{"id":95592,"date":"2026-07-15T17:00:00","date_gmt":"2026-07-15T20:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/da-diferenciacao-interna-a-expropriacao-global-quatro-leituras-da-genese-e-da-mutacao-do-capitalismo\/"},"modified":"2026-07-15T17:00:00","modified_gmt":"2026-07-15T20:00:00","slug":"da-diferenciacao-interna-a-expropriacao-global-quatro-leituras-da-genese-e-da-mutacao-do-capitalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/da-diferenciacao-interna-a-expropriacao-global-quatro-leituras-da-genese-e-da-mutacao-do-capitalismo\/","title":{"rendered":"Da diferencia\u00e7\u00e3o interna \u00e0 expropria\u00e7\u00e3o global: quatro leituras da g\u00eanese e da muta\u00e7\u00e3o do capitalismo"},"content":{"rendered":"<\/p>\n<h4>Resumo<\/h4>\n<p>Este artigo prop\u00f5e um di\u00e1logo comparativo entre quatro leituras do capitalismo, a de Maurice Dobb sobre a transi\u00e7\u00e3o do feudalismo, a de Karl Marx sobre a g\u00eanese estrutural do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, a de Nancy Fraser sobre a fronteira entre explora\u00e7\u00e3o e expropria\u00e7\u00e3o, e a de Fernando Haddad sobre a intensifica\u00e7\u00e3o industrial contempor\u00e2nea e a fragmenta\u00e7\u00e3o das classes trabalhadoras. Argumenta-se que cada autor responde a uma pergunta distinta, respectivamente, como o capitalismo emergiu, como ele estrutura a extra\u00e7\u00e3o de valor, onde est\u00e3o seus limites constitutivos e como ele se transforma sem se superar e que a leitura conjunta revela tanto complementaridades produtivas quanto tens\u00f5es genu\u00ednas, sobretudo entre explica\u00e7\u00f5es end\u00f3genas e explica\u00e7\u00f5es centradas na extra\u00e7\u00e3o externa (colonial, perif\u00e9rica, reprodutiva). O artigo n\u00e3o busca harmonizar os quatro autores, mas situar precisamente onde concordam, onde se completam e onde divergem.<\/p>\n<h4>Introdu\u00e7\u00e3o<\/h4>\n<p>O capitalismo tem sido interrogado, ao longo de quase um s\u00e9culo de teoria cr\u00edtica, a partir de perguntas distintas que raramente s\u00e3o colocadas lado a lado. Maurice Dobb pergunta como e por que o capitalismo emergiu das rela\u00e7\u00f5es feudais. Karl Marx pergunta como o capitalismo, uma vez constitu\u00eddo, estrutura a extra\u00e7\u00e3o de valor a partir do trabalho. Nancy Fraser pergunta onde est\u00e3o os limites do pr\u00f3prio conceito de capitalismo o que ele inclui e o que exclui de sua contabilidade oficial. Fernando Haddad pergunta como o capitalismo se transforma sem deixar de ser, em sua l\u00f3gica mais profunda, industrial. S\u00e3o perguntas complementares, mas n\u00e3o equivalentes, e a tenta\u00e7\u00e3o de trat\u00e1-las como um \u00fanico argumento cont\u00ednuo, da g\u00eanese \u00e0 atualidade, obscurece tens\u00f5es te\u00f3ricas que merecem ser explicitadas.<\/p>\n<p>Este artigo segue essa ordem: uma se\u00e7\u00e3o para cada autor, seguida de uma s\u00edntese comparativa que organiza as converg\u00eancias e, sobretudo, as diverg\u00eancias entre eles. O fio condutor \u00e9 o conceito de acumula\u00e7\u00e3o primitiva, que aparece, sob diferentes nomes e com diferentes extens\u00f5es, em todos os quatro, de Dobb, que o relativiza, a Fraser e Haddad, que o generalizam em dire\u00e7\u00f5es distintas.