{"id":96499,"date":"2026-07-22T07:05:52","date_gmt":"2026-07-22T10:05:52","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/os-agentes\/"},"modified":"2026-07-22T07:05:52","modified_gmt":"2026-07-22T10:05:52","slug":"os-agentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/os-agentes\/","title":{"rendered":"\u201cOs agentes\u201d"},"content":{"rendered":"<p>Natalia chega aos Estados Unidos disposta a encontrar uma personagem crucial para a investiga\u00e7\u00e3o: a agente Leslie Rodrigues Backshies. Numa saga de telefonemas, e-mails, portas fechadas e muitos voos, nossa incans\u00e1vel rep\u00f3rter cruza o pa\u00eds de ponta a ponta e conversa com fontes diretamente envolvidas na rela\u00e7\u00e3o do FBI com a pol\u00edcia e a justi\u00e7a brasileiras. Mas uma nova pista surge no Brasil.<\/p>\n<p>Ou\u00e7a agora o epis\u00f3dio 5!<\/p>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div><\/div>\n<h3>Confidencial: as digitais do FBI na Lava Jato<\/h3>\n<div>\n<p>\t\t\t\t\t\t<i><\/i><br \/>\n\t\t\t\t\t\t<i><\/i><\/p>\n<p>\t\t\t\t\t\t<!--<i class=\"fa-solid fa-arrow-right fa-2x\"><\/i>-->\n\t\t\t\t\t<\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div data-init=\"0\" data-id=\"259646\" data-playing=\"0\">\n<p>\t\t\t\t\t<audio src=\"https:\/\/apublica.org\/2026\/07\/confidencial-digitais-fbi-lava-jato-os-agentes\/\" preload=\"none\"><\/audio><\/p>\n<div>\n<div>\n<div>\n<p>\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<i><\/i><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<i><\/i><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/span><\/p><\/div>\n<div>\n<div><\/div>\n<div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span><span>0:00<\/span><\/span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span><span>-:\u2013<\/span><\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t1\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n<div>\n<h4>Epis\u00f3dio 5: Os agentes<\/h4>\n<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<p>\t\t\t\t\t\t\t\t\t<audio src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/5-Confidencial-as-digitais-do-FBI-na-Lava-Jato-25E225802594-Os-agentes.mp3\" preload=\"none\"><\/audio><\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<h2><strong>Confira abaixo o roteiro do epis\u00f3dio na \u00edntegra<\/strong><\/h2>\n<p><strong>EPIS\u00d3DIO 05: OS AGENTES<\/strong><\/p>\n<p>[Ricardo Terto]<\/p>\n<p>Voc\u00ea est\u00e1 ouvindo uma \u00e1udio s\u00e9rie, Original Audible. Para conhecer mais hist\u00f3rias surpreendentes e imersivas como est\u00e1, acesse o site audible.com.br. Fa\u00e7a sua conta e teste gr\u00e1tis por 30 dias ou por 3 meses, se voc\u00ea for membro Amazon Prime.<\/p>\n<p>Efeito sonoro: ambienta\u00e7\u00e3o aeroporto voo para NY<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana] [Amanda Audi]<\/p>\n<p>Eu t\u00f4 embarcando para Nova York, onde espero conseguir ouvir outros personagens desta hist\u00f3ria \u2013 os investigadores americanos que colaboraram com a Lava Jato. Fiz contato com funcion\u00e1rios e ex-funcion\u00e1rios p\u00fablicos de todo tipo: ex-procuradores do DOJ, o Departamento de Justi\u00e7a americano; advogados da SEC, o Security and Exchange Commission, ou Comiss\u00e3o de Valores Mobili\u00e1rios. Existem at\u00e9 nomes que desconfio que sejam da CIA. Mas quem eu realmente quero encontrar s\u00e3o os agentes do FBI.\u00a0<\/p>\n<p>Efeito Sonoro: liga\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p><em>Hello, my name is Natalia Viana. I\u2019m calling for Mr. Patrick Kramer.<\/em><\/p>\n<p>Trilha sonora com inspira\u00e7\u00e3o em filmes de espionagem<\/p>\n<p>Antes de embarcar, eu tentei contato com v\u00e1rios deles. Nomes que conhecia apenas pelos di\u00e1logos vazados, como Patrick Kramer, um superagente, ex-marine, que chegou a ser do servi\u00e7o de intelig\u00eancia durante a Guerra do Golfo. Steve Moore, que atuava no consulado de S\u00e3o Paulo, June Drake, uma jovem agente do FBI; David Williams, que tamb\u00e9m trabalhava no consulado e \u00e9 muito citado pelos membros da for\u00e7a tarefa da Lava Jato nos di\u00e1logos vazados. Mas existe uma agente, em especial, que eu sempre sonhei em entrevistar\u2026<\/p>\n<p>Fim da trilha<\/p>\n<p>Leslie Backschies, quer dizer, Leslie Rodrigues Backshies. Rodrigues com \u201cS\u201d mesmo. Leslie \u00e9 filha de brasileiros. Eu descobri o \u201cRodrigues\u201d por acaso durante as investiga\u00e7\u00f5es, e logo me identifiquei porque tamb\u00e9m tenho o mesmo sobrenome e, como ela, tamb\u00e9m escondo esse nome na minha assinatura. Durante anos, a \u00fanica imagem que consegui de Leslie foi uma foto tirada de longe. Na imagem, d\u00e1 pra ver uma mulher de meia idade, blusa rosa e cal\u00e7a preta, usando \u00f3culos escuros que cobre boa parte do rosto, cabelo castanho preso num rabo de cavalo e um sorriso t\u00edmido. O principal motivo do meu interesse \u00e9 que Leslie se tornou uma figura muito conhecida e reconhecida pelos procuradores de Curitiba.\u00a0<\/p>\n<p>Efeito sonoro: vinheta de abertura<\/p>\n<p>Meu nome \u00e9 Natalia Viana, sou jornalista e apresentadora da s\u00e9rie \u201cConfidencial: as digitais do FBI na Lava Jato\u201d. No pen\u00faltimo epis\u00f3dio desta s\u00e9rie vamos investigar quem s\u00e3o e qual foi a atua\u00e7\u00e3o de agentes do FBI e procuradores americanos durante a maior opera\u00e7\u00e3o anticorrup\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria brasileira.\u00a0<\/p>\n<p>Efeito sonoro: fim da vinheta\u00a0<\/p>\n<p>Epis\u00f3dio 05: Os agentes<\/p>\n<p>Efeito sonoro: pausa<\/p>\n<p>[material de arquivo]<\/p>\n<p>Reinaldo Azevedo: Desde 2016 pelo menos, a Lava Jato est\u00e1 operando intimamente com uma senhora chamada Leslie Rodrigues, em portugu\u00eas mesmo esse Rodrigues, ou dona Leslie, eu n\u00e3o sei a pron\u00fancia do seu nome, n\u00e3o sei se \u201cBackskies\u201d ou \u201cBackshies\u201d, mas B a c k s c h i e s. Ela \u00e9 um medalh\u00e3o do FBI, \u00edntima, o tempo todo atuando em parceria com a Lava Jato ao arrepio do governo brasileiro.\u00a0<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>Neste \u00e1udio, o jornalista Reinaldo Azevedo fala de Leslie Backschies, cuja carreira demonstra a mudan\u00e7a de foco do FBI. Ela inicialmente trabalhou em contraterrorismo, em 2012, mudou-se para a Am\u00e9rica do Sul, supervisionando agentes do FBI em v\u00e1rios pa\u00edses, incluindo aqueles lotados na embaixada em Bras\u00edlia. A foto que mencionei prova que desde essa \u00e9poca ela vinha ao Brasil, o objetivo era firmar parcerias para capacita\u00e7\u00e3o de policiais para responder a amea\u00e7as terroristas antes da Copa de 2014. Na foto, ela est\u00e1 em frente a um helic\u00f3ptero junto com outra agente do FBI e policiais da PM de S\u00e3o Paulo. Foi depois disso que a carreira de Leslie deu uma boa guinada, e ela passou a investigar casos de corrup\u00e7\u00e3o, e assim chegamos \u00e0 Lava Jato.\u00a0<\/p>\n<p>Fim da Trilha sonora\u00a0<\/p>\n<p>O nome da Leslie aparece muito nos di\u00e1logos da Vaza Jato. Como nesse entre o procurador Deltan Dallagnol e a ex coordenadora da For\u00e7a Tarefa em S\u00e3o Paulo, Tham\u00e9a Danelon, que estava com viagem marcada para os EUA.<\/p>\n<p>Efeito sonoro: alerta mensagem<\/p>\n<p>[Ricardo Terto]<\/p>\n<p>18 de maio de 2016, de Tham\u00e9a Damelon para Deltan Dallagnol: \u201cVou tentar tirar uma foto com\u00a0 a Jennifer Lopes e o cartaz das 10 Medidas. Os agentes do FBI j\u00e1 apoiaram. Mas n\u00e3o pode publicar a foto, ok? Eles n\u00e3o deixaram.\u00a0<\/p>\n<p>Efeito sonoro: alerta mensagem<\/p>\n<p>\u201cAhhhh Garota! A\u00ed \u00e9 miss\u00e3o imposs\u00edvel, hein? At\u00e9 ouvi a musiquinha! Legal a foto! A Leslie est\u00e1 em todas rs\u201d.<\/p>\n<p>[Nat\u00e1lia Viana]<\/p>\n<p>\u201cA Leslie est\u00e1 em todas\u201d \u00e9 uma frase que sempre me deixou curiosa. Sobre as tais 10 Medidas, era um projeto de lei encampado pelos procuradores de Curitiba, que buscavam obter todo apoio pol\u00edtico poss\u00edvel \u2013 at\u00e9 do FBI. A foto foi tirada em S\u00e3o Paulo, um dia antes da mensagem, em 17 de maio de 2016, quando Tham\u00e9a participou, junto com Leslie, de uma palestra para 90 membros do MPF paulista. O evento contou tamb\u00e9m com a presen\u00e7a de outros agentes ilustres, como George \u201cRen\u201d McEachern, ent\u00e3o diretor do Esquadr\u00e3o de Corrup\u00e7\u00e3o Internacional do FBI em Washington \u2014 e chefe da Leslie. A palestra teve como objetivo ensinar o funcionamento da FCPA, acr\u00f4nimo em ingl\u00eas, ou FCPA em bom portugu\u00eas que \u00e9 a lei de combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o que explicamos em detalhe no epis\u00f3dio anterior.