{"id":96914,"date":"2026-07-23T19:11:57","date_gmt":"2026-07-23T22:11:57","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-marxismo-a-arte-e-o-brasil-de-mario-pedrosa\/"},"modified":"2026-07-23T19:11:57","modified_gmt":"2026-07-23T22:11:57","slug":"o-marxismo-a-arte-e-o-brasil-de-mario-pedrosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-marxismo-a-arte-e-o-brasil-de-mario-pedrosa\/","title":{"rendered":"O marxismo, a arte e o Brasil de Mario Pedrosa"},"content":{"rendered":"<div>\n<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"728\" height=\"410\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Mario-Pedrosa-Revolucao-sensivel-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Mario-Pedrosa-Revolucao-sensivel-1.jpg 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Mario-Pedrosa-Revolucao-sensivel-1-300x169.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 728px) 100vw, 728px\"><figcaption>Imagem reproduzida no portal do Sesc S\u00e3o Paulo<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<h3><strong>1 \u2013 Vida e pr\u00e1xis pol\u00edtica<\/strong><\/h3>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>M\u00e1rio Xavier de Andrade Pedrosa nasceu na Zona da Mata pernambucana. Foi desde a juventude um filho desgarrado. Sua fam\u00edlia era origin\u00e1ria de senhores de engenho do Nordeste, que se voltaram depois para a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica; seu pai, Pedro da Cunha Pedrosa, foi senador e ministro do Tribunal de Contas. M\u00e1rio Pedrosa foi enviado pela fam\u00edlia, em 1913, para estudar na Europa, e l\u00e1 ficou at\u00e9 1916. Entre 1920 e 1923, na Faculdade Nacional de Direito do Rio de Janeiro, tomou contato com as ideias socialistas e o marxismo, despertando para a vida pol\u00edtica e intelectual a servi\u00e7o da classe trabalhadora, luta de que jamais se separaria; formou-se em 1923, mas sua vida tomaria outros caminhos.<\/p>\n<p>Ele fez parte da primeira gera\u00e7\u00e3o de militantes comunistas do Brasil que aderiam \u00e0 luta revolucion\u00e1ria no momento seguinte \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o Russa (1917). Em 1925, se aproxima do PCB atrav\u00e9s do jornal <em>A Classe Oper\u00e1ria<\/em>. No ano seguinte, filiou-se ao partido, e em mar\u00e7o de 1927 come\u00e7ou a trabalhar em Jo\u00e3o Pessoa (PB) como agente fiscal, mas logo desistiu da profiss\u00e3o. Em S\u00e3o Paulo, assumiu o trabalho de organiza\u00e7\u00e3o do Socorro Vermelho (que apoiava prisioneiros pol\u00edticos comunistas). Na mesma \u00e9poca, passou a escrever regularmente para a revista te\u00f3rica do partido, e trabalhou como jornalista no jornal <em>Folha da Manh\u00e3<\/em>.<\/p>\n<p>No final de 1927 foi indicado pela dire\u00e7\u00e3o do PCB para frequentar a Escola Leninista em Moscou, curso de forma\u00e7\u00e3o de militantes da III Internacional. Em novembro de 1927, j\u00e1 em Berlim, aprofundam-se as crises pol\u00edticas no interior do PCUS, na URSS. Ele ficaria na Europa at\u00e9 1929, e a\u00ed aderiu \u00e0s propostas da <em>Oposi\u00e7\u00e3o de Esquerda <\/em>russa (dirigida ent\u00e3o por Tr\u00f3tski, Kamenev e Zinoviev), que se contrapunha ao poder de St\u00e1lin. M\u00e1rio voltou ao pa\u00eds em 1929, disposto a construir um n\u00facleo da Oposi\u00e7\u00e3o de Esquerda no PCB, e encontrou uma pol\u00eamica no partido \u2013 sobre alian\u00e7as pol\u00edticas \u2013, que opunha Rodolpho Coutinho \u00e0 maioria da dire\u00e7\u00e3o. Iniciou ent\u00e3o a organiza\u00e7\u00e3o do <em>Grupo Comunista L\u00eanin<\/em> (GCL), lan\u00e7ado oficialmente em 1930, com a publica\u00e7\u00e3o do jornal <em>Luta de Classes<\/em>. Em 1933, junto a outros militantes, fundou a Editora Unitas, que passaria a publicar textos e livros revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<div>\n<div><img decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Prancheta--26.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Prancheta--26.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Prancheta-4-300x110.png 300w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Com a forma\u00e7\u00e3o, em 1931, da <em>Oposi\u00e7\u00e3o Internacional de Esquerda<\/em>, o grupo liderado por Pedrosa muda de nome para <em>Liga Comunista do Brasil <\/em>(LCB). Atuam com o objetivo de combater, dentro da III Internacional (IC), o stalinismo, visto como uma orienta\u00e7\u00e3o que se afastava das bandeiras democr\u00e1ticas e revolucion\u00e1rias. Nesse per\u00edodo, a IC se inclinava a uma pol\u00edtica antifascista, de colabora\u00e7\u00e3o de classes com setores das burguesias. Ademais, agravava-se a press\u00e3o contra advers\u00e1rios do stalinismo, com muitas expuls\u00f5es por diverg\u00eancias com a dire\u00e7\u00e3o \u2013 ocasi\u00e3o em que sofreram persegui\u00e7\u00f5es inclusive antigos bolcheviques, que tinham sido companheiros de L\u00eanin.