<\/p>\n<h4>Dobb e o debate da transi\u00e7\u00e3o: ruptura como diferencia\u00e7\u00e3o interna<\/h4>\n<p>Em <strong>A Evolu\u00e7\u00e3o do Capitalismo<\/strong>, Maurice Dobb se op\u00f5e \u00e0quilo que ficou conhecido como a \u201ctese comercializante\u201d da transi\u00e7\u00e3o do feudalismo ao capitalismo, a ideia de que a expans\u00e3o do com\u00e9rcio de longa dist\u00e2ncia e a monetiza\u00e7\u00e3o das trocas, por si s\u00f3s, teriam dissolvido as rela\u00e7\u00f5es feudais e dado origem ao capitalismo. Para Dobb, o com\u00e9rcio \u00e9 sintoma, n\u00e3o causa. A ruptura decisiva est\u00e1 na diferencia\u00e7\u00e3o social interna do campesinato e do artesanato em decomposi\u00e7\u00e3o: uma fra\u00e7\u00e3o de pequenos produtores acumula terra, ferramentas e capital, tornando-se capitalista; outra fra\u00e7\u00e3o, expropriada ou incapaz de competir, torna-se assalariada. O capitalismo nasceria, portanto, de um processo end\u00f3geno de diferencia\u00e7\u00e3o de classe dentro da pr\u00f3pria estrutura produtiva feudal, e n\u00e3o de um est\u00edmulo externo vindo do com\u00e9rcio.<br \/>Essa posi\u00e7\u00e3o gerou a c\u00e9lebre pol\u00eamica com Paul Sweezy, que defendia justamente a centralidade do com\u00e9rcio e das cidades mercantis no rompimento do feudalismo, debate que seria retomado d\u00e9cadas depois por Robert Brenner e, mais recentemente, pela historiografia do sistema-mundo. O ponto relevante para este artigo \u00e9 que Dobb constr\u00f3i uma narrativa fundamentalmente end\u00f3gena e centrada na Inglaterra: o capitalismo emerge de dentro, por diferencia\u00e7\u00e3o, n\u00e3o de fora, por extra\u00e7\u00e3o colonial ou mercantil. Como se ver\u00e1 adiante, essa \u00e9 precisamente a premissa que Fraser e Haddad, cada um a seu modo, colocam sob press\u00e3o.<\/p>\n<h4>Marx e a g\u00eanese estrutural do capitalismo<\/h4>\n<p>Marx, tanto em P<strong>ara a Cr\u00edtica da Economia Pol\u00edtica<\/strong> quanto no <strong>Livro I de O Capital<\/strong>, tamb\u00e9m trata da g\u00eanese do capitalismo, mas desloca o centro de gravidade da diferencia\u00e7\u00e3o social gradual para a expropria\u00e7\u00e3o violenta e historicamente dat\u00e1vel: os cercamentos (enclosures), a expuls\u00e3o do campon\u00eas ingl\u00eas da terra comunal, a cria\u00e7\u00e3o jur\u00eddica e pol\u00edtica de uma massa de trabalhadores \u201cduplamente livres\u201d, livres da servid\u00e3o, mas tamb\u00e9m livres de qualquer meio de produ\u00e7\u00e3o pr\u00f3prio. \u00c9 esse duplo movimento, separa\u00e7\u00e3o do produtor direto dos meios de produ\u00e7\u00e3o e concentra\u00e7\u00e3o desses meios nas m\u00e3os de uma classe capitalista que Marx chama de acumula\u00e7\u00e3o primitiva.<\/p>\n<p>Vale notar que, embora Dobb e Marx sejam frequentemente lidos como aliados na cr\u00edtica \u00e0 tese comercializante, h\u00e1 uma tens\u00e3o interna entre eles que n\u00e3o deve ser apagada: a diferencia\u00e7\u00e3o social gradual de Dobb e a expropria\u00e7\u00e3o violenta e historicamente concentrada de Marx n\u00e3o s\u00e3o exatamente o mesmo processo, ainda que possam ser complementares. Essa tens\u00e3o \u00e9, ali\u00e1s, um dos eixos do pr\u00f3prio debate Dobb-Sweezy-Brenner, e retorna, sob outra forma, na leitura de Fraser sobre a expropria\u00e7\u00e3o como condi\u00e7\u00e3o permanente e n\u00e3o apenas fundacional do capitalismo.