{"id":97661,"date":"2026-07-29T05:05:40","date_gmt":"2026-07-29T08:05:40","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/my-way\/"},"modified":"2026-07-29T05:05:40","modified_gmt":"2026-07-29T08:05:40","slug":"my-way","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/my-way\/","title":{"rendered":"\u201cMy way\u201d"},"content":{"rendered":"<p>De volta ao Brasil, e tamb\u00e9m \u00e0 estrada: depois de percorrer mais de 35 mil quil\u00f4metros, revirar 4 terabytes de documentos, levar incont\u00e1veis \u201cn\u00e3os\u201d e falar com mais de 50 fontes, Natalia parte para uma \u00faltima entrevista no interior de S\u00e3o Paulo, ao lado de um veterano jornalistas investigativo. Ser\u00e1 que a resposta estava mais perto do que pens\u00e1vamos?<\/p>\n<p>Ou\u00e7a agora o epis\u00f3dio 6!<\/p>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div><\/div>\n<h3>Confidencial: as digitais do FBI na Lava Jato<\/h3>\n<div>\n<p>\t\t\t\t\t\t<i><\/i><br \/>\n\t\t\t\t\t\t<i><\/i><\/p>\n<p>\t\t\t\t\t\t<!--<i class=\"fa-solid fa-arrow-right fa-2x\"><\/i>-->\n\t\t\t\t\t<\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div data-init=\"0\" data-id=\"259752\" data-playing=\"0\">\n<p>\t\t\t\t\t<audio src=\"https:\/\/apublica.org\/2026\/07\/confidencial-digitais-fbi-lava-jato-my-way\/\" preload=\"none\"><\/audio><\/p>\n<div>\n<div>\n<div>\n<p>\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<i><\/i><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<i><\/i><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/span><\/p><\/div>\n<div>\n<div><\/div>\n<div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span><span>0:00<\/span><\/span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span><span>-:\u2013<\/span><\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t1\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n<div>\n<h4>Epis\u00f3dio 6: My way<\/h4>\n<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<p>\t\t\t\t\t\t\t\t\t<audio src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/CONFIDENCIAL-06-Confidencial-as-digitais-do-FBI-na-Lava-Jato-25E225802594-My-way.mp3\" preload=\"none\"><\/audio><\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<h2><strong>Confira abaixo o roteiro do epis\u00f3dio na \u00edntegra<\/strong><\/h2>\n<p><strong>EPIS\u00d3DIO 06: MY WAY<\/strong><\/p>\n<p>[Ricardo Terto]<\/p>\n<p>Voc\u00ea est\u00e1 ouvindo uma \u00e1udio s\u00e9rie, Original Audible. Para conhecer mais hist\u00f3rias surpreendentes e imersivas como esta, acesse o site audible.com.br. 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Depois vamos at\u00e9 Bauru, no interior de S\u00e3o Paulo, para conversar com a nossa \u00faltima fonte.<\/p>\n<p>[Stela Diogo]<\/p>\n<p>Que promete!<\/p>\n<p>[Natalia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>Vai ser a primeira pessoa ali, que conhece muito o come\u00e7o da Lava Jato, que vai falar em <em>on <\/em>n\u00e9.\u00a0<\/p>\n<p>[Stela Diogo]<\/p>\n<p>Est\u00e1 com muitas expectativas?\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>Muitas! (Risadas)\u00a0<\/p>\n<p>Vinheta de abertura da s\u00e9rie\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>Eu sou Natalia Viana e quem me acompanha nessa viagem \u00e9 Stela Diogo. No \u00faltimo epis\u00f3dio de \u201cConfidencial: as digitais do FBI na Lava Jato\u201d vamos investigar o que o FBI faz no Brasil hoje e tentar chegar a uma conclus\u00e3o sobre a pergunta central desta s\u00e9rie: Os\u00a0Estados Unidos est\u00e3o por tr\u00e1s da Lava Jato ou isso \u00e9 s\u00f3 uma teoria da conspira\u00e7\u00e3o?\u00a0<\/p>\n<p>Epis\u00f3dio 6: My Way.\u00a0<\/p>\n<p>Efeito sonoro: ambi\u00eancia interior do carro\u00a0<\/p>\n<p>Uma investiga\u00e7\u00e3o \u00e9 uma viagem, mas \u00e9 uma viagem assim meio que sem destino, sabe? Voc\u00ea n\u00e3o sabe exatamente onde voc\u00ea vai chegar.\u00a0<\/p>\n<p>J\u00e1 atravessei uma longa jornada, junto \u00e0s minhas parceiras de investiga\u00e7\u00e3o Alice Maciel e Amanda Audi.\u00a0<\/p>\n<p>Efeito sonoro: pausa + trilha investigativa<\/p>\n<p>Eu vou em dire\u00e7\u00e3o ao aeroporto de Viracopos, em Campinas, para pegar Rubens Valente, um dos jornalistas investigativos mais conhecidos do Brasil, autor de furos hist\u00f3ricos, como aquele em que o ex-ministro Romero Juc\u00e1 disse que era preciso \u201cestancar a sangria\u201d da Lava Jato em um acord\u00e3o nacional \u201ccom o Supremo, com tudo\u201d, lembra? Pois \u00e9, foi ele quem por acaso nos trouxe essa nova pista valiosa:<\/p>\n<p>Efeito sonoro: ambi\u00eancia interior do carro<\/p>\n<p>Eu estava l\u00e1 na reda\u00e7\u00e3o em Bras\u00edlia, da Ag\u00eancia P\u00fablica, conversando com a Alice sobre como \u00e9 que a gente poderia falar com policiais federais, e a\u00ed o Rubens contou essa hist\u00f3ria, disse que o Oslain, que era o chefe da divis\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es criminais da Pol\u00edcia Federal na \u00e9poca, da Lava Jato falou pra ele assim, \u201colha, a Lava Jato come\u00e7ou aqui nessa minha sala\u201d, ele tava na sala do Oslain \u201cUm dia eu te conto essa hist\u00f3ria\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>[Stela Diogo]<\/p>\n<p>Chegou. Vai chegar o dia.\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>E olha, isso faz muitos anos, voc\u00ea v\u00ea como \u00e9 que \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o de um jornalista com a fonte.<\/p>\n<p>Por causa dos anos de trabalho jornal\u00edstico, cobrindo opera\u00e7\u00f5es da Pol\u00edcia Federal, Rubens foi criando dentro da PF rela\u00e7\u00f5es de confian\u00e7a. Uma dessas pessoas de confian\u00e7a \u00e9 Oslain Santana, ex-delegado da PF, e que era chefe da Diretoria de Investiga\u00e7\u00e3o e Combate ao Crime Organizado, a DICOR, durante o in\u00edcio da Lava Jato. Hoje, Oslain mora em um condom\u00ednio na regi\u00e3o de Bauru, no interior de S\u00e3o Paulo, e s\u00f3 topou conversar com a gente, porque j\u00e1 tinha esse contato pr\u00e9vio com Rubens.\u00a0<\/p>\n<p>Efeito sonoro: ambi\u00eancia interior do carro<\/p>\n<p>E a\u00ed, Rubens? Tudo bom?\u00a0<\/p>\n<p>[Stela Diogo]<\/p>\n<p>Olha ele a\u00ed!\u00a0<\/p>\n<p>[Rubens Valente]<\/p>\n<p>Deu certo?\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Deu certo!<\/p>\n<p>[Rubens Valente]<\/p>\n<p>N\u00e3o quero vir aqui, Stela? Vem aqui! Cabe aqui n\u00e3o?\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Cabe!\u00a0<\/p>\n<p>Recebemos Rubens no aeroporto, vindo diretamente de Bras\u00edlia para nos ajudar nessa miss\u00e3o. Com uma longa estrada pela frente, aproveitei pra entender melhor quem \u00e9 essa nova fonte.<\/p>\n<p>Efeito sonoro: ambi\u00eancia carro em movimento<\/p>\n<p>[Natalia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>Me conta quem \u00e9 Oslain! Me conta tudo, por que que n\u00f3s estamos aqui dirigindo quil\u00f4metros e quil\u00f4metros para falar com Oslain?\u00a0<\/p>\n<p>[Rubens Valente]<\/p>\n<p>Como eu te contei, eu sempre procurava conhecer essas figuras da pol\u00edcia, sempre procurei, at\u00e9 hoje procuro. Aquelas figuras que menos aparecem no notici\u00e1rio geralmente s\u00e3o as mais interessantes, s\u00e3o as que est\u00e3o ali fazendo o seu trabalho calados,\u00a0silenciosos, que voc\u00ea v\u00ea que n\u00e3o buscam holofotes. E eu me lembro que conversei algumas vezes com ele e eu percebi que ele teve um papel de testemunha, de observador da origem da Lava Jato que nunca tinha sido contado. N\u00e3o foi contado at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>Ele tinha te prometido faz muitos anos te contar como nasceu a Lava Jato, foi isso?\u00a0<\/p>\n<p>[Rubens Valente]<\/p>\n<p>Um dia ele me contou que as salas l\u00e1 dele em Bras\u00edlia tiveram um papel importante nisso. Ent\u00e3o, na \u00e9poca eu pedi para ele explicar melhor, ele nunca quis explicar e logo ele se aposentou em 2016, me parece. E quando eu tentei falar com ele, ele j\u00e1 tinha mudado, foi embora para Bauru, para onde a gente est\u00e1 indo agora. E acabou que ficou pelo ar, e eu nunca deixei de pensar nisso.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>T\u00e1 a\u00ed, a confirma\u00e7\u00e3o que todo jornalista investigativo \u00e9 uma pessoa obcecada. Anos mais tarde, estamos viajando pra tirar essa hist\u00f3ria a limpo. Chegamos \u00e0 noite em Bauru e na manh\u00e3 seguinte, cedinho, fomos ao condom\u00ednio onde hoje Oslain Santana, delegado aposentado, vive tranquilamente, bem longe das investiga\u00e7\u00f5es perigosas que fizeram parte da sua hist\u00f3ria profissional. Para quem n\u00e3o sabe, al\u00e9m de corrup\u00e7\u00e3o, a Pol\u00edcia Federal investiga crimes federais, como tr\u00e1fico na fronteira, grilagem de terra e fraudes contra o patrim\u00f4nio p\u00fablico.\u00a0<\/p>\n<p>Efeito sonoro: ambi\u00eancia carro\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>Ol\u00e1, tudo bom? A gente vai na rua\u2026\u00a0Oslain \u00e9 o morador, est\u00e1 esperando a gente. Nunca viemos.<\/p>\n<p>Por engano chegamos pelo port\u00e3o de servi\u00e7os que tinha uma fila enorme de carros, fizemos um cadastro, tiramos foto para registro de seguran\u00e7a, enfim, foi uma burocracia danada at\u00e9 conseguirmos libera\u00e7\u00e3o para entrar.<\/p>\n<p>[Stela Diogo]<\/p>\n<p>Que custo.\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Menina, que suor, n\u00e9? Pra entrar.\u00a0<\/p>\n<p>[Stela Diogo]<\/p>\n<p>Ele t\u00e1 bem seguro a\u00ed dentro.\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Assim realmente ningu\u00e9m vai encontrar o Oslain.<\/p>\n<p>J\u00e1 dentro do condom\u00ednio, demos algumas voltas pelas ruas bem planejadas, em cujos lados se erguem casas amplas, com jardins na frente e muitas \u00e1rvores. Finalmente chegamos \u00e0 casa de Oslain Santana.<\/p>\n<p>[Rubens Valente]<\/p>\n<p>Doutor Oslain! (cumprimentos abafados) N\u00e3o pode cometer esse erro, a gente entrou pela portaria errada.