{"id":97608,"date":"2026-07-27T19:04:45","date_gmt":"2026-07-27T22:04:45","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/milei-ia-e-o-viralatismo-no-seculo-xxi\/"},"modified":"2026-07-27T19:04:45","modified_gmt":"2026-07-27T22:04:45","slug":"milei-ia-e-o-viralatismo-no-seculo-xxi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/milei-ia-e-o-viralatismo-no-seculo-xxi\/","title":{"rendered":"Milei, IA e o viralatismo no s\u00e9culo XXI"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"936\" height=\"517\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/260727-MileiB.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/260727-MileiB.jpg 936w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/260727-MileiB-300x166.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/260727-MileiB-768x424.jpg 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/260727-MileiB-700x387.jpg 700w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/260727-MileiB-219x121.jpg 219w\" sizes=\"auto, (max-width: 936px) 100vw, 936px\"><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Por <strong>Reynaldo Arag\u00f3n<\/strong><\/p>\n<p><strong>A transforma\u00e7\u00e3o silenciosa<\/strong><\/p>\n<p>Enquanto boa parte do mundo observa Javier Milei, uma transforma\u00e7\u00e3o muito mais profunda reorganiza silenciosamente as rela\u00e7\u00f5es entre Estado, territ\u00f3rio, tecnologia e poder na Argentina, uma transforma\u00e7\u00e3o muito mais profunda avan\u00e7a quase sem ser percebida. O debate internacional tem se concentrado em suas declara\u00e7\u00f5es provocativas, no enfrentamento com advers\u00e1rios pol\u00edticos, na agenda ultraliberal e nos conflitos que mobilizam diariamente as redes sociais. Essa leitura, embora compreens\u00edvel, obscurece um fen\u00f4meno de maior alcance: a reorganiza\u00e7\u00e3o gradual da fun\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica da Argentina no contexto da nova economia pol\u00edtica do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>Reduzir esse processo \u00e0 personalidade de Milei significa observar apenas a superf\u00edcie de uma mudan\u00e7a estrutural. Governos passam, coaliz\u00f5es se desfazem e ciclos eleitorais se encerram. As transforma\u00e7\u00f5es capazes de redefinir a posi\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds na ordem internacional, por\u00e9m, costumam ocorrer em outra velocidade. Elas se materializam na arquitetura jur\u00eddica, nas regras econ\u00f4micas, na reorganiza\u00e7\u00e3o institucional, na infraestrutura, na pol\u00edtica energ\u00e9tica, na forma como o territ\u00f3rio passa a ser utilizado e, sobretudo, na capacidade do Estado de criar um ambiente favor\u00e1vel a determinados projetos de poder.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/1-25.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/1-25.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/15-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>\u00c9 exatamente nesse n\u00edvel que a Argentina se tornou um caso singular. Em poucos anos, o pa\u00eds passou a concentrar reformas que dificilmente aparecem reunidas com a mesma intensidade em outra experi\u00eancia contempor\u00e2nea. Desregula\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, novos regimes de prote\u00e7\u00e3o ao grande capital, flexibiliza\u00e7\u00e3o institucional, reorienta\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica, incentivos \u00e0 intelig\u00eancia artificial, megaprojetos de infraestrutura digital, expans\u00e3o da minera\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica e mudan\u00e7as profundas na pol\u00edtica energ\u00e9tica deixaram de constituir iniciativas isoladas. Observadas em conjunto, revelam uma dire\u00e7\u00e3o comum.<\/p>\n<p>Essa converg\u00eancia altera a pr\u00f3pria natureza do debate. A quest\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 apenas saber se as pol\u00edticas de Milei produzir\u00e3o crescimento econ\u00f4mico ou estabilidade fiscal. Tampouco se limita a discutir os custos sociais de seu programa de governo. A pergunta decisiva \u00e9 outra: que tipo de Estado est\u00e1 sendo constru\u00eddo e para qual projeto hist\u00f3rico ele passa a servir?<\/p>\n<p>Essa mudan\u00e7a de perspectiva desloca completamente o eixo da an\u00e1lise. Em vez de interpretar cada reforma como um epis\u00f3dio independente, torna-se poss\u00edvel observ\u00e1-las como partes de uma mesma arquitetura. O que emerge dessa leitura n\u00e3o \u00e9 simplesmente um programa econ\u00f4mico mais radical, mas um experimento institucional que combina tecnologia, desregula\u00e7\u00e3o, infraestrutura, energia, capital global e reposicionamento geopol\u00edtico em um \u00fanico processo de reorganiza\u00e7\u00e3o estatal.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que a Argentina deixou de ser apenas um tema da pol\u00edtica dom\u00e9stica latino-americana. O pa\u00eds transformou-se em um laborat\u00f3rio observado atentamente por governos, fundos de investimento, empresas de tecnologia, centros financeiros e atores estrat\u00e9gicos interessados em testar novas formas de articula\u00e7\u00e3o entre Estado, mercado e inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. Mais do que implementar reformas, Buenos Aires tornou-se um espa\u00e7o de experimenta\u00e7\u00e3o sobre como adaptar um Estado nacional \u00e0s exig\u00eancias do capitalismo algor\u00edtmico.