{"id":97968,"date":"2026-07-30T16:17:55","date_gmt":"2026-07-30T19:17:55","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/sp-o-que-a-polemica-dos-mototaxis-revela\/"},"modified":"2026-07-30T16:17:55","modified_gmt":"2026-07-30T19:17:55","slug":"sp-o-que-a-polemica-dos-mototaxis-revela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/sp-o-que-a-polemica-dos-mototaxis-revela\/","title":{"rendered":"SP: O que a pol\u00eamica dos motot\u00e1xis revela"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"888\" height=\"575\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/photo_5143643136113446716_y.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/photo_5143643136113446716_y.jpg 888w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/photo_5143643136113446716_y-300x194.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/photo_5143643136113446716_y-768x497.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 888px) 100vw, 888px\"><figcaption>Foto: Bruno Campos\/JC Imagem<\/figcaption><\/figure>\n<h3><strong>O lucro privado deixa a trag\u00e9dia para o indiv\u00edduo<\/strong><\/h3>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>A semana de 24 de julho de 2026 desencadeou um novo epis\u00f3dio na disputa pela regulamenta\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o de motot\u00e1xi em S\u00e3o Paulo. Ap\u00f3s uma decis\u00e3o de primeira inst\u00e2ncia obrigar a Prefeitura a credenciar a Uber em 48 horas, sob pena de multa di\u00e1ria, o Tribunal de Justi\u00e7a de S\u00e3o Paulo suspendeu a determina\u00e7\u00e3o. Na pr\u00e1tica, o servi\u00e7o volta a ser oficialmente proibido na capital, sujeito a fiscaliza\u00e7\u00e3o e san\u00e7\u00f5es para prestadores e passageiros.<\/p>\n<p>Este novo cap\u00edtulo n\u00e3o encerra o debate, apenas confirma o padr\u00e3o dos \u00faltimos tr\u00eas anos: quem pagar\u00e1 a conta com o pr\u00f3prio corpo s\u00e3o os trabalhadores e os sistemas p\u00fablicos coletivos (SUS\/Tr\u00e2nsito).<\/p>\n<h3><strong>Uma disputa que j\u00e1 dura tr\u00eas anos\u2026<\/strong><\/h3>\n<p>O embate entre a Prefeitura de S\u00e3o Paulo e as empresas de aplicativo come\u00e7ou em 2023 e j\u00e1 passou por diversas fases. Depois de o STF decidir que munic\u00edpios n\u00e3o podem simplesmente proibir o motot\u00e1xi, a C\u00e2mara Municipal aprovou e o prefeito sancionou, em dezembro de 2025, uma lei que imp\u00f4s uma s\u00e9rie de condi\u00e7\u00f5es r\u00edgidas para a opera\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o. Entre elas, curso obrigat\u00f3rio para os condutores, uso de placa vermelha (categoria aluguel) e colete refletivo para passageiro e motociclista, proibi\u00e7\u00e3o de circula\u00e7\u00e3o no centro expandido e nas marginais (Tiet\u00ea e Pinheiros), veto ao transporte de menores de 18 anos e restri\u00e7\u00e3o em dias de tempestades intensas, com todos os custos dessas exig\u00eancias transferidos \u00e0s empresas.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/14--44.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/14--44.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/14-1-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>As pr\u00f3prias companhias reagiram a essa regulamenta\u00e7\u00e3o classificando-a como uma \u201cproibi\u00e7\u00e3o disfar\u00e7ada\u201d e levaram o caso ao STF por meio de uma Argui\u00e7\u00e3o de Descumprimento de Preceito Fundamental. Em janeiro de 2026, o ministro Alexandre de Moraes suspendeu parte das regras, inclusive a exig\u00eancia de placa vermelha e o dispositivo que impedia a licen\u00e7a autom\u00e1tica em caso de demora na an\u00e1lise dos pedidos. Em junho, suspendeu tamb\u00e9m a exig\u00eancia de seguro refor\u00e7ado. Em julho, a Justi\u00e7a paulista foi al\u00e9m: determinou que a pr\u00f3pria recusa de credenciamento da Uber \u00e9 ilegal, por repetir um v\u00edcio j\u00e1 julgado anteriormente. Dias depois, o desembargador suspendeu a decis\u00e3o. O que, no final, tornou o servi\u00e7o novamente proibido.