{"id":95579,"date":"2026-07-15T16:50:19","date_gmt":"2026-07-15T19:50:19","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/sebastiao-salgado-registrou-a-ocupacao-que-se-tonou-o-maior-complexo-de-reforma-agraria-da-america-latina\/"},"modified":"2026-07-15T16:50:19","modified_gmt":"2026-07-15T19:50:19","slug":"sebastiao-salgado-registrou-a-ocupacao-que-se-tonou-o-maior-complexo-de-reforma-agraria-da-america-latina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/sebastiao-salgado-registrou-a-ocupacao-que-se-tonou-o-maior-complexo-de-reforma-agraria-da-america-latina\/","title":{"rendered":"Sebasti\u00e3o Salgado registrou a ocupa\u00e7\u00e3o que se tonou o maior complexo de Reforma Agr\u00e1ria da Am\u00e9rica Latina"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"693\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-35.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-35-1024x693.jpeg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-35-300x203.jpeg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-35-768x520.jpeg 768w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-35.jpeg 1200w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption><em>Momento da ocupa\u00e7\u00e3o do maior latif\u00fandio da Am\u00e9rica Latina, a Fazenda Giacomet-Marodin, no dia 17 de abril de 1996, registrado por Sebasti\u00e3o Salgado e publicado no livro Terra (1997)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Por Murilo Bernardon | setor de Comunica\u00e7\u00e3o e Cultura do MST-PR<br \/>Da P\u00e1gina do MST<\/em><\/p>\n<p>Faltavam 15 minutos para as 6 horas da manh\u00e3. Ainda pouco se via da luz do sol quando uma coluna humana de crian\u00e7as, mulheres e homens Sem Terra chegava na porteira da gigantesca Fazenda Giacomet-Marodin. Depois de tr\u00eas horas marchando pela madrugada, naquele 17 de abril de 1996, 15 mil pessoas ocuparam o maior latif\u00fandio da Am\u00e9rica Latina e iniciaram uma luta que, anos depois, iria garantir a dignidade para mais de 5,5 mil fam\u00edlias, assentadas e acampadas em 24 comunidades.<\/p>\n<p>\u00c0s 6 horas em ponto, com a entrada segura, Sebasti\u00e3o Salgado, economista e fot\u00f3grafo mineiro, que havia acompanhado a organiza\u00e7\u00e3o da marcha de milhares de camponeses(as), eternizou o momento exato em que a cerca do latif\u00fandio \u00e9 rompida, abrindo caminho para a liberta\u00e7\u00e3o da terra.<\/p>\n<p>De fato, no marco de 30 anos da primeira ocupa\u00e7\u00e3o, em um longo processo de lutas e conquistas de \u00e1reas para a Reforma Agr\u00e1ria, o governo do presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva formaliza a cria\u00e7\u00e3o de tr\u00eas novos assentamentos neste mesmo territ\u00f3rio, na regi\u00e3o centro-sul do Paran\u00e1: Herdeiros da Terra de Primeiro de Maio, em Rio Bonito do Igua\u00e7u; Dom Tom\u00e1s Baldu\u00edno, de Quedas do Igua\u00e7u e Palestina Livre, em Quedas do Igua\u00e7u e Espig\u00e3o Alto \u2013 beneficiando 2 mil fam\u00edlias como o acesso \u00e0 terra liberta. A maior conquista de assentamentos da hist\u00f3ria do MST.<\/p>\n<p>Hoje, aquele espa\u00e7o que havia sido grilado para se tornar um latif\u00fandio improdutivo e de extra\u00e7\u00e3o de madeira, com um \u00fanico dono, virou <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/2026\/07\/03\/com-presenca-de-autoridades-mst-realiza-festa-historica-de-criacao-de-assentamentos-em-rio-bonito-iguacu-pr\/\">o maior complexo de comunidades da Reforma Agr\u00e1ria da Am\u00e9rica Latina<\/a>, produzindo alimento e vida digna.