{"id":97397,"date":"2026-07-27T19:46:57","date_gmt":"2026-07-27T22:46:57","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/do-novo-ao-velho-o-contexto-da-violencia-no-brasil\/"},"modified":"2026-07-27T19:46:57","modified_gmt":"2026-07-27T22:46:57","slug":"do-novo-ao-velho-o-contexto-da-violencia-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/do-novo-ao-velho-o-contexto-da-violencia-no-brasil\/","title":{"rendered":"Do novo ao velho: o contexto da viol\u00eancia no Brasil"},"content":{"rendered":"<p>Por <strong>Ruan Bernardo<\/strong><\/p>\n<p>Desde o processo de redemocratiza\u00e7\u00e3o, o Brasil experimentou uma trajet\u00f3ria persistente de eleva\u00e7\u00e3o das taxas de homic\u00eddio, consolidando a viol\u00eancia letal como um dos principais desafios da agenda p\u00fablica nacional. Em 1992, a taxa de homic\u00eddios era de 17 mortes por 100 mil habitantes; entretanto, ao longo das d\u00e9cadas seguintes, esse indicador apresentou crescimento cont\u00ednuo, atingindo seu \u00e1pice em 2017, quando alcan\u00e7ou a marca de 31 homic\u00eddios por 100 mil habitantes, segundo dados do <a href=\"https:\/\/www.ipea.gov.br\/atlasviolencia\/tema\/1\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Atlas da Viol\u00eancia<\/a>. Trata-se de um aumento superior a 82% no per\u00edodo, evidenciando a magnitude do agravamento da viol\u00eancia letal no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Embora tenham ocorrido redu\u00e7\u00f5es pontuais em determinados anos, a tend\u00eancia predominante foi de expans\u00e3o das taxas de homic\u00eddio, sendo as quedas tempor\u00e1rias rapidamente sucedidas por novos ciclos de crescimento. Esse comportamento revela a persist\u00eancia de fatores estruturais associados \u00e0 din\u00e2mica da viol\u00eancia, bem como as limita\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas das estrat\u00e9gias de preven\u00e7\u00e3o e controle adotadas pelo poder p\u00fablico.<\/p>\n<p>Nesse contexto, merece destaque a inflex\u00e3o observada a partir de 2018, quando o pa\u00eds passou a registrar uma trajet\u00f3ria consistente de redu\u00e7\u00e3o dos homic\u00eddios. Tal movimento resultou, em 2024, no menor patamar de viol\u00eancia letal das \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas, com uma taxa de 19 homic\u00eddios por 100 mil habitantes. Esse resultado representa um novo marco relevante para a seguran\u00e7a p\u00fablica brasileira, recolocando o pa\u00eds em n\u00edveis semelhantes aos observados em 1994. A redu\u00e7\u00e3o recente das taxas de homic\u00eddio constitui, portanto, um importante avan\u00e7o social e institucional.<\/p>\n<p>A redu\u00e7\u00e3o das taxas anuais de homic\u00eddios \u00e9, sem d\u00favida, um dado que merece ser comemorado. No entanto, \u00e9 necess\u00e1rio ampliar as lentes dessa discuss\u00e3o para compreender se essa queda representa, de fato, um avan\u00e7o na garantia do direito \u00e0 vida ou se tamb\u00e9m pode ocultar outras formas de viol\u00eancia e vulnerabilidade social. Nesse sentido, os dados da <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/mj\/pt-br\/acesso-a-informacao\/acoes-e-programas\/desaparecidos\/politica-nacional\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pol\u00edtica Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas<\/a>, disponibilizados pelo Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a e Seguran\u00e7a P\u00fablica, que iniciaram em 2015, oferecem um importante ponto de aten\u00e7\u00e3o. Considerando o per\u00edodo entre 2015 e a metade de 2026, aproximadamente 11 anos e meio, a m\u00e9dia anual de registros de desaparecimento foi de 76.649 pessoas. Isso equivale a cerca de 211 pessoas desaparecidas por dia, evidenciando a magnitude de um problema que frequentemente permanece \u00e0 margem dos debates sobre seguran\u00e7a p\u00fablica.