<\/p>\n<p>Efeito sonoro: ambi\u00eancia cidade de NY<\/p>\n<p>E \u00e9 com essas informa\u00e7\u00f5es que eu chego em Nova York. Sei que agora Leslie trabalha na sede do FBI que fica aqui. Depois da Lava Jato, ela comandou uma das Unidades de Corrup\u00e7\u00e3o Internacional do FBI, em Miami, com foco em investigar casos de corrup\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica do Sul, em especial na Venezuela. \u00c9 uma das quatro unidades semelhantes, todas abertas desde 2015, n\u00e3o por coincid\u00eancia, o mesmo ano em que os EUA entraram com tudo na Lava Jato. O primeiro caminho para chegar at\u00e9 Leslie foi o oficial: pedi uma entrevista atrav\u00e9s da Assessoria de Imprensa do FBI.\u00a0<\/p>\n<p>Agora, dizem que uma jornalista n\u00e3o precisa saber de nada, apenas precisa saber quem sabe. \u00c9 por isso que, em Nova York, eu fui atr\u00e1s de um velho conhecido, o jornalista investigativo Marco Della Stella. Ele \u00e9 italiano e mora nos Estados Unidos, mas a gente sempre se fala em espanhol.\u00a0<\/p>\n<p>[Liga\u00e7\u00e3o Natalia Viana]\u00a0<\/p>\n<p><em>Hola Marco.\u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n<p>[Liga\u00e7\u00e3o Marco Della Stella]\u00a0<\/p>\n<p><em>Hola, buen d\u00eda.\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>[<\/em>Liga\u00e7\u00e3o<em> <\/em>Natalia Viana]\u00a0<\/p>\n<p><em>Gracias por hablar conmigo tempranito.\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>[<\/em>Natalia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>Marco conhece todos os caminhos para obter informa\u00e7\u00f5es por aqui.\u00a0<\/p>\n<p>Efeito sonoro: rebobinar<\/p>\n<p>Sem muito tempo a perder, na minha curta estadia nos EUA, tamb\u00e9m pedi pro Marco levantar tudo o que conseguisse sobre a Leslie Backschies. Garimpando o nome dela na internet, cheguei a uma entrevista dada para a ag\u00eancia de not\u00edcias Associated Press em 2019 sobre a Lava Jato.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s vimos muita atividade na Am\u00e9rica do Sul \u2014 Odebrecht, Petrobras. A Am\u00e9rica do Sul \u00e9 um lugar onde\u2026 N\u00f3s vimos corrup\u00e7\u00e3o. Temos tido muito trabalho ali Esses casos s\u00e3o muito sens\u00edveis politicamente, n\u00e3o somente nos Estados Unidos mas no exterior. N\u00f3s vimos presidentes derrubados no Brasil. Se voc\u00ea est\u00e1 olhando para membros do alto escal\u00e3o de governos, h\u00e1 muitas sensibilidades.\u201d\u00a0<\/p>\n<p>Ou seja: Leslie estava consciente dos impactos pol\u00edticos de investiga\u00e7\u00f5es anticorrup\u00e7\u00e3o. A reportagem afirma que havia reuni\u00f5es trimestrais entre agentes do FBI e advogados do DOJ para coordenar esses casos \u201csens\u00edveis\u201d. Com essas novas informa\u00e7\u00f5es a vontade de falar com\u00a0 Leslie s\u00f3 crescia.<\/p>\n<p>Fim da trilha sonora.<\/p>\n<p>At\u00e9 que o FBI cortou minhas expectativas\u2026 Dupla negativa: n\u00e3o tenho permiss\u00e3o de entrevistar a agente especial Leslie Backschies, nem de visitar o escrit\u00f3rio do FBI em NY. Mas com a ajuda do Marco, eu consegui o telefone, o endere\u00e7o e o email da agente.<\/p>\n<p>Efeito sonoro: som de chamada telef\u00f4nica.<\/p>\n<p><strong>[Voicemail]<\/strong><\/p>\n<p><em>Your call has been forwarded to voicemail, the person you are trying to reach is not available. At the tone, please, record your message<\/em><\/p>\n<p><em>[<\/em>Natalia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>Ol\u00e1, Leslie, aqui \u00e9 a Natalia Viana, sou jornalista da Ag\u00eancia P\u00fablica de Jornalismo Investigativo do Brasil. Estou tentando falar com voc\u00ea para ver se voc\u00ea topa conversar comigo. Eu mandei e-mail tamb\u00e9m, se voc\u00ea quiser entrar em contato.<\/p>\n<p>Sem resposta na primeira liga\u00e7\u00e3o, eu segui tentando.<\/p>\n<p>[Voicemail]\u00a0<\/p>\n<p><em>When you have finished recording you may hang out.<\/em>\u00a0<\/p>\n<p>Efeito sonoro: liga\u00e7\u00e3o n\u00e3o atendida<\/p>\n<p><em>[<\/em>Natalia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>Decidi partir para a \u00faltima cartada: bater na porta do apartamento onde ela mora em NY. Eu t\u00f4 aqui em NY. \u00c9 uma viagem longa.\u00a0<\/p>\n<p>Trilha Sonora + Ambi\u00eancia do metr\u00f4 interno, aviso de porta se fechando.\u00a0<\/p>\n<p>Saindo do metr\u00f4, eu caminhei algumas quadras at\u00e9 chegar na rua de Leslie. Estamos aqui na rua dela. \u00c9 um pr\u00e9dio, \u00e9 um pr\u00e9dio alto, com grandes janelas de vidro, bem moderno, tem apartamentos cujo aluguel est\u00e3o no valor de mais ou menos 7 mil d\u00f3lares, tem uma portaria aqui embaixo. Aqui embaixo tamb\u00e9m tem um banco, o Bank of America, um supermercado de comidas mais chiques, assim. E\u2026 Hi! Tem aqui, isso aqui \u00e9 uns food trucks, uma lojinha de comida na rua, um carrinho de comida na rua. O pr\u00e9dio ocupa quase todo o quarteir\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>Depois de esperar por um tempo, pedi ao porteiro para interfonar para o apartamento. <em>Hi, hello, I\u2019m looking for the owner of apartment B.<\/em><\/p>\n<p>Ele tentou algumas vezes\u2026 e nada\u2026 No fim o porteiro aconselhou que eu ligasse diretamente para ela. Algo que como voc\u00ea ouviu, eu j\u00e1 tinha tentado algumas vezes. Dei a volta no quarteir\u00e3o, esperei um pouco mais e aceitei que n\u00e3o foi dessa vez. J\u00e1 tava voltando pro meu hotel, pensando que comecei mal a jornada aqui nos Estados Unidos, quando no cora\u00e7\u00e3o de Manhattan, uma surpresa:<\/p>\n<p>N\u00e3o imaginava, mas a esta\u00e7\u00e3o de metro d\u00e1 diretamente no memorial de 11 de setembro, embora a gente esteja falando muito nessa \u00e1udioss\u00e9rie sobre as consequ\u00eancias da guerra antiterror e da mudan\u00e7a do FBI depois dos atentados \u00e0s Torres G\u00eameas, mas eu nunca tinha visto esse memorial e ele \u00e9 muito impressionante mesmo. O lugar, no per\u00edmetro onde pelo menos uma das torres existia, voc\u00ea tem um buraco enorme, quadrado, com uma fonte de \u00e1gua como se fosse uma cachoeira nos quatro lados, a \u00e1gua caindo e d\u00e1 pra ouvir o som.\u00a0<\/p>\n<p>O memorial fica pertinho da casa de Leslie, no meio do caminho pro seu trabalho, o enorme e imponente pr\u00e9dio do FBI em Manhattan. Imagino que esse memorial n\u00e3o a deixe esquecer de todas as vidas perdidas e da sua miss\u00e3o de combater o terrorismo internacional. N\u00e3o \u00e9 \u00f3bvio, mas existe uma rela\u00e7\u00e3o entre o atentado de 11 de setembro de 2001 e as investiga\u00e7\u00f5es anticorrup\u00e7\u00e3o contra empresas brasileiras realizadas pelos Estados Unidos durante a Lava Jato. Por isso, talvez a chave esteja justamente em entender como o FBI adotou o contraterrorismo como sua miss\u00e3o n\u00famero 1.\u00a0<\/p>\n<p>Trilha sonora clima interfer\u00eancia\u00a0<\/p>\n<p>E, assim, eu cheguei no livro <em>Inimigos: uma hist\u00f3ria do FBI<\/em>, do jornalista Tim Weiner. Lendo, entendi que desde pelo menos 1935 o FBI \u00e9 uma ag\u00eancia de intelig\u00eancia e contraintelig\u00eancia, com foco em ca\u00e7ar espi\u00f5es e terroristas pelo mundo afora. Grampos ilegais, espionagem de cartas e depois e-mails, infiltra\u00e7\u00f5es de agentes em movimentos sociais, coopta\u00e7\u00e3o de informantes e agentes duplos s\u00e3o estrat\u00e9gias antigas da ag\u00eancia. Mas quem me contou mais sobre o trabalho do FBI foi justamente um ex-agente que estava na ativa durante o 11 de setembro.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Fim da trilha<\/p>\n<p>Na verdade, o sobrenome desse agente voc\u00ea conhece: Youssef. Mas esse outro Youssef, ao contr\u00e1rio do doleiro, atuava do outro lado do balc\u00e3o. Bassem Youssef \u00e9 agente especial aposentado do FBI, e foi um dos primeiros \u00e1rabes a serem contratados para a \u00e1rea de contraterrorismo \u2013 ele nasceu no Egito. E n\u00e3o se trata apenas de uma coincid\u00eancia estarmos atr\u00e1s de dois Youssef\u2019s: tudo, afinal, tem a ver com a mudan\u00e7a de foco do FBI para a luta antiterrorismo e o renovado interesse pela comunidade \u00e1rabe.\u00a0<\/p>\n<p>[Bassem Youssef]\u00a0<\/p>\n<p><em>We\u2019re starting now. Ah, okay. So, my name is Bassem Youssef.