<\/p>\n<p>O que os sucessivos despachos judiciais tendem a obscurecer, por\u00e9m, \u00e9 a pergunta de fundo: cabe a uma cidade, centralidade de uma metr\u00f3pole de mais de 12 milh\u00f5es de habitantes, com um dos tr\u00e2nsitos mais letais do pa\u00eds, aceitar passivamente a expans\u00e3o de um modal que concentra o maior n\u00famero de mortes nas ruas, antes de estabelecer medidas para os problemas estruturais do transporte coletivo que alimentam a demanda por esse servi\u00e7o?<\/p>\n<p>\u00c9 digno de nota que a pr\u00f3pria cidade tentou, na regulamenta\u00e7\u00e3o de dezembro de 2025, restringir a circula\u00e7\u00e3o das motos em \u00e1reas de maior movimento (centro expandido e marginais) e proteger menores de idade. Tais restri\u00e7\u00f5es, ainda que parcialmente derrubadas pelo STF, sinalizam que mesmo o poder p\u00fablico que aprovou a lei reconhecia o risco elevado da atividade em determinadas condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<h3><strong>Um modelo que joga o custo do risco sobre quem n\u00e3o pode recus\u00e1-lo<\/strong><\/h3>\n<p>Os n\u00fameros n\u00e3o deixam margem para d\u00favida sobre o perigo envolvido. A pr\u00f3pria gest\u00e3o municipal, ao se defender na a\u00e7\u00e3o judicial, citou 283 mortes em sinistros de moto s\u00f3 no primeiro semestre de 2025. Em 2024, a cidade j\u00e1 havia ultrapassado a marca de mil mortes no tr\u00e2nsito pela primeira vez desde 2015, com motociclistas representando 37% das v\u00edtimas.<\/p>\n<p>A dimens\u00e3o desse risco ficou ainda mais evidente quando uma reportagem baseada em dados obtidos via Lei de Acesso \u00e0 Informa\u00e7\u00e3o revelou o que a Prefeitura preferiu n\u00e3o destacar sobre o programa Faixa Azul, corredores exclusivos para motos implantados na cidade desde 2022. O relat\u00f3rio final da pr\u00f3pria CET mostra aumento em praticamente todos os indicadores nas vias com a faixa: mortes (+19,2%), sinistros fatais com motos (+17,5%) e atropelamentos fatais (+150%), todos crescendo mais r\u00e1pido que o pr\u00f3prio fluxo de motos (+10,5%). Ainda assim, a Prefeitura anunciou o programa como \u201ctecnologia de preserva\u00e7\u00e3o da vida\u201d, uma conclus\u00e3o sustentada por uma taxa de severidade calculada com peso igual entre ruas de dois quarteir\u00f5es e grandes avenidas, e por sinistros \u201csem informa\u00e7\u00e3o\u201d reclassificados automaticamente como ocorridos \u201cfora\u201d da faixa exclusiva. Se mesmo a pol\u00edtica de seguran\u00e7a vi\u00e1ria mais divulgada pela gest\u00e3o municipal piorou os n\u00fameros nas vias onde foi implantada, e isso s\u00f3 veio \u00e0 tona por pedido de acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o, \u00e9 dif\u00edcil sustentar que a inser\u00e7\u00e3o apressada de milhares de novos motociclistas por aplicativo, sem planejamento equivalente, teria resultado diferente.<\/p>\n<p>Colocar motociclistas profissionais nas ruas em volume crescente n\u00e3o \u00e9 um fato da natureza. S\u00e3o eles que, com seus corpos e ve\u00edculos pr\u00f3prios, produzem o servi\u00e7o que gera bilh\u00f5es para as plataformas. Em contrapartida, recebem por corrida o suficiente apenas para justificar jornadas exaustivas, um mecanismo que transfere para o trabalhador o custo do desgaste f\u00edsico e da morte prematura.<\/p>\n<p>Um dos pontos centrais das peti\u00e7\u00f5es produzidas por entidades da sociedade civil, como o n\u00facleo BrCidades-SP, \u00e9 a discrep\u00e2ncia entre o risco real da atividade e o custo que as empresas est\u00e3o dispostas a assumir por ele. A pr\u00f3pria decis\u00e3o judicial reconhece que o seguro exigido pelas empresas segue apenas o piso da legisla\u00e7\u00e3o federal, sem as coberturas adicionais que a Prefeitura tentou impor para responsabilidade civil e indeniza\u00e7\u00f5es por invalidez ou morte.