\u00a0<\/p>\n<p>O elevado n\u00famero de desaparecimentos se mant\u00e9m justamente no mesmo contexto em que o Brasil registra uma redu\u00e7\u00e3o consistente das taxas de homic\u00eddio. Nesse cen\u00e1rio, torna-se fundamental territorializar a an\u00e1lise desses dados para compreender como ambos os fen\u00f4menos se distribuem pelo pa\u00eds. Os estados de S\u00e3o Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Paran\u00e1 concentram, juntos, 63% dos 881.470 registros de desaparecimento contabilizados no per\u00edodo analisado. Ao mesmo tempo, entre 2014 e 2024, essas unidades federativas apresentaram redu\u00e7\u00f5es expressivas em suas taxas de homic\u00eddio por 100 mil habitantes, de 53,2%, 44,8%, 38,5%, 39,8% e 31,4%, respectivamente (<a href=\"https:\/\/www.gov.br\/planejamento\/pt-br\/assuntos\/noticias\/2026\/maio\/atlas-da-violencia-brasil-registrou-42-590-homicidios-em-2024-menor-resultado-da-serie-historica-mas-subnotificacao-preocupa\/atlas-violencia-2026-vfinal_21-05.pdf\/@@display-file\/file\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Atlas da Viol\u00eancia, 2026<\/a>). Trata-se de uma tend\u00eancia observada em praticamente todo o territ\u00f3rio nacional, com exce\u00e7\u00e3o de Pernambuco, que registrou crescimento de 1,1% no mesmo per\u00edodo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da persist\u00eancia dos desaparecimentos, as chacinas, definidas como homic\u00eddios m\u00faltiplos com pelo menos tr\u00eas v\u00edtimas fatais,\u00a0 permanecem como um fen\u00f4meno recorrente na realidade brasileira. De acordo com o levantamento da pesquisa <em>Chacinas e a Politiza\u00e7\u00e3o das Mortes no Brasil<\/em>, entre 2011 e 2022 foram identificados ao menos 929 epis\u00f3dios de chacinas. A express\u00e3o \u201cao menos\u201d \u00e9 empregada de forma deliberada, uma vez que a metodologia adotada contempla exclusivamente os casos que alcan\u00e7aram a janela de oportunidade do noticiamento pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o. Desse modo, \u00e9 plaus\u00edvel supor a ocorr\u00eancia de um n\u00famero significativamente maior de eventos, sobretudo em territ\u00f3rios marcados por menor acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o e reduzida cobertura midi\u00e1tica. No per\u00edodo analisado, registrou-se uma m\u00e9dia anual de 84 chacinas, resultando em aproximadamente 391 v\u00edtimas fatais e 97 v\u00edtimas feridas por ano. Ainda que 2018 represente um ponto de inflex\u00e3o na trajet\u00f3ria dos homic\u00eddios no pa\u00eds, a incid\u00eancia de chacinas n\u00e3o acompanhou essa tend\u00eancia de retra\u00e7\u00e3o. Entre 2019 e 2022, a m\u00e9dia anual foi de 81,5 casos, superior \u00e0 m\u00e9dia de 78,5 casos observada nos quatro anos anteriores (2014\u20132017), indicando a persist\u00eancia desse padr\u00e3o de viol\u00eancia letal coletiva, mesmo em um contexto de redu\u00e7\u00e3o dos homic\u00eddios em geral.