{"id":96012,"date":"2026-07-17T17:02:21","date_gmt":"2026-07-17T20:02:21","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/como-combater-o-feminicidio\/"},"modified":"2026-07-17T17:02:21","modified_gmt":"2026-07-17T20:02:21","slug":"como-combater-o-feminicidio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/como-combater-o-feminicidio\/","title":{"rendered":"Como combater o feminic\u00eddio?"},"content":{"rendered":"<div>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"1000\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/45_0-scaled-2-2048x1366.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/45_0-scaled-2-1500x1000.jpg 1500w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/45_0-scaled-2-300x200.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/45_0-scaled-2-768x512.jpg 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/45_0-scaled-2-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/45_0-scaled-2-2048x1366.jpg 2048w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/45_0-scaled-2-272x182.jpg 272w\" sizes=\"auto, (max-width: 1500px) 100vw, 1500px\"><figcaption>Rio de Janeiro (RJ) \u2013 26\/12\/2024 \u2013 100 fotos melhores de 2024, retrospectiva \u2013 Foto feita em 08\/03\/2023 \u2013 Ato den\u00fancia em frente \u00e0 C\u00e2mara Municipal, organizado pelo campanha Levante Feminista contra o Feminic\u00eddio, colocaram 210 cruzes nas escadarias do Pal\u00e1cio Pedro Ernesto, simbolizando cada uma das 111 mulheres assassinadas no estado em 2022 e as 99 mulheres assassinadas em 2023. Foto: T\u00e2nia R\u00eago\/Ag\u00eancia Brasil<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>No dia 26 de julho de 2025, Juliana Garcia foi agredida pelo namorado, Igor Eduardo Cabral, com 61 socos em um elevador no Rio Grande do Norte. Igor foi denunciado por tentativa de feminic\u00eddio, e o epis\u00f3dio ganhou repercuss\u00e3o nacional devido ao excesso de viol\u00eancia mobilizada, o que, por sinal, \u00e9 t\u00edpico de casos como esse.\u00a0<\/p>\n<p>Em depoimento, dado \u00e0 pol\u00edcia por escrito, porque n\u00e3o conseguia falar depois das agress\u00f5es, Juliana contou que o namorado j\u00e1 havia sido violento outras vezes, praticando repetidamente agress\u00f5es f\u00edsicas e psicol\u00f3gicas. Segundo depoimentos da investiga\u00e7\u00e3o, as agress\u00f5es espec\u00edficas ocorridas naquele dia foram motivadas por uma crise de ci\u00fames, ap\u00f3s Juliana ter recebido mensagens de texto, enquanto o casal estava na piscina do pr\u00e9dio. Os dois subiram para o apartamento em elevadores separados e, quando chegaram ao andar, Juliana, ao perceber que Igor estava nervoso, n\u00e3o quis sair, o que o irritou ainda mais. Foi ent\u00e3o que ele entrou no elevador e desferiu os 61 socos na namorada. Igor foi preso em flagrante. Os exames de imagem realizados na v\u00edtima revelaram fraturas no nariz, na mand\u00edbula, na estrutura \u00f3ssea do globo ocular, na bochecha e na base superior do maxilar. As c\u00e2meras de seguran\u00e7a do elevador registraram as agress\u00f5es, e as imagens foram rapidamente difundidas, chocando a popula\u00e7\u00e3o em geral.\u00a0<\/p>\n<p>Meses depois da ocorr\u00eancia, foi noticiado que Juliana se filiou ao Partido dos Trabalhadores (PT-RN). Ela anunciou sua filia\u00e7\u00e3o no Instagram e voltou a figurar nas p\u00e1ginas dos jornais. Isso porque,\u00a0no post em que anuncia sua filia\u00e7\u00e3o, Juliana recebeu uma s\u00e9rie de coment\u00e1rios ofensivos: \u201cTadinha. N\u00e3o soube escolher com quem se relacionar, que dir\u00e1 um partido. N\u00e3o me surpreende\u201d. Outro coment\u00e1rio dizia que Juliana \u201cdeveria ter apanhado mais\u201d;\u00a0e outro,\u00a0ainda,\u00a0que ela \u201clevou tantas pancadas na cabe\u00e7a que enlouqueceu\u201d. A crueldade dos coment\u00e1rios n\u00e3o emerge apesar do dissenso pol\u00edtico, mas atrav\u00e9s dele. O PT funciona como pretexto que autoriza o que o consenso moral moment\u00e2neo havia interditado. \u00c9 a din\u00e2mica da naturaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia, quando mediada por outros marcadores de identidade ou pertencimento, e a lacuna no combate \u00e0 ideologia que a sustenta que pretendo discutir aqui, a partir da ideia de espet\u00e1culo da crueldade.