<\/p>\n<h3><strong>A arquitetura do Estado tecnolibert\u00e1rio<\/strong><\/h3>\n<p>Nenhuma transforma\u00e7\u00e3o estrutural ocorre por acaso. Antes que novos investimentos cheguem, que grandes projetos sejam anunciados ou que cadeias produtivas sejam reorganizadas, \u00e9 necess\u00e1rio alterar o ambiente institucional que define como um pa\u00eds funciona. \u00c9 nesse ponto que a experi\u00eancia argentina revela sua maior originalidade. O governo Javier Milei n\u00e3o iniciou sua agenda pela infraestrutura nem pela tecnologia. Come\u00e7ou pelo pr\u00f3prio Estado.<\/p>\n<p>A l\u00f3gica que orienta esse processo parte de uma premissa simples: reduzir ao m\u00e1ximo aquilo que seus formuladores consideram obst\u00e1culos \u00e0 livre circula\u00e7\u00e3o do capital. Na pr\u00e1tica, isso significa substituir um Estado planejador e regulador por um Estado cuja principal fun\u00e7\u00e3o passa a ser garantir estabilidade jur\u00eddica, previsibilidade regulat\u00f3ria e prote\u00e7\u00e3o de longo prazo aos grandes investimentos privados. A desregula\u00e7\u00e3o deixa de ser apenas uma pol\u00edtica econ\u00f4mica e transforma-se em um princ\u00edpio organizador da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>Essa mudan\u00e7a ganha forma concreta com a cria\u00e7\u00e3o de regimes especiais destinados a oferecer condi\u00e7\u00f5es excepcionais para investimentos de grande escala. O Regime de Incentivo para Grandes Investimentos (RIGI) representa a express\u00e3o mais acabada dessa estrat\u00e9gia. Mais do que um conjunto de incentivos fiscais, ele inaugura uma arquitetura jur\u00eddica baseada em estabilidade prolongada, regras diferenciadas, seguran\u00e7a para o investidor internacional e redu\u00e7\u00e3o da capacidade de governos futuros alterarem substancialmente as condi\u00e7\u00f5es originalmente pactuadas. O horizonte temporal do investimento passa a superar o pr\u00f3prio ciclo democr\u00e1tico.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/curso-rosa-luxemburgo-1.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/curso-rosa-luxemburgo-1.png 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/curso-rosa-luxemburgo-300x37.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>A mesma l\u00f3gica orienta iniciativas voltadas \u00e0 economia digital. Ao propor um marco jur\u00eddico para empresas estruturadas em torno de agentes de intelig\u00eancia artificial e organiza\u00e7\u00f5es automatizadas, o governo argentino sinaliza que pretende adaptar sua legisla\u00e7\u00e3o \u00e0s novas formas de organiza\u00e7\u00e3o do capitalismo tecnol\u00f3gico. O objetivo n\u00e3o \u00e9 apenas incorporar inova\u00e7\u00e3o, mas construir uma jurisdi\u00e7\u00e3o percebida como mais r\u00e1pida, flex\u00edvel e previs\u00edvel para empresas cuja opera\u00e7\u00e3o depende de intensa experimenta\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Observadas isoladamente, essas medidas poderiam ser interpretadas como simples reformas pr\u00f3-mercado. Em conjunto, por\u00e9m, revelam uma mudan\u00e7a qualitativa. O Estado deixa de atuar prioritariamente como agente de coordena\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica para assumir uma fun\u00e7\u00e3o distinta: tornar-se uma plataforma institucional capaz de reduzir riscos, acelerar decis\u00f5es e oferecer um ambiente altamente competitivo para grandes projetos privados. A prioridade desloca-se da interven\u00e7\u00e3o estatal para a cria\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es permanentes de opera\u00e7\u00e3o do capital.<\/p>\n<p>Essa reorganiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o elimina o Estado. Ao contr\u00e1rio. Exige um Estado ativo, capaz de produzir seguran\u00e7a jur\u00eddica, garantir contratos, reorganizar institui\u00e7\u00f5es e adaptar continuamente sua estrutura \u00e0s demandas de uma economia cada vez mais orientada por tecnologia, infraestrutura e inova\u00e7\u00e3o. O paradoxo \u00e9 evidente: enquanto o discurso pol\u00edtico enfatiza a redu\u00e7\u00e3o do Estado, a pr\u00e1tica revela sua profunda reconfigura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente essa arquitetura institucional que permite compreender os movimentos analisados nos t\u00f3picos seguintes. A expans\u00e3o da infraestrutura digital, os grandes projetos de intelig\u00eancia artificial, a reorganiza\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, a minera\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica e o reposicionamento geopol\u00edtico n\u00e3o surgem como iniciativas independentes. Eles tornam-se poss\u00edveis porque o Estado argentino foi previamente reorganizado para funcionar como a base institucional de um novo ciclo de acumula\u00e7\u00e3o. Antes de reorganizar o territ\u00f3rio, reorganiza-se o Estado. \u00c9 essa invers\u00e3o que torna poss\u00edvel a arquitetura do tecnolibertarianismo<\/p>\n<h3><strong>O territ\u00f3rio como infraestrutura do poder<\/strong><\/h3>\n<p>A intelig\u00eancia artificial n\u00e3o \u00e9 apenas