{"id":97169,"date":"2026-07-24T17:38:09","date_gmt":"2026-07-24T20:38:09","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/cidade-das-aves-o-brasil-a-partir-dos-oprimidos-da-terra\/"},"modified":"2026-07-24T17:38:09","modified_gmt":"2026-07-24T20:38:09","slug":"cidade-das-aves-o-brasil-a-partir-dos-oprimidos-da-terra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/cidade-das-aves-o-brasil-a-partir-dos-oprimidos-da-terra\/","title":{"rendered":"Cidade das Aves: O Brasil a partir dos oprimidos da terra"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"450\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/5125294571968466184.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/5125294571968466184.jpg 800w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/5125294571968466184-300x169.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/5125294571968466184-768x432.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\"><figcaption>Imagem: Jos\u00e9 Theodoro de Souza e o Ind\u00edgena\/Ednelson Lorenzetti<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1001\" height=\"1500\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/51SAhDrToRL.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/51SAhDrToRL-1001x1500.jpg 1001w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/51SAhDrToRL-200x300.jpg 200w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/51SAhDrToRL-768x1151.jpg 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/51SAhDrToRL-1025x1536.jpg 1025w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/51SAhDrToRL-1366x2048.jpg 1366w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/51SAhDrToRL.jpg 1655w\" sizes=\"auto, (max-width: 1001px) 100vw, 1001px\"><\/figure>\n<\/div>\n<p><strong>MAIS<\/strong><br \/>Livro: Cidade das Aves<br \/>Autora: Tereza Andrade<br \/>Lamparina Editora<br \/>432 p\u00e1ginas<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Na literatura brasileira contempor\u00e2nea recente, poucos romances s\u00e3o t\u00e3o viscerais quanto:\u00a0<em>A cidade das Aves<\/em>\u00a0de Tereza Andrade. Uma obra complexa gestada em mais de 10 anos de intensa pesquisa e escrita.\u00a0<\/p>\n<p>Nascida e crescida na regi\u00e3o abordada no livro, o Vale do Paranapanema, Tereza tra\u00e7a esse romance entre mem\u00f3ria e hist\u00f3ria, poesia e ensaio cient\u00edfico\u00a0num entrela\u00e7amento de linguagens para referendar uma busca \u00e9tica, est\u00e9tica e pol\u00edtica na literatura.\u00a0<\/p>\n<p>\u00c9 um romance em que a hist\u00f3ria n\u00e3o entra por acaso: ela \u00e9 questionada quando sua narrativa cria benef\u00edcios apenas para um lado ou teve uma parte sua esquecida propositadamente. A escritora pretende, nas primeiras duas partes do livro, ser uma esp\u00e9cie de arque\u00f3loga da mem\u00f3ria e jogar luz para outras hist\u00f3rias que foram silenciadas por uma \u00fanica verdade. Porque de acordo com a autora:\u00a0<em>\u201cUma pessoa sozinha n\u00e3o\u00a0constr\u00f3i nada. A vida e os lugares s\u00e3o moldados em mutir\u00e3o, mexidos e remexidos por todos\u201d<\/em>\u00a0(ANDRADE, 2024 pg. 58).\u00a0<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/1-22.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/1-22.