{"id":97944,"date":"2026-07-30T17:57:27","date_gmt":"2026-07-30T20:57:27","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/inimigos-do-batente-celebra-27-anos-de-samba-e-luta-popular-no-espaco-cultural-elza-soares\/"},"modified":"2026-07-30T17:57:27","modified_gmt":"2026-07-30T20:57:27","slug":"inimigos-do-batente-celebra-27-anos-de-samba-e-luta-popular-no-espaco-cultural-elza-soares","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/inimigos-do-batente-celebra-27-anos-de-samba-e-luta-popular-no-espaco-cultural-elza-soares\/","title":{"rendered":"Inimigos do Batente celebra 27 anos de samba e luta popular no Espa\u00e7o Cultural Elza Soares"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-5.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-5-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-5-300x225.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-5-768x576.jpg 768w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-5.jpg 1280w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption><em>Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Da P\u00e1gina do MST<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 27 anos, o Inimigos do Batente carrega para dentro da roda de samba a mesma bandeira que carrega para fora dela: a da classe trabalhadora. Fundado em 1999 na Vila Madalena, o grupo paulista construiu um repert\u00f3rio que passeia por todos os g\u00eaneros e regi\u00f5es do samba brasileiro, mas nunca escondeu de que lado est\u00e1 \u2014 o das lutas do povo trabalhador, do povo afrodescendente e do povo pobre.<\/p>\n<p>Essa identidade encontrou endere\u00e7o no Espa\u00e7o Cultural Elza Soares, que tem se tornado um encontro de teatro, dan\u00e7a, m\u00fasica, cinema e literatura popular em S\u00e3o Paulo. \u00c9 l\u00e1 que acontece o projeto \u201cO Samba da Minha Terra\u201d, parceria entre o grupo e o MST que j\u00e1 reuniu nomes como Fabiana Cozza, Diogo Nogueira e Moacyr Luz, e que homenageia a sambista Beth Carvalho atrav\u00e9s da medalha que leva seu nome.<\/p>\n<p>Para os integrantes do grupo, a aproxima\u00e7\u00e3o com o MST n\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia: \u00e9 reencontro. \u201cSempre existiu uma alian\u00e7a entre a luta social e os trabalhadores e trabalhadoras\u201d, resume a fala do coletivo sobre o projeto \u2014 que, segundo eles, une os 27 anos de trajet\u00f3ria do Inimigos do Batente a um dos maiores movimentos sociais da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p><em>Confira abaixo a entrevista com o grupo!<\/em><\/p>\n<p><strong>Nestes 27 anos de hist\u00f3ria de Inimigos do Batente, como esse repert\u00f3rio do samba se articula \u00e0 luta da classe trabalhadora como um todo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fernando Szegeri: <\/strong>A arte popular em geral, mas muito especificamente a arte popular brasileira, \u00e9 profundamente ligada aos setores da sociedade menos favorecidos, aos setores exclu\u00eddos, aos setores oprimidos. Alguns pensadores da cultura popular chegam a dizer que a arte popular brasileira \u00e9 fruto, \u00e9 filha, \u00e9 produto da escassez \u2014 ou seja, \u00e9 essa situa\u00e7\u00e3o, motivada pela estrutura social do pa\u00eds que gera uma classe privada de bens elementares para a sobreviv\u00eancia e uma necessidade e uma capacidade de reinven\u00e7\u00e3o da vida. Porque a arte nada mais \u00e9 do que isso: voc\u00ea reorganizar os elementos da vida, representar um outro mundo poss\u00edvel, uma outra forma de existir. Ent\u00e3o, a arte popular tem fundamentalmente essa caracter\u00edstica de ser uma proposta de uma outra forma de existir, do ponto de vista da classe oprimida e do ponto de vista da classe trabalhadora, dos descendentes de escravizados, do povo que efetivamente n\u00e3o est\u00e1 no gozo, na titularidade das riquezas produzidas na na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse sentido, o samba tem, privilegiadamente, esse lugar, por suas caracter\u00edsticas geogr\u00e1ficas, hist\u00f3ricas e culturais, amalgama elementos da cultura dos povos afrodescendentes com alguns elementos da cultura europeia, do colonizador, e tamb\u00e9m alguns elementos dos povos origin\u00e1rios. E ele alcan\u00e7a um grau de universalidade muito grande no Brasil. A for\u00e7a do samba \u00e9 muito destacada, muito especial no conjunto da cultura popular, da arte popular brasileira.