uma revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. \u00c9 uma reorganiza\u00e7\u00e3o material das rela\u00e7\u00f5es de poder. Quase sempre o debate gira em torno de algoritmos, rob\u00f4s, aplicativos ou novos modelos computacionais. Essa narrativa, por\u00e9m, esconde sua dimens\u00e3o mais importante. Antes de existir como software, toda intelig\u00eancia artificial depende de uma infraestrutura f\u00edsica gigantesca. Ela precisa de energia em escala industrial, \u00e1gua para resfriamento, minerais cr\u00edticos, redes de transmiss\u00e3o, fibras \u00f3pticas, centros de processamento de dados, estabilidade jur\u00eddica e territ\u00f3rios capazes de sustentar investimentos bilion\u00e1rios durante d\u00e9cadas. A corrida global pela intelig\u00eancia artificial \u00e9, antes de tudo, uma disputa pelo controle das condi\u00e7\u00f5es materiais que tornam essa tecnologia poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Nesse ponto que a Argentina assume um papel estrat\u00e9gico. O territ\u00f3rio argentino passa a ser reorganizado para responder \u00e0s exig\u00eancias materiais do capitalismo tecnol\u00f3gico contempor\u00e2neo. Suas reservas de g\u00e1s e petr\u00f3leo, o l\u00edtio, o cobre, a abund\u00e2ncia de energia renov\u00e1vel, a disponibilidade territorial da Patag\u00f4nia, a \u00e1gua e a nova arquitetura jur\u00eddica deixam de ser ativos nacionais analisados separadamente e passam a integrar uma mesma l\u00f3gica de reorganiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e geopol\u00edtica.<\/p>\n<p>Essa mudan\u00e7a altera profundamente a fun\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do territ\u00f3rio. Durante grande parte do s\u00e9culo XX, os recursos naturais eram disputados principalmente por sua capacidade de alimentar a ind\u00fastria e a produ\u00e7\u00e3o de bens materiais. No s\u00e9culo XXI, eles passam a sustentar tamb\u00e9m a infraestrutura da economia algor\u00edtmica. A eletricidade move data centers, o l\u00edtio alimenta sistemas de armazenamento energ\u00e9tico, o cobre conecta redes de transmiss\u00e3o, a \u00e1gua resfria centros de processamento e a estabilidade institucional reduz os riscos assumidos por grandes conglomerados tecnol\u00f3gicos. A economia digital, frequentemente apresentada como imaterial, depende cada vez mais de uma base territorial altamente concentrada e intensiva em recursos f\u00edsicos.<\/p>\n<p>Essa transforma\u00e7\u00e3o desloca o centro do debate. A pergunta deixa de ser quantos bilh\u00f5es de d\u00f3lares ser\u00e3o investidos na Argentina e passa a ser outra: quem reorganiza o territ\u00f3rio argentino, para atender a quais interesses e sob qual projeto de poder? \u00c9 essa quest\u00e3o que desaparece da maior parte das an\u00e1lises sobre Milei. O discurso da inova\u00e7\u00e3o costuma tratar infraestrutura, energia e desregula\u00e7\u00e3o como etapas naturais do progresso tecnol\u00f3gico. Na realidade, elas representam escolhas pol\u00edticas que redefinem a rela\u00e7\u00e3o entre Estado, territ\u00f3rio e capital.<\/p>\n<p>O aspecto mais significativo dessa reorganiza\u00e7\u00e3o \u00e9 que ela n\u00e3o busca apenas facilitar investimentos. Ela converte fun\u00e7\u00f5es tradicionalmente vinculadas \u00e0 soberania nacional em ativos estrat\u00e9gicos para cadeias globais controladas por grandes corpora\u00e7\u00f5es e centros internacionais de poder. Energia, recursos minerais, capacidade regulat\u00f3ria e estabilidade jur\u00eddica deixam de ser instrumentos prioritariamente orientados pelo interesse p\u00fablico e passam a compor a infraestrutura necess\u00e1ria para a expans\u00e3o de um novo regime de acumula\u00e7\u00e3o baseado em intelig\u00eancia artificial, plataformas digitais e concentra\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Esse processo produz uma invers\u00e3o silenciosa da fun\u00e7\u00e3o do Estado. Em vez de utilizar o territ\u00f3rio para ampliar capacidades nacionais, o Estado passa progressivamente a reorganizar suas institui\u00e7\u00f5es para adaptar o territ\u00f3rio \u00e0s necessidades da economia global. O centro da pol\u00edtica desloca-se da constru\u00e7\u00e3o de soberania para a redu\u00e7\u00e3o dos riscos do grande capital. A promessa deixa de ser o desenvolvimento nacional e passa a ser a competitividade internacional como fim em si mesma. \u00c9 essa l\u00f3gica que conecta reformas jur\u00eddicas, pol\u00edtica energ\u00e9tica, minera\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica e infraestrutura digital em uma \u00fanica arquitetura.<\/p>\n<p>O problema n\u00e3o est\u00e1 na tecnologia, nem na intelig\u00eancia artificial em si. O problema est\u00e1 na forma como essas tecnologias passam a reorganizar as rela\u00e7\u00f5es de poder. Quando energia, territ\u00f3rio, recursos naturais e institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas s\u00e3o estruturados prioritariamente para atender \u00e0s necessidades de cadeias globais controladas por poucos atores privados, a inova\u00e7\u00e3o deixa de representar apenas avan\u00e7o t\u00e9cnico e passa a constituir um mecanismo de concentra\u00e7\u00e3o de capacidades econ\u00f4micas, tecnol\u00f3gicas e pol\u00edticas. A disputa contempor\u00e2nea n\u00e3o ocorre apenas pelo dom\u00ednio dos mercados, mas pelo controle das infraestruturas que permitir\u00e3o definir quem governar\u00e1 a economia da intelig\u00eancia artificial nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas.<\/p>\n<h3><strong>O novo posicionamento geopol\u00edtico da Argentina<\/strong><\/h3>\n<p>A reorganiza\u00e7\u00e3o do Estado argentino n\u00e3o pode ser compreendida apenas pelas transforma\u00e7\u00f5es ocorridas dentro de suas fronteiras. Toda mudan\u00e7a estrutural dessa magnitude altera tamb\u00e9m a posi\u00e7\u00e3o internacional do pa\u00eds. Se o territ\u00f3rio \u00e9 reorganizado para atender \u00e0s exig\u00eancias do capitalismo tecnol\u00f3gico, sua pol\u00edtica externa tende a acompanhar esse movimento. A diplomacia deixa de ser apenas instrumento de representa\u00e7\u00e3o nacional e passa a funcionar como extens\u00e3o da nova arquitetura econ\u00f4mica e institucional.<\/p>\n<p>\u00c9 exatamente isso que ocorre sob Javier Milei. Em poucos meses, a Argentina promoveu uma das mais r\u00e1pidas reorienta\u00e7\u00f5es geopol\u00edticas de sua hist\u00f3ria recente. O pa\u00eds aproximou-se de forma in\u00e9dita dos Estados Unidos, fortaleceu sua alian\u00e7a estrat\u00e9gica com Israel, distanciou-se de iniciativas de integra\u00e7\u00e3o regional que buscavam maior autonomia internacional e passou a inserir-se nas disputas globais por intelig\u00eancia artificial, minerais cr\u00edticos, infraestrutura digital e seguran\u00e7a tecnol\u00f3gica. N\u00e3o se trata de epis\u00f3dios isolados, mas da constru\u00e7\u00e3o de um novo eixo de inser\u00e7\u00e3o internacional.<\/p>\n<p>Essa mudan\u00e7a responde a uma l\u00f3gica que ultrapassa afinidades ideol\u00f3gicas entre governos. O capitalismo tecnol\u00f3gico contempor\u00e2neo depende de cadeias globais altamente integradas, nas quais energia, minerais cr\u00edticos, infraestrutura digital, capacidade computacional e seguran\u00e7a jur\u00eddica s\u00e3o tratados como ativos estrat\u00e9gicos. Ao reposicionar sua pol\u00edtica externa, a Argentina oferece muito mais do que alinhamento diplom\u00e1tico. Oferece previsibilidade pol\u00edtica para atores interessados em reorganizar cadeias produtivas, reduzir riscos regulat\u00f3rios e disputar o controle da infraestrutura material da intelig\u00eancia artificial.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse contexto que a aproxima\u00e7\u00e3o com os Estados Unidos assume significado estrat\u00e9gico. A disputa contempor\u00e2nea entre Washington e Beijing n\u00e3o ocorre apenas em torno de tarifas, com\u00e9rcio ou influ\u00eancia militar. Ela envolve o dom\u00ednio das tecnologias que definir\u00e3o a pr\u00f3xima etapa da economia mundial. Intelig\u00eancia artificial, semicondutores, minerais cr\u00edticos, energia e computa\u00e7\u00e3o tornaram-se componentes da seguran\u00e7a nacional das grandes pot\u00eancias. Inserir a Argentina nesse ecossistema significa incorpor\u00e1-la a uma arquitetura geopol\u00edtica muito mais ampla do que a pol\u00edtica latino-americana tradicional.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o com Israel segue l\u00f3gica semelhante. Mais do que um alinhamento diplom\u00e1tico, ela fortalece uma agenda baseada em seguran\u00e7a, tecnologia, inova\u00e7\u00e3o e intelig\u00eancia, inserindo a Argentina em redes internacionais que articulam poder pol\u00edtico, infraestrutura tecnol\u00f3gica e novas formas de governan\u00e7a. A tecnologia deixa de ser apresentada apenas como instrumento de desenvolvimento e passa a integrar uma arquitetura de seguran\u00e7a, vigil\u00e2ncia e reorganiza\u00e7\u00e3o institucional compat\u00edvel com as necessidades do capitalismo algor\u00edtmico.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, observa-se um progressivo enfraquecimento da tradi\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica argentina baseada na diversifica\u00e7\u00e3o de parcerias e na busca por maior autonomia estrat\u00e9gica. A pol\u00edtica externa deixa de equilibrar interesses m\u00faltiplos para privilegiar uma inser\u00e7\u00e3o internacional fortemente orientada pelos polos que hoje lideram a corrida tecnol\u00f3gica global. Essa escolha reduz a margem de manobra do Estado e aumenta sua depend\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s estrat\u00e9gias definidas pelos grandes centros de poder econ\u00f4mico e tecnol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Essa transforma\u00e7\u00e3o possui implica\u00e7\u00f5es que v\u00e3o al\u00e9m da diplomacia. Quando um pa\u00eds reorganiza simultaneamente sua pol\u00edtica externa, sua legisla\u00e7\u00e3o, sua infraestrutura e seu territ\u00f3rio para atender \u00e0s exig\u00eancias de um mesmo modelo de desenvolvimento, ele deixa de ser apenas um participante da economia global e passa a funcionar como parte de sua infraestrutura pol\u00edtica. A soberania n\u00e3o desaparece formalmente, mas passa a ser exercida dentro de limites cada vez mais estreitos, definidos pela necessidade permanente de preservar a confian\u00e7a dos grandes fluxos internacionais de capital e tecnologia.<\/p>\n<h3><strong>Quem captura o valor?