\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>A gente entrou pela portaria de servi\u00e7os.\u00a0<\/p>\n<p>[Oslain Santana]<\/p>\n<p>Bom dia\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Tudo bom, doutor? Sou Natalia.\u00a0<\/p>\n<p>[Rubens Valente]<\/p>\n<p>Natalia Viana, Stela Diogo.\u00a0<\/p>\n<p>[Oslain Santana]<\/p>\n<p>Tudo bem?<\/p>\n<p>[Stela Diogo]\u00a0<\/p>\n<p>Tudo bem? Prazer.\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>A entrevista aconteceu na varanda, um espa\u00e7o aberto, bem arejado, com vista para o jardim. Ao fundo \u00e9 poss\u00edvel ouvir o som das cigarras e p\u00e1ssaros, muitos p\u00e1ssaros. Nos sentamos pr\u00f3ximos a uma mesa quadrada, e em outra mesa ali do lado, ele tinha empilhado dezenas de documentos, segundo ele, para provar tudo o que ia dizer. Mas o som dos p\u00e1ssaros n\u00e3o era o \u00fanico por ali. Quando entramos, tocava uma m\u00fasica bem alta, Para n\u00e3o atrapalhar a grava\u00e7\u00e3o pedimos para desligarem a m\u00fasica e recebemos uma resposta no m\u00ednimo inusitada: \u201cn\u00f3s n\u00e3o desligamos o som\u201d, disse a esposa de Oslain. Eu insisti:<\/p>\n<p>[Oslain Santana]<\/p>\n<p>Porque por mais que na unidade\u2026 na unidade\u2026<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Acho que desligar \u00e9 melhor, n\u00e9.\u00a0<\/p>\n<p>[Rubens Valente]<\/p>\n<p>Esse microfone \u00e9 uma desgra\u00e7a, ele pega at\u00e9 o neg\u00f3cio\u2026\u00a0<\/p>\n<p>[Oslain Santana]<\/p>\n<p>Mas a ideia \u00e9 usar o tempo todo no gabinete para isso, para dificultar a escuta.\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Para dificultar. (Risos).<\/p>\n<p>[Oslain Santana]<\/p>\n<p>Sabia que era isso, estou brincando, mas \u00e9 s\u00e9rio.\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Mas a cigarra serve ao mesmo prop\u00f3sito.\u00a0<\/p>\n<p>[Rubens Valente]<\/p>\n<p>Voc\u00ea pegou essa mania ent\u00e3o, e at\u00e9 hoje?\u00a0<\/p>\n<p>[Oslain Santana]<\/p>\n<p>Sempre, sempre, sempre, tudo gabinete, estou conversando, sempre ligo o som, pelo menos para dificultar, n\u00e3o que v\u00e1 impedir. Voc\u00ea pode\u2026<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>\u00c9 assim que a fam\u00edlia se protege de poss\u00edveis escutas clandestinas, um h\u00e1bito herdado por Oslain dos tempos de delegado, enquanto se mudavam de estado em estado para servir \u00e0 Pol\u00edcia Federal. E a hist\u00f3ria dele dentro da PF \u00e9 longa, ele ingressou na carreira em 1994 e foi contempor\u00e2neo de mudan\u00e7as dr\u00e1sticas dentro da institui\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>[Oslain Santana]<\/p>\n<p>Houve uma reestrutura\u00e7\u00e3o na Pol\u00edcia Federal, criaram as delegacias regionais de combate ao crime organizado, DICOR, isso em 2004. Em 2011, unificou tudo. Veio toda uma estrutura, toda a investiga\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal ficou numa diretoria s\u00f3.\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca, durante o mandato da ent\u00e3o presidenta Dilma Rousseff, ele assumiu a diretoria do departamento. E foi a partir dessa reorganiza\u00e7\u00e3o interna da pol\u00edcia que uma investiga\u00e7\u00e3o como a Lava Jato se tornou poss\u00edvel.\u00a0<\/p>\n<p>O Rubens me contou que uma vez voc\u00eas estavam na sua sala, na DICOR e falou assim, \u201colha, come\u00e7ou aqui a Lava Jato\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>[Oslain Santana]<\/p>\n<p>Come\u00e7ou aqui.\u00a0<\/p>\n<p>Trilha sonora de mist\u00e9rio<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a da PF tinha alguns objetivos claros, um deles era priorizar grandes investiga\u00e7\u00f5es de desvios de recursos p\u00fablicos. E foi assim que uma delegacia especializada em crimes financeiros foi reestruturada em Curitiba. E adivinha quem foram os delegados que foram trabalhar l\u00e1? M\u00e1rcio Anselmo e Erika Marena, duas figuras diretamente relacionadas ao in\u00edcio da Lava Jato e que tentamos entrevistar para essa s\u00e9rie, sem sucesso. Mas essa \u00e9 a parte operacional, j\u00e1 os primeiros alvos da investiga\u00e7\u00e3o que se tornaria a Lava Jato, voc\u00ea sabe quem s\u00e3o: os doleiros.\u00a0<\/p>\n<p>[Oslain Santana]<\/p>\n<p>O trabalho de doleiro\u2026 eles mencionaram pra mim, mas a Erika, particularmente,\u00a0j\u00e1 sabia desse trabalho.<strong> <\/strong>Por que ela sabia desse trabalho? Porque ela ajudou na Miqueias.\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>A Opera\u00e7\u00e3o Miqueias, deflagrada pela Pol\u00edcia Federal em 2013, investigou um esquema de fraudes em fundos de pens\u00e3o municipais. Os fundos de pens\u00e3o s\u00e3o como uma previd\u00eancia que garante benef\u00edcios, no caso, aos servidores p\u00fablicos das prefeituras. Se voc\u00ea acha que corrup\u00e7\u00e3o federal \u00e9 um problema \u00e9 porque os rombos municipais praticamente n\u00e3o s\u00e3o investigados. Mas mesmo aqui, quem estava no meio do esquem\u00e3o eram os doleiros.\u00a0<\/p>\n<p>[Oslain Santana]<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, como a Erika foi chamada, ela \u00e9 especializada nessa \u00e1rea. Eu n\u00e3o sei se ela estava na \u00e9poca lotada, n\u00e3o estava nem no Paran\u00e1, acho que estava na \u00e9poca no Amazonas. Foi chamada para ajudar.\u00a0<\/p>\n<p>[Rubens Valente]<\/p>\n<p>Em Bras\u00edlia?<\/p>\n<p>[Oslain Santana]\u00a0<\/p>\n<p>Em Bras\u00edlia. Ent\u00e3o, ela viu que eles estavam operando. E tamb\u00e9m pintaram ele, o doleiro de Bras\u00edlia, conversando, mas isso era \u00e1udio, n\u00e9?\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Com o Youssef?<\/p>\n<p>[Oslain Santana]\u00a0<\/p>\n<p>Conversando com o Youssef.\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>O Habib Chater conversando com o Youssef? Caindo em grampo.<\/p>\n<p>Voc\u00ea deve se lembrar que no segundo epis\u00f3dio dessa s\u00e9rie investigamos a origem da Lava Jato a partir de algumas mensagens que guardei por anos e que estavam em meio aos <em>terabytes <\/em>de informa\u00e7\u00f5es vazadas por um hacker. Nesta mensagem, Deltan tenta explicar a Vladimir Aras a origem da Lava Jato.<\/p>\n<p>Sinal sonoro para leitura de mensagem<\/p>\n<p>[Ricardo Terto]<\/p>\n<p>03 de julho de 2018. Vladimir Aras: Delta, quando foi instaurado o inqu\u00e9rito m\u00e3e da Lava Jato? Dia, m\u00eas e ano? Deltan: Olha, essa hist\u00f3ria \u00e9 confusa. Tem um IPL l\u00e1 de 2005 de que eu cuidava sobre Janene, mas foi arquivado em 2008 e em seguida juntada outra not\u00edcia crime sobre outro fato, que levou a linha de investiga\u00e7\u00e3o que envolveu o Chater e, em 2013, Erika teve info de intelig. de que Chater continuava operando e a\u00ed foi feita intercepta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Estou diante de uma pessoa que finalmente pode explicar o que significa essa tal <em>\u201cintelig\u201d<\/em>. Eu tenho uma pergunta bem espec\u00edfica. Tem um dos di\u00e1logos ali da Vaza Jato que diz o seguinte, que \u00e9 o Deltan explicando \u201ca Lava Jato come\u00e7ou quando a Erika teve uma informa\u00e7\u00e3o de <em>intelig.<\/em> de que Chatter continuava operando.\u201d<\/p>\n<p>[Oslain Santana]<\/p>\n<p>A informa\u00e7\u00e3o de intelig\u00eancia dela, ela estava em Bras\u00edlia, na Opera\u00e7\u00e3o Miqueias, acompanhando o monitoramento, ela sabia que o Chater estava operando. Essa \u00e9 a informa\u00e7\u00e3o de intelig\u00eancia da Erika. Ent\u00e3o, confere.\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil explicar pra quem n\u00e3o \u00e9 jornalista como \u00e9 bom chegar a uma resposta depois de uma longa apura\u00e7\u00e3o. Segundo Oslain, a <em>\u201cintelig\u201d<\/em> era\u00a0uma informa\u00e7\u00e3o interna da PF, sobre o fato que Carlos Habib Chater estava operando lavagem de dinheiro, assim como Youssef. Esse teria sido o come\u00e7o da Lava Jato. Ou seja: por mais que os alvos iniciais \u2013 doleiros \u2013 possivelmente estivessem sob a mira do governo americano, n\u00e3o temos elementos para dizer que os Estados Unidos estavam envolvidos desde o in\u00edcio da Lava Jato. Fatos s\u00e3o fatos. E eu adoro fatos.\u00a0<\/p>\n<p>Agora, se essa informa\u00e7\u00e3o, essa <em>\u201cintelig\u201d<\/em>, veio de Bras\u00edlia, como a investiga\u00e7\u00e3o foi parar nas m\u00e3os dos delegados de Curitiba?<\/p>\n<p>[Oslain Santana]<\/p>\n<p>Eles foram pedir apoio.\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Eles queriam focar no Youssef?<\/p>\n<p>[Oslain Santana]<\/p>\n<p>O Youssef \u00e9 de l\u00e1.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>E o que eles tinham ali?\u00a0<\/p>\n<p>[Oslain Santana]<\/p>\n<p>Eles s\u00f3 tinham os casos. Ningu\u00e9m sabia de Petrobras, cara. Isso a\u00ed que o pessoal fala. O pessoal fala, v\u00ea como \u00e9, Petrobras, americano. N\u00e3o tem nada a ver.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Os doleiros apareceram numa investiga\u00e7\u00e3o em curso em Bras\u00edlia, os delegados de Curitiba deram continuidade por l\u00e1, argumentando que Youssef \u00e9 natural da regi\u00e3o de Londrina e j\u00e1 era investigado em alguns outros inqu\u00e9ritos anteriores. Por\u00e9m, quando ocorreu a Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato, Youssef j\u00e1 n\u00e3o morava mais no Paran\u00e1, mas em S\u00e3o Paulo. E a\u00ed, vamos lembrar, como bem disse o Deltan, o que eles fizeram foi retomar um inqu\u00e9rito mais antigo que estava parado e teve origem no Mensal\u00e3o, sobre o deputado Jos\u00e9 Mohamed Janene \u2013 ele, a essa altura j\u00e1 tinha falecido havia tr\u00eas anos.\u00a0<\/p>\n<p>[Oslain Santana]<\/p>\n<p>A opera\u00e7\u00e3o at\u00e9 que estranhei, que foi muito r\u00e1pida. Eles pediram apoio em agosto, a opera\u00e7\u00e3o estava madura em dezembro.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Estava madura em dezembro e saiu em mar\u00e7o.