<\/p>\n<p>O samba se erige numa das vozes mais poderosas, mais universais, desse sentimento do cora\u00e7\u00e3o brasileiro e, por que n\u00e3o dizer, do sentimento das classes populares. Ent\u00e3o o samba \u00e9, por excel\u00eancia, esse jeito das classes populares cantarem os seus sofrimentos, as suas alegrias, cantarem as suas possibilidades de outros mundos, cantarem os seus antepassados, cantarem as suas hist\u00f3rias, cantarem as suas lutas. Assim, o repert\u00f3rio do samba, que fala de tudo o que pertence, o que preenche, o que atravessa o universo das classes populares, vai ser uma voz muito privilegiada de express\u00e3o dessa luta e desse anseio por uma reinven\u00e7\u00e3o do mundo\u201d<\/p>\n<p>Os Inimigos do Batente, que t\u00eam um repert\u00f3rio muito ecl\u00e9tico de samba, cantam de tudo, cantam todos os g\u00eaneros do samba, de todas as proced\u00eancias, sambas de todos os lugares do Brasil. Esses sambas v\u00e3o falar de tudo e, obviamente, v\u00e3o falar das lutas populares tamb\u00e9m, n\u00e3o tem como n\u00e3o falar. Especialmente no nosso caso, como n\u00f3s sempre fomos um coletivo que primou pelos ritmos pol\u00edticos ao lado das causas populares, ao lado dos ideais revolucion\u00e1rios, dos ideais de transforma\u00e7\u00e3o. Esses sambas que cantam <strong>as lutas do povo trabalhador<\/strong>, as lutas do povo afrodescendente, as lutas do povo pobre, do povo oprimido, obviamente, esses sambas t\u00eam um lugar muito especial, muito espec\u00edfico, muito caro na nossa roda de samba.<\/p>\n<p><strong>Paulinho: <\/strong>Nesses 27 anos de samba, o nosso grupo Inimigos do Batente sempre foi um grupo que pensou no samba como uma maneira de vida, como a cultura popular brasileira mais latente que tem na hist\u00f3ria do Brasil como cultura popular, e tudo o que vem do povo e da classe trabalhadora, e o samba tamb\u00e9m n\u00e3o poderia\u00a0ser\u00a0diferente. Tivemos a felicidade nesses 27 anos de ter mestres e trabalhar juntos, fazer roda de samba com Luiz Moreira, um grande gri\u00f4 da cultura popular brasileira, e Noca da Portela. Fizemos muitos sambas com o mestre Noca, que fez o Hino da Virada, o hino das Diretas J\u00e1. Ou seja, sempre esses mestres nos ensinando que n\u00e3o se diferencia o samba e a luta de classes; uma coisa tem tudo a ver com a outra, est\u00e3o super\u00a0interligadas\u00a0e a gente continua mantendo essa tradi\u00e7\u00e3o e tendo esse repert\u00f3rio vasto com sambistas da atualidade e sambistas que j\u00e1 passaram, mas sempre visando essa luta de classes.<\/p>\n<p><strong>Railidia<\/strong>, c<strong>omo mulher e paraense, voc\u00ea ressignifica a tradi\u00e7\u00e3o do samba. Como tem sido isso no Inimigos do Batente?<\/strong><\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-6.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-6-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-6-300x200.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-6-768x512.jpg 768w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-6-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-6.