{"id":95466,"date":"2026-07-15T04:00:00","date_gmt":"2026-07-15T07:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/os-fins-e-os-meios\/"},"modified":"2026-07-15T04:00:00","modified_gmt":"2026-07-15T07:00:00","slug":"os-fins-e-os-meios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/os-fins-e-os-meios\/","title":{"rendered":"\u201cOs fins e os meios\u201d"},"content":{"rendered":"<p>Ser\u00e1 que a ideia de que os EUA est\u00e3o por tr\u00e1s da Lava-Jato \u00e9 apenas uma narrativa usada para livrar a cara de criminosos? Enquanto Natalia conversa com a autora de um livro de quase 700 p\u00e1ginas sobre uma das empresas investigadas na opera\u00e7\u00e3o, Amanda volta a Curitiba em busca de antigas fontes da \u00e9poca da Lava-Jato. Um novo documento chega \u00e0s m\u00e3os de Natalia, que decide pegar um avi\u00e3o com destino a Nova York em busca de uma agente do FBI.<\/p>\n<p>Ou\u00e7a agora o epis\u00f3dio 4!<\/p>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div><\/div>\n<h3>Confidencial: as digitais do FBI na Lava Jato<\/h3>\n<div>\n<p>\t\t\t\t\t\t<i><\/i><br \/>\n\t\t\t\t\t\t<i><\/i><\/p>\n<p>\t\t\t\t\t\t<!--<i class=\"fa-solid fa-arrow-right fa-2x\"><\/i>-->\n\t\t\t\t\t<\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div data-init=\"0\" data-id=\"259033\" data-playing=\"0\">\n<p>\t\t\t\t\t<audio src=\"https:\/\/apublica.org\/2026\/07\/confidencial-digitais-fbi-lava-jato-os-fins-e-os-meios\/\" preload=\"none\"><\/audio><\/p>\n<div>\n<div>\n<div>\n<p>\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<i><\/i><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<i><\/i><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/span><\/p><\/div>\n<div>\n<div><\/div>\n<div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span><span>0:00<\/span><\/span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span><span>-:\u2013<\/span><\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t1\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n<div>\n<h4>Epis\u00f3dio 4: Os fins e os meios<\/h4>\n<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<p>\t\t\t\t\t\t\t\t\t<audio src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/CONFIDENCIAL-04-plataformas-v01.mp3\" preload=\"none\"><\/audio><\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<h2><strong>Confira abaixo o roteiro do epis\u00f3dio na \u00edntegra<\/strong><\/h2>\n<p><strong>EPIS\u00d3DIO 04: OS FINS E OS MEIOS<\/strong><\/p>\n<p>[Ricardo Terto]<\/p>\n<p>Voc\u00ea est\u00e1 ouvindo uma \u00e1udio s\u00e9rie, Original Audible. Para conhecer mais hist\u00f3rias surpreendentes e imersivas como esta, acesse o site audible.com.br. Fa\u00e7a sua conta e teste gr\u00e1tis por 30 dias ou por 3 meses, se voc\u00ea for membro Amazon Prime.<\/p>\n<p>[Entrevista Malu Gaspar]<\/p>\n<p>Ficou provado que o Moro \u00e9 parcial? Acho que d\u00e1 para dizer que o Moro era parcial no caso do Lula. Divulgou grampo que n\u00e3o estava com autoriza\u00e7\u00e3o, dela\u00e7\u00e3o do Palocci. Acho que configura sim uma parcialidade. Mas existe um problema de compet\u00eancia? N\u00e3o existe. O Supremo autorizou a pris\u00e3o em segunda inst\u00e2ncia. Depois ele desautorizou. Mas a culpa \u00e9 do juiz de Curitiba? N\u00e3o. A culpa n\u00e3o \u00e9 do juiz de Curitiba.<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>A culpa \u00e9 do Supremo.<\/p>\n<p>[Entrevista Malu Gaspar]<\/p>\n<p>A culpa \u00e9 do Supremo, que depois desautorizou. Voc\u00ea teve um ministro do Supremo impedindo a posse de um ministro, que era o Lula. Foi nomeado para ser ministro da Casa Civil. Ele impediu a posse do Lula a partir de um \u00e1udio que a Lava Jato divulgou, j\u00e1 com o grampo fechado. E o Gilmar Mendes veio e suspendeu a posse do Lula. A culpa \u00e9 da Lava Jato? Tem v\u00e1rias culpas a\u00ed para voc\u00ea distribuir. Agora dizer que isso \u00e9 uma persegui\u00e7\u00e3o a uma pessoa\u2026 Os processos hist\u00f3ricos s\u00e3o muito complexos.<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>Totalmente.<\/p>\n<p>[Entrevista Malu Gaspar]<\/p>\n<p>E isso \u00e9 uma simplifica\u00e7\u00e3o grosseira e burra. E interesseira. E ideol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Trilha sonora de fundo em clima de suspense, num crescente.<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>Essa voz que escutamos \u00e9 a da jornalista Malu Gaspar, que conhecemos no epis\u00f3dio anterior. Tem muita gente que acredita que a Lava Jato foi uma grande arma\u00e7\u00e3o contra o presidente Lula, ou contra a Petrobras. Mas isso n\u00e3o significa que n\u00e3o havia corrup\u00e7\u00e3o no governo petista. Muitos acreditam que uma poss\u00edvel interfer\u00eancia americana na opera\u00e7\u00e3o \u00e9 uma teoria da conspira\u00e7\u00e3o que desvia o foco do principal: a corrup\u00e7\u00e3o. Ser\u00e1 que a ideia de que os EUA est\u00e3o por tr\u00e1s da Lava Jato \u00e9 apenas uma narrativa usada para manipular a opini\u00e3o p\u00fablica e livrar a cara de criminosos?\u00a0<\/p>\n<p>Vinheta de abertura<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>Meu nome \u00e9 Natalia Viana, jornalista e apresentadora da s\u00e9rie \u201cConfidencial: digitais do FBI na Lava Jato\u201d. Ao lado de Alice Maciel e Amanda Audi, vou tentar descobrir como os EUA estabeleceram formas de investigar e punir casos de corrup\u00e7\u00e3o fora de seu territ\u00f3rio e se h\u00e1 outros interesses escondidos por tr\u00e1s da cruzada anticorrup\u00e7\u00e3o internacional.\u00a0<\/p>\n<p>Epis\u00f3dio 04: \u201cOs Fins e os Meios\u201d<\/p>\n<p>Fim da vinheta de abertura:<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>Eu queria entender em detalhes o qu\u00e3o escandalosa era a corrup\u00e7\u00e3o investigada durante a Lava Jato, por isso, fui conversar com a Malu Gaspar, que desenvolveu uma pesquisa extremamente rigorosa sobre a empresa Odebrecht, um dos grandes alvos da opera\u00e7\u00e3o. Para se ter uma ideia do tamanho, no ano de 2015 a receita era de R$58 bilh\u00f5es de reais, o grupo tinha presen\u00e7a em 26 pa\u00edses, sendo a mais internacional das multinacionais brasileiras, uma l\u00edder na Am\u00e9rica Latina e com presen\u00e7a em crescimento no continente africano. A empresa tinha at\u00e9 mesmo feito a amplia\u00e7\u00e3o do aeroporto internacional de Miami.<\/p>\n<p>[Entrevista Malu Gaspar]<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, foi uma pesquisa de tr\u00eas anos e meio, em que eu trabalhei com todo tipo de documento e fontes, mas eu acho importante contar que ela foi uma pesquisa feita a partir de um momento em que o caso n\u00e3o estava completamente desvendado, mas ele j\u00e1 tinha avan\u00e7ado a ponto de voc\u00ea ter uma grande quantidade de documentos e dela\u00e7\u00f5es premiadas.<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>Uma longa pesquisa que resultou em um grande livro, literalmente, s\u00e3o 640 p\u00e1ginas, com o t\u00edtulo <em>\u201cA Organiza\u00e7\u00e3o\u201d<\/em>, publicado pela Companhia das Letras.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria da Odebrecht, contada em seus bastidores mais \u00edntimos, \u00e9 um exemplo claro de como algumas empresas trabalham para corromper pol\u00edticos e como alguns pol\u00edticos recebem propinas de bom grado.<\/p>\n<p>Quem acredita que a Lava Jato foi criada pelos Estados Unidos costuma negar que havia corrup\u00e7\u00e3o. Inclusive, acho que o seu livro, ele descreve muito bem, n\u00e9? Havia corrup\u00e7\u00e3o. Mas, al\u00e9m de tudo, havia corrup\u00e7\u00e3o desde sempre, n\u00e9? Voc\u00ea pode contar um pouquinho a evolu\u00e7\u00e3o do esquema de corrup\u00e7\u00e3o da Odebrecht?