{"id":95819,"date":"2026-07-15T16:30:22","date_gmt":"2026-07-15T19:30:22","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/e-commerce-os-impactos-ocultos-nas-cidades\/"},"modified":"2026-07-15T16:30:22","modified_gmt":"2026-07-15T19:30:22","slug":"e-commerce-os-impactos-ocultos-nas-cidades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/e-commerce-os-impactos-ocultos-nas-cidades\/","title":{"rendered":"E-commerce: Os impactos ocultos nas cidades"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1400\" height=\"794\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Sem-titulo12.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Sem-titulo12.jpg 1400w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Sem-titulo12-300x170.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Sem-titulo12-768x436.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1400px) 100vw, 1400px\"><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Este texto faz parte da newsletter\u00a0<strong>Outras Cidades<\/strong>, projeto do\u00a0<em>Outras Palavras<\/em>\u00a0que traz as principais informa\u00e7\u00f5es sobre os conflitos pol\u00edticos, econ\u00f4micos, sociais e culturais da vida urbana no Brasil e no mundo.\u00a0<strong>Inscreva-se aqui e ajude a espalhar essa iniciativa.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Igor Venceslau <\/strong>em entrevista a <strong>Lucas Scatolini <\/strong>e<strong> R\u00f4ney Rodrigues<\/strong><\/p>\n<p>Um livro, por exemplo. Com o e-commerce, voc\u00ea tem uma livraria aberta 24 horas por dia. A oportunidade de pesquisar diferentes t\u00edtulos, comparar pre\u00e7os e escolher o que colocar no carrinho de compras online. Obras que, antes, estariam dispon\u00edveis somente em grandes livrarias ou em lojas especializadas das metr\u00f3poles brasileiras, podem ser adquiridas por um leitor de uma cidade pequena \u2014 e, em alguns casos, at\u00e9 serem importadas. Ainda h\u00e1, claro, o desafio da plena inclus\u00e3o digital no Brasil. Por\u00e9m, num pa\u00eds que \u00e9 o quinto maior mercado de smartphones do mundo e l\u00edder absoluto na Am\u00e9rica Latina, o consumo digital se consolidou, especialmente a partir da pandemia de 2020.\u00a0<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/14--21.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/14--21.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/14-1-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p><em>Consolidou-se<\/em>, por\u00e9m, com a mesma distor\u00e7\u00e3o que marca as redes sociais: o controle quase absoluto de gigantescas plataformas internacionais, que dominam quase todas as etapas da venda. Por tr\u00e1s do clique em comprar, h\u00e1 din\u00e2micas complexas que impactam o com\u00e9rcio local, o mercado de trabalho, o meio ambiente, os h\u00e1bitos de consumo, a vigil\u00e2ncia de dados\u2026 e a vida urbana, ao influenciar os pre\u00e7os dos alugu\u00e9is, a mobilidade e o cotidiano dos bairros, por exemplo, de tema que debateremos por aqui.\u00a0<\/p>\n<p>O e-commerce cresce em ritmo vertiginoso. Em 2025, faturou R$ 235,5 bilh\u00f5es, alta de 15,3% em rela\u00e7\u00e3o ao ano anterior. Para 2026, a proje\u00e7\u00e3o \u00e9 de que o setor alcance R$ 259,8 bilh\u00f5es: outro crescimento de 10,3%. O Mercado Livre domina o setor, com volume bruto de vendas estimado em R$ 138,9 bilh\u00f5es \u2014 tr\u00eas vezes superior ao da Magazine Luiza, que ocupa o segundo posto, seguida por Shopee, Amazon e Grupo Casas Bahia. Como \u00e9 de se esperar, h\u00e1 \u201cpega para capar\u201d entre essas corpora\u00e7\u00f5es. A log\u00edstica tornou-se um dos principais diferenciais competitivos na disputa pelo consumidor: mercadorias precisam circular cada vez mais r\u00e1pido, com entregas turbo e a promessa de chegar no mesmo dia ou at\u00e9 em uma hora!\u00a0<\/p>\n<p>Os megacentros de distribui\u00e7\u00e3o instalados ao longo das rodovias, que conectam os principais polos de consumo, s\u00e3o o \u201ccora\u00e7\u00e3o log\u00edstico\u201d das plataformas. Mas, nos \u00faltimos anos, estar nas imedia\u00e7\u00f5es ou dentro das grandes cidades tornou-se um ativo estrat\u00e9gico. A GoodStorage, principal empresa do segmento, anunciou que pretende investir cerca de R$ 1 bilh\u00e3o para dobrar sua \u00e1rea bruta loc\u00e1vel nos pr\u00f3ximos anos. S\u00e3o Paulo \u00e9 o principal p\u00f3lo dessa expans\u00e3o, afinal, concentra o maior mercado consumidor do pa\u00eds. Levantamento da consultoria imobili\u00e1ria CBRE estima que, at\u00e9 o fim de 2026, haver\u00e1 um crescimento de 50% na oferta de novos galp\u00f5es de alto padr\u00e3o em um raio de at\u00e9 15 quil\u00f4metros da capital paulista. Os n\u00fameros, por\u00e9m, s\u00e3o do pr\u00f3prio mercado e, portanto, devem ser lidos com cautela, diante da possibilidade de uma \u201cprofecia autorrealizada\u201d, numa busca por seduzir novos investidores.