<\/strong><\/h3>\n<p>Toda revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica produz uma narrativa de progresso. Prometem inova\u00e7\u00e3o, crescimento econ\u00f4mico, efici\u00eancia, moderniza\u00e7\u00e3o e prosperidade. Quase nunca, por\u00e9m, a pergunta decisiva aparece no centro do debate. Quem captura o poder produzido por essa transforma\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a pergunta que separa propaganda de economia pol\u00edtica.<\/p>\n<p>O governo Milei afirma que a abertura econ\u00f4mica permitir\u00e1 recolocar a Argentina na rota do crescimento. O problema n\u00e3o est\u00e1 na atra\u00e7\u00e3o de investimentos. Pa\u00edses precisam investir, inovar e produzir riqueza. A quest\u00e3o estrat\u00e9gica \u00e9 outra. Quem controlar\u00e1 a riqueza produzida por essa nova arquitetura econ\u00f4mica? Quem controla os dados controla os algoritmos. Quem controla os algoritmos controla a infraestrutura. Quem controla a infraestrutura controla a economia. E quem controla a economia passa, inevitavelmente, a condicionar a pol\u00edtica.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente aqui que o tecnolibertarianismo revela sua verdadeira natureza. Seu objetivo nunca foi apenas reduzir o Estado, mas reorganiz\u00e1-lo para coloc\u00e1-lo a servi\u00e7o de uma nova aristocracia tecnol\u00f3gica. O discurso da liberdade funciona como linguagem pol\u00edtica para legitimar um processo profundamente concentrador, no qual fun\u00e7\u00f5es historicamente associadas \u00e0 soberania nacional passam a ser reorganizadas para reduzir riscos, ampliar garantias e proteger a expans\u00e3o do grande capital tecnol\u00f3gico.<\/p>\n<p>A Argentina oferece territ\u00f3rio, energia, l\u00edtio, cobre, \u00e1gua, infraestrutura. Oferece estabilidade jur\u00eddica por d\u00e9cadas e incentivos fiscais extraordin\u00e1rios. Mas onde permanecer\u00e3o os chips? Onde permanecer\u00e3o os grandes modelos de intelig\u00eancia artificial? Onde permanecer\u00e3o as plataformas digitais? Onde permanecer\u00e3o as patentes? Onde permanecer\u00e1 a computa\u00e7\u00e3o em nuvem? Onde permanecer\u00e1 a propriedade intelectual? N\u00e3o na Argentina.<\/p>\n<p>Essa assimetria n\u00e3o \u00e9 um detalhe t\u00e9cnico. Ela representa a nova divis\u00e3o internacional do poder. O territ\u00f3rio continua indispens\u00e1vel, mas o comando desloca-se para quem controla as tecnologias capazes de organizar esse territ\u00f3rio. A riqueza deixa de estar concentrada apenas na produ\u00e7\u00e3o e passa a concentrar-se na intelig\u00eancia que organiza a produ\u00e7\u00e3o. A infraestrutura permanece nacional. O comando torna-se transnacional.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a maior vit\u00f3ria pol\u00edtica do tecnolibertarianismo. Convencer sociedades inteiras de que abrir m\u00e3o do controle sobre capacidades estrat\u00e9gicas representa liberdade econ\u00f4mica. Enquanto o discurso celebra menos Estado, a realidade revela um Estado profundamente ativo na prote\u00e7\u00e3o dos interesses do capital tecnol\u00f3gico. N\u00e3o desaparece a interven\u00e7\u00e3o estatal. Muda apenas seu destinat\u00e1rio. O Estado deixa de organizar prioridades nacionais para administrar as necessidades da nova elite tecnol\u00f3gica global.<\/p>\n<p>Essa reorganiza\u00e7\u00e3o produz uma concentra\u00e7\u00e3o de poder sem precedentes. Poucas corpora\u00e7\u00f5es passam a controlar simultaneamente infraestrutura digital, intelig\u00eancia artificial, plataformas, sistemas operacionais, computa\u00e7\u00e3o em nuvem, dados, sat\u00e9lites, redes de comunica\u00e7\u00e3o e parte crescente dos fluxos financeiros. Nunca tantas capacidades estrat\u00e9gicas estiveram reunidas em t\u00e3o poucas m\u00e3os. O resultado n\u00e3o \u00e9 um mercado mais livre. \u00c9 uma arquitetura privada de poder capaz de condicionar governos, influenciar elei\u00e7\u00f5es, reorganizar economias e limitar a pr\u00f3pria capacidade de decis\u00e3o dos Estados nacionais.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que reduzir esse processo \u00e0 velha oposi\u00e7\u00e3o entre Estado e mercado tornou-se insuficiente. A disputa contempor\u00e2nea ocorre entre democracia e concentra\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. Entre soberania popular e soberania corporativa. Entre Estados capazes de decidir seu pr\u00f3prio futuro e estruturas privadas que passam a decidir quais Estados continuar\u00e3o relevantes na economia da intelig\u00eancia artificial.<\/p>\n<p>\u00c9 exatamente nesse ponto que a Argentina se transforma no principal laborat\u00f3rio global do tecnolibertarianismo. O pa\u00eds deixa de experimentar apenas reformas econ\u00f4micas radicais, para  ser submetido a um novo modelo de reorganiza\u00e7\u00e3o do poder. Um modelo no qual o territ\u00f3rio continua nacional, mas as capacidades estrat\u00e9gicas tendem a deslocar-se para corpora\u00e7\u00f5es privadas que operam acima das fronteiras, acima dos ciclos eleitorais e, cada vez mais, acima da pr\u00f3pria pol\u00edtica democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>O que est\u00e1 em jogo, portanto, n\u00e3o \u00e9 apenas o futuro da economia argentina. O que est\u00e1 sendo testado \u00e9 um novo paradigma de poder para o s\u00e9culo XXI. Um paradigma no qual a soberania deixa de ser medida pela capacidade de um Estado controlar seu territ\u00f3rio e passa a depender de sua capacidade de controlar dados, algoritmos, infraestrutura computacional, conhecimento e intelig\u00eancia. Quem controla essas capacidades controla o futuro. Todo o restante torna-se periferia tecnol\u00f3gica, ainda que permane\u00e7a no centro da produ\u00e7\u00e3o material.