\u00a0<\/em><\/p>\n<p>[Dublagem Bassem Youssef]<\/p>\n<p>Ah, ok. Ent\u00e3o, meu nome \u00e9 Bassem Youssef, eu fui recrutado para o FBI em 1986.\u00a0<\/p>\n<p>Quando entrei no FBI, era, voc\u00ea sabe, um sonho de inf\u00e2ncia sendo realizado.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>A entrevista foi realizada em ingl\u00eas, mas aqui ela foi dublada pelo ator Denis Goyos.<\/p>\n<p>[Dublagem Bassem Youssef]<\/p>\n<p>O processo de sele\u00e7\u00e3o e a verifica\u00e7\u00e3o de antecedentes demoraram cerca de dois anos, ent\u00e3o eu comecei na Academia do FBI em 1988. Eu trabalhei em contraterrorismo, mesmo que o contraterrorismo naquela \u00e9poca n\u00e3o fosse muito popular. O tema da Seguran\u00e7a Nacional n\u00e3o era um grande problema at\u00e9 o 11 de Setembro. Mas eu, em especial, fui colocado para agir em contraterrorismo isl\u00e2mico radical, por causa do meu idioma, porque eu falo \u00e1rabe, e essa foi uma das raz\u00f5es pelas quais eu fui recrutado.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Para encontrar Bassem, peguei um avi\u00e3o por tr\u00eas horas para Fort Myers, na Fl\u00f3rida, onde o encontrei em um clube de golfe luxuoso, mas bastante remoto, protegido por seguran\u00e7as e arbustos altos, bem cortados. O lugar parece um daqueles em que executivos se re\u00fanem para fechar neg\u00f3cios milion\u00e1rios, sabe? No sagu\u00e3o, mesas de madeira maci\u00e7a, cadeiras de couro, lustres no teto, papel de parede\u2026 Tudo indica que, depois de sair do FBI, o Bassem n\u00e3o ficou por baixo. Ele conta que logo no come\u00e7o da carreira, ainda nos anos 90, chegou a investigar nos Estados Unidos a liga\u00e7\u00e3o de uma rede de terrorismo que agia na Tr\u00edplice Fronteira, ou seja o interesse na regi\u00e3o vem de d\u00e9cadas.\u00a0<\/p>\n<p>[Dublagem Bassem Youssef]<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a \u00e1rea da Tr\u00edplice Fronteira obviamente \u00e9 um ponto estrat\u00e9gico para o Hezbollah, em particular, a organiza\u00e7\u00e3o terrorista Hezbollah, que \u00e9 um grupo xiita, patrocinado pelo Ir\u00e3. Mas eles t\u00eam bases em diferentes partes do mundo. Ir\u00e3, obviamente, L\u00edbano, e partes da S\u00edria, e at\u00e9 t\u00eam uma boa presen\u00e7a na Ar\u00e1bia Saudita. Mas n\u00e3o era apenas que eles estavam sempre envolvidos em atividades terroristas. Eles estavam de fato envolvidos no que chamamos de RICO, <em>racketeering operation<\/em>\u2026 \u00c9 uma organiza\u00e7\u00e3o criminosa que envolvia v\u00e1rias atividades, como roubo, prostitui\u00e7\u00e3o, drogas, jogos de azar. E, por algum motivo, eles se estabeleceram na \u00e1rea da tr\u00edplice fronteira.\u00a0<\/p>\n<p>[Bassem Youssef]\u00a0<\/p>\n<p><em>They settled in the triborder area.\u00a0<\/em><\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Eu quis falar com o Bassem por ele ter sido um dos primeiros agentes do FBI a fazer investiga\u00e7\u00f5es transnacionais de terrorismo. E tamb\u00e9m porque ele conhece profundamente um dos pontos cruciais da nossa investiga\u00e7\u00e3o: a a\u00e7\u00e3o dos <em>hawalas<\/em>.\u00a0<\/p>\n<p>[Bassem Youssef]\u00a0<\/p>\n<p><em>Hawala is an arabic word, actually.<\/em><\/p>\n<p>[Dublagem Bassem Youssef]<\/p>\n<p><em>Hawala <\/em>\u00e9 uma palavra \u00e1rabe, na verdade significa \u201ctroca de valor\u201d. E ent\u00e3o as <em>Hawalas<\/em> ganharam destaque e ficaram sob uma lupa das ag\u00eancias de intelig\u00eancia, n\u00e3o apenas o FBI e a CIA, mas muitas ag\u00eancias de intelig\u00eancia em todo o mundo, porque essa era a maneira pela qual terroristas em geral, n\u00e3o apenas o Hezbollah, confiavam nas <em>Hawalas<\/em> para poderem ficar fora do radar dos principais bancos e institui\u00e7\u00f5es financeiras. E \u00e9 especificamente para com\u00e9rcio no contexto mul\u00e7ulmano.<\/p>\n<p>[Bassem Youssef]\u00a0<\/p>\n<p>It is specific for muslim type trade.<\/p>\n<p>Trilha sonora com clima de suspense<\/p>\n<p>Voc\u00ea\u00a0 j\u00e1 ouviu como o termo <em>hawala<\/em> e essa tradi\u00e7\u00e3o se conecta a importantes doleiros associados ao in\u00edcio da Lava Jato, como Habib Chater e Alberto Youssef, ambos de ascend\u00eancia libanesa. Mas existe tamb\u00e9m outra coisa que eu queria saber de Bassem, entre os anos de 1996 a 2000, ele foi Legal Attach\u00e9 \u2013 o <em>adido legal,<\/em> na embaixada em Riade na Ar\u00e1bia Saudita. Mas o que faz um adido legal?\u00a0<\/p>\n<p>[Bassem Youssef]\u00a0<\/p>\n<p><em>In fact, the FBI legal Attach\u00e9\u2026<\/em><\/p>\n<p>[Dublagem Bassem Youssef]<\/p>\n<p>Na verdade, o adido legal do FBI \u00e9 o representante do diretor do FBI em solo estrangeiro. Assim, dependendo da \u00e1rea de responsabilidade do adido legal, voc\u00ea \u00e9 basicamente respons\u00e1vel por todos os assuntos, tanto de intelig\u00eancia quanto criminais, dentro daquele pa\u00eds. E o importante \u00e9 que o relacionamento \u00e9 essencial para obter colabora\u00e7\u00e3o com as ag\u00eancias estrangeiras com as quais trabalhamos. E basicamente \u00e9 uma quest\u00e3o de reciprocidade. Queremos compartilhar intelig\u00eancia, queremos receber intelig\u00eancia de voc\u00eas\u2026 Ent\u00e3o, essa \u00e9 a principal responsabilidade do escrit\u00f3rio do adido legal: construir confian\u00e7a com as outras ag\u00eancias.<\/p>\n<p>[Bassem Youssef]<\/p>\n<p>\u2026the level of trust with the other intelligence agencies.\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Era justamente isso o que eu queria entender, o que faz um adido legal na pr\u00e1tica. E conforme a resposta de Bassem Youssef,\u00a0 o principal \u00e9 criar rela\u00e7\u00f5es de confian\u00e7a.\u00a0<\/p>\n<p><em>Okay. And it ends up being personal relationships.\u00a0<\/em><\/p>\n<p>[Bassem Youssef]<\/p>\n<p><em>Absolutely. Absolutely. Yeah.<\/em><\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Ou seja, essas rela\u00e7\u00f5es de confian\u00e7a facilmente se tornam rela\u00e7\u00f5es pessoais. Eu tinha mais perguntas, queria saber como funciona a articula\u00e7\u00e3o entre o FBI e as outras ag\u00eancias que atuam na embaixada.\u00a0<\/p>\n<p>[Bassem Youssef]<\/p>\n<p><em>So at an embassy, you have<\/em><\/p>\n<p>[Dublagem Bassem Youssef]<\/p>\n<p>Em uma embaixada voc\u00ea tem uma mini administra\u00e7\u00e3o. O embaixador representa o presidente ou a Casa Branca. E ent\u00e3o voc\u00ea tem o adido legal representando o diretor do FBI. O da CIA, o diretor da CIA. E o embaixador tamb\u00e9m \u00e9 o chefe do Departamento de Estado. E h\u00e1 muitas outras ag\u00eancias.\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Perguntei como era a coordena\u00e7\u00e3o entre as ag\u00eancias, e se existiam reuni\u00f5es di\u00e1rias, ou seja, a CIA sabe o que o FBI est\u00e1 investigando?<\/p>\n<p>[Dublagem Bassem Youssef]<\/p>\n<p>H\u00e1 compartilhamento e coopera\u00e7\u00e3o dentro dessas ag\u00eancias. Ah, sim, quero dizer, reuni\u00f5es di\u00e1rias, dependendo da necessidade.\u00a0<\/p>\n<p>[Bassem Youssef]<\/p>\n<p>\u2026depending on the need.<\/p>\n<p>Trilha sonora clima interfer\u00eancia\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Repare que ele sempre fala que coordenar intelig\u00eancia \u00e9 um dos atributos do FBI. Isso significa que, embora o FBI n\u00e3o possa realizar investiga\u00e7\u00f5es em solo estrangeiro, a ag\u00eancia comunica tudo o que possa ser de interesse americano ao seu chefe maior, o pr\u00f3prio presidente dos Estados Unidos. No livro <em>Inimigos<\/em>, que j\u00e1 citei aqui, fica claro que nessas reuni\u00f5es entre ag\u00eancias, elas trocam informa\u00e7\u00f5es de intelig\u00eancia que podem ter motiva\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Por exemplo, o FBI foi utilizado na luta anticomunista durante a Guerra Fria, depois atuou espionando l\u00edderes do movimento por direitos civis, como Martin Luther King. A a\u00e7\u00e3o do FBI, portanto, serve a interesses pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Fim da trilha<\/p>\n<p>Bassem Youssef tamb\u00e9m me contou que desde 2001 h\u00e1 um enorme incentivo para que a CIA e o FBI troquem mais informa\u00e7\u00f5es. Existe at\u00e9 um programa que leva agentes do FBI para trabalhar no escrit\u00f3rio da CIA e vice-versa. Ali\u00e1s, era l\u00e1 que ele estava quando aconteceram os atentados de 11 de setembro de 2001.