifica\u00e7\u00e3o, atualizada pela datifica\u00e7\u00e3o e o circuito de influ\u00eancia digital com sua transposi\u00e7\u00e3o da vida privada em vida p\u00fablica, inclusive como expectativa de renda e horizonte de \u201ccarreira profissional\u201d na sociedade p\u00f3s-salarial.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>Um ponto fundamental aqui \u00e9 n\u00e3o reproduzir an\u00e1lises do processo de digitaliza\u00e7\u00e3o destacados de seu contexto real, como a fragmenta\u00e7\u00e3o da forma social, o colapso da democracia liberal, o horizonte de terra arrasada do mundo do trabalho e o contexto de \u201cpolicrise\u201d da reprodu\u00e7\u00e3o social capitalista. A forma do digital emerge e responde a determinadas condi\u00e7\u00f5es de possibilidade concretas, ditadas pela pr\u00f3pria din\u00e2mica do capital: a plataformiza\u00e7\u00e3o do trabalho, com caracter\u00edsticas de \u201cgamifica\u00e7\u00e3o\u201d, se entrela\u00e7a com a plataformiza\u00e7\u00e3o geral da comunica\u00e7\u00e3o e da vida, onde o <\/span><i><span>design<\/span><\/i><span> das plataformas \u00e9 pensado, desde seu desenvolvimento, para maximizar o tempo de tela dos usu\u00e1rios buscando ampliar a extra\u00e7\u00e3o de dados, usando t\u00e9cnicas diretamente inspiradas na psicologia behaviorista (BENTES, 2022), levando ao que pode ser chamado de <\/span><i><span>behaviorismo de dados<\/span><\/i><span> (ROUVROY, 2012). Essa estrat\u00e9gia se alinha \u00e0 din\u00e2mica do capital fict\u00edcio e \u00e0 especula\u00e7\u00e3o, atreladas \u00e0 economia das Big Techs, onde a \u201ctela\u201d torna-se tanto uma superf\u00edcie de extra\u00e7\u00e3o de dados \u2013 e, assim, valor \u2013, quanto de subjetiva\u00e7\u00e3o, central para a condi\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea do capital.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>A pesquisa de Monge Roffarello e De Russis (2023) introduziu a categoria espec\u00edfica de \u201cPadr\u00f5es danosos de captura da aten\u00e7\u00e3o\u201d [\u2018Attention Capture Damaging Patterns\u2019 (ACDPs)]; padr\u00f5es que exploram vulnerabilidades psicol\u00f3gicas para maximizar o tempo gasto, as visitas di\u00e1rias e as intera\u00e7\u00f5es em um servi\u00e7o digital contra a vontade do pr\u00f3prio usu\u00e1rio. A partir de revis\u00e3o sistem\u00e1tica de 43 artigos, os autores identificaram 11 padr\u00f5es distintos \u2013 desde \u201cTime Fog\u201d (n\u00e9voa temporal, que faz o usu\u00e1rio perder a no\u00e7\u00e3o do tempo) a \u201cInfinite Scroll\u201d (Scroll infinito) \u2014 e os caracterizaram por cinco propriedades comuns: explora\u00e7\u00e3o de vulnerabilidades psicol\u00f3gicas, automa\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia do usu\u00e1rio, indu\u00e7\u00e3o \u00e0 perda de controle e sentido de tempo, e gera\u00e7\u00e3o de arrependimento posterior.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>Alguns mecanismos fundamentais s\u00e3o: <\/span><span><br \/>\n<\/span><b>Refor\u00e7o vari\u00e1vel intermitente (slot machine effect)<\/b><span> \u2013 O mecanismo mais estudado e teoricamente mais robusto. Baseado no trabalho do behaviorista B.F. Skinner sobre esquemas de refor\u00e7o parcial, <\/span><i><span>consiste em oferecer recompensas<\/span><\/i><span> (curtidas, coment\u00e1rios, conte\u00fado relevante) <\/span><i><span>de forma imprevis\u00edvel e n\u00e3o-cont\u00ednua<\/span><\/i><span>.