\u00a0<\/p>\n<p>[Oslain Santana]<\/p>\n<p>E tem uma coisa que estranhou nela, como s\u00e3o as coisas, o cara estava certo. Na hora, de todo o monitoramento telem\u00e1tico e telef\u00f4nico \u00e9 acompanhado por um membro do Minist\u00e9rio P\u00fablico. Na hora de dar a autoriza\u00e7\u00e3o, o membro do Minist\u00e9rio P\u00fablico que acompanhava, <strong>pale pas<\/strong>, estava concordando, n\u00e3o concordou. Ele falou o que \u00e9 o correto, \u201colha, n\u00e3o vislumbro compet\u00eancia da vara criminal de Curitiba.\u201d Ele falou de forma correta, n\u00e3o est\u00e1 errado o que ele falou.\u00a0<\/p>\n<p>Trilha sonora clima de suspense<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>\u201cO cara estava certo\u201d. Guarde essa frase. Quem era esse cara? O procurador federal, Jos\u00e9 Soares Frisch, o primeiro membro do MPF respons\u00e1vel por tocar o caso da Lava Jato. Depois de meses de escuta telef\u00f4nica, quando se preparava a opera\u00e7\u00e3o inicial, ele pediu para o caso ser enviado a Bras\u00edlia, porque a vara de Curitiba n\u00e3o tinha jurisdi\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que nenhum crime ocorreu naquele estado. A sinceridade de Oslain demonstra que, mesmo dentro da PF, o comecinho da Lava Jato traz questionamentos.\u00a0<\/p>\n<p>[Oslain Santana]<\/p>\n<p>Todo mundo desceu a lenha no membro do Minist\u00e9rio P\u00fablico, \u201cesse cara \u00e9 isso aquilo aquilo aquilo\u201d e teve uma reuni\u00e3o com o doutor Moro, chamou algu\u00e9m do Minist\u00e9rio P\u00fablico, que \u00e9 a\u00ed que veio, salvo engano, o Deltan.\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>O Deltan \u00e9. Exatamente. Substituindo.<\/p>\n<p>[Oslain Santana]<\/p>\n<p>Mas o colega, o membro, ele falou por que o Youssef n\u00e3o estava mais baseado.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>Ele estava morando em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>[Oslain Santana]<\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo, todas as opera\u00e7\u00f5es dele estavam em S\u00e3o Paulo. N\u00e3o tinha nada ali, n\u00e3o tinha nada no Paran\u00e1.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Os acusados n\u00e3o viviam no Paran\u00e1, os crimes n\u00e3o foram cometidos no Paran\u00e1, as opera\u00e7\u00f5es il\u00edcitas n\u00e3o estavam no Paran\u00e1\u2026 ent\u00e3o, por que o caso continuava ali? Esse foi o questionamento do procurador natural da Lava Jato que saiu do caso e foi substitu\u00eddo por ningu\u00e9m menos que Deltan Dallagnol. Eis o que escreveu Jos\u00e9 Soares em parecer datado de\u00a0janeiro de 2014:\u00a0<\/p>\n<p>Efeito sonoro: alerta para leitura de mensagem\u00a0<\/p>\n<p>\u201cDa investiga\u00e7\u00e3o se infere que, se h\u00e1 crimes sendo praticados pelas pessoas f\u00edsicas acima arroladas, esses crimes se est\u00e3o consumando no Distrito Federal. N\u00e3o h\u00e1 not\u00edcia de qualquer crime praticado especificamente no Paran\u00e1 pelo suposto grupo criminoso comandado por Carlos Habib Chater.\u201d<\/p>\n<p>Como voc\u00ea pode imaginar, tentamos falar com Jos\u00e9 Soares de todas as formas poss\u00edveis, mas ele respondeu que tudo o que tem a dizer j\u00e1 est\u00e1 nos autos. Nada mais a declarar.\u00a0<\/p>\n<p>[Oslain Santana]<\/p>\n<p>Mas sabe que n\u00e3o estranhei na \u00e9poca? Porque teve outros casos, o que deveria ter sido feito? A investiga\u00e7\u00e3o pode ser feita desde que tenha a autoriza\u00e7\u00e3o judicial n\u00e3o tem ilegalidade alguma. A compet\u00eancia \u00e9 do juiz, e n\u00e3o a investiga\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Entendi. Ou seja, o que deveria ter sido feito? Faz a opera\u00e7\u00e3o, mas na hora depois distribui para ju\u00edzes de todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p>[Oslain Santana]<\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo! Pega todo o material, declina a compet\u00eancia antes de julgar. Ent\u00e3o, a gente n\u00e3o achou nada de estranho, at\u00e9 porque\u2026 \u00e9 a coisa mais dif\u00edcil, estou falando aqui, \u00e9 voc\u00ea conseguir gente para trabalhar, policial para trabalhar. A opera\u00e7\u00e3o demanda muito tempo.\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]\u00a0<\/p>\n<p>Mas o que eu quero saber \u00e9 se houve ali uma poss\u00edvel influ\u00eancia americana. Oslain, que antes de ser policial federal era militar, tem l\u00e1 sua vis\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>Existe uma teoria de que os Estados Unidos se beneficiaram com a Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato ou estariam por tr\u00e1s da Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato. O que voc\u00ea acha disso?\u00a0<\/p>\n<p>[Oslain Santana]<\/p>\n<p>Aproveitamento do \u00eaxito. Aproveitamento do \u00eaxito \u00e9 um termo militar, n\u00e9? \u00c9 quando voc\u00ea faz, voc\u00ea ataca uma posi\u00e7\u00e3o, voc\u00ea ganha a posi\u00e7\u00e3o, a\u00ed voc\u00ea v\u00ea a chance que voc\u00ea tem a chance de avan\u00e7ar e ir embora. Foi isso. A opera\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem nada a ver com eles, mas depois, olha, v\u00e3o aproveitar. Falar que tem influ\u00eancia no come\u00e7o da opera\u00e7\u00e3o? N\u00e3o. Tem outra situa\u00e7\u00e3o que o pessoal comenta, dos cursos dos policiais. Cursos sempre teve. Voc\u00ea tem curso pelos alem\u00e3es, tem curso pelos ingleses, e teve curso para eles tamb\u00e9m.\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>O FBI oferece rotineiramente cursos para policiais brasileiros. At\u00e9 nossas conhecidas agentes, Leslie Backschies e June Drake deram palestras e cursos para for\u00e7as policiais brasileiras. Mas qual o problema disso? No terceiro epis\u00f3dio dessa s\u00e9rie, eu contei sobre uma conversa em <em>off <\/em>com outra fonte da Pol\u00edcia Federal, uma pessoa que tamb\u00e9m ocupou posi\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7a e lidou diretamente com casos envolvendo coopera\u00e7\u00e3o internacional entre pol\u00edcias de diferentes pa\u00edses. Essa pessoa me contou um pouquinho sobre esses cursos.\u00a0<\/p>\n<p>Trilha sonora clima interfer\u00eancia\u00a0<\/p>\n<p>Nesse relato, a fonte foi logo dizendo que os americanos eram muito pretensiosos e, se deixasse, mandavam nos agentes brasileiros. Disse tamb\u00e9m que eles t\u00eam liberdade de visitar qualquer delegacia aqui no Brasil. Trata-se de um jogo de coopta\u00e7\u00e3o em que \u00e0s vezes pode se oferecer equipamentos, apoio, ou at\u00e9 dinheiro. Essa pessoa confidenciou que sempre ficava atenta \u00e0s poss\u00edveis vulnerabilidades de policiais alocados em cada opera\u00e7\u00e3o, tanto para evitar coopta\u00e7\u00e3o por agentes estrangeiros quanto por organiza\u00e7\u00f5es criminosas.\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Por exemplo, se o policial mant\u00e9m em segredo sua sexualidade, ou tem um caso extraconjugal, algu\u00e9m pode chantage\u00e1-lo, o que se torna uma fragilidade. Essa fonte, inclusive, chegou a encomendar um dossi\u00ea sobre si mesmo feito pela PF para checar se teria algo com que se preocupar. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que todos os ex-delegados com quem conversamos t\u00eam um certo n\u00edvel de paranoia. Outra coisa que essa fonte me contou \u00e9 que se tem uma coisa que os americanos gostam de fazer \u00e9 sugerir cursos. Ou seja, nos bastidores existe uma tentativa constante de sedu\u00e7\u00e3o e coopta\u00e7\u00e3o de policiais brasileiros. Essa pessoa me contou, inclusive, que j\u00e1 descobriu visitas de adidos civis americanos a cidades do interior, mas que na verdade eles eram policiais disfar\u00e7ados, algo que ainda vamos entender melhor daqui a pouco.<\/p>\n<p>Fim da trilha\u00a0<\/p>\n<p>Foi a\u00ed que a Alice teve a brilhante ideia de pedir, via Lei de Acesso \u00e0 Informa\u00e7\u00e3o, os telegramas diplom\u00e1ticos do Itamaraty, com foco na Lava Jato, para tentar entender de maneira objetiva, com provas documentais, o que de fato as ag\u00eancias do governo americano faziam por aqui durante a investiga\u00e7\u00e3o. Com os documentos em m\u00e3os, voltamos a nos encontrar no est\u00fadio da Ag\u00eancia P\u00fablica, em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>[Alice Maciel]\u00a0<\/p>\n<p>Vai terminar com a pergunta?\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Vai terminar com a gente discutindo e chegando a alguma solu\u00e7\u00e3o amanh\u00e3.\u00a0<\/p>\n<p>[Alice Maciel]<\/p>\n<p>A gente tem que concluir?\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Tem, a gente tem que concluir.\u00a0<\/p>\n<p>[Alice Maciel]<\/p>\n<p>A gente pode concluir que n\u00e3o d\u00e1 para concluir?\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Pode, mas a gente pode concluir o que a gente aprendeu, o que \u00e9 fato e o que\u2026\u00a0<\/p>\n<p>[Alice Maciel]<\/p>\n<p>\u00c9 fake.\u00a0<\/p>\n<p>[Amanda Audi]<\/p>\n<p>Fato ou Fake. (Risos)<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>E uma das coisas que n\u00e3o sab\u00edamos l\u00e1 no in\u00edcio era o teor desses documentos diplom\u00e1ticos.\u00a0<\/p>\n<p>[Alice Maciel]<\/p>\n<p>E vieram informa\u00e7\u00f5es muito interessantes, que s\u00e3o informa\u00e7\u00f5es de relat\u00f3rios dos Estados Unidos, deixa eu pegar aqui.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Alice conseguiu o ouro a\u00ed. (Risos)\u00a0<\/p>\n<p>[Alice Maciel]<\/p>\n<p>E a\u00ed esse relat\u00f3rio tem de 2014, 2016 e 2017. E \u00e9 muito interessante porque eles falam nesses relat\u00f3rios sobre as rela\u00e7\u00f5es de coopera\u00e7\u00e3o com o Brasil. Eles falam tamb\u00e9m sobre os investimentos deles para fazer esse interc\u00e2mbio entre Estados Unidos, n\u00e9, que eles, esses cursos que eles davam e tal. A\u00ed no relat\u00f3rio de 2016 fala que, o seguinte, \u201co memorando de entendimento assinado em 2008, que tem possibilitado o interc\u00e2mbio de policiais em diversos programas\u201d, e a\u00ed fala que em 2015 os Estados Unidos teriam oferecido ao Brasil 25 cursos para mais de mil agentes da lei.