\u00a0<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/14--27.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/14--27.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/14-1-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Em\u00a0<em>Contrapedagogias\u00a0de\u00a0la\u00a0crueldad<\/em>, a antrop\u00f3loga Rita Segato definiu como pedagogia da crueldade o processo pelo qual a viol\u00eancia \u00e9 naturalizada, tornando-se parte do cotidiano. Ela conecta a viol\u00eancia de g\u00eanero \u00e0 espetaculariza\u00e7\u00e3o do sofrimento feminino,\u00a0colocando a m\u00eddia como instrumento importante dessa pedagogia. A crueldade \u00e9, para Segato, a mensagem. Quando um corpo \u00e9 destru\u00eddo com intensidade desproporcional \u00e0 necess\u00e1ria para matar, o ato deixa de ser crime e vira comunica\u00e7\u00e3o,\u00a0em que o destinat\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a v\u00edtima; \u00e9 quem v\u00ea, quem ouve, quem reconhece o padr\u00e3o. Numa sociedade em que a viol\u00eancia contra mulheres \u00e9 recorrente e vis\u00edvel, a crueldade cumpre uma fun\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica: ensina quem pode ser destru\u00eddo e por quem. Ou seja, ela ensina e h\u00e1 quem aprenda. Da\u00ed a l\u00f3gica do espet\u00e1culo da crueldade: a viol\u00eancia extrema sobre o corpo da mulher funciona como uma demonstra\u00e7\u00e3o p\u00fablica de poder, uma afirma\u00e7\u00e3o territorial, um sinal enviado a toda uma comunidade sobre quem possui o direito de vida e morte naquele espa\u00e7o. A crueldade \u00e9, portanto, parte do sistema, e n\u00e3o uma falha.\u00a0<\/p>\n<p>As manifesta\u00e7\u00f5es de 8 de mar\u00e7o deste ano tiveram a viol\u00eancia contra as mulheres e, em particular, o feminic\u00eddio como bandeira central, impulsionadas por crimes de brutalidade incomum que mobilizaram a opini\u00e3o p\u00fablica. O tema, por\u00e9m, n\u00e3o circulou apenas nos espa\u00e7os de milit\u00e2ncia: capturado pela l\u00f3gica dos algoritmos, migrou para o entretenimento e para o debate p\u00fablico em formatos que nem sempre distinguem informa\u00e7\u00e3o de espet\u00e1culo.\u00a0<\/p>\n<p>O caso do ator Juliano Cazarr\u00e9 \u00e9 ilustrativo. Ap\u00f3s viralizar com um curso voltado a homens que propagava concep\u00e7\u00f5es tradicionais de pap\u00e9is de g\u00eanero e fam\u00edlia \u2013 e que contava, entre seus palestrantes, com um instrutor de tiro \u2013, Cazarr\u00e9 foi convidado para um debate com a psicanalista Vera\u00a0Iaconeli\u00a0na GloboNews. Na ocasi\u00e3o, sustentou que mulheres matam mais homens do que homens matam mulheres, o que inverte os dados reais sobre a viol\u00eancia letal de g\u00eanero. O debate foi amplamente compartilhado, o que sugere um formato que privilegia o confronto e a viraliza\u00e7\u00e3o em detrimento da verifica\u00e7\u00e3o e da verdade. O epis\u00f3dio revela um deslocamento importante: a ideologia que sustenta e naturaliza a viol\u00eancia contra as mulheres, a divis\u00e3o r\u00edgida de pap\u00e9is, a hierarquia de g\u00eanero e a desqualifica\u00e7\u00e3o dos dados sobre feminic\u00eddio encontram no ecossistema digital e nos programas de debate um ve\u00edculo eficaz de difus\u00e3o, revestido da apar\u00eancia de pluralismo e de livre troca de ideias.\u00a0<\/p>\n<p>Junto com essas repercuss\u00f5es, os jornalistas e comentaristas pol\u00edticos recorrem a n\u00f3s, pesquisadoras que v\u00eam trabalhando com o tema, e nos perguntam por que, com tantas leis e tanto aparato normativo, se observa a intensifica\u00e7\u00e3o do fen\u00f4meno. Costumo pensar que a pr\u00f3pria exist\u00eancia de leis como a Maria da Penha e a Lei do Feminic\u00eddio, resultado de muitos anos de mobiliza\u00e7\u00e3o feminista, nos ajuda a dar nome a algo que sempre existiu. Historicamente, a viol\u00eancia contra as mulheres e os feminic\u00eddios permaneciam na obscuridade, escondidos na reclus\u00e3o do espa\u00e7o dom\u00e9stico. Vez ou outra, um caso ganhava aten\u00e7\u00e3o da imprensa e da sociedade, nem sempre sob os contornos mais generosos para as v\u00edtimas. Hoje, esses casos se\u00a0tornam p\u00fablicos e ocupam o centro do debate. Hoje temos meios de quantificar, ainda que por aproxima\u00e7\u00f5es, o fen\u00f4meno. Usamos dados dos registros de ocorr\u00eancia, de tribunais e da sa\u00fade; h\u00e1 relat\u00f3rios peri\u00f3dicos do F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica e, em algum grau, temos a dimens\u00e3o do problema. Ainda assim, a pr\u00f3pria natureza do fen\u00f4meno, sujeito \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o dos operadores, pressup\u00f5e sua subnotifica\u00e7\u00e3o. Mesmo assim, o Brasil registra uma estat\u00edstica alarmante de feminic\u00eddios.