<\/p>\n<p>No Brasil, M\u00e1rio Pedrosa liderou a resist\u00eancia, em particular a defesa da unidade da classe trabalhadora no combate ao fascismo \u2013 que se erguia. Em S\u00e3o Paulo, \u00e9 formada a FUA (Frente \u00danica Antifascista), agrupando muitas organiza\u00e7\u00f5es socialistas e anarquistas, que passa a editar o jornal <em>O Homem Livre <\/em>(no qual Pedrosa publicou v\u00e1rios textos). Em 1934, a FUA decidiu impedir o desfile dos fascistas integralistas em S\u00e3o Paulo; ocorreu um confronto armado na Pra\u00e7a da S\u00e9, e Pedrosa foi um dos atingidos por tiros.<\/p>\n<p>Nos anos seguintes, h\u00e1 novos choques pol\u00edticos. Os comunistas brasileiros alinhados com Moscou, orientados pela IC a buscarem uma alian\u00e7a com a burguesia, criam a ANL (Alian\u00e7a Nacional Libertadora) \u2013 em uma tentativa de frente democr\u00e1tica ampla. Contudo, a aventura militar comunista de 1935 serviria como pretexto para a repress\u00e3o ao conjunto das organiza\u00e7\u00f5es dos trabalhadores, facilitando o caminho para a ditadura de Vargas. Pedrosa criticava a ANL, por ter nascido de um acordo entre dirigentes do Partido Comunista e alguns militares e pol\u00edticos pequeno-burgueses. Sua a\u00e7\u00e3o ganhou praticamente toda a se\u00e7\u00e3o paulista do PCB, liderada por Herm\u00ednio Sachetta, num momento de crescentes persegui\u00e7\u00f5es (ditadura do Estado Novo). Pedrosa exilou-se na Fran\u00e7a, em 1937, fugindo da pol\u00edcia varguista, e logo se integrou \u00e0s tarefas pol\u00edticas do movimento pela IV Internacional, um desdobramento da <em>Oposi\u00e7\u00e3o Internacional de Esquerda<\/em>. Em 1938, em confer\u00eancia realizada em Paris, foi delegado, representando as se\u00e7\u00f5es latino-americanas; ao final foi eleito representante da Am\u00e9rica Latina e membro do I Comit\u00ea Executivo da IV Internacional. No ano seguinte, mudou-se para Nova Iorque com toda a dire\u00e7\u00e3o da IV Internacional, rec\u00e9m-eleita, e dois anos depois se afastou da organiza\u00e7\u00e3o, por discordar da proposta de defesa incondicional da URSS.<\/p>\n<p>Com o fim da guerra em 1945 e sua volta ao Brasil, Pedrosa dirige a publica\u00e7\u00e3o do jornal <em>Vanguarda Socialista<\/em> no Rio de Janeiro, agrupando antigos simpatizantes. O grupo em torno do jornal aproximou-se de outros grupos socialistas contr\u00e1rios ao stalinismo, e daria origem \u00e0 chamada \u201cEsquerda Democr\u00e1tica\u201d, que teve seu manifesto de funda\u00e7\u00e3o aprovado em agosto de 1945; j\u00e1 em agosto de 1947, adota o nome de Partido Socialista Brasileiro (PSB), que duraria at\u00e9 1965. Em 1956 o coletivo liderado por Pedrosa e Raquel de Queiroz se afasta e forma a <em>A\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica<\/em>.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo que exercia ativamente sua milit\u00e2ncia pol\u00edtica, M\u00e1rio Pedrosa\u00a0 desenvolveu a atividade profissional de cr\u00edtico de arte \u2013 sempre baseando sua an\u00e1lise no marxismo \u2013, por meio de que buscou libertar a arte brasileira do seu isolamento nacional, provinciano. Defendeu para arte brasileira a necessidade da renova\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia, do esp\u00edrito ventilado e internacionalista, valorizando ao mesmo tempo a identidade local. Tratava-se de um posicionamento pol\u00edtico e libert\u00e1rio em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 produ\u00e7\u00e3o e cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica, que se chocava de um lado com o nacionalismo conservador, mas tamb\u00e9m com o realismo socialista e panflet\u00e1rio dos artistas ligados ao PCB ou em sua esfera de influ\u00eancia. Esteve presente nos grandes eventos de arte a partir dos anos 1950; produziu uma densa obra te\u00f3rica, com in\u00fameros artigos; foi curador da Bienal de Arte de 1961. Entendia que era preciso ver \u201ca arte como o exerc\u00edcio experimental da liberdade\u201d. Em 1959 ajudou a realizar um congresso internacional de cr\u00edticos de arte com o tema \u201cBras\u00edlia, a cidade nova e a s\u00edntese das artes\u201d, trazendo diversas personalidades do mundo para debater a constru\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia. Ao longo de todo esse per\u00edodo mant\u00e9m intensa e constante milit\u00e2ncia jornal\u00edstica sobre temas pol\u00edticos e de cr\u00edtica de arte nos principais jornais do pa\u00eds.