\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Nossa!<\/p>\n<p>Alice:<\/p>\n<p>Em 2016, eles fizeram 19 cursos para mais de mil agentes tamb\u00e9m, em temas que v\u00e3o desde lavagem de dinheiro a policiamento comunit\u00e1rio.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>O tema j\u00e1 estava no nosso radar, eu j\u00e1 tinha perguntado ao Oslain:\u00a0<\/p>\n<p>Me deu a impress\u00e3o que existe uma tentativa de coopta\u00e7\u00e3o ou influ\u00eancia que \u00e9 constante por parte, e talvez n\u00e3o s\u00f3 dos americanos. Voc\u00ea tinha essa impress\u00e3o? Ou seja, quem est\u00e1 ali no topo precisa prestar aten\u00e7\u00e3o nesse tipo de influ\u00eancia ou tentativa de relacionamento?\u00a0<\/p>\n<p>[Oslain Santana]<\/p>\n<p>Enquanto eu fui diretor\u2026 eu acho que a coopta\u00e7\u00e3o mais \u00e9 voc\u00ea perguntar para alguns agentes se eles preferem fazer uma opera\u00e7\u00e3o em conjunto com a pol\u00edcia italiana ou com a pol\u00edcia americana, em opera\u00e7\u00e3o em conjunto com a pol\u00edcia civil do Mato Grosso, ele vai falar o qu\u00ea? \u00c9 o charme.\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>O charme dos americanos.\u00a0<\/p>\n<p>[Oslain Santana]<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o dos americanos. O charme de voc\u00ea fazer uma coopera\u00e7\u00e3o internacional.\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>\u00c9 uma sedu\u00e7\u00e3o cultural.\u00a0<\/p>\n<p>Efeito sonoro: trilha\u00a0<\/p>\n<p>Sedu\u00e7\u00e3o cultural. \u00c9 ineg\u00e1vel o fasc\u00ednio que os Estados Unidos exercem sobre os brasileiros. Afinal, somos bombardeados por filmes e s\u00e9ries sobre agentes do FBI, ent\u00e3o, na nossa cabe\u00e7a existe um certo glamour em torno desses personagens. E isso n\u00e3o \u00e9 acidental, a imagem do FBI como grande for\u00e7a heroica foi constru\u00edda ainda l\u00e1 na d\u00e9cada de 30 do s\u00e9culo passado, com a ajuda de Hollywood. Eu n\u00e3o estou inventando n\u00e3o, a informa\u00e7\u00e3o vem do livro <em>Inimigos: uma hist\u00f3ria do FBI,<\/em> do jornalista Tim Weiner. \u00c9 o chamado \u201csoft power\u201d, em linguagem geopol\u00edtica.\u00a0Esse simbolismo \u00e9 duradouro, e eu percebi ao longo dessa s\u00e9rie que ningu\u00e9m est\u00e1 imune a esse fasc\u00ednio \u2013 nem eu mesma. Por isso fiquei por anos obcecada com a hist\u00f3ria da agente do FBI meio brasileira: a Leslie Rodrigues Backschies, ou ansiosa antes de encontrar June Drake naquela cidadezinha perdida no meio da Fl\u00f3rida.\u00a0<\/p>\n<p>Agora, uma maneira bem eficiente de aumentar essa influ\u00eancia cultural \u00e9 atrav\u00e9s de cursos, palestras ou convites VIP para estudar nos Estados Unidos. Resolvi voltar e ouvir uma das primeiras entrevistas desta s\u00e9rie, com o veterano jornalista Bob Fernandes, que exp\u00f4s a influ\u00eancia da CIA e do FBI no final dos anos 1990 e in\u00edcio dos anos 2000.\u00a0<\/p>\n<p>Efeito sonoro: som de fita rebobinando\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Qual \u00e9 o problema desses cursos? Ou seja, esses cursos que eles oferecem para a pol\u00edcia?<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>[Bob Fernandes]<\/p>\n<p>Coopta\u00e7\u00e3o. Claro, voc\u00ea pode ir l\u00e1 e n\u00e3o ser cooptado, n\u00e3o necessariamente. Voc\u00ea pode assistir uma final da <em>Champions League<\/em> e n\u00e3o ser cooptado. Agora, \u00e9 muito dif\u00edcil, cara, um jovem agente ou um jovem procurador, um jovem que vai, vai para Nova York, vai jantar, voc\u00ea sabe l\u00e1 o que essa pessoa fez, onde, como, com quem, dentro de territ\u00f3rio americano? Entende? A coopta\u00e7\u00e3o se d\u00e1 assim. Come\u00e7a com essa conversinha, de repente o cara vai visitar a CIA e o FBI quando \u00e9 ministro da Justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Efeito sonoro: pausa\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>J\u00e1 falamos durante a investiga\u00e7\u00e3o sobre a aproxima\u00e7\u00e3o de Moro com o FBI. Enquanto era ministro, ele fez v\u00e1rias reuni\u00f5es, eventos e at\u00e9 algumas visitas \u00e0 sede do FBI em Washington. O pr\u00f3prio Moro, ainda como ministro da Justi\u00e7a, demonstrou como era fascinado por essa imagem hollywoodiana. Em abril de 2019, ele usou o Twitter para divulgar algumas medidas de seu projeto de lei anti crime, em uma das mensagens sobre o assunto, escreveu:\u00a0<\/p>\n<p>Trilha sonora clima \u201cleve\u201d<\/p>\n<p><em>\u201cJ\u00e1 assistiu aqueles filmes norte-americanos com agentes policiais disfar\u00e7ados infiltrando-se em gangues de criminosos, traficantes ou corruptos? Como <\/em>Donnie Brasco<em> ou <\/em>The Infiltrator<em> e que retratam casos reais\u201d<\/em><\/p>\n<p>Fim da trilha sonora\u00a0<\/p>\n<p>\u00c9 no m\u00ednimo cafona um ministro de Estado elogiar filmes de fic\u00e7\u00e3o americanos, n\u00e9? Mas vou deixar passar porque eu mesma j\u00e1 confessei que tamb\u00e9m sou alvo do<em> \u201csoft power\u201d<\/em> americano. Agora fora de brincadeira, essa influ\u00eancia cultural \u00e9 uma arma aproveitada de maneira estrat\u00e9gica pelo governo americano. E isso pode ser comprovado\u00a0nos documentos trocados pela embaixada brasileira, que obtivemos gra\u00e7as \u00e0 Lei de Acesso \u00e0 Informa\u00e7\u00e3o. Com a palavra, Alice:<\/p>\n<p>[Alice Maciel]<\/p>\n<p>Tem um ponto sobre a coopera\u00e7\u00e3o muito interessante, que ele fala o seguinte: \u201cO documento faz refer\u00eancia positiva \u00e0 Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato, ressaltando ter ela revelado complexa rede de corrup\u00e7\u00e3o, de lavagem de dinheiro e de evas\u00e3o fiscal que faz men\u00e7\u00e3o aos trabalhos do Brasil, do departamento do Estado, em conjunto com os Estados Unidos, na an\u00e1lise, identifica\u00e7\u00e3o e investiga\u00e7\u00e3o de empresas e indiv\u00edduos envolvidos em atividades de lavagem de dinheiro em ambos os pa\u00edses e que resultam em milh\u00f5es de d\u00f3lares n\u00e3o arrecadados pelos Estados Unidos.\u201d\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>O interessante desses documentos \u00e9 que percebemos de uma maneira clara algo que deveria ser \u00f3bvio, os pa\u00edses agem sempre por interesse pr\u00f3prio. Se existe uma ajuda, seja na forma de cursos, apoio institucional ou qualquer outro meio, \u00e9 porque\u00a0isso representa uma vantagem ou gera um ganho colateral. Isso foi algo que percebi com clareza durante minha viagem para os Estados Unidos: existe uma preocupa\u00e7\u00e3o dos agentes americanos em n\u00e3o revelar nada que possa contrariar os interesses nacionais. At\u00e9 porque quem fala demais por l\u00e1 sofre as consequ\u00eancias. Aqui funciona ao contr\u00e1rio: por vezes, parecia que os procuradores brasileiros transitavam entre a coopera\u00e7\u00e3o e o deslumbramento.\u00a0<\/p>\n<p>Efeito sonoro: som de fita rebobinando\u00a0<\/p>\n<p>[Nestor Cerver\u00f3]<\/p>\n<p>Os procuradores que fizeram parte da Lava Jato, eles ficaram muito entusiastas com a preocupa\u00e7\u00e3o americana e usaram de certa forma essa influ\u00eancia, ou uma, n\u00e3o sei at\u00e9 que ponto houve uma orienta\u00e7\u00e3o americana, orienta\u00e7\u00e3o na parte de investiga\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Lembram da entrevista de Nestor Cerver\u00f3, ex-diretor da Petrobras? Ele foi enf\u00e1tico em dizer que foi pressionado pelos procuradores da For\u00e7a Tarefa de Curitiba para colaborar com os americanos. Mas ele n\u00e3o foi o \u00fanico a fazer essa afirma\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>[Alice Maciel]<\/p>\n<p>\u00c9 isso, eu ouvi do Cerver\u00f3, mas tamb\u00e9m de uma pessoa que atuou na defesa de v\u00e1rios investigados da Lava Jato e que tamb\u00e9m falou a mesma coisa. A outra fonte corrobora de que o Minist\u00e9rio P\u00fablico no Brasil intermediou para que os investigados fizessem essa colabora\u00e7\u00e3o com os americanos, sabe? Esse deslumbramento, eles acabaram atuando nesse lugar de intermediador.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>A fonte que Alice ouviu em <em>off <\/em>\u00e9 uma pessoa que atuou na defesa de v\u00e1rios investigados da Lava Jato e que tamb\u00e9m teve a mesma percep\u00e7\u00e3o. Outra informa\u00e7\u00e3o vinda dessa fonte \u00e9 que muitas vezes os procuradores americanos corriam para fechar acordo com pessoas investigadas no Brasil antes dos brasileiros, conseguindo assim vantagem na obten\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es e atravessando os amiguinhos. Mas, se era s\u00f3 mais uma investiga\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal sobre doleiros como a Lava Jato chegou a abalar as estruturas da Rep\u00fablica brasileira? Eu perguntei isso para o Oslain.<\/p>\n<p>[Oslain Santana]<\/p>\n<p>Sinceramente, foi politizada. Eu n\u00e3o sei se \u00e9 por vaidade deles, pelos, vai ver que \u00e9 vaidade.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Ter mantido tudo naquela vara foi complicado, foi prejudicial?<\/p>\n<p>[Oslain Santana]<\/p>\n<p>Acho suspeito.\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Suspeito?\u00a0<\/p>\n<p>[Oslain Santana]<\/p>\n<p>Eu acho suspeito.\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Acho suspeito pior que prejudicial.<\/p>\n<p>[Oslain Santana]<\/p>\n<p>N\u00e3o, voc\u00ea tem que explicar o porqu\u00ea. Porque voc\u00ea quer trazer tudo para voc\u00ea. N\u00e3o estou falando, n\u00e3o estou criticando. Eu acho estranho concentrar tudo ali. Ser\u00e1 que pode ser boa ou m\u00e1 inten\u00e7\u00e3o? Eu s\u00f3 acho estranho levar tudo para l\u00e1. Talvez vaidade. Vaidade, n\u00e9? Ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Por que, n\u00e9, agora isso \u00e9 uma d\u00favida, mas vaidade \u00e9 o qu\u00ea? S\u00f3 pra eu entender qual que \u00e9 a suspeita.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>[Oslain Santana]<\/p>\n<p>Desvio. Vaidade \u00e9 o desvio. N\u00e3o d\u00e1 pra descartar. Depois eu posso falar em <em>off <\/em>aqui. A gente aprende de forma mais amarga na institui\u00e7\u00e3o. Eu tive amigos que\u2026 Amigo, amigo envolvido em corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Efeito sonoro: trilha sonora<\/p>\n<p>[Ricardo Terto]<\/p>\n<p>Voc\u00ea est\u00e1 ouvindo uma \u00e1udio s\u00e9rie, Original Audible. Para conhecer mais hist\u00f3rias surpreendentes e imersivas como est\u00e1, acesse o site audible.com.br. 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A investiga\u00e7\u00e3o tinha sido aberta depois que a opera\u00e7\u00e3o Lava Jato revelou a corrup\u00e7\u00e3o na Petrobras.\u201d<\/p>\n<p>O valor da multa s\u00f3 veio oficialmente \u00e0 tona em 2018, mas desde o comecinho das tratativas com os investigadores americanos em 2015, j\u00e1 era tema quente entre os procuradores brasileiros, segundo mensagens do Telegram, vazadas. Lembram daquela visita \u00e0 Curitiba de uma enorme delega\u00e7\u00e3o de americanos em 2015? Pois durante aquela conversa j\u00e1 se falava em dividir a multa que viria a ser o resultado da investiga\u00e7\u00e3o americana e que, na teoria, nem havia come\u00e7ado. No dia 8 de outubro de 2015, quando os americanos ainda estavam aqui, Deltan Dallagnol, escreveu no Telegram para seus colegas do MPF:<\/p>\n<p>Efeito sonoro: alerta de mensagem\u00a0<\/p>\n<p>[Ricardo Terto]<\/p>\n<p>\u201cCaros, hoje tem reuni\u00e3o com americanos 9.30 sobre empresas estrangeiras, inclusive Petrobras. Ontem fal\u00e1mos com eles sobre<em> assets sharing<\/em> da multa\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p><em>\u201cAssets Sharing\u201d<\/em> significa a partilha de bens recuperados no exterior. Neste caso, por\u00e9m, eles estavam tratando da divis\u00e3o da poss\u00edvel multa proveniente dos cofres da Petrobras. Como j\u00e1 ouvimos, o valor era importante para os americanos. Vamos voltar \u00e0 entrevista de Lance Jasper, ex -procurador da Comiss\u00e3o de Valores Mobili\u00e1rios dos Estados Unidos, na voz do ator Aury Porto.<\/p>\n<p>Efeito sonoro: fita rebobinando<\/p>\n<p>[Dublagem Lance Jasper]<\/p>\n<p>Foi um grande caso. Naquele ano, o caso da Petrobras representou mais de 40% do que a SEC conseguiu. Ent\u00e3o, foi um dos maiores casos que a SEC j\u00e1 havia conduzido at\u00e9 aquele momento. E isso fez uma grande diferen\u00e7a na maneira como a SEC destacou seu sucesso naquele ano. Assim, em um ano t\u00edpico, a SEC arrecada tr\u00eas, quatro, cinco bilh\u00f5es de d\u00f3lares. Ent\u00e3o, por ser mais de 40% disso, \u00e9 realmente muito dinheiro.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>A negocia\u00e7\u00e3o do retorno de parte dessa multa ao Brasil foi suada, e t\u00e3o longa quanto a pr\u00f3pria investiga\u00e7\u00e3o americana. Dois anos depois, procuradores americanos e brasileiros chegaram a um acordo. O que ficou meio turvo era a forma como esse dinheiro retornaria aos cofres do Estado brasileiro. A Alice investigou essa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>[Alice Maciel]<\/p>\n<p>Mas o que a gente descobriu foi que, \u00e9 desde\u2026 2015, que eles j\u00e1 discutiam como repartir o dinheiro da multa da Petrobras e a destina\u00e7\u00e3o do dinheiro, n\u00e9? E eles j\u00e1 falavam, na \u00e9poca, sobre a destina\u00e7\u00e3o para um fundo, uma funda\u00e7\u00e3o, eles come\u00e7aram a discutir, inclusive, as conversas. Eu me lembro que come\u00e7aram a aparecer quando os americanos estavam, aquela miss\u00e3o dos americanos em Curitiba, e o Deltan chama os outros procuradores falando assim, \u201colha, a gente come\u00e7ou a conversar, a gente precisa de propostas de como n\u00f3s vamos fazer com esse dinheiro, a destina\u00e7\u00e3o desse dinheiro\u201d e eles falam da cria\u00e7\u00e3o de um fundo j\u00e1 naquela \u00e9poca, de uma funda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>N\u00e3o sabemos se por sugest\u00e3o dos americanos ou se por uma ideia vinda dos pr\u00f3prios procuradores, a ideia da Funda\u00e7\u00e3o surgiu no desenrolar da negocia\u00e7\u00e3o. O fato \u00e9 que, depois da reuni\u00e3o l\u00e1 em 2015, o Deltan j\u00e1 sugeriu um modelo para receber o valor da multa:\u00a0<\/p>\n<p>Efeito sonoro: alerta de mensagem\u00a0<\/p>\n<p>[Ricardo Terto]<\/p>\n<p>08 de outubro de 2015, de Deltan Dallagnol para o grupo de procuradores da For\u00e7a Tarefa de Curitiba: <strong>\u201c<\/strong>Ontem falamos com eles sobre <em>assets sharing <\/em>da multa e perdimento associados \u00e0 a\u00e7\u00e3o deles contra a Petro, e em parte desses valores h\u00e1 alguma perspectiva positiva. Contudo, precisamos de algu\u00e9m que se disponha a estudar e bolar um destino desses valores que agradaria a todos, como um fundo, entidades contra a corrup\u00e7\u00e3o, o sistema de sa\u00fade p\u00fablico, fundo de direitos difusos, fundo penitenci\u00e1rio, \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos que combatem corrup\u00e7\u00e3o, a Transpar\u00eancia Internacional Brasil ou Contas Abertas etc\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>Dias depois, a sugest\u00e3o \u00e9 mais expl\u00edcita. O advogado Patrick Stokes, ent\u00e3o chefe do departamento de FCPA \u2013 a lei anticorrup\u00e7\u00e3o americana \u2013 ofereceu tr\u00eas alternativas aos brasileiros, incluindo devolver o dinheiro para \u201caplica\u00e7\u00e3o em programas contra a corrup\u00e7\u00e3o\u201d. A solu\u00e7\u00e3o seria complexa, diz ele, mas arremata. Abre aspas: <em>\u201cWhere there is a will , there is a way\u201d<\/em>. Fecha aspas. Onde tem for\u00e7a de vontade, tem jeito.<\/p>\n<p>[Alice Maciel]<\/p>\n<p>E tem um momento muito interessante tamb\u00e9m, que tem um momento que eles ficam irritados, os procuradores aqui no Brasil, porque eles falam que os americanos v\u00e3o ficar com uma parte, insinua que assim, eles v\u00e3o ficar com dinheiro tamb\u00e9m, mas eles est\u00e3o ganhando em cima da nossa investiga\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>No final, ap\u00f3s uma boa queda de bra\u00e7o, os procuradores de Curitiba conseguiram um desenho favor\u00e1vel, 20% do valor da multa ficou com os americanos e 80% voltou pro Brasil. Ap\u00f3s a assinatura do acordo, que s\u00f3 aconteceu em 2019, o MPF anunciou a cria\u00e7\u00e3o de uma funda\u00e7\u00e3o privada que iria gerir um valor de 2,5 bilh\u00f5es de reais. Mas a repercuss\u00e3o foi bem diferente do que esperavam os procuradores.\u00a0<\/p>\n<p>[material de arquivo]<\/p>\n<p>A procuradora-geral da Rep\u00fablica pediu no in\u00edcio da noite que o Supremo Tribunal Federal anule o acordo da Petrobras com participa\u00e7\u00e3o da For\u00e7a Tarefa da Lava Jato em Curitiba. Esse acordo criava uma funda\u00e7\u00e3o para gerenciar a multa bilion\u00e1ria imposta pelo governo americano \u00e0 Petrobras.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>O Supremo suspendeu o acordo e a cria\u00e7\u00e3o da tal funda\u00e7\u00e3o, por desvio de fun\u00e7\u00e3o j\u00e1 que n\u00e3o compete aos membros do MPF determinar a destina\u00e7\u00e3o do dinheiro da multa. Segundo o Supremo, qual era o problema? O problema, como viemos a saber tamb\u00e9m gra\u00e7as aos documentos da Vaza Jato, era o conflito de interesses. O Minist\u00e9rio P\u00fablico teria assento no conselho da Funda\u00e7\u00e3o, justamente num momento em que os procuradores faturavam com palestras e eventos sobre o tema. Deltan chegou a articular em conjunto com o procurador Roberto Pozzobon a cria\u00e7\u00e3o de uma empresa de palestras, usando as pr\u00f3prias esposas como s\u00f3cias, j\u00e1 que procuradores n\u00e3o podem por lei se dedicar \u00e0 atividade empresarial. Essa mensagem ele enviou para a sua esposa:\u00a0<\/p>\n<p>Efeito sonoro: alerta de mensagem\u00a0<\/p>\n<p>[Ricardo Terto]<\/p>\n<p>03, de dezembro de 2018, de Deltan Dallagnol para sua esposa: Vamos organizar congressos e eventos e lucrar, ok? \u00c9 um bom jeito de aproveitar nosso networking e visibilidade.\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Enquanto Deltan planejava, Moro foi l\u00e1 e fez: sua esposa Ros\u00e2ngela Moro criou uma empresa do mesmo tipo. Essa revela\u00e7\u00e3o foi da nossa super rep\u00f3rter, Alice Maciel.\u00a0<\/p>\n<p>[Amanda Audi]<\/p>\n<p>Ao longo do tempo eles come\u00e7aram a ter motiva\u00e7\u00f5es at\u00e9 financeiras, n\u00e9, de enfim, fazer cursos a partir da experi\u00eancia que eles tiveram ali. Ent\u00e3o, era curso para bancos, para institui\u00e7\u00f5es assim. Ent\u00e3o, era uma atividade que corria em paralelo com as investiga\u00e7\u00f5es. Ele estava, enfim, monetizando a fama que ele ganhou.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>\u00c9 que, assim, n\u00e3o \u00e9 ilegal, mas \u00e9 um conflito de interesse claro, n\u00e9? Uma pessoa que investiga a corrup\u00e7\u00e3o come\u00e7a a dar aula de como se livrar de corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>[Amanda Audi]<\/p>\n<p>Exatamente.<\/p>\n<p>Efeito sonoro: pausa\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Se voc\u00ea chegou at\u00e9 aqui j\u00e1 entendeu que o jogo de interesses \u00e9 complexo e que nem sempre o interesse p\u00fablico fica em primeiro lugar. Tamb\u00e9m deve ter percebido que a influ\u00eancia americana durante a Lava Jato aconteceu em v\u00e1rias frentes, algumas mais agressivas, e outras mais sutis, mais \u201c<em>soft\u201d. Soft power<\/em>,<em> <\/em>n\u00e9?<em> <\/em>E que isso n\u00e3o vem de agora, na verdade essa influ\u00eancia \u00e9 a continuidade de um processo hist\u00f3rico. Mas e hoje? N\u00e3o podemos encerrar essa s\u00e9rie sem tentar descobrir: o que o FBI faz hoje no Brasil? Encontrei um v\u00eddeo do pr\u00f3prio FBI, de 2015, no auge da Lava Jato. Nele, o ent\u00e3o chefe do FBI no Brasil, David Brassanini, explica a fun\u00e7\u00e3o da ag\u00eancia fora de sua jurisdi\u00e7\u00e3o, ou seja, fora do territ\u00f3rio norte-americano.