{"id":95644,"date":"2026-07-15T16:50:05","date_gmt":"2026-07-15T19:50:05","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/raizes-esquecidas-a-heranca-africana-do-tango\/"},"modified":"2026-07-15T16:50:05","modified_gmt":"2026-07-15T19:50:05","slug":"raizes-esquecidas-a-heranca-africana-do-tango","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/raizes-esquecidas-a-heranca-africana-do-tango\/","title":{"rendered":"Ra\u00edzes esquecidas: a heran\u00e7a africana do tango"},"content":{"rendered":"<p>Feche os olhos e imagine uma apresenta\u00e7\u00e3o de tango. Voc\u00ea provavelmente vai pensar em dan\u00e7arinos brancos ostentando ternos elegantes e vestidos com fenda, um sal\u00e3o aristocr\u00e1tico de um bairro tradicional de Buenos Aires e uma orquestra melanc\u00f3lica com bandone\u00f3ns, contrabaixos e violinos.<br \/>\nUm argentino respondendo a essa pergunta no fim do s\u00e9culo 19, no entanto, descreveria um cen\u00e1rio bem distinto, povoado por personagens negros em um bairro marginalizado da periferia portenha, dan\u00e7ando ao ritmo dos batuques do candombe.<\/p>\n<p>O tango, afinal, foi forjado nas comunidades afro-pratenses, entoado por escravizados e seus descendentes. Por muito tempo, o estilo musical foi estigmatizado e perseguido, rotulado como imoral e degradante. Mas depois que os europeus se encantaram com o ritmo e passaram a import\u00e1-lo, a elite argentina resolveu reivindic\u00e1-lo como um s\u00edmbolo \u2014 e se dedicou a apagar a sua origem negra.<\/p>\n<h3>O tango<\/h3>\n<p>O tango \u00e9 uma das express\u00f5es culturais latinas mais conhecidas, muito apreciada em todo o mundo pelo car\u00e1ter c\u00eanico de suas coreografias complexas, bem como pelo seu estilo musical \u00fanico, caracterizado pelo ritmo sincopado e compassos bin\u00e1rios.<\/p>\n<p>Surgido no fim do s\u00e9culo 19 na regi\u00e3o do Rio da Prata, o tango come\u00e7ou a ser exportado para a Europa no come\u00e7o do s\u00e9culo 20, tornando-se uma febre em cidades como Paris, Londres e Berlim.<\/p>\n<p>Posteriormente, chegou a Nova York, incorporando-se ao repert\u00f3rio das grandes gravadoras e da ind\u00fastria cultural de massa, ganhando em seguida fama mundial.<\/p>\n<figure aria-describedby=\"caption-attachment-260402\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/candombe_federal_epoca_de_rosas.jpg\" alt=\"\" width=\"802\" height=\"622\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/candombe_federal_epoca_de_rosas.jpg 802w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/candombe_federal_epoca_de_rosas-300x233.jpg 300w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/candombe_federal_epoca_de_rosas-768x596.jpg 768w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/candombe_federal_epoca_de_rosas-150x116.jpg 150w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/candombe_federal_epoca_de_rosas-750x582.jpg 750w\" sizes=\"auto, (max-width: 802px) 100vw, 802px\"><figcaption>\u201cCandombe federal, \u00e9poca de Rosas\u201d, pintura de Mart\u00edn Boneo<br \/>Museo Hist\u00f3rico Nacional, via Wikimedia Commons<\/figcaption><\/figure>\n<p>O tango daria origem a uma s\u00e9rie de varia\u00e7\u00f5es e influenciaria diversos estilos musicais. Sua coreografia, imbu\u00edda de express\u00e3o emotiva, misturando paix\u00e3o, melancolia e tristeza, tamb\u00e9m revolucionou a dan\u00e7a de sal\u00e3o \u2014 e levou o compositor Enrique Santos Disc\u00e9polo a definir o estilo como \u201cum pensamento triste que se dan\u00e7a\u201d. A popularidade do tango foi coroada em 2009, quando o estilo foi classificado como Patrim\u00f4nio Oral e Imaterial da Humanidade pela Unesco.