<\/p>\n<p>[Entrevista Malu Gaspar]<\/p>\n<p>Sim, eu acho que essa \u00e9 uma coisa interessante da hist\u00f3ria da Odebrecht, que \u00e9 uma empresa que existe h\u00e1 muitas d\u00e9cadas, e por ser empreiteira, a natureza dela, \u00e9 um tipo de empresa que lida com o governo, que lida com o setor p\u00fablico. Ela precisa do setor p\u00fablico para sobreviver. E \u00e9 uma empresa que come\u00e7ou no Nordeste, uma empresa baiana que saiu de uma fal\u00eancia e foi se reerguendo aos poucos, e estava num estado perif\u00e9rico. Ela precisou furar um bloqueio que j\u00e1 havia no Brasil de grandes empreiteiras do Sudeste, e, para isso, ela precisou achar meios, um dos quais a corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E \u00e9 curioso, quando voc\u00ea estuda a hist\u00f3ria da Odebrecht l\u00e1 no come\u00e7o, ela n\u00e3o era aceita em determinados contratos, como, por exemplo, a hidrel\u00e9trica de Itaipu, porque ela era muito pequena. Ent\u00e3o, ela fura esse bloqueio, ela vai para S\u00e3o Paulo, e ela come\u00e7a a se especializar naquilo que as outras empreiteiras sempre fizeram, que era pagar propina. Eles entendem que esse mecanismo de pagar propina, ele n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um mecanismo de pagamento. Voc\u00ea tem que estabelecer rela\u00e7\u00f5es de confian\u00e7a, voc\u00ea tem que paparicar o seu cliente, voc\u00ea tem que pagar as contas do cara, voc\u00ea tem que pagar as campanhas, e voc\u00ea tem que conquistar o cliente, que era o que o Norberto Odebrecht estabelecia como m\u00e9todo.<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>E na Odebrecht o valor m\u00e1ximo era: n\u00e3o importa o que voc\u00ea tenha que fazer, a satisfa\u00e7\u00e3o do cliente \u00e9 sempre o maior objetivo. E o cliente n\u00e3o \u00e9 um CNPJ, uma cidade, um estado, o cliente \u00e9 sempre uma pessoa, ou seja, um prefeito, um deputado, um governador, o pol\u00edtico da vez.<\/p>\n<p>[Entrevista Malu Gaspar]<\/p>\n<p>De modo que a Odebrecht, quando chegou no estado da arte, em que ela tinha um mecanismo super complexo, n\u00e3o s\u00f3 de pagamento, mas de manipula\u00e7\u00e3o de todos os agentes p\u00fablicos dos quais ela dependia, ela tinha um organograma paralelo em rela\u00e7\u00e3o ao do governo. O que eu quero dizer com isso? O presidente da Odebrecht, o dono, lidava com o presidente da Rep\u00fablica. Voc\u00ea tinha pessoas que lidavam com governadores. Voc\u00ea tinha gente que lidava s\u00f3 com deputados e senadores em Bras\u00edlia. Ent\u00e3o, o Departamento de Opera\u00e7\u00f5es Estruturadas foi o paroxismo dessa tecnologia empresarial Odebrecht. Era um departamento que foi formado a partir dessa demanda de um esquema super complexo que voc\u00ea precisava saber como que o dinheiro trafegou, onde que ele foi parar.<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>Por causa desse sistema t\u00e3o sofisticado, a Odebrecht conseguiu se safar de v\u00e1rias investiga\u00e7\u00f5es anteriores, mas n\u00e3o da Lava Jato, e nem da investiga\u00e7\u00e3o americana. O impacto foi brutal, ap\u00f3s quatro anos de investiga\u00e7\u00e3o o grupo perdeu mais de 80% do quadro de funcion\u00e1rios e entrou com pedido de recupera\u00e7\u00e3o judicial. \u00c9 um fato indiscut\u00edvel: essas investiga\u00e7\u00f5es s\u00f3 avan\u00e7aram por causa da coopera\u00e7\u00e3o internacional.<\/p>\n<p>Efeito sonoro<\/p>\n<p>A Lava Jato dependeu da colabora\u00e7\u00e3o, em especial, da Su\u00ed\u00e7a, que na \u00e9poca estava buscando \u201climpar\u201d sua reputa\u00e7\u00e3o de para\u00edso fiscal.<\/p>\n<p>Efeito sonoro<\/p>\n<p>E tamb\u00e9m encarava uma forte press\u00e3o do governo dos EUA com a aprova\u00e7\u00e3o de uma lei que obrigava todos os americanos com conta no exterior a declarar esses valores \u2013 para pagar mais impostos, claro.<\/p>\n<p>[Entrevista Malu Gaspar]<\/p>\n<p>Eles queriam esses impostos, eles s\u00e3o a maior pot\u00eancia do planeta, eles criaram esse <em>Foreign Account Tax Compliance Act<\/em>, que \u00e9, se voc\u00ea \u00e9 um cidad\u00e3o americano e tem valores, recursos depositados no exterior, n\u00e3o interessa se em para\u00edso fiscal ou n\u00e3o, voc\u00ea tem que informar os Estados Unidos.<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>E, para azar da Odebrecht, uma de suas contas estava em nome de um laranja americano. Foi assim que a empresa acabou caindo na mira das autoridades su\u00ed\u00e7as, que foram fundamentais para a evolu\u00e7\u00e3o das investiga\u00e7\u00f5es aqui no Brasil, pelos procuradores de Curitiba. Os procuradores su\u00ed\u00e7os tamb\u00e9m foram grandes parceiros de coopera\u00e7\u00e3o internacional durante a Lava Jato.<\/p>\n<p>Trilha sonora clima de suspense<\/p>\n<p>Ouvimos no epis\u00f3dio anterior que houve uma \u201ccoopera\u00e7\u00e3o selvagem\u201d entre autoridades brasileiras e estrangeiras e um dos casos mais emblem\u00e1ticos veio justamente da Su\u00ed\u00e7a. Depois de uma visita na Europa, em novembro de 2014, Deltan Dallagnol trouxe um pendrive com dados banc\u00e1rios de Paulo Roberto Costa, entregue por procuradores su\u00ed\u00e7os. Algo que como j\u00e1 ouvimos contraria as regras de coopera\u00e7\u00e3o. Na \u00e9poca, o procurador Vladimir Aras, da PGR, alertou Deltan sobre a poss\u00edvel ilegalidade e o ent\u00e3o procurador concluiu:\u00a0<\/p>\n<p>Efeito sonoro \u2013 leitura de mensagem<\/p>\n<p>\u00c9 natural tomar algumas decis\u00f5es de risco calculado em grandes investiga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>Mas quando entendemos que a colabora\u00e7\u00e3o internacional na Lava Jato nasceu na Su\u00ed\u00e7a e houve um esfor\u00e7o dos procuradores de l\u00e1 em ajudar os colegas brasileiros, de fato a hist\u00f3ria da influ\u00eancia americana come\u00e7a a soar como uma grande conspira\u00e7\u00e3o. Porque afinal, a Su\u00ed\u00e7a n\u00e3o tem nenhum interesse em destruir empresas ou pol\u00edticos brasileiros.<\/p>\n<p>[Entrevista Malu Gaspar]<\/p>\n<p>Eu acho que os Estados Unidos entram no contexto da Lava Jato dentro desse mesmo oba-oba que houve no Brasil, muito motivado, inclusive, pelo esp\u00edrito de determinadas pessoas que iam l\u00e1 e falavam que era uma opera\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, que estavam abalando o Brasil. Havia um amplo apoio popular, porque as pessoas estavam cansadas de corrup\u00e7\u00e3o. Era aquele esp\u00edrito do basta, do chega, do parou, n\u00e3o sei o qu\u00ea. E os americanos estavam l\u00e1 com as conting\u00eancias pol\u00edticas deles e entraram na dan\u00e7a. Eu vejo assim. Ah, \u00e9 muito pouco? Talvez. Mas n\u00e3o apareceu nenhuma prova at\u00e9 hoje de que a CIA inoculou um v\u00edrus na Lava Jato ou de que o FBI fez pelos brasileiros algumas coisas que eles n\u00e3o pudessem fazer sozinhos. Entendeu?<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>Na autobiografia do procurador geral na \u00e9poca, o Rodrigo Janot, ele conta como eram os bastidores da Lava Jato em Bras\u00edlia, onde estavam os processos dos investigados que tinham foro privilegiado. Eis um trecho do livro:<\/p>\n<p>Alerta de leitura<\/p>\n<p>\u201cA vida de investigadores n\u00e3o tem aquele glamour todo que a gente costuma ver nos filmes americanos, em que, quase sempre, o certo vence o errado e os her\u00f3is voltam para casa enquanto a cidade dorme tranquila e agradecida\u201d.<\/p>\n<p>Trilha sonora em clima de tens\u00e3o<\/p>\n<p>Janot conta que ele e sua equipe trabalhavam uma m\u00e9dia de doze a catorze horas por dia, com demandas n\u00e3o poucas vezes, avan\u00e7ando pelos fins de semana e feriados.<\/p>\n<p>Numa equipe de 11 pessoas, cuja idade m\u00e9dia girava em torno dos 40 anos, houve casos de isquemia, AVC, e cardiopatia grave, entre outros s\u00e9rios problemas de sa\u00fade. Casamentos foram desfeitos. O que ele conta n\u00e3o \u00e9 muito diferente do que policiais que atuaram na investiga\u00e7\u00e3o e mesmo assessores de imprensa relatam. A Lava Jato gerou quase um burnout coletivo.