\u00a0<\/p>\n<p>[Dublagem Bassem Youssef]<\/p>\n<p>Quando o 11 de setembro aconteceu, eu estava a caminho do escrit\u00f3rio. Ouvi sobre o ocorrido no r\u00e1dio. E\u2026 E logo em seguida, dois minutos depois, meu pager come\u00e7ou a tocar, dizendo: \u201cN\u00e3o venha para o trabalho hoje\u201d. Ent\u00e3o, isso foi muito estranho. E eu me lembro, havia v\u00e1rios agentes, colegas meus, que tamb\u00e9m estavam alocados na CIA, ligavam e diziam que todos receberam ordens de voltar ao FBI.\u00a0<\/p>\n<p>Trilha sonora clima de suspense<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o sabia, mas a\u00ed foi o come\u00e7o do fim de sua carreira no FBI. Ele foi colocado na geladeira, e ficou meses sem ser convocado para uma nova miss\u00e3o. A discrimina\u00e7\u00e3o era evidente, Bassem Youssef era v\u00edtima de boatos que o culpabilizavam por ter realizado bem o seu trabalho. Ele at\u00e9 tentou denunciar o preconceito por meio dos canais internos, n\u00e3o teve sucesso e acabou processando a Ag\u00eancia.\u00a0<\/p>\n<p>O processo contra o FBI por discrimina\u00e7\u00e3o e persegui\u00e7\u00e3o se arrastou ao longo 12 anos, e, durante esse tempo ele desistiu e se aposentou.\u00a0 A conversa com Bassem me ajudou a entender um grande problema do FBI: em uma institui\u00e7\u00e3o enorme, com quase 40 mil funcion\u00e1rios, o maior instinto \u00e9 o da autopreserva\u00e7\u00e3o. Quem tenta reclamar, pode acabar sofrendo repres\u00e1lias.\u00a0<\/p>\n<p>Foi refrescante ouvir a opini\u00e3o sincera de algu\u00e9m relevante para a luta antiterrorismo no FBI.\u00a0 Para ouvir algum agente que atuou durante a Lava Jato, decidi fazer o mesmo caminho: buscar aqueles que j\u00e1 sa\u00edram da ag\u00eancia. Nessa procura escrevi para muitos ex-agentes que tinha mapeado. Depois de algum tempo, comecei a receber respostas. Steve Moore, por exemplo, foi sol\u00edcito:\u00a0<\/p>\n<p>Efeito sonoro: alerta de leitura de mensagem\u00a0<\/p>\n<p><em>\u201cNatalia, Thanks for reaching out. <\/em>Natalia, obrigada por entrar em contato. Embora eu n\u00e3o tenha interesse em participar da s\u00e9rie, conversei com um colega que foi o Chefe Interino da Unidade de Corrup\u00e7\u00e3o Internacional na Sede do FBI durante aquele per\u00edodo. As informa\u00e7\u00f5es de contato dele s\u00e3o George \u201cRen\u201d McEachern.\u201d\u00a0<\/p>\n<p>Eu j\u00e1 estive com o Ren durante um congresso em 2019, em um elegante hotel em S\u00e3o Paulo. No evento, ele me deu uma entrevista<em> em off,<\/em> mas depois n\u00e3o quis falar oficialmente. Ren se aposentou pouco depois de chefiar a \u00e1rea da FCPA, a lei anticorrup\u00e7\u00e3o americana, e j\u00e1 deu diversas entrevistas.\u00a0<\/p>\n<p>Trilha sonora clima leve<\/p>\n<p>Em entrevista \u00e0 Folha em 2018, ele disse, abre aspas: <em>\u201cCuritiba mandou a mensagem de que o Brasil est\u00e1 ficando limpo. Combater a corrup\u00e7\u00e3o pode ser doloroso, mas \u00e9 mais doloroso quando a corrup\u00e7\u00e3o persiste, cresce e nunca acaba. H\u00e1 muitos exemplos no mundo. J\u00e1 o Brasil parece agora ter um futuro brilhante pela frente.\u201d <\/em>Fecha aspas.<\/p>\n<p><em>Hello Mr. George McEachern, this is Natalia Viana. I\u2019ve reached out via email, but I\u2019m here in the United States.<\/em><\/p>\n<p><em>Efeito sonoro: <\/em>alerta de mensagem<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Finalmente consegui uma resposta por e-mail, mas Ren McEachern, queria ver a prova dos 9. Enviei para ele v\u00e1rias reportagens em ingl\u00eas, incluindo uma sobre a rela\u00e7\u00e3o do FBI com a Lava Jato, datada de 2019. Segui esperando a resposta. E nada. Ent\u00e3o, resolvi investir tempo em outro ex-agente, Patrick Kramer, ex-marine do ex\u00e9rcito e que chegou a ser do servi\u00e7o de intelig\u00eancia durante a Guerra do Golfo. Hoje, ele \u00e9 investigador privado. Educadamente, Patrick me respondeu por e-mail negando a entrevista.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Alerta de leitura de mensagem\u00a0<\/p>\n<p><em>\u201cGood day, Ms. Viana, I appreciate your interest in reaching out to me.<\/em> Agrade\u00e7o seu interesse em entrar em contato comigo. N\u00e3o posso falar com voc\u00ea sobre qualquer trabalho que eu possa ter realizado no assunto em quest\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o foi o fim da linha. Pois no mesmo dia recebi sinal positivo de um personagem importante em toda essa trama: o advogado Lance Jasper. Hoje ele \u00e9 s\u00f3cio de um escrit\u00f3rio de advocacia em uma das avenidas mais concorridas de Los Angeles \u2013 do outro lado do pa\u00eds. Li\u00e7\u00e3o n\u00famero 234 do jornalismo investigativo: se uma fonte topa falar, voc\u00ea tem que ir at\u00e9 onde ela est\u00e1.\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>[Ricardo Terto]<\/p>\n<p>Voc\u00ea est\u00e1 ouvindo uma \u00e1udio s\u00e9rie, Original Audible. Para conhecer mais hist\u00f3rias surpreendentes e imersivas como est\u00e1, acesse o site audible.com.br. Fa\u00e7a sua conta e teste gr\u00e1tis por 30 dias ou por 3 meses, se voc\u00ea for membro Amazon Prime.<\/p>\n<p>[Efeito sonoro: ambi\u00eancia voo]\u00a0<\/p>\n<p><em>It\u2019s my pleasure to welcome you today. We have been assured of personal on-time departure of 1.55 with an estimated arrival time of 4.46\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Efeito sonoro: avi\u00e3o decolando\u00a0<\/p>\n<p>Em Los Angeles \u2013 ou \u201cELAI\u201d, como se fala por aqui \u2013 a vibe \u00e9 totalmente diferente. Nada de sal\u00f5es escondidos por tr\u00e1s de muros altos. Aqui quem tem dinheiro faz quest\u00e3o de mostrar, ostenta\u00e7\u00e3o \u00e9 a regra. Los Angeles \u00e9 uma cidade muito instagram\u00e1vel, corpos sarados e bronzeados caminhando pela orla durante o dia e baladas durante toda a noite.<\/p>\n<p>Trilha sonora eletr\u00f4nica<\/p>\n<p>Isso que voc\u00eas acabaram de escutar \u00e9 o som do quarto do meu hotel em Los Angeles. Cheguei num domingo no fim da tarde, a entrevista com Lance seria na segunda cedinho, mas a festa no <em>rooftop<\/em> n\u00e3o me deixava dormir nem trabalhar. E olha, tinha que me preparar porque essa entrevista deu trabalho. Ele j\u00e1 tinha sido convidado v\u00e1rias vezes para falar sobre a investiga\u00e7\u00e3o da Petrobras, mas nunca tinha topado. E como bom advogado, estava preocupado em n\u00e3o falar nada que estivesse fora do <em>script<\/em>.<\/p>\n<p>[Secret\u00e1ria]\u00a0<\/p>\n<p><em>Hi, how are you? Are you here for Lance?<\/em>\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Depois de esperar alguns minutos na sala, Lance Jasper finalmente apareceu\u2026<\/p>\n<p>[Lance Jasper]<em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Hello! Hi, nice to meet you in person.<\/em><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p><em>Nice to meet you.\u00a0<\/em><\/p>\n<p>[Lance Jasper]<em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Sorry to make you wait, I was on a phone call.<\/em><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p><em>Don\u2019t worry.\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Finalmente\u00a0 vamos ouvir um investigador americano que de fato atuou nos casos contra empresas brasileiras. A entrevista realizada em ingl\u00eas foi dublada pelo ator Aury Porto. \u00a0<\/p>\n<p>[Lance Jasper]<\/p>\n<p><em>My name is Lance Jasper.<\/em><\/p>\n<p>[Dublagem Lance Jasper]<\/p>\n<p>Meu nome \u00e9 Lance Jasper, sou advogado em Los Angeles e conduzi a investiga\u00e7\u00e3o da Petrobras e da Lava Jato para a Comiss\u00e3o de Valores Mobili\u00e1rios dos Estados Unidos. Atualmente, sou s\u00f3cio de um escrit\u00f3rio de advocacia internacional chamado Aiken Gump, no grupo de investiga\u00e7\u00f5es e crimes de colarinho branco, e aconselho empresas sobre compliance e investiga\u00e7\u00f5es de valores mobili\u00e1rios, para que elas possam focar em seus neg\u00f3cios.<\/p>\n<p>[Lance Jasper]<\/p>\n<p>\u2026<em>to focus on their business.<\/em><\/p>\n<p>Trilha sonora leve, momento explica\u00e7\u00e3o\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Lance deixou a carreira p\u00fablica e hoje trabalha como advogado, defendendo empresas do mesmo tipo de investiga\u00e7\u00f5es que ele realizava anteriormente. Ele fez o que fazem muitos investigadores americanos, uma dan\u00e7a de cadeiras que por aqui \u00e9 conhecida como <em>revolving doors<\/em> ou porta girat\u00f3ria. Empresas investigadas costumam contratar membros do governo que eram justamente quem as investigava. No seu curr\u00edculo, ele destaca o caso da\u00a0 Petrobras. Sem citar o nome da empresa: diz apenas que ajudou o governo americano a garantir uma multa recorde de uma petroleira.