{"id":96902,"date":"2026-07-23T16:20:51","date_gmt":"2026-07-23T19:20:51","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-fujimorismo-retorna-ao-peru-e-agora\/"},"modified":"2026-07-23T16:20:51","modified_gmt":"2026-07-23T19:20:51","slug":"o-fujimorismo-retorna-ao-peru-e-agora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-fujimorismo-retorna-ao-peru-e-agora\/","title":{"rendered":"O fujimorismo retorna ao Peru. E agora?"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"967\" height=\"617\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/photo_5120827771620887675_y.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/photo_5120827771620887675_y.jpg 967w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/photo_5120827771620887675_y-300x191.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/photo_5120827771620887675_y-768x490.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 967px) 100vw, 967px\"><figcaption>Foto: Stifs Paucca\/Reuters<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>A vit\u00f3ria eleitoral de Keiko Fujimori, cuja legitimidade \u00e9 amplamente questionada devido \u00e0s graves irregularidades que marcaram o segundo turno, constitui um ponto de inflex\u00e3o na pol\u00edtica peruana. Ap\u00f3s mais de uma d\u00e9cada de crise, caracterizada pela instabilidade governamental, pela fragmenta\u00e7\u00e3o extrema do sistema partid\u00e1rio, pela derrubada do governo de Pedro Castillo e pela crescente captura das institui\u00e7\u00f5es estatais pelo bloco dominante, a ultradireita recuperou o controle direto do Poder Executivo. O resultado do segundo turno foi, al\u00e9m disso, extremamente apertado: apenas 49.641 votos separaram as duas candidaturas.<\/p>\n<p>Esse desfecho sinaliza o esgotamento do autoritarismo parlamentar instaurado ap\u00f3s o golpe de Estado de dezembro de 2022. Em seu lugar, come\u00e7a a se delinear uma estrat\u00e9gia destinada a consolidar um regime autorit\u00e1rio de car\u00e1ter presidencialista, que procura restabelecer, adaptando-o \u00e0s condi\u00e7\u00f5es atuais, o projeto pol\u00edtico inaugurado por Alberto Fujimori na d\u00e9cada de 1990.<\/p>\n<p>O que est\u00e1 em jogo excede, portanto, uma simples mudan\u00e7a de governo. Trata-se de uma tentativa de reorganizar o bloco no poder mediante uma nova articula\u00e7\u00e3o entre o Executivo, as elites econ\u00f4micas, os aparelhos coercitivos do Estado e os setores mais reacion\u00e1rios do sistema pol\u00edtico.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/14--33.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/14--33.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/14-1-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Seria um erro, no entanto, interpretar esse resultado como uma resolu\u00e7\u00e3o da crise do regime ou como a consolida\u00e7\u00e3o definitiva de uma nova hegemonia conservadora. As profundas contradi\u00e7\u00f5es sociais, a crise de representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, o deterioramento da legitimidade estatal e as disputas persistentes entre as distintas fra\u00e7\u00f5es do bloco dominante indicam que a crise org\u00e2nica do Estado peruano permanece em aberto, embora tenha ingressado em uma nova fase sob a condu\u00e7\u00e3o da ultradireita.<\/p>\n<h3><strong>Passado e presente do fujimorismo<\/strong><\/h3>\n<p>Para compreender o novo cen\u00e1rio, \u00e9 \u00fatil recuperar a interpreta\u00e7\u00e3o do cientista social peruano An\u00edbal Quijano sobre o fujimorismo. Segundo Quijano, o regime instaurado por Alberto Fujimori foi muito mais do que um governo encarregado de aplicar um programa neoliberal. Representou uma nova modalidade de domina\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria, orientada a reorganizar o Estado peruano ap\u00f3s o esgotamento da ordem olig\u00e1rquica e a crise do Estado desenvolvimentista durante a d\u00e9cada de 1980.