<\/p>\n<p>Fim da trilha sonora<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se voc\u00ea j\u00e1 ficou obcecado por uma ideia ou um trabalho \u2013 bom, eu j\u00e1 fiquei. E era obviamente o caso destes jovens procuradores. Eles queriam limpar o pa\u00eds de vez da corrup\u00e7\u00e3o que sempre assolou nossas terras desde o descobrimento. E a\u00ed, diante de tanto esfor\u00e7o pode ser que os deslizes na coopera\u00e7\u00e3o tenham sido talvez um \u201cmal necess\u00e1rio\u201d, em nome de um bem maior. Ser\u00e1 que a rela\u00e7\u00e3o com os americanos funcionava numa chave \u201cruim com eles, pior sem eles\u201d? Ou seja: pelo combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o t\u00e3o arraigada no nosso sistema, os fins justificam os meios? Alguns podiam pensar assim, mas mesmo dentro do MPF, o uso de m\u00e9todos informais e outros \u201catalhos\u201d para cooperar com agentes estrangeiros n\u00e3o era uma unanimidade. Os investigadores brasileiros n\u00e3o formavam um bloco \u00fanico e homog\u00eaneo, existiam diverg\u00eancias. Por isso, desde o comecinho desta s\u00e9rie, estamos tentando ouvi-los, mas isso n\u00e3o tem sido uma tarefa f\u00e1cil. Com a palavra, Amanda Audi:<\/p>\n<p>[Amanda Audi]<\/p>\n<p>T\u00e1 sendo um exerc\u00edcio de humildade, assim essa apura\u00e7\u00e3o, viu? Porque \u00e9 s\u00f3 <em>ghosting, <\/em>est\u00e1 dif\u00edcil. Essa semana, aproveitando que eu vou pro Paran\u00e1, n\u00e9, eu tentei entrar em contato com todo mundo de novo, mais procuradores, mais gente da PF, aquele povo do segundo escal\u00e3o que eu tinha feito a lista l\u00e1, todo mundo. Ningu\u00e9m respondeu, cara, ningu\u00e9m, \u00e9 um absurdo isso, ningu\u00e9m nem atende, ningu\u00e9m nada, parece que t\u00e1 rolando um\u2026 Sei l\u00e1.<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>Amanda j\u00e1 morou em Curitiba e cobriu a Lava Jato, por isso ficou respons\u00e1vel por tentar entrar em contato com procuradores e delegados que ainda atuam por l\u00e1.<\/p>\n<p>Efeito sonoro \u2013 material captado na chamada de embarque<\/p>\n<p>Ol\u00e1 clientes voo Azul 4557 para Curitiba, por favor organizar fila de embarque no port\u00e3o n\u00famero 02.<\/p>\n<p>Amanda e Stela aterrissam em Curitiba para tentar alguma entrevista com ex -integrantes da For\u00e7a Tarefa que ainda est\u00e3o trabalhando na capital paranaense. O m\u00e9todo \u00e9 aquele mesmo: bater na porta.<\/p>\n<p>Efeito sonoro<\/p>\n<p>[Amanda Audi]<\/p>\n<p>A gente t\u00e1 indo l\u00e1 pra Justi\u00e7a Federal onde \u00e9 a 13\u00aa Vara, ainda funciona l\u00e1, \u00e9 onde atuava o Sergio Moro na \u00e9poca da Lava Jato, a\u00ed depois foi a Gabriela Hardt, depois o Appio.<s>\u00a0<\/s><\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>Em Curitiba, a primeira parada foi a Justi\u00e7a Federal, onde durante a Lava Jato ficava a concentra\u00e7\u00e3o de apoiadores da opera\u00e7\u00e3o, carregando placas e cartazes, \u00e0s vezes at\u00e9 apareciam imagens do juiz Sergio Moro vestido de Super-Homem, um verdadeiro her\u00f3i nacional.<\/p>\n<p>[Amanda Audi]<\/p>\n<p>Eu t\u00f4 at\u00e9 tirando uma foto aqui porque\u2026 muitas lembran\u00e7as. Esse pr\u00e9dio com essa arauc\u00e1ria a\u00ed na frente. A gente acabou de chegar aqui na\u2026 Na Justi\u00e7a Federal, no pr\u00e9dio da 13\u00aa Vara Federal de Curitiba. \u00c9 onde atuava Sergio Moro na \u00e9poca da Lava Jato. A gente t\u00e1 aqui na frente e estamos vendo a pracinha que fica na frente do pr\u00e9dio. Era aqui que l\u00e1 atr\u00e1s, acho que desde 2014 at\u00e9 o final tinha um povo que acampava aqui. \u00c9, nessa pracinha. E ficava direto aqui. \u00c0s vezes se revezava com outras pessoas e tal. Mas era uma galera que botava barraca a\u00ed, estendia umas bandeiras do Brasil. Sempre tinham os ambulantes vendendo bandeira do Brasil, camiseta do Brasil, com a cara do Sergio Moro. Com, sei l\u00e1, o Pichuleco, n\u00e9? Que era aquele Lula vestido de presidi\u00e1rio. E o povo ficava aqui na frente. Porque eles tinham uma pira muito grande de ver o Sergio Moro sair pra almo\u00e7ar. Quando ele chegava e sa\u00eda, n\u00e9? Porque \u00e0s vezes ele vinha de bicicleta. E ele sa\u00eda tamb\u00e9m pra almo\u00e7ar com marmita. E o povo achava isso maravilhoso. Porque \u00e9 um juiz muito simples. Apesar de ser juiz federal. Ele \u00e9\u2026 Gente como a gente e tal. Tinha sempre essa conversa aqui no acampamento. Ent\u00e3o ele sa\u00eda por aqui e n\u00e3o falava com ningu\u00e9m. O pessoal batia palma pra ele, tentava falar com ele. Ele n\u00e3o falava. Era uma coisa assim\u2026 Era a persona dele, n\u00e9? Ele ficava quietinho.<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>Nessa pracinha, perto de uma grande arauc\u00e1ria, s\u00edmbolo do estado do Paran\u00e1,\u00a0que o futuro pol\u00edtico do Brasil ia se construindo. Os jornalistas esperavam junto com os manifestantes, a entrada ou sa\u00edda de alguma figura importante. \u00c0s vezes uma mini coletiva de imprensa acontecia de improviso ali mesmo na frente do pr\u00e9dio. O lugar era sempre muito movimentado, no dia em que o ex-presidente Lula prestou depoimento, por exemplo, a pol\u00edcia montou uma verdadeira opera\u00e7\u00e3o de guerra.<\/p>\n<p>[Amanda Audi]<\/p>\n<p>Mas \u00f4, eles fecharam essas ruas tudo ao redor aqui. \u00c9\u2026 Ent\u00e3o ficou completamente vazio, s\u00f3 os jornalistas podiam entrar. Tinha que se cadastrar antes, era uma opera\u00e7\u00e3o de guerra mesmo. Cheio de policial pra l\u00e1 e pra c\u00e1. E sobrevoando aqui, uns helic\u00f3pteros. Acho que era da pol\u00edcia. Enfim, uma puta opera\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a. Se n\u00e3o me engano, fechou acho que umas duas, tr\u00eas quadras pra l\u00e1; duas, tr\u00eas quadras pra c\u00e1. Era bem grande, como se fosse a Copa do Mundo, assim, que fechava o per\u00edmetro dos est\u00e1dios. E aqui na frente um monte de atirador. Atirador em cima do pr\u00e9dio da Justi\u00e7a ali. E a gente aqui esperando por qualquer\u2026 Qualquer movimenta\u00e7\u00e3o, qualquer coisa. Lembro que na hora que veio o carrinho \u2013 os carros do Lula, n\u00e9, com sua seguran\u00e7a, sua equipe foi extremamente r\u00e1pido. Eles entraram, entraram aqui dentro. N\u00e3o deu nem pra ver. N\u00e3o falaram com ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>Hoje, a pracinha antes agitada voltou \u00e0 tranquilidade habitual curitibana, e a comunica\u00e7\u00e3o quase em tempo real entre autoridades e a imprensa agora virou sil\u00eancio institucional. Com muita insist\u00eancia, Amanda e Stela chegaram a ser recebidas pela assessora de imprensa da Justi\u00e7a Federal e conheceram o pr\u00e9dio por dentro.<\/p>\n<p>[Amanda Audi]<\/p>\n<p>A gente \u00e9 jornalista. Ent\u00e3o, queria ver se seria poss\u00edvel falar com o juiz respons\u00e1vel pela 13\u00ba Vara agora, n\u00e3o sei se ele est\u00e1 aqui.<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>Mas, mesmo com toda a aten\u00e7\u00e3o dispensada pelo pessoal da comunica\u00e7\u00e3o, nada de entrevista. A verdade \u00e9 que muita gente saiu da Vara. Ent\u00e3o, partiram para o pr\u00f3ximo destino.<\/p>\n<p>[Amanda Audi]<\/p>\n<p>A gente est\u00e1 aqui na frente do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, na Rua Marechal Deodoro, no centro de Curitiba. Esse pr\u00e9dio aqui, na \u00e9poca, como tinha essa for\u00e7a-tarefa que demandava muito esfor\u00e7o, vieram v\u00e1rios procuradores de fora para c\u00e1, eles tinham muito material para analisar, muitos pap\u00e9is, muita coisa. Eles alugaram uma sala nesse pr\u00e9dio da frente, que eu estou vendo aqui agora, que abriu um banco ali, um Ita\u00fa? Mas quando a gente vinha falar com os procuradores, essas coisas assim, era nesse outro pr\u00e9dio, que agora eu acho que n\u00e3o tem mais nada com o fim da for\u00e7a-tarefa. Vamos entrar l\u00e1 e tentar falar com algu\u00e9m.<\/p>\n<p>Eu vim falar com a Caroline da comunica\u00e7\u00e3o, meu nome \u00e9 Amanda. Eu tenho o WhatsApp dela aqui. Mandei uma mensagem, vamos ver. Deixa eu te perguntar, voc\u00ea sabe se o Orlando Martello trabalha nesse pr\u00e9dio? E o Janu\u00e1rio Paludo? N\u00e3o conhece ou n\u00e3o trabalha? N\u00e3o entendi. Diogo Castor? Como que eu posso encontrar ele?<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>A recepcionista tenta entrar em contato com a assessora de comunica\u00e7\u00e3o do MPF em Curitiba, Amanda e Stela sabiam que a assessora estava no pr\u00e9dio, mas ainda assim n\u00e3o tiveram resposta.<\/p>\n<p>[Amanda Audi]<\/p>\n<p>\u00c9 que eu falei pra ela que a gente vinha pra c\u00e1\u2026 Vamos esperar um pouquinho? Ver se ela responde aqui. A gente vai sentar ali, t\u00e1?