<\/p>\n<p>O golpe militar de 1964 trouxe M\u00e1rio Pedrosa novamente para a linha de frente da milit\u00e2ncia pol\u00edtica direta. Em 1966, saiu candidato a deputado pelo MDB (Movimento Democr\u00e1tico Brasileiro), e divulgou seus livros <em>Op\u00e7\u00e3o Brasileira<\/em> e <em>Op\u00e7\u00e3o Imperialista<\/em>, pontos altos de sua elabora\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e te\u00f3rica marxista. Passou a desenvolver uma atividade militante clandestina de registros e envios de den\u00fancia \u00e0 Anistia Internacional dos casos de tortura praticados pela ditadura brasileira. Em 1970, a pol\u00edcia descobriu sua rede de contatos; ele conseguiu fugir do pa\u00eds e buscou ref\u00fagio no Chile, ent\u00e3o sob a presid\u00eancia do socialista Salvador Allende \u2013 quem lhe prop\u00f4s a cria\u00e7\u00e3o de um Museu de Arte Moderna, ideia que ele abra\u00e7aria com entusiasmo. A nova institui\u00e7\u00e3o foi batizada com nome de \u201cMuseu da Solidariedade\u201d, projeto que termina abruptamente em 11 de setembro de 1973, com o golpe militar chileno. Depois de uma semana clandestino, Pedrosa conseguiu ir ao M\u00e9xico e se instalou em Paris; neste novo ex\u00edlio, produziu a obra <em>A crise mundial do imperialismo e Rosa Luxemburgo<\/em>.<\/p>\n<p>M\u00e1rio Pedrosa viveu em Paris at\u00e9 outubro de 1977, quando, doente, p\u00f4de voltar ao Brasil, j\u00e1 no per\u00edodo de abertura da ditadura militar \u2013 que se deu por for\u00e7a das mobiliza\u00e7\u00f5es populares. O movimento pela cria\u00e7\u00e3o do Partido dos Trabalhadores encheu-o de novas esperan\u00e7as; teve um papel ativo na luta pol\u00edtica pela funda\u00e7\u00e3o do novo partido, sa\u00eddo das lutas concretas dos trabalhadores e da juventude. Sua c\u00e9lebre carta a Lula \u2013 ou \u201cCarta Aberta a um L\u00edder Oper\u00e1rio\u201d \u2013 apela \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de um novo partido oper\u00e1rio e que se reivindique marxista. Seus diversos artigos em jornais da \u00e9poca testemunham seu engajamento pol\u00edtico nesse per\u00edodo, que se desdobrou em in\u00fameras reuni\u00f5es e atividades. Em 1980, publicou seu livro <em>Sobre o PT<\/em>; no mesmo ano, foi homenageado e se tornou o filiado <em>n\u00famero 1<\/em> do PT, ao encabe\u00e7ar a assinatura do livro de atas, no domingo de 10 de fevereiro \u2013 em que se fundou o partido. Ele estava com 79 anos e discursou brevemente afirmando a originalidade e a for\u00e7a de um novo partido de massas sa\u00eddo de baixo, das lutas oper\u00e1rias e de massas, para construir um novo e original caminho de luta. Em novembro de 1981, o jornal <em>Pasquim <\/em>publicou sua \u00faltima entrevista, na qual ele afirmava: \u201cSer revolucion\u00e1rio \u00e9 a profiss\u00e3o natural de um intelectual\u2026 a revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 a atividade mais profunda de todas\u2026 Sempre sonhei uma revolu\u00e7\u00e3o para o Brasil\u201d. Em 5 de novembro de 1981, faleceu no Rio de Janeiro; e sua esperan\u00e7a se tornaria uma necessidade cada vez mais urgente para o povo brasileiro.<\/p>\n<div>\n<div><img decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Arte-1_banner-site-outras-palavras_IC-na-Unesp_728x90-2.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Arte-1_banner-site-outras-palavras_IC-na-Unesp_728x90-2.png 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Arte-1_banner-site-outras-palavras_IC-na-Unesp_728x90-300x37.png 300w\" sizes=\"(max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<h3><strong>2 \u2013 Contribui\u00e7\u00f5es ao marxismo\u00a0<\/strong><\/h3>\n<p>H\u00e1 tr\u00eas grandes momentos na trajet\u00f3ria de M\u00e1rio Pedrosa que destacam fases fundamentais da sua elabora\u00e7\u00e3o pol\u00edtica marxista: a d\u00e9cada de 1930 e o combate ao integralismo (fascismo brasileiro da \u00e9poca); o per\u00edodo inicial da ditadura de 1964 e sua an\u00e1lise sobre a conjuntura internacional e seus desdobramentos no pa\u00eds; e sua fase final, quando se destacam os textos dirigidos para a constru\u00e7\u00e3o do PT. \u00c9 preciso acrescentar ainda que ele dedicou boa parte de sua vida profissional \u00e0 cr\u00edtica de arte e ao jornalismo, atividades que desdobraram sua intensa elabora\u00e7\u00e3o marxista para o campo da cultura em geral, com repercuss\u00f5es nos campos da arquitetura, da museologia, da sociologia e da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>Pedrosa realizou uma produ\u00e7\u00e3o marxista rica e original, a partir das experi\u00eancias de lutas da sua milit\u00e2ncia no Brasil e seu engajamento internacionalista. Ajudou a desenvolver uma elabora\u00e7\u00e3o sobre a realidade brasileira, com base no marxismo, incorporando de maneira org\u00e2nica teses centrais de Tr\u00f3tski, Rosa Luxemburgo e v\u00e1rios outros te\u00f3ricos comunistas. Sua primeira contribui\u00e7\u00e3o te\u00f3rica deu-se em torno das avalia\u00e7\u00f5es sobre a insurrei\u00e7\u00e3o de 1930; a dire\u00e7\u00e3o do PCB avaliou que o acontecimento era produto de contradi\u00e7\u00f5es imperialistas entre