\u00a0<\/p>\n<p>Est\u00e1 fora de d\u00favida que a publiciza\u00e7\u00e3o de uma viol\u00eancia brutal que esteve escondida no ambiente dom\u00e9stico representa uma vit\u00f3ria enorme da sociedade. O lado obscuro e perturbador dessa conquista \u00e9 a transforma\u00e7\u00e3o dessas din\u00e2micas e epis\u00f3dios reiterados de viol\u00eancia em espet\u00e1culo. Nesse giro, parte dos ganhos obtidos fica pelo caminho, sobretudo quando tal espetaculariza\u00e7\u00e3o \u00e9 mimetizada na pr\u00f3pria resposta oferecida pelos agentes p\u00fablicos, muitas vezes imbu\u00eddos das melhores inten\u00e7\u00f5es.\u00a0<\/p>\n<p>O Pacote\u00a0Antifeminic\u00eddio, lan\u00e7ado pelo governo Lula, tornou o feminic\u00eddio um crime aut\u00f4nomo, quando antes era uma qualificadora,\u00a0e a medida mais divulgada e, em parte, celebrada endureceu a pena de 20 a 40 anos, podendo ser acrescida de 1\/3 em condi\u00e7\u00f5es espec\u00edficas.<sup>1<\/sup>\u00a0N\u00e3o pretendo discutir,\u00a0neste texto, as limita\u00e7\u00f5es de uma abordagem que investe na conten\u00e7\u00e3o reativa para transformar a cultura do espet\u00e1culo da crueldade, mas gostaria de chamar a aten\u00e7\u00e3o para medidas que o governo vem anunciando e que t\u00eam recebido muito menos aten\u00e7\u00e3o popular nos \u00faltimos meses.\u00a0<\/p>\n<p>O Pacto Nacional de Enfrentamento ao Feminic\u00eddio, uma iniciativa dos tr\u00eas Poderes para atua\u00e7\u00e3o coordenada e cooperativa no enfrentamento ao feminic\u00eddio em conjunto com a sociedade civil, foi assinado em fevereiro deste ano. Entre as a\u00e7\u00f5es previstas, est\u00e3o o fortalecimento das redes de enfrentamento \u00e0 viol\u00eancia contra a mulher, a promo\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es sobre os direitos e as estruturas de prote\u00e7\u00e3o e de preven\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia baseada em g\u00eanero e a garantia da igualdade de tratamento entre homens e mulheres na cultura institucional.\u00a0<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/1-17.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/1-17.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/15-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>No \u00e2mbito do Pacto, em mar\u00e7o, o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e o Minist\u00e9rio das Mulheres lan\u00e7aram um pacote de a\u00e7\u00f5es de combate \u00e0 viol\u00eancia contra as mulheres. Essas a\u00e7\u00f5es incluem a assinatura de uma portaria interministerial que inclui, no curr\u00edculo escolar da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, conte\u00fados relativos ao combate \u00e0 viol\u00eancia contra mulheres e meninas. Este \u00e9 um ponto particularmente interessante, pois o debate sobre viol\u00eancia de g\u00eanero nas escolas esteve, nos \u00faltimos anos, interditado sob a acusa\u00e7\u00e3o de \u201cideologia de g\u00eanero\u201d, pautando a agenda pol\u00edtica nos anos que antecederam o atual governo e tendo efeitos concretos, como silenciar professores, expurgar conte\u00fados curriculares e produzir um ambiente escolar hostil. A a\u00e7\u00e3o situa a escola como espa\u00e7o privilegiado de forma\u00e7\u00e3o de valores, apostando na transforma\u00e7\u00e3o cultural de longo prazo como condi\u00e7\u00e3o para a supera\u00e7\u00e3o estrutural da viol\u00eancia. A premissa subjacente \u00e9 a de que a constru\u00e7\u00e3o de uma cultura igualit\u00e1ria, incompat\u00edvel com a naturaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia, passa pela socializa\u00e7\u00e3o das novas gera\u00e7\u00f5es em princ\u00edpios de respeito e autonomia.