<\/p>\n<p>Efeito sonoro: passagem de tempo<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>A pessoa respons\u00e1vel pela comunica\u00e7\u00e3o do MPF em Curitiba n\u00e3o atendeu de imediato, porque estava em reuni\u00e3o, mas, finalmente, quando respondeu, disse que n\u00e3o podia fazer muito.<\/p>\n<p>[Amanda Audi]<\/p>\n<p>\u00c9 como eu estava te falando, n\u00e3o \u00e9 nenhuma novidade. Eu estou pedindo isso j\u00e1 faz semanas. \u00c9 porque eu estou em Curitiba hoje, por isso seria importante falar com qualquer pessoa que seja. \u00c9 por isso que eu estou pedindo essa celeridade para pelo menos n\u00e3o sair daqui de m\u00e3os abanando, at\u00e9 porque eu acho que \u00e9 do interesse de voc\u00eas falar tamb\u00e9m sobre isso. N\u00e3o \u00e9 nenhuma pergunta ruim para o Minist\u00e9rio P\u00fablico. \u00c9 bom. \u00c9 para explicar uma quest\u00e3o que faz parte da opera\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tem segredo nenhum. Mas, enfim\u2026<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>Mas voc\u00ea pode imaginar qual foi a resposta final, n\u00e9? Negativa. Ningu\u00e9m do Minist\u00e9rio P\u00fablico, ainda atuante em Curitiba, estava disposto a falar sobre o assunto. Mas ainda existe uma \u00faltima possibilidade.<\/p>\n<p>[Stela Diogo]<\/p>\n<p>Onde estamos? Onde chegamos, n\u00e9, na verdade?<\/p>\n<p>[Amanda Audi]<\/p>\n<p>Chegamos na Pol\u00edcia Federal de Curitiba, que fica no bairro Santa C\u00e2ndida. E como \u00e9 distante, assim, e \u00e9 um pouco mais tranquilo, de tr\u00e2nsito e tudo mais, aqui ficava o acampamento dos apoiadores do Lula. Eles ficavam nessa ruazinha aqui, na ruazinha ali de baixo. E tinha alguns momentos, assim, todos os dias de manh\u00e3 eles falavam l\u00e1 o \u201cbom dia, presidente\u201d. Da\u00ed de noite tinha o \u201cboa noite, presidente\u201d, tamb\u00e9m e tal. Porque ele ficava numa cela aqui, que ficava ali nos fundos, assim, mais ou menos, desse pr\u00e9dio que a gente est\u00e1 vendo da PF aqui. Ele ficou um bom tempo nessa salinha, assim. Ent\u00e3o, se o povo gritava muito alto, ele conseguia ouvir (risos).<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>Desde a reelei\u00e7\u00e3o de Dilma em 2014 o Brasil estava dividido, e durante a Lava Jato a polariza\u00e7\u00e3o se intensificou ainda mais. Era como se Curitiba fosse um microcosmo do que era o Brasil. Os apoiadores de Moro ficavam na frente do pr\u00e9dio da Justi\u00e7a Federal, e os apoiadores de Lula se concentravam na pracinha diante da Superintend\u00eancia da Pol\u00edcia Federal, onde ele ficou preso por um ano e sete meses.<\/p>\n<p>[Amanda Audi]<\/p>\n<p>E da\u00ed, do meu lado, quando eu era jornalista aqui\u2026 Vinha pra c\u00e1 toda vez que tinha opera\u00e7\u00e3o\u2026 Opera\u00e7\u00e3o da\u2026 Da Lava Jato com\u2026 Principalmente com presos, assim, para ver se falava com advogados. Se tirava\u2026 Conseguia tirar alguma foto da pessoa chegando. Mas eu lembro que quando a gente ficava o dia inteiro esperando. E \u00e0s vezes acontecia, assim, de ficar horas e horas aqui no sol, assim. Na chuva, no frio. A gente andava um monte ali pra baixo. At\u00e9 encontrar um lugar que vendia um PF pra poder ficar o resto do tempo aqui na PF (risos).<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>Se a vida dos investigadores n\u00e3o t\u00eam o glamour dos filmes americanos, a das jornalistas muito menos. Durante a Lava Jato, o jeito era fazer plant\u00e3o na porta da delegacia, embaixo de sol e chuva, agora a dificuldade \u00e9 conseguir alguma autoridade disposta a dar uma entrevista.\u00a0<\/p>\n<p>[Amanda Audi]<\/p>\n<p>Voc\u00ea sabe me informar, por favor, se o Igor Rom\u00e1rio de Paula t\u00e1 no pr\u00e9dio aqui hoje? A gente \u00e9 jornalista. Queria ver se ele pode dar uma palavrinha com a gente. \u00c9 sobre Lava Jato.\u00a0<\/p>\n<p>Trilha sonora clima de suspense<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>O clima na recep\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal parece bem mais favor\u00e1vel\u2026<\/p>\n<p>[Amanda Audi]<\/p>\n<p>Ai seria muito bom se ele atendesse a gente.<\/p>\n<p>[Stela Diogo]\u00a0<\/p>\n<p>Voc\u00ea acha que vai?\u00a0<\/p>\n<p>[Amanda Audi]<\/p>\n<p>Tomara. Eu achei que, pelo menos, elas n\u00e3o negaram logo de cara, que eu esperava que fosse acontecer.\u00a0<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>Minutos depois, a assessora de imprensa da PF vai at\u00e9 \u00e0 recep\u00e7\u00e3o e avisa que o delegado est\u00e1 em dilig\u00eancia e sugere que Amanda envie outro e-mail, porque eles responderiam por escrito. Mas desde o in\u00edcio dessa investiga\u00e7\u00e3o, j\u00e1 encaminhamos v\u00e1rias solicita\u00e7\u00f5es de informa\u00e7\u00e3o para a PF sem obter nenhuma resposta. Basicamente, fomos enroladas, mais uma vez.\u00a0<\/p>\n<p>[Amanda Audi]<\/p>\n<p>A gente est\u00e1 colecionando <em>ghostings <\/em>(risos).<\/p>\n<p>Efeito sonoro: sil\u00eancio<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>Ap\u00f3s v\u00e1rios v\u00e1cuos seguidos ficou evidente que existe um freio institucional barrando a rela\u00e7\u00e3o de autoridades com a imprensa quando o assunto \u00e9 Lava Jato. Um contraste gritante com o auge da opera\u00e7\u00e3o, quando procuradores e delegados davam entrevistas a rodo e as informa\u00e7\u00f5es chegavam facilmente por vias oficiais e extra oficiais aos jornalistas. Eram famosos os vazamentos de informa\u00e7\u00f5es partindo da pr\u00f3pria Lava Jato. D\u00e1 pra entender que estamos vivendo uma ressaca p\u00f3s investiga\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o vamos conseguir chegar \u00e0 verdade sem saber como pensam aqueles que foram protagonistas dessa hist\u00f3ria \u2013 os procuradores.<\/p>\n<p>Trilha sonora\u00a0<\/p>\n<p>Enquanto buscamos alguma voz de dentro do MPF, eu continuei pesquisando para entender como os EUA podem processar e multar empresas estrangeiras por atos de corrup\u00e7\u00e3o. Um dos especialistas que se debru\u00e7ou sobre o tema mora bem longe de Curitiba, em Paris. \u00c9 o cientista pol\u00edtico Gaspard Estrada, que escreveu uma longa reportagem no jornal <em>Le Monde<\/em> sobre as rela\u00e7\u00f5es internacionais da Lava Jato. Ele \u00e9 franc\u00eas, mas fala portugu\u00eas fluente com um leve sotaque que voc\u00ea vai perceber durante a nossa entrevista.\u00a0<\/p>\n<p>[Ricardo Terto]<\/p>\n<p>Voc\u00ea est\u00e1 ouvindo uma \u00e1udio s\u00e9rie, Original Audible. Para conhecer mais hist\u00f3rias surpreendentes e imersivas como est\u00e1, acesse o site audible.com.br. Fa\u00e7a sua conta e teste gr\u00e1tis por 30 dias ou 3 meses, se voc\u00ea for membro Amazon Prime.<\/p>\n<p>[Entrevista Gaspard Estrada]<\/p>\n<p>Eu sou Gaspard Estrada, sou cientista pol\u00edtico, especializado na Am\u00e9rica Latina, trabalho, pesquiso, principalmente, eu fa\u00e7o pesquisa sobre campanhas eleitorais na Am\u00e9rica Latina, comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. E, como voc\u00eas sabem, as campanhas eleitorais na Am\u00e9rica Latina, h\u00e1 muito tempo, n\u00e9? Mas desde que apareceu a Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato, foram muito associadas a esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o, caixa 2, n\u00e3o \u00e9 uma coisa nova, n\u00e9? Ou seja, esse assunto\u2026 E tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 uma exclusividade da Am\u00e9rica Latina.\u00a0<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>E ele conta que n\u00e3o apenas o caixa 2, mas a propina era normalizada na Fran\u00e7a at\u00e9 recentemente.\u00a0<\/p>\n<p>[Entrevista Gaspard Estrada]<\/p>\n<p>At\u00e9 o ano 2000, quando uma empresa francesa dava propina para um governo particular no exterior, particular, n\u00e3o governo, particular, a empresa podia descontar essa propina dos seus impostos na Fran\u00e7a, t\u00e1? Ent\u00e3o, \u00e9 uma coisa at\u00e9 que era normal, t\u00e1?