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption><em>Foto: Debora Barros\/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Railidia:<\/strong> A presen\u00e7a das mulheres no samba sempre foi fundamental nessa engrenagem e processo cultural e social que desaguou no samba, especialmente nas rodas de samba. Assim como na sociedade, as rodas tamb\u00e9m refletiram, e ainda refletem, um certo papel secund\u00e1rio das mulheres. Nos \u00faltimos anos, com as lutas sociais se fortalecendo, como o feminismo, as novas gera\u00e7\u00f5es de sambistas tamb\u00e9m v\u00eam ganhando protagonismo. Na verdade, conquistando esses protagonismos a duras penas. No caso dos Inimigos do Batente, eu fui durante muitos anos a \u00fanica mulher do grupo. <\/p>\n<p>Em 1999, quando surgiu nossa roda de samba na Vila Madalena, eu, mesmo sem muita experi\u00eancia art\u00edstica em roda, sempre tive muito entusiasmo e paix\u00e3o, e ia ali buscando meu lugar ao sol em uma roda de homens. Mas isso era puramente intuitivo; n\u00e3o tinha essa consci\u00eancia do papel das mulheres na roda. A quest\u00e3o t\u00e9cnica de tonalidades e repert\u00f3rio amplo eu compensava com muita energia. Naquele contexto n\u00e3o era t\u00e3o comum mulheres nas rodas como nos dias de hoje, em que temos muitas rodas conduzidas por mulheres sambistas e tamb\u00e9m grupos formados apenas por sambistas.<\/p>\n<p>Na segunda metade dos anos 2000, os Inimigos convidaram a Vict\u00f3ria dos Santos, uma imensa jovem sambista que fez parte do grupo por alguns anos. Atualmente, temos a Mari Tavares, tamb\u00e9m da nova gera\u00e7\u00e3o de mulheres cantoras, batuqueiras e compositoras que fortalecem na roda de samba o pa\u00eds que somos \u2014 a hist\u00f3ria do samba que tem DNA das tias baianas, das quituteiras, das pastoras (que \u00e9 aquele coro da roda de samba) e das mulheres compositoras. O samba sempre fez parte da minha vida desde crian\u00e7a, quando morava em Altamira, na <strong>Transamaz\u00f4nica<\/strong>. Minha m\u00e3e sempre amou m\u00fasica e festa. Pela televis\u00e3o, sempre vi os grandes sambistas em programas de massa como o Cassino do Chacrinha. Vi Clara Nunes, Alcione, Roberto Ribeiro, Beth Carvalho \u2014 artistas que tinham o mesmo espa\u00e7o que artistas badalados da ind\u00fastria cultural da \u00e9poca. No Par\u00e1 se faz muito samba e Carnaval; frequentei rodas de samba l\u00e1, mas foi em S\u00e3o Paulo que as rodas se tornaram parte insepar\u00e1vel da minha vida, a ponto de, h\u00e1 27 anos, ter o desejo, junto com o <strong>Fernando<\/strong> e o <strong>Paulinho Timor<\/strong>, de criar os Inimigos do Batente. Quer\u00edamos tamb\u00e9m fazer uma roda de samba como havia a roda do grupo \u00c9 do Ba\u00fa, no Butant\u00e3, que fez hist\u00f3ria no Bar do Bilu. Quer\u00edamos sentir a sensa\u00e7\u00e3o de felicidade que uma roda de samba traz, com tantas mem\u00f3rias, lutas e ritmos. A nossa pr\u00f3pria hist\u00f3ria de pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>O que o espa\u00e7o Elza Soares, do MST, e a roda de samba revelam sobre a atualidade da m\u00fasica popular?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fernando: <\/strong>Eu disse na primeira resposta que a arte popular \u00e9 precisamente \u2014 e a m\u00fasica popular como um segmento da arte popular \u2014 essa grande voz que congrega as representa\u00e7\u00f5es, as simbologias, as vis\u00f5es de mundo, as lutas e os anseios das classes populares. E continua sendo dessa maneira. Isso n\u00e3o \u00e9 uma coisa que ficou parada na hist\u00f3ria ou que fala de um passado cronol\u00f3gico, um passado hist\u00f3rico. N\u00e3o.\u00a0A\u00a0arte popular continua tendo este papel.