<\/p>\n<p>Uma vez constitu\u00edda essa separa\u00e7\u00e3o estrutural, Marx concentra sua an\u00e1lise no funcionamento do capitalismo j\u00e1 formado: a for\u00e7a de trabalho torna-se mercadoria, o capitalista extrai mais-valia a partir da diferen\u00e7a entre o valor produzido pelo trabalho e o sal\u00e1rio pago, e o proletariado, os que vendem sua for\u00e7a de trabalho por n\u00e3o possu\u00edrem meios de produ\u00e7\u00e3o, torna-se a categoria central de explora\u00e7\u00e3o. \u00c9 essa categoria relativamente unificada de proletariado que, um s\u00e9culo e meio depois, Nancy Fraser considerar\u00e1 insuficiente para dar conta da totalidade do capitalismo.<\/p>\n<h4>Fraser e a amplia\u00e7\u00e3o da fronteira do capitalismo: explora\u00e7\u00e3o e expropria\u00e7\u00e3o<\/h4>\n<p>Em <strong>Capitalismo Canibal<\/strong>, Nancy Fraser retoma diretamente a acumula\u00e7\u00e3o primitiva marxiana, mas a generaliza de um modo que altera seu estatuto te\u00f3rico: em vez de um momento fundacional, historicamente superado, ela passa a ser uma condi\u00e7\u00e3o estrutural permanente do capitalismo. Fraser distingue dois registros de extra\u00e7\u00e3o de valor: a explora\u00e7\u00e3o, que ocorre na \u201ceconomia oficial\u201d atrav\u00e9s da rela\u00e7\u00e3o salarial e \u00e9 o objeto cl\u00e1ssico de Marx, e a expropria\u00e7\u00e3o, que ocorre nas margens n\u00e3o reconhecidas do sistema, o trabalho reprodutivo e de cuidado n\u00e3o remunerado, a apropria\u00e7\u00e3o racializada e colonial, a natureza tratada como recurso gratuito.<\/p>\n<p>Sua tese central \u00e9 que a explora\u00e7\u00e3o da \u201cfront-story\u201d depende estruturalmente da expropria\u00e7\u00e3o da \u201cback-story\u201d: o capitalismo s\u00f3 consegue pagar sal\u00e1rios e extrair mais-valia porque, ao mesmo tempo, se apropria gratuitamente de trabalho reprodutivo, de recursos naturais e de popula\u00e7\u00f5es racializadas fora do contrato salarial. Fraser tamb\u00e9m argumenta que o capitalismo depende institucionalmente de separa\u00e7\u00f5es que ele pr\u00f3prio produz e naturaliza, entre economia e pol\u00edtica, entre produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o, entre humano e natureza \u2014 e que essas fronteiras s\u00e3o hist\u00f3rica e politicamente vari\u00e1veis, n\u00e3o dadas.<\/p>\n<p>O efeito te\u00f3rico dessa mudan\u00e7a \u00e9 duplo. Primeiro, Fraser devolve centralidade \u00e0 quest\u00e3o colonial, racial e de g\u00eanero, que tanto Dobb quanto o Marx \u201ccl\u00e1ssico\u201d, centrados na Inglaterra e na rela\u00e7\u00e3o capital-trabalho assalariado, deixam relativamente perif\u00e9rica. Segundo, ao tornar a expropria\u00e7\u00e3o permanente em vez de fundacional, Fraser se aproxima, por outra via, precisamente daquilo que Dobb rejeitava: uma explica\u00e7\u00e3o do capitalismo que depende de extra\u00e7\u00e3o externa (colonial, de g\u00eanero, de natureza), e n\u00e3o apenas de diferencia\u00e7\u00e3o social interna.