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/15-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>E essas hist\u00f3rias moldadas em mutir\u00e3o e mexidas e remexidas por todos nem sempre s\u00e3o contadas como deveriam, s\u00e3o camufladas pela Hist\u00f3ria Oficial que \u00e9 privilegiada em face de interesses pol\u00edticos e do patriarcado que se fortalece exatamente no silenciamento do que \u00e9 diferente. Deve-se lembrar que o Romance Hist\u00f3rico n\u00e3o tem o compromisso de ser mais um documento hist\u00f3rico sobre os fatos, ou\u00a0seja, seu compromisso \u00e9 com a verossimilhan\u00e7a e n\u00e3o necessariamente com a verdade, ou com o que se acredita que seja. O Romance Hist\u00f3rico muitas vezes se constr\u00f3i sim com uma farta pesquisa documental, mas sua ficcionalidade se faz dos lapsos da mem\u00f3ria e dos vazios que a Hist\u00f3ria Oficial traz, h\u00e1 uma reconstru\u00e7\u00e3o a partir do sil\u00eancio. Neste sentido, a voz da autora entra na hist\u00f3ria desenvolvendo muitas vezes a pr\u00f3pria narra\u00e7\u00e3o:\u00a0<em>\u201cA mitologia agrad\u00e1vel do patriarca \u00e9 f\u00e1cil de ser aceita por ser considerada\u00a0protetora.\u00a0Precisamos de um pai corajoso, forte e destemido nas hist\u00f3rias\u201d<\/em>\u00a0(ANDRADE, 2024 pg.58).\u00a0<\/p>\n<p>Esse pai forte e destemido nas hist\u00f3rias talvez n\u00e3o deixasse as hist\u00f3rias outras serem lembradas, por isso, a narra\u00e7\u00e3o deste livro tenta ao m\u00e1ximo trazer do esquecimento as outras verdadeiras hist\u00f3rias que a sociedade se negou a enxergar. E numa verdadeira Metafic\u00e7\u00e3o Historiogr\u00e1fica em que as vozes da narrativa se confundem com a pr\u00f3pria voz autoral, Andrade disseca o ato de contar na linguagem do romance, e a\u00a0conta\u00e7\u00e3o se reconfigura novamente, pois como ela diz quando vai contar sobre os Kaingangs no Oeste Paulista: \u201cn\u00e3o saber sobre eles \u00e9 como n\u00e3o saber sobre mim\u201d (ANDRADE, 2024, pg.63).\u00a0<\/p>\n<p>Neste livro, a autora se desdobra em narradora, personagem, pesquisadora e cientista. Ela faz o movimento de retornar para as suas origens e ra\u00edzes para cavoucar n\u00e3o apenas a sua hist\u00f3ria, sua identidade e ancestralidade, mas relacion\u00e1-la com a hist\u00f3ria do Brasil e de sua regi\u00e3o. E nessa viagem, h\u00e1 um enfrentamento da autora\u00a0consigo mesma primeiramente, com resqu\u00edcios de um passado que poucos teriam coragem de revelar e confrontar para n\u00e3o enxergar os seus espelhos. Nesse acerto de contas, a autora encontra os Kaingangs e os traz para a narrativa como uma forma de revelar um debate que, at\u00e9 ent\u00e3o seria \u00edntimo e constrangedor, mas que se transforma em um debate visceral de uma na\u00e7\u00e3o que n\u00e3o consegue enfrentar os seus fantasmas:\u00a0<\/p>\n<p>Comecei a conversar com\u00a0Candire\u00a0Kaingang e contei a ela que, possivelmente, alguns de meus\u00a0antepassados mataram os seus para reocupar um dos locais onde eles viviam. Ela me pediu a localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica e confirmou. Ficamos nos olhando por um bom tempo. Vi uma dor ainda imposs\u00edvel de ser superada.\u00a0(ANDRADE, 2024, pg.63)\u00a0<\/p>\n<p>A autora conta que, para corrigir os erros do passado de seus antepassados, a escrita surge como salva\u00e7\u00e3o de que \u00e9 poss\u00edvel fazer um novo recome\u00e7o atrav\u00e9s da literatura e da linguagem. Os erros dos outros\u00a0se transformam em penumbras que invadem o eu e, este faz agora da pena, da sua escrita, o lugar da recondu\u00e7\u00e3o de todas essas mem\u00f3rias, as que se contam e as que se esquecem, para um novo eixo em que essas estas se transformam em diferentes realidades e se reescrevem. \u00c9 preciso reorganizar as narrativas, enfrentando as penumbras e as dores de uma hist\u00f3ria que foi feita por dores e viol\u00eancia.