<\/p>\n<p>E a cidade paga o pre\u00e7o desta investida\u2026 Galp\u00f5es log\u00edsticos est\u00e3o intensificando a disputa pela terra urbana e competindo diretamente com empreendimentos habitacionais. Tornam-se, portanto, novos agentes da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria. Ocupam extensas \u00e1reas, geram pouca circula\u00e7\u00e3o de pessoas e convertem bairros em zonas de passagem. Predomina a l\u00f3gica do estoque e do fluxo cont\u00ednuo: caminh\u00f5es, vans e motocicletas pressionam o tr\u00e2nsito e a infraestrutura, enquanto a valoriza\u00e7\u00e3o da terra eleva o aluguel de moradores e pequenos comerciantes. Al\u00e9m disso, a velocidade exigida nas entregas pesa sobre os ombros dos entregadores, plataformizados ou terceirizados, submetidos \u00e0 precariza\u00e7\u00e3o e a remunera\u00e7\u00e3o miser\u00e1vel por entrega. E quase n\u00e3o h\u00e1 debate sobre os impactos urban\u00edsticos destas plataformas.<\/p>\n<p>Qual \u00e9 o custo urbano da transforma\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio em suporte para mercadorias, e n\u00e3o para a vida? Como ficam os Correios, alvo de sucessivos desmontes, diante de estruturas log\u00edsticas cada vez mais robustas das plataformas? O com\u00e9rcio local pode entrar em crise? Como avan\u00e7a a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho nesse setor? H\u00e1 como, ao menos, \u201ccivilizar\u201d os oligop\u00f3lios do e-commerce?<\/p>\n<p>Para debater essas quest\u00f5es, o Outras Cidades convidou o ge\u00f3grafo Igor Venceslau, autor de <em>Correios, Log\u00edstica e Usos do Territ\u00f3rio Brasileiro<\/em>, obra vencedora do Pr\u00eamio Capes de Tese 2024, e de <em>Espa\u00e7o e economia digital: Usos do territ\u00f3rio brasileiro para o com\u00e9rcio eletr\u00f4nico<\/em>, publicado recentemente. Professor da Unesp em Rio Claro (SP), ele tamb\u00e9m coordenou a coluna <em>Outras Cartografias<\/em>.<\/p>\n<p>Para ele, o Brasil perdeu, recentemente, uma grande oportunidade de repensar o com\u00e9rcio digital em todas suas dimens\u00f5es. Em 2024, o Congresso havia aprovado a cobran\u00e7a de 20% de imposto de importa\u00e7\u00e3o sobre compras internacionais de baixo valor, sancionada por Lula. Neste ano, por\u00e9m, o presidente revogou a medida por meio de uma MP. O e-commerce voltou ao centro da agenda, aponta o ge\u00f3grafo, mas a discuss\u00e3o permaneceu restrita \u00e0 chamada \u201ctaxa das blusinhas\u201d. Em vez de enfrentar a concentra\u00e7\u00e3o de mercado, a posi\u00e7\u00e3o do Brasil nas cadeias globais de venda, a regula\u00e7\u00e3o do setor, a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho e os impactos urbanos das plataformas, o debate acabou reduzido ao consumo.\u00a0<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/HUCITEC-eticadissidencia-2.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/HUCITEC-eticadissidencia-2.png 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/HUCITEC-eticadissidencia-300x37.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p><strong>Como a expans\u00e3o do com\u00e9rcio eletr\u00f4nico nas cadeias globais de valor vem reconfigurando as formas de produ\u00e7\u00e3o, distribui\u00e7\u00e3o, consumo e desigualdades no Brasil?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>O impulso inicial do e-commerce tem dois aspectos. O primeiro s\u00e3o as pr\u00f3prias necessidades do territ\u00f3rio brasileiro e o acesso ao consumo \u2014 n\u00e3o o consumo desenfreado, mas o consumo b\u00e1sico \u2014 que antes exigiam o deslocamento at\u00e9 as grandes cidades. Nossas metr\u00f3poles sempre concentraram os principais estabelecimentos comerciais, tanto aqueles voltados \u00e0 classe m\u00e9dia e m\u00e9dia alta, em shoppings e grandes lojas de rede, quanto os destinados ao consumo popular, como a 25 de Mar\u00e7o e o Br\u00e1s, em S\u00e3o Paulo, por exemplo. Com o com\u00e9rcio eletr\u00f4nico, as pequenas cidades, antes sem pleno acesso a produtos, passam a ser relevantes para o consumo, inclusive das classes populares.