\u00a0<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>Isso mesmo, at\u00e9 os anos 2000, propinas pagas por empresas francesas no exterior poderiam ser descontadas no imposto de renda. \u00c9 \u00f3bvio, mas n\u00e3o custa dizer, corrup\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem nacionalidade. Para entender como a corrup\u00e7\u00e3o internacional entrou na agenda geopol\u00edtica, chegando at\u00e9 a Lava Jato, Gaspard fez uma cuidadosa pesquisa:<\/p>\n<p>[Entrevista Gaspard Estrada]<\/p>\n<p>O objetivo da mat\u00e9ria \u00e9 explicar como que a gente chegou at\u00e9 2014. Por isso que a mat\u00e9ria come\u00e7a em 2003. Porque quando se cria a ENCCLA, que \u00e9 a Estrat\u00e9gia Nacional de Combate \u00e0 Corrup\u00e7\u00e3o \u00e0 Lavagem de Dinheiro, que \u00e9 quando o modus operandi da opera\u00e7\u00e3o quer compartilhar de maneira informal, portanto, ilegal, informa\u00e7\u00f5es entre v\u00e1rios \u00f3rg\u00e3os do governo, que \u00e9 a Receita, que \u00e9 a COAF, que \u00e9 o Minist\u00e9rio P\u00fablico, todo esse esqueminha a\u00ed come\u00e7a l\u00e1 em 2003, s\u00f3 que com totalmente outra ideia, n\u00e9? N\u00e3o \u00e9 ir atr\u00e1s de gente com objetivos pol\u00edticos, era um objetivo muito positivo, naquele momento que era, de fato, lutar contra a lavagem de dinheiro.<\/p>\n<p>Trilha sonora \u201cleve\u201d, momento explicativo<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>Para que a Lava Jato existisse foi preciso que um conjunto de leis viesse primeiro. O Brasil desde 2003 promoveu mudan\u00e7as institucionais e legislativas para facilitar a investiga\u00e7\u00e3o de crime organizado e lavagem de dinheiro. Mas tudo isso tamb\u00e9m \u00e9 consequ\u00eancia de um debate maior, porque os EUA passaram a empurrar a agenda anticorrup\u00e7\u00e3o globalmente com uma variedade de leis, em especial a FCPA,\u00a0F<em>oreign Corrupt Practices Act <\/em>ou FCPA em ingl\u00eas.\u00a0<\/p>\n<p>Fim da trilha<\/p>\n<p>Eu vou fazer uma pergunta bem b\u00e1sica. O que \u00e9 <em>FCPA<\/em>?\u00a0<\/p>\n<p>[Entrevista Gaspard Estrada]<\/p>\n<p>Olha, o <em>FCPA<\/em>, ela \u00e9 uma lei que foi votada nos anos 70, n\u00e9, no come\u00e7o, ela tinha como objetivo punir empresas americanas que fizessem atos de corrup\u00e7\u00e3o sobre agentes p\u00fablicos. O que aconteceu \u00e9 que nos anos 90, ap\u00f3s a queda do Muro de Berlim, h\u00e1 uma nova realidade geopol\u00edtica internacional. E a\u00ed, basicamente, o que a administra\u00e7\u00e3o democrata faz \u00e9 mudar o objetivo da <em>FCPA<\/em>. Em vez de voc\u00ea realmente punir as empresas americanas por fazer atos de corrup\u00e7\u00e3o, a\u00ed vira uma arma de pol\u00edtica externa. \u00c9 mais punir as empresas estrangeiras por atos de corrup\u00e7\u00e3o que usem qualquer tipo de relacionamento com os Estados Unidos, seja um e-mail da Google, quer dizer que o servidor esteja nos Estados Unidos, que seja usar o d\u00f3lar como um instrumento de transa\u00e7\u00e3o, qualquer coisa que esteja vinculada aos Estados Unidos, d\u00e1 uma jurisdi\u00e7\u00e3o para os Estados Unidos punir empresas, seja na Indon\u00e9sia ou no Brasil, onde for, quer dizer isso d\u00e1 um car\u00e1ter extraterritorial a uma lei de direito americano.<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>Ou seja: existe uma lei americana que permite que qualquer empresa estrangeira seja investigada nos EUA por atos de corrup\u00e7\u00e3o, basta que uma transa\u00e7\u00e3o seja feita em d\u00f3lar, ou que parte do dinheiro tenha passado por uma conta americana. Isso permitiu que, na pr\u00e1tica, os EUA tenham jurisdi\u00e7\u00e3o mundial para aplica\u00e7\u00e3o dessa lei.\u00a0<\/p>\n<p>[Entrevista Gaspard Estrada]<\/p>\n<p>Ent\u00e3o a ideia da FCPA \u00e9 que todo mundo esteja em igualdade. Esse \u00e9 o discurso do Departamento da Justi\u00e7a, tem discursos de v\u00e1rias autoridades sobre isso, agora eu acho que \u00e9 um discurso muito, por um lado, que, de fato reconhece que a Justi\u00e7a est\u00e1 sendo usada para fins de pol\u00edtica externa, porque na verdade \u00e9 um argumento geopol\u00edtico que n\u00e3o tem nada a ver com processos judiciais. E por outro lado, \u00e9 tamb\u00e9m uma maneira de querer mostrar que o Judici\u00e1rio, de novo, como que os Estados Unidos t\u00eam que pautar o mundo.\u00a0<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>\u00c9 claro que nem todos os pa\u00edses aceitaram participar desse esfor\u00e7o anticorrup\u00e7\u00e3o, e eventualmente cair nas garras da <em>FCPA<\/em>, mas no caso brasileiro houve uma converg\u00eancia de interesses. Vamos lembrar, est\u00e1vamos vivendo a \u00e9poca p\u00f3s esc\u00e2ndalo do mensal\u00e3o e, em 2013, manifesta\u00e7\u00f5es populares come\u00e7aram a abra\u00e7ar a pauta contra corrup\u00e7\u00e3o. Nesse clima que Dilma aprovou em 2013, a Lei Anticorrup\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m a Lei de Organiza\u00e7\u00f5es Criminosas, que potencializou a dela\u00e7\u00e3o premiada que seria central para que a Lava Jato fosse deflagrada com for\u00e7a total menos de um ano depois.\u00a0<\/p>\n<p>[Entrevista Gaspard Estrada]<\/p>\n<p>Isso tamb\u00e9m acho que \u00e9 uma coisa que \u00e0s vezes a gente meio que esquece, mas o governo da Dilma de 2011 at\u00e9 2012, 2013, ela queria fazer uma imagem pr\u00f3pria sobre a corrup\u00e7\u00e3o. Tinha alguns dispositivos que eram muito perigosos, N\u00e3o tanto pela ideia de aprimorar a luta contra a corrup\u00e7\u00e3o, mas porque o Judici\u00e1rio brasileiro \u00e9 influenci\u00e1vel na pol\u00edtica. Ent\u00e3o, voc\u00ea misturar esse tipo de leis com o Judici\u00e1rio, com esse funcionamento institucional, isso pode dar problema, n\u00e9?\u00a0<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>Para o Gaspard Estrada, isso n\u00e3o significa que o governo americano tenha sentado em uma mesa e decidido ferrar as empresas brasileiras.\u00a0<\/p>\n<p>[Entrevista Gaspard Estrada]<\/p>\n<p>Algumas pessoas que eu entrevistei, mas que pediram para ficar n\u00e3o citar a fonte do governo americano. que me falaram \u201colha nessa ideia de<em> leveling o playing field<\/em>\u201d, que essa ideia de equilibrar as regras do jogo para evitar que as empresas americanas n\u00e3o estejam em desvantagem com rela\u00e7\u00e3o a outras empresas. \u00c9 por causa de atos de corrup\u00e7\u00e3o, \u00e9 nessa, \u00e9 a partir disso, desse argumento, que o DOJ, para equilibrar o jogo, usa esse argumento, usa essa arma para, em base a dela\u00e7\u00f5es, atacar empresas brasileiras, inclusive amea\u00e7\u00e1-las de fal\u00eancia.\u00a0<\/p>\n<p>Houve uma amea\u00e7a do DOJ sobre a Odebrecht, que se a Odebrecht n\u00e3o entregasse os nomes, n\u00e3o assinasse a dela\u00e7\u00e3o premiada, a\u00ed a filial americana, ou seja, todas, na verdade, todas as subsidi\u00e1rias da Odebrecht seriam banidas do sistema americano de pagamentos. Ent\u00e3o, seria basicamente levar ela \u00e0 fal\u00eancia. Portanto, a\u00ed \u00e9 um mecanismo muito claro de press\u00e3o e de coa\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>Seguindo a l\u00f3gica de Gaspard Estrada, ent\u00e3o todo esse esfor\u00e7o americano teria mesmo dado certo. A Odebrecht, em conjunto com sua subsidi\u00e1ria Braskem, levou a maior multa at\u00e9 hoje via <em>FCPA<\/em>: 3,5\u00a0bilh\u00f5es de d\u00f3lares. E a guerra comercial n\u00e3o era assim um segredo, como disse o pr\u00f3prio ex-procurador da Rep\u00fablica, Rodrigo Janot, em outro trecho de sua biografia:<\/p>\n<p>Efeito sonoro: alerta para a leitura<\/p>\n<p>\u201cObviamente, os americanos n\u00e3o queriam o \u00eaxito da Lava Jato porque eram bonzinhos, mas porque tinham interesse em abrir o mercado da Am\u00e9rica Latina para suas empresas. Para que eles pudessem competir aqui, seria necess\u00e1rio diminuir o n\u00edvel de corrup\u00e7\u00e3o e de carteliza\u00e7\u00e3o do mercado de obras p\u00fablicas. Em v\u00e1rias conversas informais com autoridades americanas, eu sempre ouvia a seguinte pergunta: \u201cPor que a Odebrecht pode construir o aeroporto de Miami e a gente n\u00e3o pode construir um aeroporto ou uma estrada no Brasil?\u201d\u00a0<\/p>\n<p>Efeito sonoro: p\u00e1gina virando<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 mera teoria conspirat\u00f3ria dizer que a Odebrecht seria um alvo interessante dentro dessa l\u00f3gica de guerra comercial. Para tentar confirmar essas suspeitas e finalmente ter uma voz de dentro do MPF, foi a minha vez de pegar a estrada.