<sup>\u00a0<\/sup>\u00a0<\/p>\n<p>Em abril, foi sancionada a lei que instituiu o \u201cPrograma Antes que Aconte\u00e7a\u201d,<sup>2<\/sup>\u00a0que estrutura uma pol\u00edtica de enfrentamento \u00e0 viol\u00eancia contra a mulher, de car\u00e1ter abrangente e interinstitucional, articulando seguran\u00e7a p\u00fablica, garantia e promo\u00e7\u00e3o de direitos, sa\u00fade, inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, produ\u00e7\u00e3o de dados, monitoramento de indicadores, inclus\u00e3o produtiva, forma\u00e7\u00e3o e autonomia feminina. A implementa\u00e7\u00e3o pressup\u00f5e atua\u00e7\u00e3o conjunta do Minist\u00e9rio P\u00fablico e dos tr\u00eas Poderes nas esferas federal, estadual, distrital e municipal, em articula\u00e7\u00e3o com a comunidade cient\u00edfica, a iniciativa privada e a sociedade civil. A Lei define quatro instrumentos centrais: (i) rede de atendimento, enfrentamento e prote\u00e7\u00e3o,\u00a0que compreende o conjunto de servi\u00e7os p\u00fablicos e iniciativas da sociedade civil voltados \u00e0 preven\u00e7\u00e3o, acolhimento e prote\u00e7\u00e3o de mulheres em situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia; (ii) acolhimento especializado, que designa o atendimento humanizado e seguro de v\u00edtimas, com espa\u00e7os f\u00edsicos adequados e suporte multidisciplinar; (iii) os servi\u00e7os itinerantes: unidades m\u00f3veis equipadas para prestar atendimento jur\u00eddico, psicossocial e de cidadania em territ\u00f3rios de dif\u00edcil acesso; e, por fim, (iv) as defensoras populares: lideran\u00e7as comunit\u00e1rias capacitadas em direitos das mulheres, com fun\u00e7\u00e3o de multiplicadoras na identifica\u00e7\u00e3o de viola\u00e7\u00f5es em seus territ\u00f3rios e no encaminhamento \u00e0 rede de atendimento. Finalmente, a campanha Feminic\u00eddio Zero vem sendo veiculada em espa\u00e7os como jogos de futebol e blocos de carnaval. Essas s\u00e3o medidas que prop\u00f5em deslocar o debate do feminic\u00eddio da esfera daquilo que se deve fazer com os\u00a0feminicidas\u00a0para dialogar com um p\u00fablico mais difuso. Proteger potenciais v\u00edtimas, comunicar-se com potenciais agressores. Mudar comportamentos, atender e interromper ciclos.\u00a0<\/p>\n<p>Voltando ao caso de Juliana, as agress\u00f5es praticadas pelo ex-namorado chocam muito mais do que os coment\u00e1rios feitos em suas redes sociais. Mas, para Segato, a viol\u00eancia moral \u00e9 uma \u201cusina\u201d que recicla diariamente a ordem de status, uma opera\u00e7\u00e3o rotineira que produz e reproduz o mundo como ele \u00e9. Isso significa que a viol\u00eancia n\u00e3o se mant\u00e9m principalmente pela for\u00e7a bruta, mas por \u201cdoses homeop\u00e1ticas, mas reconhec\u00edveis, da viol\u00eancia fundadora\u201d que circulam no cotidiano.\u00a0<\/p>\n<p>A quest\u00e3o que se imp\u00f5e \u00e9: por que, com tantas leis, com tanto aparato legal e normativo, observamos um aumento dos casos de agress\u00f5es a mulheres e de feminic\u00eddio? Obviamente, a resposta a essa pergunta n\u00e3o \u00e9 simples,\u00a0e muitos s\u00e3o os fatores a serem levados em conta. Um deles me parece residir no tipo de recep\u00e7\u00e3o do problema e no modelo de resposta a ele.\u00a0<\/p>\n<p>Transformada em espet\u00e1culo, a viol\u00eancia de g\u00eanero, que tem no feminic\u00eddio sua express\u00e3o mais radical, tem recebido abordagem igualmente marcada por sua capacidade de causar impacto. As medidas at\u00e9 aqui tomadas pecam por tratar o feminic\u00eddio como um epis\u00f3dio fechado em si mesmo, em que est\u00e3o envolvidos a v\u00edtima e um agressor individualizado, ambos descolados de uma estrutura social que n\u00e3o somente \u00e9 condi\u00e7\u00e3o de possibilidade, mas que chancela comportamentos e padr\u00f5es relacionais de viol\u00eancia, agress\u00f5es repetidas e desrespeito. \u00c9 necess\u00e1ria uma amplia\u00e7\u00e3o de foco. \u00c9 preciso que se reconhe\u00e7a que viol\u00eancias de car\u00e1ter moral e psicol\u00f3gico, al\u00e9m de agress\u00f5es f\u00edsicas n\u00e3o letais, fazem parte da din\u00e2mica relacional que resulta na perpetra\u00e7\u00e3o do desfecho letal