\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0Percebe-se isso neste trecho desde o in\u00edcio:\u00a0<\/p>\n<p>Os grandes fazendeiros e seus herdeiros n\u00e3o compraram terras.\u00a0Invadiram, mataram e ganharam titularidades e tomaram posse. Trouxeram africanos escravizados para trabalhar. De comum acordo\u00a0deicidiram, com urg\u00eancia, impedir que os negros tomassem posse da terra.\u00a0( ANDRADE, 2024,\u00a0pg\u00a046)\u00a0<\/p>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<p>A posse e\u00a0a\u00a0 da\u00a0terra \u00e9 o verdadeiro eixo central de\u00a0<em>A Cidade das Aves<\/em>\u00a0que \u00e9 um monumento aos meandros de uma mem\u00f3ria silenciada, quanto a uma paisagem que demonstra resist\u00eancia e resili\u00eancia, pois enquanto os humanos passam, ela fica. A terra, a paisagem, a sua natureza e suas\u00a0abund\u00e2ncias s\u00e3o os verdadeiros personagens desse romance quase sem enredo, mas profundamente descritivo, revelador e po\u00e9tico. Pois como a autora diz no in\u00edcio do livro:\u00a0<\/p>\n<p>A mem\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 para promover vingan\u00e7a, mas para meditar. Admito nossos malfeitos e os de nossos antecessores \u00e9 doloroso. As pessoas querem esquecer as coisas ruins e preferem acreditar em inven\u00e7\u00f5es. (ANDRADE, 2024,\u00a0pg\u00a062)\u00a0<\/p>\n<p>A escritora inicia o livro com o narrador em primeira pessoa e a terceira pessoa ou narrador onisciente, porque\u00a0intercala a sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria com a hist\u00f3ria do lugar e do Brasil. Como j\u00e1 foi dito, a autora entra na narrativa como uma pesquisadora atenta, observadora e contundente, mas os melhores momentos da narra\u00e7\u00e3o s\u00e3o os que ela esquece a frui\u00e7\u00e3o da an\u00e1lise cient\u00edfica e hist\u00f3rica e, deixa aflorar e tomar conta de sua escritura; a poesia, transformando-a em narrativa po\u00e9tica.\u00a0<\/p>\n<p>Um velho, que parecia n\u00e3o ver ou escutar, se levantou e entregou a\u00a0Candire, um cocar Kaingang pedindo-lhe que o colocasse em minha\u00a0cabe\u00e7a. Um vento suave nos lava e nos abra\u00e7amos. A partir de ent\u00e3o, sinto-me como uma planta entrela\u00e7ada \u00e0s vizinhas.\u00a0(ANDRADE, 2024, pg.64)\u00a0<\/p>\n<p>J\u00e1 no in\u00edcio do romance, a poeta se enla\u00e7a com a natureza \u00e0 medida que essa hist\u00f3ria avan\u00e7a como uma hist\u00f3ria de resist\u00eancia da paisagem. E mesmo em momentos que se conta de que maneira o homem viola esse ambiente, h\u00e1 uma profunda perspectiva tel\u00farica de que at\u00e9 os algozes precisam dela e com essa terra e a natureza\u00a0se fundem. Isto \u00e9, a perspectiva que a autora coloca em\u00a0<em>A Cidade das Ave<\/em>s \u00e9 que n\u00e3o existe manique\u00edsmo, n\u00e3o h\u00e1 vil\u00f5es ou mocinhos nesta hist\u00f3ria de explora\u00e7\u00e3o, viol\u00eancia e desespero, mas que existem diversas nuances e situa\u00e7\u00f5es em que o ser humano se v\u00ea completamente s\u00f3 diante dos obst\u00e1culos da sobreviv\u00eancia e que s\u00f3 a paisagem _ desafiadora e constante, podem e devem ser soberanas.