{"id":97165,"date":"2026-07-24T16:55:02","date_gmt":"2026-07-24T19:55:02","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/as-ilusoes-perdidas-diante-da-crise-do-ocidente\/"},"modified":"2026-07-24T16:55:02","modified_gmt":"2026-07-24T19:55:02","slug":"as-ilusoes-perdidas-diante-da-crise-do-ocidente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/as-ilusoes-perdidas-diante-da-crise-do-ocidente\/","title":{"rendered":"As ilus\u00f5es perdidas diante da crise do Ocidente"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1200\" height=\"630\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/5125294571968466175.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/5125294571968466175.jpg 1200w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/5125294571968466175-300x158.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/5125294571968466175-768x403.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px\"><figcaption>Imagem: Juan Lee<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><em>\u201cEnquanto todas as demais ci\u00eancias progrediram,<\/em>\u00a0<em>a de governar marcou passo;<\/em>\u00a0<em>est\u00e1 sendo praticada, hoje, um pouco<\/em>\u00a0<em>melhor do que h\u00e1 tr\u00eas ou quatro mil\u00eanios.\u201d<\/em>\u00a0<br \/>John Adams, em 1813\u00a0<\/p>\n<p><em>\u201cCaso John Adams tenha raz\u00e3o,<\/em>\u00a0<em>n\u00e3o podemos esperar muita melhoria.<\/em>\u00a0<em>Poderemos, t\u00e3o somente, seguir entontecidos,<\/em>\u00a0<em>como temos feito nesses mesmos<\/em>\u00a0<em>tr\u00eas ou quatro mil anos,<\/em>\u00a0<em>com altern\u00e2ncias de gl\u00f3ria e decl\u00ednio,<\/em>\u00a0<em>grandes esfor\u00e7os e sombras.\u201d<\/em>\u00a0<br \/>Barbara Tuchman, em 1984\u00a0<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante o recorrente ceticismo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 irrefletida classe de agentes pol\u00edticos, sempre houve um consenso entre governantes e governados (e at\u00e9 mesmo entre opressores e oprimidos, tiranos e tiranizados) em torno da ideia de que n\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda para os conflitos humanos fora da\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>, a reverenciada arte de gerenciar interesses dissonantes na busca de um\u00a0<em>modus vivendi\u00a0<\/em>na\u00a0<em>p\u00f3lis<\/em>, que germinou nas \u00e1goras atenienses 2.500 anos atr\u00e1s. Se assim o \u00e9, cabe ent\u00e3o investigar em profundidade por que essa mesma\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>\u00a0nunca conseguiu cumprir, a despeito de uma infinidade de assembleias, leis e regras de conviv\u00eancia j\u00e1 postas em pr\u00e1tica, seu prop\u00f3sito de promover rela\u00e7\u00f5es minimamente harmoniosas entre povos, sociedades e na\u00e7\u00f5es, bem como de solucionar a hist\u00f3rica rela\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria dos humanos com o meio\u00a0ambiente. Rela\u00e7\u00e3o esta que, no atual e ag\u00f4nico contexto geopol\u00edtico, alcan\u00e7ou o inaudito patamar de\u00a0colapso civilizat\u00f3rio, o que coloca a humanidade diante de uma\u00a0<em>policrise<\/em>\u00a0de\u00a0dimens\u00f5es existenciais.\u00a0<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Prancheta--27.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Prancheta--27.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Prancheta-4-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>O fato \u00e9 que, diferentemente dos avan\u00e7os observados na ci\u00eancia e na tecnologia, o\u00a0<em>ethos<\/em>\u00a0humano s\u00f3 tem regredido ao longo da hist\u00f3ria, contrariando tudo o que se esperava da\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>, a principal express\u00e3o desse\u00a0<em>ethos<\/em>. Pelo menos tr\u00eas momentos de depress\u00f5es civilizat\u00f3rias profundamente agudas s\u00e3o bem representativos dessa vacuidade do ato de fazer\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>:\u00a0<\/p>\n<p>1) durante o desastroso s\u00e9culo XIV, a\u00a0Peste Negra, herdada da ignor\u00e2ncia que reinava na Idade M\u00e9dia, e as\u00a0invas\u00f5es mong\u00f3is\u00a0dizimaram metade da popula\u00e7\u00e3o da Europa e 2\/3 da popula\u00e7\u00e3o da China, respectivamente;\u00a0<\/p>\n<p>2) no tr\u00e1gico s\u00e9culo XX, com duas\u00a0guerras mundiais\u00a0e os muitos\u00a0totalitarismos\u00a0patrocinados pelo Estado, eliminou-se, deliberadamente e com as melhores t\u00e9cnicas, instrumentos e m\u00e9todos cient\u00edficos at\u00e9\u00a0ent\u00e3o desenvolvidos, entre duas e tr\u00eas centenas de milh\u00f5es de pessoas;\u00a0<\/p>\n<p>3) e agora, neste agonizante in\u00edcio de s\u00e9culo XXI, que j\u00e1 nasce marcado pela\u00a0<em>policrise<\/em>\u00a0resultante da imbrica\u00e7\u00e3o e sinergia entre o acelerado\u00a0processo de colapso socioambiental\u00a0em curso, a supress\u00e3o dos regimes democr\u00e1ticos, a crescente inseguran\u00e7a energ\u00e9tica e alimentar, a perspectiva sombria de novas pandemias, a amplifica\u00e7\u00e3o das instabilidades do\u00a0sistema-mundo capitalista, a potencial amea\u00e7a de uma\u00a0conflagra\u00e7\u00e3o nuclear global\u00a0e, mais recentemente, os\u00a0riscos envolvidos no avan\u00e7o da intelig\u00eancia artificial.\u00a0<\/p>\n<p>A\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>\u00a0n\u00e3o s\u00f3 tem sido\u00a0in\u00f3cua, ela reflete a perene insensatez dos que governam e, assim, parece preparar as circunst\u00e2ncias para a pr\u00f3xima trag\u00e9dia, que, como a hist\u00f3ria demonstra,\u00a0normalmente \u00e9 mais devastadora que a precedente. Ap\u00f3s 2.500 anos dessa busca do ideal de progresso emancipat\u00f3rio levado a cabo por toda a humanidade, chegamos agora no s\u00e9culo XXI numa conflu\u00eancia de crises terminais que est\u00e1 pondo em quest\u00e3o a sobreviv\u00eancia da nossa esp\u00e9cie. Como bem percebeu o escritor ingl\u00eas\u00a0John Gray, \u201co progresso na ci\u00eancia e na tecnologia \u00e9 um fato, ao passo que o progresso na\u00a0\u00e9tica e na pol\u00edtica \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o. (\u2026) Os velhos dem\u00f4nios regressam, geralmente com novos nomes. O que vemos como caracter\u00edsticas inalter\u00e1veis da vida civilizada se desvanece em um piscar de olhos.\u201d\u00a0<\/p>\n<p>Para refletirmos em profundidade sobre essa contradi\u00e7\u00e3o inerente \u00e0\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>, vou resgatar aqui o pensamento do pesquisador da Unicamp,\u00a0Luiz Marques, que vem fazendo um meticuloso trabalho de investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica acerca da amea\u00e7a que o processo\u00a0de colapso clim\u00e1tico em curso representa para a humanidade. O resultado desse trabalho est\u00e1 bem articulado em tr\u00eas obras:\u00a0<em>Capitalismo e colapso ambiental<\/em>\u00a0(Editora Unicamp, 2015);\u00a0<em>O dec\u00eanio decisivo: propostas para uma pol\u00edtica de sobreviv\u00eancia<\/em>\u00a0(Elefante, 2023); e\u00a0<em>Ecoc\u00eddio,\u00a0por uma (agri)cultura da vida<\/em>\u00a0(Express\u00e3o Popular, 2025). Essa trilogia de Marques trata-se, na verdade, de um dos dossi\u00eas mais consistentes e abrangentes j\u00e1 produzidos, que atesta a inviabilidade do sistema-mundo capitalista face ao acelerado processo de fal\u00eancia ambiental e civilizacional que ele tem desencadeado.\u00a0<\/p>\n<p>Transcrevo, a seguir, o trecho de um\u00a0artigo-s\u00edntese\u00a0desse elucidativo\u00a0trabalho de Marques. Nele est\u00e3o listadas as in\u00fameras crises interdependentes que, agindo em sinergia e refor\u00e7ando-se mutuamente, comp\u00f5em a\u00a0<em>policrise<\/em>\u00a0global que se abate sobre a humanidade. Para sairmos dessa\u00a0<em>policrise<\/em>, Marques conclama as sociedades a uma insurrei\u00e7\u00e3o, apostando na radicaliza\u00e7\u00e3o da\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>\u00a0como nossa alternativa \u00faltima para evitar o abismo civilizat\u00f3rio:\u00a0<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/HUCITEC-basaglia3-2.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/HUCITEC-basaglia3-2.png 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/HUCITEC-basaglia3-300x37.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p><em>\u201cSe n\u00e3o houver uma revolta pol\u00edtica das sociedades \u00e0 altura da extrema gravidade dessa poli\u00e9drica crise planet\u00e1ria, a condena\u00e7\u00e3o ao pior\u00a0num futuro cada vez mais pr\u00f3ximo \u00e9 inapel\u00e1vel.<\/em>\u00a0<\/p>\n<p><em>Essa revolta pol\u00edtica contra o caos tem por condi\u00e7\u00e3o primeira de possibilidade a revaloriza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica e a recusa de sua substitui\u00e7\u00e3o pela guerra.\u00a0Clausewitz\u00a0est\u00e1 errado quando afirma que a guerra \u00e9 a continua\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica por outros meios. Essa tese \u00e9 repetida ad nauseam pelos que lucram com a guerra ou, mais amplamente, pelos que a consideram inevit\u00e1vel, posto que resultante da agressividade de nossa esp\u00e9cie. Ningu\u00e9m ignora que nossa esp\u00e9cie \u00e9\u00a0extremamente agressiva e que a guerra \u00e9 parte constitutiva da hist\u00f3ria humana. Mas justamente por isso a pol\u00edtica \u00e9 a mais importante inven\u00e7\u00e3o de nossa esp\u00e9cie, pois sua finalidade \u00e9 dupla.