\u00a0<\/p>\n<p>Efeito sonoro: ambi\u00eancia de aeroporto<\/p>\n<p>Estou entrando em um avi\u00e3o para Bras\u00edlia para encontrar um procurador que foi fundamental durante a Lava Jato e tamb\u00e9m apareceu muito nos \u00e1udios vazados.<\/p>\n<p>Fim da ambi\u00eancia<\/p>\n<p>Como sempre, para tentar \u201ccavar\u201d uma fonte em Bras\u00edlia, o primeiro passo \u00e9 tomar um cafezinho\u2026<\/p>\n<p>Ambi\u00eancia de cafeteria<\/p>\n<p>[Atendente]<\/p>\n<p>Oi, querida, descobri\/desculpe \u00f4.<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>Vou querer essa prensa francesa, pode ser com leite?\u00a0<\/p>\n<p>O primeiro papo rendeu bem, fiquei sabendo de muita coisa interessante sobre a coopera\u00e7\u00e3o internacional. Houve, por exemplo, press\u00e3o vinda direto da embaixada americana para que a Lava Jato investigasse agentes do governo venezuelano de Hugo Ch\u00e1vez\u00a0envolvidos em propinas com a Odebrecht. Como o Minist\u00e9rio P\u00fablico venezuelano \u00e9 controlado pelo governo autorit\u00e1rio, os gringos queriam que nosso MPF fizesse esse trabalho\u2026\u00a0<\/p>\n<p>Efeito sonoro: interfer\u00eancia\u00a0<\/p>\n<p>Ou seja, minha fonte falou, que na coopera\u00e7\u00e3o internacional os interesses geopol\u00edticos se alinham \u00e0 luta contra a corrup\u00e7\u00e3o. Agora, eu posso falar o milagre, mas n\u00e3o o nome do santo. Porque depois de mais de um m\u00eas e muitas idas e vindas \u2013 chegamos at\u00e9 a marcar uma data, a fonte pediu desculpas, mas decidiu n\u00e3o gravar uma entrevista.<\/p>\n<p>Efeito sonoro<\/p>\n<p>Voltei para S\u00e3o Paulo frustrada, mas com mais evid\u00eancias de que por tr\u00e1s da tal lei que permite aos EUA investigar e punir empresas estrangeiras por atos de corrup\u00e7\u00e3o podem existir interesses econ\u00f4micos e pol\u00edticos. Al\u00e9m do franc\u00eas Gaspard Estrada, o tema tamb\u00e9m chamou aten\u00e7\u00e3o de muitos acad\u00eamicos aqui no Brasil. Foi assim que me deparei com uma joia, um estudo feito por duas pesquisadoras. Duas Marias, Maria Paula Bertran, professora de Direito da USP, especialista em direito empresarial e Maria Virg\u00ednia Mesquita Nasser, acad\u00eamica e advogada atuante na \u00e1rea de infraestrutura.<\/p>\n<p>[Maria Virg\u00ednia]<\/p>\n<p>E da\u00ed escrevemos esse <em>paper<\/em>, que chegou at\u00e9 voc\u00ea.\u00a0<\/p>\n<p>[Maria Paula]\u00a0<\/p>\n<p>Acho que a nossa boa mistura veio da capacidade da Virginia ver o que acontecia e do universo fundamentalmente acad\u00eamico de quem eu vinha. E a\u00ed formamos uma boa dupla.<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>O que mais me interessou no trabalho dessa dupla \u00e9 que ele \u00e9 recheado de dados. Elas analisaram os n\u00fameros, as multas, e quais s\u00e3o as empresas penalizadas desde o in\u00edcio da aplica\u00e7\u00e3o da <em>FCPA<\/em>.\u00a0<\/p>\n<p>[Maria Paula]\u00a0<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao volume, eu te trago um dado muito interessante do\u2026 <em>Corporate Prosecution Registry<\/em>, dos autores Garrett e Ashley, que mostram como as multas para empresas de pa\u00edses estrangeiros correspondem a cerca de 60% de todos os recursos, ao passo que o n\u00famero de casos \u00e9 15%.\u00a0<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>Ou seja, as multas s\u00e3o muito maiores para empresas estrangeiras.\u00a0<\/p>\n<p>[Maria Paula]\u00a0<\/p>\n<p>Uma outra estat\u00edstica sugere que essa magnitude \u00e9 de 7 para 28. Ent\u00e3o, enquanto para americana \u00e9 7 para estrangeiras \u00e9 28.\u00a0<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>\u00c9 uma an\u00e1lise simples, num\u00e9rica, mas profundamente reveladora. Mas voc\u00eas tamb\u00e9m argumentam uma coisa que eu achei super interessante, que assim, a Petrobras era o exemplo de empresa que entraria na mira da FCPA. Por qu\u00ea?\u00a0<\/p>\n<p>[Maria Virginia]<\/p>\n<p>G\u00e1s e petr\u00f3leo, setor muito estrat\u00e9gico, grande, tinha acabado de descobrir o pr\u00e9-sal, em franca expans\u00e3o, com a possibilidade de desenvolver o setor a jusante e a montante, teve Sete Brasil, a contrata\u00e7\u00e3o de sondas, todas as grandes construtoras, cada uma estava num cons\u00f3rcio de constru\u00e7\u00e3o de sonda, trazendo tecnologia de fora, era uma empresa que tava l\u00e1 crescendo, robustecendo, num pa\u00eds que estava virando uma pot\u00eancia regional, exportando constru\u00e7\u00e3o pesada para pa\u00edses da \u00c1frica.<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>Segundo demonstram os dados, essa era a combina\u00e7\u00e3o perfeita de fatores, porque as duas empresas brasileiras investigadas e multadas pelos EUA tinham influ\u00eancia regional, ou seja, sua penaliza\u00e7\u00e3o poderia ter impacto para al\u00e9m do Brasil. Agora, elas chamaram aten\u00e7\u00e3o para um ponto importante: enquanto por aqui o financiamento de campanha eleitoral por empresas privadas \u00e9 considerado corrup\u00e7\u00e3o, nos EUA n\u00e3o \u00e9 bem assim.\u00a0<\/p>\n<p>[Maria Virginia]<\/p>\n<p>O FCPA, ele criminaliza a corrup\u00e7\u00e3o de funcion\u00e1rios p\u00fablicos e estrangeiros. Mas, nos Estados Unidos, voc\u00ea tem leis eleitorais espec\u00edficas que variam, inclusive, de estado para estado, dizendo se voc\u00ea pode ou n\u00e3o pode fazer doa\u00e7\u00f5es eleitorais, os valores, em que contexto, em que contexto \u00e9 corrup\u00e7\u00e3o e em que contexto n\u00e3o \u00e9. E tem uma decis\u00e3o da Suprema Corte que, inclusive, escancara a possibilidade de doa\u00e7\u00e3o eleitoral por empresa, que n\u00e3o \u00e9 uma doa\u00e7\u00e3o eleitoral, \u00e9 uma doa\u00e7\u00e3o para o Comit\u00ea de A\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica. Quando a gente l\u00ea as dela\u00e7\u00f5es e os depoimentos colhidos no \u00e2mbito da Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato, tem muita coisa ali que voc\u00ea l\u00ea e fala, isso n\u00e3o \u00e9 nada diferente ou isso \u00e9 muito igual a uma doa\u00e7\u00e3o Super <em>PAC<\/em>.<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>Entenderam o tamanho da contradi\u00e7\u00e3o? A FCPA pode penalizar empresas estrangeiras por fazerem aquilo que no pr\u00f3prio Estados Unidos \u00e9 considerado legal.\u00a0<\/p>\n<p>Efeito sonoro: pausa<\/p>\n<p>Depois de todo esse juridiqu\u00eas deu pra entender um pouco mais os interesses em jogo. Tamb\u00e9m ouvimos no epis\u00f3dio anterior como os procuradores brasileiros admitiam nas mensagens obtidas pela Vaza Jato que amea\u00e7ar delatores com \u201cinvestiga\u00e7\u00f5es em curso nos Estados Unidos\u201d poderia ser uma estrat\u00e9gia de press\u00e3o. Al\u00e9m disso, a simultaneidade da investiga\u00e7\u00e3o no Brasil e nos Estados Unidos, refor\u00e7ava a import\u00e2ncia da Lava Jato.\u00a0<\/p>\n<p>Trilha sonora clima de suspense<\/p>\n<p>O medo de retalia\u00e7\u00f5es dentro do MPF, onde muitos procuradores e procuradoras est\u00e3o sendo investigados por condutas consideradas abusivas durante a Lava Jato, \u00e9 grande. Quando desistiu de dar entrevista, a fonte com quem conversei em Bras\u00edlia me falou que: \u201cquem bota a cabe\u00e7a pra fora da areia, a cabe\u00e7a vira prego\u201d. Pois \u00e9, muita gente est\u00e1 com medo de virar prego. Mas isso nunca foi impedimento para o jornalismo investigativo: sempre tem algu\u00e9m disposto a falar. Finalmente, depois de viajar mais de 400 quil\u00f4metros at\u00e9 o Sul do pa\u00eds, Amanda encontrou essa pessoa aqui do lado:<\/p>\n<p>Efeito sonoro: transi\u00e7\u00e3o\u00a0<\/p>\n<p>[Amanda Audi]<\/p>\n<p>Ent\u00e3o a gente est\u00e1 na sala da doutora Janice Ascari, aqui no Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, em S\u00e3o Paulo, \u00e9 no 14\u00ba andar, sala 143?<\/p>\n<p>[Janice Ascari]<\/p>\n<p>143.\u00a0<\/p>\n<p>[Amanda Audi]<\/p>\n<p>Apesar de estar num andar alto, ainda tem o barulho da rua aqui em S\u00e3o Paulo, n\u00e3o tem jeito, n\u00e9?