{"id":98284,"date":"2026-08-02T16:09:44","date_gmt":"2026-08-02T19:09:44","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/ceuta-e-melilla-a-migracao-como-arma-geopolitica\/"},"modified":"2026-08-02T16:09:44","modified_gmt":"2026-08-02T19:09:44","slug":"ceuta-e-melilla-a-migracao-como-arma-geopolitica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/ceuta-e-melilla-a-migracao-como-arma-geopolitica\/","title":{"rendered":"Ceuta e Melilla: a migra\u00e7\u00e3o como arma geopol\u00edtica"},"content":{"rendered":"<p><span>A entrada de dezenas de milhares de marroquinos em Ceuta e Melilla foi apresentada como mais uma crise migrat\u00f3ria. Essa explica\u00e7\u00e3o, embora contenha parte da realidade, \u00e9 insuficiente.<\/span><\/p>\n<p><span>O epis\u00f3dio parece resultar da converg\u00eancia entre uma crise social aguda no Marrocos, a utiliza\u00e7\u00e3o da migra\u00e7\u00e3o como instrumento de press\u00e3o diplom\u00e1tica e um contexto geopol\u00edtico marcado pelas tens\u00f5es entre Espanha, Marrocos, Estados Unidos e Israel.<\/span><\/p>\n<figure aria-describedby=\"caption-attachment-261976\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ceuta.webp\" alt='\"Marcha pela dignidade\" em Ceuta, na Espanha, em fevereiro de 2020. &lt;br&gt; (Foto: Joanna Chichelnitzsky \/ Fotomovimiento)' width=\"1024\" height=\"684\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ceuta.webp 1024w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ceuta-300x200.webp 300w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ceuta-768x513.webp 768w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ceuta-750x501.webp 750w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption>\u201cMarcha pela dignidade\u201d em Ceuta, na Espanha, em fevereiro de 2020. <br \/>(Foto: Joanna Chichelnitzsky \/ Fotomovimiento)<\/figcaption><\/figure>\n<p><span>O primeiro fator \u00e9 interno. O \u00eaxodo de milhares de jovens marroquinos evidencia o desemprego, a desigualdade e a falta de perspectivas econ\u00f4micas, contrastando com a narrativa oficial de prosperidade promovida pelo governo do rei <\/span><i><span>playboy<\/span><\/i><span> Mohamed VI. A press\u00e3o migrat\u00f3ria possui, portanto, causas sociais concretas.<\/span><\/p>\n<p><span>Entretanto, tamb\u00e9m \u00e9 um fato que Marrocos j\u00e1 utilizou o controle migrat\u00f3rio como mecanismo de press\u00e3o sobre a Espanha.<\/span><\/p>\n<p><span>A crise de Ceuta, em 2021, demonstrou que o relaxamento dos controles fronteiri\u00e7os pode transformar rapidamente um problema social em uma crise diplom\u00e1tica.<\/span><\/p>\n<p><span>Os acontecimentos atuais apresentam caracter\u00edsticas semelhantes, sugerindo que Marrocos administrou, ao menos parcialmente, o n\u00edvel de controle sobre sua fronteira.<\/span><\/p>\n<p><span>Embora n\u00e3o existam provas p\u00fablicas de que tenha organizado diretamente o deslocamento das multid\u00f5es, existem precedentes suficientes para considerar plaus\u00edvel o uso da migra\u00e7\u00e3o como instrumento de press\u00e3o pol\u00edtica.<\/span><\/p>\n<p><span>A rea\u00e7\u00e3o espanhola refor\u00e7a essa percep\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span>Durante visita a Ceuta, o primeiro-ministro Pedro S\u00e1nchez classificou os acontecimentos como um \u201cataque\u201d e uma \u201cviola\u00e7\u00e3o da integridade territorial da Espanha\u201d, deixando de trat\u00e1-los apenas como uma emerg\u00eancia migrat\u00f3ria e elevando a crise ao plano da soberania nacional.<\/span><\/p>\n<p><span>A Arg\u00e9lia e a Rep\u00fablica \u00c1rabe Saaraui Democr\u00e1tica (RASD) interpretam os acontecimentos como mais um exemplo da estrat\u00e9gia marroquina de utilizar diferentes instrumentos de press\u00e3o regional.<\/span><\/p>\n<p><span>Para a leitura saaraui, a crise guarda paralelos com a l\u00f3gica da Marcha Verde de 1975, quando grandes deslocamentos populacionais foram empregados para consolidar a ocupa\u00e7\u00e3o colonial do Saara Ocidental.