<\/p>\n<p>[David Brassanini]<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><em>My responsibility\u2026 <\/em><em><br \/><\/em><\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Ele diz que a responsabilidade dele \u00e9\u00a0supervisionar todas as opera\u00e7\u00f5es, tanto no lado administrativo quanto operacional, para as Am\u00e9ricas.\u00a0<\/p>\n<p>[David Brassanini]<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>A<em>nd our responsibility, as everyone knows, is to get out\u2026<\/em><\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>E fala ainda que \u201ccomo todos sabem\u201d, a responsabilidade do FBI \u00e9 sair a campo, trabalhar com os parceiros locais e permitir que a ag\u00eancia avance em seus \u201cinteresses investigativos\u201d.<\/p>\n<p>Tem mais:<\/p>\n<p>[David Brassanini]<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><em>Although we may not have jurisdiction in the country that we\u2019re located. Let\u00b4s say\u2026\u00a0<\/em><\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Aqui ele diz que embora o FBI possa n\u00e3o ter\u00a0jurisdi\u00e7\u00e3o no pa\u00eds onde seus agentes est\u00e3o localizados, ele tem a capacidade de estabelecer contato com os colegas e parceiros locais que t\u00eam jurisdi\u00e7\u00e3o, trabalhar com eles, fornecer pistas e dizer, abre aspas:\u00a0<\/p>\n<p>[David Brassanini]<\/p>\n<p>A<em>nd say, hey, by the way, we\u2019re looking for this fugitive\u2026<\/em><\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>\u201cEi, estamos procurando por este fugitivo. Voc\u00ea sabe onde ele est\u00e1? Podemos ajud\u00e1-los? H\u00e1 algo que voc\u00eas precisem para encontr\u00e1-lo? Seja treinamento ou outras t\u00e9cnicas sofisticadas.\u201d Fecha aspas.<\/p>\n<p>[David Brassanini]<\/p>\n<p>\u2026<em>to help find him? Whether it be training, whether it be other sophisticated techniques that we can use.<\/em><\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Parte das tarefas dos agentes \u00e9 estabelecer rela\u00e7\u00f5es com as autoridades locais, ou seja, fazer networking. Parte desse apoio institucional, nas palavras de Brassanini, pode vir em forma de treinamentos\u00a0ou \u201coutras t\u00e9cnicas sofisticadas\u201d, uma explica\u00e7\u00e3o um pouco enrolada.\u00a0<\/p>\n<p>Trilha sonora clima de interfer\u00eancia\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>O FBI possui um escrit\u00f3rio formal na Embaixada dos EUA em Bras\u00edlia, liderado pelo Adido Legal, com agentes em Bras\u00edlia e tamb\u00e9m nos consulados. O papel do adido legal \u00e9 facilitar a coopera\u00e7\u00e3o e, claro, a influ\u00eancia sobre as pol\u00edcias locais. N\u00e3o podia terminar essa investiga\u00e7\u00e3o sem tentar visitar o escrit\u00f3rio do FBI em Bras\u00edlia. E foi assim que oficialmente fiz minha \u00faltima viagem para a capital federal.\u00a0<\/p>\n<p>Efeito sonoro: chamada para embarque em voo.<\/p>\n<p>[Funcion\u00e1rio Companhia A\u00e9rea]<\/p>\n<p>Com destino a Bras\u00edlia e conex\u00f5es. Vamos iniciar o seu embarque atrav\u00e9s dos port\u00f5es B4.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Tudo isso apenas para tomar mais um cafezinho\u2026<\/p>\n<p>Efeito sonoro: sino de porta.<\/p>\n<p>O porta-voz da embaixada americana \u00e9 um homem jovem, alto e sorridente, com um portugu\u00eas impec\u00e1vel, mas carregado de sotaque. Sentamos numa mesa \u00e0 sombra, evitando o calor escaldante de Bras\u00edlia. Ele disse que ama a cafeteria onde nos encontramos que tem mesas amplas do lado de fora, p\u00e3es de fermenta\u00e7\u00e3o natural, tudo delicioso e car\u00edssimo. O local fica perto da embaixada americana, que ele logo avisou que estava em reforma e mais do que nunca fechada \u00e0 visita\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m de empoeirado, o escrit\u00f3rio do FBI, que fica dentro da embaixada, n\u00e3o \u00e9 aberto a visitas por quest\u00e3o de seguran\u00e7a. Eu ainda argumentei, falando que tamanho sil\u00eancio oficial por parte do FBI s\u00f3 gera suspeitas e fomenta teorias da conspira\u00e7\u00e3o. Ele me disse que ia tentar, mas que n\u00e3o tinha muito o que fazer: teorias da conspira\u00e7\u00e3o s\u00e3o inevit\u00e1veis. Meses depois, eu sigo sem resposta.<\/p>\n<p>Trilha sonora din\u00e2mica<\/p>\n<p>Mas claro que n\u00e3o parei por a\u00ed, pedi via Lei de Acesso \u00e0 Informa\u00e7\u00e3o \u00e0 Pol\u00edcia Federal o registro de todos os agentes do FBI que trabalham no Brasil. Para minha surpresa, algu\u00e9m de dentro da PF respondeu dizendo que n\u00e3o existe um registro dos agentes na Embaixada americana, mas que atrav\u00e9s de um link do Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores eu teria acesso aos nomes. Simples assim, mas com um por\u00e9m, ali s\u00f3 tinha o nome de cerca de 60 americanos listados como adidos civis no ano de 2024. Claro, uma jornalista sabe onde procurar os fantasmas de ver\u00f5es passados. Apelei para o <em>Wayback Machine<\/em>, uma ferramenta que fotografa e arquiva p\u00e1ginas antigas e at\u00e9 \u201cmortas\u201d da internet. Usando esse recurso, eu consegui levantar cerca de 200 nomes listados como adidos civis do per\u00edodo em que a Lava Jato ainda estava em curso. Naquela reuni\u00e3o, conversamos um pouco sobre isso.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, assim, todo mundo que \u00e9 adido civil, que \u00e9 uma lista enorme, pode ser tanto de alguma ag\u00eancia do governo americano, que \u00e9 um civil, ou pode ser gente do FBI, pode ser gente da CIA, pode ser gente da NSA, sei l\u00e1, pode ser gente de qualquer uma das ag\u00eancias de intelig\u00eancia.\u00a0<\/p>\n<p>[Alice Maciel]<\/p>\n<p>A maioria eu n\u00e3o achei nenhuma informa\u00e7\u00e3o na internet.\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, porque veja s\u00f3, n\u00e9? Qualquer ser humano que existe nos \u00faltimos 10 anos na Terra tem alguma coisa na internet. Tem um perfil no Facebook, tem um perfil no Instagram, tem foto de col\u00e9gio. Agora, tem gente aqui que realmente n\u00e3o tem nada.<\/p>\n<p>[Alice Maciel]\u00a0<\/p>\n<p>Nada, parece quase limpo.<\/p>\n<p>[Amanda Audi]<\/p>\n<p>As pessoas mais subalternas, assim. De fato, n\u00e3o tem quase nada de informa\u00e7\u00e3o. Nada, nada.\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m existem exce\u00e7\u00f5es \u00e0 regra.\u00a0<\/p>\n<p>Por outro lado, tem gente que tem muita coisa. Encontrei, primeiro, o atual <em>Legat<\/em>, n\u00e9? Que \u00e9 o <em>legal attach\u00e9<\/em>. O nome dele \u00e9 Gonzalez. Deixa eu achar ele aqui \u00e9 Marco Antonio Gonzalez.\u00a0<\/p>\n<p>Uma pesquisa sobre ele revela uma coisa interessante. Voc\u00ea se lembra que June Drake disse que ficou muito mais f\u00e1cil cooperar durante o governo Bolsonaro? A coisa parece agora ter mudado de figura, porque em vez de reuni\u00f5es e eventos no Planalto, Gonzalez claramente tem trabalhado para se aproximar de\u00a0autoridades regionais, por exemplo, ele esteve presente no Encontro Nacional de Delegados de Pol\u00edcia do Nordeste e num evento de seguran\u00e7a de autoridades na Cidade Administrativa em Minas Gerais. E tem mais uma curiosidade sobre o Marco Gonzalez.<\/p>\n<p>No perfil do LinkedIn, do atual Adido Legal, que \u00e9 a pessoa chefe diretor do FBI no Brasil, est\u00e1 escrito \u201c<em>Open for Work<\/em>\u201d. E ele falou, est\u00e1 escrito muito claramente: procurando trabalho. A\u00ed ele fala que est\u00e1 buscando emprego: vagas em seguran\u00e7a corporativa, gerente de seguran\u00e7a, \u00e1rea privada.<\/p>\n<p>[Amanda Audi]<\/p>\n<p>Olha, os coment\u00e1rios desse post dele aqui, todo mundo tem quatro coment\u00e1rios as pessoas falando assim, \u201cParab\u00e9ns pela sua carreira de sucesso no FBI e tudo mais desejo uma boa mudan\u00e7a pra voc\u00ea\u201d; \u201cQue voc\u00ea seja feliz\u201d e tal, ent\u00e3o \u00e9 isso mesmo, cara, ele quer consolidar no Brasil.<\/p>\n<p>[Alice Maciel]<\/p>\n<p>Ah, ele escreve aqui, \u201cOl\u00e1 a todos, estou me aposentando em breve do FBI e estou procurando uma nova fun\u00e7\u00e3o. Agradeceria seu apoio, agrade\u00e7o antecipadamente por quaisquer conex\u00f5es, conselhos, oportunidades que voc\u00eas possam\u2026\u201d\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Ele est\u00e1 j\u00e1 planejando a aposentadoria e a ida para o setor privado.\u00a0<\/p>\n<p>Como ele n\u00e3o vai me dar uma entrevista, segundo o porta-voz da embaixada, a solu\u00e7\u00e3o \u00e9: \u201cfu\u00e7ar\u201d. Na busca por entender quem s\u00e3o e o que fazem por aqui os agentes do FBI, encontrei diversos an\u00fancios de emprego da Embaixada americana em Bras\u00edlia, para cargos como \u201cFraud Investigator\u201d, \u201cSecurity Investigator\u201d, \u201cInvestigative assistant\u201d. Foi a\u00ed que esbarrei num an\u00fancio para a posi\u00e7\u00e3o de investigador, aberto em outubro de 2019, a maior parte do trabalho \u00e9 dedicado a investiga\u00e7\u00f5es, especificamente, 70% do tempo. Aqui o teor do an\u00fancio, sem edi\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p>Efeito sonoro alerta de leitura de mensagem<\/p>\n<p>\u201cO investigador conduz investiga\u00e7\u00f5es criminais e n\u00e3o criminais, em todo o Brasil. Essas investiga\u00e7\u00f5es s\u00e3o frequentemente altamente controversas, podem ter implica\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas significativas. A posi\u00e7\u00e3o requer habilidade de interagir em um n\u00edvel profissional com membros da comunidade de seguran\u00e7a em alto escal\u00e3o e do n\u00edvel operacional em temas operacionais e de relacionamento. O funcion\u00e1rio vai ter que viajar de carro, barco, trem ou avi\u00e3o conforme for necess\u00e1rio em apoio \u00e0s opera\u00e7\u00f5es do adido legal. Pode ser requerido a fazer viagens de at\u00e9 30 dias. Viagens para \u00e1reas remotas de fronteira e para todas as regi\u00f5es do Brasil ser\u00e3o obrigat\u00f3rias. O investigador deve manter bases de dados investigativas e de treinamento sobre os contatos de relacionamento, confer\u00eancias, t\u00f3picos, palestrantes, fotos, e materiais que podem ser facilmente acessados. Al\u00e9m disso, coordena com as ag\u00eancias de seguran\u00e7a do pa\u00eds para identificar e checar candidatos para irem a treinamentos na Academia Nacional do FBI.