<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>[Janice Ascari]<\/p>\n<p>N\u00e3o tem jeito. Agora h\u00e1 pouco estavam vendendo pamonha a\u00ed. [25:29]\u00a0<\/p>\n<p>[Amanda Audi]<\/p>\n<p>Chega at\u00e9 aqui.<\/p>\n<p>[Janice Ascari]<\/p>\n<p>\u00c9, chega aqui, eu ouvi.<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>Janice Ascari \u00e9 procuradora do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal e chegou a coordenar a For\u00e7a Tarefa da Lava Jato em S\u00e3o Paulo. Antes disso, foi assessora do ent\u00e3o procurador geral da Rep\u00fablica, Rodrigo Janot. A viagem de Amanda a Curitiba e nossas frustradas tentativas de conversar com procuradores demonstram que hoje o clima \u00e9 de cautela.<\/p>\n<p>[Janice Ascari]<\/p>\n<p>N\u00e3o, \u00e9 porque foi o seguinte. Os que eram mesmo da For\u00e7a-Tarefa de Curitiba, o rebote foi tanto, foi tanto, que eles preferem n\u00e3o passar por isso. Entendeu? Os procuradores da equipe. Porque foi assim um rebote muito grande, assim, para todos, para todos. E n\u00f3s n\u00e3o podemos ter esse receio de trabalhar. N\u00f3s temos que fazer o nosso trabalho.\u00a0<\/p>\n<p>Trilha sonora momento \u201cexplica\u00e7\u00e3o\u201d<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>Dez anos depois do in\u00edcio da Lava Jato, a opera\u00e7\u00e3o \u00e9 alvo de uma s\u00e9rie de procedimentos investigativos internos. O ex-juiz Sergio Moro, hoje senador, responde a inqu\u00e9rito autorizado pelo STF sobre a condu\u00e7\u00e3o de dela\u00e7\u00f5es. O Conselho Nacional do Minist\u00e9rio P\u00fablico e o Conselho Nacional de Justi\u00e7a tamb\u00e9m investigam outros envolvidos por faltas disciplinares ou interfer\u00eancia na condu\u00e7\u00e3o do processo. Dallagnol, ex-chefe da For\u00e7a Tarefa de Curitiba, teve seu mandato de deputado federal cassado pelo TSE por responder a 15 processos disciplinares. O ex procurador fala que o momento \u00e9 de vingan\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>[arquivo \u2013 Deltan Dallagnol no <em>Roda Viva<\/em>]<\/strong><\/p>\n<p>O sistema quer vingan\u00e7a, o sistema no Brasil ele n\u00e3o se contentou com impunidade. Voc\u00ea teve um imenso caso de corrup\u00e7\u00e3o, atores que investigaram e aplicaram a lei e o que esse sistema fez em seguida? Os atores da lei, os donos da lei, porque no Brasil n\u00f3s temos donos do poder, o que eles fizeram? Eles mudaram a lei e as regras do jogo.\u00a0<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>Voltando \u00e0 entrevista, a Amanda foi direto ao ponto: o que a Janice sabe sobre a coopera\u00e7\u00e3o com os americanos?<\/p>\n<p>[Janice Ascari]<\/p>\n<p><strong>Entrevista. Janice Ascari<\/strong>\u00a0[07:00] (\u2026) Na quest\u00e3o dos Estados Unidos aqui. Eu sei que \u00e9 uma coisa meio grandiosa. \u00c9 que eu n\u00e3o tenho informa\u00e7\u00e3o. Realmente, [07:16] eu sei que houve uma coopera\u00e7\u00e3o internacional, mas com a participa\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria Procuradoria-Geral da Rep\u00fablica, que n\u00f3s temos uma Secretaria de Coopera\u00e7\u00e3o Internacional, [07:28] e com o DRCI, que \u00e9 o Departamento de Recupera\u00e7\u00e3o de Ativos do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a.\u00a0<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, eu sei que houve v\u00e1rias coopera\u00e7\u00f5es e tal, mas, assim, dessa \u00e9poca da Lava Jato, eu\u2013 n\u00f3s aqui na Lava Jato usamos a coopera\u00e7\u00e3o internacional, mas agora no finalzinho, no caso do Jos\u00e9 Serra. E solicitamos as informa\u00e7\u00f5es, as informa\u00e7\u00f5es vieram, tudo certo, tudo ok, n\u00e9? E \u00e9 a parte que eu acompanhei de perto. Mas essa parte deles com os Estados Unidos, inclusive com outros pa\u00edses, a\u00ed eu realmente n\u00e3o tenho informa\u00e7\u00e3o segura para dar porque n\u00e3o participei disso.<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que os casos que passaram por Janice n\u00e3o exigiram tanta troca entre pa\u00edses, mas como uma procuradora experiente ela talvez tenha algo a dizer sobre um poss\u00edvel envolvimento de ag\u00eancias americanas no embri\u00e3o da Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato.\u00a0<\/p>\n<p>[Amanda Audi]<\/p>\n<p>A gente pegou uma linha ali que a gente est\u00e1 tentando investigar e tal, que \u00e9 assim, o Youssef e os outros doleiros, a Nelma tamb\u00e9m, a Chater, enfim, eles operavam tamb\u00e9m numa regi\u00e3o meio de fronteira.\u00a0<\/p>\n<p>[Janice Ascari]<\/p>\n<p>Na Tr\u00edplice Fronteira.\u00a0<\/p>\n<p>[Amanda Audi]<\/p>\n<p>E que talvez por isso, agentes dos Estados Unidos, do FBI, da CIA, talvez tinham conhecimento dessas opera\u00e7\u00f5es e por isso estavam colaborando ativamente com os procuradores aqui. Queria ver se a senhora ouviu falar sobre isso, se enfim, tem algo nesse sentido.\u00a0<\/p>\n<p>[Janice Ascari]<\/p>\n<p>Olha, agentes de intelig\u00eancia tem em qualquer lugar. Tem em qualquer lugar. E essa mesma coopera\u00e7\u00e3o internacional que \u00e9 interesse de voc\u00eas jornalistas, do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal com seus cong\u00eaneres nos Estados Unidos, em outros pa\u00edses, tem na pol\u00edcia tamb\u00e9m. Ent\u00e3o a pol\u00edcia tem uma rede de informa\u00e7\u00f5es e de uma maneira muito mais\u2013 menos burocr\u00e1tica do que a nossa. Porque a nossa, n\u00f3s precisamos abrir um processo, o processo \u00e9 numerado, a gente tem que fazer refer\u00eancia. N\u00e3o, a pol\u00edcia passa a m\u00e3o no telefone e liga para o delegado do outro pa\u00eds e eles passam informa\u00e7\u00f5es de intelig\u00eancia. Ent\u00e3o, quer dizer, isso n\u00e3o \u00e9 novidade.\u00a0<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>O que ela explicou \u00e9 que policiais compartilham e recebem informa\u00e7\u00f5es de policiais de outros pa\u00edses, incluindo os Estados Unidos, e tamb\u00e9m de pa\u00edses vizinhos, como Argentina e Paraguai, nossa conhecida \u201cintel\u201d, lembra? Mas essa troca banal de informa\u00e7\u00f5es pode em certa medida influenciar e direcionar as investiga\u00e7\u00f5es que ocorrem aqui no Brasil?\u00a0<\/p>\n<p>[Janice Ascari]<\/p>\n<p>E \u00e9 bom que isso fique claro, n\u00e3o teria o poder, e isso eu falo, assim, com o meu, vamos usar uma express\u00e3o da moda, do meu lugar de fala de 32 anos de Minist\u00e9rio P\u00fablico, jamais o nosso trabalho seria pautado por uma ag\u00eancia internacional.<\/p>\n<p>[Amanda Audi]<\/p>\n<p>Boa, pode explicar um pouquinho melhor por qu\u00ea?<\/p>\n<p>[Janice Ascari]<\/p>\n<p>N\u00f3s vamos utilizar a informa\u00e7\u00e3o de acordo com a nossa independ\u00eancia funcional que \u00e9 garantida pela Constitui\u00e7\u00e3o Federal. Ent\u00e3o, por isso que eu falo que n\u00e3o teria, assim, esse poder coercitivo que muitas vezes a imprensa acha que essas ag\u00eancias t\u00eam.<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>Janice fala com uma grande convic\u00e7\u00e3o e com a experi\u00eancia de quem trabalha h\u00e1 3 d\u00e9cadas no Minist\u00e9rio P\u00fablico. Ser\u00e1 poss\u00edvel que toda essa hist\u00f3ria de \u201cmanipula\u00e7\u00e3o\u201d, de que os agentes americanos estavam por tr\u00e1s da Lava Jato, seja mesmo s\u00f3 teoria da conspira\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>[Amanda Audi]<\/p>\n<p>E se n\u00e3o for coercitivo, mas, por exemplo, os agentes ficam sabendo de algo que est\u00e1 acontecendo ali e eles, sei l\u00e1, informam isso para voc\u00eas. Isso pode acontecer?\u00a0<\/p>\n<p>[Janice Ascari]<\/p>\n<p>Isso acontece todos os dias, ent\u00e3o eles informam, na verdade, n\u00e3o para o Minist\u00e9rio P\u00fablico, eles informam na verdade em primeiro plano para a pol\u00edcia e a pol\u00edcia nos informa. Porque eles est\u00e3o em contato com os \u00f3rg\u00e3os policiais. E a\u00ed eu vou compartilhar com a equipe de investiga\u00e7\u00e3o que pode envolver a Pol\u00edcia Federal ou n\u00e3o. A realidade aqui, o cotidiano, \u00e9 esse.