<\/p>\n<h3><strong>O futuro da submiss\u00e3o come\u00e7ou na Argentina<\/strong><\/h3>\n<p>Seria um erro interpretar a experi\u00eancia argentina como uma exce\u00e7\u00e3o latino-americana ou como uma simples radicaliza\u00e7\u00e3o do liberalismo econ\u00f4mico. O que est\u00e1 sendo testado no pa\u00eds \u00e9 muito mais profundo. Pela primeira vez, um Estado reorganiza simultaneamente sua arquitetura institucional, seu territ\u00f3rio, sua pol\u00edtica externa e sua economia para adaptar-se \u00e0s exig\u00eancias do capitalismo tecnol\u00f3gico do s\u00e9culo XXI. N\u00e3o se trata apenas de uma mudan\u00e7a de governo. Trata-se da constru\u00e7\u00e3o de um novo paradigma de poder.<\/p>\n<p>Essa transforma\u00e7\u00e3o inaugura uma ruptura silenciosa na pr\u00f3pria ideia de soberania. Durante s\u00e9culos, a for\u00e7a de um Estado foi medida pela capacidade de controlar seu territ\u00f3rio, suas fronteiras, suas riquezas naturais e suas institui\u00e7\u00f5es. Na economia da intelig\u00eancia artificial, esse crit\u00e9rio torna-se insuficiente. Um pa\u00eds pode preservar formalmente sua soberania e, ainda assim, perder progressivamente o controle sobre aquilo que determinar\u00e1 seu futuro: dados, infraestrutura computacional, algoritmos, plataformas, intelig\u00eancia artificial, propriedade intelectual e capacidade tecnol\u00f3gica.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente nesse deslocamento que reside o n\u00facleo do tecnolibertarianismo. Seu projeto hist\u00f3rico n\u00e3o consiste apenas em reduzir impostos, privatizar empresas p\u00fablicas ou flexibilizar regula\u00e7\u00f5es. Seu objetivo \u00e9 muito mais ambicioso. Trata-se de reorganizar a rela\u00e7\u00e3o entre Estado, mercado e democracia para que as decis\u00f5es estrat\u00e9gicas deixem de ser determinadas pelo interesse p\u00fablico e passem a gravitar em torno das necessidades de expans\u00e3o de grandes conglomerados tecnol\u00f3gicos e financeiros. O Estado n\u00e3o desaparece. Ele \u00e9 reprogramado para administrar as condi\u00e7\u00f5es de reprodu\u00e7\u00e3o desse novo regime de poder.<\/p>\n<p>Esse modelo rompe um dos fundamentos da democracia moderna. O poder pol\u00edtico deixa de responder prioritariamente \u00e0 sociedade e passa a responder aos fluxos globais de capital, tecnologia e inova\u00e7\u00e3o. A soberania popular perde espa\u00e7o para uma soberania corporativa que opera acima dos ciclos eleitorais, acima das fronteiras nacionais e acima da capacidade regulat\u00f3ria dos pr\u00f3prios Estados. O voto permanece. As institui\u00e7\u00f5es permanecem. A Constitui\u00e7\u00e3o permanece. Mas cresce uma esfera de decis\u00e3o que j\u00e1 n\u00e3o depende da vontade democr\u00e1tica para definir os rumos da economia, da tecnologia e da pr\u00f3pria vida social.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse sentido que o tecnolibertarianismo aproxima-se do tecnofascismo. N\u00e3o porque reproduza mecanicamente as formas cl\u00e1ssicas do fascismo do s\u00e9culo XX, mas porque compartilha sua l\u00f3gica mais profunda: a concentra\u00e7\u00e3o extrema de poder, a naturaliza\u00e7\u00e3o das desigualdades, a subordina\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica a estruturas superiores de comando e a substitui\u00e7\u00e3o do interesse coletivo por uma racionalidade que transforma efici\u00eancia econ\u00f4mica em crit\u00e9rio absoluto de organiza\u00e7\u00e3o da sociedade. A tecnologia deixa de ser instrumento de emancipa\u00e7\u00e3o humana e passa a funcionar como infraestrutura de uma nova ordem pol\u00edtica, econ\u00f4mica e cognitiva.<\/p>\n<p>A Argentina tornou-se o primeiro grande laborat\u00f3rio dessa experi\u00eancia em escala nacional. Amanh\u00e3 poder\u00e3o ser outros pa\u00edses. O laborat\u00f3rio muda de endere\u00e7o. O projeto permanece o mesmo. \u00c9 por isso que o debate argentino interessa muito al\u00e9m de Buenos Aires. Ele antecipa conflitos que atravessar\u00e3o toda a Am\u00e9rica Latina e, possivelmente, grande parte do mundo nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>O desafio colocado \u00e0s democracias j\u00e1 n\u00e3o consiste apenas em regular plataformas digitais ou ampliar investimentos em intelig\u00eancia artificial. O verdadeiro desafio \u00e9 impedir que a infraestrutura tecnol\u00f3gica do s\u00e9culo XXI seja utilizada para substituir a soberania dos povos pela soberania das corpora\u00e7\u00f5es. Defender a democracia passa a significar tamb\u00e9m defender capacidade cient\u00edfica, ind\u00fastria nacional, universidades p\u00fablicas, infraestrutura estrat\u00e9gica, produ\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica pr\u00f3pria e controle democr\u00e1tico sobre os sistemas que organizar\u00e3o a economia do futuro.