<\/p>\n<h4><strong>Haddad e a intensifica\u00e7\u00e3o industrial: acumula\u00e7\u00e3o primitiva perif\u00e9rica e fragmenta\u00e7\u00e3o de classe<\/strong><\/h4>\n<p><strong>Capitalismo Superindustrial: Caminhos Diversos, Destino Comum<\/strong> re\u00fane estudos que Fernando Haddad realizou entre o final dos anos 1980 e a segunda metade dos anos 1990 sobre economia pol\u00edtica e a natureza do sistema sovi\u00e9tico, agora revisados e acrescidos de uma parte in\u00e9dita sobre a acumula\u00e7\u00e3o primitiva de capital na periferia do capitalismo. O eixo do livro \u00e9 comparativo: a experi\u00eancia sovi\u00e9tica, a segunda servid\u00e3o no Leste Europeu, a industrializa\u00e7\u00e3o chinesa e os processos de acumula\u00e7\u00e3o primitiva na periferia latino-americana s\u00e3o lidos como \u201ccaminhos diversos\u201d que convergem para um \u201cdestino comum\u201d, a mundializa\u00e7\u00e3o do capitalismo, inclusive por vias que se autodenominavam anticapitalistas.<\/p>\n<p>Dois elementos do livro dialogam diretamente com os autores anteriores. O primeiro \u00e9 justamente o uso do conceito de acumula\u00e7\u00e3o primitiva n\u00e3o como evento \u00fanico e original, mas como processo que se repete em diferentes periferias do sistema capitalista, um movimento de generaliza\u00e7\u00e3o paralelo ao de Fraser, mas organizado pela geografia da depend\u00eancia centro-periferia, n\u00e3o pela divis\u00e3o racial ou reprodutiva do trabalho. O segundo \u00e9 a tese, j\u00e1 esbo\u00e7ada por Haddad desde os anos 1990, de que as classes trabalhadoras se fragmentaram em tr\u00eas fra\u00e7\u00f5es, cognitariado, proletariado e precariado, antecipando em termos te\u00f3ricos parte do vocabul\u00e1rio que se popularizaria depois sob o nome de precariado.<\/p>\n<p>O conceito que d\u00e1 t\u00edtulo ao livro, contudo, \u00e9 mais espec\u00edfico do que uma simples constata\u00e7\u00e3o da diversidade das formas de trabalho: Haddad argumenta que o capitalismo contempor\u00e2neo n\u00e3o superou a l\u00f3gica industrial, como sugerem as teses p\u00f3s-industriais, mas a intensificou e espraiou para esferas antes n\u00e3o-industriais, a cultura organizada como ind\u00fastria, os servi\u00e7os disciplinados pela l\u00f3gica da linha de montagem, at\u00e9 estruturas religiosas racionalizadas administrativamente como empresas. O \u201csuper\u201d, nesse sentido, indica intensifica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o supera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h4>S\u00edntese comparativa: complementaridades e tens\u00f5es<\/h4>\n<p>A leitura conjunta dos quatro autores permite identificar, em primeiro lugar, uma complementaridade clara: o conceito marxiano de acumula\u00e7\u00e3o primitiva \u00e9 generalizado por Fraser e por Haddad em duas dire\u00e7\u00f5es distintas e n\u00e3o excludentes, a primeira pela linha racial, de g\u00eanero e reprodutiva; a segunda pela linha geogr\u00e1fica de centro e periferia. Trata-se de duas amplia\u00e7\u00f5es leg\u00edtimas do mesmo conceito original, que poderiam, em tese, ser combinadas numa cartografia mais completa dos mecanismos de expropria\u00e7\u00e3o contempor\u00e2neos.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, e de modo menos harmonioso, h\u00e1 uma tens\u00e3o real entre a explica\u00e7\u00e3o end\u00f3gena de Dobb, o capitalismo nasce de diferencia\u00e7\u00e3o social interna e a \u00eanfase de Fraser e Haddad na extra\u00e7\u00e3o a partir de fora: seja da periferia colonial e das popula\u00e7\u00f5es racializadas (Fraser), seja da periferia geogr\u00e1fica do sistema mundial (Haddad). Essa tens\u00e3o n\u00e3o \u00e9 nova; \u00e9, em ess\u00eancia, o pr\u00f3prio debate Dobb-Sweezy-Brenner reencenado em vocabul\u00e1rio contempor\u00e2neo, e um artigo que re\u00fana esses quatro autores tem a oportunidade de reabri-lo explicitamente, em vez de simplesmente pressupor que todos concordam sobre onde come\u00e7a o capitalismo.