\u00a0Antes de mais nada, a pol\u00edtica permite conter e controlar essa agressividade, sublim\u00e1-la e canaliz\u00e1-la para o jogo de enfrentamentos extremos, mas civis e pac\u00edficos, entre grupos sociais, entre alian\u00e7as partid\u00e1rias, parlamentares e eleitorais. \u00c9 justa a invers\u00e3o da f\u00f3rmula de\u00a0Clausewitz\u00a0proposta por Michel Foucault,\u00a0quando afirma em 1976 que \u201ca pol\u00edtica \u00e9 a guerra continuada por outros meios\u201d.<\/em>\u00a0<\/p>\n<p><em>Mas se a pol\u00edtica \u00e9 uma forma de guerra pela qual se pode evitar a guerra, ela \u00e9 tamb\u00e9m a inven\u00e7\u00e3o pela qual \u00e9 poss\u00edvel fortalecer a outra componente constitutiva de nossa esp\u00e9cie e de nossa hist\u00f3ria: a coopera\u00e7\u00e3o. A pol\u00edtica permite imaginar outras formas de civiliza\u00e7\u00e3o nas quais a linguagem, a l\u00f3gica, o conhecimento da experi\u00eancia hist\u00f3rica, os padr\u00f5es de causalidade, a argumenta\u00e7\u00e3o, o direito e as aspira\u00e7\u00f5es \u00e0 justi\u00e7a t\u00eam\u00a0melhores condi\u00e7\u00f5es de prevalecer sobre nossa agressividade. Pol\u00edtica e linguagem s\u00e3o duas faces da mesma moeda. Ambas constituem em geral o dom\u00ednio do simb\u00f3lico e do imagin\u00e1rio e \u00e9 delas que se faz a subst\u00e2ncia do melhor de qualquer civiliza\u00e7\u00e3o. A guerra, ao contr\u00e1rio, \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o do poder da linguagem e, portanto, a desist\u00eancia do projeto humano. Al\u00e9m de negar esse projeto, a guerra funciona, hoje, como: (1) uma poderosa al\u00e7a de retroalimenta\u00e7\u00e3o de todas as crises acima enunciadas\u00a0<\/em><em>[ver artigo]<\/em><em>\u00a0e (2) um obst\u00e1culo fundamental a qualquer esfor\u00e7o de concerta\u00e7\u00e3o entres as sociedades para atenuar os impactos atuais e vindouros das crises planet\u00e1rias, de modo a torn\u00e1-los menos adversos \u00e0s sociedades e \u00e0 vida pluricelular em geral. Hoje, mais que nunca, a guerra deve ser evitada, se temos, de fato, alguma inten\u00e7\u00e3o de sobreviver.\u201d<\/em>\u00a0<\/p>\n<p>Ao que a hist\u00f3ria tem mostrado, a sa\u00edda dessa\u00a0<em>policrise<\/em>\u00a0planet\u00e1ria a partir da\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>, como prop\u00f5e Marques, \u00e9 improv\u00e1vel, mas os principais constituintes da\u00a0<em>cultura<\/em>\u00a0(no sentido antropol\u00f3gico que este termo comporta) que forjou tal\u00a0<em>policrise<\/em>\u00a0parecem estar todos bem articulados nessa s\u00edntese de Marques. Sempre bem amparado nas melhores evid\u00eancias das ci\u00eancias que lidam com as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, Marques \u00e9 muito preciso no diagn\u00f3stico da condi\u00e7\u00e3o terminal da nossa e das demais esp\u00e9cies por n\u00f3s amea\u00e7adas que habitam a Terra, cuja interdepend\u00eancia\u00a0biol\u00f3gica encontra-se num acelerado processo de degrada\u00e7\u00e3o. J\u00e1 quanto \u00e0 salvaguarda que poder\u00e1 nos livrar dessa situa\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>policrise<\/em>\u00a0descontrolada, ou seja, se ela vir\u00e1 da radicaliza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica como\u00a0\u201cuma forma de guerra pela qual se pode evitar a guerra\u201d, se n\u00e3o indica uma sa\u00edda fact\u00edvel, pelo menos parece apontar os principais elementos implicados nessa\u00a0crise existencial\u00a0na qual estamos imersos, a saber: a\u00a0<em>linguagem<\/em>, a\u00a0<em>coopera\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0e a\u00a0<em>agressividade.<\/em>\u00a0<\/p>\n<p>Entender como esses tr\u00eas elementos forjaram o comportamento do\u00a0<em>Homo sapiens<\/em>\u00a0moderno pode estar a chave para vislumbrarmos, ainda que remotamente, a possibilidade de sa\u00edda dessa\u00a0<em>policrise<\/em>\u00a0terminal na qual estamos existencialmente imbricados neste s\u00e9culo XXI. Se \u00e9 que essa sa\u00edda ainda \u00e9 poss\u00edvel, ela seguramente n\u00e3o est\u00e1 na\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>, mas na\u00a0<em>cultura<\/em>\u00a0(entendida como atributo humano que delimita seu modo de estar e se relacionar com o mundo). A inten\u00e7\u00e3o aqui, portanto, \u00e9 tentar mostrar que\u00a0essa perspectiva, embora muito incongruente \u00e0 primeira vista, pode ser a mais razo\u00e1vel para compreendermos que talvez estejamos presos ao autoengano de que a\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>\u00a0um dia possa livrar a humanidade de uma\u00a0<em>policrise<\/em>\u00a0que ela mesma inaugurou e sustenta cotidiana e sistematicamente.\u00a0<\/p>\n<p><strong>A primazia da\u00a0<\/strong><strong><em>Cultura<\/em><\/strong><strong>\u00a0sobre a\u00a0<\/strong><strong><em>Pol\u00edtica<\/em><\/strong><strong>\u00a0\u2013 uma ontologia da cogni\u00e7\u00e3o humana<\/strong>\u00a0<\/p>\n<p>A principal caracter\u00edstica da\u00a0<em>cultura<\/em>, compreendendo-a como conceito antropol\u00f3gico definidor do\u00a0comportamento e modo de vida dos\u00a0homin\u00eddeos, \u00e9 que ela \u00e9 um sistema conservador fechado. Em decorr\u00eancia desse atributo de\u00a0autorreferenciamento\u00a0da\u00a0<em>cultura<\/em>, n\u00f3s humanos tendemos a antropomorfizar tudo, at\u00e9 mesmo a compreens\u00e3o sobre como se deu a longa evolu\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>Homo sapiens<\/em>\u00a0e de seus ancestrais.\u00a0Recentemente, o cientista pol\u00edtico\u00a0Jos\u00e9 Lu\u00eds Fiori, que considero uma das melhores refer\u00eancias\u00a0aqui no Brasil para o entendimento da conflagrada geopol\u00edtica atual, ao explicar o porqu\u00ea de existir \u201ca guerra, como forma regular, organizada e estrat\u00e9gica de exerc\u00edcio da viol\u00eancia entre os povos\u201d, recorreu \u00e0 seguinte justifica\u00e7\u00e3o de cunho cient\u00edfico:\u00a0<\/p>\n<p><em>\u201cJ\u00e1 faz tempo que a pesquisa antropol\u00f3gica e arqueol\u00f3gica acumula evid\u00eancias de que\u00a0<\/em><strong><em>a \u2018viol\u00eancia\u2019 nasceu junto com os primeiros primatas<\/em><\/strong><em>, e foi companheira insepar\u00e1vel do Homo sapiens, atrav\u00e9s de todo o seu processo evolucion\u00e1rio.\u201d<\/em>\u00a0(grifo meu) (Boletim de Conjuntura n\u00ba 17, maio de 2026, do Observat\u00f3rio Internacional do S\u00e9culo XXI, NUBEA-UFRJ)\u00a0<\/p>\n<p>De fato, n\u00e3o podemos negar que h\u00e1 uma inarred\u00e1vel incongru\u00eancia inerente \u00e0 conviv\u00eancia humana, que fez da guerra n\u00e3o s\u00f3 o\u00a0<em>modus operandi<\/em>\u00a0da\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>, mas a principal caracter\u00edstica definidora da suposta natureza humana. No entanto, a viol\u00eancia, e consequentemente a\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>\u00a0(as rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7a e poder)\u00a0forjada a partir dela, est\u00e3o longe de constituir o fundamento prim\u00e1rio indutor do comportamento humano. A\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>\u00a0constitui antes um desdobramento da\u00a0<em>cultura,<\/em>\u00a0embora haja sempre uma rela\u00e7\u00e3o de retroalimenta\u00e7\u00e3o entre ambas.\u00a0<em>Pol\u00edtica<\/em>\u00a0e\u00a0<em>cultura<\/em>\u00a0est\u00e3o t\u00e3o imbricadas que o que se convencionou chamar de\u00a0<em>guerra cultural<\/em>\u00a0\u2013 a perene e irremedi\u00e1vel disputa ideol\u00f3gica e social pelo controle de narrativas, vis\u00f5es de mundo e valores morais \u2013 tornou-se uma\u00a0constante na conflituosa conviv\u00eancia humana.\u00a0<\/p>\n<p>A no\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>cultura<\/em>\u00a0aqui utilizada diz respeito a capacidades desenvolvidas e internalizadas pelos seres humanos no sentido antropol\u00f3gico, o qual inclui valores, cren\u00e7as, premissas, teorias, modelos, s\u00edmbolos e rituais, todos elaborados a partir de cosmovis\u00f5es e concep\u00e7\u00f5es da\u00a0realidade que nos cerca. Logo, a\u00a0<em>cultura<\/em>\u00a0pertence ao \u00e2mbito do imagin\u00e1rio humano,\u00a0que comumente representamos pela no\u00e7\u00e3o de mitos, fic\u00e7\u00f5es ou ilus\u00f5es. Portanto, a\u00a0<em>cultura<\/em>, enquanto modo de\u00a0viver, \u00e9 o esteio que forja e sustenta a\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>, influenciando, assim, as v\u00e1rias dimens\u00f5es da experi\u00eancia humana: religi\u00e3o, economia, filosofia, ci\u00eancia, \u00e9tica educa\u00e7\u00e3o, moral, costumes etc. Em resumo, a\u00a0<em>cultura<\/em>\u00a0define e delimita o viver humano, induzindo e sendo induzida pelo comportamento e pela intera\u00e7\u00e3o dos seres humanos com as suas diversas realidades.\u00a0<\/p>\n<p>Assim, podemos afirmar que a\u00a0<em>cultura<\/em>\u00a0e a\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>\u00a0operam no \u00e2mbito da cogni\u00e7\u00e3o humana. Enquanto a\u00a0<em>cultura<\/em>\u00a0fornece o repert\u00f3rio de significados,\u00a0valores e s\u00edmbolos de uma sociedade, a\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>\u00a0\u00e9 o processo pelo qual esses significados s\u00e3o mobilizados para tentar organizar e harmonizar a conviv\u00eancia, gerir as rela\u00e7\u00f5es de poder e distribuir equanimemente os recursos materiais necess\u00e1rios \u00e0 vida na\u00a0<em>p\u00f3lis<\/em>. A\u00a0<em>cultura<\/em>\u00a0funciona, desse modo, como um\u00a0sistema autopoi\u00e9tico: ela produz a si mesma continuamente, em processos recursivos, por isso \u00e9 inerentemente fechada, portanto, conservadora. A\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>\u00a0\u00e9 o mecanismo de regula\u00e7\u00e3o desse sistema, garantindo que a\u00a0<em>identidade cultural<\/em>\u00a0se conserve e se mantenha. Essa imbrica\u00e7\u00e3o tem a ver com aquilo que o soci\u00f3logo alem\u00e3o Niklas\u00a0Luhmann\u00a0chamou de\u00a0sistemas autorreferenciados. Todo sistema social \u00e9 \u201cfechado\u201d na sua pr\u00f3pria realidade e, assim, se mant\u00e9m preso a ela, por mais incongruente que esta realidade percebida\u00a0esteja em rela\u00e7\u00e3o ao\u00a0mundo externo.