<\/p>\n<p>A liberaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, a concentra\u00e7\u00e3o do poder na Presid\u00eancia, a subordina\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es, a militariza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica, a corrup\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica e a desarticula\u00e7\u00e3o de movimentos sociais fizeram parte de um mesmo projeto hist\u00f3rico. O fujimorismo transformou profundamente o regime pol\u00edtico: enfraqueceu os partidos, erodiu as organiza\u00e7\u00f5es sociais e consolidou uma forma de domina\u00e7\u00e3o plebiscit\u00e1ria e autorit\u00e1ria, apoiada no personalismo, no clientelismo e na promessa de restabelecer a ordem.<\/p>\n<p>Essa tradi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, no entanto, nunca operou exclusivamente dentro das fronteiras peruanas. Diversas an\u00e1lises t\u00eam apontado a exist\u00eancia de redes transnacionais de assessoramento, financiamento e circula\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias que vinculam as direitas latino-americanas a centros internacionais de poder. Keiko Fujimori e seu entorno fazem parte de uma constela\u00e7\u00e3o que articula <em>think tanks<\/em>, consultorias eleitorais e espa\u00e7os de forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica conectados a circuitos externos, particularmente nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Essa dimens\u00e3o internacional n\u00e3o substitui as determina\u00e7\u00f5es internas nem a fun\u00e7\u00e3o que o fujimorismo cumpre dentro do bloco dominante peruano. Permite, em contrapartida, compreender a profissionaliza\u00e7\u00e3o recente da extrema direita, sua capacidade de adapta\u00e7\u00e3o eleitoral e a renova\u00e7\u00e3o de seus instrumentos de interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. O fujimorismo contempor\u00e2neo \u00e9 herdeiro do regime autorit\u00e1rio da d\u00e9cada de 1990, mas constitui tamb\u00e9m uma reconfigura\u00e7\u00e3o daquela matriz: incorpora novas tecnologias de comunica\u00e7\u00e3o, redes midi\u00e1ticas e estrat\u00e9gias conservadoras que circulam internacionalmente, em um contexto marcado pelo avan\u00e7o global da ultradireita.<\/p>\n<h3><strong>Crise p\u00f3s-eleitoral e estatismo autorit\u00e1rio<\/strong><\/h3>\n<p>O novo cen\u00e1rio expressa uma recomposi\u00e7\u00e3o do bloco dominante e, ao mesmo tempo, a persist\u00eancia de uma disputa profunda em torno da legitimidade da ordem pol\u00edtica. Os processos eleitorais recentes dificilmente podem ser compreendidos como mecanismos neutros de disputa democr\u00e1tica. Em um contexto marcado pela concentra\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica, pelas enormes assimetrias materiais entre as for\u00e7as pol\u00edticas e pelo uso intensivo de recursos p\u00fablicos e privados, a contenda eleitoral se desenvolve em um terreno profundamente desigual.<\/p>\n<p>Diversas an\u00e1lises jornal\u00edsticas e pol\u00edticas t\u00eam examinado os mecanismos pelos quais o desenvolvimento e o desfecho de uma elei\u00e7\u00e3o podem ser condicionados dentro dos pr\u00f3prios marcos institucionais. Entre eles, est\u00e3o a coopta\u00e7\u00e3o do senso comum, a judicializa\u00e7\u00e3o de candidaturas, o controle da agenda midi\u00e1tica e a interven\u00e7\u00e3o direta dos grandes poderes econ\u00f4micos. O problema, portanto, n\u00e3o se limita a determinar se houve fraude em sentido t\u00e9cnico. Abrange tamb\u00e9m a qualidade democr\u00e1tica do processo, a igualdade efetiva da competi\u00e7\u00e3o e a capacidade do sistema pol\u00edtico de representar a vontade popular.