<\/p>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<p>Na pr\u00e1tica, isso significa que o custo dos sinistros recai sobre tr\u00eas atores que n\u00e3o s\u00e3o as plataformas: o pr\u00f3prio trabalhador, que arca com sequelas e perda de renda; as fam\u00edlias das v\u00edtimas, muitas vezes sem indeniza\u00e7\u00e3o compat\u00edvel com o dano sofrido; e o sistema p\u00fablico de sa\u00fade que, segundo estimativas da pr\u00f3pria Prefeitura, j\u00e1 gasta cerca de R$ 35 milh\u00f5es por ano s\u00f3 no tratamento de traumas decorrentes de sinistros de moto. O SUS e o trabalhador operam, assim, como um subs\u00eddio invis\u00edvel e n\u00e3o contabilizado para o balan\u00e7o das plataformas. Enquanto as empresas interessadas no servi\u00e7o (atualmente a Uber) n\u00e3o arcam com o custo real do trauma que seu modelo gera, a sociedade paga duplamente: primeiro com os R$ 35 milh\u00f5es anuais do sistema p\u00fablico; depois, com as vidas interrompidas. \u00c9 um modelo onde o lucro \u00e9 privado e o risco, socializado.<\/p>\n<h3><strong>O v\u00e1cuo que a cidade n\u00e3o resolveu, e que os n\u00fameros confirmam<\/strong><\/h3>\n<p>Uma pesquisa encomendada pela 99, na \u00e9poca ainda interessada em operar o servi\u00e7o de motot\u00e1xi, e realizada pelo Instituto Locomotiva em 2025, mostrou que 72% dos paulistanos se declaravam favor\u00e1veis \u00e0 regulamenta\u00e7\u00e3o. O dado refor\u00e7a algo que at\u00e9 os cr\u00edticos do servi\u00e7o reconhecem: a demanda pelo motot\u00e1xi por aplicativo n\u00e3o nasce de uma prefer\u00eancia, mas de uma necessidade produzida. Pela primeira vez, h\u00e1 tamb\u00e9m dados que documentam essa migra\u00e7\u00e3o com precis\u00e3o. A pesquisa Origem e Destino (OD) do Metr\u00f4 de S\u00e3o Paulo, realizada desde 1967 e em sua edi\u00e7\u00e3o mais recente de 2023, registrou a primeira queda no n\u00famero de viagens di\u00e1rias da metr\u00f3pole desde que a s\u00e9rie hist\u00f3rica come\u00e7ou. Em 2017, a regi\u00e3o metropolitana registrava cerca de 42 milh\u00f5es de viagens por dia; em 2023, foram 35,66 milh\u00f5es, uma retra\u00e7\u00e3o de 15,1%, o equivalente a 6,3 milh\u00f5es de viagens a menos.<\/p>\n<p>O detalhe mais revelador est\u00e1 na composi\u00e7\u00e3o dessa queda: o transporte coletivo sozinho perdeu 3 milh\u00f5es de viagens di\u00e1rias (dessas, 2,6 milh\u00f5es s\u00f3 de \u00f4nibus), enquanto o transporte individual praticamente n\u00e3o recuou (queda de apenas 116 mil viagens). E, dentro do individual, o pr\u00f3prio autom\u00f3vel perdeu quase 886 mil viagens, mesmo com a frota crescendo 22% no per\u00edodo. O que explica esse paradoxo (carros mais numerosos, mas usados em menos viagens) \u00e9 justamente o deslocamento da demanda para dois modos espec\u00edficos: t\u00e1xi e transporte por aplicativo, que cresceram 137%, e a motocicleta, que cresceu 16%. Ou seja: a cidade n\u00e3o est\u00e1 apenas trocando \u00f4nibus por carro. Est\u00e1 trocando \u00f4nibus por moto e por corrida de aplicativo, exatamente o par de modais que concentra o maior risco de morte no tr\u00e2nsito.<\/p>\n<p>N\u00e3o por acaso, \u00e9 nas periferias, onde o transporte p\u00fablico chega com menos frequ\u00eancia e integra pior e demanda mais tempo de espera, que a depend\u00eancia desses modos individuais mais cresce. Para trabalhadores de baixa renda, que moram longe do centro e dependem de integra\u00e7\u00f5es tarif\u00e1rias, o custo do deslocamento di\u00e1rio pode consumir at\u00e9 6% do sal\u00e1rio de quem tem carteira assinada. Esse peso, somado \u00e0 precariedade do servi\u00e7o coletivo, empurra parte da popula\u00e7\u00e3o para alternativas informais e mais arriscadas, como o pr\u00f3prio motot\u00e1xi. N\u00e3o \u00e9 uma escolha: \u00e9 uma imposi\u00e7\u00e3o estrutural.