\u00a0<\/p>\n<p>Uma das decorr\u00eancias do car\u00e1ter conservador de uma\u00a0<em>cultura<\/em>\u00a0\u00e9 que estamos sempre projetando fen\u00f4menos circunstanciais \u2013 portanto circunscritos a um contexto ambiental e hist\u00f3rico \u2013 como se fossem algo inato aos homin\u00eddeos, cujas culturas s\u00e3o forjadas em processos que duraram milh\u00f5es de anos. Logo, se considerarmos a longa hist\u00f3ria da evolu\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>Homo sapiens<\/em>\u00a0e de seus ancestrais homin\u00eddeos, esse acoplamento\u00a0entre\u00a0<em>cultura<\/em>\u00a0e\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>\u00a0\u00e9 um fen\u00f4meno cognitivo n\u00e3o s\u00f3 an\u00f4malo, mas tamb\u00e9m biologicamente insustent\u00e1vel e, em raz\u00e3o disso, parece constituir o \u00e2mago da impossibilidade civilizacional que se apresenta neste s\u00e9culo XXI.\u00a0<\/p>\n<p>Embora haja um argumento aristot\u00e9lico j\u00e1 sacramentado de que uma suposta racionalidade\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>\u00a0seja algo inerente \u00e0\u00a0natureza humana, tal axioma s\u00f3 tem apenas 2.500 anos de preval\u00eancia, correspondendo ao longo per\u00edodo de\u00a0predom\u00ednio da chamada\u00a0c<em>ultura ocidental<\/em>. Essa suposta racionalidade humana que fundamenta e sustenta a\u00a0<em>cultura ocidental<\/em>\u00a0mostrou-se irracional agora neste s\u00e9culo XXI, em face da sua converg\u00eancia com a\u00a0<em>policrise<\/em>\u00a0em andamento, haja vista que n\u00e3o h\u00e1 at\u00e9 agora nenhuma a\u00e7\u00e3o\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>\u00a0humana, racional e consistente, de entendimento e mitiga\u00e7\u00e3o de seus efeitos catastr\u00f3ficos e terminais para a humanidade. Pelo contr\u00e1rio, essa\u00a0<em>policrise<\/em>, que \u00e9 subproduto\u00a0da\u00a0<em>cultura ocidental<\/em>, aproxima-se de seu est\u00e1gio mais agudo, da\u00ed a constata\u00e7\u00e3o da atipicidade dessa\u00a0<em>cultura<\/em>\u00a0estabelecida.\u00a0<\/p>\n<p>Para entendermos como este\u00a0fen\u00f4meno cognitivo at\u00edpico\u00a0chamado\u00a0<em>cultura ocidental<\/em>\u00a0pode ter emergido, faremos antes uma digress\u00e3o acerca de um trabalho seminal do neurobi\u00f3logo chileno\u00a0Humberto Maturana\u00a0(1928-2021) em parceria com o bi\u00f3logo e fil\u00f3sofo\u00a0Francisco Varela\u00a0(1946-2001), chamado\u00a0<em>biologia do conhecer<\/em>\u00a0(ver livros\u00a0<em>Autopoiese e cogni\u00e7\u00e3o: a realiza\u00e7\u00e3o do vivo<\/em>, 1972;\u00a0<em>A \u00e1rvore do conhecimento: as bases biol\u00f3gicas do entendimento humano<\/em>, 1984; e\u00a0<em>Cogni\u00e7\u00e3o, ci\u00eancia e\u00a0vida cotidiana<\/em>, 2001).\u00a0<\/p>\n<p>Para explicar a evolu\u00e7\u00e3o dos seres vivos, a biologia utiliza dois campos interdependentes de estudo: a\u00a0ontogenia, que estuda a hist\u00f3ria do ser vivo, incluindo mudan\u00e7as morfol\u00f3gicas, fisiol\u00f3gicas e comportamentais; e a\u00a0filogenia, que estuda a hist\u00f3ria evolutiva considerando as rela\u00e7\u00f5es de parentesco entre diferentes grupos de seres vivos. Maturana e Varela d\u00e3o um salto\u00a0nesse entendimento ao conceber a\u00a0<em>biologia do conhecer,<\/em>\u00a0por meio da qual eles explicam que a humanidade surgiu n\u00e3o pela sobreviv\u00eancia do mais forte (ideia oriunda do\u00a0consenso cient\u00edfico, contido na manifesta\u00e7\u00e3o de Fiori, de que a natureza dos primatas homin\u00eddeos \u00e9 essencialmente violenta), mas por uma deriva evolutiva forjada na\u00a0<em>coopera\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0e na\u00a0<em>linguagem<\/em>.\u00a0<\/p>\n<p>Segundo Maturana e Varela, a ontogenia \u00e9 a hist\u00f3ria da mudan\u00e7a estrutural que um ser vivo\u00a0est\u00e1 sujeito desde o momento da sua concep\u00e7\u00e3o at\u00e9 a sua morte. A mudan\u00e7a em qualquer ser vivo se d\u00e1 por meio de um\u00a0<em>acoplamento estrutural<\/em>\u00a0(conceito tamb\u00e9m elaborado por Maturana e Varela), em que o ser vivo, para manter sua\u00a0<em>organiza\u00e7\u00e3o<\/em>, precisa estar em um permanente estado de congru\u00eancia com o ambiente em seu entorno. O mundo vivo constitui-se, assim, de uma grande comunidade com variadas formas de vida, todas em um cont\u00ednuo estado de intera\u00e7\u00e3o, em diversas ordens de\u00a0<em>organiza\u00e7\u00e3o<\/em>, cujos comportamentos\u00a0afetam-se mutuamente (ser vivo e meio) e, assim, v\u00e3o estabelecendo consensos contextuais que garantem a coexist\u00eancia e a coevolu\u00e7\u00e3o de todos os integrantes dessa imensa rede que \u00e9 a comunidade de biodiversidade na qual estamos inseridos. Como diz Maturana, \u201co que define uma esp\u00e9cie \u00e9 o seu modo de vida, uma configura\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es vari\u00e1veis entre organismo e meio\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>Por isso, Maturana preferia usar termo\u00a0<em>deriva ontogen\u00e9tica<\/em>\u00a0(ou\u00a0<em>deriva estrutural<\/em>) em vez de\u00a0<em>adapta\u00e7\u00e3o<\/em>, pois sugere que o indiv\u00edduo apenas\u00a0<em>deriva<\/em>\u00a0e sobrevive nas circunst\u00e2ncias em que sua estrutura permite. A linhagem s\u00f3 continua existindo se for capaz de conservar sua autopoiese (capacidade de produzir a si mesma) e seu acoplamento com o meio. A filogenia\u00a0passa ent\u00e3o a ser a hist\u00f3ria dessa\u00a0<em>deriva estrutural<\/em>\u00a0de uma infinidade de linhagens de organismos interagindo-se mutuamente ao longo de gera\u00e7\u00f5es. Ou seja, para Maturana, a evolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o decorre de uma suposta\u00a0\u201csobreviv\u00eancia do mais apto\u201d\u00a0(express\u00e3o cunhada pelo fil\u00f3sofo, bi\u00f3logo e antrop\u00f3logo ingl\u00eas, Herbert Spencer, considerado o profeta do capitalismo\u00a0<em>laissez-faire<\/em>), mas sim da conserva\u00e7\u00e3o da\u00a0<em>organiza\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0e do\u00a0<em>acoplamento<\/em>\u00a0ao longo\u00a0do tempo. Portanto, n\u00e3o h\u00e1 um progresso (uma teleologia) em que o ambiente atua como um filtro (um agente seletivo) que busca aperfei\u00e7oar cada esp\u00e9cie de ser vivo. O meio ambiente apenas estabelece limites de viabilidade. Se o organismo sobrevive e se reproduz, ele continua a sua\u00a0<em>deriva estrutural<\/em>.\u00a0<\/p>\n<p>A transi\u00e7\u00e3o dos primatas b\u00edpedes para humanos ocorreu atrav\u00e9s de um entrela\u00e7amento profundo entre as mudan\u00e7as biol\u00f3gicas das intera\u00e7\u00f5es entre uma infinidade de esp\u00e9cies existentes (filogenia) e as experi\u00eancias de\u00a0aprendizagem em cada esp\u00e9cie (ontogenia). A filogenia deu-se, desse modo, na conserva\u00e7\u00e3o de uma din\u00e2mica de sociabilidade e proximidade. A caracter\u00edstica central da filogenia nos homin\u00eddeos foi a evolu\u00e7\u00e3o de uma linhagem de primatas b\u00edpedes em que o compartilhar de alimentos e a vida em intimidade foram predominantes, ou seja, desenvolveram-se numa rela\u00e7\u00e3o de autorrespeito e aceita\u00e7\u00e3o m\u00fatua. O ser humano tornou-se o que \u00e9 porque, ao longo das gera\u00e7\u00f5es na sua deriva evolutiva, passou a viver imerso em\u00a0conversa\u00e7\u00f5es e afetos, ou seja, no entrela\u00e7amento do\u00a0<em>linguagear<\/em>\u00a0com o\u00a0<em>emocionar<\/em>. Dizendo de outro modo, o tecido da nossa exist\u00eancia \u00e9 sempre emocional e relacional.\u00a0<\/p>\n<p>Portanto, o marco definidor da linhagem humana foi o desenvolvimento da\u00a0<em>linguagem<\/em>, que surgiu n\u00e3o apenas para comunicar, mas como uma coordena\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es e comportamentos compartilhados. Logo, o tra\u00e7o principal que guiou a filogenia dos homin\u00eddeos foi a conviv\u00eancia na\u00a0<em>coopera\u00e7\u00e3o<\/em>, intimidade e aceita\u00e7\u00e3o m\u00fatua. Inclusive, Maturana chamou esse\u00a0fen\u00f4meno relacional de \u201cbiologia do amor\u201d, que o fez concluir que \u201ca origem antropol\u00f3gica do\u00a0<em>Homo sapiens<\/em>\u00a0n\u00e3o se deu atrav\u00e9s da competi\u00e7\u00e3o, mas sim atrav\u00e9s da coopera\u00e7\u00e3o\u201d; e ainda acrescentava que \u201co amor \u00e9 a emo\u00e7\u00e3o central na hist\u00f3ria evolutiva humana desde o in\u00edcio\u201d. A palavra \u201camor\u201d utilizada por Maturana est\u00e1 associada \u00e0 no\u00e7\u00e3o de cuidado m\u00fatuo e n\u00e3o a qualquer conota\u00e7\u00e3o crist\u00e3 ou romantizada que ela enseja no senso comum, ou seja, diz respeito \u00e0 \u201cemo\u00e7\u00e3o que constitui o dom\u00ednio de condutas em que se d\u00e1 a\u00a0operacionalidade da aceita\u00e7\u00e3o do outro como leg\u00edtimo outro na conviv\u00eancia\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>\u00c9 exatamente nessa perspectiva que a\u00a0<em>linguagem<\/em>\u00a0representa um fator determinante na forma\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica da\u00a0<em>cultura<\/em>. A origem do humano est\u00e1 no surgimento da\u00a0<em>linguagem<\/em>\u00a0e no seu entrela\u00e7amento com o\u00a0<em>emocionar<\/em>. O \u00e2mago do modo de viver humano est\u00e1 nesse emaranhamento, ao contr\u00e1rio do que pensa o\u00a0<em>establishment<\/em>\u00a0cient\u00edfico que d\u00e1 centralidade \u00e0 raz\u00e3o e \u00e0 objetividade nas a\u00e7\u00f5es humanas, entendimento que constituiu o fundamento\u00a0da\u00a0revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica\u00a0e do\u00a0iluminismo, ocorridos nos s\u00e9culos XVI ao XVIII, na Europa, e que, por sua vez, deu esteio ao\u00a0racionalismo econ\u00f4mico\u00a0que se consolidou nos s\u00e9culos XIX e XX. Como Maturana mesmo dizia, \u201ctodo sistema racional tem um fundamento emocional\u201d. No entanto, \u201cpertencemos a uma cultura que d\u00e1 ao racional uma\u00a0validade transcendente, e ao que prov\u00e9m de nossas emo\u00e7\u00f5es, um car\u00e1ter arbitr\u00e1rio.