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria demonstra que nenhuma concentra\u00e7\u00e3o extrema de poder permanece sem produzir conflitos sociais, depend\u00eancia pol\u00edtica e novas formas de domina\u00e7\u00e3o. A diferen\u00e7a \u00e9 que, desta vez, o centro da disputa n\u00e3o s\u00e3o apenas f\u00e1bricas, bancos ou ex\u00e9rcitos. S\u00e3o algoritmos, dados, plataformas, minerais cr\u00edticos, energia, infraestrutura computacional e intelig\u00eancia artificial. Quem controlar essas capacidades controlar\u00e1 a economia, a informa\u00e7\u00e3o, a seguran\u00e7a e, em larga medida, a pr\u00f3pria pol\u00edtica.<\/p>\n<p>A grande quest\u00e3o que emerge da Argentina, portanto, n\u00e3o diz respeito apenas ao futuro de um pa\u00eds. Diz respeito ao futuro da democracia no capitalismo tecnol\u00f3gico. O laborat\u00f3rio j\u00e1 est\u00e1 funcionando. A \u00fanica pergunta que permanece em aberto \u00e9 quantos Estados perceber\u00e3o, a tempo, que o experimento n\u00e3o termina nas fronteiras argentinas.<\/p>\n<h3><strong>O laborat\u00f3rio n\u00e3o termina na Argentina<\/strong><\/h3>\n<p>Toda arquitetura de poder bem-sucedida tende a ultrapassar as fronteiras onde foi concebida. Nenhum grande modelo pol\u00edtico permanece confinado ao territ\u00f3rio que o experimentou pela primeira vez. Foi assim com o neoliberalismo nas d\u00e9cadas de 1980 e 1990, com as plataformas digitais no in\u00edcio do s\u00e9culo XXI e, agora, com o tecnolibertarianismo. Se a experi\u00eancia argentina consolidar-se, seu significado deixar\u00e1 de ser nacional para tornar-se regional e, possivelmente, global.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente por isso que reduzir a experi\u00eancia de Javier Milei a uma agenda econ\u00f4mica seria um erro estrat\u00e9gico. O que est\u00e1 sendo testado na Argentina n\u00e3o interessa apenas aos investidores que financiam grandes projetos de energia, minera\u00e7\u00e3o ou intelig\u00eancia artificial. Interessa tamb\u00e9m aos governos, aos servi\u00e7os de intelig\u00eancia, \u00e0s corpora\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas e aos centros internacionais de poder que observam, em tempo real, a possibilidade de reorganizar Estados nacionais para responder prioritariamente \u00e0s necessidades do capitalismo algor\u00edtmico.<\/p>\n<p>Essa transforma\u00e7\u00e3o ajuda a compreender mudan\u00e7as que, observadas isoladamente, poderiam parecer apenas epis\u00f3dios diplom\u00e1ticos. Nenhuma reorganiza\u00e7\u00e3o dessa magnitude ocorre de forma isolada. Toda arquitetura de poder exige uma arquitetura geopol\u00edtica correspondente. A aproxima\u00e7\u00e3o acelerada entre Argentina, Estados Unidos e Israel n\u00e3o se limita a declara\u00e7\u00f5es pol\u00edticas ou afinidades ideol\u00f3gicas. Ela cria novas redes de coopera\u00e7\u00e3o em tecnologia, seguran\u00e7a, intelig\u00eancia e infraestrutura estrat\u00e9gica. A incorpora\u00e7\u00e3o de agendas relacionadas ao contraterrorismo, ao narcoterrorismo, \u00e0 prote\u00e7\u00e3o de infraestruturas cr\u00edticas e ao interc\u00e2mbio de capacidades tecnol\u00f3gicas amplia significativamente o alcance dessa nova arquitetura de poder. O centro da disputa deixa de ser apenas econ\u00f4mico. Passa a envolver tamb\u00e9m os instrumentos utilizados para definir amea\u00e7as, organizar sistemas de vigil\u00e2ncia e produzir legitimidade para futuras interven\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e jur\u00eddicas.<\/p>\n<p>Nesse contexto, o Brasil deixa de observar um processo distante para tornar-se parte do ambiente estrat\u00e9gico produzido por essa reorganiza\u00e7\u00e3o. Pela primeira vez desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o, a maior economia da Am\u00e9rica do Sul passa a conviver com um vizinho que reorganiza simultaneamente sua pol\u00edtica externa, sua arquitetura institucional, sua infraestrutura tecnol\u00f3gica e seus mecanismos de seguran\u00e7a em estreita converg\u00eancia com interesses geopol\u00edticos externos \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o da integra\u00e7\u00e3o regional. A mudan\u00e7a n\u00e3o altera apenas o equil\u00edbrio diplom\u00e1tico do Mercosul. Ela modifica a pr\u00f3pria geometria do poder no Cone Sul.<\/p>\n<p>Essa transforma\u00e7\u00e3o adquire import\u00e2ncia ainda maior quando se observa a crescente incorpora\u00e7\u00e3o de categorias como terrorismo, extremismo e narcoterrorismo \u00e0s novas agendas internacionais de seguran\u00e7a. O combate ao crime organizado constitui uma necessidade leg\u00edtima dos Estados democr\u00e1ticos. O risco estrat\u00e9gico surge quando conceitos originalmente voltados \u00e0 repress\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es criminosas passam a integrar arquiteturas tecnol\u00f3gicas e jur\u00eddicas suficientemente amplas para redefinir disputas pol\u00edticas, pressionar governos soberanos ou justificar formas extraordin\u00e1rias de interven\u00e7\u00e3o. A hist\u00f3ria demonstra que instrumentos concebidos para situa\u00e7\u00f5es excepcionais frequentemente ultrapassam seus objetivos originais quando se tornam parte permanente da estrutura do Estado.