<\/p>\n<p>A aus\u00eancia de corredores exclusivos suficientes para tornar o \u00f4nibus competitivo em velocidade, a descontinuidade das ciclovias e o recente reajuste de 13,6% nas tarifas, que torna S\u00e3o Paulo uma das capitais mais caras do pa\u00eds para se locomover, n\u00e3o s\u00e3o meras falhas de gest\u00e3o. S\u00e3o a face vis\u00edvel de um projeto que submete o transporte coletivo \u00e0 l\u00f3gica do d\u00e9ficit zero, enquanto abre as portas da cidade para que o capital privado ocupe, com lucro garantido, um vazio que a pr\u00f3pria gest\u00e3o p\u00fablica ajudou a criar ao subfinanciar o transporte coletivo por d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o ponto em que a discuss\u00e3o sobre motot\u00e1xi se conecta a um debate mais antigo e estrutural sobre planejamento urbano, defendido por entidades como a rede BrCidades: o de que a mobilidade deveria ser tratada como direito constitucional (amparado pela Emenda Constitucional 90\/2015, que incluiu o transporte no artigo 6\u00ba da Carta), e n\u00e3o como um servi\u00e7o regido pela l\u00f3gica de mercado. Nessa perspectiva, o financiamento do sistema n\u00e3o deveria recair quase inteiramente sobre a tarifa paga pelo usu\u00e1rio, mas contar com fontes diversificadas, inclusive a taxa\u00e7\u00e3o do uso do espa\u00e7o p\u00fablico vi\u00e1rio por servi\u00e7os privados de interesse comercial, como os pr\u00f3prios aplicativos. Taxar o uso do espa\u00e7o p\u00fablico pelo capital privado \u00e9 uma forma de devolver \u00e0 cidade o que hoje \u00e9 apropriado de gra\u00e7a.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m um argumento ambiental que os pr\u00f3prios dados da OD ajudam a sustentar: segundo o Ipea, o transporte motorizado individual emite cerca de 15 vezes mais poluentes locais e o dobro de CO\u2082 por deslocamento em compara\u00e7\u00e3o ao transporte coletivo. A pesquisa mostra que os modos n\u00e3o motorizados (caminhada e bicicleta) tamb\u00e9m recuaram (queda de 23,3%, puxada sobretudo pela retra\u00e7\u00e3o de 24,7% nas viagens a p\u00e9), enquanto a bicicleta cresceu 25%, mas segue representando apenas 1,3% do total de viagens da cidade. Ou seja: a cidade n\u00e3o est\u00e1 migrando para modos mais leves e sustent\u00e1veis, mas para modos mais motorizados, individuais e perigosos, na contram\u00e3o do que recomendam especialistas em mobilidade urbana.<\/p>\n<p>Cidades que investem em transporte coletivo de qualidade (com boa frequ\u00eancia, prioridade vi\u00e1ria e tarifas zero ou acess\u00edveis) reduzem a press\u00e3o por solu\u00e7\u00f5es individuais motorizadas, sejam elas carros, motos ou aplicativos. Sem esse investimento, o v\u00e1cuo deixado pelo poder p\u00fablico tende a ser ocupado por servi\u00e7os privados que otimizam para lucro e velocidade, n\u00e3o para seguran\u00e7a coletiva ou para um modelo de cidade mais equilibrado, e os n\u00fameros da OD 2023 s\u00e3o o primeiro retrato estat\u00edstico desse deslocamento em curso.<\/p>\n<h3><strong>Por que a cautela se justifica, e o que ela realmente prop\u00f5e<\/strong><\/h3>\n<p>A soma desses fatores (letalidade documentada, transfer\u00eancia do custo do risco para v\u00edtimas e sistema p\u00fablico, maior impacto ambiental por viagem, e uma queda mensur\u00e1vel no transporte coletivo justamente nos modos que ele deveria fortalecer) \u00e9 o que sustenta a posi\u00e7\u00e3o de quem defende que a regulamenta\u00e7\u00e3o desse servi\u00e7o n\u00e3o deveria ter sido tratada como mera formalidade administrativa a ser resolvida em 48 horas. Trata-se de uma pol\u00edtica de mobilidade com efeitos diretos sobre vidas, e decis\u00f5es dessa natureza exigem debate p\u00fablico amplo, avalia\u00e7\u00e3o de impacto e desenho institucional cuidadoso, e n\u00e3o apenas o cumprimento de uma ordem judicial sob pena de multa di\u00e1ria.