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>[material de arquivo]<\/p>\n<p>A Petrobras decidiu pagar para n\u00e3o ter que enfrentar a Justi\u00e7a americana, o acordo para encerrar as investiga\u00e7\u00f5es custou R$853 milh\u00f5es de d\u00f3lares, o que incluindo impostos equivale a R$3,6 bilh\u00f5es de reais para a empresa.\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Lance conseguiu esse caso de sucesso, que deu uma boa guinada na sua vida, quando trabalhava na SEC, a <em>Securities and Exchange Commission<\/em> que \u00e9 a ag\u00eancia respons\u00e1vel por fiscalizar e investigar irregularidades relacionadas ao mercado financeiro. A Petrobras vende a\u00e7\u00f5es na bolsa de valores de Nova York e \u00e9 por isso que foi investigada. Sabemos que a Petrobras foi investigada tanto pela SEC como pelo Departamento de Justi\u00e7a. Ent\u00e3o, perguntei a Lance qual era a diferen\u00e7a entre os dois \u00f3rg\u00e3os.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>[Dublagem Lance Jasper]<\/p>\n<p>A SEC e o DOJ s\u00e3o diferentes em alguns aspectos importantes. Um deles \u00e9 que a SEC \u00e9 uma ag\u00eancia civil, ent\u00e3o, se algo deu errado, a SEC vai aplicar multas, ou \u00e0s vezes vai expulsar algu\u00e9m do setor, caso tenha feito algo errado, mas essas s\u00e3o san\u00e7\u00f5es civis. O Departamento de Justi\u00e7a \u00e9 uma ag\u00eancia criminal. Ele acusa pessoas e empresas de crimes.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Mas as duas ag\u00eancias trabalham com aquela lei, a FCPA, a lei anticorrup\u00e7\u00e3o que permite que elas possam se meter a julgar e condenar casos de corrup\u00e7\u00e3o mundo afora.\u00a0<\/p>\n<p>[Dublagem Lance Jasper]<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o da Petrobras, e falando apenas do ponto de vista da SEC e do que est\u00e1 dispon\u00edvel no registro p\u00fablico, n\u00e3o foi um caso t\u00edpico do FCPA, porque n\u00e3o se tratava de algu\u00e9m subornando um funcion\u00e1rio para conseguir um contrato ou acesso a algo. Era um esquema de apadrinhamento pol\u00edtico, onde os benef\u00edcios para a Petrobras como empresa eram muito menos claros do que se eles estivessem tentando conseguir um contrato ou algo assim. E voc\u00ea pode ver pelos registros p\u00fablicos da SEC, que para a SEC n\u00e3o era um caso de FCPA. Assim, a perspectiva da SEC era que n\u00e3o era aceit\u00e1vel vender valores mobili\u00e1rios para investidores na Bolsa de Nova York e dizer que n\u00e3o havia corrup\u00e7\u00e3o com pol\u00edticos brasileiros, quando havia tantas evid\u00eancias de que existia.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Para realizar essa investiga\u00e7\u00e3o, o Lance Jasper teve durante muito tempo contato direto com procuradores brasileiros e viajou pelo menos duas vezes ao Brasil. Ele estava presente no interrogat\u00f3rio de Nestor Cerver\u00f3, no Rio de Janeiro, em 2016, entrevistado no terceiro epis\u00f3dio dessa s\u00e9rie.\u00a0<\/p>\n<p>[Dublagem Lance Jasper]\u00a0<\/p>\n<p>Eu me lembro de que foi uma \u00e9poca muito interessante para estar no Brasil, uma \u00e9poca muito intensa. Fiquei em um hotel no Rio durante uma das minhas viagens, que n\u00e3o era longe de Ipanema. E era bem em frente ao lugar onde estava, havia uma grande tenda ol\u00edmpica que vendia produtos das Olimp\u00edadas. E eu comprei, eu tenho uma filha mais nova com defici\u00eancia, e comprei para ela uma boneca das Paralimp\u00edadas que ela ainda tem, achei muito fofa.\u00a0<\/p>\n<p>Mas s\u00f3 me lembro de ser um momento muito s\u00e9rio para estar no Brasil e tentei ser respeitoso quanto a isso. Sabe, eu estava l\u00e1 com um caso que estava investigando, era um caso grande. Mas havia muito mais acontecendo al\u00e9m disso. E \u00e0s vezes, eu vou admitir, porque \u00e0s vezes voc\u00ea olha para tr\u00e1s e \u00e9 meio, \u00e9 bobo vir de outro pa\u00eds e voc\u00ea n\u00e3o\u2026\u00a0<\/p>\n<p>Aqui est\u00e1 um exemplo que eu vou dar.\u00a0 Eu me lembro de correr do hotel at\u00e9 a tenda ol\u00edmpica porque estava preocupado com os mosquitos. Porque estava com medo do Zika. E s\u00f3 penso que, pensando agora, isso \u00e9 meio bobo. Esse tipo de coisa, tipo, o americano com medo de mosquitos correndo pela praia, sabe? (risos)<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>De fato, o ano de 2016 foi intenso: tivemos Ol\u00edmpiadas no Brasil, o impeachment de Dilma Rousseff e o surto do zika v\u00edrus. Olhando em retrospecto parecia o pren\u00fancio do que estava por vir nos anos seguintes: pandemia, amea\u00e7as de golpe de Estado, Donald Trump de volta \u00e0 Casa Branca. Como eu queria mais informa\u00e7\u00f5es sobre as visitas do Lance ao Brasil, tentei quebrar um pouco mais o gelo, pegando o gancho de um coment\u00e1rio sobre o cafezinho brasileiro.\u00a0<\/p>\n<p><em>You mentioned that there was always strong coffee.<\/em><\/p>\n<p>[Dublagem Lance Jasper] <strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Sim. Sim. Meus colegas no Brasil brincavam com o caf\u00e9 americano. Eles o chamavam de <em>chaf\u00e9<\/em> porque \u00e9 fraco como ch\u00e1. Ent\u00e3o, tomei alguns caf\u00e9s muito bons e muito fortes durante as entrevistas no Brasil.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Claro que minha inten\u00e7\u00e3o n\u00e3o era comparar o caf\u00e9 brasileiro ao americano, eu queria saber como foram essas entrevistas feitas com os delatores brasileiros.<\/p>\n<p>[Dublagem Lance Jasper]\u00a0<\/p>\n<p>N\u00e3o. Posso dizer muito pouco sobre as entrevistas especificamente porque foram confidenciais e n\u00e3o p\u00fablicas.\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Os detalhes dos interrogat\u00f3rios e os termos dos acordos permanecem confidenciais at\u00e9 nos Estados Unidos, por isso Lance n\u00e3o tem permiss\u00e3o para dar detalhes. Mas ele falou sobre como foi colaborar com os procuradores de Curitiba.\u00a0<\/p>\n<p>[Dublagem Lance Jasper]\u00a0<\/p>\n<p>Acho que foi muito produtivo. Achei meus colegas da for\u00e7a-tarefa profissionais muito inteligentes e bons no que faziam. E eles eram colaborativos. Entendiam que os Estados Unidos tinham interesse nisso porque a Petrobras vendia muitas a\u00e7\u00f5es nos Estados Unidos. Esta \u00e9 apenas a minha perspectiva, n\u00e3o posso falar por eles, mas acho que entenderam que seria do interesse do Brasil ter uma rela\u00e7\u00e3o colaborativa, em vez de uma conflitiva. N\u00e3o era uma situa\u00e7\u00e3o em que os americanos iam aparecer e dizer a eles o que fazer. E eu conheci alguns deles\u2026 jantamos em uma churrascaria em Curitiba e estava delicioso. E eu realmente gostei deles tamb\u00e9m como pessoas. Achei que eram pessoas agrad\u00e1veis e inteligentes que estavam tentando tornar o pa\u00eds um lugar melhor.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Agora eu pergunto: enquanto a Petrobras \u00e9 uma estatal de capital aberto, ou seja, com a\u00e7\u00f5es na Bolsa de Valores de NY, a Odebrecht era uma empresa familiar\u2026 Ent\u00e3o, quais os crit\u00e9rios para que ela fosse investigada nos Estados Unidos?\u00a0<\/p>\n<p>[Dublagem Lance Jasper]\u00a0<\/p>\n<p>Acho que esse \u00e9 um bom ponto. Existe uma grande diferen\u00e7a entre uma empresa que vende um monte de valores mobili\u00e1rios para investidores americanos e uma que n\u00e3o vende. Neste caso, a Odebrecht n\u00e3o foi uma investiga\u00e7\u00e3o da SEC por esse motivo. Foi uma investiga\u00e7\u00e3o do Departamento de Justi\u00e7a. E posso entender isso, porque a quest\u00e3o \u00e9 que, cara, h\u00e1 realmente uma conex\u00e3o muito menor com os Estados Unidos, mas o valor do dinheiro e as penalidades e coisas do tipo ainda s\u00e3o realmente grandes, e o impacto ainda \u00e9 realmente grande.\u00a0<\/p>\n<p>E, assim, a vis\u00e3o dos Estados Unidos, se tocar nos Estados Unidos, ser\u00e1 obrigado a cumprir com as leis dos Estados Unidos. E isso incluir\u00e1 o FCPA, a lei de pr\u00e1ticas de corrup\u00e7\u00e3o no exterior, que basicamente diz que voc\u00ea n\u00e3o pode ter uma conex\u00e3o comercial com os Estados Unidos e subornar funcion\u00e1rios estrangeiros como parte do seu neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>O que ele t\u00e1 dizendo \u00e9 que havia de fato uma raz\u00e3o muito mais concreta para se investigar a Petrobras do que a Odebrecht, j\u00e1 que a empreiteira era uma empresa brasileira, de capital fechado, pagando propina com dinheiro brasileiro para pol\u00edticos brasileiros\u2026 ou seja, os atos de corrup\u00e7\u00e3o da Odebrecht n\u00e3o tinham tanto a ver com os americanos, a n\u00e3o ser pelo fato de que algumas das reuni\u00f5es entre os articuladores do esquema ocorreram aqui. Eu ainda tentei arrancar dele a informa\u00e7\u00e3o sobre como come\u00e7ou a investiga\u00e7\u00e3o da SEC, perguntei algumas vezes, de jeitos diferentes.