com motiva\u00e7\u00e3o de g\u00eanero. Dito de forma direta: \u00e9 preciso uma abordagem consequente para prevenir a viol\u00eancia de g\u00eanero e neutraliz\u00e1-la para, a\u00ed sim, se chegar a resultados efetivos de redu\u00e7\u00e3o da incid\u00eancia de sua vers\u00e3o mais radical e dram\u00e1tica. Tais a\u00e7\u00f5es certamente s\u00e3o menos vis\u00edveis e imp\u00f5em estrat\u00e9gias menos espetaculares do que o an\u00fancio de aumento de penas e outras medidas de endurecimento. Quando encampadas, ajudar\u00e3o a fazer com que as din\u00e2micas envolvidas no feminic\u00eddio sejam abordadas publicamente, sem o car\u00e1ter de espet\u00e1culo.\u00a0<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Refer\u00eancias:<\/strong>\u00a0<\/p>\n<p>SEGATO, Rita. (2018).\u00a0<em>Contra-pedagog\u00edas\u00a0de\u00a0la\u00a0crueldad.<\/em>\u00a0Buenos Aires:\u00a0Prometeo\u00a0Libros.\u00a0<\/p>\n<p>SEGATO, Rita. (2025).\u00a0<em>Estruturas elementares da viol\u00eancia. Trad.\u00a0Dan\u00fa\u00a0Contijo<\/em>. 1. ed. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo.\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. Se voc\u00ea valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o, seja nosso apoiador e fortale\u00e7a o jornalismo cr\u00edtico: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post Como combater o feminic\u00eddio? appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/cinema-meninas-do-brasil\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/photo_5014854096451734391_x-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Cinema: Meninas do Brasil<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/icmbio-publica-edital-de-concurso-com-350-vagas-em-todo-o-pais-veja-como-participar\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">ICMBio publica edital de concurso com 350 vagas em...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/cao-orelha-porque-violencia-contra-animais-cresce-em-grupos-online-de-adolescentes\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">C\u00e3o Orelha: porque viol\u00eancia contra animais cresce...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/entenda-a-pec-da-seguranca-proposta-fortalece-integracao-no-combate-ao-crime\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/prf-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Entenda a PEC da Seguran\u00e7a: proposta fortalece int...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O crime nunca se resume a um epis\u00f3dio isolado: \u00e9 ciclo cont\u00ednuo alimentado por viol\u00eancias moral e psicol\u00f3gica, al\u00e9m de agress\u00f5es f\u00edsicas n\u00e3o letais. O combate n\u00e3o deve transformar a viol\u00eancia em espet\u00e1culo, mas ser preventivo, de modo a evitar o escalonamento para crimes hediondos<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/feminismos\/como-combater-o-feminicidio\/\">Como combater o feminic\u00eddio?<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":96013,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[59378,43640,31933,75577,75578,1088,3628,6956,75579,2036,75580,2634,75581,8655,1059,73,77,32300,1090],"tags":[],"class_list":["post-96012","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-agressao-fisica","category-agressao-psicologica","category-agressoes","category-espetacularizacao","category-espetaculo-da-crueldade","category-feminicidio","category-feminicidio-zero","category-feminismos","category-hierarquia-de-genero","category-ideologia","category-juliana-garcia","category-maria-da-penha","category-mobilizacao-feminista","category-naturalizacao-da-violencia","category-pt","category-seguranca-publica","category-violencia","category-violencia-contra-mulheres","category-violencia-de-genero"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96012","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=96012"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96012\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/96013"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=96012"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=96012"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=96012"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}