\u00a0<\/p>\n<p><em>\u201cDe quanta terra precisa um homem?\u201d\u00a0<\/em>(ANDRADE, 2024,\u00a0pg\u00a081). Com essa pergunta originalmente feita por Liev\u00a0Tost\u00f3i, Tereza\u00a0Andrade estrutura o livro em tr\u00eas partes de forma semelhante ao livro\u00a0<em>Os Sert\u00f5es\u00a0<\/em>de Euclides da Cunha, porque sua obra retrata exatamente o mesmo problema do livro inspirador; o Brasil colonial, feudal, latifundi\u00e1rio, escravocrata e genocida. Algo que s\u00f3 a literatura desse pa\u00eds tem a coragem de revelar.\u00a0<\/p>\n<p>Dividido o romance em Terra Extasiada, Terra Devastada e Terra Extenuada, Andrade narra a hist\u00f3ria da coloniza\u00e7\u00e3o e da neocolonialismo do Oeste Paulista a partir da vis\u00e3o dos mais oprimidos e da oprimida\u00a0terra; seus personagens mais emblem\u00e1ticos s\u00e3o os povos origin\u00e1rios e as mulheres. At\u00e9 os pr\u00f3prios colonos que pensam que apenas oprimem o seio da vida se tornam oprimidos pela pr\u00f3pria opress\u00e3o que carregam dentro deles. Como \u00e9 o caso de Bento que, na terceira parte, junto de seu av\u00f4, os\u00a0dois\u00a0desmatam\u00a0a sua regi\u00e3o mesmo sentindo dor<em>: \u201cV\u00f4, minha vida \u00e9 cheia de dor no corpo por trabalhar derrubando \u00e1rvores. N\u00e3o d\u00e1 tempo de passar. Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 corpo.\u201d<\/em>\u00a0(ANDRADE, 2024 pg.191)\u00a0<\/p>\n<p>Apesar da autora mostrar nessa\u00a0rela\u00e7\u00e3o de Bento e Alfredo que, como disse Paulo Freire, o sonho do oprimido \u00e9 ser o opressor, h\u00e1 o ensaio da possibilidade de outra vida e outra rela\u00e7\u00e3o com a terra:\u00a0<em>\u201cEu podia viver na floresta bebendo \u00e1gua dos cip\u00f3s e comendo folhas, frutas e mel\u201d<\/em>\u00a0(ANDRADE, 2024,\u00a0pg\u00a0191). E essa possibilidade de outra forma de viv\u00eancia com a terra e na terra \u00e9 flertada durante toda a narrativa, por\u00e9m, assim como a mem\u00f3ria que \u00e9 comparada a um rio, essa situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o aconteceu e nem acontece, porque h\u00e1 reprodu\u00e7\u00e3o de\u00a0estruturas e dos comportamentos.\u00a0<\/p>\n<p>A mistura de g\u00eaneros textuais \u00e9 o seu grande trunfo, o que confere \u00e0 narrativa e ao enredo diferentes camadas que para quem l\u00ea, tornando um desafio constante e exigindo desse leitor mais do que simplesmente uma leitura, e sim que ele se torne parte dessa viagem ao passado, a qual n\u00e3o deixa de ser ainda o nosso presente.\u00a0<\/p>\n<p>A mistura de g\u00eaneros lingu\u00edsticos e liter\u00e1rios no cerne da escritura, como o documental, hist\u00f3rico e o po\u00e9tico, faz desse romance; um ba\u00fa de extrema\u00a0densidade e complexidade, na qual as diversas hist\u00f3rias de vida e de luta est\u00e3o l\u00e1 guardadas e silenciadas, prontas para serem redescobertas,\u00a0 enquanto a Hist\u00f3ria oficial \u00e9 a todo momento questionada, porque se descobre que ela \u00e9 uma narrativa de uma enorme simplicidade perto das nuances das outras hist\u00f3rias de vida das pessoas em todas as suas formas e na intera\u00e7\u00e3o com a paisagem:\u00a0<\/p>\n<p>Quando estava com a enx\u00f3 nas m\u00e3os preparando um encaixe, Alfredo mergulhava em reflex\u00e3o e vivia a pr\u00f3pria vida. Analisou tudo\u00a0o que fez e o que se