[1]\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Scroll infinito, autoplay e elimina\u00e7\u00e3o de stopping cues<\/b><span>: O scroll infinito, patenteado por Aza Raskin em 2006, \u00e9 documentado na literatura como um dos mecanismos mais eficazes de extens\u00e3o involunt\u00e1ria do tempo de uso.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Notifica\u00e7\u00f5es, FOMO e valida\u00e7\u00e3o social:<\/b><span> plataformas utilizam estrat\u00e9gias de agrupamento e timing estrat\u00e9gico de notifica\u00e7\u00f5es para criar senso de urg\u00eancia e ansiedade de aus\u00eancia (FOMO \u2014 Fear of Missing Out; \u201cMedo de Ficar Por Fora\u201d).<\/span><\/p>\n<p><b>E, enfim, os algoritmos de recomenda\u00e7\u00e3o personalizados:<\/b><span> O estudo \u2018Algorithmic Addiction by Design\u2019 (arXiv: 2505.00054, 2025) documenta que estudos com neuroimagem mostraram que conte\u00fado personalizado \u2013 como v\u00eddeos do TikTok \u2013 aciona regi\u00f5es cerebrais associadas \u00e0 adic\u00e7\u00e3o com intensidade superior \u00e0 de conte\u00fado n\u00e3o personalizado (Su et al., 2021). Essa \u00faltima dimens\u00e3o \u00e9 fundamental para pensar a sa\u00fade de modo integral, compreendendo a plataformiza\u00e7\u00e3o como, cada vez mais, constitutiva das din\u00e2micas de forma\u00e7\u00e3o\/subjetiva\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span>Por outra via, em uma an\u00e1lise te\u00f3rico-formal cr\u00edtica, Heimann e H\u00fcbener (2023) mobilizam filosofia e psican\u00e1lise para demonstrar como os efeitos das media\u00e7\u00f5es algor\u00edtmicas de recomenda\u00e7\u00e3o personalizada al\u00e7am agentes de intelig\u00eancia artificial \u00e0 posi\u00e7\u00e3o de atores sociais, produzindo o que chamam de <\/span><i><span>comunidades suplantadas<\/span><\/i><span>: n\u00e3o apenas por quest\u00f5es pol\u00edtico-econ\u00f4micas, mas tamb\u00e9m por limites l\u00f3gicos e epistemol\u00f3gicos, os tipos de intera\u00e7\u00e3o e subjetiva\u00e7\u00e3o organizados pela metrifica\u00e7\u00e3o algor\u00edtmica de perfilamentos sociais \u00e9 incapaz de inscrever e representar modos de nega\u00e7\u00e3o fundamentais para a socializa\u00e7\u00e3o, o que produz efeitos formativos delet\u00e9rios na medida em que condicionam uma din\u00e2mica a-social de resist\u00eancia\/repress\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 diferen\u00e7a\/alteridade, experi\u00eancias de frustra\u00e7\u00e3o, limites (simb\u00f3licos\/sociais) e, em suma, com a dimens\u00e3o da negatividade na constitui\u00e7\u00e3o subjetiva (castra\u00e7\u00e3o). Isso implica a necessidade de uma abordagem das IAs que n\u00e3o seja nem apenas t\u00e9cnica ou social, mas que abarque uma teoria do inconsciente material \u2013 j\u00e1 que a estrutura material da computa\u00e7\u00e3o e da informa\u00e7\u00e3o digital altera a pr\u00f3pria ordem simb\u00f3lica que a produz. Esse modo de subjetiva\u00e7\u00e3o produz din\u00e2micas identit\u00e1rias onde a falta\/incompletude \u00e9 estruturalmente exclu\u00edda, tendo implica\u00e7\u00f5es fundamentais para a rela\u00e7\u00e3o com a (auto) imagem e o corpo.[2] Aqui, encontramos uma intersec\u00e7\u00e3o fundamental entre subjetividade, ideologia, economia pol\u00edtica e tecnologia.