<\/p>\n<p>Em terceiro lugar, a tese \u201csuperindustrial\u201d de Haddad introduz uma complica\u00e7\u00e3o interessante para o argumento de Fraser sobre a diferencia\u00e7\u00e3o institucional do capitalismo. Se Fraser sustenta que o capitalismo depende de manter fronteiras, entre economia e pol\u00edtica, entre produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o para funcionar, e se Haddad mostra que a l\u00f3gica industrial invade justamente esferas n\u00e3o-econ\u00f4micas como a cultura e a religi\u00e3o, cabe perguntar se essa invas\u00e3o corr\u00f3i as fronteiras que Fraser considera constitutivas, ou se apenas as reconfigura sob nova forma. Essa \u00e9 uma pergunta em aberto que o artigo pode explorar como contribui\u00e7\u00e3o original, e n\u00e3o apenas como constata\u00e7\u00e3o de que os quatro autores \u201cse completam\u201d.<\/p>\n<h4>Uberiza\u00e7\u00e3o, MEI e o horizonte meritocr\u00e1tico: uma ilustra\u00e7\u00e3o brasileira<\/h4>\n<p>O Brasil contempor\u00e2neo oferece um caso emp\u00edrico que permite testar, e em certa medida tensionar, o instrumental te\u00f3rico reunido nas se\u00e7\u00f5es anteriores: a expans\u00e3o simult\u00e2nea do trabalho mediado por aplicativos e da figura jur\u00eddica do Microempreendedor Individual (MEI). Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica, cerca de 2 milh\u00f5es de pessoas trabalham hoje para empresas de aplicativo no pa\u00eds, remuneradas como \u201ctrabalhadores aut\u00f4nomos\u201d sem v\u00ednculo empregat\u00edcio. Paralelamente, o Brasil chegou a 2025 com mais de 13 milh\u00f5es de MEIs ativos, um crescimento de 318,9% em rela\u00e7\u00e3o a 2011, ano inicial da s\u00e9rie hist\u00f3rica, e o tema segue no centro do debate p\u00fablico: o Supremo Tribunal Federal retomou, em 24 de junho de 2026, o julgamento sobre a exist\u00eancia de v\u00ednculo de emprego entre motoristas e entregadores e as plataformas digitais.<\/p>\n<p>Esse contingente n\u00e3o se encaixa com precis\u00e3o em nenhuma das categorias discutidas nas se\u00e7\u00f5es anteriores. N\u00e3o \u00e9 o proletariado cl\u00e1ssico de Marx: n\u00e3o h\u00e1 contrato salarial, e o trabalhador \u00e9 juridicamente propriet\u00e1rio de seus meios de produ\u00e7\u00e3o, o carro, a moto, o smartphone. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 a expropria\u00e7\u00e3o no sentido estrito de Fraser, j\u00e1 que h\u00e1 remunera\u00e7\u00e3o por tarefa, ainda que baixa. Trata-se de uma terceira figura, em que os custos de capital (combust\u00edvel, manuten\u00e7\u00e3o, deprecia\u00e7\u00e3o, risco, prote\u00e7\u00e3o previdenci\u00e1ria) s\u00e3o transferidos do capital para o pr\u00f3prio trabalhador, uma esp\u00e9cie de invers\u00e3o parcial da separa\u00e7\u00e3o marxiana entre produtor e meios de produ\u00e7\u00e3o, ao mesmo tempo em que a rotina de trabalho permanece rigidamente subordinada ao comando algor\u00edtmico da plataforma: metas, roteiros, avalia\u00e7\u00f5es, bloqueios. \u00c9 precisamente esse ponto em que a tese \u201csuperindustrial\u201d de Haddad rende mais do que a formula\u00e7\u00e3o de Fraser: a l\u00f3gica industrial, padroniza\u00e7\u00e3o, disciplina, controle de desempenho, n\u00e3o desaparece nem se restringe \u00e0 f\u00e1brica; ela se espraia para dentro de uma atividade que se apresenta, jur\u00eddica e subjetivamente, como aut\u00f4noma.