<\/p>\n<p>O com\u00e9rcio eletr\u00f4nico veio atender uma demanda em vastas por\u00e7\u00f5es do territ\u00f3rio, especialmente nas pequenas cidades, que n\u00e3o tinham acesso a muitos produtos. A internet, portanto, promoveu o consumo sem o deslocamento do consumidor, o que implicava custos extras. Vimos isso no in\u00edcio dos anos 2000: venda de CDs, originais ou pirateados, e de aparelhos de celular em cidades sem lojas especializadas.\u00a0<\/p>\n<p>E h\u00e1 um segundo fator: a ideia de que comprar pela internet \u00e9 \u201cmelhor\u201d, \u201cmais barato\u201d ou \u201ccoisa de gente esperta\u201d ganhou for\u00e7a \u2014 um discurso de moderniza\u00e7\u00e3o disseminado nos pa\u00edses perif\u00e9ricos; e que acabou colando. Pa\u00edses como o Brasil se tornaram muito lucrativos para essas empresas. Campanhas como a Black Friday tiveram algumas das maiores ades\u00f5es do mundo, junto com Estados Unidos e \u00cdndia. Afinal, nosso pa\u00eds \u00e9 desigual, h\u00e1 uma forte necessidade de consumo, e os discursos de moderniza\u00e7\u00e3o, como a ideia da novidade que chega sobretudo dos Estados Unidos, colam facilmente na popula\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p><strong>E como foi a entrada \u201ccom tudo\u201d?<\/strong><\/p>\n<p>O pontap\u00e9 veio com o surgimento do Mercado Livre na Argentina e, j\u00e1 no ano seguinte, de sua expans\u00e3o para o Brasil. A plataforma tentou emular o eBay, do Vale do Sil\u00edcio, criando um \u201cmarketplace\u201d aberto a outros vendedores. Mas era um contexto distinto de outras partes do mundo. A Amazon, por exemplo, em poucos anos j\u00e1 conseguia alcan\u00e7ar todas as regi\u00f5es dos Estados Unidos e operar em escala nacional e internacional. No Brasil, essa presen\u00e7a demorou a se consolidar nos munic\u00edpios, que muitas vezes n\u00e3o tinham condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas de infraestrutura, como acesso \u00e0 internet. Essas desigualdades territoriais tiveram que redefinir as estrat\u00e9gias das empresas.<\/p>\n<p>A Amazon chega ao Brasil em 2012, mas s\u00f3 instalaria seu primeiro centro de distribui\u00e7\u00e3o em 2019, em Cajamar (SP) \u2014 muito depois de j\u00e1 ter consolidado opera\u00e7\u00f5es na Europa, no Jap\u00e3o, na Coreia do Sul, na Austr\u00e1lia, em Singapura e tamb\u00e9m em pa\u00edses perif\u00e9ricos, como a \u00c1frica do Sul. H\u00e1 fatores como idioma, moeda, c\u00e2mbio e, sobretudo, infraestrutura de distribui\u00e7\u00e3o e log\u00edstica que d\u00e3o uma fei\u00e7\u00e3o espec\u00edfica a cada territ\u00f3rio e s\u00e3o decisivos para a expans\u00e3o das plataformas. Nos Estados Unidos, ele foi dado pelo pr\u00f3prio mercado: capitais privados concentrados, sobretudo no Vale do Sil\u00edcio, deram origem a iniciativas como Amazon e eBay. J\u00e1 no caso da China, a diferen\u00e7a est\u00e1 na forte atua\u00e7\u00e3o do Estado na inova\u00e7\u00e3o, n\u00e3o apenas como financiador, mas como agente provedor, criando empresas estatais e estruturas para esse desenvolvimento.<\/p>\n<p>Mas, entre 2020 e 2021, a Amazon passou a ter cerca de 12 centros de distribui\u00e7\u00e3o no Brasil, distribu\u00eddos por diferentes regi\u00f5es para disputar com outras plataformas. O Mercado Livre tamb\u00e9m expandiu rapidamente e inaugurou seu maior centro de distribui\u00e7\u00e3o em Extrema (MG). O Magazine Luiza seguiu movimento semelhante. A concorr\u00eancia se intensificou entre as empresas nacionais, dos Estados Unidos e as plataformas asi\u00e1ticas, que chegavam ao pa\u00eds nesse per\u00edodo.<\/p>\n<p><strong>Uma grande guerra comercial entre as plataformas de e-commerce na pandemia, portanto.<\/strong><\/p>\n<p>Por um lado, houve uma diversifica\u00e7\u00e3o de operadores: as empresas passaram a usar transportadoras regionais \u2014 por exemplo, no Nordeste, a partir de Fortaleza \u2014 que n\u00e3o eram necessariamente as mesmas utilizadas no Centro-Oeste, a partir de Bras\u00edlia, onde os Correios ainda tinham forte presen\u00e7a. Ao mesmo tempo, formou-se uma rede nacional em que, entre os centros de distribui\u00e7\u00e3o nas metr\u00f3poles, a log\u00edstica passou a ser operada pelas pr\u00f3prias empresas. Isso fez com que os Correios perdessem uma fatia importante do mercado.<\/p>\n<p>Por outro lado, houve um processo de precariza\u00e7\u00e3o do trabalho com a expans\u00e3o das plataformas de entrega. Em vez de postar os produtos nos Correios, as empresas criaram um modelo em que entregadores aut\u00f4nomos ou transportadoras locais coletam as mercadorias nos centros de distribui\u00e7\u00e3o e fazem a distribui\u00e7\u00e3o nos munic\u00edpios vizinhos, que recebem muito pouco para realizar um servi\u00e7o equivalente ao que antes era feito pelos Correios. O pre\u00e7o do frete, portanto, caiu. Essa n\u00e3o \u00e9 uma realidade t\u00e3o presente no interior, mas nas metr\u00f3poles brasileiras tornou-se o padr\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Qual a dimens\u00e3o da tens\u00e3o entre os Correios e as plataformas?