<\/p>\n<p>Os pr\u00f3ximos anos ser\u00e3o decisivos. Se a Argentina conseguir converter essa reorganiza\u00e7\u00e3o institucional em capacidade tecnol\u00f3gica pr\u00f3pria, poder\u00e1 inaugurar um novo ciclo de desenvolvimento nacional. Se, ao contr\u00e1rio, consolidar apenas sua fun\u00e7\u00e3o como plataforma territorial da economia algor\u00edtmica, refor\u00e7ar\u00e1 uma nova forma de depend\u00eancia compat\u00edvel com o capitalismo tecnol\u00f3gico contempor\u00e2neo. Existe ainda uma terceira possibilidade. A consolida\u00e7\u00e3o de um modelo h\u00edbrido, no qual infraestrutura estrat\u00e9gica, intelig\u00eancia artificial, seguran\u00e7a e geopol\u00edtica passem a operar como instrumentos integrados de proje\u00e7\u00e3o de poder sobre toda a Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p>\u00c9 exatamente por isso que o verdadeiro debate n\u00e3o diz respeito apenas ao sucesso ou ao fracasso do governo Javier Milei. A quest\u00e3o central \u00e9 compreender se a Argentina representa uma exce\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica ou o primeiro experimento nacional de um modelo de reorganiza\u00e7\u00e3o estatal destinado a reproduzir-se em outras partes do mundo. Se essa hip\u00f3tese estiver correta, o maior erro das democracias ser\u00e1 continuar discutindo apenas governos, elei\u00e7\u00f5es e crises econ\u00f4micas, enquanto uma transforma\u00e7\u00e3o muito mais profunda redefine silenciosamente as rela\u00e7\u00f5es entre Estado, tecnologia, capital e soberania.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria raramente anuncia suas rupturas. Elas costumam ser reconhecidas apenas quando j\u00e1 produziram novas estruturas de poder. Talvez seja exatamente esse o caso argentino. O laborat\u00f3rio j\u00e1 est\u00e1 funcionando. A quest\u00e3o que permanece em aberto n\u00e3o \u00e9 mais o que acontecer\u00e1 na Argentina. \u00c9 quais pa\u00edses perceber\u00e3o, a tempo, que o experimento foi concebido para ultrapassar suas fronteiras. A Argentina n\u00e3o \u00e9 o destino do experimento. \u00c9 apenas o seu ponto de partida.<\/p>\n<p><em><strong>Artigo publicado originalmente em <\/strong><\/em><em><u><strong>&lt;c\u00f3digo aberto&gt;<\/strong><\/u><\/em><\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. Se voc\u00ea valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o, seja nosso apoiador e fortale\u00e7a o jornalismo cr\u00edtico: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post Milei, IA e o viralatismo no s\u00e9culo XXI appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/desinfeccao-e-limpeza-de-reservatorios-afeta-abastecimento-de-agua-em-bairros-de-joao-pessoa\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Desinfec\u00e7\u00e3o e limpeza de reservat\u00f3rios afeta abast...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/sul21.com.br\/noticias\/saude\/2025\/08\/saude-e-soberania-nao-se-negociam-diz-padilha-apos-sancao-dos-eua-ao-mais-medicos\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.png?id=1654356&amp;o=node') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">\u2018Sa\u00fade e soberania n\u00e3o se negociam\u2019, diz Padilha a...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/desesperada-para-tentar-submergir-michelle-diz-que-lula-e-janja-sao-casalzinho-que-demoniza-israel\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Desesperada para tentar submergir, Michelle diz qu...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/rumo-a-cop30-observatorio-lanca-plataforma-educativa-sobre-mudancas-climaticas\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Rumo \u00e0 COP30, observat\u00f3rio lan\u00e7a plataforma educat...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Exame de uma ambi\u00e7\u00e3o submissa: como o governo argentino abre m\u00e3o da ideia de pa\u00eds para entregar tudo \u2013 terra, \u00e1gua, energia, leis nacionais \u2013 \u00e0s big techs. Quais os v\u00ednculos com Trump e Israel e como este projeto pode afetar o Brasil <\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/geopoliticaeguerra\/milei-ia-viralatismo-no-seculo-xxi\/\">Milei, IA e o viralatismo no s\u00e9culo XXI<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":97609,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[347,597,5511,1023,20093,607,5700,6219,77641,8439,1228,274,77642,18796],"tags":[],"class_list":["post-97608","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-america-latina","category-big-techs","category-capa","category-donald-trump","category-extrema-direita-argentina","category-fmi","category-geopolitica-guerra","category-ia","category-imperialismi","category-infraestrutura-digital","category-inteligencia-artificial","category-javier-milei","category-tecnolibertarianismo","category-ultradireita-argentina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97608","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=97608"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97608\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/97609"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=97608"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=97608"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=97608"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}