\u201d\u00a0<\/p>\n<p>Portanto, a\u00a0<em>linguagem<\/em>\u00a0n\u00e3o \u00e9 um mero sistema de c\u00f3digos inventado para transmitir informa\u00e7\u00f5es sobre um mundo que existe independentemente de n\u00f3s. Pelo contr\u00e1rio, a\u00a0<em>linguagem<\/em>\u00a0\u00e9 um fen\u00f4meno biol\u00f3gico de coordena\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de a\u00e7\u00f5es\u00a0que\u00a0n\u00e3o apenas descreve a realidade; ela a faz emergir. A\u00a0<em>linguagem<\/em>\u00a0molda a percep\u00e7\u00e3o do que \u00e9 real para um grupo social. Como a\u00a0<em>linguagem<\/em>\u00a0est\u00e1 entrela\u00e7ada ao\u00a0<em>emocionar<\/em>, as coordena\u00e7\u00f5es de a\u00e7\u00f5es dos\u00a0humanos est\u00e3o biologicamente propensas a convergir para a\u00a0<em>coopera\u00e7\u00e3o<\/em>.\u00a0<\/p>\n<p>Por\u00e9m, em circunst\u00e2ncias muito at\u00edpicas, o emocionar humano pode convergir para a\u00a0<em>agressividade<\/em>, o que pode explicar a emerg\u00eancia da\u00a0<em>cultura ocidental<\/em>\u00a0na qual estamos imersos. H\u00e1 vastas evid\u00eancias arqueol\u00f3gicas de que uma profunda ruptura cultural interrompeu o curso dessa filogenia humana baseada na\u00a0<em>coopera\u00e7\u00e3o<\/em>, por volta de sete ou seis mil anos atr\u00e1s, possivelmente causada pelas\u00a0invas\u00f5es kurgan, referentes \u00e0s sucessivas\u00a0ondas migrat\u00f3rias indo-europeias\u00a0dos povos pastores guerreiros vindos do Leste, na qual emergiu gradualmente uma nova\u00a0<em>identidade cultural<\/em>, a\u00a0<em>cultura patriarcal<\/em>\u00a0europeia, estabelecendo-se uma sociabilidade de domina\u00e7\u00e3o em contraposi\u00e7\u00e3o a uma sociabilidade\u00a0de parceria que sempre caracterizou o\u00a0<em>ethos<\/em>\u00a0humano. Com essa ruptura, o viver humano passou a se sustentar na nega\u00e7\u00e3o do outro e no dom\u00ednio da natureza, operando num\u00a0linguajear\u00a0da\u00a0<em>agressividade.<\/em>\u00a0<\/p>\n<p>A partir de ent\u00e3o, p\u00f4s-se em marcha o\u00a0conflito interno, ou seja, o permanente entrechoque\u00a0do\u00a0novo viver patriarcal, que opera sob a l\u00f3gica da apropria\u00e7\u00e3o, com a filog\u00eanese cooperativa e n\u00e3o-hier\u00e1rquica do\u00a0<em>Homo\u00a0sapiens<\/em>\u00a0e de seus parentes animais. A no\u00e7\u00e3o do que seja patriarcal utilizada aqui n\u00e3o \u00e9, portanto, a do\u00a0consenso acad\u00eamico\u00a0que se restringe \u00e0 superioridade de g\u00eanero, mas a que diz respeito ao atributo de apropria\u00e7\u00e3o caracter\u00edstico de um modo de viver (ver\u00a0explica\u00e7\u00e3o\u00a0de Maturana). Abordei mais aprofundadamente sobre essa ruptura cultural nesses dois\u00a0textos:\u00a0<em>Como nasceu e germinou a civiliza\u00e7\u00e3o patriarcal?<\/em>\u00a0e\u00a0<em>Uma aut\u00f3psia do Ocidente<\/em>.\u00a0<\/p>\n<p>Portanto, a\u00a0<em>linguagem<\/em>\u00a0emaranhada com a\u00a0<em>coopera\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0constitui din\u00e2mica que permitiu a evolu\u00e7\u00e3o dos primatas homin\u00eddeos por milh\u00f5es de anos, enquanto a\u00a0<em>linguagem<\/em>\u00a0imbricada com a\u00a0<em>agressividade<\/em>\u00a0constitui um fen\u00f4meno cognitivo\u00a0antropol\u00f3gico an\u00f4malo na hist\u00f3ria evolutiva da nossa esp\u00e9cie, catalisador tanto da puls\u00e3o de morte quanto do permanente mal-estar civilizat\u00f3rio que essa puls\u00e3o acarreta. Desencadeou-se, desse modo, um fen\u00f4meno desestabilizador da psiqu\u00ea individual e coletiva, ao qual se dedicou o criador da psican\u00e1lise,\u00a0Sigmund Freud\u00a0(1856-1939), para quem as no\u00e7\u00f5es de\u00a0<em>cultura<\/em>\u00a0e\u00a0<em>civiliza\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0representavam a\u00a0mesma coisa. \u201cRecuso-me a separar cultura e civiliza\u00e7\u00e3o\u201d, dizia Freud. Da\u00ed a relev\u00e2ncia da\u00a0<em>cultura<\/em>\u00a0como principal fator constitutivo do viver humano e da profunda imbrica\u00e7\u00e3o existente entre esses tr\u00eas elementos fundantes da\u00a0<em>cultura\u00a0<\/em>(a\u00a0<em>linguagem<\/em>, a\u00a0<em>agressividade<\/em>\u00a0e a\u00a0<em>coopera\u00e7\u00e3o<\/em>),\u00a0muito bem concatenados na s\u00edntese acima de Marques.\u00a0<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que estamos aprisionados cognitivamente a este desvio antropol\u00f3gico da\u00a0<em>cultura patriarcal<\/em>, e o\u00a0conflito interno\u00a0da\u00ed gerado est\u00e1 intimamente associado \u00e0s tr\u00eas ordens\u00a0<em>pol\u00edticas<\/em>\u00a0estabelecidas pela\u00a0<em>cultura ocidental<\/em>: a militar, a religiosa e a comercial. Tamb\u00e9m abordei recentemente num texto intitulado\u00a0<em>Mercado, a \u00faltima parada do Ocidente patriarcal?<\/em>, no qual tratei da\u00a0g\u00eanese e da evolu\u00e7\u00e3o dessas tr\u00eas ordens\u00a0<em>pol\u00edticas.<\/em>\u00a0A partir delas, generais, sacerdotes e mercadores se reversaram no poder e sempre dominaram, sob um falso pressuposto\u00a0filog\u00eanico\u00a0da \u201cguerra de todos contra todos\u201d, o destino dos povos e civiliza\u00e7\u00f5es, legitimando a percep\u00e7\u00e3o hobbesiana de que estar\u00edamos, desde sempre, condenados a uma de vida \u201csolit\u00e1ria, pobre, s\u00f3rdida, embrutecida e curta\u201d (Thomas Hobbes, em\u00a0<em>Leviat\u00e3<\/em>, de 1651).\u00a0<\/p>\n<p>A\u00a0<em>biologia do conhecer<\/em>\u00a0concebida por Maturana e Varela nos mostra que a\u00a0<em>cultura<\/em>\u00a0\u00e9 uma variante antropol\u00f3gica inerente a ontologia do animal humano. Amparados n\u00e3o s\u00f3 numa reformula\u00e7\u00e3o das bases biol\u00f3gicas que explicam a vida, mas tamb\u00e9m em evid\u00eancias\u00a0arquel\u00f3gicas, paleontol\u00f3gicas e etnogr\u00e1ficas, eles descobriram que o\u00a0<em>Homo sapiens<\/em>\u00a0e seus ancestrais s\u00e3o um animal emocional e relacional, e n\u00e3o racional superior aos\u00a0demais. Somos um animal\u00a0<em>cooperativo<\/em>\u00a0com a mesma relev\u00e2ncia evolutiva dos demais, cujo comportamento foi forjado numa perene intera\u00e7\u00e3o de cuidados e afetos m\u00fatuos.\u00a0<\/p>\n<p>Portanto, o atributo\u00a0<em>pol\u00edtico\u00a0<\/em>dado ao\u00a0<em>Homo sapiens<\/em>\u00a0\u00e9 apenas uma constante sociol\u00f3gica circunstancial inerente \u00e0\u00a0<em>cultura patriarcal<\/em>\u00a0instalada h\u00e1 seis mil anos, da qual derivou a\u00a0<em>cultura ocidental<\/em>. Por isso, cabe se debru\u00e7ar sobre a armadilha\u00a0cognitiva que nos faz acreditar na ideia de que s\u00f3 h\u00e1 salva\u00e7\u00e3o dentro da\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>, o que equivale a afirmar que s\u00f3 dispomos da\u00a0<em>cogni\u00e7\u00e3o ocidental<\/em><em>\u2013<\/em><em>patriarcal<\/em>\u00a0para a compreens\u00e3o e atua\u00e7\u00e3o no mundo em nossa volta.\u00a0<\/p>\n<h3><strong><em>Pol\u00edtica<\/em><\/strong><strong>, uma deriva\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3 e greco-romana<\/strong>\u00a0<\/h3>\n<p>Arist\u00f3teles havia vaticinado a ideia do\u00a0ser humano como um\u00a0<em>animal pol\u00edtico<\/em>\u00a0e\u00a0<em>racional<\/em>, que s\u00f3 alcan\u00e7aria sua plena realiza\u00e7\u00e3o, virtude e felicidade vivendo de acordo com a\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>\u00a0institu\u00edda na\u00a0<em>p\u00f3lis<\/em>, a cidade-estado. No entanto, contrariando o ide\u00e1rio ocidental de que h\u00e1 um suposto\u00a0progresso civilizat\u00f3rio\u00a0conduzido racionalmente, a hist\u00f3ria do\u00a0<em>Homo sapiens<\/em>\u00a0tem sido, desde a\u00a0antiguidade, um\u00a0<em>continuum<\/em>\u00a0de guerras, massacres e destrui\u00e7\u00f5es, o que confirma que o ato de fazer\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>, que tem pelo menos 2.500 anos de exist\u00eancia, nunca se constituiu como um meio efetivo de supera\u00e7\u00e3o dos males humanos. Entre lampejos de sensatez pol\u00edtica \u2013\u00a0a exemplo de\u00a0S\u00f3lon\u00a0e\u00a0P\u00e9ricles, em Atenas; ou dos\u00a0\u201ccinco bons imperadores\u201d\u00a0de Roma, segundo Maquiavel \u2013, o que sempre predominou foi a irracionalidade e a insensatez\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>. Como bem expressou o escritor brit\u00e2nico\u00a0John Gray, \u201ca\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>\u00a0\u00e9 arte de inventar rem\u00e9dios tempor\u00e1rios para males recorrentes \u2013 uma s\u00e9rie de expedientes, n\u00e3o um projeto de salva\u00e7\u00e3o.