a Inglaterra e os Estados Unidos; Pedrosa discordou afirmando que ocorria uma reorganiza\u00e7\u00e3o das classes dominantes do Brasil, com uma disputa de fra\u00e7\u00f5es da burguesia por privil\u00e9gios econ\u00f4micos internos. Estas posi\u00e7\u00f5es foram desenvolvidas em colabora\u00e7\u00e3o com L\u00edvio Xavier, em texto intitulado \u201cEsbo\u00e7o de uma an\u00e1lise da situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e social do Brasil\u201d, que destacava a incapacidade de as burguesias realizarem a revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica nos pa\u00edses atrasados. Assim, a unidade nacional brasileira tendia a se esfacelar sob o peso da contradi\u00e7\u00e3o entre o desenvolvimento desigual do capitalismo nos estados regionais, fruto dessas contradi\u00e7\u00f5es. A forma da Federa\u00e7\u00e3o Nacional brasileira, nas condi\u00e7\u00f5es criadas pela press\u00e3o imperialista, teve como resultado a guerra civil conhecida como <em>Revolu\u00e7\u00e3o de 1930<\/em>. A an\u00e1lise entrela\u00e7a o quadro nacional e internacional combinados do capitalismo com as insufici\u00eancias pol\u00edticas da burguesia nativa em construir um projeto pr\u00f3prio de na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O golpe do Estado Novo, de 1937, liquidou com as pretens\u00f5es mais imediatas dos fascistas brasileiros naquela d\u00e9cada. Mas chama aten\u00e7\u00e3o o destaque que Pedrosa demarca em v\u00e1rios textos desse per\u00edodo a respeito dos atalhos golpistas e das rela\u00e7\u00f5es prom\u00edscuas entre os bandos fascistas e os setores autorit\u00e1rios militares. Se em 1937 esse caminho foi barrado, em 1964 o problema se colocou novamente, na medida em que o fascismo n\u00e3o seria um fen\u00f4meno isolado, mas parte integrante e excepcional do funcionamento do regime capitalista em geral, que teria continuidade das d\u00e9cadas seguintes.<\/p>\n<p>Em seus textos de 1937, Pedrosa j\u00e1 analisava as <em>rela\u00e7\u00f5es<\/em> do fascismo com o capitalismo, como elementos de um mesmo componente social \u2013 posteriormente silenciadas e combatidas pelos liberais como se fossem de universos distantes. Com o golpe militar de 1964, M\u00e1rio Pedrosa decide empreender um balan\u00e7o e an\u00e1lise de f\u00f4lego sobre as perspectivas do imperialismo, seus desdobramentos na economia e luta pol\u00edtica brasileira e as perspectivas da revolu\u00e7\u00e3o socialista no pa\u00eds. Em 1966 publica <em>Op\u00e7\u00e3o Imperialista<\/em> e <em>Op\u00e7\u00e3o Brasileira<\/em>, livros cujo alvo imediato foi combater o golpe \u2013 que demonstrava o entrela\u00e7amento entre a hist\u00f3ria da forma\u00e7\u00e3o do capitalismo no pa\u00eds e uma combina\u00e7\u00e3o mais recente das for\u00e7as golpistas (entre as camadas m\u00e9dias, com tra\u00e7os fascistizantes, as oligarquias rurais, e as influ\u00eancias externas dos EUA). A direita conservadora brasileira possu\u00eda tra\u00e7os e a\u00e7\u00f5es de car\u00e1ter fascista entranhados em sua g\u00eanese social, os quais remetiam \u00e0 d\u00e9cada de 1930 \u2013 quando o fen\u00f4meno tomou corpo no movimento integralista, que n\u00e3o desaparecera. O antigo fascismo da d\u00e9cada de 1930, e que ele chamara de \u201cfascismo colonial\u201d, continuava sendo parte fundamental do arsenal da burguesia brasileira, principalmente quando se tratava de inviabilizar a fr\u00e1gil democracia. O que caracterizava a ditadura militar de 1964 era que ela n\u00e3o representava no poder nenhuma das classes sociais dirigentes em particular, mas um tipo peculiar de \u201cbonapartismo militar\u201d, algo que lhe era peculiar. Isto seria produto de condi\u00e7\u00f5es igualmente peculiares, como uma combina\u00e7\u00e3o das tend\u00eancias e necessidades mundiais do capitalismo internacional com a realidade nacional das classes dominantes locais, acuadas frente a uma situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria produzida pela mobiliza\u00e7\u00e3o popular. Como \u201cbonapartismo militar\u201d, a a\u00e7\u00e3o da ditadura ocuparia ainda o lugar e papel do fascismo como movimento organizado de massas. Se na d\u00e9cada de 1930 j\u00e1 se configurava uma tend\u00eancia a maior centraliza\u00e7\u00e3o do estado brasileiro, condi\u00e7\u00e3o imposta ao mesmo tempo pelo capitalismo no Brasil e pelas fragilidades da burguesia nacional, tanto no plano interno como internacional, a ditadura iniciada em 1964 era vista como a ren\u00fancia e derrota definitiva dos \u00faltimos tra\u00e7os de soberania e autonomia de fra\u00e7\u00f5es organizadas da burguesia nacional. E isso se expressava no fato de que a burguesia perdera o controle, como classe social, do regime <em>bonapartista<\/em> \u2013 agora em m\u00e3os da corpora\u00e7\u00e3o militar.