<\/p>\n<h2>A visita de Sebasti\u00e3o Salgado<\/h2>\n<p>Sebasti\u00e3o Salgado chegou no dia 15 de abril de 1996, uma segunda-feira, em Curitiba, com a miss\u00e3o de registrar a ocupa\u00e7\u00e3o de um latif\u00fandio de cerca de 83 mil hectares de extens\u00e3o, a Fazenda Giacomet-Marodin, e a vida comunit\u00e1ria em um dos maiores acampamentos da Reforma Agr\u00e1ria do pa\u00eds.\u00a0<\/p>\n<p>O fot\u00f3grafo foi de carro at\u00e9 Laranjeiras do Sul (PR), acompanhado por Roberto Baggio, que hoje faz parte da dire\u00e7\u00e3o nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) \u2013 uma viagem de cerca de 360 km. L\u00e1, conheceu um dos acampamentos situados no entorno do latif\u00fandio, com cerca de 2,6 mil fam\u00edlias.\u00a0<\/p>\n<p>Baggio conviveu com Salgado durante tr\u00eas dias e lembra o per\u00edodo em detalhes. \u201cEle ficou dois dias fotografando as fam\u00edlias, as reuni\u00f5es, tirava foto das crian\u00e7as brincando, conversava com as pessoas, bem calmo, assim, afetuoso. Ele era aquela fa\u00edsca acesa\u201d, conta.\u00a0<\/p>\n<p>Os dois dias que antecederam a marcha em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 sede da fazenda foram de chuva intensa e frio, conta o militante. Como a regi\u00e3o \u00e9 mais baixa em rela\u00e7\u00e3o ao relevo local, uma cerra\u00e7\u00e3o densa se formava durante as noites.\u00a0<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"613\" height=\"832\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-4.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-4.jpg 613w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-4-221x300.jpg 221w\" sizes=\"(max-width: 613px) 100vw, 613px\"><figcaption><em>No mapa da regi\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ver o trajeto da Marcha da Coluna Humana, com caminhada realizada de Laranjeiras do Sul, a Norte, at\u00e9 o local aproximado do local da ocupa\u00e7\u00e3o, e de Saudade do Igua\u00e7u, a Sul. Fonte: , Google Maps<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>A Marcha da Coluna Humana \u2013 batizada assim por Sebasti\u00e3o Salgado \u2013 partiu de dois acampamentos em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 sede do latif\u00fandio. Um, de Laranjeiras do Sul, onde estava o fot\u00f3grafo, e outro pr\u00f3ximo a Saudade do Igua\u00e7u (PR), no outro sentido da estrada que ligava as cidades.<\/p>\n<p>\u201cImagina uma fazenda que na pr\u00e1tica tinha 100 mil hectares, atinge cinco munic\u00edpios e era terra p\u00fablica, que a Uni\u00e3o repassou para a empresa Giacomet-Marodin, para eles constru\u00edrem a estrada de ferro, que nunca constru\u00edram. Era um grande latif\u00fandio improdutivo, apenas para a explora\u00e7\u00e3o de madeira\u201d, explica Baggio.<\/p>\n<p>Depois de organizar seus pertences e materiais para montar acampamento, as fam\u00edlias Sem Terra se preparavam para partir. Era necess\u00e1rio cautela, para evitar que a marcha fosse bloqueada ou atacada. \u201cNa \u00e9poca, o INCRA [Instituto Nacional de Coloniza\u00e7\u00e3o e Reforma Agr\u00e1ria] fez o cadastro, deu 3.300 fam\u00edlias, em torno de 15 mil pessoas. Imagina um acampamento de 15 mil pessoas. Ah, vamos contratar \u00f4nibus, caminh\u00e3o \u2013 imposs\u00edvel. Logo ia vazar, e a pol\u00edcia ia impedir. E o pessoal falou, \u2018n\u00e3o, essa ocupa\u00e7\u00e3o vamos fazer caminhando\u2019. E de fato, foi uma ocupa\u00e7\u00e3o feita caminhando \u00e0 noite\u201d, conta Baggio.