\u00a0<\/p>\n<p>[Amanda Audi]<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, nesse caso, se isso tivesse acontecido, que a gente, enfim, n\u00e3o tem certeza, mas se por acaso agentes de fora viram uma atividade ilegal na fronteira, que estava acontecendo com agentes brasileiros, com esses doleiros, enfim, eles poderiam ter avisado a pol\u00edcia, no caso, sobre isso, e da\u00ed se iniciaria uma investiga\u00e7\u00e3o a partir desse toque, sei l\u00e1, entre aspas, dessa dica que eles deram.\u00a0<\/p>\n<p>[Janice Ascari]<\/p>\n<p>Sim, eventualmente sim. Eventualmente sim. Porque, normalmente, o que acontece? Essas informa\u00e7\u00f5es chegam para a pol\u00edcia e a pol\u00edcia instala um inqu\u00e9rito. E o inqu\u00e9rito tem que, necessariamente, passar pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico. Tanto federal quanto estadual, cada um na sua esfera. E, assim, o arroz com feij\u00e3o nosso \u00e9 esse.<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>Estamos cada vez mais entendendo o arroz com feij\u00e3o dos procuradores e policiais, mas ainda assim estamos longe de ter alguma evid\u00eancia de que os Estados Unidos est\u00e3o por tr\u00e1s da Lava Jato. Por isso apelamos para um recurso muito utilizado por jornalistas, a Lei de Acesso \u00e0 Informa\u00e7\u00e3o, a LAI.\u00a0<\/p>\n<p>Trilha sonora momento \u201cexplica\u00e7\u00e3o\u201d<\/p>\n<p>A LAI garante que voc\u00ea ou qualquer cidad\u00e3o possa solicitar informa\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de \u00f3rg\u00e3os governamentais. O objetivo \u00e9 promover a transpar\u00eancia e o controle social das atividades exercidas pelo governo com dinheiro p\u00fablico. As \u00fanicas coisas que n\u00e3o podemos perguntar s\u00e3o informa\u00e7\u00f5es sigilosas, que envolvam a seguran\u00e7a nacional ou dados pessoais. Para voc\u00ea entender melhor, o pedido de informa\u00e7\u00e3o \u00e9 feito no site de cada \u00f3rg\u00e3o p\u00fablico, em um formul\u00e1rio, onde escrevemos nossa pergunta sobre o que queremos saber. N\u00e3o \u00e9 nada complicado. Mas quanto mais espec\u00edfico, melhor. Por exemplo: com as datas das visitas de delega\u00e7\u00f5es americanas em m\u00e3os, pedimos para o Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a e o MPF todos os registros de reuni\u00f5es entre americanos e autoridades brasileiras\u2026 Al\u00e9m disso, fizemos uma batelada de pedidos, mais de 50 para diferentes \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Fim da trilha\u00a0<\/p>\n<p>[Amanda Audi]<\/p>\n<p>Eu fiz 15 pedidos de informa\u00e7\u00e3o, nenhum deles teve uma resposta satisfat\u00f3ria. Eu fiz para o MPF e para PF, focando nos dados de viagens ao exterior e de agentes de fora para c\u00e1, em reuni\u00f5es, encontros, qualquer tipo de encontro que houve entre esses agentes p\u00fablicos daqui com os de fora. A resposta de todos eles \u00e9 muito parecida, na verdade. O MPF diz que n\u00e3o tem um sistema que centralize informa\u00e7\u00f5es, ent\u00e3o depende de cada agente passar essa informa\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>\u00c9 direito de todo cidad\u00e3o ter acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o, mas isso n\u00e3o significa que eles v\u00e3o te responder. \u00c0s vezes nem o \u00f3rg\u00e3o p\u00fablico tem a resposta, outras vezes eles te enrolam mesmo. A Amanda disparou pedidos de informa\u00e7\u00e3o sobre viagens oficiais aos EUA de procuradores cujos nomes ficaram famosos na \u00e9poca, como Dallagnol, Paulo Galv\u00e3o, Marcelo Miller, Orlando Martello. Para nossa surpresa algu\u00e9m respondeu. Agora, voc\u00ea conseguiu uma resposta do Orlando Martello via LAI?<\/p>\n<p>[Amanda Audi]<\/p>\n<p>O que \u00e9 bem curioso, n\u00e9? Eles falaram que n\u00e3o t\u00eam essa obriga\u00e7\u00e3o de responder, mas ele quis responder. E da\u00ed a resposta que eu tive foi essa aqui.<\/p>\n<p>Trilha sonora \u201cleve\u201d<\/p>\n<p>Este membro n\u00e3o manteve qualquer registro ou informa\u00e7\u00f5es das viagens oficiais realizadas, de modo que a interessada deve eventualmente dirigir-se \u00e0 administra\u00e7\u00e3o do MPF para obt\u00ea-la. A t\u00edtulo de colabora\u00e7\u00e3o, no entanto, esclarece-se que esse signat\u00e1rio, talvez no ano de 2016, sem certeza, entre par\u00eanteses, para reuni\u00e3o apenas com procuradores do Departamento de Justi\u00e7a americano, n\u00e3o tendo tido contato com qualquer agente do FBI ou da CIA. Esclarece-se ainda que este membro n\u00e3o conhece, nunca manteve contato ou tratativa de qualquer natureza, formal ou informal, com qualquer membro de intelig\u00eancia de pa\u00eds estrangeiro, mas apenas com procuradores e policiais federais em raz\u00e3o dos pedidos de coopera\u00e7\u00e3o executados na forma da legisla\u00e7\u00e3o. Essa foi a resposta.<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>Se Orlando Martello n\u00e3o se relacionou com ningu\u00e9m do FBI, o fato \u00e9 que agentes vieram para o Brasil, e mais vezes do que a gente imaginava.\u00a0E eu descobri isso a partir de mais um documento in\u00e9dito que chegou \u00e0s minhas m\u00e3os atrav\u00e9s de uma fonte.\u00a0<\/p>\n<p>Efeito sonoro: alerta recebimento de mensagem<\/p>\n<p><strong>E<\/strong>u recebi de uma fonte uma lista bem extensiva proveniente da Embaixada brasileira em Washington de todos os vistos que foram dados para americanos que vieram para o Brasil a pedido do governo americano. Ent\u00e3o, ali tem os nomes de 2015 a 2017. Ent\u00e3o, ali tem os nomes de agentes da FBI, tem nomes de gente da CIA, t\u00eam nomes de procuradores que vieram para fazer investiga\u00e7\u00e3o, tem nomes de procuradores que vieram em Curitiba, tem nome de agente da DEA, tem nome de gente que veio fazer reuni\u00e3o com militar. \u00c9 um monte de coisa, \u00e9 uma emaranhada enorme. Mas o mais interessante \u00e9 que tem algumas coisas novas ali.\u00a0<\/p>\n<p>A primeira coisa \u00e9 que tem nomes de procuradores al\u00e9m daqueles que sa\u00edram na reportagem. Ent\u00e3o, na nossa reportagem a gente disse que vieram 17 procuradores, mas tem pelo menos mais dois que vieram e que a descri\u00e7\u00e3o do pedido de visto deles \u00e9 que iriam para Curitiba naquela mesma \u00e9poca, em 2015. Ent\u00e3o, na verdade, j\u00e1 temos nomes novos de gente que participou dessa opera\u00e7\u00e3o em Curitiba. Al\u00e9m disso, tem uma entrada da nossa querida\u2026 Tem uma entrada da Leslie Backschies, n\u00e9? Da agente do FBI em 2017, em julho de 2017. E a\u00ed ela vem, e ela vem para a embaixada americana em Bras\u00edlia e depois, numa \u00e9poca bem espec\u00edfica, e junto com ela v\u00eam v\u00e1rios outros agentes do FBI. Para uma\u2026 Para uma reuni\u00e3o me parece muito espec\u00edfica, s\u00f3 que como a Leslie, esse tempo todo ela trabalhou na Lava Jato, eu acredito que essa reuni\u00e3o a\u00ed, em julho de 2017, deve ter sido tamb\u00e9m para coordenar a\u00e7\u00f5es da Lava Jato.<\/p>\n<p>Trilha sonora com bipes<\/p>\n<p>Leslie Backschies. Ela foi fundamental na condu\u00e7\u00e3o das investiga\u00e7\u00f5es das empresas brasileiras e saiu do caso com a moral l\u00e1 em cima. Como eu sei disso? Um rep\u00f3rter da P\u00fablica flagrou o ex-chefe dela em um evento l\u00e1 em Nova York, em 2018, dizendo que ela fez \u201cum trabalho tremendo\u201d e \u201ccr\u00edtico para o FBI\u201d. Mas eu descobri que ela vinha ao Brasil pelo menos desde 2012\u2026 al\u00e9m de ter sido parte daquela comitiva com 17 americanos que visitou Curitiba. O novo documento que chegou \u00e0s minhas m\u00e3os revela que Leslie veio ao Brasil tamb\u00e9m em 2016, numa viagem at\u00e9 agora nunca relatada pela imprensa. O que ela fazia aqui? S\u00f3 existe uma maneira de encontrar essa resposta\u2026<\/p>\n<p>Ambi\u00eancia aeroporto + chamada para voo com destino a Nova York<\/p><\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/lula-segue-na-lideranca-segundo-btg-nexus\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/IMG-20260803-WA0032-1-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Lula segue na lideran\u00e7a, segundo BTG\/Nexus<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/processos-por-intolerancia-contra-populacao-lgbtqiapn-crescem-em-2025-aponta-cnj\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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