\u00a0<\/p>\n<p>[Dublagem Lance Jasper]\u00a0<\/p>\n<p>O que posso dizer publicamente sobre isso \u00e9 que a SEC e o Departamento de Justi\u00e7a tinham cada um uma investiga\u00e7\u00e3o relacionada \u00e0 Petrobras. Havia tamb\u00e9m muitas outras investiga\u00e7\u00f5es relacionadas \u00e0 Petrobras envolvendo outras empresas como Odebrecht e Braskem. Trabalhamos em paralelo, e \u00e0s vezes coordenamos, mas tomamos nossas pr\u00f3prias decis\u00f5es. N\u00e3o posso divulgar neste caso quem abriu a investiga\u00e7\u00e3o primeiro, mas posso dizer que, frequentemente, as ag\u00eancias\u2026 As ag\u00eancias abrem suas pr\u00f3prias investiga\u00e7\u00f5es, mas \u00e0s vezes o Departamento de Justi\u00e7a encaminha um caso para a SEC ou a SEC encaminha um caso para o Departamento de Justi\u00e7a.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>A\u00ed poderia existir uma dica importante. Como j\u00e1 ouvimos nos outros epis\u00f3dios, as petroleiras americanas estavam pressionando a embaixada a agir contra a lei do pr\u00e9-sal, ent\u00e3o, n\u00e3o seria imposs\u00edvel que a investiga\u00e7\u00e3o tivesse surgido de um pedido do Departamento de Estado, de um embaixador, ou at\u00e9 de uma dica an\u00f4nima\u2026 Porque uma coisa \u00e9 certa: existem muitas empresas corruptas no mundo, ent\u00e3o como a SEC decide que empresa vai investigar?\u00a0<\/p>\n<p>[Dublagem Lance Jasper]\u00a0<\/p>\n<p>A maioria dos casos que a SEC abre vem do que chamamos de dicas, reclama\u00e7\u00f5es e encaminhamentos. Isso pode ser algu\u00e9m que reclama que foi v\u00edtima de fraude, por exemplo. Outro exemplo pode ser que n\u00f3s recebemos um encaminhamento da entidade que regula os corretores de a\u00e7\u00f5es, e eles dizem que observaram uma atividade de mercado estranha e talvez a gente queira investigar. Mas a SEC tamb\u00e9m monitora os mercados e as not\u00edcias e quando v\u00ea algo, decide investigar.\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Nesse jogo de esconde-esconde, a resposta para minha pergunta principal continuava distante: Os EUA est\u00e3o por tr\u00e1s da Lava Jato ou isso \u00e9 s\u00f3 uma teoria da conspira\u00e7\u00e3o? Lance Jasper j\u00e1 ouviu muitas teorias, e tinha uma vis\u00e3o clara sobre o assunto.\u00a0<\/p>\n<p>[Dublagem Lance Jasper]\u00a0<\/p>\n<p>E, assim como nos Estados Unidos, acho que o Brasil tem teorias da conspira\u00e7\u00e3o e desinforma\u00e7\u00e3o circulando por a\u00ed. E eu n\u00e3o posso entrar em todos os detalhes por causa da natureza do meu trabalho, mas posso dizer que isso, o esquema de patronagem pol\u00edtica, a corrup\u00e7\u00e3o na Petrobras, foi uma coisa muito real que aconteceu. Eu vi os documentos. Conheci pessoas-chave. Quero dizer, eu estive cara a cara com pessoas-chave nisso. Foi algo real. E as evid\u00eancias descobertas pela for\u00e7a-tarefa e que se tornaram p\u00fablicas atrav\u00e9s do juiz Moro e dos depoimentos p\u00fablicos de pessoas como Paulo Roberto Costa, detalham exatamente como isso aconteceu.\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Sim, sabemos, houve corrup\u00e7\u00e3o. Mas o que ele est\u00e1 dizendo puxa um fio do que foi falado no decorrer dessa s\u00e9rie: h\u00e1 diferentes tipos de corrup\u00e7\u00e3o, entre eles a patronagem, que \u00e9 um modelo de financiamento de todo um sistema. Para o Lance, isso \u00e9 diferente de uma propina ou suborno, quando um pol\u00edtico recebe uma verba para conseguir uma vantagem ou um contrato espec\u00edfico. Justamente por isso existem v\u00e1rias cr\u00edticas sobre a aplica\u00e7\u00e3o da FCPA contra a Petrobras e Odebrecht, perguntei o que ele achava disso.<\/p>\n<p>[Dublagem Lance Jasper]\u00a0<\/p>\n<p>Eu acho que entendo a cr\u00edtica. Acho que se voc\u00ea sair do caso e pensar, bem, isso \u00e9 uma empresa brasileira, uma empresa nacional de petr\u00f3leo brasileira\u2026 E voc\u00ea poderia ver a hist\u00f3ria como se os Estados Unidos tivessem vindo aqui. Eles obtiveram um veredicto de quase 2 bilh\u00f5es de d\u00f3lares contra essa empresa. E isso teve consequ\u00eancias reais para as pessoas no Brasil. Pessoas que trabalhavam nessa empresa e que, ent\u00e3o, perderam seus empregos. E houve outros efeitos disso. Ent\u00e3o, eu entendo a cr\u00edtica nesse sentido.\u00a0<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, se a pergunta \u00e9, bem, por que isso \u00e9 um problema dos Estados Unidos, acho que algu\u00e9m da \u00e1rea de aplica\u00e7\u00e3o da lei diria, bem, isso se tornou problema dos Estados Unidos quando a Petrobras veio e vendeu 10 bilh\u00f5es de d\u00f3lares em valores mobili\u00e1rios, sem falar sobre o que estava acontecendo com a corrup\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, o impacto que estava tendo nos grandes contratos, nas grandes refinarias, essa seria a perspectiva da SEC.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 como se os Estados Unidos tivesse vindo e pegado um monte de dinheiro, certo, pra comprar coisas bacanas com isso. Muito do dinheiro ficou no Brasil e muito foi para investidores que foram prejudicados. E acho que a \u00faltima coisa que eu diria \u00e9 que n\u00e3o \u00e9 bom deixar esses grandes esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o continuarem porque isso prejudica as pessoas a longo prazo. Ent\u00e3o, minha explica\u00e7\u00e3o para aqueles que n\u00e3o gostam do resultado disso, e eu entendo, \u00e9 que eu espero que a longo prazo seja melhor para o Brasil.<\/p>\n<p>[Lance Jasper]\u00a0<\/p>\n<p><em>I hope in the long run, it is better for Brazil.<\/em><\/p>\n<p>Efeito sonoro: pausa<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Mas ser\u00e1 mesmo que a melhor estrat\u00e9gia de combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o global \u00e9 permitir que um pa\u00eds com v\u00e1rios interesses econ\u00f4micos decida qual, como e quando investigar as empresas estrangeiras? Lance Jasper me confidenciou que tem sentimentos conflitantes sobre isso:\u00a0<\/p>\n<p><em>But you also mentioned before that you had mixed feelings about the jurisdiction, criminal jurisdiction of the U.S. Can you explain that?<\/em>\u00a0<\/p>\n<p>[Dublagem Lance Jasper]\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Eu tenho, porque acho que isso tende a colocar os Estados Unidos em um papel de pol\u00edcia mundial. E h\u00e1 pontos positivos e negativos nisso, certo? O ponto positivo \u00e9 que os Estados Unidos est\u00e3o em uma posi\u00e7\u00e3o para combater a corrup\u00e7\u00e3o globalmente, a lavagem de dinheiro, o tr\u00e1fico e algumas dessas quest\u00f5es que voc\u00ea gostaria que algu\u00e9m enfrentasse. E, para o bem ou para o mal, os Estados Unidos t\u00eam sido um dos principais players nisso, devido ao seu tamanho. Mas tamb\u00e9m acho que h\u00e1 preocupa\u00e7\u00e3o em respeitar outros pa\u00edses e a harmonia com outros pa\u00edses.<\/p>\n<p>Trilha sonora clima interfer\u00eancia\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Tem uma coisa que n\u00e3o se pode negar: Lance, aparentemente, tem uma carreira de sucesso\u00a0 depois do caso da Petrobras. Imagine um homem de meia idade, loiro, com olhos azuis e um rosto amig\u00e1vel, vestido perfeitamente com um palet\u00f3 bem cortado. O escrit\u00f3rio dele atende grandes clientes, e tudo reflete esse posicionamento de mercado: desde a roupa da recepcionista at\u00e9 as luzes escondidas nas paredes, os quitutes finos e ch\u00e1s que s\u00e3o oferecidos na sala de reuni\u00e3o. \u00c9 por isso que, cuidadoso, ele pediu para ouvir tudo o que falou na entrevista, algo n\u00e3o muito comum no jornalismo. E eu expliquei para a Amanda e a Alice o caos que foi esse processo:<\/p>\n<p>O que para mim foi bem interessante nessas conversas, \u00e9 que eles morrem de preocupa\u00e7\u00e3o de falar com jornalista estrangeiro, e principalmente de divulgar qualquer informa\u00e7\u00e3o que possa ser classificada, porque sen\u00e3o eles podem ser perseguidos, processados e presos. Ficou muito claro que eles s\u00e3o muito assim, \u201cn\u00e3o, eu preciso cuidar do interesse americano\u201d, o tempo inteiro.