<\/p>\n<p>Na madrugada fria do dia 17 de abril, uma coluna silenciosa de 15 mil Sem Terra saiu, carregando nas m\u00e3os as ferramentas de trabalho e nas costas seus sacos de colch\u00e3o e de roupa, para ocupar o maior latif\u00fandio da regi\u00e3o sul do Brasil.\u00a0<\/p>\n<p>A Coluna Humana, depois de uma caminhada de tr\u00eas horas, chegou ao port\u00e3o da Fazenda Giacomet-Marodin perto do amanhecer. Todos esperaram 15 minutos pelo nascer do sol, apesar da neblina e da baixa temperatura. \u00c0s 6 horas em ponto, os militantes \u00e0 frente da marcha arrebentaram o cadeado da porteira, abrindo aquela terra para a entrada de mais de 3 mil fam\u00edlias camponesas, que nunca mais sa\u00edram.<\/p>\n<p>Salgado, que j\u00e1 havia cruzado a cerca com ajuda de uma equipe do MST, registrou o momento exato da ocupa\u00e7\u00e3o, em que um campon\u00eas erguia sua foice, em sinal de vit\u00f3ria. Atr\u00e1s, uma fileira de milhares de trabalhadores seguia por quil\u00f4metros da PR 158. Baggio, que naquele momento se somava \u00e0 marcha, destaca: \u201cA foto, na ess\u00eancia, capta essa for\u00e7a humana em movimento, ardente e massiva, de pobres, exclu\u00eddos, massacrados marchando com o desejo de repartir a terra e, a partir do seu trabalho, ter o que comer\u201d.<\/p>\n<p>O fot\u00f3grafo acompanhou toda a caminhada \u2013 as fotos tiradas nesses tr\u00eas dias fazem parte do livro <em>Terra <\/em>(1997), realizado em conjunto com o escritor Jos\u00e9 Saramago e o cantor Chico Buarque. Por meio da doa\u00e7\u00e3o dos direitos das imagens do livro ao MST, o fot\u00f3grafo ajudou a construir a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), do Movimento, em Guararema (SP).<\/p>\n<p>A ocupa\u00e7\u00e3o da Fazenda Giacomet-Marodin marcou o in\u00edcio de uma longa luta pela terra na regi\u00e3o. Nos anos seguintes, neste territ\u00f3rio foram criados os assentamentos Ireno Alves e Celso Furtado, abrigando mais de 2 mil fam\u00edlias assentadas da Reforma Agr\u00e1ria. Hoje, esta regi\u00e3o concentra o maior complexo de  Reforma Agr\u00e1ria da Am\u00e9rica Latina, com mais de 5,5 mil fam\u00edlias em 24 comunidades.<\/p>\n<h2>No mesmo dia, o Massacre de Eldorado do Caraj\u00e1s<\/h2>\n<p>No mesmo 17 de abril de 1996, \u00e0s 5 horas da tarde, uma outra cena marcaria a luta pela terra no Brasil. Enquanto os Sem Terra ocupavam a Fazenda Giacomet-Marodin, a Pol\u00edcia Militar emboscava uma mobiliza\u00e7\u00e3o de camponeses no Sul do Par\u00e1, que rumava a Bel\u00e9m (PA)\u00a0 \u2013 19 trabalhadores Sem Terra morreram no local do ataque. Naquele dia, quando chegou a not\u00edcia do massacre, Salgado foi \u00e0s pressas para o aeroporto de Foz do Igua\u00e7u, rumo ao Norte do pa\u00eds. Chegou no dia seguinte e fotografou o cortejo e o vel\u00f3rio dos trabalhadores rurais assassinados.<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"685\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-36.