<\/p>\n<p>A defesa dessa cautela n\u00e3o se resume, por\u00e9m, a barrar o motot\u00e1xi. Precisamos de um horizonte mais amplo para a mobilidade paulistana, que inclui buscar fontes de financiamento alternativas \u00e0 tarifa (como a taxa\u00e7\u00e3o do uso do espa\u00e7o p\u00fablico por servi\u00e7os privados), caminhar para a gratuidade do transporte coletivo, fortalecer a participa\u00e7\u00e3o social na gest\u00e3o do sistema e tratar as mortes no tr\u00e2nsito explicitamente como um problema de sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n<p>Sob essa \u00f3tica, opor-se \u00e0 expans\u00e3o apressada do motot\u00e1xi \u00e9 menos uma defesa do status quo do que parte de uma agenda que prop\u00f5e outro modelo de cidade: uma organizada em torno da velocidade privada de poucos, ou uma que garante o direito de ir e vir a todos, do centro \u00e0 periferia.<\/p>\n<h3><strong>O outro lado do argumento<\/strong><\/h3>\n<p>\u00c9 importante registrar que essa n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica leitura poss\u00edvel do caso, e que ela tem contesta\u00e7\u00f5es relevantes. Para o STF, a quest\u00e3o foi sobretudo federativa: munic\u00edpios n\u00e3o podem, segundo a jurisprud\u00eancia do tribunal, usar exig\u00eancias regulat\u00f3rias desproporcionais para impedir, na pr\u00e1tica, uma atividade que a legisla\u00e7\u00e3o federal j\u00e1 autoriza, o que caracterizaria uma \u201cproibi\u00e7\u00e3o disfar\u00e7ada de regulamenta\u00e7\u00e3o\u201d. Nessa vis\u00e3o, cabe \u00e0 Uni\u00e3o fixar os par\u00e2metros de seguran\u00e7a e seguro, e ao munic\u00edpio regular apenas aspectos operacionais m\u00ednimos.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m pesa, do lado favor\u00e1vel ao servi\u00e7o, o argumento econ\u00f4mico: para uma parcela de motociclistas, a atividade representa uma fonte de renda que, ainda que prec\u00e1ria, se apresenta como alternativa em um mercado de trabalho formal que j\u00e1 n\u00e3o absorve toda a for\u00e7a de trabalho dispon\u00edvel. O discurso da \u201cflexibilidade\u201d, t\u00e3o caro \u00e0s plataformas, esconde, na pr\u00e1tica, a aus\u00eancia de v\u00ednculo empregat\u00edcio, de prote\u00e7\u00e3o previdenci\u00e1ria e de qualquer estabilidade. Ser \u201cflex\u00edvel\u201d, no jarg\u00e3o dos aplicativos, significa poder ser descartado pelo algoritmo sem aviso pr\u00e9vio e arcar sozinho com a conta de um acidente. Ainda assim, seus defensores argumentam que a proibi\u00e7\u00e3o pura e simples n\u00e3o elimina a demanda, apenas a empurra para opera\u00e7\u00f5es informais, sem qualquer seguro ou fiscaliza\u00e7\u00e3o, potencialmente mais perigosas do que o servi\u00e7o regulado que as empresas prop\u00f5em. Sob essa \u00f3tica, o caminho mais seguro seria regular com rigor t\u00e9cnico, e n\u00e3o impedir.<\/p>\n<h3><strong>O que est\u00e1 realmente em disputa<\/strong><\/h3>\n<p>No fundo, a decis\u00e3o sobre a garupa em S\u00e3o Paulo \u00e9 sintoma de uma quest\u00e3o muito maior. O impasse n\u00e3o se resume a uma multa di\u00e1ria ou a uma sucess\u00e3o de decis\u00f5es judiciais: trata-se de definir que modelo de cidade est\u00e1 sendo constru\u00eddo, e em benef\u00edcio de quem. Afinal, se a demanda \u00e9 uma necessidade produzida pela falta de alternativas, ela n\u00e3o se esgota com a proibi\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o.<\/p>\n<p>Enquanto a mobilidade for tratada como mercadoria e n\u00e3o como direito, o risco ser\u00e1 sempre jogado sobre quem tem menos poder para recus\u00e1-lo: o trabalhador que precisa chegar ao emprego, o motociclista que precisa pagar as contas, o passageiro que n\u00e3o tem alternativa. A cidade que n\u00e3o investe no coletivo termina condenada a administrar, \u00e0s pressas e sob press\u00e3o, a trag\u00e9dia do individual.