<\/p>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<p>Essas disputas aprofundam a dist\u00e2ncia entre a legalidade formal e a legitimidade social, um dos tra\u00e7os caracter\u00edsticos dos regimes atravessados por crises prolongadas. Um resultado pode ajustar-se aos procedimentos institucionais e, no entanto, carecer da legitimidade suficiente para estabilizar a ordem pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Nicos Poulantzas advertiu que as crises do capitalismo contempor\u00e2neo poderiam favorecer o desenvolvimento de formas de Estados autorit\u00e1rios. Esse processo n\u00e3o sup\u00f5e necessariamente a supress\u00e3o formal da democracia. Consiste, antes, na concentra\u00e7\u00e3o crescente do poder no Executivo, no enfraquecimento dos contrapesos institucionais, na expans\u00e3o dos aparelhos coercitivos, na judicializa\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica e na redu\u00e7\u00e3o efetiva dos espa\u00e7os de delibera\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>O novo governo pode aprofundar v\u00e1rias tend\u00eancias que j\u00e1 se tornaram vis\u00edveis nos \u00faltimos anos: a centraliza\u00e7\u00e3o do Executivo, a expans\u00e3o das pol\u00edticas de Seguran\u00e7a, a criminaliza\u00e7\u00e3o do protesto social, o uso do aparelho judicial contra os advers\u00e1rios pol\u00edticos e a imposi\u00e7\u00e3o de maiores restri\u00e7\u00f5es \u00e0 participa\u00e7\u00e3o popular e \u00e0 atividade das organiza\u00e7\u00f5es de esquerda.<\/p>\n<h3><strong>Primeiros apontamentos sobre a apertada derrota eleitoral da esquerda<\/strong><\/h3>\n<p>O novo governo assumir\u00e1 em um cen\u00e1rio marcado por uma profunda crise de legitimidade do regime pol\u00edtico. A elevada desconfian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s institui\u00e7\u00f5es, a fragmenta\u00e7\u00e3o social e o desgaste das formas tradicionais de representa\u00e7\u00e3o configuram um contexto no qual a vit\u00f3ria do fujimorismo n\u00e3o expressa a constru\u00e7\u00e3o de uma nova hegemonia. Revela, antes, sua capacidade de articular um bloco eleitoral conjuntural em meio a uma crise org\u00e2nica. Seu triunfo repousa menos na ades\u00e3o positiva a um projeto nacional do que na conforma\u00e7\u00e3o de uma coaliz\u00e3o social e pol\u00edtica coesa pelo medo, pela promessa de restabelecer a ordem, pela defesa do <em>status quo<\/em> e pela rejei\u00e7\u00e3o \u00e0s alternativas de mudan\u00e7a encarnadas pela esquerda.<\/p>\n<p>O segundo turno colocou em jogo duas estrat\u00e9gias diferentes. Juntos pelo Peru procurou ampliar sua base mediante acordos com setores democr\u00e1ticos e de centro. O fujimorismo, por sua vez, priorizou a consolida\u00e7\u00e3o e a mobiliza\u00e7\u00e3o de seu n\u00facleo eleitoral. Em vez de moderar seu discurso ou construir alian\u00e7as mais amplas, concentrou seus esfor\u00e7os em maximizar a participa\u00e7\u00e3o de seu eleitorado tradicional e desencadeou uma campanha focalizada em territ\u00f3rios do sul andino que lhe haviam sido historicamente opositores.<\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia da ultradireita n\u00e3o pretendia reverter por completo o mapa pol\u00edtico surgido em 2021, mas reduzir a dist\u00e2ncia nas regi\u00f5es onde a esquerda havia alcan\u00e7ado seus maiores n\u00edveis de apoio. Os resultados mostram que ela conseguiu incrementar sua vota\u00e7\u00e3o em v\u00e1rias delas em rela\u00e7\u00e3o ao segundo turno anterior, embora sem modificar a correla\u00e7\u00e3o pol\u00edtica geral no sul andino e na serra central.