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-36-1024x685.jpeg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-36-300x201.jpeg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-36-768x514.jpeg 768w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-36-1536x1027.jpeg 1536w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-36.jpeg 1920w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption><em>Registro do vel\u00f3rio dos 21 camponeses mortos no Massacre de Eldorado do Caraj\u00e1s, feito por Sebasti\u00e3o Salgado, tamb\u00e9m parte do livro Terra (1997<\/em>)<\/figcaption><\/figure>\n<p>A emboscada das for\u00e7as policiais \u2013 Pol\u00edcia Militar, na Curva do S, deixou ao todo 21 Sem Terra mortos e 79 feridos. \u201cNo Sul, aqui no Paran\u00e1, uma marcha humana rompe as cercas, entra no latif\u00fandio e conquista um extraordin\u00e1rio assentamento. E na contradi\u00e7\u00e3o, em outro canto do Brasil, a viol\u00eancia brutal do Estado brasileiro ceifa a vida de 21 militantes e deixa uma centena de mutilados\u201d, relembra Baggio.<\/p>\n<p>\u201cSalgado registrou em foto o que o aparato do Estado brasileiro vem fazendo com os camponeses desde 1500. Fizeram isso com os ind\u00edgenas, fizeram isso com os quilombolas, fizeram isso com os camponeses pobres e continua, at\u00e9 hoje, usando a viol\u00eancia para coibir o avan\u00e7o da Reforma Agr\u00e1ria\u201d, complementa.<\/p>\n<p>O dia 17 de abril se tornou o Dia Nacional da Luta pela Terra no Brasil, e a Via Campesina Internacional adotou a data como o Dia Internacional da Luta Camponesa. O direito \u00e0 terra e a Reforma Agr\u00e1ria no Brasil est\u00e3o previstos na Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988, que entende que a terra deve cumprir uma fun\u00e7\u00e3o social, ou seja, n\u00e3o pode ser improdutiva.<\/p>\n<h2>Os anos 1990 de luta e repress\u00e3o<\/h2>\n<p>Os anos 1990, no campo brasileiro, foram marcados por epis\u00f3dios de extrema viol\u00eancia por parte do Estado e do latif\u00fandio. A ditadura havia acabado \u2013 mas, como \u00e9 sabido no Brasil, as estruturas de repress\u00e3o dos militares nunca foram completamente extintas, apenas inclu\u00eddas a uma democracia t\u00edmida. Para o povo pobre e marginalizado, os instrumentos de repress\u00e3o permaneceram intocados no novo sistema pol\u00edtico.\u00a0<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1990, a luta pela terra no Brasil foi marcada por numerosas ocupa\u00e7\u00f5es de milhares de camponeses em grandes latif\u00fandios e tamb\u00e9m pela tentativa do Estado, com uso de viol\u00eancia, de frear o crescimento r\u00e1pido e massivo do MST em todo o pa\u00eds. No Paran\u00e1, <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/2025\/07\/11\/parana-estado-pequeno-em-dimensao-geografica-gigante-na-violencia-contra-trabalhadores-rurais\/\">segundo conjunto de relat\u00f3rios da Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT) e do MST<\/a>, entre os anos de 1994 e 2002 ocorreram 502 pris\u00f5es de trabalhadores rurais, 324 les\u00f5es corporais, 7 trabalhadores v\u00edtimas de tortura, 47 amea\u00e7ados de morte, 31 tentativas de homic\u00eddio, 16 assassinatos e 134 despejos violentos.<\/p>\n<p>Do ponto de vista pol\u00edtico, os anos 1990 foram de forte imposi\u00e7\u00e3o do neoliberalismo. No \u00e2mbito federal, presidentes como Fernando Collor (1990-1992) e Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) tiveram governos de transi\u00e7\u00e3o para adaptar o Brasil aos interesses do projeto neoliberal. Em conjunto com a burguesia, o aparato do Estado promovia no mundo urbano uma ofensiva de privatiza\u00e7\u00f5es \u2013 tamb\u00e9m retirada de direitos, repress\u00e3o a greves, entre outros ataques \u00e0 classe trabalhadora.