<\/strong><\/p>\n<p>Os Correios eram, ao mesmo tempo, um aliado indispens\u00e1vel do e-commerce e um intermedi\u00e1rio do qual as plataformas tentavam se desvencilhar, para aumentarem suas taxas de lucros, j\u00e1 que a forma\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o do frete era feita por uma empresa p\u00fablica. No Brasil, os Correios respondiam por mais de tr\u00eas quartos das entregas e, em muitos munic\u00edpios pequenos, eram o \u00fanico agente capaz de realiz\u00e1-las. Com suas pr\u00f3prias estrat\u00e9gias de entrega, o custo do frete foi barateado, mas onerando os trabalhadores, como mencionei.\u00a0<\/p>\n<p>Os Correios, hoje, est\u00e3o sem realizar concurso p\u00fablico, com uma defasagem de mais de 20 mil carteiros que deveriam ter sido contratados na \u00faltima d\u00e9cada. Trata-se de uma empresa estatal gigantesca, com diversos problemas estruturais. Em diferentes momentos, especialmente nos governos Temer e Bolsonaro, houve tentativas de privatiza\u00e7\u00e3o, nas quais as pr\u00f3prias empresas de e-commerce passaram a se posicionar como potenciais compradoras, em um jogo duplo: ao mesmo tempo em que tentavam se desvencilhar dos Correios para fragilizar sua opera\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m se apresentavam como interessadas em adquiri-los. Em 2021, quando o projeto de lei de privatiza\u00e7\u00e3o avan\u00e7ou na C\u00e2mara em regime de urg\u00eancia e chegou ao Senado, onde acabou n\u00e3o sendo aprovado. O Magazine Luiza afirmou interesse em comprar os Correios, o Mercado Livre disse ter capital para isso, e a Amazon declarou a mesma inten\u00e7\u00e3o. Se uma delas tivesse adquirido os Correios, as demais iriam depender da estrutura de uma concorrente para operar a log\u00edstica de entregas.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso rever o papel dos Correios na sociedade brasileira, independentemente do e-commerce, e suas formas de financiamento, j\u00e1 que n\u00e3o se trata mais apenas de uma opera\u00e7\u00e3o guiada pelo mercado e pela venda de servi\u00e7os. \u00c9 necess\u00e1rio um debate sobre sua fun\u00e7\u00e3o social. N\u00e3o houve o \u201cgol\u201d da privatiza\u00e7\u00e3o, mas o Mercado Livre, que antes dependia quase integralmente dos Correios, hoje usa menos de 50%, por exemplo. Mas os Correios tamb\u00e9m eram ref\u00e9ns das plataformas, que sempre dependiam de grandes clientes, como jornais, revistas, contas de consumo e o pr\u00f3prio e-commerce. Com o decl\u00ednio do impresso, sobrou o com\u00e9rcio eletr\u00f4nico. E as plataformas n\u00e3o querem amarras com o Estado.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Os megagalp\u00f5es s\u00e3o uma marca central do e-commerce, sobretudo nas bordas das cidades. Mas parece haver uma mudan\u00e7a em curso: a entrada de galp\u00f5es menores dentro das metr\u00f3poles, ligados a estrat\u00e9gias de entrega cada vez mais r\u00e1pidas. Esse movimento est\u00e1 de fato se expandindo nas grandes cidades?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>A pandemia fez com que chegassem \u00e0s cidades e metr\u00f3poles brasileiras os galp\u00f5es e centros de distribui\u00e7\u00e3o das grandes empresas. O que antes era uma caracter\u00edstica da Grande S\u00e3o Paulo \u2014 sobretudo na por\u00e7\u00e3o oeste, em lugares como Carapicu\u00edba, Alphaville, Tambor\u00e9, Cajamar e Guarulhos \u2014 passou a marcar tamb\u00e9m a periferia de cidades como Fortaleza, Recife, Porto Alegre, Bras\u00edlia e Belo Horizonte. As condi\u00e7\u00f5es metropolitanas j\u00e1 s\u00e3o insuficientes: n\u00e3o h\u00e1 terrenos dispon\u00edveis na propor\u00e7\u00e3o exigida por esses novos empreendimentos ou o pre\u00e7o da terra nas periferias metropolitanas aumentou com a expans\u00e3o de condom\u00ednios residenciais e de infraestrutura como o Rodoanel, em S\u00e3o Paulo. O maior de todos, do Magazine Luiza, fica na Rodovia dos Bandeirantes, entre S\u00e3o Paulo e Campinas, pr\u00f3ximo ao Hopi Hari, no munic\u00edpio de Louveira. Ele requer acesso ininterrupto \u00e0 internet \u2014 porque esses grandes galp\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o apenas para armazenagem, mas tamb\u00e9m fazem todo o processamento informacional das mercadorias \u2014, al\u00e9m de terraplanagem, abastecimento de \u00e1gua, energia el\u00e9trica, seguran\u00e7a e tudo mais que precisam para operar.