<\/p>\n<p>S\u00f3 que hoje em dia\u00a0\u00e9 plural, como \u00e9 plural a sociedade e como s\u00e3o plurais hoje em dia os meios de express\u00e3o. N\u00f3s vivemos num tempo de uma certa horizontalidade, embora o capitalismo ainda controle os meios de produ\u00e7\u00e3o da arte de massa, por assim dizer, a arte que vira mercadoria e que assume o papel que a mercadoria assume na sociedade capitalista. Embora o capitalismo ainda exer\u00e7a essa hegemonia, n\u00f3s temos canais de escoamento dessa expressividade. Quer dizer, voc\u00ea ainda tem uma ind\u00fastria fonogr\u00e1fica, por exemplo, que controla a produ\u00e7\u00e3o musical no pa\u00eds em grande escala, mas voc\u00ea tem in\u00fameras formas de gravar m\u00fasica e de divulgar, porque hoje em dia ter acesso a um meio de grava\u00e7\u00e3o e ter acesso \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o via os canais da internet \u00e9 mais poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Continua havendo um controle hegem\u00f4nico, mas existe uma\u00a0contra-hegemonia\u00a0que acontece nesses canais mais horizontais. A arte popular hoje \u00e9 mais plural, ela \u00e9 muito diversa nas suas formas de express\u00e3o. <\/p>\n<blockquote>\n<p><em>\u00c9 interessante justamente que o Espa\u00e7o Cultural Elza Soares, um lugar aberto a essa diversidade, a essas formas de express\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 nos diversos meios art\u00edsticos. \u00c9 um lugar aberto para o teatro, para a dan\u00e7a, para a m\u00fasica, para o cinema e para a produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Voc\u00ea tem o acolhimento de diversas formas dessas express\u00f5es\u201d<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>N\u00f3s j\u00e1 ouvimos de tudo ali: m\u00fasica eletr\u00f4nica, rock, a m\u00fasica\u00a0latino-americana, m\u00fasica pop, rap, hip hop e samba. O samba n\u00e3o poderia ficar de fora. Ent\u00e3o, h\u00e1 uma conviv\u00eancia no cen\u00e1rio da m\u00fasica popular brasileira hoje em dia das formas mais tradicionais \u2014 das formas que j\u00e1 historicamente assumiram alguns formatos em alguns lugares mais definidos nas representa\u00e7\u00f5es populares \u2014 com essas novas formas que andam acontecendo por a\u00ed. <\/p>\n<p>A import\u00e2ncia do\u00a0<strong>Espa\u00e7o Elza Soares<\/strong>\u00a0\u00e9 que, contemplando essa diversidade, ele \u00e9 mais fiel a este papel que a arte popular e a cultura popular desempenham no cen\u00e1rio atual da sociedade capitalista. \u00c9 muito significativo e muito importante que, em meio a essa diversidade, o samba assuma um papel tamb\u00e9m de protagonismo, que \u00e9 an\u00e1logo ao protagonismo que ele assume na representa\u00e7\u00e3o da sociedade brasileira.<\/p>\n<p><strong>Paulinho: <\/strong>Essa ideia do <strong>Samba da Minha Terra<\/strong> juntou os Inimigos do Batente com o MST, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Come\u00e7amos no dia 2, no Dia Nacional do Samba, e dali surgiu a ideia de que a gente poderia, sim, e precisaria, sim, se reinventar depois dessa pandemia e com as mudan\u00e7as estruturais de apresenta\u00e7\u00e3o que tivemos \u2014 a gente teria que voltar \u00e0 classe trabalhadora, voltar \u00e0s ra\u00edzes, se reinventar no samba. E nada melhor do que <strong>um<\/strong> dos maiores movimentos da Am\u00e9rica Latina, um dos maiores movimentos do mundo, que \u00e9 o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST. A gente poder juntar nossos 27 anos de experi\u00eancia de luta de classes com esses mestres, e tamb\u00e9m com sambistas da atualidade que j\u00e1 pensaram, j\u00e1 fizeram parte do nosso grupo, como o Kiko Dinucci, o Douglas Germano, enfim. E somar essa luta t\u00e3o valiosa do samba com uma das pessoas que tamb\u00e9m nos <strong>ensinaram<\/strong> muito samba, os Inimigos do Batente, que foi a nossa querida Beth Carvalho \u2014 j\u00e1 passamos v\u00e1rias madrugadas <strong>juntos<\/strong>, e a Beth, como uma guerreira, est\u00e1 representada nesta medalha Beth Carvalho, que a gente entrega no Samba da Minha Terra. O MST \u00e9 o Inimigo do Batente para pessoas ligadas \u00e0 cultura do samba, como a Fabiana Cozza, que j\u00e1 foi premiada, o Diogo Nogueira, o Toninho Nascimento, o nosso professor Chico M\u00e9dico, Wilson Sucena, Moacyr Luz, tamb\u00e9m grande amigo dos Inimigos. Ou seja, eu acho que tem tudo a ver e est\u00e1 ficando bonito, cada vez mais pegando corpo, essa festa que a gente faz do samba junto com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.