<\/span><\/p>\n<p><span>O contexto internacional amplia ainda mais a import\u00e2ncia do epis\u00f3dio.<\/span><\/p>\n<p><span>Desde os Acordos de Abra\u00e3o, Marrocos fortaleceu sua parceria estrat\u00e9gica com Estados Unidos e Israel, consolidada pelo reconhecimento norte-americano da soberania marroquina sobre o Saara Ocidental e pela amplia\u00e7\u00e3o da coopera\u00e7\u00e3o militar e de intelig\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p><span>Ao mesmo tempo, a Espanha assumiu posi\u00e7\u00f5es cada vez mais cr\u00edticas \u00e0s a\u00e7\u00f5es israelenses em Gaza. Benjamin Netanyahu afirmou que Madri \u201cpagaria um pre\u00e7o\u201d por sua postura diplom\u00e1tica, enquanto Donald Trump declarou que \u201celes n\u00e3o est\u00e3o se portando bem, mas logo aprender\u00e3o\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span>Essas declara\u00e7\u00f5es n\u00e3o demonstram coordena\u00e7\u00e3o entre os acontecimentos, mas revelam um ambiente de crescente press\u00e3o pol\u00edtica sobre o governo espanhol.<\/span><\/p>\n<p><span>Outro elemento relevante \u00e9 o aumento da import\u00e2ncia estrat\u00e9gica do Estreito de Gibraltar ap\u00f3s a crise da navega\u00e7\u00e3o no Mar Vermelho. Nesse cen\u00e1rio, qualquer instabilidade em Ceuta e Melilla ultrapassa a dimens\u00e3o migrat\u00f3ria e passa a afetar um dos principais corredores mar\u00edtimos entre o Mediterr\u00e2neo e o Atl\u00e2ntico.<\/span><\/p>\n<p><span>A maior contradi\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, surgiu nas Na\u00e7\u00f5es Unidas.<\/span><\/p>\n<p><span>O representante permanente de Israel, Danny Danon, classificou Ceuta como um territ\u00f3rio \u201ccolonial\u201d e defendeu sua descoloniza\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span>Se esse princ\u00edpio deve ser aplicado \u00e0 Espanha, a mesma l\u00f3gica inevitavelmente conduz \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o israelense dos territ\u00f3rios palestinos e \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o marroquina do Saara Ocidental, ambos reconhecidos internacionalmente como quest\u00f5es pendentes de solu\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>A coer\u00eancia desse argumento exigiria que Israel defendesse igualmente o fim da ocupa\u00e7\u00e3o da Palestina e que Marrocos aceitasse cumprir as resolu\u00e7\u00f5es da ONU sobre o Saara Ocidental.<\/span><\/p>\n<p><span>Ceuta e Melilla deixaram de ser apenas uma quest\u00e3o migrat\u00f3ria. Tornaram-se um ponto de encontro entre crise social, disputas territoriais e rivalidades geopol\u00edticas.<\/span><\/p>\n<p><span>Ainda n\u00e3o existem provas p\u00fablicas de uma coordena\u00e7\u00e3o operacional entre Marrocos, Estados Unidos e Israel para desencadear os acontecimentos. Existe, por\u00e9m, uma converg\u00eancia objetiva de interesses que torna essa crise muito mais ampla do que um simples fluxo migrat\u00f3rio.<\/span><\/p>\n<p><b><i>(*) Sayid Marcos Ten\u00f3rio<\/i><\/b><i><span> \u00e9 historiador, especialista em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais e analista de geopol\u00edtica. \u00c9 autor dos livros \u2018Palestina, do mito da terra prometida \u00e0 terra da resist\u00eancia\u2019 e \u2018RASD 50 Anos \u2013 A longa marcha pela independ\u00eancia da \u00faltima col\u00f4nia da \u00c1frica\u2019.<\/span><\/i><\/p>\n<p>O post Ceuta e Melilla: a migra\u00e7\u00e3o como arma geopol\u00edtica apareceu primeiro em Opera Mundi.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/cooperativa-de-trabalhadores-rurais-convoca-assembleia-para-11-de-maio-em-buritis-mg\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/WhatsApp-Image-2025-04-10-at-212951-150x150.jpeg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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Essa explica\u00e7\u00e3o, embora contenha parte da realidade, \u00e9 insuficiente. 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