\u201d\u00a0<\/p>\n<p>A\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>, assim como a no\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>poder<\/em>, \u00e9 apenas mais um dos muitos conceitos constitutivos do Ocidente, derivado dos ideais greco-judaicos que irromperam nos prim\u00f3rdios da forma\u00e7\u00e3o da cultura ocidental. A\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>\u00a0\u00e9 um meio de lidar com rela\u00e7\u00f5es assim\u00e9tricas de\u00a0<em>poder<\/em>, cuja origem provavelmente remonta a um contexto de \u00e9poca em que se buscava uma forma de racionalizar (por\u00a0ordem) as conflituosas rela\u00e7\u00f5es de poder (no caos) inerente \u00e0 vida na\u00a0<em>p\u00f3lis<\/em>. Por outro lado, a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>poder<\/em>\u00a0\u00e9 um fen\u00f4meno decorrente do desejo de apropria\u00e7\u00e3o que caracteriza o que Maturana chamou de\u00a0<em>cultura patriarcal<\/em>, esse novo modo de viver que (em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s\u00a0culturas pr\u00e9-patriarcais ou matr\u00edsticas\u00a0precedentes) ganhou predomin\u00e2ncia provavelmente ap\u00f3s as sucessivas\u00a0invas\u00f5es kurgan\u00a0ocorridas na\u00a0Europa Antiga\u00a0\u2013 o fen\u00f4meno antropol\u00f3gico-cultural que teria provocado a ruptura no processo civilizat\u00f3rio, conforme mencionamos antes.\u00a0<\/p>\n<p>Sob essa perspectiva, quem talvez tenha conseguido identificar melhor as for\u00e7as que forjaram o nascimento da\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>\u00a0na p\u00f3lis grega, e que continuam atuando at\u00e9 os dias atuais, foi o escritor e economista\u00a0franc\u00eas\u00a0Jacques Attali, quando disse: \u201ctr\u00eas poderes sempre coexistiram: o religioso, que fixa o tempo das preces, d\u00e1 ritmo \u00e0 vida agr\u00edcola e determina o acesso \u00e0 vida futura. O militar, que organiza a ca\u00e7a, a defesa e a conquista. O comercial, que produz, financia e comercializa os frutos do trabalho.\u201d\u00a0<\/p>\n<p>Assim, a\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>\u00a0constitui um sistema de media\u00e7\u00f5es gerido no \u00e2mbito de institui\u00e7\u00f5es forjadas\u00a0no mundo ocidental: o ex\u00e9rcito, a igreja, o Estado e o mercado, todos regidos por um emocionar na apropria\u00e7\u00e3o, em disputa permanente pelo monop\u00f3lio do poder e da viol\u00eancia. A\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>\u00a0\u00e9, portanto, uma inven\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e contingente. Ela n\u00e3o deriva de um processo\u00a0filog\u00eanico\u00a0como ocorreu com a\u00a0sociabilidade animal, que precisou de milh\u00f5es de anos para se constituir. Sua\u00a0hist\u00f3ria\u00a0\u00e9 a hist\u00f3ria de disputas territoriais e mecanismos de regula\u00e7\u00e3o social restrita a uma circunst\u00e2ncia imposta pela\u00a0<em>cultura<\/em>, no caso, a\u00a0<em>cultura ocidental<\/em>. Faz parte da estrutura cognitiva que governa o mundo apenas a partir de uma conflu\u00eancia de ideais de vida surgidos na Gr\u00e9cia Antiga, Fen\u00edcia, Mesopot\u00e2mia e noutros povos que habitavam as cercanias do Mediterr\u00e2neo, ber\u00e7o da\u00a0<em>cultura ocidental<\/em>.\u00a0<\/p>\n<p>O que hoje chamamos de \u201cfazer pol\u00edtica\u201d n\u00e3o \u00e9 um desdobramento constitutivo da natureza do animal humano.\u00a0A\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>\u00a0n\u00e3o \u00e9 um atributo biol\u00f3gico do humano, mas um produto hist\u00f3rico dessa matriz cultural muito espec\u00edfica, que forjou aquilo que podemos chamar de\u00a0<em>ocidente cognitivo<\/em>. Esse fen\u00f4meno cultural decorre de duas principais constru\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas que se refor\u00e7am mutuamente:\u00a0<\/p>\n<p>1)\u00a0<strong>a heran\u00e7a\u00a0<\/strong><strong>judaico-crist\u00e3<\/strong>: a partir dela foi se estabelecendo\u00a0a cren\u00e7a numa \u00e9tica monote\u00edsta, forjando a no\u00e7\u00e3o de universalismo e criando a teleologia. Seu principal desdobramento \u00e9 a racionaliza\u00e7\u00e3o e naturaliza\u00e7\u00e3o das\u00a0hierarquias. A partir dessa heran\u00e7a, emergiu gradualmente uma concep\u00e7\u00e3o de tempo linear, com um in\u00edcio, prop\u00f3sito hist\u00f3rico e um\u00a0destino final\u00a0(o\u00a0<em>Telos<\/em>) em contraste com as cosmovis\u00f5es c\u00edclicas das culturas\u00a0pr\u00e9-patriarcais. Diversas evid\u00eancias\u00a0arqueol\u00f3gicas sugerem que, na\u00a0Europa Antiga,\u00a0haviam\u00a0culturas neol\u00edticas organizadas sob um \u201cmodelo de parceria\u201d, cooperativo e n\u00e3o hier\u00e1rquico \u2014 sociedades mais igualit\u00e1rias onde predominava, desde o\u00a0Paleol\u00edtico Superior, uma transcend\u00eancia associada \u00e0s\u00a0divindades femininas, ao culto a uma\u00a0Deusa-M\u00e3e\u00a0provedora da vida e da fertilidade, uma vez que vigoram cosmovis\u00f5es cujas culturas percebiam-se interdependentes e indissoci\u00e1veis do mundo natural.\u00a0<\/p>\n<p>2)\u00a0<strong>a heran\u00e7a\u00a0<\/strong><strong>greco-romana<\/strong>: influenciada e imbricada com a heran\u00e7a judaico-crist\u00e3, ela concebeu e aperfei\u00e7oou o desenvolvimento da\u00a0<em>p\u00f3lis<\/em>, reformulando o \u201cmodelo de domina\u00e7\u00e3o\u201d patriarcal pr\u00e9-existente. Por meio das \u00e1goras (pra\u00e7as\u00a0p\u00fablicas), cristalizou-se a ideia de que os assuntos da cidade deveriam ser decididos pelo debate supostamente racional entre os \u201ccidad\u00e3os\u201d atenienses. No entanto, a\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>\u00a0que aflorou na p\u00f3lis grega j\u00e1 nasce amparada na exclus\u00e3o de mulheres, escravos e estrangeiros (metecos). Ela consolidou o espa\u00e7o p\u00fablico como um dom\u00ednio estritamente masculino, aristocr\u00e1tico, branco e belicoso. A transi\u00e7\u00e3o para a\u00a0<em>p\u00f3lis<\/em>\u00a0grega marcou uma esp\u00e9cie de normaliza\u00e7\u00e3o do\u00a0\u201cmodelo de domina\u00e7\u00e3o\u201d desencadeado pelas ondas migrat\u00f3rias dos chamados\u00a0povos kurgan\u00a0(migra\u00e7\u00f5es indo-europeias), onde a\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>\u00a0passou a ser a gest\u00e3o das\u00a0cidades-estado, das institui\u00e7\u00f5es, das fronteiras, dos recursos, das apropria\u00e7\u00f5es e, principalmente, da guerra.\u00a0<\/p>\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3 introduziu o elemento moral e transcendente justificador de um cosmos ordenado e\u00a0supostamente harmonioso, na tentativa de opor-se a um caos social que reinava no tempo dos imp\u00e9rios. O mundo greco-romano forneceu, por meio do debate, do direito e da lei escrita, uma forma institucional a este cosmos, culminando na forma\u00e7\u00e3o do Estado soberano, supostamente racional e redentor. Esta imbrica\u00e7\u00e3o constitui a ess\u00eancia da\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>\u00a0at\u00e9 hoje.\u00a0<\/p>\n<p>A implica\u00e7\u00e3o mais nefasta deste longo processo foi ter forjado a percep\u00e7\u00e3o de separa\u00e7\u00e3o entre\u00a0homem e natureza. Estabeleceu-se, assim, uma cosmogonia que colocou o homem, literalmente, como senhor da\u00a0Cria\u00e7\u00e3o, com a miss\u00e3o de dominar a Terra, despojando o mundo natural de sua\u00a0complexidade, interdepend\u00eancia e autorregula\u00e7\u00e3o. A\u00a0<em>natureza<\/em>\u00a0deixou de ser um ente participativo nas decis\u00f5es coletivas para se tornar mero \u201crecurso\u201d a ser administrado pela\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>\u00a0em busca de um suposto bem comum, mas que s\u00f3 teve como benefici\u00e1rio uma parcela m\u00ednima da humanidade,\u00a0que,\u00a0via de regra, restringiu-se ao europeu branco, masculino, afortunado, supostamente superior \u00e0s\u00a0maiorias marginalizadas: mulheres, negros, ind\u00edgenas, ciganos e povos colonizados.\u00a0<\/p>\n<p>O ato de fazer\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>\u00a0\u00e9,\u00a0essencialmente, uma deriva\u00e7\u00e3o greco-romana e judaico-crist\u00e3 de perceber e moldar o mundo segundo esse entendimento. A percep\u00e7\u00e3o de que h\u00e1 uma\u00a0<em>Entidade<\/em>\u00a0transcendente no controle da realidade transmutou-se para a\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>\u00a0primeiro nas\u00a0cidades-estado\u00a0e depois na forma do\u00a0Estado soberano, com leis universais que, pouco a pouco,\u00a0foram se sobrepondo \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es locais. Foi assim que se pavimentou o caminho para uma sucess\u00e3o de imp\u00e9rios hegem\u00f4nicos: iniciando com o\u00a0Imp\u00e9rio Romano\u00a0(27-395 d.C.), seguido dos imp\u00e9rios\u00a0Bizantino\u00a0(395-1453),\u00a0Romano-Germ\u00e2nico\u00a0(800-1806),\u00a0Brit\u00e2nico\u00a0(1583\u20131783) e agora o decadente imperialismo\u00a0Americano\u00a0(1803-2001), que liderou a\u00a0ordem internacional liberal baseada em regras, que vigorou nos \u00faltimos 80 anos.