<\/p>\n<p>O conceito de \u201cbonapartismo\u201d foi uma ferramenta central manejada nas an\u00e1lises que Pedrosa realiza nos dois per\u00edodos cr\u00edticos da conjuntura em que atuou: a d\u00e9cada de 1930, e a de 1960 (as das duas ditaduras brasileiras). Para ele o bonapartismo \u00e9 o conceito marxista que melhor permite a compreens\u00e3o da permanente oscila\u00e7\u00e3o do regime pol\u00edtico de um estado dependente. Dessa maneira, o chamado \u201cciclo nacional populista desenvolvimentista\u201d do p\u00f3s-II Guerra n\u00e3o \u00e9 visto como uma fase espec\u00edfica e de ruptura na hist\u00f3ria pol\u00edtica e econ\u00f4mica brasileira, mas antes como uma oscila\u00e7\u00e3o \u00e0 esquerda, sob press\u00e3o das massas, de um mesmo regime pol\u00edtico bonapartista de caracter\u00edsticas comuns. Com seu m\u00e9todo de an\u00e1lise, Pedrosa segue, de maneira dial\u00e9tica, os deslocamentos do regime pol\u00edtico nacional e seu espec\u00edfico lastro econ\u00f4mico; as oscila\u00e7\u00f5es do regime bonapartista s\u00e3o compreendidas sob o impacto das press\u00f5es do mercado mundial e do seu n\u00facleo estadunidense.<\/p>\n<p>Pedrosa se utiliza tamb\u00e9m de outro conceito fundamental, o de \u201cdesenvolvimento desigual e combinado\u201d, como ferramenta articuladora para a an\u00e1lise das oscila\u00e7\u00f5es internas do regime bonapartista na conjuntura pol\u00edtica nacional, que articula as conex\u00f5es do capitalismo nacional e internacional. Seus primeiros textos mais densos, escritos na d\u00e9cada de 1930, j\u00e1 possuem esse fio condutor interpretativo. E podemos observar que os seus principais artigos e livros, j\u00e1 no per\u00edodo da ditadura de 1964 (como <em>A Op\u00e7\u00e3o Brasileira<\/em> e <em>A Op\u00e7\u00e3o Imperialista<\/em>), combinam dialeticamente essas ferramentas, categorias e conceitos. A express\u00e3o desse fen\u00f4meno \u00e9, para ele, a pr\u00f3pria hist\u00f3ria pol\u00edtica e econ\u00f4mica, a luta de classes e os seus resultados na dimens\u00e3o da luta cotidiana do pa\u00eds. Compreender o que se passava no Brasil desde o golpe de 1964, e como se chegara a esta situa\u00e7\u00e3o, implicava entender os deslocamentos do regime bonapartista desde os anos 1930, suas oscila\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias e democr\u00e1tico-populares, mas tamb\u00e9m o capitalismo nacional com suas din\u00e2micas internas e rela\u00e7\u00f5es com o mercado mundial pautadas por uma din\u00e2mica desigual e combinada.<\/p>\n<p>M\u00e1rio Pedrosa tornou-se tamb\u00e9m uma refer\u00eancia na utiliza\u00e7\u00e3o da interpreta\u00e7\u00e3o marxista da arte no Brasil \u2013 e desde uma perspectiva livre e revolucion\u00e1ria que se contrapunha ao ent\u00e3o estrito <em>realismo socialista<\/em>. Em 1933, inaugura seu futuro caminho de cr\u00edtico de arte, com uma s\u00e9rie de confer\u00eancias analisando a obra da artista alem\u00e3 K\u00e4the Kollwitz, que expunha trabalhos em S\u00e3o Paulo com tem\u00e1ticas sociais. Se, para M\u00e1rio, arte e pol\u00edtica caminhavam juntas, os caminhos para superar o capitalismo e libertar a cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica convergiam. A brutalidade do capitalismo e dos meios de comunica\u00e7\u00e3o deveriam ser superados, porque o materialismo grosseiro da sociedade burguesa ajudava a fazer da cultura e das artes um privil\u00e9gio dos ricos. O capitalismo reproduzia a mis\u00e9ria cultural ao mercantilizar todas as esferas da sociedade. A sociedade capitalista transformava o homem moderno trabalhador em algu\u00e9m incapaz de enxergar a riqueza art\u00edstica do mundo, impedindo-o de ter uma imagina\u00e7\u00e3o livre e inovadora. Seria preciso fornecer, atrav\u00e9s de uma nova educa\u00e7\u00e3o art\u00edstica, a possibilidade para desenvolver a sensibilidade e a criatividade das crian\u00e7as, o sentido das emo\u00e7\u00f5es que d\u00e3o ao homem o impulso espont\u00e2neo natural para criar o novo. Sua proximidade com os artistas franceses do movimento surrealista encabe\u00e7ado pelo escritor franc\u00eas Andr\u00e9 Breton e sua milit\u00e2ncia trotskista abriram novos caminhos. Em 1938, Breton juntamente com Tr\u00f3tski e o pintor Diego Rivera escreveram o \u201cManifesto por uma arte Revolucion\u00e1ria e Independente\u201d, defendendo a total liberdade para a arte e sua ess\u00eancia profundamente revolucion\u00e1ria. Esse documento foi uma refer\u00eancia para Pedrosa, como cr\u00edtico da cultura, concebendo a dimens\u00e3o pol\u00edtica da cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica como mais ampla, coletiva e profunda \u2013 como possibilidade de liberta\u00e7\u00e3o da humanidade do jugo do capitalismo, como \u201cexerc\u00edcio experimental da liberdade\u201d.