<\/p>\n<p>Roberto S\u00e1nchez, por sua vez, obteve um capital eleitoral superior ao alcan\u00e7ado por Pedro Castillo em v\u00e1rias regi\u00f5es do norte e entre setores m\u00e9dios urbanos de Lima. Isso evidenciou uma maior capacidade de disputar espa\u00e7os nos quais o voto contestat\u00f3rio havia encontrado historicamente maiores dificuldades. No entanto, esse crescimento n\u00e3o foi suficiente para compensar a redu\u00e7\u00e3o da vantagem no sul andino. Embora S\u00e1nchez tenha vencido em dezesseis regi\u00f5es, f\u00ea-lo com margens menores do que as obtidas por Castillo no segundo turno de 2021. A diminui\u00e7\u00e3o dessa diferen\u00e7a foi decisiva para o desfecho nacional.<\/p>\n<p>Uma parte importante da campanha da esquerda apostou na expectativa de que o antifujimorismo voltaria a operar como o principal fator capaz de articular uma maioria social. O processo eleitoral mostrou, contudo, que esse campo pol\u00edtico j\u00e1 n\u00e3o tem a mesma pot\u00eancia articuladora de ciclos anteriores. O antifujimorismo continua sendo uma identidade relevante, mas encontra-se mais concentrado em setores urbanos, especialmente limenhos, e possui menor capacidade de irradia\u00e7\u00e3o nacional e geracional.<\/p>\n<p>A essa dificuldade somou-se o deslocamento de setores importantes da direita liberal e do chamado centro pol\u00edtico, que promoveram o voto nulo ou adotaram uma posi\u00e7\u00e3o de suposta neutralidade. Essa orienta\u00e7\u00e3o enfraqueceu ainda mais a possibilidade de criar uma frente democr\u00e1tica ampla contra o avan\u00e7o do fujimorismo.<\/p>\n<p>O voto emitido no exterior tamb\u00e9m desempenhou um papel decisivo. Seu respaldo majorit\u00e1rio a Keiko Fujimori terminou por inclinar o resultado final, enquanto, dentro do territ\u00f3rio nacional, Roberto S\u00e1nchez obteve a maior quantidade de votos. Essa diferen\u00e7a revela uma geografia pol\u00edtica profundamente desigual entre o eleitorado residente no Peru e o da di\u00e1spora. Al\u00e9m disso, foi justamente na vota\u00e7\u00e3o exterior que se concentraram as irregularidades mais graves, que alimentam os questionamentos sobre a legitimidade do desfecho eleitoral.<\/p>\n<p>O mapa resultante confirma que a ultradireita conseguiu ampliar parcialmente sua inser\u00e7\u00e3o territorial, enquanto o campo popular conservou boa parte de seus basti\u00f5es hist\u00f3ricos, embora com menor intensidade eleitoral. Mais do que uma vit\u00f3ria hegem\u00f4nica do fujimorismo, o resultado expressa um reequil\u00edbrio desfavor\u00e1vel para o campo popular dentro de uma crise de representa\u00e7\u00e3o que permanece em aberto. Seu desfecho depender\u00e1 menos da din\u00e2mica institucional do que da capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o social e reorganiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das classes populares.<\/p>\n<h3><strong>Rumo a uma resist\u00eancia democr\u00e1tica e popular<\/strong><\/h3>\n<p>Desde a d\u00e9cada de 1990, a estrat\u00e9gia da esquerda peruana foi marcada por um processo gradual de dissolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, derivado de sua subordina\u00e7\u00e3o a sucessivas frentes democr\u00e1ticas hegemonizadas por setores liberais. Num primeiro momento, parte da esquerda apoiou a candidatura de Javier P\u00e9rez de Cu\u00e9llar como express\u00e3o de um bloco democr\u00e1tico oposto ao fujimorismo. Ap\u00f3s a queda do regime autorit\u00e1rio, essa orienta\u00e7\u00e3o se prolongou no apoio ao governo de transi\u00e7\u00e3o encabe\u00e7ado por Valent\u00edn Paniagua e, mais tarde, ao governo de Alejandro Toledo, que havia liderado a oposi\u00e7\u00e3o ao fujimorismo no ano 2000.<\/p>\n<p>Sob a premissa de recuperar a democracia, a esquerda foi relegando a constru\u00e7\u00e3o de uma alternativa pol\u00edtica pr\u00f3pria. Sua independ\u00eancia enfraqueceu-se \u00e0 medida que se adaptava a um projeto de recomposi\u00e7\u00e3o do regime, em vez de sustentar uma perspectiva de transforma\u00e7\u00e3o estrutural da sociedade peruana.