\u00a0<\/p>\n<h3><strong><em>Pol\u00edtica<\/em><\/strong><strong>, meio de legitima\u00e7\u00e3o e conserva\u00e7\u00e3o da cogni\u00e7\u00e3o ocidental<\/strong>\u00a0<\/h3>\n<p>A\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>\u00a0certamente foi praticada pelos seres humanos em\u00a0v\u00e1rios lugares e circunst\u00e2ncias concomitantes \u00e0 experi\u00eancia nas \u00e1goras gregas, sob outras denomina\u00e7\u00f5es. Mas foi a partir da conserva\u00e7\u00e3o e preval\u00eancia dos ideais do Ocidente que surgiu a\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>\u00a0e a\u00a0<em>democracia<\/em>\u00a0como a conhecemos hoje. Os ideais do Ocidente afloraram\u00a0no momento em que\u00a0gregos, fen\u00edcios e judeus romperam com o entendimento c\u00edclico sobre o mundo e passaram a direcionar os desejos humanos para a raz\u00e3o, a metaf\u00edsica, a a\u00e7\u00e3o e a permanente\u00a0busca\u00a0do novo, todos convergindo para a necessidade de\u00a0progresso, como meio de alcan\u00e7ar uma reden\u00e7\u00e3o humana na Hist\u00f3ria, face \u00e0 destrutividade vivenciada num mundo permanentemente conflagrado, regido pela ordem militar do\u00a0tempo dos imp\u00e9rios, na antiguidade.\u00a0<\/p>\n<p>A\u00a0<em>agressividade<\/em>\u00a0humana despertada pelo irromper da\u00a0<em>cultura patriarcal<\/em>\u00a0gerou a necessidade\u00a0de reden\u00e7\u00e3o na Hist\u00f3ria. A cultura judaico-crist\u00e3, entrela\u00e7ada aos ideais greco-romanos, constitui a manifesta\u00e7\u00e3o dessa necessidade de aprimoramento humano e salva\u00e7\u00e3o a ser alcan\u00e7ada no\u00a0desdobrar da Hist\u00f3ria. Assim, a ideia de tempo linear e de progresso se sobrep\u00f4s \u00e0s vis\u00f5es c\u00edclicas da vida comuns a v\u00e1rias culturas ancestrais. Mesmo tendo sido gradualmente\u00a0secularizada, ao longo dos s\u00e9culos\u00a0XVI a XIX, essa conflu\u00eancia entre o\u00a0<em>divino<\/em>\u00a0e a\u00a0<em>raz\u00e3o<\/em>\u00a0deu esteio ao mito do progresso inescap\u00e1vel a ser alcan\u00e7ado num suposto\u00a0<em>esp\u00edrito do mundo<\/em>. Essa reden\u00e7\u00e3o nos arrastou para o absurdo do crescimento econ\u00f4mico\u00a0<em>ad\u00a0infinitum<\/em>\u00a0que move o sistema-mundo capitalista e constitui a promessa central de qualquer projeto pol\u00edtico moderno.\u00a0<\/p>\n<p>A\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>\u00a0nascida em Atenas \u00e9, ao mesmo tempo, filha e parteira das guerras. Com a inten\u00e7\u00e3o de super\u00e1-las, a\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>\u00a0terminou amplificando-as a patamares que hoje amea\u00e7am a sobreviv\u00eancia da humanidade. Antes da\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>\u00a0inaugurada na p\u00f3lis grega, os humanos j\u00e1 se digladiavam localmente fazendo uso de espadas, adagas, punhais, lan\u00e7as, bigas, catapultas e ar\u00edetes. Ap\u00f3s o advento da racionalidade\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>, as armas foram\u00a0institucionalizadas e se\u00a0sofisticaram ao longo do tempo. Um dos primeiros armamentos com grande poder de destrui\u00e7\u00e3o foi o chamado\u00a0\u201cfogo grego\u201d, usado nos s\u00e9culos VII ao XIV, que era disparado por lan\u00e7a-chamas primitivos em navios conhecidos como\u00a0dromons; depois veio a p\u00f3lvora chinesa, que permitiu o uso de pistolas, mosquetes e canh\u00f5es; seguido, j\u00e1 no s\u00e9culo XX, pelo desenvolvimento de tanques, m\u00edsseis, armas\u00a0qu\u00edmicas, biol\u00f3gicas e cibern\u00e9ticas; at\u00e9 alcan\u00e7armos a ado\u00e7\u00e3o de armas nucleares, que, na atualidade, potencializam assustadoramente as recorrentes tens\u00f5es geopol\u00edticas e flertam com a\u00a0vertigem da imin\u00eancia de uma guerra nuclear terminal.\u00a0<\/p>\n<p>Portanto, no seu \u00e2mago, a\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>, embora tenha sido criada como instrumento para gerir e conter a\u00a0<em>agressividade<\/em>\u00a0entre os humanos, constitui-se na verdade num meio de manuten\u00e7\u00e3o da\u00a0<em>cultura patriarcal<\/em>. Esta se caracteriza, segundo Maturana, \u201cpelas coordena\u00e7\u00f5es de a\u00e7\u00f5es e emo\u00e7\u00f5es que fazem de nossa vida cotidiana um modo de coexist\u00eancia que valoriza a guerra, a competi\u00e7\u00e3o, a luta, as hierarquias, a autoridade, o poder, a procria\u00e7\u00e3o, o crescimento, a apropria\u00e7\u00e3o de recursos e a justifica\u00e7\u00e3o racional do controle e da domina\u00e7\u00e3o dos outros por meio da apropria\u00e7\u00e3o da verdade\u201d. Logo, a assertiva\u00a0de Luiz Marques de que \u201ca pol\u00edtica \u00e9 a mais importante inven\u00e7\u00e3o de nossa esp\u00e9cie\u201d, uma vez que \u00e9 ela quem \u201cpermite conter e controlar essa agressividade, sublim\u00e1-la e canaliz\u00e1-la para o jogo de enfrentamentos extremos, mas civis e pac\u00edficos\u201d, mais do que uma sa\u00edda vi\u00e1vel para a\u00a0<em>policrise<\/em>, constitui o reflexo de uma armadilha cognitiva que precisa ser urgentemente neutralizada.\u00a0<\/p>\n<p>A\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>\u00a0\u00e9 um desdobramento dos ideais greco-judaicos e seus suced\u00e2neos romano-crist\u00e3o. Como tal, n\u00e3o podemos esperar que ela\u00a0sirva a algo que negue os pressupostos sobre os quais ela foi criada. Isso equivale ao mesmo fen\u00f4meno \u2013 que tamb\u00e9m opera no \u00e2mbito da\u00a0<em>linguagem<\/em>\u00a0\u2013 que Maturana chamou de\u00a0\u201cconversa\u00e7\u00f5es recorrentes que negam a democracia\u201d. A\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>\u00a0\u00e9, portanto, uma resultante da\u00a0cogni\u00e7\u00e3o ocidental\u00a0que, ao longo da\u00a0hist\u00f3ria, serviu t\u00e3o somente aos seus senhores: primeiro aos generais, depois aos sacerdotes e, agora neste conflagrado s\u00e9culo XXI, aos mercadores. Ou seja, a\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>\u00a0constitui-se e sempre esteve a servi\u00e7o das armas, da f\u00e9 monote\u00edsta e, neste ag\u00f4nico s\u00e9culo XXI, do\u00a0<em>mercado<\/em>.\u00a0<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e0 toa, o\u00a0realismo pol\u00edtico\u00a0tem sido a\u00a0abordagem te\u00f3rica mais tradicionalmente aceita em ci\u00eancia pol\u00edtica, sobretudo no entendimento das rela\u00e7\u00f5es interestatais. A\u00a0<em>realpolitik<\/em>\u00a0foi a abordagem que melhor captou a rela\u00e7\u00e3o entre os homens e suas institui\u00e7\u00f5es como ela \u00e9, e n\u00e3o como ela deveria ser. A\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>\u00a0articula-se em torno de outros dois conceitos-chave que s\u00e3o o\u00a0<em>poder<\/em>\u00a0e o\u00a0<em>conflito<\/em>, tamb\u00e9m constitutivos da\u00a0<em>cultura patriarcal<\/em>, partindo do pressuposto hobbesiano de que a natureza humana \u00e9 inarredavelmente ego\u00edsta, predat\u00f3ria e propensa \u00e0 conquista e \u00e0 agressividade. Por isso, os melhores guias para a compreens\u00e3o da\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>\u00a0sempre foram refer\u00eancias como Sun\u00a0Tzu, Hobbes, Maquiavel.\u00a0Clausewitz\u00a0e, mais recentemente, autores como\u00a0Hans Morgenthau\u00a0e\u00a0Kenneth Waltz. Como havia prenunciado Hobbes, \u201cos pactos, n\u00e3o passando de palavras e vento, n\u00e3o t\u00eam qualquer for\u00e7a para obrigar, dominar, constranger ou proteger ningu\u00e9m, a n\u00e3o ser a que deriva da espada p\u00fablica.\u201d (Hobbes, no cap\u00edtulo XVII do\u00a0<em>Leviat\u00e3<\/em>.)\u00a0<\/p>\n<p>No lado oposto do realismo pol\u00edtico, expoentes como Arist\u00f3teles, Locke, Tocqueville e Kant integram a corrente do\u00a0idealismo pol\u00edtico\u00a0(para n\u00e3o dizer ut\u00f3picos). Seguindo as concep\u00e7\u00f5es de Maturana, eles na verdade s\u00e3o\u00a0nost\u00e1lgicos. Concebem a no\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>\u00a0e\u00a0<em>democracia<\/em>\u00a0racionalmente, mas as a\u00e7\u00f5es humanas, antes de serem racionais, operam no entrela\u00e7amento do\u00a0<em>emocionar<\/em>\u00a0com o\u00a0<em>linguagear<\/em>. Portanto, pensadores que seguem esta vertente s\u00e3o\u00a0provavelmente movidos por um emocionar n\u00e3o patriarcal. Est\u00e3o, inconscientemente, buscando resgatar um passado ancestral cuja cogni\u00e7\u00e3o n\u00e3o era regida pela for\u00e7a da espada, mas por um fluir natural na\u00a0<em>coopera\u00e7\u00e3o<\/em>.\u00a0<\/p>\n<p>Quando afirmamos que a\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>\u00a0\u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o greco-judaica, depois refor\u00e7ada pela tradi\u00e7\u00e3o romano-crist\u00e3, estamos constatando o sucesso dessa matriz cognitiva\u00a0em universalizar seus ideais e sua vis\u00e3o de mundo, impondo-se ao resto do globo como se fosse o \u00fanico caminho civilizat\u00f3rio vi\u00e1vel. A\u00a0decorr\u00eancia mais nefasta dessas duas heran\u00e7as \u00e9 que, por leio da\u00a0<em>linguagem<\/em>\u00a0entrela\u00e7ada \u00e0\u00a0<em>agressividade<\/em>, forjaram-se as for\u00e7as constitutivas da\u00a0cogni\u00e7\u00e3o ocidental: Estado, soberania, separa\u00e7\u00e3o homem-natureza, transcend\u00eancia monote\u00edsta e racionalidade econ\u00f4mica. Tais for\u00e7as nos conduziram \u00e0 atual\u00a0<em>policrise<\/em>\u00a0e ao processo de colapso socioambiental, sintomas terminais do que hoje se reconhece por\u00a0antropoceno, a \u00e9poca em que se submeteu a natureza a servi\u00e7o da\u00a0<em>cultura<\/em>\u00a0de apropria\u00e7\u00e3o ocidental-patriarcal.