<\/p>\n<h3><strong>3 \u2013 Coment\u00e1rio sobre a obra<\/strong><\/h3>\n<p>M\u00e1rio Pedrosa n\u00e3o tinha ilus\u00f5es nas veleidades democr\u00e1ticas da burguesia brasileira e muito menos nas inten\u00e7\u00f5es supostamente <em>progressistas<\/em> dos Estados Unidos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Am\u00e9rica Latina; destaca que toda a estrutura\u00e7\u00e3o do complexo econ\u00f4mico-militar mundial estadunidense, sua amplitude imperial de controle e articula\u00e7\u00e3o da totalidade dos aspectos da economia, pol\u00edtica e cultura teriam sido gestados como \u201creformas contrarrevolucion\u00e1rias\u201d, na d\u00e9cada de 1930.<\/p>\n<p>Aqui estaria o ponto de intersec\u00e7\u00e3o do que ele conceitua como os \u201ctotalitarismos\u201d <em>nazista <\/em>e <em>estadunidense<\/em>, com repercuss\u00f5es na conjuntura brasileira. Haveria uma linha de continuidade, como ele destaca em <em>Op\u00e7\u00e3o Imperialista<\/em> (Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1966), que se prolongava submersa por uma suposta guerra fria: \u201cA luta do Ocidente democr\u00e1tico contra o Oriente comunista \u00e9 uma luta de drag\u00f5es de f\u00e1bula para enganar os povos\u201d. A ret\u00f3rica democr\u00e1tica e anticomunista encobriria t\u00e3o somente a perman\u00eancia do autoritarismo mais profundo e sofisticado \u2013 o dos EUA. N\u00e3o se trata aqui portanto de uma <em>virada t\u00e1tica<\/em>, mas do aprofundamento de uma orienta\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica anterior de funcionamento do sistema capitalista, cada vez mais centralizado e concentrado nas m\u00e3os do estado<em>.<\/em> O objetivo central do livro \u00e9 avaliar as novas tend\u00eancias do imperialismo estadunidense, como continuidade das chamadas reformas contrarrevolucion\u00e1rias inauguradas pelo nazismo, nos anos 1930. O capitalismo expresso pelas grandes corpora\u00e7\u00f5es representaria um est\u00e1gio ainda mais avan\u00e7ado de simbiose entre a a\u00e7\u00e3o dos governos dos EUA e os interesses por novos mercados vindos das gigantescas corpora\u00e7\u00f5es. Compara e discute com entusiasmo os avan\u00e7os da economia planificada da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica; do ponto de vista do refor\u00e7o do papel econ\u00f4mico da classe oper\u00e1ria, os v\u00ea como fundamental para qualquer pol\u00edtica emancipadora. O futuro socialista, como horizonte necess\u00e1rio, exigia n\u00e3o s\u00f3 uma ruptura com as ilus\u00f5es defendidas pelos planejadores <em>desenvolvimentistas<\/em> e <em>nacionalistas<\/em>, at\u00e9 ent\u00e3o hegem\u00f4nicos (antes da ditadura), mas tamb\u00e9m com os novos dispositivos neoliberais implantados, desde fora, pela ditadura.<\/p>\n<p>A perspectiva de uma transi\u00e7\u00e3o ao socialismo deveria estar no horizonte e ser pensada como sa\u00edda concreta e vi\u00e1vel \u00e0 economia brasileira atrasada. Esse caminho \u00e9 analisado no livro <em>Op\u00e7\u00e3o Brasileira<\/em> (Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1966). A ditadura implicara o fim das ilus\u00f5es nacional-desenvolvimentistas, ou de uma via independente e aut\u00f4noma para o capitalismo no Brasil \u2013 defendida pelo PCB. M\u00e1rio teve a ousadia de refletir sobre um caminho socialista de supera\u00e7\u00e3o: como romper com o atraso econ\u00f4mico e n\u00e3o se iludir com as falsifica\u00e7\u00f5es e ilus\u00f5es na burguesia brasileira? O excesso de popula\u00e7\u00e3o agr\u00edcola seria o primeiro n\u00f3 de estrangulamento, e uma reforma agr\u00e1ria permitiria a integra\u00e7\u00e3o de uma parte substancial dessa popula\u00e7\u00e3o com a propriedade da terra. Investimentos intensivos e maci\u00e7os teriam de ser feitos no setor dos bens de produ\u00e7\u00e3o para responder a tempo e quantitativamente \u00e0s novas demandas. A popula\u00e7\u00e3o liberada das servid\u00f5es do campo se integraria ao ex\u00e9rcito de trabalhadores industriais e do servi\u00e7o p\u00fablico. Assim, ele entende a planifica\u00e7\u00e3o socialista como alternativa concreta para o Brasil da d\u00e9cada de 1960 em diante.<\/p>\n<p>Sua elabora\u00e7\u00e3o te\u00f3rica no campo das artes e da cultura \u00e9 muito complexa para ser resumida em poucas linhas, mas cabe afirmar que est\u00e1 entrela\u00e7ada com sua vis\u00e3o marxista e revolucion\u00e1ria. O seu livro <em>Mundo, homem, arte em crise<\/em> (S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 1986), junto aos quatro livros p\u00f3stumos organizados por Ot\u00edlia Arantes \u2013 <em>Pol\u00edtica das artes: textos escolhidos<\/em> (S\u00e3o Paulo: Edusp, 1995), <em>Acad\u00eamicos e modernos: textos escolhidos<\/em> (S\u00e3o Paulo: Edusp, 1998), <em>Forma e percep\u00e7\u00e3o est\u00e9tica: textos escolhidos<\/em> (S\u00e3o Paulo: Edusp, 2000), <em>Modernidade c\u00e1 e l\u00e1: textos escolhidos<\/em> (S\u00e3o