<\/p>\n<p>Um estudo da economista Bruna Alvarez Mirelli, publicado pela Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas, d\u00e1 densidade emp\u00edrica a essa hip\u00f3tese: 53% dos CNPJs de MEI no Brasil funcionariam, na pr\u00e1tica, como trabalho terceirizado disfar\u00e7ado de empreendedorismo, a chamada pejotiza\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o como neg\u00f3cio aut\u00f4nomo em sentido pleno. O dado \u00e9 relevante porque desloca o argumento do plano puramente jur\u00eddico para o plano da subjetiva\u00e7\u00e3o pol\u00edtica: a categoria MEI n\u00e3o \u00e9 apenas um regime tribut\u00e1rio simplificado, \u00e9 tamb\u00e9m um vocabul\u00e1rio. Ela oferece ao trabalhador estruturalmente precarizado e, em boa parte dos casos, estruturalmente subordinado, um repert\u00f3rio de autoidentifica\u00e7\u00e3o como \u201cdono do pr\u00f3prio neg\u00f3cio\u201d, e n\u00e3o como explorado ou expropriado.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse ponto que se pode formular a hip\u00f3tese que conecta este artigo \u00e0 an\u00e1lise da virada eleitoral \u00e0 direita na Am\u00e9rica Latina: se parcela expressiva da popula\u00e7\u00e3o trabalhadora brasileira se compreende hoje, subjetivamente, como empreendedora, mesmo quando objetivamente subordinada ao controle algor\u00edtmico e privada da prote\u00e7\u00e3o trabalhista que caberia a um v\u00ednculo de emprego, essa autopercep\u00e7\u00e3o tende a ser mais perme\u00e1vel ao vocabul\u00e1rio da meritocracia (esfor\u00e7o individual, autonomia, desconfian\u00e7a do Estado regulador e da a\u00e7\u00e3o sindical) do que ao vocabul\u00e1rio de classe da esquerda tradicional, ainda que este \u00faltimo corresponda mais de perto \u00e0 sua posi\u00e7\u00e3o material objetiva. Trata-se de uma hip\u00f3tese a ser testada, n\u00e3o de uma conclus\u00e3o fechada: sua verifica\u00e7\u00e3o exige cruzar dados de autoidentifica\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, como os do Datafolha j\u00e1 trabalhados alhures, com o perfil ocupacional de quem responde \u00e0 pesquisa, algo que uma vers\u00e3o futura deste artigo pode desenvolver com mais rigor. O que se pode afirmar desde j\u00e1 \u00e9 que Fraser e Haddad, por serem os autores mais contempor\u00e2neos deste conjunto, s\u00e3o tamb\u00e9m os que melhor equipam a teoria cr\u00edtica para reconhecer essa nova heterogeneidade da for\u00e7a de trabalho e, com ela, o descompasso entre posi\u00e7\u00e3o material e identifica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que est\u00e1 no centro do problema do eleitor que vota contra o pr\u00f3prio interesse.<\/p>\n<h4>Considera\u00e7\u00f5es finais<\/h4>\n<p>Este artigo procurou mostrar que Dobb, Marx, Fraser e Haddad n\u00e3o formam uma sequ\u00eancia linear e cumulativa de leituras do capitalismo, mas um conjunto de respostas a perguntas distintas, sobre a g\u00eanese, o funcionamento, os limites e a muta\u00e7\u00e3o do sistema que se complementam em alguns pontos e entram em tens\u00e3o genu\u00edna em outros. A tens\u00e3o entre explica\u00e7\u00e3o end\u00f3gena (Dobb) e explica\u00e7\u00e3o centrada na extra\u00e7\u00e3o externa (Fraser, Haddad) permanece em aberto, tanto quanto a pergunta sobre se a intensifica\u00e7\u00e3o industrial descrita por Haddad corr\u00f3i ou apenas reconfigura as fronteiras institucionais que Fraser considera constitutivas do capitalismo. O caso brasileiro da uberiza\u00e7\u00e3o e do MEI sugere que essas n\u00e3o s\u00e3o apenas quest\u00f5es de exegese te\u00f3rica: elas t\u00eam consequ\u00eancia direta sobre como uma parcela crescente da for\u00e7a de trabalho brasileira se compreende politicamente, e, por extens\u00e3o, sobre como se explica o comportamento eleitoral que este projeto de pesquisa busca investigar.<\/p>\n<\/p>\n<p>Refer\u00eancias<\/p>\n<p>Dobb, M. (2015). <strong>A evolu\u00e7\u00e3o do capitalismo<\/strong> (9\u00aa ed.). Rio de Janeiro: LTC.<\/p>\n<p>Fraser, N. (2024).<strong> Capitalismo canibal: como o sistema est\u00e1 devorando a democracia, o cuidado e o planeta e o que podemos fazer a respeito disso<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Autonomia Liter\u00e1ria.<\/p>\n<p>Haddad, F. (2026).<strong> Capitalismo superindustrial: caminhos diversos, destino comum<\/strong> (1\u00aa ed.). Rio de Janeiro: Zahar.<\/p>\n<p>Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE). <strong>Estimativa de trabalhadores de aplicativo no Brasil. <\/strong>[<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mercado\/2025\/10\/numero-de-trabalhadores-de-app-cresce-25-no-brasil-em-dois-anos-carga-horaria-maior-eleva-renda.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mercado\/2025\/10\/numero-de-trabalhadores-de-app-cresce-25-no-brasil-em-dois-anos-carga-horaria-maior-eleva-renda.shtml<\/a>]<\/p>\n<p>Marx, K. (2024). <strong>Para a cr\u00edtica da economia pol\u00edtica <\/strong>(1\u00aa ed.). S\u00e3o Paulo: Boitempo.<\/p>\n<p>Marx, K. (2025). <strong>O capital: cr\u00edtica da economia pol\u00edtica, livro 1 \u2013 o processo de produ\u00e7\u00e3o do capital<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Ubu Editora.<\/p>\n<p>Mirelli, B. A. (2025). <strong>Estudo sobre a taxa de pejotiza\u00e7\u00e3o entre microempreendedores individuais no Brasil<\/strong>. Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas. [<a href=\"https:\/\/www.fea.usp.br\/fea\/noticias\/53-dos-meis-atuam-como-trabalhadores-no-pais-diz-estudo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.fea.usp.br\/fea\/noticias\/53-dos-meis-atuam-como-trabalhadores-no-pais-diz-estudo\/<\/a>]<\/p>\n<p>Supremo Tribunal Federal (2026). <strong>Julgamento sobre v\u00ednculo empregat\u00edcio entre trabalhadores de aplicativo e plataformas digitais, retomado em 24 de junho de 2026<\/strong>. [<a href=\"https:\/\/www.conjur.com.br\/2026-jun-24\/stf-retoma-nesta-quarta-24-julgamento-sobre-vinculo-empregaticio-entre-motoristas-e-aplicativos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.conjur.com.br\/2026-jun-24\/stf-retoma-nesta-quarta-24-julgamento-sobre-vinculo-empregaticio-entre-motoristas-e-aplicativos<\/a>]<\/p>\n<p><strong>Marcos Freitas Pereira <\/strong>\u2013 Economista (PUC-SP), mestre pela Universidade de Alcal\u00e1, doutorando na UNINI M\u00e9xico.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/conheca-os-carros-100-eletricos-produzidos-em-burkina-faso-com-tecnologia-solar-e-apoio-da-china\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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