tornou. \u00c0s vezes parava e escutava um p\u00e1ssaro cantando at\u00e9 localiz\u00e1-lo na \u00e1rvore. Identificava-se como os\u00a0agaraiti. (ANDRADE, 2024,\u00a0pg\u00a0185)\u00a0<\/p>\n<p>A paisagem \u00e9 o principal narrador e personagem desse livro, a natureza modificada e extasiada, a que parece que \u00e9 a todo momento violentada pelos homens, mas que no fundo, \u00e9 a que determina e se imp\u00f5e \u00e0 vida. A terra \u00e9 o \u00fatero, a m\u00e3e, a que acolhe e produz a semente e a comida dos seres, a que guarda os \u00faltimos resqu\u00edcios de sua materialidade no\u00a0planeta. Como \u00e9 a que alimenta, gera e nutre, acolhe e d\u00e1 a vida e a morte, Tereza a relaciona com a mulher, bem como toda a paisagem: as flores, as \u00e1guas, as \u00e1rvores. E essa personifica\u00e7\u00e3o com o corpo feminino se imp\u00f5e em trechos como este em que Bento compara a madeira com um corpo de mulher: \u201c<em>Nunca chame essa madeira de burra. Ela \u00e9 muito inteligente e sens\u00edvel. Das mais bonitas e cheirosas que h\u00e1. Bem cuidada, pode durar um tempo que muitos de seus filhos, netos, bisnetos e tataranetos n\u00e3o v\u00e3o viver\u201d<\/em>\u00a0(ANDRADE, 2024,\u00a0pg\u00a0187).\u00a0<\/p>\n<p>Essa personifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 vista apenas do corpo da mulher ao corpo da natureza, ou da natureza como uma mulher, mas tamb\u00e9m dos personagens que s\u00e3o tratados como filhos rebeldes. No final h\u00e1 a mistura tamb\u00e9m das vozes desses personagens com o narrador de forma consciente e abrupta, narrador onisciente se transforma em mon\u00f3logo interior, a voz da autora tamb\u00e9m se faz presente, como nesta fala do Bento:\u00a0<\/p>\n<p>Desmatar \u00e9 matar. N\u00e3o entendo por que n\u00e3o se pode viver com a floresta em p\u00e9.\u00a0Essa vida \u00e9 muito dura. \u00c9 preciso desmatar para plantar e criar o que comer. Tem dias que tenho muita raiva do que a gente faz. Quando dou uma machadada, sinto parte do meu corpo arrebentar. (ANDRADE, 2024,\u00a0pg\u00a0193)\u00a0<\/p>\n<p>Neste trecho mais uma vez, o romance coloca seus personagens como corpos que fazem parte de um todo, a paisagem os absorve, \u00e9 natural t\u00ea-los, apesar de toda ferida que estes lhe causam. E nessa transmuta\u00e7\u00e3o, corpo, paisagem, natureza, ser e terra, surge a poesia, enquanto a autora n\u00e3o quer\u00a0perder nenhum detalhe ensa\u00edstico e cient\u00edfico de sua pesquisa. Ela os insere no texto em meio ao caos da sua pr\u00f3pria linguagem organizada. \u00c9 a tentativa de fazer de um livro muito mais que um romance, mas um romance-monumento. E \u00e9 por isso que esse livro n\u00e3o pode ser lido r\u00e1pido, precisa de aten\u00e7\u00e3o, observa\u00e7\u00e3o e delicadeza, como neste trecho em que ela insere um pouco do que pesquisou sobre a Medicina e o conhecimento Bot\u00e2nico dos Kaingangs:\u00a0<\/p>\n<p>O saber\u00a0Kaiangang\u00a0controla parasitas, vermes e peste atrav\u00e9s das\u00a0plantas (\u2026) A poia \u00e9 usada de muitas formas. Tintura de urucum, carv\u00e3o e argila s\u00e3o utilizados para a pele. Mel e partes de animais tamb\u00e9m s\u00e3o\u00a0usados\u00a0para tratar doen\u00e7as. Gordura de animais misturadas com ervas s\u00e3o usadas na forma de pomadas e cataplasmas com argilas misturadas a plantas maceradas. Quem plantas, produzindo p\u00f3s cinzas e carv\u00f5es. (ANDRADE, 