Paulo: Edusp, 2000) \u2013 re\u00fanem a mais rica colet\u00e2nea de textos de Pedrosa sobre a cr\u00edtica de arte, embora estejam longe de esgotar sua produ\u00e7\u00e3o sobre arte e cultura, ainda dispersa em in\u00fameras revistas e jornais. Para ele, o artista capaz de se aproximar da natureza, da sociedade, auxiliava na forma\u00e7\u00e3o de uma consci\u00eancia de classe para os trabalhadores. A arte provinha da natureza e da capacidade cada vez maior do homem control\u00e1-la; a pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o de materiais e t\u00e9cnicas se refletia na evolu\u00e7\u00e3o dos estilos art\u00edsticos. O capitalismo, por\u00e9m, levava o homem a se distanciar da natureza. Os artistas que cultuavam o moderno como novo deus estavam na verdade distanciando o homem do resgate da natureza, ajudando a aprision\u00e1-lo no mercado capitalista \u2013 ou ent\u00e3o apoiando um processo de <em>burocratiza\u00e7\u00e3o<\/em>, como o que ele enxergava na URSS. Arte e pol\u00edtica caminhavam juntas, e os caminhos para superar o capitalismo e libertar a cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica convergiam. A brutalidade do capitalismo e dos meios de comunica\u00e7\u00e3o deveriam ser superados, porque o materialismo grosseiro da sociedade burguesa fazia das artes um privil\u00e9gio dos ricos, reproduzindo a mis\u00e9ria cultural ao mercantilizar todas as esferas sociais; sob tal regime, o trabalhador era impedido de desenvolver sua percep\u00e7\u00e3o art\u00edstica, tendo tolhida sua criatividade. Defende assim uma nova educa\u00e7\u00e3o que promova a sensibilidade desde cedo, o impulso humano natural para criar o novo.<\/p>\n<p>Entre seus \u00faltimos livros que debatem a conjuntura pol\u00edtica est\u00e1<em> A crise mundial do imperialismo e Rosa Luxemburgo <\/em>(Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1979, em que resgata o legado da revolucion\u00e1ria polonesa e sua atualidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mobiliza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias que ent\u00e3o ocorriam, retomando muitas das reflex\u00f5es de 1966 e avaliando que o capitalismo vivia uma de suas mais profundas crises mundiais.<\/p>\n<p>Em seu \u00faltimo livro (publicado em vida) \u2013<em> Sobre o PT <\/em>(S\u00e3o Paulo: Ched Editorial, 1980) \u2013, retomou e refor\u00e7ou sua milit\u00e2ncia pol\u00edtica marxista. Defendeu a necessidade de uma Assembleia Constituinte <em>livre<\/em> e <em>soberana<\/em>, que seria uma sa\u00edda democr\u00e1tica e revolucion\u00e1ria para reconstruir a na\u00e7\u00e3o desde abaixo e romper de fato com as estruturas autorit\u00e1rias da ditadura militar. Insistiu na urg\u00eancia de um partido dos trabalhadores e de uma central sindical. Entretanto, mesmo depositando grandes esperan\u00e7as na constru\u00e7\u00e3o do PT, n\u00e3o se iludiu nem deixou de assinalar os desafios e perigos disto; era preciso empreender um combate pol\u00edtico contra as in\u00fameras tentativas que se lan\u00e7avam \u00e0 \u00e9poca para conter e amarrar o jovem e independente movimento oper\u00e1rio brasileiro.<\/p>\n<p>Assim, Pedrosa escrevia em um dos seus \u00faltimos textos em janeiro de 1980 no <em>Jornal da Rep\u00fablica<\/em>: \u201cO partido dos trabalhadores deve atuar e destacar-se autonomamente como classe\u2026 \u00e9 preciso destacar a diferen\u00e7a hist\u00f3rica que existe entre as classes dominantes e o operariado\u2026 a miss\u00e3o do proletariado contempor\u00e2neo como classe consciente de seus pr\u00f3prios interesses\u201d. Sua mensagem foi sempre expl\u00edcita: para se abrir caminho ao socialismo, era preciso aprofundar a luta de classes contra a burguesia, garantir sua independ\u00eancia.<\/p>\n<p>Dentre as muitas obras de M\u00e1rio, citamos ainda: <em>Os socialistas e a terceira guerra mundial<\/em> (Rio de Janeiro: Vanguarda Socialista, 1948); <em>Arte, necessidade vital<\/em> (Rio de Janeiro: Casa do Estudante do Brasil, 1949); <em>Panorama da pintura moderna<\/em> (Rio de Janeiro: Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e Sa\u00fade, 1952); <em>Dimens\u00f5es da arte<\/em> (Bras\u00edlia: MEC\u2013Servi\u00e7o de Documenta\u00e7\u00e3o, 1964); <em>Arte, forma e personalidades: 3 estudos<\/em> (S\u00e3o Paulo: Kair\u00f3s, 1979); <em>Dos murais de Portinari aos espa\u00e7os de Bras\u00edlia <\/em>[org. Aracy Amaral] (S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 1981).<\/p>\n<p>A maior parte dos textos pol\u00edticos de M\u00e1rio Pedrosa foram publicados em jornais \u2013 e ainda n\u00e3o est\u00e3o reunidos em livros.<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Bibliografia de refer\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>ABRAMO, F\u00falvio e KAREPOVS, Dainis (orgs.). <em>Na contracorrente da Hist\u00f3ria<\/em>. S\u00e3o Paulo: Sundermann, 2015.