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o esses empreendimentos passaram a migrar para \u00e1reas logo depois das metr\u00f3poles, ao longo dos eixos vi\u00e1rios. Ainda assim, a metr\u00f3pole continua sendo o principal mercado consumidor. Num pa\u00eds como o Brasil, o territ\u00f3rio explica muito: as grandes cidades concentram popula\u00e7\u00e3o e renda, ou seja, boa parte do mercado que aquece essas empresas e justifica esses galp\u00f5es. Logo, h\u00e1 a necessidade de infraestrutura de distribui\u00e7\u00e3o compat\u00edvel com a \u00e1rea urbana, sem a magnitude destes galp\u00f5es \u2014 seja para viabilizar entregas em uma hora ou no mesmo dia ou por causa das restri\u00e7\u00f5es de tr\u00e1fego. Em S\u00e3o Paulo, h\u00e1 restri\u00e7\u00f5es \u00e0 circula\u00e7\u00e3o de caminh\u00f5es, zonas exclusivas e hor\u00e1rios em que a log\u00edstica fica invi\u00e1vel, lentid\u00e3o em determinados hor\u00e1rios. Por isso, \u00e9 vantajoso estar dentro da cidade com o b\u00e1sico; pelo menos com aquilo que as empresas, por meio dos algoritmos, j\u00e1 sabem que \u00e9 mais consumido em cada lugar.\u00a0<\/p>\n<p>Um galp\u00e3o de m\u00e9dio porte em S\u00e3o Paulo, por exemplo, na Vila Leopoldina ou no Jaguar\u00e9, recebe do galp\u00e3o principal, localizado fora da metr\u00f3pole \u2014 em Louveira ou Cajamar, por exemplo \u2014 as mercadorias mais consumidas pela popula\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo, ou at\u00e9 especificamente da Zona Oeste da cidade. H\u00e1 uma intelig\u00eancia automatizada que cuida dessa distribui\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p><strong>E quais s\u00e3o os impactos nas din\u00e2micas urbanas?<\/strong><\/p>\n<p>O tr\u00e2nsito de caminh\u00f5es \u2014 e n\u00e3o apenas deles, mas tamb\u00e9m dos ve\u00edculos de entrega \u2014 aumenta muito. Isso imp\u00f5e novos desafios para repensar as cidades a partir do uso do espa\u00e7o p\u00fablico, das vias, dos modais de transporte e dos modelos de circula\u00e7\u00e3o. Na Vila Leopoldina, em S\u00e3o Paulo, esse \u00e9 um problema enorme. Se voc\u00ea der uma volta por ali, ver\u00e1 v\u00e1rios minicentros de distribui\u00e7\u00e3o de diferentes empresas, inclusive do Mercado Livre, com caminh\u00f5ezinhos que n\u00e3o cabem dentro da propriedade. Eles alugam meia quadra, e o espa\u00e7o \u00e9 ocupado apenas pelas mercadorias. Os caminh\u00f5es ficam na rua, ocupam espa\u00e7o p\u00fablico e criam problemas de tr\u00e2nsito. A quantidade de ve\u00edculos de entregadores aut\u00f4nomos que passam por esses galp\u00f5es, na metr\u00f3pole, \u00e9 enorme ao longo do dia. Outra quest\u00e3o \u00e9 que essas empresas t\u00eam se apropriado dos poucos terrenos dispon\u00edveis em \u00e1reas valorizadas das cidades para instalar essas infraestruturas, impulsionando a valoriza\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria e cria uma din\u00e2mica de mercado que n\u00e3o estava prevista.\u00a0<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 algum debate consistente sobre a regula\u00e7\u00e3o da expans\u00e3o dos galp\u00f5es do e-commerce nas cidades brasileiras?<\/strong><\/p>\n<p>Um dos dilemas atuais \u00e9 que praticamente n\u00e3o se faz mais planejamento em escala nacional ou regional, sem um plano efetivo para o territ\u00f3rio brasileiro, salvo pol\u00edticas pontuais de infraestrutura, como o novo PAC. Em grande medida, a incumb\u00eancia recai sobre as prefeituras, por meio dos planos diretores e de outros instrumentos legais.\u00a0<\/p>\n<p>Isso \u00e9 algo problem\u00e1tico, pois os munic\u00edpios s\u00e3o 5.570 fragmentos do territ\u00f3rio, e cada um deveria criar sua pr\u00f3pria legisla\u00e7\u00e3o sobre esse tipo de empreendimento. Al\u00e9m da quest\u00e3o pol\u00edtica e ideol\u00f3gica \u2014 cada prefeitura \u00e9 governada por um partido ou grupo diferente \u2014 faltam diretrizes mais gerais. Desde a nomenclatura, h\u00e1 dificuldade para situ\u00e1-los: s\u00e3o galp\u00f5es, centros log\u00edsticos ou centros de armazenamento? As pr\u00f3prias empresas se definem como \u201cempresas de tecnologia\u201d, um termo gen\u00e9rico que pouco esclarece, j\u00e1 que a tecnologia est\u00e1 em toda parte. Este setor \u00e9 um grande agente da reestrutura\u00e7\u00e3o urbana, especialmente nas metr\u00f3poles, mas quase n\u00e3o h\u00e1 debate p\u00fablico sobre o tema.