<\/p>\n<p><strong>De que modo a tradi\u00e7\u00e3o oral do samba se op\u00f5e ao apagamento da cultura campesina?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Railidia:<\/strong> A roda de samba \u00e9 um instrumento poderoso contra o apagamento das lutas sociais. O poeta popular que sente na pele as mazelas e as contradi\u00e7\u00f5es se torna um cronista da vida cotidiana. A roda dos Inimigos do Batente tem uma caracter\u00edstica que \u00e9 tamb\u00e9m trazer outros ritmos brasileiros. A gente canta bai\u00e3o, a gente canta jongo, carimb\u00f3s e outras express\u00f5es musicais expressivas do povo brasileiro. Acho que, quando esse conjunto de ritmos e composi\u00e7\u00f5es valoriza a luta do trabalhador, ele tamb\u00e9m denuncia a falta de direitos. Quando falam sobre a explora\u00e7\u00e3o da natureza, tamb\u00e9m denunciam a cultura predat\u00f3ria que tira o homem do seu lugar, que se vale das riquezas deixando um rastro de destrui\u00e7\u00e3o. Quando falam que, se um oper\u00e1rio souber do seu valor, ele deixa de ser escravo. O samba <strong>tamb\u00e9m<\/strong> sempre esteve ao lado das lutas sociais, desde quando bambas como Paulo da Portela, no Rio de Janeiro, e tamb\u00e9m Geraldo Filme, aqui em S\u00e3o Paulo, tinham uma consci\u00eancia pol\u00edtica e social muito forte. N\u00e3o tem espa\u00e7o para a extrema-direita no samba; \u00e9 completamente contradit\u00f3rio com as a\u00e7\u00f5es e enfrentamentos dos nossos sambistas que lutaram l\u00e1 atr\u00e1s. H\u00e1 mais de um ano a luta campesina em S\u00e3o Paulo tem dado samba com a s\u00e9rie \u201cO Samba da Minha Terra\u201d. Essa iniciativa dos Inimigos do Batente e do MST demonstra que sempre existiu uma alian\u00e7a entre a luta social e os trabalhadores e trabalhadoras e, neste projeto em especial, que \u00e9 abrigado em um espa\u00e7o do MST, essa alian\u00e7a ganha visibilidade e profundidade.<\/p>\n<p><strong>Qual a fun\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do sambista diante de um espa\u00e7o como esse, como o MST? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Fernando:<\/strong> Esta \u00e9 uma resposta que talvez precise ser desmembrada. Primeiro: qual \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do artista, em geral? \u00c9 ineg\u00e1vel que a arte popular tem uma fun\u00e7\u00e3o pol\u00edtica,  nesse sentido de a pol\u00edtica como uma grande arena de media\u00e7\u00e3o dos interesses em conflito numa sociedade complexa como a nossa. A arte popular, sendo lugar privilegiado de representa\u00e7\u00f5es diversas, de vozes diversas, e um lugar privilegiado da express\u00e3o dessa complexidade, desses antagonismos, a arte popular e a pol\u00edtica andam necessariamente juntas. <\/p>\n<p>A fun\u00e7\u00e3o da arte \u00e9 pol\u00edtica, como, de resto, quase todos os elementos da vida social assumem uma dimens\u00e3o pol\u00edtica, quer dizer, a pol\u00edtica \u00e9 uma express\u00e3o fundamental de uma sociedade complexa como a que n\u00f3s temos. A arte tem essa fun\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, mesmo que \u00e0s vezes n\u00e3o seja a que a gente gostaria, mesmo que \u00e0s vezes a arte, o papel, a postura da arte, do artista, assume lugares e pap\u00e9is reacion\u00e1rios. Nesse sentido, \u00e9 importante que os artistas comprometidos com a transforma\u00e7\u00e3o das estruturas sociais, das estruturas de opress\u00e3o, das estruturas fundamentais do sistema capitalista que \u00e9 a grande forma de opress\u00e3o nos tempos contempor\u00e2neos, estejam disputando esses espa\u00e7os, disputando esses pap\u00e9is, fazendo desse lugar da arte um lugar de disputa, um lugar de enfrentamento, um lugar em que possa se expressar, que possa prevalecer os valores de transforma\u00e7\u00e3o da sociedade na maneira que a gente entende.