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o atual apresenta diferen\u00e7as importantes. Durante os \u00faltimos anos, ocorreu uma recomposi\u00e7\u00e3o parcial da esquerda. Embora ainda care\u00e7a de um programa socialista integral e de uma estrat\u00e9gia suficientemente desenvolvida, conseguiu reconstruir uma base social e territorial significativa, especialmente no sul andino e na serra central, em torno de um programa nacional-popular de esquerda.<\/p>\n<p>O castilhismo desempenhou um papel decisivo nesse processo, ao manter vigente a representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das classes populares que irromperam na cena nacional durante o ciclo iniciado em 2021 e encerrado pelo golpe de 2022. Nesse contexto, Roberto S\u00e1nchez e Juntos pelo Peru enfrentam o desafio de consolidar essa recomposi\u00e7\u00e3o mediante a constru\u00e7\u00e3o de uma oposi\u00e7\u00e3o ampla e popular.<\/p>\n<p>Isso exige evitar que os acordos t\u00e1ticos com setores do centro pol\u00edtico desvirtuem o horizonte de transforma\u00e7\u00e3o expresso pelos setores andinos e populares. A disputa pela condu\u00e7\u00e3o da resist\u00eancia democr\u00e1tica ser\u00e1, nesse sentido, decisiva. Para sustentar uma perspectiva de mudan\u00e7a, essa condu\u00e7\u00e3o dever\u00e1 permanecer nas m\u00e3os da esquerda popular que conseguiu abrir caminho nos \u00faltimos anos, como ocorreu parcialmente durante a campanha do segundo turno.<\/p>\n<p>A composi\u00e7\u00e3o do novo Parlamento bicameral configura, por sua vez, um equil\u00edbrio pol\u00edtico inst\u00e1vel. No cen\u00e1rio mais adverso, a oposi\u00e7\u00e3o poderia ficar reduzida \u00e0s bancadas de Juntos pelo Peru e Agora Na\u00e7\u00e3o, partido de centro-esquerda e orienta\u00e7\u00e3o social-democrata liderado por Alfonso L\u00f3pez-Chau. Em um cen\u00e1rio mais favor\u00e1vel, o desafio consistir\u00e1 em preservar a coes\u00e3o de um bloco integrado tamb\u00e9m pelo Partido C\u00edvico OBRAS, organiza\u00e7\u00e3o fundada por Ricardo Belmont, e, eventualmente, por alguns congressistas do Partido do Bom Governo, for\u00e7a centrista encabe\u00e7ada pelo ex-ministro Jorge Nieto.<\/p>\n<p>Essa possibilidade torna-se especialmente relevante diante dos ind\u00edcios de uma fissura na bancada do Partido do Bom Governo, provocada pelas primeiras negocia\u00e7\u00f5es de seu l\u00edder e ex-candidato presidencial, Jorge Nieto, com o fujimorismo. OBRAS, por sua vez, tamb\u00e9m n\u00e3o ocultou suas conversas com For\u00e7a Popular, embora tenha ratificado sua participa\u00e7\u00e3o no bloco parlamentar opositor.<\/p>\n<p>Como ocorreu de maneira recorrente durante as \u00faltimas d\u00e9cadas, a instabilidade continua sendo um tra\u00e7o estrutural do sistema pol\u00edtico peruano. As novas correla\u00e7\u00f5es de for\u00e7as no Parlamento permanecem abertas a distintas reconfigura\u00e7\u00f5es, tanto pelas disputas internas das bancadas quanto pela estrat\u00e9gia de coopta\u00e7\u00e3o e disciplinamento desencadeada pelo fujimorismo. O cen\u00e1rio menos prov\u00e1vel, no entanto, parece ser uma fissura imediata do bloco oficialista de ultradireita, integrado por For\u00e7a Popular, o partido fujimorista liderado por Keiko Fujimori, e Renova\u00e7\u00e3o Popular, for\u00e7a de direita radical e conservadora comandada por Rafael L\u00f3pez Aliaga. Esse bloco busca, al\u00e9m disso, consolidar acordos com o Partido do Bom Governo.