<\/p>\n<p>No campo, o objetivo era modernizar o latif\u00fandio, para preservar a hist\u00f3rica concentra\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria do Brasil. Ou seja, uma moderniza\u00e7\u00e3o na t\u00e9cnica, sem contudo alterar as velhas estruturas de poder, concentra\u00e7\u00e3o de terras e de explora\u00e7\u00e3o do trabalhador e da natureza. Para isso, era necess\u00e1rio expulsar milhares de trabalhadores do campo, para esvazi\u00e1-lo, e transformar a terra no espa\u00e7o de reserva do capital na agricultura.<\/p>\n<p>\u201cSe for ver na ess\u00eancia, at\u00e9 os anos 1990 a grande maioria das propriedades rurais no Brasil n\u00e3o cumpriam a fun\u00e7\u00e3o social. Era um grande pa\u00eds improdutivo. Aquele grande latif\u00fandio largado. O desafio do Estado era: \u2018precisamos de um tempo para incorporar a din\u00e2mica capitalista, se n\u00e3o toda essa terra vira terra da Reforma Agr\u00e1ria\u2019\u201d, descreve Baggio.\u00a0<\/p>\n<h2>Vit\u00f3ria das m\u00e3os calejadas<\/h2>\n<p>Neste 3 de julho de 2026, quase 30 anos ap\u00f3s a ocupa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e o Massacre de Caraj\u00e1s, o MST do Paran\u00e1 celebrou a conquista de 33 mil hectares de terra, daquela antiga \u00e1rea de madeireira, que foram formalizados como tr\u00eas novos assentamentos. As fam\u00edlias camponesas beneficiadas \u2013 2 mil, ao todo, acampadas h\u00e1 cerca de dez anos \u2013 s\u00e3o em parte formadas por filhas, filhos e familiares dos milhares de Sem Terra que ocuparam o latif\u00fandio em 1996.<\/p>\n<p>Joceli Borges, que tinha apenas cinco anos \u00e0 \u00e9poca, foi fotografada por Sebasti\u00e3o Salgado durante a marcha, naquele ano. Hoje, ela vive com a fam\u00edlia no assentamento Herdeiros da Terra de Primeiro de Maio, uma das \u00e1reas que foram oficialmente reconhecidas como assentamento da Reforma Agr\u00e1ria.<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"649\" height=\"969\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-2.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-2.jpeg 649w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-2-201x300.jpeg 201w\" sizes=\"(max-width: 649px) 100vw, 649px\"><figcaption><em>Joceli Borges, com cinco anos, fotografada por Sebasti\u00e3o Salgado em 1996 \u2013 a imagem se tornaria capa do livro Terra (1997)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Joceli relata um passado de dificuldade e muita luta no acampamento que ficou conhecido como \u201cBuraco\u201d, local onde se organizou o in\u00edcio da ocupa\u00e7\u00e3o. Seus pais foram assentados na comunidade Ireno Alves \u2013 o que, segundo ela, \u201cfoi uma transforma\u00e7\u00e3o total, tiveram a vida digna deles em cima de um peda\u00e7o de terra\u201d.<\/p>\n<p>\u201cFoi aqui que eu encontrei dignidade. Aqui que eu encontrei a vida que tenho hoje, aqui que eu dei continuidade a luta dos meus pais, e onde eu quero que meus filhos prossigam tamb\u00e9m pra ajudar outras fam\u00edlias. Eu n\u00e3o tive os estudos completos, mas a minha filha vai ser professora. Eu quero que eles nunca desistam dessa luta\u201d, conta a agora assentada.<\/p>\n<p>Joceli \u00e9 coordenadora de um grupo na comunidade onde vive, o grupo Nova Uni\u00e3o, no agora assentamento Herdeiros da Terra de Primeiro de Maio, tamb\u00e9m em Rio Bonito do Igua\u00e7u. \u201c\u00c9 com luta que a gente chega onde precisa. A gente continua tudo unido, um bra\u00e7o segura o outro e \u00e9 assim que a gente segue\u201d, declara.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"563\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-5.