\u00a0<\/p>\n<p>Os pressupostos que criaram a\u00a0<em>policrise<\/em>\u00a0s\u00e3o os mesmos que a\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>\u00a0adota, inutilmente, para resolv\u00ea-la. A\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>\u00a0tornou-se, desse modo, um meio de legitima\u00e7\u00e3o e conserva\u00e7\u00e3o da cogni\u00e7\u00e3o ocidental que, mais do que gerenciar interesses dissonantes na busca de um\u00a0<em>modus vivendi<\/em>\u00a0na p\u00f3lis, tem sido a maior for\u00e7a impulsionadora do conflituoso\u00a0mundo humano. Esse longo condicionamento cognitivo culmina agora com uma supremacia difusa que nem as religi\u00f5es monote\u00edstas e nem o Estado controlam, a hegemonia do\u00a0<em>mercado<\/em>, essa nova entidade abstrata que capturou a subjetividade humana ao longo de cinquenta anos de hipnose neoliberal. O\u00a0<em>mercado<\/em>\u00a0constitui hoje a principal express\u00e3o da\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>. Firmou-se como novo eixo civilizat\u00f3rio\u00a0e\u00a0 indutor\u00a0comportamental, arrastando as civiliza\u00e7\u00f5es para o precip\u00edcio neste s\u00e9culo XXI.\u00a0<\/p>\n<p>Portanto, se ainda h\u00e1 uma sa\u00edda da\u00a0<em>policrise<\/em>\u00a0planet\u00e1ria na qual estamos psiquicamente imbricados, ela est\u00e1 em reconhecer esse fen\u00f4meno antropol\u00f3gico cognitivo e resgatar as formas de organiza\u00e7\u00e3o e viver humanos que foram apagadas e silenciadas por essa cultura hegem\u00f4nica regida pela\u00a0<em>agressividade<\/em>. Do ponto de vista da atua\u00e7\u00e3o dos nossos desacreditados agentes pol\u00edticos, essa hegemonia se traduz hoje nas duas principais correntes\u00a0pol\u00edticas,\u00a0ambas desdobramentos\u00a0da cogni\u00e7\u00e3o ocidental:\u00a0<\/p>\n<p>1) a\u00a0<em>esquerda\u00a0<\/em>ainda acredita numa emancipa\u00e7\u00e3o humana via resgate de uma\u00a0democracia liberal\u00a0que s\u00f3 atendeu \u00e0s\u00a0elites econ\u00f4micas dos pa\u00edses do Norte Global, ainda assim, temporariamente. Ela est\u00e1 presa \u00e0 ilus\u00e3o de que o Estado pode ser regenerado de sua condi\u00e7\u00e3o constitutiva de\u00a0<em>Leviat\u00e3<\/em>, e que\u00a0o\u00a0<em>Mercado<\/em>\u00a0ainda pode ser domesticado para universalizar o ideal de igualdade e solidariedade entre os povos.\u00a0<\/p>\n<p>2) a\u00a0<em>ultradireita<\/em>, em ascens\u00e3o no mundo todo, negadora da crise clim\u00e1tica em andamento,\u00a0deslegitimadora\u00a0do ideal de democracia, maior patrocinadora da desconstitui\u00e7\u00e3o do Estado tripartite idealizado por Montesquieu (que deveria realizar justi\u00e7a e democracia, mas n\u00e3o o fez), acredita e\u00a0investe na radicaliza\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>mercado<\/em>\u00a0hiperturbinado\u00a0pelo inebriante mundo das comodidades tecnol\u00f3gicas.\u00a0<\/p>\n<p>As duas s\u00e3o heran\u00e7as da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa que estabeleceu uma nova divis\u00e3o para humanidade. Antes separada entre cristandade e povos n\u00e3o-crist\u00e3os, depois entre lobos hobbesianos e cordeiros rousseaunianos. Juntas reverberam os ecos desse ocidente agonizante, mas \u00e9 a ultradireita que est\u00e1 em franca vantagem porque sabe mobilizar e canalizar a\u00a0<em>cultura<\/em>\u00a0melhor do que a esquerda. Como bem disse o articulista\u00a0Ricardo Queiroz Pinheiro: \u201cA\u00a0<em>cultura<\/em>\u00a0n\u00e3o \u00e9 um elemento acess\u00f3rio na luta\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>; ela \u00e9 o campo onde se constroem as bases da hegemonia. Quem controla a\u00a0<em>cultura<\/em>\u00a0n\u00e3o apenas domina narrativas, mas define os limites do poss\u00edvel, orienta valores e molda a percep\u00e7\u00e3o da realidade. (\u2026) O erro da esquerda foi tratar a\u00a0<em>cultura<\/em>\u00a0como algo secund\u00e1rio, permitindo que a direita ocupasse esse espa\u00e7o\u00a0estrat\u00e9gico.\u201d\u00a0<\/p>\n<h3><strong>A inelut\u00e1vel cat\u00e1strofe planet\u00e1ria, \u00faltima oportunidade de sa\u00edda da\u00a0<\/strong><strong><em>policrise<\/em><\/strong>\u00a0<\/h3>\n<p>Luiz Marques entende que \u201cnada pode ser considerado imposs\u00edvel diante de uma amea\u00e7a existencial\u201d e confia \u00e0\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>\u00a0essa supera\u00e7\u00e3o. Embora n\u00e3o vislumbre uma alternativa fora da\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>, Marques soube formular uma proposta inicial de sa\u00edda da\u00a0<em>policrise<\/em>\u00a0capaz de desencadear a necess\u00e1ria ruptura civilizacional \u00e0 altura dos desafios atuais. Sua proposta est\u00e1 consignada na sua reveladora obra\u00a0<em>O Dec\u00eanio decisivo: propostas para uma pol\u00edtica de sobreviv\u00eancia<\/em>\u00a0(Editora Elefante, 2023), em que ele delineia uma \u201cpol\u00edtica de sobreviv\u00eancia das sociedades\u201d, a qual precisaria ter sido articulada e implementada ao longo deste dec\u00eanio (2021-2030), amparada nos seguintes princ\u00edpios:\u00a0<\/p>\n<p><em>\u201c1- redu\u00e7\u00e3o emergencial das diversas desigualdades entre os membros da esp\u00e9cie humana;<\/em>\u00a0<\/p>\n<p><em>2-\u00a0diminui\u00e7\u00e3o\u00a0do consumo humano de materiais e de\u00a0energia;<\/em>\u00a0<\/p>\n<p><em>3-\u00a0extens\u00e3o\u00a0da ideia de sujeito de direito \u00e0s demais esp\u00e9cies, \u00e0 biosfera e \u00e0s paisagens naturais;<\/em>\u00a0<\/p>\n<p><em>4-\u00a0restaura\u00e7\u00e3o e amplia\u00e7\u00e3o\u00a0das reservas naturais e das reservas ind\u00edgenas, a serem consideradas como santu\u00e1rios inacess\u00edveis aos mercados globais;<\/em>\u00a0<\/p>\n<p><em>5-\u00a0desmantelamento\u00a0da economia global e transi\u00e7\u00e3o para uma civiliza\u00e7\u00e3o descarbonizada;<\/em>\u00a0<\/p>\n<p><em>6-\u00a0desglobaliza\u00e7\u00e3o\u00a0do sistema alimentar e sua transi\u00e7\u00e3o para uma alimenta\u00e7\u00e3o baseada em nutrientes vegetais;<\/em>\u00a0<\/p>\n<p><em>7-\u00a0o\u00a0arcabou\u00e7o jur\u00eddico internacional vigente deve superar o\u00a0axioma da soberania nacional absoluta em benef\u00edcio de uma soberania nacional relativa;<\/em>\u00a0<\/p>\n<p><em>8-\u00a0a\u00a0acelera\u00e7\u00e3o da transi\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica aumenta as chances de sucesso das rupturas acima enunciadas.\u201d<\/em>\u00a0<\/p>\n<p>Uma proposta dessa magnitude, neutralizadora da\u00a0cogni\u00e7\u00e3o ocidental, s\u00f3 pode ser viabilizada no \u00e2mbito de uma mudan\u00e7a de cunho antropol\u00f3gico, ou seja, no \u00e2mbito de uma transforma\u00e7\u00e3o da\u00a0<em>cultura<\/em>, dos pressupostos que\u00a0justificam o modo de viver do\u00a0<em>Homo sapiens<\/em>\u00a0moderno ocidentalizado. Esperar que a\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>\u00a0opere tal transforma\u00e7\u00e3o, seria imaginar uma autonega\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>. Tanto \u00e9 assim que, a despeito das in\u00fameras evid\u00eancias cient\u00edficas reunidas nas obras de Marques, os dirigentes pol\u00edticos e sobretudo o\u00a0<em>mercado<\/em>, em prol do qual trabalham, continuam subestimando o processo de colapso clim\u00e1tico em acelerado curso. A vacuidade da\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>\u00a0tem sido a norma. O fato\u00a0do\u00a0<em>establishment<\/em>\u00a0pol\u00edtico mundial ter ficado\u00a0paralisado desde o final dos anos 1960, quando surgiram os primeiros alertas cient\u00edficos (<em>The Population Bomb<\/em>, 1968;\u00a0<em>Confer\u00eancia de Estocolmo<\/em>, 1972;\u00a0<em>Os Limites do Crescimento<\/em>, 1972) sobre a inviabilidade clim\u00e1tica para sustentar nossa civiliza\u00e7\u00e3o do progresso e da abund\u00e2ncia material para uma\u00a0\u00ednfima minoria, comprova que nosso problema est\u00e1 na\u00a0<em>cultura<\/em>\u00a0e n\u00e3o fundamentalmente na\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>.\u00a0<\/p>\n<p>No fundo, a atual cat\u00e1strofe planet\u00e1ria j\u00e1 estava contratada desde quando se iniciou o nosso aprisionamento cognitivo \u00e0\u00a0<em>cultura patriarcal<\/em>\u00a0milenar, possivelmente desencadeado pelas sucessivas\u00a0ondas migrat\u00f3rias\u00a0dos povos guerreiros\u00a0kurgan. O que \u00e9 mais\u00a0emblem\u00e1tico \u00e9 que ela continua sendo amplificada neste exato momento de\u00a0<em>policrise terminal<\/em><em>,\u00a0<\/em>e n\u00e3o h\u00e1 nenhum\u00a0consenso sobre esse drama existencial. Para mencionar apenas uma evid\u00eancia mais atual dessa cat\u00e1strofe em curso, segundo a\u00a0Rede Mundial de Atribui\u00e7\u00e3o (WWA), mais de 150 milh\u00f5es de hectares de vegeta\u00e7\u00e3o foram queimados no mundo\u00a0todo entre janeiro e abril de 2026, uma \u00e1rea equivalente ao estado do Amazonas. O n\u00famero \u00e9 cerca de 50% maior do que a m\u00e9dia recente (2012-2025) e o dobro do mesmo per\u00edodo em 2024, ano mais quente da hist\u00f3ria at\u00e9 o momento. Portanto, dada a inconteste acelera\u00e7\u00e3o da preda\u00e7\u00e3o ambiental, a cat\u00e1strofe, bem como o flagelo humanit\u00e1rio dela decorrente, \u00e9 inevit\u00e1vel no curso desse s\u00e9culo XXI.