<\/p>\n<p>ANDRADE, Everaldo de Oliveira. M\u00e1rio Pedrosa, o golpe de 1964 e a cr\u00edtica ao desenvolvimentismo. S\u00e3o Paulo, <em>Perseu,<\/em> fev. 2016. Disp:\u00a0 https:\/\/revistaperseu.fpabramo.org.br.<\/p>\n<p>ARANTES, Ot\u00edlia Beatriz Fiori. <em>M\u00e1rio Pedrosa, itiner\u00e1rio cr\u00edtico.<\/em> S\u00e3o Paulo: Cosac Naify, 2004.<\/p>\n<p>D\u2019ANGELO, Martha. <em>Educa\u00e7\u00e3o est\u00e9tica e cr\u00edtica de arte na obra de M\u00e1rio Pedrosa.<\/em> Rio de Janeiro: Nau, 2011.<\/p>\n<p>FIGUEIREDO, Carlos Eduardo de Senna. <em>M\u00e1rio Pedrosa, retratos do ex\u00edlio.<\/em> Rio de Janeiro: Antares, 1982.<\/p>\n<p>MARQUES NETO, Jos\u00e9 Castilho (org.). <em>M\u00e1rio Pedrosa e o Brasil.<\/em> S\u00e3o Paulo: Ed. Fund. Perseu Abramo, 2001.<\/p>\n<p>OITICICA FILHO, C\u00e9sar. <em>M\u00e1rio Pedrosa<\/em> <em>(Cole\u00e7\u00e3o Encontros).<\/em> Rio de Janeiro: Azougue, 2013.<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p>Com edi\u00e7\u00e3o de texto de Yuri Martins-Fontes e Joana Coutinho, este artigo foi originalmente publicado no portal do N\u00facleo Pr\u00e1xis-USP, sendo um dos verbetes do <em>Dicion\u00e1rio Marxismo na Am\u00e9rica<\/em>, obra coletiva coordenada por essa organiza\u00e7\u00e3o; permite-se sua reprodu\u00e7\u00e3o, sem fins comerciais, desde que citada a fonte (nucleopraxisusp.org) e que seu conte\u00fado n\u00e3o seja alterado. Sugest\u00f5es e cr\u00edticas s\u00e3o bem-vindas: nucleopraxis.usp.br@gmail.com.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. Se voc\u00ea valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o, contribua com um PIX para <strong>outrosquinhentos@outraspalavras.net<\/strong> e fortale\u00e7a o jornalismo cr\u00edtico.<\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post O marxismo, a arte e o Brasil de Mario Pedrosa appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/artigo-reforma-da-previdencia-traz-crueldade-com-professoras\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Artigo | Reforma da Previd\u00eancia traz crueldade com...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/breve-historia-das-taticas-do-futebol\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Sem-titulo-7-2048x1187-150x150.jpeg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Breve hist\u00f3ria das t\u00e1ticas do futebol<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/canoas-celebra-o-14o-festival-de-teatro-popular-com-nove-espetaculos-gratuitos\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Canoas celebra o 14\u00ba Festival de Teatro Popular co...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/pl-de-jandira-que-virou-lei-e-referencia-no-combate-a-violencia-contra-mulher\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Jandira-mulher-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">PL de Jandira que virou lei \u00e9 refer\u00eancia no combat...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Intelectual pernambucano foi grande voz do internacionalismo no Brasil. Liderou a resist\u00eancia ao fascismo na d\u00e9cada de 30. Militante trotskista, auxiliou prisioneiros pol\u00edticos na ditadura. E defendeu a arte como \u201cexerc\u00edcio experimental da liberdade\u201d<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/historia-e-memoria\/o-marxismo-a-arte-e-o-brasil-de-mario-pedrosa\/\">O marxismo, a arte e o Brasil de Mario Pedrosa<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":96915,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[1150,76758,76759,1014,32087,59076,4352,5488,3556,1368,76760,52002,72857,76761,228,9068,1664,76762,9077,76763,3165,627],"tags":[],"class_list":["post-96914","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-arte","category-bonapartismo","category-burguesia-nacional","category-classe-trabalhadora","category-direita-conservadora","category-fascismo-brasileiro","category-golpe-de-64","category-historia-e-memoria","category-livros","category-luta-de-classes","category-mario-xavier-de-andrade-pedrosa","category-militancia-politica","category-militante-comunista","category-nacionalismo-conservador","category-nordeste","category-obra","category-pcb","category-politica-marxista","category-realidade-brasileira","category-regime-capitalista","category-revolucionario","category-socialismo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96914","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=96914"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96914\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/96915"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=96914"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=96914"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=96914"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}