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>\u00c9 comum ouvirmos hoje que os dados s\u00e3o o petr\u00f3leo do s\u00e9culo XXI. Essa analogia tem certo sentido, na medida em que chama aten\u00e7\u00e3o para a centralidade dessa nova mercadoria e seu papel fundamental nas din\u00e2micas globais. Existe certa semelhan\u00e7a pelo seu papel na organiza\u00e7\u00e3o da arquitetura financeira mundial e seu controle imperialista na hegemonia, ainda que amea\u00e7ada, das Big Techs estadunidenses. Mas as limita\u00e7\u00f5es dessa analogia s\u00e3o ainda mais importantes. Primeiro: dados n\u00e3o s\u00e3o recursos naturais, por mais que certas perspectivas fa\u00e7am parecer que sejam. Eles s\u00e3o produzidos a partir de determinada infraestrutura t\u00e9cnica e, principalmente, a partir de perspectivas ideologicamente implicadas. Segundo: os dados, sua produ\u00e7\u00e3o e armazenamento em escala massiva, s\u00e3o material prim\u00e1rio para a infraestrutura digital automatizada, desde o funcionamento das intelig\u00eancias artificiais, at\u00e9 as modula\u00e7\u00f5es de comportamento oriundas da arquitetura algor\u00edtmica em diversas escalas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>Assim, a economia informacional na era da digitaliza\u00e7\u00e3o generalizada integra uma din\u00e2mica de produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 objetiva, mas subjetiva. A rela\u00e7\u00e3o com a sa\u00fade, que viemos abordando at\u00e9 aqui por uma via espec\u00edfica (as implica\u00e7\u00f5es da digitaliza\u00e7\u00e3o para a sa\u00fade mental), implica tamb\u00e9m outra via: o que as informa\u00e7\u00f5es digitais, especialmente sobre sa\u00fade (f\u00edsica e mental), representam hoje em termos de pol\u00edticas p\u00fablicas e soberania nacional? Como demonstrou-se at\u00e9 agora, a digitaliza\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica afeta diretamente n\u00e3o apenas certa sintomatologia localizada por din\u00e2micas espec\u00edficas de usu\u00e1rios com plataformas e seu tempo de tela, mas se inscrevem num panorama maior: as condi\u00e7\u00f5es sociais objetivas de sujeitos em determinado contexto hist\u00f3rico; os interesses pol\u00edtico-econ\u00f4micos inscritos na pr\u00f3pria forma \u2013 no projeto, arquitetura e <\/span><i><span>design<\/span><\/i><span> \u2013 das plataformas (ontologia t\u00e9cnica); e a condi\u00e7\u00e3o globalizada do capital, sua temporalidade e espacialidade, relacionada \u00e0 crise de reprodu\u00e7\u00e3o social e o papel da digitaliza\u00e7\u00e3o como condicionante neste mesmo processo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>Com a evidente import\u00e2ncia estrat\u00e9gica das informa\u00e7\u00f5es digitais, ficam as seguintes quest\u00f5es sobre a pol\u00edtica de dados atual do Estado brasileiro: desde 2014, o Estado gastou mais de R$23 bilh\u00f5es em licen\u00e7as de <\/span><i><span>software<\/span><\/i><span>, servi\u00e7os em nuvem e seguran\u00e7a digital com empresas como Microsoft, Oracle, Google e Red Hat. S\u00f3 no per\u00edodo de junho de 2024 a junho de 2025, foram R$ 10 bilh\u00f5es \u2013 R$ 4,6 bilh\u00f5es pagos pelo governo federal, e o restante por estados e prefeituras. A Microsoft lidera como contratada, com R$ 3,27 bilh\u00f5es no per\u00edodo analisado, sendo R$ 1,6 bilh\u00e3o apenas em 2025 (Intercept\/GOV). O FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educa\u00e7\u00e3o), mant\u00e9m desde o ano passado um contrato com a Palantir \u2013 empresa alvo de diversas a\u00e7\u00f5es judiciais nos Estados Unidos por servi\u00e7os de espionagem prestados a clientes como o Pent\u00e1gono, a CIA e os servi\u00e7os secretos MI6 e Mossad \u2013; assim como a Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica de S\u00e3o Paulo; a Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica do Rio de Janeiro; o Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a\/Pol\u00edcia Federal; o Ex\u00e9rcito Brasileiro; o Instituto Butantan; e o NHS (Reino Unido), que reflete sobre o SUS via parceria bilateral.