2024,\u00a0pg\u00a0170)\u00a0<\/p>\n<p>E n\u00e3o s\u00f3 sobre a medicina\u00a0Kaiangang\u00a0a autora traz dados que podem ser considerados at\u00e9 in\u00e9ditos como os da biopirataria cometida pelos\u00a0europeus contra nossos biomas e min\u00e9rios com n\u00fameros impressionantes e que deixa qualquer leitor indignado com tamanha espolia\u00e7\u00e3o de nossas riquezas e da vida, como com a quantidade de exporta\u00e7\u00e3o de peles de on\u00e7as (na casa de 5 mil) para o exterior ou de peles e penas dos beija-flores, isso tudo n\u00e3o apenas na coloniza\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m na chamada Belle \u00c9poque, mostrando que todo glamour da vida europeia e do capital se produz em cima de sangue e morte dos inocentes, e do desterro completo de nossa paisagem e\u00a0biomas. Nesse sentido, o livro permite uma reflex\u00e3o visceral sobre a nossa hist\u00f3ria de maneira completa, mais do que muitos anais e enciclop\u00e9dias mortas nas estantes.\u00a0<\/p>\n<p>A impress\u00e3o \u00e9 que o livro diante de tanta complexidade \u00e9 que a narrativa n\u00e3o tem um enredo. Mas salvo engano, o verdadeiro enredo j\u00e1 foi dado com a nossa forma\u00e7\u00e3o barroca e hip\u00f3crita, feita de sangue e suor em cima de uma terra extremamente linda e \u00fanica em que a beleza se concilia com a morte. Por isso, s\u00f3 a salva\u00e7\u00e3o e s\u00f3 se consegue atingir\u00a0a verdadeira profundidade da revela\u00e7\u00e3o de tantos sil\u00eancios quando a autora se deixa vencer pela poesia.\u00a0<\/p>\n<p>Sim, \u00e9 nesse momento em que a poesia vence o ensaio que o romance se sobrep\u00f5e com excel\u00eancia numa escrita que \u00e9\u00a0metapo\u00e9tica\u00a0e feminina, porque a floresta e a terra s\u00e3o corpos inteiros, unos e que se assemelham ao ritmo dos corpos das mulheres:\u00a0<em>\u201c\u00c1rvores com bra\u00e7os nus, folhas rosadas, alaranjadas ou verdes tenras, rebrotando. Os olhos e os ouvidos se afiam numa in\u00fatil tentativa de perceber que desperta\u00a0sentidos adormecidos\u201d (ANDRADE<\/em>, 2024,\u00a0pg\u00a0179).\u00a0<\/p>\n<p>Andrade nos convida a entrar neste ambiente para nos tornarmos protagonistas desta hist\u00f3ria, porque o que ela se prop\u00f5e a narrar n\u00e3o \u00e9 um enredo incomum, mas a hist\u00f3ria de todos n\u00f3s, brasileiros. A hist\u00f3ria dos seres que foram colonizadores e colonizados ao mesmo tempo. Que se misturava \u00e0 natureza e dela sobrevivia, ao mesmo tempo em que a destru\u00eda. Por isso, a autora mistura o passado com o presente, s\u00e3o pequenos flashs que se misturam ao percurso de todos n\u00f3s\u00a0e de nossos ancestrais nesse espa\u00e7o. Ela reescreve uma paisagem farta que vai ficando escassa. Este talvez seria o enredo: o espa\u00e7o soberano e desafiador, personagem e enredo ao mesmo tempo. E neste sentido, se desenrola as v\u00e1rias hist\u00f3rias de luta e sobreviv\u00eancia que a poesia extra\u00edda dessa comunh\u00e3o que o texto faz entre corpo, natureza, sentido, passado e floresta conseguem expressar: \u201c<em>Os sons, por maiores que sejam, n\u00e3o rompem o sil\u00eancio das \u00e1rvores. Cada uma delas parece tocar um anjo que desceu das\u00a0nuvens para descansar\u201d<\/em>\u00a0(ANDRADE, 2024,\u00a0pg\u00a0179).