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-5-1024x563.jpeg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-5-300x165.jpeg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-5-768x422.jpeg 768w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-5-1536x844.jpeg 1536w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-5.jpeg 1920w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption><em>Celebra\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o comunit\u00e1rio da Herdeiros da Terra de Primeiro de Maio, em 3 de julho de 2026. Foto: Danielson Postinguer<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Esse epis\u00f3dio da hist\u00f3ria dos Sem Terra no Paran\u00e1, captado atrav\u00e9s das lentes de Sebasti\u00e3o Salgado, se transformou em um s\u00edmbolo da luta pela Reforma Agr\u00e1ria no Brasil. Ao longo dessas tr\u00eas d\u00e9cadas, a luta pela terra na regi\u00e3o envolveu enfrentamentos violentos com jagun\u00e7os e o aparato do Estado a servi\u00e7o dos latifundi\u00e1rios. Mas os camponeses resistiram e conquistaram novos espa\u00e7os, transformando o que era um grande latif\u00fandio improdutivo em <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/2021\/04\/17\/reforma-agraria-transforma-latifundio-da-giacomet-marodin-em-terra-de-fartura\/\">terra de produ\u00e7\u00e3o de alimentos e renda para mais fam\u00edlias Sem Terra<\/a>.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2026\/07\/09\/terra-poder-e-violencia-a-formacao-dos-latifundios-no-centro-sul-do-parana\/\">Ao menos parte de toda aquela \u00e1rea havia sido obtida atrav\u00e9s de grilagem pelo grupo Giacomet-Marodin<\/a>. Em 2017, o Tribunal Regional Federal da 4\u00aa Regi\u00e3o (TRF-4) declarou nulos os t\u00edtulos de propriedade da madeireira Araupel ocupada pelo MST, confirmando a pr\u00e1tica de grilagem.<\/p>\n<p>Sebasti\u00e3o Salgado faleceu no dia 23 de maio de 2025, aos 81 anos, em Paris, na Fran\u00e7a. Junto com L\u00e9lia Wanick Salgado, arquiteta e sua companheira, fundou o Instituto Terra, que atua na recupera\u00e7\u00e3o de \u00e1reas da Mata Atl\u00e2ntica, com sede em Aimor\u00e9s (MG), cidade natal do economista.<\/p>\n<p>Para Baggio, Salgado foi \u201cum ser altamente solid\u00e1rio, generoso, extraordin\u00e1rio, que registrou essa luta hist\u00f3rica desse tempo da \u00e9poca de 1990. Nossa gratid\u00e3o eterna, onde quer que esteja \u2013 a sua alma, as suas ideias, a sua fotografia, continuam nos iluminando, nos apoiando para a gente avan\u00e7ar, para repartir a terra no Brasil, produzir comida e cuidar do meio ambiente.\u201d<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"724\" height=\"1024\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-3.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-3-724x1024.jpeg 724w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-3-212x300.jpeg 212w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-3-768x1086.jpeg 768w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-3-1086x1536.jpeg 1086w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-3.jpeg 1131w\" sizes=\"(max-width: 724px) 100vw, 724px\"><figcaption><em>Colagem que une passado e presente da luta pela terra. Fotos: Danielson Postinguer e Sebasti\u00e3o Salgado<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Na festa da conquista das novas \u00e1reas, as fam\u00edlias receberam um cartaz como lembran\u00e7a dessa vit\u00f3ria popular, fruto de uma luta que tem mem\u00f3ria e que atravessa gera\u00e7\u00f5es. A colagem mescla a fotografia hist\u00f3rica de Sebasti\u00e3o Salgado e a imagem do presente, de Danielson Postinguer, fot\u00f3grafo e morador da Herdeiros da Terra de Primeiro de Maio. O passado segue vivo nos rostos, nos passos e na organiza\u00e7\u00e3o do povo Sem Terra.