<\/p>\n<p>Isso falando sobre o artista popular em geral e o artista popular engajado, comprometido com as transforma\u00e7\u00f5es. Em rela\u00e7\u00e3o ao samba, em conson\u00e2ncia com o que eu disse acima, e sendo o samba uma express\u00e3o de origem eminentemente ligada \u00e0s classes oprimidas, \u00e0s classes despossu\u00eddas, faz muito mais sentido e deveria ser quase que obrigat\u00f3rio, por fidelidade a essas origens, ao que ela exprime e ao lugar que ela encontra no imagin\u00e1rio e no simb\u00f3lico da sociedade brasileira, o samba precisa assumir esse lugar de disputa pol\u00edtica, com um lado, com uma face, com uma fei\u00e7\u00e3o muito clara de aliado incondicional das lutas por transforma\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>S\u00f3 que, infelizmente, nem sempre \u00e9 assim, porque tamb\u00e9m s\u00e3o caracter\u00edsticas dos tempos contempor\u00e2neos e da sociedade capitalista as contradi\u00e7\u00f5es. A arte popular padece dessas contradi\u00e7\u00f5es; o samba padece dessas contradi\u00e7\u00f5es. Ent\u00e3o n\u00f3s, como grupo que sempre assumiu essa postura de luta, de identifica\u00e7\u00e3o e de um certo protagonismo pol\u00edtico, e por que n\u00e3o dizer, no cen\u00e1rio do samba, \u00e9 fundamental que estejamos sempre alinhados com os setores da sociedade que est\u00e3o fazendo a luta pelas transforma\u00e7\u00f5es das estruturas. E, sem d\u00favida nenhuma, \u00e9 o MST talvez o mais importante movimento de transforma\u00e7\u00e3o social no Brasil.<\/p>\n<p>Quando a aproxima\u00e7\u00e3o se d\u00e1 dos Inimigos do Batente com o MST, que era uma proximidade s\u00f3, digamos assim, ideol\u00f3gica e principiol\u00f3gica, e de sombreamento, quando ela se mostra, passa a virar uma parceria, um caminhar junto para n\u00f3s, artistas, \u00e9 uma oportunidade maravilhosa, \u00fanica, de n\u00e3o estarmos apenas nos ombreando, mas de estarmos assumindo exatamente esse lugar na luta, na luta popular. <\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-7.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-7-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-7-300x200.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-7-768x512.jpg 768w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-7-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-7.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><\/figure>\n<p>E para o Movimento tamb\u00e9m, de uma certa maneira, acolher artistas, acolher manifesta\u00e7\u00f5es da arte popular que apontem, que joguem, que caminhem no mesmo sentido, tamb\u00e9m \u00e9 enriquecedor para a pr\u00f3pria experi\u00eancia pol\u00edtica, para a experi\u00eancia do movimento enquanto for\u00e7a social. Esse encontro dos Inimigos do Batente com o MST \u00e9 algo efetivamente muito importante, muito enriquecedor para n\u00f3s, e eu poderia dizer que \u00e9 quase natural, em vista da nossa trajet\u00f3ria, das nossas posturas, e \u00e9 hist\u00f3rico tamb\u00e9m. Ent\u00e3o, o que seria natural seria buscar veios de \u00e1gua que correm para o mesmo lugar; mas quando isso vira pr\u00e1tica, quando vira engajamento, vira parceria, ent\u00e3o isso vira hist\u00f3rico. E eu acho que \u00e9 isso, \u00e9 uma oportunidade de estar fazendo hist\u00f3ria junto com a luta dos trabalhadores pela Reforma Agr\u00e1ria no Brasil.<\/p>\n<p><strong>Qual o legado dos mestres para as novas gera\u00e7\u00f5es de sambistas, em especial \u00e0 m\u00fasica popular?