\u201d<\/p>\n<p>Trilha sonora clima de suspense<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Se existe alguma d\u00favida sobre o que fazem os agentes do FBI no Brasil, esse an\u00fancio responde. Eles investigam, re\u00fanem informa\u00e7\u00f5es de intelig\u00eancia e provavelmente nem sempre seguem toda a burocracia do procedimento de coopera\u00e7\u00e3o internacional. Atuam junto \u00e0 pol\u00edcia brasileira e fazem, sim, um trabalho de influ\u00eancia, networking ou coopta\u00e7\u00e3o, a depender do ponto de vista. Ou seja, eles t\u00eam bastante trabalho e liberdade por aqui.\u00a0<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m se movem em uma \u00e1rea bem cinzenta, aquela da Intelig\u00eancia, ou <em>Intelig<\/em>. Escuta outro an\u00fancio que encontrei, esse para <em>\u201cSurveillance Detector Coordinator\u201d<\/em> para a embaixada em Bras\u00edlia. O an\u00fancio diz que o candidato vai trabalhar com uma equipe de nada menos que OITO pessoas para detectar vigil\u00e2ncia \u2013 ou espionagem \u2013 estrangeira sobre as propriedades do governo americano no Brasil. Pensou em filme de Hollywood? Ouviu a musiquinha de <em>Miss\u00e3o Imposs\u00edvel<\/em>? Pois esque\u00e7a. Esse \u00e9 o mundo real da atua\u00e7\u00e3o do FBI por aqui e \u00e9 nesse terreno pantanoso que se desenvolvem as rela\u00e7\u00f5es de coopera\u00e7\u00e3o internacional.<\/p>\n<p>Fim da trilha sonora<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que durante a entrevista com o ex-delegado da PF, Oslain Santana, ele foi enf\u00e1tico ao dizer que ao tratar com ag\u00eancias americanas ele sempre ficava em alerta para n\u00e3o ser manipulado.\u00a0<\/p>\n<p>[Oslain Santana]<\/p>\n<p>O que a gente fica com medo \u00e9 de ser utilizado. O meu medo era ser manipulado. Com qualquer ag\u00eancia. \u00c9 uma ag\u00eancia que voc\u00ea tem que ter a confian\u00e7a, mas tamb\u00e9m n\u00e3o pode ser ing\u00eanuo. Ser\u00e1 que eu n\u00e3o estou sendo usado aqui? Eu tinha essa preocupa\u00e7\u00e3o de ser usado, at\u00e9 por conhecer a hist\u00f3ria.\u00a0<\/p>\n<p>Trilha sonora suspense\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria, agora, voc\u00ea j\u00e1 conhece. Durante seis epis\u00f3dios, depois de uma longa jornada de apura\u00e7\u00e3o, ainda me surpreende a aus\u00eancia de informa\u00e7\u00f5es e dados que possam esclarecer como \u00e9 a atua\u00e7\u00e3o do FBI no Brasil. Partimos de uma pergunta, agora temos alguns fatos, mas novas perguntas foram surgindo pelo caminho. Agora voc\u00ea sabe o que \u00e9 uma investiga\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica e tem a consci\u00eancia de que \u00e9 bem mais complicado do que \u201cdar um google\u201d ou ver uma meia d\u00fazia de v\u00eddeos compartilhados no <em>WhatsApp<\/em>. Quer dizer, eu espero (Riso).<\/p>\n<p>Partimos da pergunta: os EUA est\u00e3o por tr\u00e1s da Lava Jato ou isso \u00e9 s\u00f3 uma teoria da conspira\u00e7\u00e3o? Mas durante o percurso, ficou claro que essa pergunta \u00e9 muito bin\u00e1ria, como se apenas uma das duas respostas fosse poss\u00edvel. Aprendemos que a realidade \u00e9 mais complexa.\u00a0<\/p>\n<p>Trilha sonora clima de interfer\u00eancia\u00a0<\/p>\n<p>Houve coopta\u00e7\u00e3o da PF pelas ag\u00eancias americanas nos anos 90 e 2000 e isso \u00e9 fato. Ouvimos que o governo americano espionou n\u00e3o s\u00f3 a ent\u00e3o presidente Dilma Rousseff como tamb\u00e9m a pr\u00f3pria Petrobras, que anos depois seria o piv\u00f4 do esc\u00e2ndalo da Lava Jato. Quando isso veio a p\u00fablico, Dilma at\u00e9 protestou na ONU e enviou o ministro Jos\u00e9 Eduardo Cardozo para falar para o ent\u00e3o vice-presidente Joe Biden parar com isso. Mas tudo o que ele conseguiu foi um grande \u201cn\u00e3o\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>Fim da trilha<\/p>\n<p>[Jos\u00e9 Eduardo Cardozo]<\/p>\n<p>Voc\u00ea conclui uma negativa e voc\u00ea tem que tomar alguma postura. O que seria uma repres\u00e1lia. Por exemplo, imagina, eu poderia falar para a Dilma: vamos declarar guerra aos Estados Unidos, n\u00e3o seria bem o caso.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Claro, n\u00e3o declaramos guerra aos Estados Unidos e o governo americano afirmou na cara dura que continuaria nos espionando se isso fosse do interesse deles. Descobrimos, inclusive, que quem estava na mira dos americanos era a comunidade \u00e1rabe brasileira, mais especificamente os <em>hawalas<\/em>, nossos conhecidos doleiros. Atrav\u00e9s de documentos diplom\u00e1ticos e entrevista com agentes do FBI provamos que existia interesse americano na movimenta\u00e7\u00e3o dos doleiros, em especial aqueles com liga\u00e7\u00e3o com a regi\u00e3o da Tr\u00edplice Fronteira. Voc\u00ea se lembra da entrevista do doleiro Habib Chater para a Alice. Ele contou que foi preso no aeroporto de Bras\u00edlia, cinco anos antes de a Lava Jato estourar e focar justamente na pessoa dele.<\/p>\n<p>Efeito sonoro: alerta para leitura de mensagem.<\/p>\n<p>[Leitura entrevista Chater por Alice Maciel]<\/p>\n<p><em>\u201c<\/em>Teve uma \u00e9poca da minha vida que eu tive alguns bingos em Bras\u00edlia, Goi\u00e2nia e An\u00e1polis. E a\u00ed come\u00e7aram a fechar os bingos e na \u00e9poca eu falei, \u201cvou pro L\u00edbano. Vou levar umas m\u00e1quinas pro L\u00edbano\u201d. E o Salom\u00e3o conseguiu um esquema de eu mandar as m\u00e1quinas por navio e entrar meio que\u2026 porque l\u00e1 era meio proibido. Numa dessas viagens eu fui preso com aqueles doze mil d\u00f3lares. Eu fui preso e ele tamb\u00e9m.\u201d<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Essa pris\u00e3o relacionada ao jogo ilegal faz lembrar outra entrevista, a do Bassem Youssef no epis\u00f3dio cinco. Ele contou que para o FBI, o Hezbollah era mais que uma organiza\u00e7\u00e3o terrorista. Era tamb\u00e9m uma organiza\u00e7\u00e3o criminosa que trabalhava entre outras coisas com o jogo ilegal.<\/p>\n<p>Efeito sonoro: alerta de mensagem.<\/p>\n<p>[Dublagem Bassem Youssef]<\/p>\n<p>\u00c9 uma organiza\u00e7\u00e3o criminosa que envolvia v\u00e1rias atividades, como roubo, prostitui\u00e7\u00e3o, drogas, jogos de azar. E, por algum motivo, eles se estabeleceram na \u00e1rea da tr\u00edplice fronteira. E, ent\u00e3o, as <em>Hawalas<\/em> ganharam destaque e ficaram sob uma lupa das ag\u00eancias de intelig\u00eancia, n\u00e3o apenas o FBI e a CIA, mas muitas ag\u00eancias de intelig\u00eancia em todo o mundo.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Podemos concluir que \u00e9 bem dif\u00edcil que uma pris\u00e3o como essa, de dois libaneses levando bingos para o L\u00edbano n\u00e3o tenha atra\u00eddo a aten\u00e7\u00e3o do FBI na embaixada em Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>Efeito sonoro: trilha de suspense<\/p>\n<p>Ouvimos tamb\u00e9m o outro lado da coopera\u00e7\u00e3o internacional: como os procuradores americanos ajudaram, trocaram, e, por que n\u00e3o, seduziram os procuradores brasileiros, abrindo at\u00e9 caminhos para que delatores fossem interrogados nos Estados Unidos e fechassem acordos antes com o governo americano. Eles exploraram a zona cinzenta da coopera\u00e7\u00e3o internacional e a desconfian\u00e7a que a turma da Lava Jato tinha do governo federal.\u00a0<\/p>\n<p>Depois de diversas tentativas de falar com procuradores do lado de c\u00e1, conseguimos entender que um poss\u00edvel duto para a influ\u00eancia americana \u00e9 a troca informal de informa\u00e7\u00f5es de intelig\u00eancia, seja com procuradores, seja com agentes da Pol\u00edcia Federal. \u00c9 assim que os americanos podem sugerir \u00e0 nossa pol\u00edcia que investigue algo do interesse deles.<\/p>\n<p>[Amanda Audi]<\/p>\n<p>Acontece todos os dias? Assim, t\u00e1, n\u00e3o todos os dias, mas com muita frequ\u00eancia?\u00a0<\/p>\n<p>[Janice Ascari]<\/p>\n<p>Com muita frequ\u00eancia, porque eles est\u00e3o em contato com os \u00f3rg\u00e3os policiais. Porque, normalmente, o que acontece? Essas informa\u00e7\u00f5es chegam para a pol\u00edcia e a pol\u00edcia instala um inqu\u00e9rito. E o inqu\u00e9rito tem que, necessariamente, passar pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico. Tanto federal quanto estadual, cada um na sua esfera. E, assim, o arroz com feij\u00e3o nosso \u00e9 esse.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Percorremos, ent\u00e3o, os Estados Unidos de ponta \u00e0 ponta para conseguir falar com os investigadores americanos que atuaram na Lava Jato. O que essas conversas revelaram \u00e9 que criar e manter relacionamento \u00e9 um dos principais trabalhos dos agentes do FBI no exterior, mas tamb\u00e9m, que cada um dos agentes da lei, nos EUA, tem muito cuidado em preservar a seguran\u00e7a nacional americana. Ningu\u00e9m quer dar com a l\u00edngua nos dentes:<\/p>\n<p>Voc\u00ea pode explicar quais s\u00e3o as regras do que voc\u00ea n\u00e3o pode falar, s\u00f3 para a gente deixar claro? Voc\u00ea n\u00e3o pode falar sobre casos?\u00a0<\/p>\n<p>[June Drake]<\/p>\n<p>N\u00e3o posso falar sobre os casos.<\/p>\n<p>Efeito sonoro: eco \u201cN\u00e3o posso falar\u201d e trilha espiral\u00a0<\/p>\n<p>[Lance Jasper]<\/p>\n<p><em>No.<\/em><\/p>\n<p>[Dublagem Lance Jasper]<\/p>\n<p>N\u00e3o. Posso dizer muito pouco sobre as entrevistas especificamente porque foram confidenciais e n\u00e3o p\u00fablicas.