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, a assimila\u00e7\u00e3o do tango pelas classes abastadas da Argentina e do Uruguai e sua populariza\u00e7\u00e3o nos centros culturais europeus e norte-americanos deu-se em paralelo ao processo de apartamento do estilo de suas origens populares \u2014 muito distantes dos espet\u00e1culos refinados encenados nos clubes e bares de fei\u00e7\u00f5es aristocr\u00e1ticas e plateias exclusivamente caucasianas.<\/p>\n<p>O tango surgiu nas periferias de cidades como Buenos Aires e Montevid\u00e9u, habitadas pelas camadas populares, sobretudo comunidades negras, relegadas aos sub\u00farbios desde a aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o.<\/p>\n<h3>As origens populares<\/h3>\n<p>Ap\u00f3s o governo de Juan Manuel de Rosas, houve na Argentina o aumento da repress\u00e3o contra os costumes de origem africana. Proibidos de marchar com seus candombes nas ruas, os negros argentinos passaram a celebrar suas tradi\u00e7\u00f5es em ambientes fechados, criando casas de dan\u00e7a chamadas de \u201cmilongas\u201d \u2014 em refer\u00eancia ao ritmo folcl\u00f3rico hom\u00f4nimo, muito apreciado nesses locais.<\/p>\n<p>Aos poucos, as milongas passaram a ser frequentadas por fam\u00edlias mesti\u00e7as oriundas do interior e por imigrantes europeus de baixo poder aquisitivo, que tamb\u00e9m buscavam ref\u00fagio nas periferias riopratenses. A fus\u00e3o dos ritmos europeus e africanos entoados nas casas de dan\u00e7a \u2014 polka, milonga, habanera \u2014 gradualmente deu origem ao tango.<\/p>\n<p>Estima-se que transi\u00e7\u00e3o para o novo estilo tenha durado cerca de quarenta anos. As bases coreogr\u00e1ficas do tango, por sua vez, t\u00eam origem na mistura do candombe, da valsa e da mazurca, estilos rejeitados pelos setores conservadores, que os rotulavam como indecentes e imorais, em fun\u00e7\u00e3o do contato f\u00edsico entre os praticantes. J\u00e1 o nome \u201ctango\u201d antecede em v\u00e1rias d\u00e9cadas o surgimento do pr\u00f3prio estilo, designando originalmente os locais onde os negros argentinos cantavam e dan\u00e7avam.<\/p>\n<p>Em 1897, o pianista afro-argentino Rosendo Mendiz\u00e1bal publicou \u201cEl Entrerriano\u201d, o primeiro tango conhecido. Nos anos seguintes, dezenas de compositores negros ajudaram a definir a identidade do novo g\u00eanero musical. O estilo logo se espalhou pelos bairros populares. Tamb\u00e9m era frequentemente tocado em casas de baile, bares e bord\u00e9is, que fomentaram o surgimento das primeiras bandas, contratadas pelos propriet\u00e1rios para distrair os clientes.<\/p>\n<p>A sensualidade da dan\u00e7a e a origem popular do tango, entretanto, eram considerados ofensivos pelas classes abastadas argentinas, o que levou a uma onda de repress\u00e3o e censura ao estilo pelas autoridades governamentais, em paralelo a uma tentativa de intensificar o controle social sobre as classes baixas.<\/p>\n<h3>Dos candombes aos sal\u00f5es de Paris<\/h3>\n<p>No come\u00e7o do s\u00e9culo 20, marinheiros europeus que aportavam em Buenos Aires e Montevid\u00e9u come\u00e7aram a se interessar pelo estilo e a levar exemplares das can\u00e7\u00f5es para seus pa\u00edses de origem. Em 1907, a can\u00e7\u00e3o \u201cLa Morocha\u201d do compositor uruguaio Enrique Saborido fez enorme sucesso em Paris.