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o Lance, olha s\u00f3, eu mandei as perguntas antes. Ele me mandou, a gente teve uma conversa inicial, eu anotei as respostas em bullet points, mandei pra ele e falei, olha, \u00e9 isso que voc\u00ea falou que voc\u00ea vai me falar. Depois ele revisou e isso me mandou. A\u00ed eu fui l\u00e1 fiz a entrevista, durou uma hora e vinte depois da entrevista eu dei o contratinho pra ele e falei assim, \u201cah ent\u00e3o, mas eu vou revisar essa entrevista antes de assinar\u201d\u00a0<\/p>\n<p>[Alice]\u00a0<\/p>\n<p>Ele quer ouvir?<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Ele queria ouvir antes de assinar. A\u00ed eu falei, eu n\u00e3o vou embora sem essa assinatura desse homem, sen\u00e3o eu vim at\u00e9 aqui, vim at\u00e9 Los Angeles. A\u00ed ele falou assim, \u201cn\u00e3o, eu posso ouvir agora\u201d. A\u00ed eu falei, \u201cent\u00e3o ou\u00e7a agora\u201d. A\u00ed eu sentei do outro lado da mesa dele.\u00a0<\/p>\n<p>[Alice]\u00a0<\/p>\n<p>Vou esperar.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Ele falou, vai almo\u00e7ar. Eu falei, n\u00e3o vou almo\u00e7ar.\u00a0<\/p>\n<p>[Amanda Audi]<\/p>\n<p>Ele ouviu por uma hora e vinte?<\/p>\n<p>[Natalia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>Ele colocou no rapidinho, demorou uns 50 minutos ele ouvindo da\u00ed eu fiquei l\u00e1 na frente, falei, \u201cn\u00e3o saio daqui pra nada, n\u00e3o vou nem ao banheiro\u201d.<\/p>\n<p>Ainda bem que voc\u00ea n\u00e3o perdeu nada de relevante, foi s\u00f3 preciosismo mesmo. No final, deu certo, entrevista garantida. Ainda assim, eu continuava tentando falar com alguns dos agentes do FBI. Depois de v\u00e1rias tentativas, eis que recebo uma resposta positiva:\u00a0<\/p>\n<p>Efeito sonoro: Alerta de mensagem\u00a0<\/p>\n<p><em>\u201cI could talk about my journey from teaching to the FBI back to teaching\u201d<\/em><\/p>\n<p>Quase ca\u00ed pra tr\u00e1s, enquanto lia a mensagem de uma agente do FBI topando uma entrevista. Seu nome \u00e9 June Drake. E como todos os demais, tudo o que eu sabia sobre ela at\u00e9 ent\u00e3o se resumia \u00e0s mensagens da Vaza Jato.\u00a0<\/p>\n<p>Trilha sonora clima de interfer\u00eancia<\/p>\n<p>Segundo os di\u00e1logos vazados, o adido-adjunto do FBI, David Williams, buscou informa\u00e7\u00f5es com June para ajudar a quebrar a criptografia do sistema MyWebDay, que reunia contabilidade de propinas da Odebrecht. Lembrando que toda essa comunica\u00e7\u00e3o era feita na informalidade, na base da \u201cintel\u201d, longe dos olhos do governo brasileiro. Al\u00e9m disso, quando os procuradores come\u00e7aram a olhar os escrit\u00f3rios ligados \u00e0 empresa Mossack Fonseca \u2014 aquela dos Panam\u00e1 Papers \u2014 outras mensagens indicavam que a PF estava fazendo a ponte com o FBI para pedir ajuda para apreender bases de dados sobre a empresa.<\/p>\n<p>No meio disso tudo, estava a jovem agente do FBI, June Drake. Em de 31 de agosto de 2016, ela fez uma visita ao MPF de Curitiba para pedir informa\u00e7\u00f5es sobre a Mossack Fonseca e foi apresentada como \u201csubstituta\u201d do Patrick Kramer, aquele, que hoje trabalha como investigador privado. Segundo os di\u00e1logos, os agentes do FBI n\u00e3o sa\u00edram dessa visita com muita coisa e desta vez, foram encaminhados para a \u00e1rea de coopera\u00e7\u00e3o internacional da PGR, como manda o figurino. Resolvi encarar a ponte a\u00e9rea, mais uma vez em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Fl\u00f3rida, agora para uma cidadezinha sonolenta chamada Mount Dora.<\/p>\n<p>Efeito sonoro: ambi\u00eancia voo\u00a0<\/p>\n<p>G<em>ood morning and welcome aboard, my name is Julianne, I\u2019m going to be your flight leader on today\u2019s flight and I\u2019m assisted by three other safety presentations of our Airbus 321<\/em>\u00a0<\/p>\n<p>Cheguei tarde da noite, mas estava t\u00e3o ansiosa pela entrevista que mal dormi. Mount Dora \u00e9 um para\u00edso dos aposentados, com seus habitantes simp\u00e1ticos e a grama sempre verde, o que explica o constante barulho de cortadores de grama por toda parte.<\/p>\n<p>Efeito sonoro: cortadores de grama\u00a0<\/p>\n<p>Foi nessa cidadezinha que June conseguiu um emprego depois de trabalhar por mais de dez anos no FBI. Aqui, ela tenta se reinventar: virou professora de escola secund\u00e1ria. De fato, poucos dias antes da minha chegada, reparei uma coisa curiosa: a June trocou a foto do seu perfil no LinkedIn, de uma imagem de \u00f3culos escuros dentro de um helic\u00f3ptero, uma refer\u00eancia aos tempos de FBI, para uma foto mais meiga, em tons pasteis, longos cabelos negros solto e um sorriso doce diante de uma pintura colorida escrita: \u201cbe love\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>Muito obrigada por falar comigo. Eu vou come\u00e7ar pedindo para voc\u00ea se apresentar.<\/p>\n<p>[June Drake]<\/p>\n<p>Eu sou June Drake, ou Juni Draki no portugu\u00eas.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>A nova imagem de June se materializava tamb\u00e9m ao vivo. Uma mulher de trinta e poucos anos, cabelos negros, olhos azuis, \u00f3culos redondos e um vestido branco, uma imagem muito distinta do que os filmes americanos nos fizeram imaginar de uma agente do FBI. Nossa entrevista \u00e9 em portugu\u00eas, idioma que June domina com flu\u00eancia, apesar de eu ter que relembrar algumas palavrinhas.\u00a0<\/p>\n<p>[June Drake]<\/p>\n<p>Eu sou da Fl\u00f3rida, estudei na Universidade da Fl\u00f3rida. Tenho uma licenciatura em antropologia e um mestrado em ci\u00eancias forenses.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>Enquanto trabalhava no FBI, atuou como Assistente Legal Adjunta no Consulado em S\u00e3o Paulo e na embaixada em Bras\u00edlia. Fora isso, ela estuda portugu\u00eas do Brasil h\u00e1 pelo menos 12 anos. Foi pelo seu background em\u00a0 antropologia que eu quis perguntar pra ela: o Brasil \u00e9 um pa\u00eds mais corrupto que os demais?\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>[June Drake]<\/p>\n<p>N\u00e3o. Acho que n\u00e3o. A corrup\u00e7\u00e3o existe em muitas\u2026 em muitas sociedades. Existe no M\u00e9xico. \u00c9 muito forte l\u00e1, posso dizer. Mas na Am\u00e9rica Latina, acho que tem uma liga\u00e7\u00e3o com governos militar, regimes militares. E isso aconteceu em muitos pa\u00edses. Eu falei com meus alunos hoje, isso aconteceu em Guatemala, El Salvador, Nicar\u00e1gua. Est\u00e1 acontecendo agora em Venezuela, Brasil, Argentina.\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>A resposta me surpreendeu, principalmente por vir de uma ex-agente do FBI. Mas talvez ela tenha raz\u00e3o. Afinal, se olharmos com cuidado para a hist\u00f3ria que viemos destrinchando nessa s\u00e9rie, fica bem claro que a m\u00e1quina de propinas da Odebrecht nasceu mesmo l\u00e1 na \u00e9poca da ditadura, com os primeiros grandes contratos com o governo federal, ou seja, quanto maior a censura contra a imprensa, que suprime s\u00e9ries como essa daqui, mais f\u00e1cil a corrup\u00e7\u00e3o se entranhar no governo e na sociedade.\u00a0<\/p>\n<p>E deixa eu s\u00f3 te fazer uma pergunta que os meus ouvintes v\u00e3o fazer. Voc\u00ea sabe que o governo americano apoiou a maior parte desses regimes autorit\u00e1rios.\u00a0<\/p>\n<p>[June Drake]\u00a0<\/p>\n<p>Sim, existe umas coisas. Eu estudei na Escola das Am\u00e9ricas, School of Americas. Sim, eu sei um pouco disso. N\u00e3o muito.\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>N\u00e3o sei dizer se June \u00e9 uma agente t\u00edpica do FBI. Al\u00e9m de estarmos sentadas em uma sala de aula com desenhos coloridos na parede, est\u00e1 claro que ela \u00e9 progressista, quer dizer, democrata, segundo a divis\u00e3o pol\u00edtica estadunidense. Ela decidiu ingressar no FBI movida por uma vontade nobre de lidar com casos de viola\u00e7\u00e3o de direitos humanos. Mas como ela foi parar no Brasil, investigando casos de corrup\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>[June Drake]\u00a0<\/p>\n<p>Tive um mentor com quem trabalhei no meu primeiro escrit\u00f3rio, Phoenix, Arizona, ele fez um trabalho com a sua igreja no Brasil. Falava muito bem o portugu\u00eas. Se tornou agente especial do FBI. Trabalhei com ele no Phoenix e ele se tornou um adido na Embaixada dos Estados Unidos no Brasil. E ele falou para mim como j\u00e1 falava espanhol muito bem. E j\u00e1 tinha vontade de aprender o portugu\u00eas. \u201cNossa, voc\u00ea deveria estudar o portugu\u00eas\u201d e comecei a estudar o portugu\u00eas depois disso. E acabei com a oportunidade de trabalhar no Brasil no ano 2016. Precisamente quando come\u00e7aram os problemas, as quest\u00f5es das investiga\u00e7\u00f5es da corrup\u00e7\u00e3o internacional.