\u00a0<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 experi\u00eancias internacionais de regula\u00e7\u00e3o que possam inspirar o Brasil?<\/strong><\/p>\n<p>Somente isoladas. Barcelona \u00e9 um exemplo, assim como outras cidades europeias, mas com regula\u00e7\u00e3o voltada aos impactos ambientais e trabalhistas desse tipo de infraestrutura, pois \u00e9 uma atividade poluente e de baixa remunera\u00e7\u00e3o. Nos \u00faltimos anos, houve greves relevantes em galp\u00f5es da Amazon na Fran\u00e7a, que contribu\u00edram para a relocaliza\u00e7\u00e3o desses investimentos. A pr\u00f3pria empresa passou a buscar \u00e1reas mais distantes, inclusive rurais, onde o movimento sindical era mais fraco. A quest\u00e3o ambiental tem sido um dos principais motores das mudan\u00e7as na gest\u00e3o desses empreendimentos em cidades fora do Brasil.<\/p>\n<p>No Brasil, n\u00e3o conhe\u00e7o nenhuma iniciativa nesse sentido. Pelo contr\u00e1rio, vejo as gest\u00f5es municipais muito animadas com a chegada desse tipo de empreendimento. Fortaleza \u00e9 um bom exemplo. A instala\u00e7\u00e3o do centro de distribui\u00e7\u00e3o da Amazon foi acompanhada por um discurso, tanto dos agentes pol\u00edticos locais quanto da m\u00eddia, de reden\u00e7\u00e3o da cidade. Era como se ela estivesse entrando numa nova era de prosperidade, com narrativa similar \u00e0 da industrializa\u00e7\u00e3o brasileira nas d\u00e9cadas de 1970 e 1980. Mas agora, com empresas que remuneram mal \u2014 quando n\u00e3o terceirizam toda a entrega para trabalhadores aut\u00f4nomos \u2014, geram impactos ambientais pelo alto consumo de energia e \u00e1gua e mobilizam uma enorme quantidade de caminh\u00f5es, pressionando a infraestrutura de transporte e as vias p\u00fablicas. \u00c9 preocupante a velocidade com que esses empreendimentos v\u00eam sendo inaugurados, inclusive em cidades m\u00e9dias, como Rio Claro, no interior de S\u00e3o Paulo.\u00a0<\/p>\n<p>Aos poucos, esse tipo de infraestrutura passa a compor a paisagem das periferias urbanas. Soma-se a isso o descompromisso dessas empresas com os lugares onde se instalam. Em Cajamar, por exemplo, grandes galp\u00f5es de algumas das empresas mais valiosas do mundo convivem com aglomerados urbanos de extrema pobreza \u2014 muitos de seus moradores trabalham nesses empreendimentos. O acesso ao galp\u00e3o \u00e9 asfaltado, iluminado, monitorado por c\u00e2meras e bem cuidado; na rua ao lado, faltam asfaltamento e saneamento b\u00e1sico.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m uma dimens\u00e3o pol\u00edtica, ainda ignorada: sabemos muito pouco sobre o que acontece dentro desses galp\u00f5es. Eles s\u00e3o uma esp\u00e9cie de caixa-preta na paisagem das grandes vias urbanas. Eu mesmo, como pesquisador, tive muita dificuldade para entrar em alguns deles. Imagine: est\u00e3o inseridos no tecido urbano, mas contam com seguran\u00e7a armada. Certa vez, um seguran\u00e7a me perseguiu armado, e tive de explicar que, no Brasil, eu podia fotografar a paisagem e a identifica\u00e7\u00e3o vis\u00edvel da empresa. H\u00e1 uma pol\u00edtica de seguran\u00e7a hostil, inclusive em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00f3pria vizinhan\u00e7a.\u00a0<\/p>\n<p><strong>A expans\u00e3o de galp\u00f5es e data centers nas bordas das cidades \u2014 como em Fortaleza ou na Rodovia dos Bandeirantes \u2014 aponta para uma nova forma de organiza\u00e7\u00e3o urbana ou para um cen\u00e1rio de \u201ccidades fantasmas\u201d no Brasil? E o que fica invis\u00edvel para o consumidor nesse processo?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Sou um pouco avesso \u00e0s ideias apocal\u00edpticas. Discordo da maioria dos autores que falam em cidades fantasmas ou no decl\u00ednio do com\u00e9rcio e das lojas f\u00edsicas. N\u00e3o consigo ver esse cen\u00e1rio, especialmente no Brasil. O que vejo \u00e9 o desfazimento das zonas fixas da cidade moderna e fordista: a zona comercial, a residencial e a industrial. O com\u00e9rcio eletr\u00f4nico altera essa l\u00f3gica de fun\u00e7\u00f5es urbanas r\u00edgidas e monofuncionais.<\/p>\n<p>Mas a ideia de que o com\u00e9rcio eletr\u00f4nico vai substituir a loja f\u00edsica me parece simplista.\u00a0 O consumo da popula\u00e7\u00e3o de baixa renda ainda \u00e9 presencial, especialmente para compras cotidianas. E, num territ\u00f3rio desigual como o Brasil, o com\u00e9rcio eletr\u00f4nico encontra restri\u00e7\u00f5es, como o acesso ao cr\u00e9dito, falta de um endere\u00e7o formal e territ\u00f3rios sob controle de fac\u00e7\u00f5es e mil\u00edcias \u2014 s\u00e3o 70 milh\u00f5es de brasileiros, mostra pesquisa recente. H\u00e1, tamb\u00e9m, uma dimens\u00e3o cultural do que se compra e o que n\u00e3o se compra pela internet. O Brasil \u00e9 um pa\u00eds de comida de rua. Vim da Bahia e penso que em Salvador poucas pessoas v\u00e3o deixar de comprar acaraj\u00e9 para comprar McDonald\u2019s.