<\/p>\n<p><strong>Como nota, em seu livro, Salgado tamb\u00e9m relatou o que viu e fotografou:<\/strong>\u00a0<\/p>\n<p><em>\u201cEra impressionante a coluna dos sem-terra, formada por mais de 12 mil pessoas, ou seja, 3 mil fam\u00edlias, em marcha na noite fria daquele in\u00edcio de inverno no Paran\u00e1. O ex\u00e9rcito de camponeses avan\u00e7ava em sil\u00eancio quase completo. Escutava-se apenas o arfar regular de peitos acostumados a grandes esfor\u00e7os e o ru\u00eddo surdo dos p\u00e9s que tocavam o asfalto.<\/em><\/p>\n<p><em>Pelo rumo que seguia a corrente, n\u00e3o era dif\u00edcil imaginar que o destino final fosse a Fazenda Giacometi, um dos imensos latif\u00fandios t\u00e3o t\u00edpicos do Brasil. Marginalmente explorados, esses latif\u00fandios, todavia, em raz\u00e3o das dimens\u00f5es colossais, garantem aos seus propriet\u00e1rios rendas milion\u00e1rias. Corretamente utilizados, os 83 mil hectares da Fazenda Giacometti poderiam proporcionar uma vida digna aos 12 mil seres que marchavam naquele momento em sua dire\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>Anda r\u00e1pido um campon\u00eas: 22 quil\u00f4metros foram cobertos em menos de cinco horas. Quando chegaram l\u00e1, o dia come\u00e7ava a nascer. A madrugada estava envolta em espessa serra\u00e7\u00e3o que, pouco a pouco, foi se deslocado na terra, sob o efeito da umidade do Rio Igua\u00e7u, que corre ali bem pr\u00f3ximo. Pois o rio de camponeses que correu pelo asfalto noite adentro, ao desembocar defronte da porteira da fazenda, para e se espalha como as \u00e1guas de uma barragem. As crian\u00e7as e as mulheres s\u00e3o logo afastadas para o fundo da represa humana, enquanto os homens tomam posi\u00e7\u00e3o bem na frente da linha imagin\u00e1ria para o eventual confronto com os jagun\u00e7os da fazenda.<\/em><\/p>\n<p><em>Ante a inexist\u00eancia de rea\u00e7\u00e3o por parte do pequeno ex\u00e9rcito do latif\u00fandio, os homens da vanguarda arrebentam o cadeado e a porteira se escancara; entram; atr\u00e1s, o rio de camponeses se p\u00f5e novamente em movimento; foices, enxadas e bandeiras se erguem na avalanche incontida das esperan\u00e7as nesse reencontro com a vida \u2014 e o grito reprimido do povo sem-terra ecoa un\u00edssono na claridade do novo dia: REFORMA AGR\u00c1RIA, UMA LUTA DE TODOS!\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>*Editado por Solange Engelmann<\/em><\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/2026\/07\/15\/sebastiao-salgado-registrou-a-ocupacao-que-se-tonou-o-maior-complexo-de-reforma-agraria-da-america-latina\/\">Sebasti\u00e3o Salgado registrou a ocupa\u00e7\u00e3o que se tonou o maior complexo de Reforma Agr\u00e1ria da Am\u00e9rica Latina<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/\">MST<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/na-cop30-agronegocio-disputa-rumos-da-transicao-justa-da-producao-de-alimentos\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/agrizone_1-e1762876279357-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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