\u00a0<\/p>\n<p>Mas bem antes dessa\u00a0<em>policrise<\/em>\u00a0eclodir, sua g\u00eanese e evolu\u00e7\u00e3o j\u00e1 estavam inscritas no pr\u00f3prio\u00a0desdobrar da Hist\u00f3ria. Hegel, ap\u00f3s observar Napole\u00e3o Bonaparte montado em seu cavalo, em outubro de 1806, nas ruas de Jena (Alemanha), celebrando sua vit\u00f3ria na famosa\u00a0batalha de Jena\u2013Auerstedt, afirmou: \u201co \u2018esp\u00edrito do mundo\u2019 a cavalo\u201d. Napole\u00e3o encarnava a pr\u00f3pria\u00a0<em>Raz\u00e3o<\/em>\u00a0em movimento, a for\u00e7a de mudan\u00e7a que estava, naquele\u00a0momento, destruindo o antigo regime feudal absolutista e unificando o mundo sob os ideais da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, mostrando que trag\u00e9dia e progresso andam de m\u00e3os dadas. Para Hegel, um esp\u00edrito b\u00e9lico, mas com potencial de transforma\u00e7\u00e3o social profunda, \u00e9 o que permite ao\u00a0<em>Weltgeist<\/em>\u00a0avan\u00e7ar pelo conflito, dando seguimento ao inelut\u00e1vel destino da tortuosa hist\u00f3ria ocidental.\u00a0<\/p>\n<p>De fato, 150 anos depois desse evento definidor do\u00a0<em>modus operandi<\/em>\u00a0do\u00a0\u201cavan\u00e7o\u201d do\u00a0progresso ocidental, em abril de 1945, os hegelianos diriam que Harry Truman era \u201co \u2018esp\u00edrito do mundo\u2019 cruzando os c\u00e9us da terra do sol nascente com o artefato nuclear\u201d. Com o objetivo de for\u00e7ar a rendi\u00e7\u00e3o japonesa, Truman, ao despejar suas ogivas nucleares sobre as cabe\u00e7as de cerca de 600 mil habitantes de Hiroshima e Nagasaki, conseguiu conter o \u00edmpeto do socialismo sovi\u00e9tico e assegurar a\u00a0continuidade do consagrado processo civilizador. Depois desse contundente evento de destrui\u00e7\u00e3o criativa patrocinado pela\u00a0cogni\u00e7\u00e3o ocidental, um progresso tecnol\u00f3gico e material vertiginoso foi desencadeado.\u00a0<\/p>\n<p>Ap\u00f3s 1945, veio a\u00a0Grande Acelera\u00e7\u00e3o\u00a0que explodiu todos os indicadores\u00a0demoecon\u00f4micos, provocando a desestabiliza\u00e7\u00e3o do sistema Terra. Mesmo j\u00e1\u00a0tendo sido cientificamente reconhecido o in\u00edcio do desequil\u00edbrio ecol\u00f3gico em escala global (<em>Os Limites do Crescimento<\/em>, 1972), o fil\u00f3sofo Francis Fukuyama, inspirado pela queda do muro de Berlim em novembro de 1989, anunciou que a reden\u00e7\u00e3o humana na Hist\u00f3ria (<em>O fim da hist\u00f3ria e o \u00faltimo homem<\/em>) havia chegado a um bom termo com a expans\u00e3o global da\u00a0democracia liberal a todos os povos, sob a tutela da quimera de Estados-na\u00e7\u00e3o harmoniosos, orbitando na esfera de influ\u00eancia do \u201ccapitalismo democr\u00e1tico\u201d estadunidense. A continuidade do<em>\u00a0Weltgeist<\/em>\u00a0estaria, assim, assegurada pela via da\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>\u00a0que t\u00e3o bem regula os ideais do Ocidente.\u00a0<\/p>\n<p>Contrariando todas as previs\u00f5es hegelianas, o que eclodiu ap\u00f3s 1989 n\u00e3o foi a desejada\u00a0<em>pax occidentalis<\/em>, mas sim a\u00a0<em>policrise<\/em>\u00a0que j\u00e1 vinha sendo lentamente maturada ao\u00a0longo dos \u00faltimos seis mil\u00eanios de insensatez da\u00a0<em>cultura patriarcal<\/em>, que constitui o evento antropol\u00f3gico definidor da nossa atual\u00a0\u00e9poca do antropoceno. Nos conflagrados dias atuais, a cogni\u00e7\u00e3o ocidental sempre hegem\u00f4nica certamente descreveria Trump assim: \u201co \u2018esp\u00edrito do mundo\u2019, agora com um taco de golfe\u201d. Um magnata, leg\u00edtimo\u00a0representante da ordem pol\u00edtica comercial, conseguiu, com o apoio de um punhado de\u00a0mercenas\u00a0que comandam os\u00a0algor\u00edtimos, o extraordin\u00e1rio feito de sacramentar o\u00a0<em>Mercado<\/em>\u00a0como principal eixo regulador e redentor da subjetividade humana. Ao infringir todas as balizas da decadente ordem internacional hegeliana baseada em regras liberais, Trump pode ter deixado o projeto iluminista do secularismo\u00a0ancorado no Estado-na\u00e7\u00e3o irreversivelmente no passado, como fez Napole\u00e3o com o absolutismo feudal.\u00a0<\/p>\n<p>Frustrando o que os hegelianos sempre esperavam da Hist\u00f3ria, Trump parece figurar um aut\u00eantico Napole\u00e3o do s\u00e9culo XXI, por\u00e9m em sua vers\u00e3o invertida. Embora seus pares autocr\u00e1ticos na China e na R\u00fassia n\u00e3o estejam t\u00e3o distantes, Trump \u00e9 o maior art\u00edfice da potencializa\u00e7\u00e3o da\u00a0<em>policrise<\/em>, pois est\u00e1 na verdade mais pr\u00f3ximo de constituir a ant\u00edtese desse longo movimento apoiado pela simbiose cultural entre\u00a0<em>F\u00e9<\/em>\u00a0(monote\u00edsta) e\u00a0<em>Raz\u00e3o<\/em>\u00a0(aristocr\u00e1tica)<em>.\u00a0<\/em>Trump est\u00e1 na verdade promovendo\u00a0o in\u00edcio do embate final entre a\u00a0<em>raz\u00e3o<\/em>\u00a0<em>de Estado<\/em>\u00a0e o seu contraste, a\u00a0<em>desraz\u00e3o de Mercado<\/em>. Este talvez seja o choque derradeiro do longo pesadelo ocidental. Logo, esse reverenciado\u00a0esp\u00edrito do mundo,\u00a0nascido dos ideais greco-judaicos, representa uma promessa de reden\u00e7\u00e3o dos males humanos que hoje se revela ilus\u00f3ria e catastr\u00f3fica.\u00a0<\/p>\n<p>Considerando que o tempo de conter o\u00a0processo de colapso socioambiental\u00a0\u00e9 uma vari\u00e1vel decisiva para a sobreviv\u00eancia da humanidade, que atua cada dia mais a nosso desfavor, esse embate final trumpiano (e n\u00e3o mais hegeliano) pode, contraditoriamente, representar o come\u00e7o de uma verdadeira\u00a0ruptura civilizat\u00f3ria, ao criar as condi\u00e7\u00f5es de antecipa\u00e7\u00e3o do agravamento da\u00a0<em>policrise<\/em>. Resta-nos, portanto acreditar que os seres humanos, mesmo aqueles irredutivelmente ocidentais-patriarcais, n\u00e3o suportam uma realidade muito\u00a0dist\u00f3pica. Ao estarem elevando a cat\u00e1strofe a um patamar de destrui\u00e7\u00e3o planet\u00e1ria capaz de perturbar suas pr\u00f3prias consci\u00eancias, poder\u00e3o ser induzidos \u00e0 inadi\u00e1vel prem\u00eancia existencial de necessidade de reconhecimento e retorno \u00e0s suas ancestralidades suprimidas pelo desvio\u00a0antropol\u00f3gico forjado pela\u00a0cogni\u00e7\u00e3o ocidental.\u00a0<\/p>\n<p>Parece residir nessa inelut\u00e1vel cat\u00e1strofe planet\u00e1ria a possibilidade de sa\u00edda da\u00a0<em>policrise<\/em>. Como havia intu\u00eddo o audacioso e resistente\u00a0Edgar Morin, profundo conhecedor da condi\u00e7\u00e3o humana, falecido recentemente, \u201ca pior amea\u00e7a e a maior promessa chegam,\u00a0simultaneamente, ao s\u00e9culo. Com a condi\u00e7\u00e3o de n\u00e3o naufragar nela, a cat\u00e1strofe se converte na \u00faltima oportunidade.\u201d O impasse est\u00e1 dado: o colapso infligido pela cogni\u00e7\u00e3o ocidental, sustentada pela\u00a0<em>agressividade<\/em>\u00a0da\u00a0<em>pol\u00edtica<\/em>, ou o retorno \u00e0\u00a0<em>cultura<\/em>\u00a0da\u00a0<em>coopera\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0constitutiva da nossa\u00a0ancestralidade. O resultado desse impasse: a humanidade s\u00f3 poder\u00e1 atest\u00e1-lo\u00a0<em>a posteriori<\/em>, obviamente, se uma\u00a0extin\u00e7\u00e3o humana\u00a0n\u00e3o se consumar neste incognosc\u00edvel s\u00e9culo XXI.\u00a0<\/p>\n<p><em>\u201cA barb\u00e1rie \u00e9 o mais prov\u00e1vel.<\/em>\u00a0<em>O pol\u00edtico \u00e9 uma rolha flutuando \u00e0 deriva,<\/em>\u00a0<em>na tempestade das paix\u00f5es.\u201d<\/em>\u00a0<br \/>Jacques Attali\u00a0<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Nota<\/strong><br \/>Este texto contou com uma proveitosa leitura cr\u00edtica do articulista\u00a0Ruben\u00a0Bauer Naveira, colaborador do\u00a0<em>Outras Palavras<\/em>, a quem agrade\u00e7o.\u00a0<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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A sa\u00edda do mal-estar civilizat\u00f3rio exige um salto cultural e cognitivo: a coopera\u00e7\u00e3o como princ\u00edpio fundamental da exist\u00eancia. Obras de Humberto Maturana e Francisco Varela d\u00e3o pistas<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/as-ilusoes-perdidas-diante-da-crise-do-ocidente\/\">As ilus\u00f5es perdidas diante da crise do Ocidente<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":97166,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[6497,15901,1150,7245,27537,795,77174,77175,77176,51758,2687,70998,309,77177,77178,77179,77180,11287,77181,77182,51940,4800,77183,10412,12487,20500,10774,18564,77184,132,7173],"tags":[],"class_list":["post-97165","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ancestralidade","category-antropologia","category-arte","category-biodiversidade","category-biologia","category-ciencia","category-coevolucao","category-coexistencia","category-cognicao-ocidental","category-convivencia","category-crise-civilizatoria","category-crises-civilizatorias","category-cultura","category-cultura-ocidental","category-cultura-oriental","category-derivacao-greco-romana","category-ethos-humano","category-etica","category-evolucao-da-especie","category-filogenia","category-governos","category-guerra-cultural","category-heranca-judaico-cista","category-humanidade","category-linguagem","category-norte-global","category-poder","category-policrise","category-polis","category-politica","category-ultradireita"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97165","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=97165"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97165\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/97166"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=97165"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=97165"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=97165"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}