<\/p>\n<p>Diante desse panorama, o impulso \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o social em torno de um programa antineoliberal m\u00ednimo ser\u00e1 fundamental para superar os limites da disputa parlamentar e corroer por baixo o regime autorit\u00e1rio que o fujimorismo tentar\u00e1 consolidar. Uma vit\u00f3ria eleitoral questionada da ultradireita n\u00e3o equivale a uma derrota social do campo popular. No Peru, existe uma ampla base trabalhadora e popular capaz de resistir para al\u00e9m de suas dire\u00e7\u00f5es pol\u00edticas circunstanciais.<\/p>\n<p>O desafio da esquerda anticapitalista consiste em intervir de maneira unit\u00e1ria e estrat\u00e9gica nessa resist\u00eancia, construindo um polo radical dentro do bloco democr\u00e1tico e popular em forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. Se voc\u00ea valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o, seja nosso apoiador e fortale\u00e7a o jornalismo cr\u00edtico: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post O fujimorismo retorna ao Peru. E agora? appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/lula-diz-que-enviara-pl-do-fim-da-escala-6-x-1-nos-proximos-dias\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/erika_1-e1772212026916-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Lula diz que enviar\u00e1 PL do fim da escala 6 x 1 nos...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/trumps-recently-announced-taxation-policy-on-imports-may-cost-the-us-industry-dearly-chinese-experts-warn\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Trump\u2019s recently announced taxation policy o...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/independencias-fronteiras-coloniais-e-o-complexo-sistema-de-poder-regional-por-pedro-henrichs\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Independ\u00eancias, fronteiras coloniais e o complexo ...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/dia-da-mulher-negra-latino-americana-e-caribenha-conheca-cinco-mulheres-fundamentais-para-a-data\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha: ...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>An\u00e1lise dos rumos do pa\u00eds, ap\u00f3s a vit\u00f3ria de Keiko Fujimori. Empresariado e grande m\u00eddia sustentam seu projeto. Oposi\u00e7\u00e3o digladia-se no Congresso, onde novo governo tem apoio coeso. Mas h\u00e1 grave crise de representatividade e a esquerda ainda mant\u00e9m grande base popular<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/direita-assanhada\/o-fujimorismo-retorna-ao-peru-e-agora\/\">O fujimorismo retorna ao Peru. E agora?<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":96903,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[46098,76746,55562,76747,14867,7052,66266,423,24939,69767,24941,352,46106,75275,23362,44265,11440,7173],"tags":[],"class_list":["post-96902","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-alberto-fujimori","category-antifujimorismo","category-autoritarismo-parlamentar","category-crises-do-capitalismo","category-derrota-eleitoral","category-direita-assanhada","category-elites-economicas","category-extrema-direita","category-fujimorismo","category-irregularidades-eleitorais","category-keiko-fujimori","category-peru","category-politica-peruana","category-regime-politico","category-resistencia-democratica","category-roberto-sanchez","category-sistema-partidario","category-ultradireita"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96902","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=96902"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96902\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/96903"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=96902"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=96902"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=96902"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}