<\/p>\n<p>A pergunta que fica, portanto, n\u00e3o \u00e9 apenas se o motot\u00e1xi pode ou n\u00e3o rodar. \u00c9: quem decide para onde a cidade anda, e quem paga o pre\u00e7o dessa escolha?<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. Se voc\u00ea valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o, seja nosso apoiador e fortale\u00e7a o jornalismo cr\u00edtico: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post SP: O que a pol\u00eamica dos motot\u00e1xis revela appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/lula-diz-que-governo-deve-agir-para-por-comida-barata-na-mesa-do-trabalhador\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/ok_reuniao-ministerial_Foto-Ricardo-Stuckert-_-PR-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Lula diz que governo deve agir para p\u00f4r comida bar...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/sul21.com.br\/noticias\/meio-ambiente\/2026\/08\/investigacoes-em-arroio-dos-ratos-apuram-ligacao-entre-atividade-da-copelmi-e-enchentes\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/WhatsApp-Image-2026-08-18-at-17.48.26-1024x461.jpeg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Investiga\u00e7\u00f5es em Arroio dos Ratos apuram liga\u00e7\u00e3o e...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/complexo-do-alemao-e-o-primeiro-conjunto-de-favelas-do-rio-a-consolidar-um-observatorio-do-calor\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Complexo do Alem\u00e3o \u00e9 o primeiro conjunto de favela...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/governo-lula-envia-carta-aos-eua-e-manifesta-indignacao-com-tarifaco-entenda\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/lula-brasil-e-dos-brasileiros-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Governo Lula envia carta aos EUA e manifesta \u2018indi...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Justi\u00e7a volta a proibir servi\u00e7o da Uber. H\u00e1 enorme risco de mais acidentes e sobrecarga no SUS. Mas \u00e9 preciso compreender a raiz do problema: o transporte p\u00fablico car\u00edssimo e prec\u00e1rio, que leva popula\u00e7\u00e3o a trocar o \u00f4nibus por carros e motos de app<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/outras-cidades\/sp-o-que-a-polemica-dos-mototaxis-revela\/\">SP: O que a pol\u00eamica dos motot\u00e1xis revela<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":97969,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[3391,53334,40865,78069,662,53338,78070,3393,30105,3409,27685,78071,78072,492,144,304,4358,29,59209,260,3395],"tags":[],"class_list":["post-97968","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-3391","category-acidentes-de-transito","category-corrida-de-aplicativo","category-custo-dos-sinistros","category-mobilidade-urbana","category-motociclistas","category-motociclistas-por-aplicativo","category-mototaxi","category-outras-cidades","category-plataformas","category-poder-publico","category-politica-de-mobilidade","category-politicas-de-seguranca","category-prefeitura-de-sao-paulo","category-regiao-metropolitana","category-regulamentacao","category-restricoes","category-sao-paulo","category-sinistros","category-stf","category-uber"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97968","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=97968"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97968\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/97969"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=97968"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=97968"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=97968"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}