\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>O mecanismo que torna isso poss\u00edvel \u00e9 o Marketplace do Serpro (Empresa Nacional de Intelig\u00eancia em Governo Digital e Tecnologia da Informa\u00e7\u00e3o): por meio dele, um \u00f3rg\u00e3o p\u00fablico pode contratar servi\u00e7os de terceiros como se estivesse contratando a pr\u00f3pria estatal brasileira, dispensando licita\u00e7\u00e3o espec\u00edfica. Soma-se a isso o CLOUD Act: a lei dos EUA que obriga empresas de tecnologia a fornecerem dados e informa\u00e7\u00f5es de usu\u00e1rios a autoridades estatais, o que torna mais que evidente o cavalo de tr\u00f3ia que s\u00e3o tais contratos. O valor (econ\u00f4mico e pol\u00edtico) das informa\u00e7\u00f5es (especialmente, aqui, em sa\u00fade, mas n\u00e3o s\u00f3) s\u00e3o \u00f3bvios, resta saber o que faremos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 essa subservi\u00eancia digital que, hoje, tem um aspecto mais do que estrat\u00e9gico.<\/span><\/p>\n<p><b>(*) Cian Barbosa<\/b><span> \u00e9 flamenguista e morador do Rio de Janeiro. Bacharel em sociologia (UFF), doutorando em filosofia (UNIFESP) e psicologia (UFRJ), pesquisa teoria do sujeito, cr\u00edtica da cultura, viol\u00eancia, tecnologia, ideologia e digitaliza\u00e7\u00e3o; tamb\u00e9m \u00e9 integrante da revista Zero \u00e0 Esquerda, tradutor e ensa\u00edsta, al\u00e9m de professor e coordenador do Centro de Forma\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<h6><b>Notas:<\/b><\/h6>\n<h6><span>[1]<\/span> <span>A revis\u00e3o publicada no Business Ethics Quarterly pela Cambridge University Press (DOI: 10.1017\/beq.2020.16) documenta como este mecanismo constitui a espinha dorsal do design social das plataformas: o scroll para atualizar (pull-to-refresh) foi conscientemente modelado a partir das m\u00e1quinas ca\u00e7an\u00edqueis \u2014 o usu\u00e1rio puxa e n\u00e3o sabe o que vai encontrar. Wu (2016), citado por esse estudo, nota que \u2018a forma mais eficaz de manter um comportamento n\u00e3o \u00e9 atrav\u00e9s de uma recompensa consistente e previs\u00edvel\u2019 \u2014 \u00e9 precisamente a imprevisibilidade que cria depend\u00eancia.\u00a0<\/span><\/h6>\n<h6><span>[2]\u00a0 Da\u00ed, as din\u00e2micas generificadas de padroniza\u00e7\u00e3o, melhoramento e as conjuga\u00e7\u00f5es do ideal de eu no contempor\u00e2neo \u2014 as subculturas de \u201clooksmaxxing\u201d; as identifica\u00e7\u00f5es com termos como \u201cbeta\/sigma\/alfa\u201d, etc., t\u00e3o presentes nas subculturas online de comunidades incel\/redpill<\/span><\/h6>\n<h6><b>Refer\u00eancias:<\/b><\/h6>\n<h6><span>BENTES, Anna. Da Madison Avenue ao Vale do Sil\u00edcio: ci\u00eancias comportamentais do engajamento, tecnologias de influ\u00eancia e economia da aten\u00e7\u00e3o. 2022. Tese de Doutorado. Tese (Doutorado em Comunica\u00e7\u00e3o e Cultura)\u2013Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.<\/span><\/h6>\n<h6><span>DATA REPORTAL. Digital 2024: Global Overview Report. Fevereiro de 2024.