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>Quando ela falou o nome deste agente, levei um choque. Era um dos agentes que eu estava procurando: David Williams.\u00a0<\/p>\n<p>[June Drake]\u00a0<\/p>\n<p>Infelizmente, David faleceu h\u00e1\u2026 Inesperadamente\u2026 Quando ele terminou seu tempo no Brasil, voltou para Phoenix e saiu a fazer cooper e teve um problema do cora\u00e7\u00e3o e faleceu.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>Jura?\u00a0<\/p>\n<p>[June Drake]\u00a0<\/p>\n<p>Quando eu trabalhei no Brasil pela segunda vez, recebi not\u00edcias de isso e fiquei muito\u2026 muito\u2026 Nossa. Sim, muito triste.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>E David Williams n\u00e3o foi o \u00fanico agente que June mencionou. Logo que cheguei, eu perguntei sobre todos os agentes que eu conhecia por nome. Ela fez um retrato v\u00edvido, por exemplo, de Patrick Kramer, um homem militar, assim meio r\u00edspido, seco e disciplinado, exatamente como eu tinha imaginado. Ela tamb\u00e9m avisou que quem ainda est\u00e1 no FBI jamais concederia uma entrevista. E o que voc\u00ea pode falar sobre o trabalho em si que voc\u00ea fez, o seu dia a dia?\u00a0<\/p>\n<p>[June Drake]\u00a0<\/p>\n<p>O trabalho \u00e9 da corrup\u00e7\u00e3o internacional nas nossas embaixadas e consulados, maiormente, \u00e9 fazer liga\u00e7\u00f5es com as ag\u00eancias federais do pa\u00eds. Ent\u00e3o, eu encaminhei informa\u00e7\u00f5es para a Pol\u00edcia Federal, eu assisti reuni\u00f5es com a Pol\u00edcia Federal, assisti reuni\u00f5es com\u2026 Federal Foreign Corrupt Practices Act, FCPA. Parte do trabalho \u00e9 educar e ensinar o que \u00e9 o FCPA para os grandes neg\u00f3cios e escrit\u00f3rios do Brasil, para que eles tenham em mente quais s\u00e3o as leis internacionais, as leis dos Estados Unidos, onde eles precisam seguir para evitar ficar no alvo dos Estados Unidos<\/p>\n<p>[Natalia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, June confirmou o que Bassem Youssef j\u00e1 tinha falado: grande parte do trabalho \u00e9 desenvolver rela\u00e7\u00f5es com os pol\u00edcias, procuradores e autoridades locais.\u00a0<\/p>\n<p>Por que que \u00e9 necess\u00e1rio, para que serve esse tipo de trabalho? Digo, com as pol\u00edcias, n\u00e9?\u00a0<\/p>\n<p>[June Drake]\u00a0<\/p>\n<p>Serve para encaminhar, para ser a pessoa que faz a liga\u00e7\u00e3o entre o caso nos Estados Unidos e o caso no Brasil para ajudar o trabalho dos Estados Unidos e tamb\u00e9m fazer conex\u00f5es com o trabalho que est\u00e3o fazendo no Brasil.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>E como \u00e9 que foi a rela\u00e7\u00e3o com os policiais brasileiros, os policiais federais? Tinha uma parceria boa? Eles entendem o trabalho do FBI? Eles entendem essa troca?\u00a0<\/p>\n<p>[June Drake]\u00a0<\/p>\n<p>Sim, eu acho que o trabalho bilateral do FBI com a Pol\u00edcia Federal do Brasil \u00e9 temos uma boa amizade.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>\u00c9 curioso que a rela\u00e7\u00e3o entre agentes do FBI e policiais federais seja tratada em termos de \u201camizade\u201d, mesmo que, por vezes, essa coopera\u00e7\u00e3o seja marcada por interesses nacionais conflitantes. Al\u00e9m disso, a June falou um pouco mais sobre como o contexto pol\u00edtico afetava seu trabalho.\u00a0<\/p>\n<p>[June Drake]\u00a0<\/p>\n<p>Quando trabalhei a primeira vez no Brasil, isso foi de agosto at\u00e9 novembro de 2016. Ent\u00e3o, isso era administra\u00e7\u00e3o de Obama. Quando se tornou a combina\u00e7\u00e3o de Trump com Bolsonaro, eu achei que \u00edamos ter problemas na presid\u00eancia do Trump nas quest\u00f5es internacionais. Porque ele \u00e9 uma pessoa de isolamento. Mas uma coisa interessante a um n\u00edvel microsc\u00f3pico, eu trabalhei casos do terrorismo naquele momento. Estava no escrit\u00f3rio de Miami e fiquei numa equipe de terrorismo internacional com foco na Am\u00e9rica Latina. E sim, como eles tinham um bromance, conseguimos avan\u00e7ar nos casos do terrorismo.\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>Tinha mais abertura da Pol\u00edcia Federal?\u00a0<\/p>\n<p>[June Drake]\u00a0<\/p>\n<p>Acho que sim.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>\u201cBromance\u201d, n\u00e9, um romance entre \u201cbros\u201d, entre cavalheiros, \u00e9 como ela chama a proximidade entre Jair Bolsonaro e Donald Trump. Algo, que como voc\u00ea ouviu nessa s\u00e9rie, teve como consequ\u00eancia maior presen\u00e7a oficial do FBI por aqui, mais acordos de compartilhamento de informa\u00e7\u00e3o e at\u00e9 visitas mal explicadas ao FBI em Washington feitas pelo ent\u00e3o ministro S\u00e9rgio Moro.\u00a0<\/p>\n<p>Trilha sonora clima suspense \u201cintimista\u201d<\/p>\n<p>\u00c0 essa altura voc\u00ea deve estar se perguntando o que levou June a nos dar essa entrevista? Como eu j\u00e1 falei, ela n\u00e3o trabalha mais para o FBI e est\u00e1 em meio a uma transi\u00e7\u00e3o de carreira. A raz\u00e3o por tr\u00e1s dessa mudan\u00e7a \u00e9 s\u00e9rio: sa\u00fade mental. June teve uma fase dif\u00edcil e n\u00e3o se sentiu apoiada dentro do FBI. Por isso hoje seu objetivo \u00e9 ajudar outras pessoas a cuidarem de sua sa\u00fade emocional e psicol\u00f3gica. Ela at\u00e9 tem um podcast sobre o tema.\u00a0<\/p>\n<p>O relato de June me faz lembrar da conversa com Bassem Youssef, que evidencia que a press\u00e3o dentro do FBI \u00e9 enorme e h\u00e1 pouco espa\u00e7o para quem n\u00e3o segue \u00e0 risca as expectativas. Mesmo decepcionada com o fim abrupto e prematuro do seu trabalho no FBI, June toma todo o cuidado para n\u00e3o falar sobre sua atua\u00e7\u00e3o no Brasil.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Voc\u00ea pode explicar quais s\u00e3o as regras do que voc\u00ea n\u00e3o pode falar, s\u00f3 para a gente deixar claro? Voc\u00ea n\u00e3o pode falar sobre casos?\u00a0<\/p>\n<p>[June Drake]\u00a0<\/p>\n<p>N\u00e3o posso falar sobre os casos.<\/p>\n<p>Efeito sonoro: pausa, sil\u00eancio<\/p>\n<p>[Natalia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>Antes dessa entrevista, n\u00e3o sabia o que esperar da conversa com June Drake. Encontrei um ser humano, uma pessoa que viveu apenas uma parte dessa hist\u00f3ria, e que, talvez, se soubesse de todo o impacto da Lava Jato, nem gostasse do resultado. O que me lembra um pouco o que disse Lance Jasper: para entender como funciona a fera, n\u00e3o adianta pensar no governo americano como se fosse uma coisa monol\u00edtica. S\u00e3o milhares de pessoas trabalhando de maneira ora consciente, na maior parte inconsciente, pelo interesse nacional.\u00a0<\/p>\n<p>Trilha sonora clima reflexivo\u00a0<\/p>\n<p>Tanto cuidado de June, Lancer Jasper e mesmo Bassem Youssef deixam claro que enquanto nossos agentes da PF e procuradores compartilhavam informa\u00e7\u00f5es, \u00a0 davam dicas de como contornar limites legais e tiravam fotos com agentes do FBI, os interesses americanos \u2013 para eles \u2013 pairam acima de tudo, e acima de todos.\u00a0<\/p>\n<p>Retornando ao Brasil, para os momentos finais desta investiga\u00e7\u00e3o recebo uma nova pista de um peso-pesado do jornalismo brasileiro, Rubens Valente. Veterano de muitas coberturas de opera\u00e7\u00f5es anticorrup\u00e7\u00e3o, incluindo a Lava Jato. Ele tem fontes de confian\u00e7a dentro da PF e algumas cartas guardadas na manga:<\/p>\n<p>[Liga\u00e7\u00e3o Rubens Valente]<\/p>\n<p>Oi, Natalia.\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>Oi, Rubens, tudo bem,\u00a0<\/p>\n<p>[Rubens Valente]<\/p>\n<p>Oi, desculpa a correria aqui, eu tava numa entrevista e cheguei aqui num evento da \u2026\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>Que evento \u00e9 esse?\u00a0<\/p>\n<p>[Rubens Valente]<\/p>\n<p>\u00c9 da Pol\u00edcia Federal, \u00e9 da per\u00edcia, acabaram me chamando aqui pra vir por coincid\u00eancia.<\/p>\n<p>Trilha da s\u00e9rie\u00a0<\/p>\n<p>[Ricardo Terto]<\/p>\n<p>Voc\u00ea est\u00e1 ouvindo uma \u00e1udio s\u00e9rie, Original Audible. Para conhecer mais hist\u00f3rias surpreendentes e imersivas como est\u00e1, acesse o site audible.com.br. 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