\u00a0<\/p>\n<p>Em paralelo, surgem formas criativas de integrar o f\u00edsico e o digital: pagamento em PIX, vendas de lojas tamb\u00e9m pelo Instagram, o feirante chamado pelo \u201czap\u201d que entrega em casa\u2026 No circuito inferior da economia, essas estrat\u00e9gias se combinam e se reinventam. N\u00e3o haver\u00e1 uma vit\u00f3ria do digital sobre o f\u00edsico, pelo menos em pa\u00edses como Brasil e \u00cdndia, marcados pela cultura de rua, das feiras livres e do encontro.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Mas a financeiriza\u00e7\u00e3o n\u00e3o impacta, em certa medida, o pequeno com\u00e9rcio?<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 camadas ocultas das transa\u00e7\u00f5es online, que envolvem desde os dados e microdados gerados pelos consumidores at\u00e9 a intermedia\u00e7\u00e3o financeira, o cr\u00e9dito e o endividamento da popula\u00e7\u00e3o. O sistema tornou-se t\u00e3o complexo que nem os pr\u00f3prios vendedores o dominam. Essa mir\u00edade de pequenos comerciantes que vende em plataformas como Amazon e Mercado Livre tamb\u00e9m opera sem compreender plenamente seu funcionamento. Eles aderem ao pacote oferecido pelas plataformas: assinam um contrato, pagam um percentual sobre as vendas e t\u00eam acesso aos servi\u00e7os de entrega e pagamento.\u00a0<\/p>\n<p>Os vendedores que entrevistei tinham muita dificuldade para explicar o que realmente faziam para vender online, porque essa \u00e9 uma linguagem complexa, muitas vezes em ingl\u00eas, que exige conhecimentos de programa\u00e7\u00e3o, do funcionamento dos algoritmos e dos mecanismos que influenciam o comportamento de compra. Estamos muito longe de oferecer aos pequenos varejistas e vendedores dessas plataformas um letramento digital que lhes permita evitar a manipula\u00e7\u00e3o e disputar em melhores condi\u00e7\u00f5es com as grandes empresas.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o d\u00e1 para ser apocal\u00edptico sobre o e-commerce, voc\u00ea disse. Mas como agir quando as plataformas imp\u00f5em pre\u00e7os t\u00e3o baixos, que o com\u00e9rcio local \u2014 e at\u00e9 nacional \u2014 nunca poder\u00e1 concorrer?<\/strong><\/p>\n<p>O grau de oligopoliza\u00e7\u00e3o que essa atividade alcan\u00e7ou no Brasil \u00e9 problem\u00e1tico. Sete grupos respondem por cerca de 70% de tudo o que \u00e9 comprado online. No in\u00edcio, os marketplaces n\u00e3o controlavam quase nada. No Mercado Livre, por exemplo, o pre\u00e7o era definido pelo vendedor, que ia aos Correios postar o produto. Os grandes centros de distribui\u00e7\u00e3o n\u00e3o existiam; era apenas um site. Depois, passaram a coletar o produto na casa do vendedor, armazen\u00e1-lo e realizar a entrega. O vendedor paga uma taxa por esse servi\u00e7o. \u00c9 verdade que ele consegue vender mais, mas as plataformas passam a definir pre\u00e7o, prazo e padr\u00f5es de qualidade, estoque, log\u00edstica. Ou seja, controlam todos os processos de uma mercadoria que n\u00e3o possuem.<\/p>\n<p>Hoje, \u00e9 quase imposs\u00edvel competir com o pre\u00e7o dessas plataformas. Assim como a chegada dos atacad\u00f5es desestruturou os supermercados locais, elas tornam invi\u00e1vel disputar pela l\u00f3gica do pre\u00e7o. A alternativa n\u00e3o est\u00e1 em competir no mesmo jogo das corpora\u00e7\u00f5es, mas no fortalecimento das rela\u00e7\u00f5es de lugar: algu\u00e9m s\u00f3 deixa de comprar um livro na Amazon para adquiri-lo em uma livraria local, f\u00edsica ou online, quando h\u00e1 um v\u00ednculo que justifique pagar um pouco mais: o atendimento, o ambiente, o conhecimento do livreiro, por exemplo. Coisas incompar\u00e1veis com receber o produto em casa.\u00a0<\/p>\n<p><strong>A \u201ctaxa das blusinhas\u201d gerou grande pol\u00eamica. O que o debate revelou sobre o e-commerce no pa\u00eds?<\/strong><\/p>\n<p>Foi uma grande oportunidade para um debate amplo na sociedade sobre o com\u00e9rcio eletr\u00f4nico, mas ficou restrita ao consumo: consumidores revoltados porque estavam sendo impedidos de consumir e empresas insatisfeitas para continuar as importa\u00e7\u00f5es da China. Perdemos o timing de discutir a atua\u00e7\u00e3o e a tributa\u00e7\u00e3o das corpora\u00e7\u00f5es estrangeiras que atuam no Brasil. Continuamos, portanto, sem um projeto nacional claro para o com\u00e9rcio eletr\u00f4nico e o setor de tecnologias digitais.