\u00a0<\/p>\n<p>[Lance Jasper]<\/p>\n<p><em>\u2026Public<\/em>.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>E onde isso tudo nos deixa? Uma investiga\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre uma jornada. Talvez, ainda estejamos no meio do caminho.\u00a0<\/p>\n<p>[Amanda Audi]<\/p>\n<p>Geralmente todas as coisas envolvendo FBI, CIA, \u00e9 conspira\u00e7\u00e3o. Primeiro, porque tudo isso \u00e9 muito sigiloso, a gente n\u00e3o sabe de quase nada. N\u00e3o tem protocolo, n\u00e3o tem nada, a gente n\u00e3o sabe direito os nomes, voc\u00ea faz l\u00e1 e para o governo, o governo tamb\u00e9m n\u00e3o sabe ou n\u00e3o informa. Ent\u00e3o, fica algo meio que no ar, e isso abre muita margem para a imagina\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Abre margem \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o, mas com o tempo, as verdades hist\u00f3ricas s\u00e3o reveladas, at\u00e9 porque segundo a Lei de Acesso \u00e0 Informa\u00e7\u00e3o, de que tanto falamos aqui, os documentos confidenciais americanos s\u00e3o abertos ao p\u00fablico ap\u00f3s, no m\u00e1ximo, 50 anos.\u00a0<\/p>\n<p>[Amanda Audi]<\/p>\n<p>E assim, hoje a gente sabe que na ditadura, os americanos tiveram uma influ\u00eancia tremenda.\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Sim.<\/p>\n<p>[Amanda Audi]<\/p>\n<p>A gente sabe hoje, mas eu imagino que naquela \u00e9poca, eles deviam ficar falando assim, \u201cah, mas isso \u00e9 teoria, \u00e9 conspira\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Essa \u00e9 tamb\u00e9m a conclus\u00e3o de Oslain Santana:<\/p>\n<p>[Oslain Santana]<\/p>\n<p>O americano, voc\u00ea pode falar que tem muito defeito, mas depois de 40 anos, a documenta\u00e7\u00e3o se torna tudo p\u00fablico. Voc\u00ea tem documentos falando, eles atestando isso. Envolvimento de ag\u00eancias norte-americanas, com narcotraficantes, com ditadores. Ser\u00e1 que isso parou?<\/p>\n<p>Efeito sonoro: fim da trilha + pausa\u00a0<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 um fato comprovado que os Estados Unidos estiveram por tr\u00e1s da\u00a0Lava Jato. Mas isso tamb\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma teoria da conspira\u00e7\u00e3o. O desenrolar da hist\u00f3ria tem sempre muitas nuances. Os cr\u00edticos da Lava Jato n\u00e3o s\u00e3o necessariamente contr\u00e1rios \u00e0s investiga\u00e7\u00f5es contra corrup\u00e7\u00e3o. E nem sempre os que t\u00eam receio da influ\u00eancia americana s\u00e3o esquerdistas ou comunistas. Alguns s\u00e3o, inclusive, policiais federais. Por outro lado, quem defende o trabalho da Lava Jato n\u00e3o \u00e9 simplesmente lavajatista. Pode ser apenas um jornalista querendo descobrir a realidade de como funciona o clientelismo no Brasil.\u00a0<\/p>\n<p>Efeito sonoro: trilha instrumental \u201cMy Way\u201d de Frank Sinatra<\/p>\n<p>Chegamos ao epis\u00f3dio final dessa s\u00e9rie, cujo t\u00edtulo \u00e9 <em>My Way<\/em>. Nome da can\u00e7\u00e3o imortalizada na voz de Frank Sinatra, uma m\u00fasica s\u00edmbolo para os americanos e que tamb\u00e9m foi o nome de uma das 79 fases da Lava Jato. Mas, aqui, na nossa investiga\u00e7\u00e3o, a express\u00e3o, \u201cdo meu jeito\u2019\u2019, <em>my way<\/em>, ganha outro significado. Lembra uma frase dita pelo procurador americano, quando sugeriu criar uma funda\u00e7\u00e3o para gerir os fundos da Petrobras: <em>\u201cWhere there is a will, there is a way\u201d. <\/em>\u201cOnde tem vontade, tem jeito\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>Efeito sonoro: rebobinar\u00a0<\/p>\n<p>No final, o governo americano conseguiu impor seu jeito, seu modo de pensar, sobre a Lava Jato. Isso aconteceu de maneira sutil, com agrados, levando os brasileiros para palestrar nos Estados Unidos, elogiando-os em congressos internacionais. O governo dos Estados Unidos conseguiu duas multas bilion\u00e1rias, enquanto isso, aqui no Brasil, a Lava Jato levou a um rombo na economia, perda de empregos, e, nem mesmo os procuradores e policiais que participaram se deram muito bem. Os abusos institucionais, inclusive, prejudicaram a luta anticorrup\u00e7\u00e3o e contribu\u00edram para dividir o pa\u00eds ainda mais. Vai levar algum tempo para a ferida cicatrizar. De uma forma ou de outra, os americanos conseguiram fazer as coisas do jeito deles. <em>\u201cYes, it was my way\u201d<\/em>, como diz a can\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>Trilha sonora aumenta<\/p>\n<p>[Ricardo Terto]<\/p>\n<p>Este Original Audible \u00e9 baseado em eventos reais de conhecimento p\u00fablico, documentados em livros publicados, autos de processos judiciais, mat\u00e9rias e apura\u00e7\u00f5es jornal\u00edsticas, entrevistas e pesquisas em documentos p\u00fablicos. As narrativas podem conter refer\u00eancias a terceiros. Os depoimentos e opini\u00f5es s\u00e3o de responsabilidade dos participantes ou especialistas e podem refletir diferentes perspectivas dos eventos.<\/p>\n<p><strong>CR\u00c9DITOS\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p><em>Confidencial: as digitais do FBI na Lava Jato<\/em> \u00e9 um <strong>original Audible<\/strong> produzido pela<strong> Ag\u00eancia P\u00fablica <\/strong>de jornalismo investigativo. Esta s\u00e9rie foi concebida e dirigida por mim, <strong>Natalia Viana<\/strong>, e escrita pela <strong>Jackeline Scarpelli<\/strong>. A investiga\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica foi conduzida por mim, com ajuda das rep\u00f3rteres <strong>Alice Maciel<\/strong> e <strong>Amanda Audi<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Sofia Amaral <\/strong>fez a produ\u00e7\u00e3o executiva, e <strong>Mariana Sorrentino <\/strong>a assist\u00eancia de produ\u00e7\u00e3o executiva. Pesquisa por <strong>Luisa Santana <\/strong>e checagem por <strong>Erico Melo<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Ricardo Terto <\/strong>fez a montagem e sound design, e <strong>Ana Sucha<\/strong> foi nossa assistente de edi\u00e7\u00e3o. <strong>Pedro Vituri <\/strong>\u00e9 o autor da trilha sonora original.<strong> <\/strong>Demais trilhas por<strong> Audio Network. <\/strong>Colabora\u00e7\u00e3o de<strong> Cl\u00e1udia Jardim.<\/strong><\/p>\n<p>Som direto, logagem e organiza\u00e7\u00e3o de material por<strong> Stela Diogo. <\/strong>Som direto adicional por <strong>Andres Ochoa, Apollo Maneschi, Daniel Hernandez, Gil Neves e Mike Fitzgerald. <\/strong>A<strong> Mika Lins <\/strong>fez a prepara\u00e7\u00e3o vocal e dire\u00e7\u00e3o de voz desta apresentadora. Esta narra\u00e7\u00e3o foi gravada no <strong>Est\u00fadio Trampolim<\/strong>, em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>O ator <strong>Denis Goyos<\/strong> fez a dublagem da entrevista de Bassem Youssef e <strong>Aury Porto<\/strong> fez a voz de Lance Jasper, que aparecem nos epis\u00f3dios 5 e 6. Os mesmos atores fizeram as vozes do grampo telef\u00f4nico de Ediel e Ren\u00ea no epis\u00f3dio 2. As mensagens da Vaza Jato foram lidas por <strong>Ricardo Terto<\/strong>.\u00a0<\/p>\n<p>Consultoria Jur\u00eddica por<strong> Patrick Mariano Gomes e Giane Ambr\u00f3sio Alvares. <\/strong>Seguros por<strong> Prospecto Seguros.<\/strong><\/p>\n<p>Financeiro<strong> <\/strong>por<strong> Roberta Carteiro<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>A identidade visual foi criada por Matheus Pigozzi. <\/strong>A equipe de<strong> <\/strong>divulga\u00e7\u00e3o \u00e9 formada por <strong>Marina Dias, Lorena Morgana, Renata Cons, Leticia Gouveia, Ethieny Karen, Ester Nascimento e Fernanda Diniz.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Time de Conte\u00fado Audible Brasil:<\/strong><\/p>\n<p>Diretor de Conte\u00fado Original Audible: <strong>Leo Neumann,<\/strong><\/p>\n<p>Coordena\u00e7\u00e3o criativa:<strong> Juliana \u2018\u2019Denden\u2019\u2019 Arcanjo,<\/strong><\/p>\n<p>Produ\u00e7\u00e3o: <strong>Fernando Schaer,<\/strong><\/p>\n<p>L\u00edder de conte\u00fado LATAM:<strong> Paulo Lemgruber,<\/strong><\/p>\n<p>Diretora-geral Brasil:<strong> Adriana Alc\u00e2ntara,<\/strong><\/p>\n<p>L\u00edder de Produ\u00e7\u00e3o Audible Studios: <strong>Mike Charzuk,<\/strong><\/p>\n<p>L\u00edder Global de conte\u00fado:<strong> Rachel Ghiazza.\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>[Ricardo Terto]<\/p>\n<p>No epis\u00f3dio 1 foram usados \u00e1udios dos acervos Conte\u00fado Globo, Band Imagem e Acervo EBC\/Canal Gov.<\/p>\n<p>No epis\u00f3dio 2, utilizamos \u00e1udios do acervo Conte\u00fado Globo<\/p>\n<p>No epis\u00f3dio 3, utilizamos \u00e1udios dos acervos \u00c1udio\/Youtube TRF4, Acervo EBC e Conte\u00fado Globo.<\/p>\n<p>No epis\u00f3dio 4, utilizamos \u00e1udios dos acervo Tv Cultura.<\/p>\n<p>No epis\u00f3dio 5, utilizamos \u00e1udios dos acervos Band Imagem e Conte\u00fado Globo.<\/p>\n<p>E, por fim, no epis\u00f3dio 6, utilizamos \u00e1udios dos acervos Conte\u00fado Globo e YouTube FBI.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Copyright 2025 por Audible, Inc.<\/p>\n<p>Copyright da grava\u00e7\u00e3o de som 2025 por Audible, Inc.<\/p>\n<p>[Ricardo Terto]<\/p>\n<p>Voc\u00ea ouviu uma \u00e1udio s\u00e9rie, Original Audible. Para conhecer mais hist\u00f3rias surpreendentes e imersivas como est\u00e1, acesse o site audible.com.br. Fa\u00e7a sua conta e teste gr\u00e1tis por 30 dias ou por 3 meses, se voc\u00ea for membro Amazon Prime.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/do-campo-a-mesa-agricultura-familiar-impulsiona-o-brasil-para-fora-do-mapa-da-fome\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Do campo \u00e0 mesa: agricultura familiar impulsiona o...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/na-conversa-com-lula-trump-ignorou-bolsonaro-e-aliados-do-condenado-estao-desesperados\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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