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Railidia:<\/strong> Tenho consci\u00eancia de viver o samba j\u00e1 desde os meus oito ou dez anos. Ouv\u00edamos em casa, dan\u00e7\u00e1vamos em casa. O samba sempre esteve na minha vida e na da minha fam\u00edlia. Hoje estou com 54 anos e, recentemente, organizando uma oficina de samba, eu mostrei para uma comunidade na Zona Leste de S\u00e3o Paulo o primeiro samba escrito pelo sambista paulista Geraldo Filme. Geraldo tinha dez anos quando comp\u00f4s o samba \u201cEu vou mostrar\u201d. Nascido em 1927, ele morreu em 1995. Em 2024, eu e outros sambistas cantamos o samba dele para um p\u00fablico de mulheres, crian\u00e7as e adolescentes que, imediatamente, se identificaram com os refr\u00f5es simples em que ele dizia: \u201cEu vou mostrar que o povo paulista tamb\u00e9m sabe sambar\u201d.<\/p>\n<p>O legado vem atrav\u00e9s de composi\u00e7\u00f5es que s\u00e3o verdadeiros testamentos do nosso povo. Quem est\u00e1 por tr\u00e1s s\u00e3o m\u00fasicos negros, mulatos, poetas e poetisas do povo mostrando seu ponto de vista de um mundo que viveram e que, infelizmente, ainda guarda muitas mazelas. O legado \u00e9 que essa luta e essa arte precisam se renovar, se transformar. E n\u00e3o apenas para as novas gera\u00e7\u00f5es de sambistas, mas para todo o povo brasileiro. O samba \u00e9 um v\u00ednculo que nos aproxima e fortalece. O samba conta as nossas hist\u00f3rias de beleza e de viol\u00eancia e, do nosso jeito, criou um caldeir\u00e3o cultural de resist\u00eancia, de qualidade art\u00edstica, de humor e de den\u00fancia. O samba \u00e9 uma verdadeira escola, e os sambistas tamb\u00e9m o s\u00e3o.<\/p>\n<h2>Servi\u00e7o<\/h2>\n<p><strong>O qu\u00ea:<\/strong> Roda de samba \u201cO Samba da Minha Terra\u201d \u2014 comemora\u00e7\u00e3o dos 27 anos do Inimigos do Batente<br \/><strong>Quando:<\/strong> neste s\u00e1bado (01\/08) <br \/>Espa\u00e7o Cultural Elza Soares (MST) \u2014 Alameda Eduardo Prado, 460<br \/><strong>Hor\u00e1rio:<\/strong> a partir das 12h<br \/><strong>Entrada:<\/strong> gratuita<\/p>\n<blockquote data-instgrm-captioned data-instgrm-permalink=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/DbG1_LWB-id\/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading\" data-instgrm-version=\"14\">\n<div> <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/DbG1_LWB-id\/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading\" target=\"_blank\"> <\/p>\n<div>\n<div><\/div>\n<div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div><svg width=\"50px\" height=\"50px\" viewbox=\"0 0 60 60\" version=\"1.1\" xmlns=\"https:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" xmlns:xlink=\"https:\/\/www.w3.org\/1999\/xlink\"><g stroke=\"none\" stroke-width=\"1\" fill=\"none\" fill-rule=\"evenodd\"><g transform=\"translate(-511.000000, -20.000000)\" fill=\"#000000\"><g><path d=\"M556.869,30.41 C554.814,30.41 553.148,32.076 553.148,34.131 C553.148,36.186 554.814,37.852 556.869,37.852 C558.924,37.852 560.59,36.186 560.59,34.131 C560.59,32.076 558.924,30.41 556.869,30.41 M541,60.657 C535.114,60.657 530.342,55.887 530.342,50 C530.342,44.114 535.114,39.342 541,39.342 C546.887,39.342 551.658,44.114 551.658,50 C551.658,55.887 546.887,60.657 541,60.657 M541,33.886 C532.1,33.886 524.886,41.1 524.886,50 C524.886,58.899 532.1,66.113 541,66.113 C549.9,66.113 557.115,58.899 557.115,50 C557.115,41.1 549.9,33.886 541,33.886 M565.378,62.101 C565.244,65.022 564.756,66.606 564.346,67.663 C563.803,69.06 563.154,70.057 562.106,71.106 C561.058,72.155 560.06,72.803 558.662,73.347 C557.607,73.757 556.021,74.244 553.102,74.378 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--><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/mst-faz-vigilia-no-incra-em-porto-alegre-e-ocupa-fazendas-em-pedras-altas-no-rs\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">MST faz vig\u00edlia no Incra em Porto Alegre e 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