\u00a0<\/span><\/h6>\n<h6><span>SA\u00daDE digital: porta aberta para nova coloniza\u00e7\u00e3o? RACHID, Raquel; FORNAZIN, Marcelo. <\/span><i><span>CEE Fiocruz<\/span><\/i><span>, [S. l.], 22 fev. 2024. Dispon\u00edvel em: https:\/\/cee.fiocruz.br\/saude-digital-porta-aberta-para-nova-colonizacao\/.\u00a0<\/span><\/h6>\n<h6><span>INTERCEPT: Licen\u00e7a de bilh\u00f5es. DIAS, Tathiana. 2025. Em: <\/span><span>https:\/\/www.intercept.com.br\/2025\/07\/08\/brasil-torrou-10-bilhoes-em-um-ano-com-bigtechs\/<\/span><\/h6>\n<h6><span>ROUVROY, Antoinette. Vers\u00e3o de pr\u00e9-publica\u00e7\u00e3o do cap\u00edtulo 5 The end(s) of critique: databehaviourism vs. due-process. [posteriormente publicado]. In: HILDEBRANDT, Mireille; DE VRIES, Katja (eds.). Privacy, Due Process and the Computational Turn. Philosophers of Law Meet Philosophers of Technology. Londres: Routledge, 2012.<\/span><\/h6>\n<h6><span>SANTOS, R. M. S. et al. The associations between screen time and mental health in adolescents: a systematic review. BMC Psychology, v. 11, 2023. DOI: 10.1186\/s40359-023-01166-7.\u00a0<\/span><\/h6>\n<h6><span>MONGE ROFFARELLO, A.; DE RUSSIS, L. Defining and identifying attention capture deceptive designs in digital interfaces. In: CHI CONFERENCE ON HUMAN FACTORS IN COMPUTING SYSTEMS, 2023, Hamburg. Proceedings. ACM, 2023. DOI: 10.1145\/3544548.3580729.\u00a0<\/span><\/h6>\n<h6><span>HEIMANN, Marc; H\u00dcBENER, Anne-Friederike. AI as social actor: a Lacanian investigation into social technology. Journal of digital social research, v. 5, n. 1, p. 48-69, 2023.<\/span><\/h6>\n<p>O post Sa\u00fade e digitaliza\u00e7\u00e3o: a \u2018tela\u2019 como m\u00e1quina de captura apareceu primeiro em Opera Mundi.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/belo-sun-mineradora-canadense-e-acusada-de-pressionar-indigenas-na-volta-grande\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Belo Sun: mineradora canadense \u00e9 acusada de pressi...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/feira-do-livro-periferico-reune-editoras-independentes-em-sp-e-debate-politicas-publicas-para-a-cultura\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Feira do Livro Perif\u00e9rico re\u00fane editoras independe...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/sul21.com.br\/noticias\/politica\/2026\/09\/fachin-aguarda-explicacoes-de-mendonca-e-moraes-para-decidir-sobre-crise\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.png?id=1701710&amp;o=node') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Fachin aguarda explica\u00e7\u00f5es de Mendon\u00e7a e Moraes pa...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/justica-autoriza-retirada-de-casas-do-dique-do-sarandi-mas-moradores-seguem-sem-chave-da-nova-moradia\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/bdf-20250630-182459-ba826a-461x375-1-150x150.jpeg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Justi\u00e7a autoriza retirada de casas do dique do Sar...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A rela\u00e7\u00e3o entre sa\u00fade e digitaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 frequentemente relacionada ao tempo de tela dos usu\u00e1rios. De acordo com o relat\u00f3rio Global Overview Report, publicado pela DataReportal, o brasileiro passa em m\u00e9dia 9 horas e 32 minutos por dia conectado \u00e0 internet \u2013 o segundo maior \u00edndice global, superado apenas pela \u00c1frica do Sul (9h38). 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