\u00a0<\/p>\n<p>Ouvir a poesia que exala, nestes momentos na narrativa, em cores vivas como uma pintura faz com que o leitor se deslumbre com toda sinestesia poss\u00edvel despertada. H\u00e1 sons, cheiros, cores, luzes:\u00a0<em>\u201cfaziam tochas com as taquaras para iluminar seus caminhos em noites escuras\u201d<\/em>\u00a0(ANDRADE, 2024, pg.175), a floresta e a natureza como um todo \u00e9 um ser vivo pulsante para abra\u00e7ar os seres humanos, mesmo aqueles que a maltratam, como nestes trechos todos rimados e\u00a0ritmados em asson\u00e2ncias e alitera\u00e7\u00f5es:\u00a0<\/p>\n<p>Entrar numa floresta fechada nativa \u00e9 uma experi\u00eancia que se sedimenta na mem\u00f3ria. \u00c9 como assistir a uma orquestra de m\u00fasicos afinando seus instrumentos. Pisa-se uma cama que afunda, gerando sonos que estalam, quebram, chacoalham e d\u00e3o origem a outro que correm, batem asas e zunem. Ouve-se o ir e o vir dos cantos dos p\u00e1ssaros, insetos e abelhas ao redor\u201d (ANDRADE,\u00a0<\/p>\n<p>Os viventes experimentam isso de uma forma \u00fanica. A uns encantou, a outros trouxe desespero e\u00a0desencanto (\u2026) A moradia inicial da fam\u00edlia expandida foi um rancho de coqueiros, abandonados h\u00e1 poucos anos\u201d (ANDRADE, 2024, pg.180).\u00a0<\/p>\n<p>No entrela\u00e7amento de tantas hist\u00f3rias, da autora e sua biografia, da hist\u00f3ria da sua fam\u00edlia com a hist\u00f3ria de sua regi\u00e3o com a do Brasil e com a hist\u00f3ria de cada leitor, de cada brasileiro, Tereza revela que o maior romance que se possa escrever \u00e9 a revela\u00e7\u00e3o de todas as entranhas da forma\u00e7\u00e3o deste pa\u00eds, regada com sangue, suor e seiva, enquanto a poesia aparece como um\u00a0suco espremido de tanta dor em meio \u00e0 beleza esculpida pela vida e pela for\u00e7a do infinito. Nossas v\u00edsceras foram finalmente reveladas, resta agora estancar todos os furos para continuarmos nosso enredo talvez de uma maneira mais l\u00edmpida com o nosso espa\u00e7o.\u00a0<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. Se voc\u00ea valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o, seja nosso apoiador e fortale\u00e7a o jornalismo cr\u00edtico: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post &lt;i&gt;Cidade das Aves&lt;\/i&gt;: O Brasil a partir dos oprimidos da terra appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/fidel-os-derrotou-duas-vezes\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Fidel os derrotou duas vezes<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/ira-nao-se-submetera-a-ameacas-nem-tolerara-linguagem-agressiva-diz-chanceler\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Ir\u00e3 n\u00e3o se submeter\u00e1 a amea\u00e7as nem tolerar\u00e1 lingua...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/flavio-bolsonaro-e-investigado-no-stf-por-lavagem-de-dinheiro\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/flavio_vorcaro-1-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Fl\u00e1vio Bolsonaro \u00e9 investigado no STF por lavagem ...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/sindicato-convoca-assembleia-popular-para-discutir-politicas-sociais-do-governo-do-df\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Sindicato convoca assembleia popular para discutir...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em romance visceral, Tereza Andrade se desdobra entre narradora, personagem e pesquisadora de mem\u00f3rias silenciadas. 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