<\/p>\n<p>Da capital francesa, o ritmo se espalhou para outras metr\u00f3poles europeias e logo as bandas e orquestras de tango come\u00e7aram a ser convidadas para apresenta\u00e7\u00f5es internacionais. Surpresa com a boa recep\u00e7\u00e3o do estilo entre os europeus, a burguesia argentina, acostumada a mimetizar o comportamento dos franceses, viu-se obrigada a gostar de tango. Para torn\u00e1-lo mais palat\u00e1vel, promoveu o \u201cbranqueamento\u201d do estilo.<\/p>\n<p>Os afro-argentinos seguiram dando enormes contribui\u00e7\u00f5es para a consolida\u00e7\u00e3o do tango ao longo do s\u00e9culo 20. O \u201cpayador\u201d Gabino Ezeiza, por exemplo, concebeu obras de grande originalidade ao inserir a milonga nos desafios de trovas. O compositor Enrique Maciel concebeu exemplares soberbos da \u201cvalsa criolla\u201d, nomeadamente \u201cLa Pulpera de Santa Luc\u00eda\u201d. E o maestro Horacio Salg\u00e1n se tornaria o expoente m\u00e1ximo da renova\u00e7\u00e3o do estilo que daria origem ao chamado \u201ctango de vanguarda\u201d.<\/p>\n<p>Aos poucos, essas refer\u00eancias foram sendo adaptadas ao gosto da elite. Criaram-se orquestras e ambienta\u00e7\u00f5es aristocr\u00e1ticas para introduzir o estilo nos c\u00edrculos da burguesia portenha, enquanto os palcos eram reservados aos artistas brancos, visando esconder as ra\u00edzes negras, mesti\u00e7as e populares do ritmo.<\/p>\n<p>Assim, a c\u00e9lebre can\u00e7\u00e3o \u201cHer\u00f3ico Paysand\u00fa\u201d do \u201cEl Negro\u201d Ezeiza se tornaria um grande sucesso na voz de Carlos Gardel. E as inova\u00e7\u00f5es de Salg\u00e1n serviriam de base para o movimento de renova\u00e7\u00e3o musical encabe\u00e7ado por Astor Piazzolla.<\/p>\n<p>O processo de elitiza\u00e7\u00e3o e branqueamento do tango reflete a pr\u00f3pria consolida\u00e7\u00e3o do projeto eug\u00eanico na Argentina, que levou ao desaparecimento de sua popula\u00e7\u00e3o negra entre os s\u00e9culos 19 e 20. O pa\u00eds, onde os afrodescendentes perfazem hoje apenas 0,4% da popula\u00e7\u00e3o, j\u00e1 chegou a ter 30% de habitantes negros no fim do s\u00e9culo 18.<\/p>\n<p>O uso dos negros na linha de frente das guerras e conflitos travados ao longo do s\u00e9culo XIX, as epidemias de c\u00f3lera e febre amarela, concentradas nas comunidades afrodescendentes, o est\u00edmulo \u00e0 miscigena\u00e7\u00e3o e a pol\u00edtica de fomento \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o em massa de europeus levaram ao branqueamento gradual da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, esse processo alimentou um ide\u00e1rio racista, ainda profundamente arraigado em setores da sociedade argentina, fortalecendo um ideal da pureza racial, de identifica\u00e7\u00e3o \u00e9tnica e cultural com a Europa e de rejei\u00e7\u00e3o e apagamento das heran\u00e7as culturais ind\u00edgenas e africanas \u2014 o triste sonho de ser uma Europa latina, que ainda segue vivo e alimentado por uma uma parte dos nossos hermanos.<\/p>\n<p>O post Ra\u00edzes esquecidas: a heran\u00e7a africana do tango apareceu primeiro em Opera Mundi.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/sul21.com.br\/noticias\/cultura\/2025\/10\/conversa-de-cordas-reune-marcello-caminha-mathias-7-cordas-e-pedro-franco\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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