<\/p>\n<p>O cerne da quest\u00e3o \u00e9 que o Brasil, apesar de ser um grande mercado consumidor, continua \u00e0 margem como vendedor nas plataformas globais. Temos uma enorme riqueza em artesanato, cultura, produtos e m\u00fasica que poderia estar sendo comercializada em plataformas como Amazon, Shopee e Alibaba, mas os produtos brasileiros raramente aparecem nessas vitrines. A contrapartida \u00e9 m\u00ednima. Por que o governo federal n\u00e3o negocia uma estrat\u00e9gia de internacionaliza\u00e7\u00e3o dos vendedores brasileiros? Esse poderia ser o primeiro passo para uma pol\u00edtica nacional de com\u00e9rcio eletr\u00f4nico, nos moldes do que a \u00cdndia vem fazendo.<\/p>\n<p>A \u00cdndia vem criando mecanismos para que vendedores locais exportem seus produtos por meio de plataformas globais. Ainda n\u00e3o se trata propriamente de uma regula\u00e7\u00e3o, mas j\u00e1 h\u00e1 iniciativas voltadas \u00e0 integra\u00e7\u00e3o desses vendedores. A Indon\u00e9sia tamb\u00e9m come\u00e7a a adotar medidas semelhantes, exigindo que plataformas sediadas em Singapura comercializem um percentual de produtos locais. O Brasil ainda est\u00e1 distante desse debate. Nossa posi\u00e7\u00e3o \u00e9 muito vulner\u00e1vel: a de consumidores. Enquanto nossos vendedores atuam majoritariamente no mercado interno, os brasileiros compram de empresas chinesas e norte-americanas, e os lucros acabam sendo repatriados.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. Se voc\u00ea valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o, seja nosso apoiador e fortale\u00e7a o jornalismo cr\u00edtico: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post &lt;i&gt;E-commerce&lt;\/i&gt;: Os impactos ocultos nas cidades appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/pep-guardiola-lamenta-mortes-inocentes-em-gaza-ao-acusar-israel-de-genocida\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Pep Guardiola lamenta \u2018mortes inocentes\u2019 em Gaza a...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/sequestro-de-maduro-foi-na-mesma-data-de-captura-de-noriega-e-assassinato-de-soleimani\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/norisole-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Sequestro de Maduro foi na mesma data de captura d...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/governo-lula-lanca-campanha-nacional-pelo-fim-da-escala-de-trabalho-6x1\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/toms9871-150x150.webp') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Governo Lula lan\u00e7a campanha nacional pelo fim da e...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/lula-diz-que-trump-ficou-surpreso-com-um-detalhe-na-aplicacao-de-sancoes-a-ministros-video\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Lula diz que Trump ficou \u201csurpreso\u201d com um detalhe...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Galp\u00f5es log\u00edsticos avan\u00e7am sobre \u00e1reas urbanas: ati\u00e7am a especula\u00e7\u00e3o, remodelam bairros e exploram trabalhadores para acelerar entregas. Como evitar a captura de um servi\u00e7o indispens\u00e1vel por corpora\u00e7\u00f5es como Amazon e Mercado Livre?<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/outras-cidades\/e-commerce-impactos-ocultos-na-cidade\/\">&lt;i&gt;E-commerce&lt;\/i&gt;: Os impactos ocultos nas cidades<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":95820,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[9157,5511,63606,50179,35201,35202,62,75244,75245,4640,30105,75246,1478],"tags":[],"class_list":["post-95819","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-amazon","category-capa","category-comercio-digital","category-consumo-no-brasil","category-crise-dos-correios","category-e-commerce","category-especulacao-imobiliaria","category-galtoes-de-logistica","category-marketplace","category-mercado-livre","category-outras-cidades","category-plataformas-de-venda","category-precarizacao-do-trabalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/95819","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=95819"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/95819\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/95820"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=95819"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=95819"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=95819"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}