<\/p>\n<p>Compreende-se que as chacinas mapeadas pela pesquisa foram, muito provavelmente, incorporadas \u00e0s estat\u00edsticas oficiais de homic\u00eddios, uma vez que se trata de casos que alcan\u00e7aram visibilidade p\u00fablica por meio de registros jornal\u00edsticos. Entretanto, o ponto central da discuss\u00e3o n\u00e3o reside na compara\u00e7\u00e3o direta entre esses indicadores, mas nas tend\u00eancias divergentes que eles revelam. Enquanto os homic\u00eddios apresentaram uma redu\u00e7\u00e3o expressiva a partir de 2018, os desaparecimentos permaneceram em patamares elevados e a m\u00e9dia anual de chacinas identificadas entre 2019 e 2022 foi superior \u00e0 observada no per\u00edodo anterior \u00e0 inflex\u00e3o. Esse descompasso sugere que a queda dos homic\u00eddios, embora relevante, n\u00e3o foi acompanhada por uma redu\u00e7\u00e3o equivalente de outras formas de viol\u00eancia letal ou potencialmente letal, indicando a necessidade de aprofundar investiga\u00e7\u00f5es sobre as poss\u00edveis rela\u00e7\u00f5es entre a persist\u00eancia dos desaparecimentos e a redu\u00e7\u00e3o dos homic\u00eddios registrados.<\/p>\n<p>Em conson\u00e2ncia com a necessidade de problematizar essas din\u00e2micas, uma vez que desaparecimentos, homic\u00eddios e chacinas se manifestam em um mesmo contexto territorial, o Brasil , torna-se necess\u00e1rio incorporar outros elementos anal\u00edticos que permitam qualificar o significado da redu\u00e7\u00e3o dos homic\u00eddios no pa\u00eds. Em outras palavras, n\u00e3o se trata apenas de compreender a diminui\u00e7\u00e3o do n\u00famero absoluto de homic\u00eddios, mas de investigar como essa viol\u00eancia permanece distribu\u00edda de forma profundamente desigual entre diferentes grupos sociais. Segundo o <em>Atlas da Viol\u00eancia<\/em> (2026), 77% das v\u00edtimas de homic\u00eddio no Brasil s\u00e3o pessoas negras. A taxa de homic\u00eddios entre a popula\u00e7\u00e3o negra alcan\u00e7a 27,3 mortes por 100 mil habitantes, enquanto entre a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o negra esse indicador \u00e9 de 10,1 por 100 mil habitantes. Isso significa que pessoas negras apresentam um risco de vitimiza\u00e7\u00e3o por homic\u00eddio aproximadamente 2,7 vezes maior do que pessoas n\u00e3o negras, evidenciando que a viol\u00eancia letal no pa\u00eds permanece fortemente racializada.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o novo cen\u00e1rio da viol\u00eancia no Brasil: uma redu\u00e7\u00e3o dos homic\u00eddios que convive com a persist\u00eancia e, em alguns aspectos, com a intensifica\u00e7\u00e3o, de problemas historicamente estruturais. A diminui\u00e7\u00e3o das mortes registradas n\u00e3o foi acompanhada por uma redu\u00e7\u00e3o da letalidade policial, tampouco por um decl\u00ednio consistente da incid\u00eancia de chacinas ou por altera\u00e7\u00f5es substantivas na distribui\u00e7\u00e3o racial da viol\u00eancia letal. Esses elementos indicam que a queda dos homic\u00eddios, embora relevante, n\u00e3o representa, por si s\u00f3, uma transforma\u00e7\u00e3o das estruturas que sustentam a produ\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia no pa\u00eds. Ao contr\u00e1rio, sugerem que a viol\u00eancia de Estado continua desempenhando um papel central na conforma\u00e7\u00e3o dos conflitos sociais, resultado de um processo hist\u00f3rico marcado pela ampla discricionariedade conferida \u00e0s for\u00e7as policiais, pelos elevados n\u00edveis de autonomia institucional de suas corpora\u00e7\u00f5es e, em determinados contextos, pelo avan\u00e7o das mil\u00edcias e captura de parcelas do aparato estatal por interesses il\u00edcitos.<\/p>\n<p><strong>Ruan Bernardo<\/strong> \u00e9 estrando em Desenvolvimento Econ\u00f4mico e pesquisador do projeto Reconex\u00e3o Periferias<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/quando-o-pai-vai-embora-a-heranca-invisivel-que-fica-no-colo-das-maes\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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